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CADEIA DE CUSTÓDIA DA PROVA E PREJUÍZO À DEFESA NO
PROCESSO PENAL: decisão do STJ no HC n.º 59.414-SP que afastou
o prejuízo ante a presença de demais elementos probatórios
Alencar Frederico MARGRAF1 Gabriel MARAVIESKI2
MARGRAF, Alencar Frederico; MARAVIESKI, Gabriel. Cadeia de custódia da prova e prejuízo à defesa no processo penal: decisão do STJ no HC n.º 59.414-SP que afastou o prejuízo ante a presença de demais elementos probatórios. In: Revista Aporia Jurídica (on-line). Revista Jurídica do Curso de Direito da Faculdade CESCAGE. 8ª Edição. Vol. 1 (jul/dez-2017). p. 378 - 383.
Área do Conhecimento: Direto Processual Penal Modalidade: Comentário Jurisprudencial
O comentário que se apresenta versa sobre decisão da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça proferida em autos de Recurso em Habeas Corpus n.º 59.414-SP, em que figura como relator o Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, tendo por data de julgamento 27 de junho de 2017.
O caso remete a recurso em Habeas Corpus que pretende ver declarada a nulidade das provas obtidas por meio de busca e apreensão diante da ausência de lacre em todos os documentos e bens apreendidos, alegando a defesa do recorrente que houve prejuízo pelo fato de referida prova ser ilegítima diante da característica apontada.
O recorrente sustenta seu pedido na tese de que a prova foi contaminada por falta de cuidado mínimo para se preservar os objetos apreendidos, que deveriam ser lacrados para evitar interferências externas que pudessem manipular as provas colhidas. Faltaria, neste passo, credibilidade à prova, o que afetaria toda a ação penal.
1 Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP. Especialista em
Direito Penal, Processo Penal e Criminologia, pelo Instituto Busato de Ensino. Pós-Graduado latu senso, pela Escola da Magistratura do Estado do Paraná, Núcleo de Ponta Grossa. Bacharel em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG. Membro Efetivo do Instituto Paranaense de Direito Processual. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (mai-2013/mai-2015). Professor de Ciência Política e Teoria do Estado e de Processo Penal no Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE). Advogado e Pesquisador. E-mail: [email protected].
2 Pós-Graduado em Direito Ambiental pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER). Bacharel em
Direito pelo Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE). Assessor de Magistrada na 4ª Vara Judicial da Comarca de Irati – PR. E-mail: [email protected].
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Vê-se do julgado que a questão fora levantada nas instâncias ordinárias de julgamento, sendo que já em primeiro grau de jurisdição o magistrado indeferiu a questão por entender que a falta de lacre em todo o material apreendido, de per si, não acarreta em hipótese de absolvição, tendo em vista que a denúncia fora lastreada em diversos elementos de prova, sendo a apreensão apenas um deles. Esse posicionamento foi mantido em sede recursal de segunda instância, quando então se manifestou o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, em acórdão sob relatoria do Desembargador Nino Toldo, afirmando que deveria ter sido demonstrado o prejuízo do requerente, por ser regra geral do processo penal o princípio „pas de nullité sans grief‟. Segundo o desembargador a defesa não logrou êxito em demonstrar a contento o prejuízo, sendo afastada pela corte a alegação3.
A importância do referido acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça reside no fato de que trouxe à discussão matéria pouco dicutida no direito processual penal brasileiro, que é a cadeia de custódia da prova.
O Estado, enquanto titular da ação penal e da persecução penal, carrega para si determinadas obrigações no que se refere à aglutinação de provas para sustentar suas alegações. Neste passo é manifesto o dever estatal de bem custodiar as provas obtidas que guardam relação com algum delito cometido, a fim de preservar um processo guiado pela legalidade e encenado pelo contraditório e pela ampla defesa, sem os quais não há possibilidade de se falar em justiça penal democrática.
Para tanto, a doutrina explana sobre a imperiosa manutenção da paridade de armas, dentre as quais está a possibilidade de ambas as partes do processo utilizarem das provas colhidas para acusar e contrapor a acusação, objetivando o convencimento do magistrado e a obtenção de resposta estatal satisfatória.
Neste ponto entra como garantia processual a manutenção das fontes probatórias em seu estado original, devidamente custodiadas e lacradas, para evitar manipulação e afastar qualquer interferência nos elementos obtidos.
Ademais, a custódia da prova, com lisura, importa inclusive na preservação da história de um fato ocorrido no pretérito, que servirá de base para um órgão estatal julgador proferir sua decisão com consciência e certeza necessárias do que ocorreu, sopesando os elementos colhidos e formulando um cenário semelhante à realidade
3 BRASIL. TRF 3ª Região – DÉCIMA PRIMEIRA TURMA – HC 60301 – 0026861-13.2014.4.03.0000,
Relator: Desembargador Federal NINO TOLDO, Data de Julgamento: 24/02/2015, Data da Publicação: e-DJF3 27/02/2015.
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passada4. Somente uma prova que carregue consigo seu iter, o caminho que percorreu até chegar à apreciação superior, deve ser considerada válida, porque ausente de qualquer interferência externa que possa induzir a incriminação ou a absolvição do agente processado.
Inclusive importa trazer à discussão o entendimento esposado pelo Superior Tribunal de Justiça em decisão de Habeas Corpus n.º 160.662, julgado no ano de 2014, tendo por relatora a Ministra Assusete Magalhães, no qual a Corte Superior expôs entendimento que a quebra da cadeia de custódia da prova importa em desequilíbrio processual, prejudicando o exercício efetivo da ampla defesa, conforme se observa do seguinte excerto:
Mostra-se lesiva ao direito à prova, corolário da ampla defesa e do contraditório – constitucionalmente garantidos –, a ausência da salvaguarda da integralidade do material colhido na investigação, repercutindo no próprio dever de garantia da paridade de armas das partes adversas.5
Assim sendo, a quebra da cadeia de custódia importa em questão de anulação do processo penal, desde que haja efetivo prejuízo à parte que sofre com o fenômeno.
Sobre o tema ainda é de elevada consideração o aspecto da necessidade de se demonstrar prejuízo efetivo para que essa interferência na custódia da prova seja utilizada como parâmetro de qualquer declaração de nulidade no processo penal, tendo em vista que sem prejuízo não há que se falar em nulidade, ressoando a máxima principiológica “pas de nullité sans grief”.
Neste passo, retornando à análise do acórdão que se propõe no início do presente comentário, verifica-se que a decisão, muito embora reconheça que houve falha na guarnição da prova, ao passo que admite não ter havido colocação de lacre em todo o material apreendido, deixou de declarar qualquer nulidade por entender que não houve prejuízo efetivamente demonstrado, tendo em vista que a denúncia e a sentença de primeiro grau basearam-se em demais elementos que haviam sido obtidos, não se tratando os objetos apreendidos de únicos meios probatórios.
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LOPES JR., Aury e DA ROSA, Alexandre Morais. A importância da cadeia de custódia para preservar a prova penal. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2015-jan-16/limite-penal-importancia-cadeia-custodia-prova-penal. Acesso em: 06 set, 2017.
5 BRASIL. STJ – HC 160.662/RJ, Relatora: Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, Data de Julgamento:
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Veja-se que por mais que tenha ocorrido desrespeito quanto à guarida da prova amealhada, manteve-se o Tribunal alheio a tal questão por inexistir demonstração de prejuízo grave, sendo incumbência da defesa, no caso em comento, a demonstração de tal desiderato.
Neste mesmo diapasão se observa uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, recente, na Apelação Criminal n.º 1.537.046-4, de relatoria do Desembargador Rogério Coelho, julgada pela 5.ª Câmara Criminal, a qual contemplou alegação semelhante à do acórdão do Superior Tribunal de Justiça que dá origem a este estudo, sendo que no caso paranaense houve extravio e eliminação de elementos obtidos através de interceptação telefônica, ao que alegou a defesa que houve quebra da cadeia de custódia, requerendo as providências necessárias.
Na decisão, o relator demonstrou que a parte que fora inutilizada e eliminada não trouxe prejuízo à parte acusada, porquanto não foi utilizada como parâmetro para a denúncia e para a prolação de sentença, inexistindo prejuízo visível que desse guarida à alegação defensiva.
Tais elementos do entendimento jurisprudencial, seja dos Estados, seja em âmbito nacional através dos Tribunais Superiores, demonstram que a necessidade imperiosa de demonstração de prejuízo é caractere inerente a qualquer declaração de nulidade processual, até mesmo porque se não houve prejuízo os atos entendem-se por convalidados, mantendo sua forma e objetivo iniciais, o de dar sustentação às teses defensivas e acusatórias.
Assim, a discussão inicial trazida à baila pela decisão em comento termina por afirmar que a quebra da cadeia de custódia da prova deve ser analisada não somente em seu único aspecto de falta de zelo por parte do Estado, que possa interferir e alterar as provas coligidas através de manipulação exterior, mas sim aliada às demais razões principiológicas do processo penal, em especial a demonstração de prejuízo ao trabalho de qualquer das partes da lide penal.
Há posicionamento jurídico nacional que defende a proibição de valoração da prova que teve quebra na cadeia de custódia sob pena de se incorrer em uma decisão judicial lastreada em elementos duvidosos, que não guardam sua integralidade inicial. É neste sentido que leciona Aury Lopes Jr6.
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Contudo, como exposto pelo mesmo autor, é de se distinguir a prova ilícita da questão da nulidade processual, ao passo que a primeira não se admite e, no caso da nulidade, vem a ocorrer somente quando a prova trouxe prejuízo a uma das partes.
Analisando-se a decisão sob esse prisma, tem-se que foi formulada de maneira correta, não se tratando no caso analisado de prova ilícita, até mesmo porque afirmado que o trâmite da busca e apreensão obedeceu ao rito legal, mas sim de prova que, se eventualmente demonstrado, geraria prejuízo à parte acusada, o que não ficou satisfatoriamente demonstrado. Nesta esteira segue correta a decisão, que demonstrou guardar o devido cuidado em não declarar ilícita a prova somente pela falta de lacre no material, quando não restou demonstrada qualquer interferência externa nas mesmas.
CONCLUSÃO
A análise da decisão do Superior Tribunal de Justiça leva a concluir que a jurisprudência nacional caminha afastando teses que possam invalidar o processo como um todo somente pela quebra da cadeia de custódia.
Firma-se a jurisprudência, portanto, em garantias tanto para a acusação, quando mantêm a prova colhida ainda que não devidamente guarnecida, desde que constatada a ausência de manipulação, quanto para a defesa, quando há demonstração clara de efetivo prejuízo, caso em que impõe a nulidade dos atos.
Tal entendimento leva a compreender a cadeia de custódia da prova e sua eventual quebra quando aliado à demonstração de prejuízo, sem o qual em nada interfere a ausência de uma reforçada guarnição da prova, fato que não influenciará o Poder Judiciário na prolação de sentenças e decisões desfavoráveis a uma das partes de maneira sensível e exposta, desde que haja demais elementos e que haja demonstração de não interferência externa nos elementos probatórios.
REFERÊNCIAS
BRASIL. STJ – HC 160.662/RJ, Relatora: Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, Data de Julgamento: 18/02/2014, SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe 17/03/2014. BRASIL. TRF 3ª Região – DÉCIMA PRIMEIRA TURMA – HC 60301 – 0026861-13.2014.4.03.0000, Relator: Desembargador Federal NINO TOLDO, Data de Julgamento: 24/02/2015, Data da Publicação: e-DJF3 27/02/2015.
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LOPES JR., Aury e DA ROSA, Alexandre Morais. A importância da cadeia de
custódia para preservar a prova penal. Disponível em:
http://www.conjur.com.br/2015-jan-16/limite-penal-importancia-cadeia-custodia-prova-penal. Acesso em: 06 set, 2017. LOPES JR., Aury. Direito processual penal. 12ª ed., São Paulo – Saraiva, 2015.