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A Doutrina Católico-Romana do Matrimônio

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Academic year: 2021

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I. À Doutrina Católico-Romana do Matrimônio

Conforme a d o utrina da Igreja Católica R om ana o m atrim ônio é a união legítim a de um homem e um a m ulher p a ra um a comu­ n h ão vivencial indissolúvel e to tal (1). Deus mesmo o in stitu iu

(Gên. 1, 27) (2). O Criador g aran te ao homem o direito n a tu ra l de co n trair m atrim ônio (3). Pelo Direito N atu ral ele protege da arbitrariedade dos homens essa form a básica de coexistência hum ana. No m atrim ônio m anifesta-se de m aneira exemplar a destinação ontológica do homem à coexistência. Somente no m atrim ônio homem e m ulher realizam ju n to s a totalidade do que é hum ano (4).

O m atrim ônio é um contrato (5). Esse efetua-se pelo con­ sentim ento pessoal e irrevogável dos noivos (6), isto é, pela decla­ ração pública do consenso m atrim onial por p a rte dos noivos (7). As características essenciais do m atrim ônio são sua unidade (monogamia) e sua indissolubilidade (8). Até h á pouco tempo distinguiu-se rigorosam ente entre as finalidades principal e secun­ d ária do m atrim ônio. Como finalidade principal foram consideradas a procriação e a educação da prole (caráter social do m atrim ônio), como finalidade secundária o auxílio m ú tuo dos cônjuges e a satisfação legítim a ao mais forte dos instintos, ou seja, o instinto sexual (caráter individual do m atrim ônio) (9). P a ra fundam entar essa concepção aponta-se p ara Gên. 1, 28 por um lado, p a ra Gên. 2, 18 e I Cor. 7, 2 por outro lado.

No passado a Igreja Católica R om ana estava interessada p rin ­ cipalm ente nos aspectos jurídicos do m atrim ônio. O Código de Direito Canônico tr a ta do m atrim ônio, bem como dos outros sa­ cram entos, sob o títu lo “Sobre as Coisas” (10). Até m anuais dogmáticos m ais antigos não evitaram a impressão como se os homens existissem p ara a igreja em vez de a igreja existir p ara os homens. Havia um a m entalidade, p ara a qual o m atrim ônio não era n ad a m ais do que “um a espécie de im pudicícia legalizada” (11).

Com toda a razão p Concílio Vaticano II acentuou, em contraposição à época anterior, os aspectos pessoais e pastorais do m atrim ônio. Substituiu o term o “contrato m atrim onial” pelo term o “aliança conjugal”. Afirma que a n atu reza do m atrim ônio

(1) S c h m a u s 683

(2) V a tic a n o II, G a u d iu m e t S pes 48; O t t 549 (3) M a trim o n ia M ix ta, I n tro d u ç ã o

(4) S c h m a u s 676 (5) B e tz b a c h 201 (6) V a tic a n o II, G a u d iu m e t S p es 48 (7) C o n c ílio d e F lo re n ç a , D e c re tu m p ro A rm e n is (D e n z in g e r 702) (8) S c h m a u s 721 — 730; O tt 5 52,— 556; B e tz b a c h 202 (9) B e tz b a c h 202; O t t 552 (10) Codex I u r i s C a n o n ic i (CIC) c a n . 1012 — 1143 (11) R a h n e r-V o rg rim le r 435

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consiste n a com unhão íntim a e pessoal de vida e de am or entre os cônjuges (12). M antém a afirm ação de que o m atrim ônio está ordenado “p a ra a procriação e educação da prole” (13). Mas vê estreitam ente ligadas a essa “coroa” do m atrim ônio suas outras finalidades, em especial “o m útuo am or dos esposos” (14). Não se fala m ais de finalidades “secundárias”. Reconhece-se com m aior n atu ralid ad e que a sexualidade é um atrib u to do homem como c ria tu ra de Deus. Resumindo podemos dizer que desde o Concílio Vaticano II a compreensão do m atrim ônio tornou-se mais pessoal e m ais h u m a n a n a Igreja Católica Romana.

A d o u trin a acim a exposta refere-se a todos os matrimônios. Acrescenta-se ain d a algo mais referente ao m atrim ônio de cristãos. Cristo não apenas aprovou o m atrim ônio como um a instituição de ordem n a tu ra l (Mt. 19, 6) (15). Ao mesmo tem po tam bém elevou à dignidade de sacram ento o m atrim ônio de batizados (cristãos) (16). Cada m atrim ônio de cristãos, mesmo que eles não sejam membros d a Igreja Católica Romana, é sacram ento (17). Contudo, a Igreja Católica Rom ana não está em condições de fundam entar essa afirm ação diretam ente n a Sagrada E scritura. Ela apenas deduz a sacram entalidade do m atrim ônio de Gên. 1, 27 e 2, 16 — 24, baseando-se n a interpretação desses trechos à luz de Ef. 5, 21 — 33 por p a rte dos teólogos da Igreja an tig a e d a Idade Média (18). Também o Novo Testam ento contém apenas um a alusão à sacra­ m entalidade do m atrim ônio (19). Nem o versículo “clássico” Ef. 5, 32 é lim a “prova plenam ente válida” da sacram entalidade do m atrim ônio (20), porque nesse versículo a palavra “sacram entum ” do texto latin o não significa “sacram ento” e sim, apenas “m istério”. Assim sendo, a sacram entalidade do m atrim ônio som ente pode ser deduzida daquilo que o Novo Testam ento diz a respeito do m a tri­ mônio, sobretudo d a afirm ação de que o m atrim ônio representa

(abbilden) a união entre Cristo e a Igreja, afirm ação essa feita em Ef. 5, 32 conforme a exegese católico-rom ana (21). A doutrina, pois, de que ó. m atrim ônio é um sacram ento não tem o seu fu n d a­ m ento n a Sagrada E scritu ra e sim, n a teologia d a Idade Média. No m atrim ônio de batizados coincidem a aliança conjugal (o contrato m atrim onial) e o sacram ento (22). O sinal externo e efetivo do sacram ento consiste no consentim ento pessoal dos nubentes, ou seja, no próprio contrato m atrim onial (23). Alguns teólogos afirm am que tam bém a participação do sacerdote que pede e aceita o consentim ento pertenceria ao sinal externo (24).

(12) G a u d lu m e t S p es 12 e 48 (13) G a u d lu m e t S p es 48 e 50 (14) G a u d lu m e t S p es 50 (15) C o n c ilio d e T re n to , S essão X X IV (D e n z ln g e r 969) (16) C o n c ilio d e F lo re n ç a , D e c re tu m p ro A rm e n is (D e n z ln g e r 702); C o n c ílio de T re n to , Sess&o X X IV (D e n z ln g e r 970 s .); O tt 550 e 556; S c h m a u s 685 (17) S c h m a u s 695 (18) S c h m a u s 686 — 688 jl9 ) C o n c ílio d e T re n to , S essão X X IV (D e n z ln g e r 969); S c h m a u s 691 (20) O tt 551; S c h m a u s 689 (21) C o n c ílio d e F lo re n ç a , D e c re tu m p ro A rm e n is (D e n z ln g e r 702); O t t 550 s.; S c h m a u s 690; V a tic a n o I I, L u m e n G e n tiu m 11 (22) O t t 556 (23) O t t 556; S c h m a u s 705 (24) S c h m a u s 707

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Nessa concepção atribui-se um a im portância fundam ental à cola­ boração da Igreja no casamento. Não h á unanim idade quanto à pergunta, se o esquema aristotélico de m atéria e form a possa ser aplicado ao sacram ento do m atrim ônio (25).

A diversidade de opiniões sobre o sinal externo tem como con­ seqüência afirmações igualm ente diversas sobre quem m in istra o sacram ento do m atrim ônio. A grande m aioria dos teólogos diz que os próprios cônjuges se m inistram m u tu am en te esse sacra­ mento, sem intervenção algum a do sacerdote nesse particular, de modo que, em determ inadas circunstâncias, um m atrim ônio válido pode ser contraído mesmo sem a presença de um sacerdote (26). Alguns teólogos, porém, não levantam a p erg u n ta por quem o m inistra. A parentem ente tenciona-se com isso atrib u ir ao sacer­ dote um a função m ais im portante n a celebração do casam ento (27). Certo é que no m atrim ônio os cônjuges são interm ediários d a graça divina um p ara o outro.

Como sacram ento o m atrim ônio efetua a salvação (ist heilsw irksam ). Nele transparece a glória de Cristo, de modo a promover o reino de Deus (28). Nele Cristo abençoa os cônjuges, deixando-os particip ar da sua união com a Igreja (29). Pelo sa­ cram ento do m atrim ônio é dada aos cônjuges e sempre aum entada neles a graça que santifica (30). O am or conjugal hum ano é santificado pela graça de Deus (31). Os cônjuges são fortalecidos e consagrados de m aneira sobrenatural nos seus deveres conjugais, de modo que se aperfeiçoam sempre m ais n a sua existência cristã (32).

Resumindo podemos co n statar o seguinte: Conforme a doutrina católico-romana evidencia-se no m atrim ônio como sacram ento a) que toda a vida dos esposos cristãos é um a vida n a fé, n a espe­ ran ça e no am or (33); b) que o m atrim ônio cristão é um dos setores nos quais se m anifesta concretam ente a existência do povo de Deus (34); c) que ó m atrim ônio cristão abrange ta n to a dádiva da graça divina, como a ta re fa dos esposos (35). Perguntam os, no entanto, se é realm ente necessário falar da sacram entalidade do m atrim ônio, p a ra que se evidenciem os aspectos supracitados.

Em concordância com sua orientação básica, o Concílio Vati­ cano II acen tu a de m aneira especial o caráter de testem unho apostólico do m atrim ônio cristão. Também no m atrim ônio desdo­ bra-se a santidade, à qual todo o povo de Deus é cham ado (36) e que favorece, por sua vez, um a vida m ais h u m an a n a sociedade (37). A santidade evidencia-se no fato de os cônjuges se ajudarem

(25) O tt u s a o e s q u e m a (556 s.), S c h m a u s n ã o o q u e r a p lic a r n e s te c o n te x to (706) (26) O tt 557 — 559 (27) S c h m a u s 709 s. (28) S c h m a u s 691 e 710 (29) V a tic a n o II, G a u d iu m e t S p es 48 (30) O tt 558; S c h m a u s 712 (31) V a tic a n o II, G a u d iu m e t S p es 48 s.

(32) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 11 e G a u d iu m e t S p es 48; S c h m a u s 711 (33) S c h m a u s 712 s.

(34) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 11 (35) V a tic a n o II, G ra v iss im u m E d u c a tio n is 3 (36) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 39 (37) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 40

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m utuam ente “a conservar a graça” e educarem a prole “n a dou­ trin a cristã e nas virtudes evangélicas” (38). No cham am ento à santidade baseia-se a missão especial dos leigos de fazer “brilhar a força do Evangelho. . . nas condições ordinárias da vida no m undo”. Os leigos proclam am o Evangelho principalm ente pelo testem unho de sua vida cristã. Nisso cabe um papel de destaque ao m atrim ônio e à fam ília que são “um exercício e um a a lta escola de apostolado dos leigos” (39), sendo, por isso, de “im portância singular, ta n to p ara a Igreja como p a ra a sociedade civil”, cujo “princípio e fundam ento” é por eles constituído (40). No âmbito da fam ília os cônjuges são “cooperadores da graça e testem unhas da fé”, e no âm bito do m undo as famílias cristãs são testem unhas de Cristo. A Ig reja Evangélica pode concordar em grande p arte com essa compreensão da missão cristã do m atrim ônio e da famüia, embora o ponto de p a rtid a teológico sèja bem diferente.

O m atrim ônio de batizados (cistãos) é regulam entado por de­ term inados dispositivos jurídicos. O seu fundam ento e núcleo é o Di­ reito Divino, o qual é inalterável, comprometendo os cristãos sem res­ trições. Nesse Direito baseia-se o Direito Eclesiástico (Canônico) referente ao m atrim ônio de cristãos. Em tese a Igreja Católica Ro­ m an a reclam a p ara si a jurisdição exclusiva sobre os m atrim ônios de todos os batizados (41). Na prática, porém, ela não está em con­ dições de impor a sua jurisdição aos cristãos não-católicos. Mas em todo caso seu direito compromete todos os cristãos católicos inclusive aqueles que vivem em m atrim ônios interconfessionais. Ao Estado concede-se apenas o direito de regulam entar os “efeitos jurídicos civis” do casam ento (42). A Igreja não reconhece como válidos os dispositivos do Direito Civil do m atrim ônio que excederem o lim ite indicado. A Igreja Católica Rom ana sobretudo não reco­ nhece o casam ento civil como casam ento verdadeiro. Permite-o aos cristãos católicos apenas “como um ato puram ente civil”, para que os cônjuges possam gozar dos efeitos jurídicos civis do seu casam ento (43). Em tese a Ig reja Católica R om ana deveria tom ar essa posição em relação aos m atrim ônios de todos os cristãos. Nesse particular, porém, ela não é coerente em seu pensamento. Pois adm ite que cristãos não-católicos contraiam entre si um m a tri­ mônio válido, caso declararem seu consentim ento m atrim onial “n u m a forma (pública) qualquer”, como, por ex., por ocasião do casam ento civil ou da bênção m atrim onial n a Igreja Evangélica

(44).

Uma das principais intenções do Direito Canônico do m a tri­ mônio d a Igreja Católica Romana é estabelecer as condições, sob as quais um m atrim ônio é lícito ou ilícito e válido ou inválido. Um m atrim ônio pode ser ilícito ou inválido em virtude do Direito

(38) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 41 (39) V a tic a n o II, L u m e n G e n tiu m 35

(40) V a tic a n o II, A p o sto lic a m A c tu o s ita te m 11 (41) CIC c a n . 1016; O tt 559; R e tz b a c h 203 s. (42) O tt 560; B e tz b a c h 204

(43) O tt 560; R e tz b a c h 245 s. (44) R e tz b a c h 245

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Divino ou em virtude do Direito Canônico. A com petência de co n statar isso com autenticidade cabe exclusivamente ao Papa e ao Concílio Geral (45). Mas enquanto ninguém a lte ra o Direito Divino ou dele dispensa (46), a Igreja pode a lte ra r o Direito Canô­ nico ou dispensar das prescrições do mesmo. Nesse contexto ju rí­ dico enquadram -se os dispositivos do m atrim ônio interconfessional

(v. p a rte I I I ) .

A doutrina católico-romana do m atrim ônio está estritam ente relacionada com a compreensão que a Igreja Católica R om ana tem de si mesma. D esta m aneira as divergências en tre as Igrejas nesta d o utrina baseiam-se nas divergências eclesiológicas existentes. E nquanto a Igreja Católica R om ana continuar m antendo aquela compreensão, m an terá tam bém os elementos fundam entais de sua doutrina do matrim ônio, por m ais liberal que seja n a aplicação dos dispositivos decorrentes do seu pensam ento jurídico.

II. O M atrimônio Segundo a Concepção Evangélica

A. Ao contrário da doutrina do m atrim ônio, exclusiva em seu aspecto dogmático e jurídico, n a Igreja Católica, reflete-se n a con­ cepção evangélica o reconhecimento de que a Bíblia não desenvolve um a doutrina definitiva do m atrim ônio. As afirmações básicas sobre a questão são pronunciadas como palavra de Deus p a ra dentro de situações m atrim oniais específicas.

Estas situações jurídicas não eram, sob hipótese nenhum a, uniformes. O Antigo Testam ento dá testem unho de formas p a ­ triarcais de m atrim ônios de cunhos mais diversos; re la ta sobre a poligamia com m u ita naturalidade; testem u n h a tam bém o desen­ volvimento da monogam ia como expressão d a fé em Javé. A m ulher é encarada por um lado como coisa, por outro lado tam bém como pessoa co-responsável.

Em contraposição a estas questões jurídicas, a teologia dos relatos vetotestam entários da criação e da queda entende o rela­ cionam ento entre os dois prim eiros homens análogos à sua relação com Deus, a saber, como relacionam ento direto. Pode-se dizer que Deus alm eja a com unhão de vida e de responsabilidade de homem e mulher. O seu relacionam ento é entendido como parceria. Não se pode, porém, a p a rtir daí deduzir um a do utrina do matrim ônio.

Também no Novo Testam ento pode-se reconhecer concepções diversas. Nas m anifestações m ais antigas do Novo Testam ento sobre o tem a, no cham ado “capítulo do m atrim ônio” do apóstolo Paulo em I Cor. 7, deparamos com afirmações de cunho católico- rom ano por um lado (compare I Cor. 7,2 com can. 1013 do Código de Direito Canônico: “Finalidade secundária do m atrim ônio é o auxílio e a proteção m útuos co n tra a concupiscência”), e por outro

(45) R e tz b a c h 211

(46) A pesar disso R e tz b a c h c o n s ta ta : “E m d e te r m in a d o s caso s o p a p a p o d e d isp e n s a r ta m b é m do d ir e ito d iv in o , a sa b e r, n a q u e la s ocasiões, n a s q u a is o co m p ro m isso d a q u e le d ire ito p a r t e d a v o n ta d e h u m a n a . . . ” (15 s.).

Referências

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