Práticas “mágico-religiosas” na problemática da história das mentalidades
Carlos Henrique Alves Cruz∗
Este trabalho tem como objetivo apresentar de maneira breve como a “cultura popular” com suas práticas “mágico-religiosas” se realizaram em algumas abordagens de “saber histórico”, visando análise por um “fazer histórico” profundamente marcado pela “Escola dos Analles” e a “Nova História”. Traçando um paralelo desde Keith Thomas, com as crenças populares na Inglaterra, Delumeau com sua análise dos mitos e medos ocidentais e Ginzburg, que com o seu Menocchio, tenta compreender uma mentalidade camponesa e “alargar para baixo o sentido de indivíduo”, obras essas que se inserem na chamada “História das Mentalidades. Até que finalmente analisamos a obra de Laura de Mello e Souza, que com sua abordagem lapidar integra elementos desses autores já citados e outros como Sérgio Buarque de Holanda combinando-os com suas pertinentes análises do imaginário do Brasil colonial, que com matrizes européias se misturaria as crenças ameríndias e africanas, sincretismo da própria condição colonial.
Com a chamada “Escola dos Analles” uma nova historiografia surge, e nesse âmbito os estudos se voltam para variados objetos, entre eles, os sentimentos, os anseios dos homens comuns, sua visão do mundo e religiosidade. Nomes como Marc Bloch, Lucien Febvre rompem com o “velho esquema” de uma historiografia que se interessaria apenas pela “gestas dos reis” e se voltam para o cotidiano e os cidadãos comuns. Entre estes temas “inaugurados” por esse “novo fazer histórico” o imaginário é abordado em variadas obras, obras essas que combinam em suas técnicas de pesquisa um diálogo com múltiplas disciplinas tais como a etnologia, psicologia e antropologia.
As práticas “mágico-religiosas” começam então a ser estudadas com um novo interesse, diante de uma nova abordagem tanto da cultura, em seus aspectos “erudito” e “popular” quanto suas relações de diálogo ou enfrentamentos.
Obras como a de Robert Mandrou, “Magistrados e feiticeiros na França do século XVII” (1979), que compreende a persistência de certos modos de sentir que motivaram a prática de feitiçaria juntamente com a sua perseguição. Para esse autor as “mentalidades” são definidas vagamente como a história das “visões do mundo” e seu trabalho influenciou autores brasileiros como Laura Mello de Souza, que nos deteremos adiante. A história das mentalidades permitiu a historiadores, como já foi
elucidado, se dedicar ao que até então não se havia pensando como objeto de pesquisa, dedicando-se em especializações como Jean Delumeau que estudou o conjunto de medos da sociedade ocidental do período de 1300 a 1800, medos que marcariam a vida do homem europeu que, sendo então superados, facilitaria o advento da modernidade.
A obra do historiador inglês Keith Thomas, “Religião e Declínio da Magia”, compreende um estudo de longa duração sobre os “anseios” da sociedade inglesa entre os séculos XVI e XVII, e mostra como a religiosidade, intensa no período, desde sua manifestação católica, com heranças de um cristianismo medieval, quanto o advento do protestantismo contribuíram para diversidade das práticas “mágico-religiosas” que muitas vezes operavam como parasitas dos ensinamentos cristãos, e às vezes, estavam em franca rivalidades com eles. O historiador inglês faz a relação entre o contexto o qual a Inglaterra passava no período, clima de insegurança e possibilidades, marcado por conflitos, como a guerra civil, e execução de reis e as mudanças religiosas que transformavam a mentalidade contemporânea, o ambiente material para assim chamar atenção para uma vasta área de estudos que por muito tempo fora negligenciadas pelos estudiosos. Thomas dialoga brilhantemente com o pensamento de Malinowski que concebe a imagem de uma magia “cedendo” seu lugar a avanços tecnológicos, o que para historiador não se aplica, uma vez que “a correspondência entre magia e as necessidades sociais nunca foi mais que aproximativa” e defende ainda que “ausência de um remédio técnico não era por si só suficiente para gerar uma solução mágica” (THOMAS, 1991: 534); mostrando um conservadorismo da magia em sua área de atuação, e de suas técnicas.
Seu estudo foca-se na Inglaterra, que, como justifica o autor, resiste à tentação de traçar paralelos com outras áreas, mas como bem destaca muito dessas práticas dizem respeito ao mundo ocidental em geral. Tal obra lança luz para a compreensão da magia e outras artes ocultas em todas as épocas e lugares.
Thomas influencia vários historiadores, tal como Jean Delumeau, que em um estudo também de longa duração, se dedica ao um conjunto de medos da sociedade ocidental, que marcariam a forma como as sociedades européias, comprometidas em um permanente diálogo com esses medos, viam o mundo.
As práticas “mágico-religiosas” serviriam, então, na mesma medida como proteção contra os medos ao mesmo tempo em que “alimentaria” esses medos. Delumeau dá inúmeros exemplos dos usos cotidianos da magia, que sendo ancorada ou não na igreja oficial, serviriam para apagar e evitar incêndios, proteger as colheitas entre outros fins que demonstram como a mentalidade popular
compreendia a religiosidade ou a reinterpretava de maneira distinta de manuais oficiais da igreja. Nesse aspecto as necessidades de um “mundo concreto”, a vontade de segurança e o temor moldam o imaginário de toda uma época, criando personagens, como bruxas que perseguem crianças e judeus incendiários, criando e “atiçando” rumores que muitas vezes modelavam o cotidiano e permitiam que as práticas mágicas populares e oficiais ganhassem cada vez mais espaço, tanto no terreno da vida comum quanto em variadas histórias, e manuais eruditos.
Outro historiador, Carlo Ginzburg, ao estudar as práticas mágicas através de processos inquisitoriais do Friuli, compreende a distinção dos discursos, onde uma discrepância tanto das perguntas dos inquisidores quanto das respostas dos acusados marcam visões completamente diferentes da religiosidade, submetendo então as fontes, os processos inquisitoriais, ao um olhar crítico, onde essa defasagem existente entre a imagem proposta pelos juízes e as oferecidas pelos acusados “permitiriam alcançar um extrato de crenças genuinamente populares, depois deformado, anulado pela superposição do esquema culto” (GINZBURG, 1990: 8). Um conflito entre a natureza da feitiçaria popular e esquemas cultos de origem inquisitorial.
A compreensão de desníveis culturais no interior das chamadas sociedades civilizadas é de suma importância para que se compreenda uma “cultura” das classes subalternas, que como Ginzburg destaca, é um conceito emprestado da antropologia cultural, que permite finalmente o reconhecimento que os indivíduos das “classes inferiores” possuíam seus conjuntos de crenças, códigos e visões do mundo. Este mesmo autor a partir do pensamento de Mikhail Bakhtin refuta a idéia da cultura ligada a uma concepção aristocrática que “enxerga” crenças originais apenas oriundas das “classes superiores” que, então, “desceria” para as classes populares, efeito mecânico ou de imposição. O historiador italiano ainda critica abordagens que creditam as classes populares uma total passividade de aculturação ou que apenas percebem “blocos monolíticos” de culturas que se “enfrentam” sem relação alguma a não ser a “luta”. Para Ginzburg, que como já foi elucidado sofre as influências do historiador russo Bakhtin, a circularidade cultural é o cerne que deve guiar as “novas” pesquisas, onde tanto as leituras, quanto os atores, circulam em variados meios, e interpretam distintamente os mesmos fatos que acabam por se relacionar e se influenciarem mutuamente.
Em sua obra clássica “O queijo e os Vermes” o historiador em um novo tipo de abordagem, a micro-análise, nos apresenta as idéias de um moleiro das colinas do Friuli, Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, que assombra os inquisidores com a originalidade de suas idéias, onde a religião, a criação do mundo e a própria vida aparece colorida de diversos elementos, que rastreados por
Ginzburg, demonstram distintos discursos, “eruditos” e “populares”, visto que Menocchio através de suas leituras compreendia, filtrava e reinterpretava os discursos de modo que fizessem sentido para si e o mundo em que vivia.
Ginzburg destaca o problema das fontes, que, como já foi dito, esbarra sempre em discursos prontos, que podem levar ao historiador a erros. A cultura popular, através desses processos inquisitoriais, chega até nós através de documentos fragmentários e deformados, lembrando sempre que essas fontes são provenientes de “arquivos de repressão”. Em sua obra sobre os “benandanti”, o historiador italiano se dedica a um estudo de um culto agrário das colinas do Friuli, tal prática traria elementos de antigos cultos de fertilidade, compreendidos de uma maneira nova pelos camponeses da região, que para Ginzburg “no amalgama de crenças defendidas pelos “benandati” coexistiam dois núcleos fundamentais: um culto agrário e um culto cristão, além de certo número de elementos assimiláveis a feitiçaria” (GINZBURG, 1990: 47) e mais ainda quando apresentadas diante dos inquisidores perderiam ainda mais suas peculiaridades para finalmente acabar encerrado em um modelo já clássico de “sabá”. Tal assimilação por vezes também aconteceria de forma “espontânea” entre as camadas populares, onde, de protetores das colheitas, os “benandanti” passariam a contra-feiticeiros e praticantes de curas mágicas.
Por essas abordagens tem-se que as práticas “mágico-religiosas” assumem múltiplos significados, tanto para modelar uma visão de mundo, quanto para respondê-la ou até mesmo para encerrá-los em modelo definidos apriori que tornam mais fácil sua assimilação e punição. Onde os atores circulam em variados campos e desses recolhem vários elementos criando e recriando aspectos, e assim tanto as representações diabólicas e divinas, tanto quanto as feiticeiras com suas magias respondem a estímulos e propostas próprias de seu determinado período histórico e não se cristalizam em níveis chamados ora de “eruditos” ou “populares”.
O imaginário também se apresenta como temas de obras brasileiras, “Visões do Paraíso”, publicado em 1959 de Sergio Buarque de Holanda é o primeiro grande trabalho sobre o imaginário no Brasil colonial, o autor apresenta a edenização da América, sentimento mais forte entre os espanhóis, onde histórias de mitos do paraíso terrestre, disseminada em obras tais como a Utopia, marcaria a visão dos europeus diante as novas terras. Tal obra, assim como as de Thomas, Delumeau e Ginzburg influenciariam a obra da historiadora Laura de Mello e Souza, que em o seu “O Diabo e a Terra de Santa Cruz” (1986) contrapõe uma visão edênica do Brasil colonial para um sentindo infernal da colonização. Em sua obra a autora examina entre outras fontes as denúncias e confissões das visitas do Santo Ofício
de Lisboa a Bahia (séculos XVI e XVII), a Pernambuco (século XVI) e ao Pará (século XVIII) presentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. E como bem destaca Vainfas, a historiadora “submete essa documentação a uma dupla leitura, depurando-a inicialmente (e na medida do possível) da carga ‘inquisitorial’ que lhe é característica” (VAINFAS, 1988: 169).
Laura ao reconstruir a mentalidade colonial, toma de Ginzburg o conceito de “circularidade cultural”, e a partir desse conceito se dedica ao estudo de práticas mágicas que faziam parte do cotidiano colonial. Tais práticas inseriam-se na busca de significados e vantagens em meio ao mundo material em que os colonos conviviam. Agregavam-se valores de diversos mundos, onde rituais indígenas, africanos e europeus mantinham um permanente comércio cultural, onde o seu significado se perdia muitas vezes nos discursos pronto das Visitações, que vislumbravam aspectos demoníacos em variadas crenças, submetendo-as em idéias pré-concebidas trazidas de Portugal, tal como o “sabá”, o que não poderia permitir nunca a identificação dessa nova religiosidade sem precedentes, uma religião exclusivamente colonial. Algo que lembra Delumeau que diz que foram os próprios espanhóis que trouxeram o demônio para a América nos porões de seus navios.
A autora ainda se dedica a esses “discursos imbricados” focando a visão da religião oficial em contrapartida da religiosidade popular que muitas vezes diante a torturas, como o caso bem destacado de Adrião Pereira de Faria, acabaria se transformando em um “modelo clássico” do pacto demoníaco europeu. Este mesmo caso é comparado muitas vezes por Laura ao Menocchio de Ginzburg, devido à originalidade de suas respostas nos variados interrogatórios pelos quais passou tanto no Brasil quanto em Portugal. A historiadora da escola paulista na última parte de seu livro “Histórias Extraordinárias e Destino de Cada um” descreve detalhadamente este e outros casos, em um ensaio de micro-história, no qual os sentimentos, os anseios individuais - o que não significa que seriam apenas particulares desses determinados indivíduos -, marcariam a forma de religiosidade colonial, em que o caso de Adrião se torna um modelo singular da compreensão dessa religiosidade e das práticas mágicas, onde o sincretismo de crenças, idéias de paraíso e inferno, Deus e demônio, se inserem em uma percepção original que se apresenta indiscutivelmente, assim como o comportamento condicionado dos inquisidores que tentam abarcar os depoimentos em seus modelos disponíveis.
Em sua abordagem Laura não se preocupa em rastrear a origem de determinada prática, ou inserí-las em determinados modelos definidos a priori, já que para a historiadora importante é notar essa religiosidade característica da sociedade colonial, que só faz sentido em seu ambiente e contexto, a aventura inédita da colonização brasileira. Onde temos variados grupos, índios, brancos, negros e
mestiços em busca de significação e segurança no qual as práticas mágicas responderiam bem a esses anseios, percorrendo e recolhendo de múltiplos campos tanto uma vasta gama de ingredientes, fórmulas, palavras e orações quanto discursos explicativos singulares.
A religiosidade aparece, então, em variados estudos, onde noções, como a de cultura e comércio cultural inevitavelmente condiciona o resultado desses mesmos estudos. Temos, assim, uma historiografia que “busca” o cidadão comum e com ele sua visão de mundo. Estudos como o de Thomas passa a procurar semelhanças e diferenças entre as classes, exemplo e contra-exemplo, onde as praticas “mágico-religiosas” se inserem em variados níveis e são usadas pelos “atores” de distintas formas. Por sua vez Delumeau ao dedicar-se ao estudo do sentimento de insegurança da sociedade européia mostra como essas mesmas práticas apresentam ora respostas, ora explicação a essa determinada sensação proveniente dos medos de outrora. Ginzburg, por sua vez, com sua circularidade cultural nos mostra como a magia é moldada e reformulada constantemente, onde as leituras de determinados fatos pelos agentes históricos dizem mais do que inúmeros documentos deturpantes, o que não significa que não devem ser utilizados pelo historiador. Diante desses aspectos, o trabalho de Laura de Mello e Souza, influenciado por todos esses autores, aparece, como destaca Vainfas, como “marco de referência na historiografia brasileira” (VAINFAS, 1988: 173) que destaca a religiosidade colonial em suas características múltiplas, que abre as portas para inúmeros estudos referentes a esse campo, onde as práticas “mágico-religiosas” tomam diversos aspectos tendo em vista os variados atores que formavam a cena do Brasil colonial.
Bibliografia
DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente: 1300-1800. São Paulo: Cia das Letras. 1990 GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. São Paulo: Cia das Letras. 1987
_______________. Os Andarilhos do Bem. São Paulo: Cia das Letras. 1990 LE GOFF, Jacques. A História Nova. São Paulo: Martins Fontes. 1993
SOUZA, Laura de Mello. O Diabo e a Terra de Santa Cruz - Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colônia, São Paulo: Cia das letras. 1986
___________________. Inferno Atlântico. São Paulo: Cia das Letras. 1993
THOMAS, Keith – A religião e o Declínio da magia. São Paulo: Cia das letras. 1991
VAINFAS, Ronaldo. A Problemática das Mentalidades e a Inquisição no Brasil Colonial. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 1, PP. 167-173, 1988.