I
ntrodução
E
screver sobre um grande homem nem sempre é tarefa fácil. Principalmente quando esse ho-mem é um guerreiro, um soldado. O desempe-nho de sua profissão envolve guerra, morte, destruição e sofrimento imposto a seus adversários. Mas o que se pode falar quando são seus próprios adversários que reconhecem nele retidão de caráter, cavalheirismo, além da admiração pelas virtudes marciais como coragem pessoal, capacidade de liderança e habilidade tática que apresentou no desempenho de sua função?Pois o marechal de campo Erwin Johannes Eugen Rommel foi um dos poucos homens que receberam generosos elogios tanto de seus adversá-rios como de seus comandados. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, especialmente na campanha do norte da África, o marechal teve seu nome transformado em mito, em uma lenda que lhe conferia superpoderes e que se equiparava ao poder de divisões inteiras. Um comandante não adquire essa reputação por nada.
Erwin Rommel transformou-se no general alemão mais conhecido da Se-gunda Guerra Mundial. A Alemanha produziu muitos generais implacavelmente eficientes. Mas ele destacou-se, em parte pela máquina de propaganda do regime nacional-socialista, mas muito mais por ter conseguido superar a rigidez inata da mentalidade militar e por ter se tornado um mestre da arte da improvisação.
Como recompensa por suas vitórias, Hitler o promoveu seguidamente e o transformou no mais jovem marechal de campo do Exército.
Por 18 meses, enfrentando condições adversas, com escassez de suprimentos e de combustível, liderou um exército contra um inimigo numericamente su-perior e que possuía amplos recursos. Afinal vencido, soube conduzir seu exér-cito como uma força combatente coesa, em uma retirada de mais de 3.600 km, sem jamais ter sido isolado pelos perseguidores.
E no comando das forças alemãs na França, em 1944, propôs o único plano capaz de derrotar a invasão dos Aliados, dadas as circunstâncias.
Diferentemente da grande maioria dos generais das Forças Armadas Alemãs, a Wehrmacht, Rommel tinha coragem de criticar Hitler abertamente pelos er-ros de sua liderança. Em 15 de junho de 1944, chegou até mesmo a exigir que o Führer abrisse mão do comando supremo do exército.
Nunca se envolveu em atentados contra a vida de Hitler, nutrindo a espe-rança de que poderia persuadi-lo a celebrar uma paz em separado com os Alia-dos. A partir de 1943, Rommel teve que enfrentar um problema de consciência não resolvido. De um lado, o juramento de lealdade que fizera como soldado ao Führer e a obrigação de cumprir seu dever, de outro, a percepção da realidade militar que estava levando a Alemanha à completa ruína.
O ilustre soldado nunca soube da exata extensão do genocídio promovi-do pelo regime nacional-socialista, quer contra populações civis quer contra forças militares adversárias. Inteirado ocasionalmente da prática de crimes de
guerra, sobretudo no front russo, culpava a camarilha do partido, não ao Führer pessoalmente. Foi um exemplo de virtude militar em sua forma mais acabada. A seu ver, dedicava-se apenas a servir à pátria; como a História provou, servia a um criminoso. Foi convencido pela propaganda do regime, assim como mui-tos alemães, de que o nacional-socialismo representava a volta das qualidades marciais de uma Alemanha enfraquecida e humilhada por sua derrota na Pri-meira Guerra Mundial, e dessa forma os objetivos de Hitler pareciam idênticos aos interesses alemães. Quando, afinal, se deu conta da dimensão da fraude, ocorreu uma mudança em seu comportamento que, forçosamente permane-ceu incompleta. Por um lado, continuou a empenhar-se na defesa da pátria, enquanto por outro, desacreditou em sua liderança política. Foi forçado a tomar uma posição para a qual não fora treinado nem estava preparado. Essa foi a tragédia de Rommel.
Para traçar sua biografia, esta obra foi dividida em dez capítulos, de dimen-sões diferentes.
O primeiro trata de seu funeral e das reais circunstâncias de sua morte. O segundo aborda sua trajetória inicial, seu nascimento, aspirações juvenis, o alistamento no exército imperial. E, principalmente, sua atuação na Primeira Guerra Mundial, cujas lições apreendidas foram de suma importância para seu desenvolvimento profissional. O terceiro analisa sua trajetória profissional no período 1919-1933, sob a República de Weimar e sob a ascensão e afirmação do regime nacional-socialista. E o quarto trata de sua brilhante atuação como comandante operacional na campanha contra a França, em 1940.
Os capítulos quinto a oitavo abordam o período que se estende de fevereiro de 1941 a março de 1943, quando se dá a campanha africana sob seu comando. Foi exatamente em consequência do seu desempenho na África que se criou a lenda sobre Rommel. Por isso, esses capítulos são mais longos e pormenorizados. O nono aborda o período de março de 1943 a outubro de 1944, especial-mente seu tempo como comandante do Grupo de Exércitos B, a força alemã que se opôs à invasão aliada da França. E o décimo capítulo trata das relações entre Rommel, o homem, e Rommel, o mito.
Curtas bibliografia e filmografia a respeito de Rommel são apresentadas, juntamente com sua folha de serviço no exército trazendo suas sucessivas pa-tentes, condecorações e uma listagem dos comandos que exerceu.
Julgou-se proveitoso para o leitor elaborar dois anexos. O primeiro sobre a organização militar divisional alemã, e o segundo sobre os blindados alemães, já que Rommel foi essencialmente um comandante de tanques.
Também foi elaborado um glossário com os termos técnicos do jargão mili-tar e demais expressões alemãs pertinentes utilizados ao longo do texto. Sempre que uma palavra aparecer pela primeira vez, será destacada em negrito para comodidade do leitor.
Seis mapas foram incluídos para dar ao leitor uma melhor compreensão dos fatos narrados. O primeiro refere-se à campanha da França em 1940. Os três seguintes retratam, respectivamente, a ofensiva de Rommel na Cirenaica, em abril de 1941; o ataque à Linha de Gazala, em maio de 1942; e a segunda Batalha de El Alamein, em novembro de 1942. O quinto traz a costa norte-africana desde a Tunísia até o Egito. E o sexto, o dispositivo defensivo alemão em junho de 1944, na França.
Sempre que possível procurou-se citar as palavras textuais dos protagonistas dos vários episódios, não tanto para dar veracidade ao texto, mas para reafirmar o lado humano dos personagens. Isso só foi possível dada a quantidade de mate-rial original disponível. Muitos generais alemães escreveram suas memórias após a guerra, ou foram entrevistados por oficiais aliados e tiveram seus depoimentos publicados. Os diários de alguns líderes do regime foram encontrados e dados à luz, como o de Joseph Goebbels, ministro do Povo e da Propaganda do Reich. Os autos dos julgamentos de Nuremberg trazem material inestimável sobre a Alemanha de Hitler, e também os arquivos do Alto-Comando das Forças Armadas (okw), bem como do Alto-Comando do Exército (okh), que foram
capturados intactos pelas forças norte-americanas e fornecem uma visão por-menorizada das ordens, dos despachos e das instruções às tropas em luta nos mais diversos fronts.
Embora o único livro publicado pelo marechal Rommel, A infantaria ataca (Infanterie Greift an), seja um manual tático com as lições apreendidas na Pri-meira Guerra Mundial, sua esposa e seu filho compilaram todas as cartas que escreveu e as fizeram publicar no pós-guerra. Seu filho Manfred ainda prestou inestimável ajuda ao relatar as conversas que mantivera com o pai, especialmen-te em seus últimos dias.
Também o capitão sir Basil Liddell Hart recolheu e organizou as anotações quase diárias feitas por Rommel no diário que ele mantinha e as publicou sob o título de The Rommel Papers. E ainda, Desmond Young, oficial britânico apri-sionado pelas forças alemãs na África e autor de uma biografia sobre Rommel, publicou uma série de documentos inéditos em que o marechal analisa aspectos da campanha africana.
Espero que o leitor deste livro fique tão entusiasmado quanto o autor ficou ao retratar esse grande general da História.