Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 1
Breves Notas de Apoio - Direito Penal
Centro de Formação Jurídica
II Curso de Advogados (Ano 2012)
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LIVRO I PARTE GERAL
TÍTULO I
DA APLICAÇÃO DA LEI PENAL
CAPÍTULO ÚNICO PRINCÍPIOS GERAIS
Artigo 1º
Princípio da legalidade
1. Nenhuma acção ou omissão pode ser qualificada como crime sem que lei anterior à sua prática a defina como crime e comine a respectiva pena.
2. As medidas de segurança só podem ser aplicadas a estados de perigosidade cujos pressupostos estejam definidos em lei anterior.
Observações
Só é crime e medida de segurança o que está escrito, como tal, na Lei.
Factos que já ocorreram não podem ser qualificados como crimes por lei posterior á data da prática do facto.
Não pode ser aplicada a um crime já realizado, uma pena mais grave, que aquela que estava prevista. Notas Direito comparado V. art. 1º Artigo 2º Proibição de analogia
Para qualificar uma acção ou omissão como crime, definir um estado de perigosidade ou determinar as respectivas consequências jurídicas, não é permitido o recurso à analogia.
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Observações
A analogia é proibida em Direito Penal como forma de definir se uma acção/omissão é, ou não é, crime.
Mas, pode recorrer-se à analogia quando disso resulte benefício para o arguido. A punição por um crime implica que o mesmo esteja previsto como tal.
No fundo, o que acontece é uma preocupação de estabilidade, os cidadãos devem saber quais os comportamentos que não podem ter, por isso, os mesmos estão previstos/tipificados na Lei.
Notas
Direito comparado V. art. 1º n. 3
Artigo 3º
Aplicação da lei penal no tempo
1. Ninguém pode ser punido por facto definido como crime no momento da sua prática se lei posterior deixar de o considerar como crime.
2. Neste caso, se já tiver havido decisão de condenação, mesmo que transitada em julgado, cessam a execução e os seus efeitos penais.
3. A lei posterior à prática do crime aplica-se às condutas anteriores sempre que se mostre concretamente mais favorável ao agente e, nos casos de decisão transitada em julgado, se ainda puder aproveitar qualquer vantagem.
Observações
- Quando o facto é praticado e surge uma outra Lei que deixa de considerar considerar esse facto como crime, não deve existir condenação (n. 1).
- Se houver condenação, a pena deixa de ser executada com a entrada em vigor da nova lei (n. 2). - A nova lei (ou lei posterior) aplica-se às condutas mais antigas se for mais favorável, de forma concreta, ao agente desde que, o agente ainda possa aproveitar dos efeitos da nova lei (n. 3).
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 4 Sempre que uma nova disposição legal prevê: o que é crime deixa de ser crime; os processos em curso no Tribunal, com base nessa lei, são extintos.
Quanto aos condenados, acaba a execução da pena a que foram condenados, e os seus efeitos penais, e são restituídos à liberdade.
Notas
Direito comparado V. art 2º, n. 1, 2 e 4.
Artigo 4º
Lei excepcional ou temporária
A lei excepcional ou temporária continua a aplicar-se aos factos praticados durante a sua vigência ainda que haja decorrido o período de duração ou hajam cessado as circunstâncias que a determinaram.
Observações
A Lei excepcional ou temporária destina-se a vigorar durante um curto período de tempo. Ela aplica-se aos factos que surgem enquanto está em vigor.
Mas, aplica-se mesmo depois de terminar o prazo de duração.
Notas
Direito comparado V. art. 2º, n. 3.
Artigo 5º
Momento da prática do facto
O facto considera-se praticado no momento da acção ou da omissão, independentemente do momento em que vier a ocorrer o resultado típico.
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Observações
O facto é executado quando o agente age, ou omite uma conduta, com efeitos penalmente relevantes (acção/omissão tipica, ilicita e culposa).
Nos crimes permanentes - o momento da prática do facto considera-se até ao dia em que cessar a consumação (acabar de se cometer o crime);
Exemplo: o Sequestro
Nos crimes continuados e nos crimes habituais - o momento da prática do facto considera-se até ao dia do último acto;
Exemplo: O bancário que todos os dias desvia dinheiro para a sua conta.
Nos crimes não consumados - o momento da prática do facto considera-se até ao último dia do último acto de execução.
Exemplo: As situações de tentativa e/ou desistência.
Notas
Direito comparado V. art. 3º.
Artigo 6º
Lugar da prática do facto
O facto considera-se praticado no lugar em que, por qualquer forma, ocorreu a acção ou a omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado típico.
Observações
O facto é praticado no local da acção/omissão do agente, e também no local onde se produziu o resultado típico consequência do crime.
Um crime por acção, onde o agente actuou; ou, no caso de se tratar de um crime omissivo, no local em que o agente deveria ter actuado.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 6 Exemplo:
- A com intenção de matar B, dá-lhe um tiro, ferindo-o de tal maneira que 3 dias depois ele morre em consequência do disparo.
O momento da prática do facto típico, ilícito e culposo, é o momento em que o agente deu o tiro e não o dia da morte.
- No caso do sequestro, o momento da prática do facto arrasta-se até ao dia em que terminar o sequestro (crime permanente porque dura enquanto a situação ilegal existe).
Notas
Direito comparado V. art.7º.
Artigo 7º
Princípio da territorialidade
Salvo tratado ou convenção internacional em contrário e seja qual for a nacionalidade do agente, a lei criminal timorense é aplicável aos factos praticados em território de Timor-Leste e a bordo de navios ou de aeronaves de matrícula ou sob pavilhão timorense.
Observações
Facto ocorrido no território timorense, a bordo de navios e aeronaves de matrícula ou pavilhão (bandeira que identifica o país a que pertence o navio) timorense, aplica-se a Legislação penal de Timor-Leste.
Notas
Direito comparado V. art. 4º.
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Artigo 8º
Factos praticados fora do território nacional
Salvo tratado ou convenção em contrário, a lei penal timorense é aplicável a factos praticados fora do território de Timor-Leste nos seguintes casos:
a) Quando constituírem os crimes previstos nos artigos 196º a 206º, 229º a 242º e 307º a 313º;
b) Quando constituírem os crimes previstos dos artigos 123º a 135º, 161º a 169º e 175º a 178º desde que o agente seja encontrado em Timor-Leste e não possa ser extraditado ou seja decidida a sua não entrega;
c) Quando forem praticados contra timorenses desde que o agente viva habitualmente em Timor-Leste e aqui seja encontrado;
d) Quando forem cometidos por timorenses ou por estrangeiros contra timorenses, desde que o agente seja encontrado em Timor-Leste, os factos sejam igualmente puníveis pela legislação do lugar em que tiverem sido praticados e constituírem crime que admita extradição e esta não possa, no caso, ser concedida;
e) Se se tratar de crimes que o Estado timorense, por convenção ou tratado internacional, se tenha obrigado a julgar.
Observações
Aplica-se a Lei penal de Timor-Leste a casos ocorridos fora de Timor, (e desde que não haja tratado/ convenção, em contrário a estas regras) nos seguintes casos:
Alínea a)
- Crimes contra a Segurança do Estado (art. 196º a 206º) - Crimes eleitorais (art. 229º a 242º)
- Crimes de falsificação de moeda (art. 307º a 312º)
- Crimes contra a economia, designadamente art. 313º “Branqueamento de capitais”. Alínea b)
Se o agente criminoso for encontrado em Timor mas não puder ser extraditado ou, for decidida a sua não entrega, aplica-se a Lei penal Timorense aos seguintes crimes:
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 8 - Crimes contra a Liberdade pessoal, Secção I Agressões pessoais (art. 161º a 169º) - Crimes contra a Liberdade pessoal Secção III Exploração sexual (art. 175º a 178º) Alínea c)
Quando a vítima é Timorense,
O agente viva habitualmente em Timor, E, se encontre em Timor,
Aplica-se a Lei penal Timorense. Alínea d)
Crimes praticados por timorense ou, por estrangeiro contra timorense, Desde que o agente esteja em Timor,
E, os factos sejam puníveis igualmente como crime no país onde ocorreram, Não podendo a extradição ser concedida ao agente,
Então aplica-se igualmente a Lei penal Timorense. Alínea e)
Quando Timor Leste assume internacionalmente o compromisso de julgar certos crimes, então aplica-se a Lei penal Timorense.
Notas
Direito comparado V. art. 5º.
Artigo 9º
Restrições à aplicação da lei timorense
1. A lei penal timorense só é aplicável a factos praticados fora do território nacional quando o agente não tenha sido julgado com decisão transitada no lugar da prática do facto ou, tendo-o sido, se subtrair ao cumprimento total ou parcial da sanção.
2. Ainda que, nos termos do número anterior, seja aplicável a lei penal timorense, o facto é julgado segundo a lei do país em que tiver sido praticado se esta for concretamente mais favorável ao agente.
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3. Nos casos a que se refere o número anterior a sanção aplicável é convertida na que lhe corresponder no sistema penal timorense ou, inexistindo correspondência, na que a lei timorense prever para o facto.
4. No caso de o agente ser julgado em Timor-Leste, tendo-o sido anteriormente no lugar da prática do facto, atende-se à pena que já tenha sido cumprida no estrangeiro.
5. O regime previsto no número 2 não se aplica aos crimes identificados nas alíneas a) e b) do artigo anterior.
Observações
N. 1
A lei penal timorense aplica-se a factos ocorridos fora de Timor quando:
- O agente não tenha sido julgado, ou iniciado julgamento, e, ainda não exista decisão transitada. - Tendo sido condenado, começar a cumprir pena mas fugir durante a execução da mesma. N. 2
Mesmo que fosse aplicável a Lei de Timor, há a necessidade de se averiguar qual a lei mais favorável ao agente (a de Timor ou do país onde ocorreu o facto criminoso).
N. 3
Pode a sanção estrangeira ser transformada naquela que for mais semelhante na lei timorense, ou, não havendo equivalente, naquela que a lei penal pune o facto.
N. 4
No caso de julgamento em Timor,
E, tendo anteriormente ocorrido julgamento com condenação (no local da prática do facto). A pena que já tiver sido cumprida no estrangeiro é relevante em Timor (desconta-se o tempo que cumpriu da pena).
N. 5
O Princípio do tratamento mais favorável não se aplica para crimes da alínea a) e b) do art. 8 CP.
Notas
Direito comparado V. art. 6º.
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Artigo 10.º Aplicação subsidiária
Salvo disposição em contrário, as normas deste Código são aplicáveis aos factos puníveis por legislação especial.
Observações
O Código Penal aplica-se aos diplomas de natureza penal, naquilo que esses diplomas não regulem (salvo disposição em contrário).
Notas Direito comparado V. art. 8º. TÍTULO II DO CRIME CAPÍTULO I PRESSUPOSTOS GERAIS Artigo 11º Acção e omissão
1. Quando um tipo legal de crime compreender um certo resultado, o facto abrange não só a acção adequada a produzi-lo como a omissão da acção adequada a evitá-lo, salvo se outra for a intenção da lei.
2. A comissão de um resultado por omissão só é punível quando sobre o omitente recair um dever jurídico que pessoalmente o obrigue a evitar esse resultado.
3. No caso previsto no número anterior, a pena pode ser extraordinariamente atenuada.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 11 N. 1
Quando o crime exige um resultado específico (ex. morte de alguém é o resultado exigido para que haja crime de homicídio), o facto criminoso que gera o resultado típico (previsto no tipo de crime) pode ocorrer por acção ou omissão do agente (salvo se a lei expressamente tiver outra intenção).
N. 2
A existência de um resultado pelo facto de alguém não fazer uma acção (comissão por omissão), isto é, por omissão duma conduta que o evitasse, só é punível se existir um dever jurídico a obrigar o agente a evitar aquele resultado.
O dever jurídico pode surgir de várias formas: Exemplo:
Art.º 200.º Omissão de auxílio, neste caso o dever do agente tem origem na lei – Exemplo:
A senhora que toma conta de uma criança e não tem as devidas precauções para evitar a morte da criança quando esta se engasga com o leite do biberão, nem se preocupou em virá-la para a libertar da falta de ar, esta senhora viola o contrato que tem com os pais da criança.
Exemplo:
Atropelar alguém e não a socorrer, o dever era logo socorrer. Se a vítima acabar por ser socorrida por outrem é punido por omissão de auxílio – omissão pura, caso venha a ser detectado.
Embora, neste caso também possa ser acusado por ofensas à integridade física ou mesmo, se a vítima vier a falecer – omissão impura, crime de homicídio involuntário por omissão. Exemplo:
O nadador salvador que detém os meios para salvar um náufrago e não salva, nem cede o material para outro salvar (o agente controla o monopólio dos meios de salvamento). N. 3
Pode a pena ser atenuada extraordinariamente no caso anterior (do n. 2), não o é de forma automática.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 12 Notas Direito comparado V. art. 10º. Artigo 12º Responsabilidade criminal
1. A responsabilidade criminal pelas infracções previstas neste Código cabe às pessoas singulares e é intransmissível.
2. As pessoas colectivas só respondem criminalmente pelas infracções previstas neste Código ou em legislação especial quando e nas condições que a lei expressamente consagrar.
Observações
N. 1
As pessoas singulares são sempre passíveis de responsabilidade criminal, não sendo transmitida a responsabilidade criminal a qualquer herdeiro ou representante.
N. 2
As pessoas colectivas só são sujeitas a responsabilidade criminal se a lei expressamente prever tal responsabilização.
Notas
Direito comparado V. art. 11º.
Artigo 13º
Responsabilidade por actuação em nome de outrem
É punível quem actua como titular de um órgão de uma pessoa colectiva, ou mera associação de facto, ou como representante de outrem, ainda que se não verifiquem nele,
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mas sim na pessoa do representado, as condições, as qualidades ou as relações previstas no respectivo tipo de crime.
Observações
É punido directamente na respectiva pessoa:
- Aquele que age como titular de um órgão duma pessoa colectiva, ou associação de facto (ex. Presidente de Assembleia Geral).
- Aquele que age em nome de outra pessoa (representante legal),
Mesmo que as condições para a prática do crime, as qualidades do agente, ou as relaçoes necessárias para a prática só existam no representado.
Notas
Direito comparado V. art.12º.
Artigo 14º Imputação subjectiva
Só é punível o facto praticado com dolo, ou nos casos especialmente previstos na lei, com negligência.
Observações
Só os factos dolosos são punidos.
O Código Penal prevê sempre que o agente tem dolo na execução do crime (ex. Homicídio simples art. 138º e agravação, art. 139º).
Factos praticados a título de negligência, só são punidos se previstos na Lei (ex. art. 140º Homicídio negligente).
Note-se que a descrição do que é negligente está no art. 16º.
Notas
Direito comparado V. art. 13º.
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Artigo 15º Tipos de dolo
1. Age com dolo quem, representando um facto que preenche um tipo de crime, actuar com intenção de o realizar.
2. Age ainda com dolo quem representar a realização de um facto que preenche um tipo de crime como consequência necessária da sua conduta.
3. Quando a realização de um facto que preenche um tipo de crime for representada como consequência possível da conduta, há dolo se o agente actuar conformando-se com aquela realização.
Observações
N. 1
Tem dolo quem actua representando um facto tipico (pensando em fazer algo que sabe que está previsto num tipo de crime),
e age para concretizar um objectivo e, consegue obter o resultado que lhe interessava ter. Representa --- Age --- obtém resultado pretendido (Dolo Directo)
Exemplo:
Manuel decide matar António.
Espera-o à porta de casa e, quando o vê, aponta a espingarda à cabeça de António e dispara. Consequência do tiro António morre.
Existe uma relação directa entre aquilo que Manuel quer alcançar e aquilo que ele faz. A vontade de Manuel é imediatamente dirigida à morte de António.
N. 2
Existe dolo também no agente que representa (pensa) a execução dum facto e age, sabendo que o resultado da sua conduta necessariamente é ilegal.
Representa --- Age --- resultado é consequência da sua conduta (Dolo necessário) Exemplo:
António decide matar Raimundo, como?
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 15 Assim coloca uma bomba relógio no carro.
A bomba explode matando Raimundo e Tito. A finalidade da acção de António?
É a morte de Raimundo.
Mas, António aceita como consequência necessária da explosão: a morte do filho de Raimundo.
Conclusão:
António Tem dolo directo face Raimundo
António tem dolo necessário face o filho de Raimundo (Tito). N. 3
Tem dolo aquele que representa (pensa) a execução dum facto, e age, sabendo que, talvez/possivelmente, a sua acção possa ser considerada criminosa face o resultado produzido. Se o resultado tipico ocorrer, o agente aceita tal resultado, conforma-se.
Representa---Age---conforma-se com resultado (Dolo eventual)
Carlos aposta com Vitor que é capaz de andar de mota só com uma mão.
Carlos sabe que nunca andou de mota com uma mão apenas, e que é uma rua onde passam bastantes pessoas.
Carlos não quer magoar ninguém porque quer ganhar a aposta. Não tem por isso dolo directo de ofensas corporais.
Também não tem dolo necessário de ofensas corporais porque ele não aceita como fortemente provável atingir alguém que esteja a passar na rua quando ele ande na mota só com uma mão.
O risco de perder a aposta seria grande.
No entanto, em virtude da pouca experiência a andar de mota, e das pessoas que andam na rua, Carlos bateu num peão magoando-o no braço.
Carlos aceitou o risco de bater num peão.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 16 Notas Direito comparado V. art. 14º. Artigo 16º Tipos de negligência
1. Age com negligência quem, por não proceder com o cuidado a que, segundo as circunstâncias, está obrigado e é capaz:
a) Representar como possível a realização de um facto que preenche um tipo de crime mas actuar sem se conformar com essa realização; ou
b) Não chegar sequer a representar a possibilidade de realização do facto.
2. Os tipos de negligência referidos no número anterior assumem a forma de negligência grosseira sempre que as circunstâncias mostrem que o agente actuou com ligeireza ou temeridade, não observando os elementares deveres de prudência que no caso se impunham.
Observações
N. 1
Quem pelo facto de não agir com o cuidado exigivel para a situação em concreto: a) Pensa que é possível ocorrer um facto mas, age a pensar que ele não acontece. b) Não pensa sequer que pode acontecer um resultado, simplesmente age.
N. 2
Surge a figura da negligência grosseira quando uma das alíneas do número anterior é preenchida, mas o agente desrespeita deveres elementares de prudência (ex. uma Ama tem o dever de vigiar uma criança), o que torna mais censurável a sua atitude descuidada.
Retome-se o exemplo anterior com algumas alterações:- Carlos é agora um excelente motoqueiro.
Apesar disso ele acerta num peão a passar na rua. A atitude mental de Carlos é diferente.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 17 Não actua por isso com dolo eventual.
Carlos não tem por isso vontade de atingir fisicamente o transeunte. Ele age com negligência consciente.
O crime que pratica já não é o de ofensa corporal com dolo eventual.
Mas sim, o do art.º 148.º, n.º 1, do CP (Ofensa à Integridade Física por Negligência.
Também tem negligência grosseira a pessoa que age sem pensar no que faz! Exemplo B
Carlos vai a andar de mota na rua em direcção ao Timor Plaza, pela Avenida das Embaixadas,
Vai a olhar para o mar e, não vê o Joaquim que vai atravessar a estrada. Carlos não respeita o dever cuidado a conduzir a que está obrigado. Pratica assim, uma ofensa corporal negligente Art.º 148.º do CP.
A negligência é neste caso inconsciente, porque não vê Joaquim a atravessar a estrada. Carlos não prevê sequer a possibilidade de o atropelar.
Diferentemente das situações de negligência consciente, em que o agente prevê a possibilidade do resultado, na negligência inconsciente o agente não representa a possibilidade do resultado ocorrer.
Contudo, apesar de não haver previsão da prática do crime, estamos ainda no domínio da Culpa do agente.
Notas
Direito comparado V. art. 15º
Para negligência grosseira, está prevista a figura em relação a alguns crimes, ex. 137º, n. 2; 274º, n. 5; 351º e 369º, n. 5.
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Artigo 17º
Erro sobre as circunstâncias
1. O erro sobre os elementos de facto ou de direito de um tipo legal de crime, assim como o erro sobre proibições cujo conhecimento seja razoavelmente indispensável para que o agente possa tomar consciência da ilicitude, exclui o dolo.
2. O regime previsto no número anterior inclui o erro sobre a existência dos pressupostos de uma causa de exclusão da ilicitude ou da culpa.
3. Fica ressalvada a punibilidade da conduta negligente sempre que a lei a preveja e se verifiquem os respectivos pressupostos.
Observações
N. 1
Exclui-se o dolo quando o agente actua convencido de circunstâncias que não existem. O erro pode surgir em relação a:
- Elementos de facto (de um tipo de crime) - Elementos de direito (de um tipo de crime)
- Proibições (o erro só é relevante quando o conhecimento da proibição é minimamente exigivel para que o agente se aperceba da ilicitude).
O erro é a representação mental de uma falsa realidade.
Pode ser em relação a objecto, pessoas ou proibições (formas de erro). N. 2
Exclui-se igualmente o dolo do agente quando age errado sobre: - Pressupostos das causas de exclusão da ilicitude
- Pressupostos das causas de exclusão da culpa N. 3
Pode o agente ser punido a título de negligência desde que esta punição seja prevista no tipo de crime.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 19 Exemplo:
Gerónimo vai à caça.
Ao pensar que está um javali atrás de um arbusto, dispara e mata um caçador. Hipótese:
Deve Gerónimo ser punido da mesma forma que o indivíduo A que dispara sobre B para o matar, porque B teve um caso com a mulher de A?
Não, apesar do resultado Morte, o motivo e causa são diferentes nas situações, porque no exemplo do caçador não existe motivo para matar o colega caçador.
Houve uma causa da morte, que foi a confusão do barulho nos arbustos que deu a ideia de existir um javali.
Notas
Direito comparado V. art. 16º.
Artigo 18º Erro sobre a ilicitude
1. O desconhecimento da lei não exclui a ilicitude da conduta que a viole. 2. O erro sobre a ilicitude de um facto, se for inevitável, exclui a culpa.
3. Se o erro sobre a ilicitude for evitável, pode a pena ser extraordinariamente atenuada.
Observações
N. 1
O desconhecimento da existência duma lei não impede a conduta do agente de ser ilegal quando viole essa lei.
N. 2
Exclui-se a culpa se o erro do agente sobre a ilegalidade do facto for inevitável no caso concreto. N. 3
Pune-se o agente, mas atenua-se extraordinariamente a pena, quando o erro do agente sobre a ilicitude do facto for evitável.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 20 Erro de facto – o agente pensa que não existem elementos objectivos do Tipo.
Tem uma visão errada sobre as circunstâncias do facto. Exemplo:
João vai à discoteca e vê uma rapariga bonita, conversam e ela gosta dele. Vão para o Hotel e têm relações sexuais.
Mas ela tinha 15 anos! Parece mais velha porque tem corpo de mulher adulta!
O João errou em relação a um elemento constitutivo do tipo: errou acerca da idade da rapariga. A idade é um elemento constitutivo do tipo legal do crime, faz parte integrante e necessária da definição do crime.
Erro de direito – O indivíduo conhece perfeitamente a realidade dos factos, mas desconhece ou conhece mal a regra jurídica aplicável. É um erro sobre as proibições.
Exemplo:
- Mário desconhece que é proibido fazer cópias de “software” e, desconhecendo essa proibição, pega no programa que comprou e faz uma cópia e vende-a.
- Também a vulgar situação dos alunos que tiram fotocópias de livros (Direitos de Autor).
No art. 17º não há consciência da ilicitude.
No art.18º o agente tem consciência do acto mas não considera que ele seja punível.
Notas
Direito comparado V. art. 16º, art. 17º.
Artigo 19º
Agravação pelo resultado
Quando a pena aplicável a um facto for agravada em função da produção de um resultado, a agravação é sempre condicionada pela possibilidade de imputação desse resultado ao agente pelo menos a título de negligência.
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Observações
Existe uma pena para um facto, mas ocorrem por vezes resultados que agravam a pena aplicada a esse facto (facto base + resultado suplementar).
Estamos no campo dos crimes preterintencionais, aqueles onde o resultado que o agente tem é mais do que o que queria ter, ou onde o resultado objectivo é maior do que o pensado pelo agente, na intenção do agente ao cometer o crime.
São crimes agravados, e esta agravação é importante penalmente quando: O resultado é imputável ao agente, pelo menos, a título de negligência. Exemplo:
Art. 147º “Agravação” é um crime preterintencional porque tem um resultado “que acresce” ao resultado que existe no crime base que é o do art. 146º “Ofensas Corporais à integridade física”.
Notas
Direito comparado V. art. 18º.
Artigo 20º
Inimputabilidade em razão da idade
1. Os menores de 16 anos de idade são penalmente inimputáveis.
2. Aos jovens maiores de 16 e menores de 21 anos de idade aplicam-se as disposições do presente diploma em tudo o que for omisso em legislação autónoma, relativamente à aplicação e execução das sanções criminais.
Observações
N. 1
Menores de 16 anos não são punidos criminalmente. N. 2
Maior de 16 e menores de 21 aplica-se regime especial, e no que este não prever regula o código penal.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 22 Notas Direito comparado V. art. 19º. V. art. 9º. Artigo 21º
Inimputabilidade em razão de anomalia psíquica
1. É inimputável quem, por força de uma anomalia psíquica, for incapaz, no momento da prática do facto, de avaliar a ilicitude deste ou de se determinar de acordo com essa avaliação.
2. Pode ser declarado inimputável quem, por força de anomalia psíquica, tiver, sensivelmente diminuída, a capacidade para avaliar a ilicitude no momento da prática do facto ou para se determinar de acordo com essa avaliação.
3. A comprovada incapacidade do agente para ser influenciado pelas penas pode constituir índice da situação prevista no número anterior.
4. A imputabilidade não é excluída quando a anomalia psíquica tiver sido provocada pelo agente com intenção de praticar o facto.
Observações
N. 1
É inimputável quem, por força de anomalia psiquica:
- É incapaz de avaliar a ilicitude de uma conduta (de o que faz é contra a Lei) no momento em que a executa.
- É capaz de avaliar a ilicitude (sabe que o que faz é contra a lei, ou não) mas não consegue decidir de forma correcta que atitude ter, face essa avaliação.
N. 2
É igualmente inimputável quem, por força de anomalia psiquica, tiver sensivelmente reduzida a sua capacidade de avaliação ou de autodeterminação.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 23 Exemplo:
Manuel é Bipolar, entra em estado de “euforia” (muita agitação incontrolável) comete um crime de dano, partindo o vidro do carro do vizinho quando sai de casa.
N. 3
O facto de o agente não ser afectado por ser punido com uma sanção penal, pode ser indício da incapacidade sensivelmente reduzida.
N. 4
Quando o agente, de propósito se coloca numa situação de anomalia psíquica de forma a cometer crimes, deve ser punido.
Exemplo:
Álvaro toma comprimidos de ecstasy sabendo que sob efeito destes consegue ir assaltar uma loja de bebidas depois de esta fechar.
Notas Direito comparado V. art. 20º. CAPÍTULO II FORMAS DO CRIME Artigo 22º Actos preparatórios
Os actos preparatórios não são puníveis, salvo disposição legal em contrário.
Observações
Acto preparatório só tem relevância penal se a lei expressamente o prever. Exemplo 1:
Art. 131º, n. 5 CP - “Organizações Terroristas” um acto preparatório pode ser a mobilização de aderentes à organização (neste caso concreto é punido com a pena reduzida a metade nos limites mínimo e máximo).
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 24 Exemplo 2:
A vai buscar uma escada para mais tarde subir a uma janela aberta e assaltar uma casa. Neste caso concreto ir buscar a escada é um acto preparatório pois possibilita a execução propriamente dita, mas não constitui ainda um perigo efectivo da prática do crime.
Não é punido. Notas Direito comparado V. art. 21º. Artigo 23º Tentativa
Há tentativa quando o agente inicia a execução de um crime que decidiu cometer, praticando parte ou todos os actos objectivamente adequados a produzir o resultado e este se não verifica por circunstâncias alheias à sua vontade.
Observações
Agente inicia a execução do crime mas não se produz o resultado tipico do crime que o agente ia executar, por motivos alheios ao agente.
Exemplo:
Maria dispara um tiro com intenção de matar Ana, mas o tiro apenas fere Ana num braço, existe aqui uma tentativa de homicídio:
- Maria pratica actos de execução, actos adequados a produzir um resultado ilícito (foi buscar uma arma, carregou a arma, apontou).
- De um crime que decidiu cometer (ao dar o tiro queria a morte de Ana - crime de homicídio);
- O resultado típico não chega a ocorrer (morte de Ana), apesar da vontade de matar existir (“são circunstâncias alheias” á vontade de Maria - a sua fraca pontaria).
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 25 Nisto consiste a tentativa.
As tentativas são sempre dolosas.
Notas
Direito comparado V. art. 22º.
Artigo 24º
Punibilidade da tentativa
1. A tentativa só é punível nos crimes dolosos a que corresponda pena de prisão cujo limite máximo seja superior a 3 anos e nos demais casos que a lei expressamente determinar. 2. Salvo disposição em contrário, a tentativa é punível com a pena correspondente ao crime consumado extraordinariamente atenuada.
Observações
N. 1
A tentativa é punida quando:
- Ocorra nos crimes com pena abstracta superior a 3 anos no seu limite máximo. - Seja expressamente prevista na Lei essa punição.
N. 2
Aplica-se a moldura penal abstracta prevista no tipo mas, atenuada extraordinariamente.
Exemplo:
Um crime consumado com limite máximo de 12 anos de prisão.
A tentativa deste crime é punida até ao máximo de 8 anos (porque tem redução no limite máximo da moldura abstracta da pena de 1/3 nos termos do art. 57º, n. 1 alínea a)).
Notas
Direito comparado V. art. 23º, n. 1 e 2.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 26
Artigo 25º Tentativa não punível
A tentativa não é punível quando for manifesta a inaptidão do meio empregado pelo agente ou a inexistência do objecto essencial à consumação do crime.
Observações
Não acontece a punição da tentativa quando:
- For claro que o meio usado pelo agente não é apto a causar o resultado que quer obter. - Quando não existir no caso concreto o objecto essencial para o crime ser consumado.
Exemplo 1:
A quer matar B e, utiliza várias pedras muito pequenas que lhe vai atirando mas que não dão sequer para magoar B!
A fez uma tentativa impossível por referência à manifesta inaptidão do meio empregue. As pedras pequeninas não dão para matar ninguém, nem para magoar.
O estado de raiva de A sobre B é que era tanta que agarrou o que tinha para tentar matar B!
Ou seja, claramente o que o agente usa não serve para produzir o resultado do crime, daí que se diga que é uma tentativa não punida.
Exemplo 2:
Antonina pensa que está grávida. Quer abortar e bebe um chá de ervas. Só que, ela não está grávida.
Esta, é uma tentativa impossível de crime de aborto, por inexistência do objecto do facto. Se Antonina não está grávida, não consegue abortar!
Consequentemente, se não existe objecto do crime – o feto - não existe tentativa de crime.
Notas
Direito comparado V. art. 23º, n. 3.
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Artigo 26º Desistência voluntária
Não é punível a tentativa daquele que voluntariamente desistir de prosseguir na execução do crime, impedir a consumação ou verificação do resultado, ou se esforçar seriamente por impedir uma ou outra.
Observações
Não se pune o agente que efectua a tentativa quando: A)- O agente desiste de cometer o crime
B)- O agente impede a consumação do crime ou, a ocorrência do resultado C)- Se esforça para impedir a consumação ou ocorrência do resultado
Notas
Direito comparado V. art. 24º.
Artigo 27º
Casos de comparticipação
Em caso de comparticipação, não é punível a tentativa aquele que voluntariamente desistir de prosseguir na execução do crime, impedir a consumação ou verificação do resultado, ou se esforçar seriamente por impedir uma ou outra, mesmo que os outros comparticipantes prossigam na execução do facto ou o consumem.
Observações
- A desistência tem de ser livre, voluntária, espontânea. Se o agente foi obrigado a desistir, a sua conduta continuará a ser punível.
- Para que não seja punido é necessário que consiga evitar o resultado, mesmo com recurso a terceiros.
Está-se no domínio da tentativa acabada (o agente praticou todos os actos de execução que deveriam produzir como resultado o crime consumado).
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 28 - Os crimes formais são realizados independentemente da produção do resultado (são os crimes de mera actividade quando praticados por acção, e omissões puras, quando praticados por omissão).
Nestes casos, o agente quando evita o resultado tipificado na lei, não é punido.
Notas
Direito comparado V. art. 25º.
Artigo 28º
Arrependimento posterior
Nos crimes sem violência ou grave ameaça contra as pessoas, reparado o dano, restituída a coisa ou legalizada a situação antes de efectuada participação ou recebida a denúncia ou a queixa, a pena pode ser extraordinariamente atenuada ou, consoante as circunstâncias, o agente isento de pena.
Observações
Considera-se que o agente se arrepende quando: - Nos crimes sem violência;
- Nos crimes de grave ameaça para pessoas; O agente:
- Repare o dano que causou - Restitua a coisa que retirou
- Legalize a a situação antes de efectuada a participação, ou recebida a denúncia ou a queixa.
Nestes casos pode a pena ser extraordinariamente atenuada ou mesmo, o agente ser isento de pena.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 29 Direito comparado V. art. 72º, n. 2, alínea c). CAPÍTULO III AGENTES DO CRIME Artigo 29º Agentes
A participação na prática de um crime pode revestir a forma de autoria, instigação ou cumplicidade e podem ser vários os comparticipantes do mesmo facto.
Observações
É agente quem pratica um facto criminoso sob a forma de autoria, instigação ou cumplicidade, sózinho ou acompanhado.
Exemplo
- Belarmino empurra José contra a parede para o magoar;
- Jonas diz a António para ele atirar num arbusto porque está lá um javali. Afinal, nesse arbusto está jerónimo, e só Jonas é que sabe quem lá está.
- Diogo incita Telmo, que é inimputável por sofrer de uma anomalia psíquica grave, a furtar um objecto da montra duma loja.
Autor Mediato é o que está por trás da prática do facto e este tem o domínio do facto, é este que é punido.
Quem executa o facto é um simples meio para o autor mediato atingir um fim
Nos exemplos fornecidos, Belarmino, Jonas e Diogo controlam a situação, são os autores. António e Telmo, são meros executantes do crime.
António é induzido em erro. Jonas serve-se do seu desconhecimento acerca da presença de Jerónimo.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 30 Finalmente, Telmo é usado por ser inimputável, por não ter capacidade para avaliar o significado do facto que pratica.
Notas
Direito comparado V. art. 26º.
V. art. 26º, última parte. V. art 27º.
Artigo 30º Autoria
1. É autor quem executa o facto, por si mesmo ou por intermédio de outrem, de que se serve como instrumento.
2. São co-autores se, por acordo tácito ou expresso, tomarem parte directa na execução ou actuarem em conjugação de esforços para a prática do mesmo crime.
Observações
N. 1
Considera-se autor quem executa um facto: - Por si mesmo
- Utilizando outras pessoas N. 2
É co-autor aquele que que acompanhado por outro (s) individuo (s): - De acordo tácito ou expresso com o (s) outro (s)
- Executarem um crime
- Agirem com o objectivo de praticar o crime
Exemplo 1:
Pedro e Adalberto, decidem assaltar uma colectividade. Pedro desliga o alarme, Adalberto entra pela janela. Exemplo 2:
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 31 Em relação ao caso do condutor de um veículo que aguarda a chegada de outros dois indivíduos que foram assaltar um banco, este é co-autor ou cúmplice?
A resposta exacta depende do conjunto de circunstâncias, objectivas e subjectivas, que determina a actuação do condutor, mas, o certo é que ele toma parte efectiva e directa num momento da execução do crime, designadamente no momento da fuga.
Notas
Direito comparado V. art. 26º.
Artigo 31º Instigação
É punível como autor quem determina directa e dolosamente outrem à prática de crime, desde que haja execução ou começo da execução do crime.
Observações
Considera-se instigador quem convence outrem, de propósito (de forma directa) e, dolosa, para efectuar um crime.
Para haver punição da instigação é necessário que haja começo de execução do crime.
Exemplo:
Humberto no café, conversa com Teófilo, e propõe dar-lhe 15 000 USD se ele matar João Teófilo aceita e mata João.
Com proposta de dar dinheiro, Humberto instiga, convence Teófilo a matar João. Faz aparecer em Teófilo a vontade de cometer intencional e dolosamente um crime. Humberto não tem a ver directamente com a execução do crime.
Quem controla a execução do crime (tem o domínio do facto) é Teófilo. Por isso, este artigo equipara a instigação à autoria para efeitos de punibilidade. Humberto é autor mediato porque está por trás da prática do facto criminoso.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 32
Notas
Direito comparado
V. art. 26º, última parte: “ (...) e ainda quem, dolosamente (...) começo de execução”
Artigo 32º Cumplicidade
1. É punível como cúmplice quem, dolosamente ajudar material ou moralmente outrem a praticar um crime.
2. É aplicável ao cúmplice a pena correspondente ao tipo de ilícito, extraordinariamente atenuada.
Observações
N. 1
Cúmplice é aquele que ajuda alguém na prática de um crime, dando apoio material ou mesmo, com apoio moral.
N. 2
Pune-se com base na moldura correspondente ao crime, embora extraordinariamente atenuada. Os graus de atenuação extraordinária constam do art. 57º.
Exemplo:
- Badardino quer matar diogolino, e quer fazê-lo com uma espada samurai! Pede uma espada samurai a Georgino.
Georgino empresta-lhe a espada sabendo que Badardino quer matar Diogolino, Ora, Georgino não tem o domínio do facto criminoso!
É punido como cúmplice moral do homicídio.
Notas
Direito comparado V. art. 27º
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 33
Artigo 33º
Culpa na comparticipação
Cada comparticipante é punido segundo a sua culpa, independentemente da punição ou do grau de culpa dos outros.
Observações
Cada um é punido de acordo com o que em concreto teve intenção de fazer, e fez no crime.
Notas
Direito comparado V. art. 29º.
Artigo 34º
Ilicitude na comparticipação
1. Se a ilicitude ou o grau de ilicitude do facto dependerem de certas qualidades ou relações especiais do agente, basta que essas qualidades ou relações se verifiquem em qualquer deles, para tornar aplicável a todos os comparticipantes a pena respectiva, excepto se for outra a intenção da norma incriminadora.
2. Sempre que, por efeito da regra prevista no número anterior, resultar para algum dos comparticipantes a aplicação de pena mais grave, pode esta, consideradas as circunstâncias do caso, ser substituída por aquela que teria lugar se tal regra não interviesse.
Observações
N.1
A lei para considerar alguns factos como ilicitos ou para graduar a ilicitude do facto exige uma qualidade especifica do agente ou, relação especial.
Na comparticipação, basta que um comparticipante tenha essa “certa qualidade ou relação especial” para que todos os comparticipantes possam ser punidos como se tivessem essa qualidade/relação especial, salvo se for outra a intenção da lei.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 34 N. 2
Se da regra do número 1, for aplicada uma pena mais grave para algum dos comparticipantes, pode a pena ser substituida por aquela que teria lugar se não houvesse a agravação em função da qualidade/relação especial do agente.
Exemplo.
Um filho mata o pai.
Pra matar conta com a ajuda de um amigo.
A relação de parentesco só existe no filho, mas o amigo vai ser punido de acordo com o crime de homicídio agravado p.p. art. 139º, al. G), que se aplica ao autor.
Notas
Direito comparado V. art. 28º.
CAPÍTULO IV
CONCURSOS E CRIMES CONTINUADOS
Artigo 35º Concurso de crimes
1. O número de crimes determina-se pelo número de tipos de crimes efectivamente cometidos, ou pelo número de vezes que o mesmo tipo for preenchido pela conduta do agente.
2. Para efeito do que dispõe o artigo seguinte considera-se como concurso o caso em que o agente, tendo praticado um crime, comete outro antes de ter sido condenado por decisão transitada em julgado.
Observações
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 35 Concurso de crimes ocorre quando o agente pratica vários crimes.
Os critérios para saber se existe concurso de crimes são: - O número de tipos de crimes praticados
- O número de vezes que o mesmo tipo de crime é praticado. N. 2
Quando o agente pratica um crime, e está a ser julgado por ele, e depois comete outro crime, pode-se considerar a aplicação das regras do concurso de crimes, desde que não haja decisão transitada em julgado.
Este artigo visa dar resposta ao problema da contagem no número de crimes praticados pelo agente.
O comportamento do agente poderá preencher apenas um tipo legal de crime, ou uma pluralidade de infracções.
Notas
Direito comparado V. art. 30º, n. 1.
Artigo 36º
Punição em caso de concurso
1. Em caso de concurso de crimes, é aplicada uma pena única, cujo limite mínimo corresponde à mais elevada das penas concretamente aplicadas aos vários crimes e o limite máximo à soma material das diversas penas parcelares.
2. O limite máximo da moldura do concurso não pode exceder 600 dias para a multa ou 30 anos para a prisão, mesmo nos casos em que a soma material das penas parcelares ultrapassar esse limite legal.
3. Na determinação da pena única o tribunal considera, em conjunto, os factos e a personalidade do agente.
Observações
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 36 Para concurso de crimes aplica-se uma pena única, onde:
Limite minimo – pena mais grave dos crimes em que se condena o arguido. Limite máximo – soma das várias penas em que se condena o arguido. N. 2
A soma das penas, limite máximo a aplicar ao arguido não pode ser superior a: - 30 anos de prisão
- 600 dias de multa N. 3
Para aplicação da pena no concurso de crimes é considerado em conjunto, ao mesmo tempo, os factos e a personalidade do agente.
Para a punição do concurso efectivo, existe a fixação de uma pena por cada crime e depois existe a unificação das mesmas numa única pena (que no caso de penas de prisão, essa soma não poderá ultrapassar os 30 anos e na multa os 600 dias).
O crime continuado reduz a culpa do agente, pelo que a punição tem em conta a redução dessa mesma pena. Notas Direito comparado V. art. 77º, n. 1 e 2. Artigo 37º Concurso de sanções
1. Se as penas aplicadas forem umas de multa e outras de prisão, mantém-se a diferente natureza destas.
2. As penas acessórias e as medidas de segurança, mesmo que previstas por uma só das leis aplicáveis ou numa só das decisões anteriores, mantêm-se.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 37
Observações
N. 1
As penas de multa e de prisão em que se condene o arguido não são misturáveis, mantêm a sua diferente natureza.
N. 2
As penas acessórias e medidas de segurança que tenham sido aplicadas ao arguido/condenado em concurso também se mantêm.
Notas
Direito comparado V. art. 77º, n. 3 e 4.
Artigo 38º
Pena de prisão com execução suspensa em cúmulo jurídico
A pena de prisão com execução suspensa só pode cumular-se juridicamente com outras penas de prisão quando:
a) Se tratar igualmente de penas de prisão suspensas na sua execução e a cumulação referida não obstar à continuação do regime de suspensão da pena única;
b) Tratando-se de cumulação com penas de prisão efectiva, existirem circunstâncias que determinem a revogação da suspensão da execução da pena, independentemente da cumulação de penas;
c) As penas suspensas a cumular tiverem diferentes períodos de suspensão ou, sendo iguais, se encontrarem em distintas fases de cumprimento e o tribunal estabelecer um período de suspensão único de acordo com as necessidades de prevenção e as circunstâncias do caso.
Observações
A pena suspensa só se cumula com outras penas quando: - Forem várias penas suspensas, num único regime.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 38 - Existirem circunstâncias que revoguem a pena suspensa e aí o agente tem mesmo ir para a cadeia, fazendo cúmulo da pena que estava suspensa com aquela em que o agente foi condenado em prisão efectiva.
- Existirem diversas penas suspensas com vários períodos e o cúmulo permitir um período único.
Notas
Direito comparado V. art. 50º.
Artigo 39º
Conhecimento superveniente do concurso
Se, depois de uma decisão transitada em julgado, mas antes de a respectiva pena estar cumprida, prescrita ou extinta, houver conhecimento que o agente se encontrava numa das situações descritas nos artigos anteriores aplicam-se as regras aí consagradas.
Observações
Quando um arguido é condenado e a decisão transita em julgado: - Antes de a pena estar cumprida, prescrita ou extinta,
- Se vem a saber que o agente está numa situação de concurso de crimes, - Aplicam-se as regras para cálculo da pena única.
Notas
Direito comparado V. art. 78º.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 39
Artigo 40º
Crime e outra infracção
Se o mesmo facto constituir simultaneamente crime e contra-ordenação, o agente é punido a título de crime, sem prejuízo da aplicação das sanções acessórias previstas para as outras infracções.
Observações
Existem situações onde o facto executado pelo arguido é punido como crime e contraordenação. Pune-se o arguido:
- Pelo crime - com penas do código ou lei especial
- Pela (outra) infracção - com sanção acessória que couber ao caso concreto.
Exemplo:
A vai a uma festa de amigos, bebe cerveja e Gin Tónico, embriaga-se.
Numa operação STOP é mandado parar, sopra no balão e acusa 1,5 de taxa de alcoolémia.
Comete o crime de condução em estado de embriaguez, e, viola as regras do Código de Estrada, pelo que tem contraordenação pela infracção.
Notas
Direito comparado V. art. 65º, n. 2.
Artigo 41º Crime continuado
1. Salvo tratando-se de crimes que protejam bens eminentemente pessoais, constitui um só crime continuado a realização plúrima do mesmo tipo de crime ou de vários tipos de crime que fundamentalmente protejam o mesmo bem jurídico, executada por forma
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 40
essencialmente homogénea e no quadro de solicitação de uma mesma situação exterior que diminua consideravelmente a culpa do agente.
2. O crime continuado é punível com a pena aplicável à conduta mais grave que integrar a continuação.
Observações
É crime continuado (ou seja, considera-se que o agente apenas comete um crime e não vários crimes) quando:
- Perante bens jurídicos que não sejam eminentemente pessoais: - O arguido pratica várias vezes o mesmo tipo de crime
- o arguido executa vários tipos de crime ofensivos do mesmo bem jurídico
- Execução dos crimes é homogénea, existe uma conexão nas várias acções ilicitas. - Num contexto real onde, no caso concreto, se entende que o agente tem uma culpa reduzida.
Concurso aparente – Exemplo:
- Armando assalta uma casa, para entrar arrombou a porta, entrou e depois viu um cofre, arrombou a porta do cofre, e retirou um colar de pérolas.
Aparentemente poderia dizer-se que cometeu dois crimes de dano (art. 258º) - arrombamentos, um de violação de domicílio (art. 185º) e outro de furto (art. 251º). No entanto será só punido pelo crime de furto qualificado (art. 252º, n. 1, al. F)). A conduta viola várias normas mas será punido só por uma que absorve as restantes.
Teoricamente comete vários crimes diferentes mas uma só norma é violada, sendo condenado por um só.
Não há crime continuado mas sim concurso de crimes quando são violados bens jurídicos eminentemente pessoais (vida, integridade física, honra, liberdade).
Exemplo: O crime de sequestro estão em causa valores pessoais (liberdade), por isso se estiverem sequestradas ao mesmo tempo 3 pessoas há três crimes de sequestro.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 41 Exemplo: envenenar a comida numa refeição e matar 3 pessoas, há três crimes de homicídio porque foram ofendidos bens pessoais (a vida).
Exemplo: Chamar nomes “feios” ofensivos, a várias pessoas ao mesmo tempo, há vários crimes de injúrias, consoante as pessoas que foram ofendidas/ injuriadas.
Notas
Direito comparado V. art. 30º, n. 2
Artigo 42º Concurso de normas
Ao facto susceptível de ser qualificado como crime, no todo ou em parte, por mais de uma disposição legal, não se tratando das situações descritas nos artigos anteriores, é aplicada uma só norma incriminadora conforme as seguintes regras:
a) A norma especial aplica-se em prejuízo da norma geral; b) A norma subsidiária prefere à norma principal;
c) A norma mais ampla e complexa consome a que prevê factos subsumíveis na sua previsão.
Observações
Salvo os casos dos artigos anteriores, tem de se aplicar uma só norma ao facto tipico. As regras para se fixar a norma aplicável são:
- Norma especial aplica-se (e não a norma geral).
Especialidade – um dos tipos aplicáveis (tipo especial) incorpora os elementos essenciais de um outro tipo, também aplicável abstractamente (tipo fundamental), acrescentando elementos suplementares ou especiais referentes àquele facto ou ao próprio agente.
Exemplo: O artigo 132.º (homicídio qualificado), ou 133.º (homicídio privilegiado), relativamente ao artigo 131.º (homicídio);
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 42 - Norma subsidiária aplica-se (e não a norma principal)
Subsidiariedade – certas normas só se aplicam subsidiariamente, ou seja, quando o facto não é punido por uma outra norma mais grave.
Casos há, na verdade, em que a lei expressamente condiciona a aplicação de um preceito à não aplicação de outra norma mais grave
Exemplo:
As normas que punem expressamente actos preparatórios de crimes em relação aos crimes cujo preenchimento eles visam.
- Norma mais ampla e/ou complexa aplica-se (e não a norma mais restrita/simples) Este artigo refere-se ao concurso aparente.
Consumpção – o preenchimento de um tipo legal (mais grave) inclui o preenchimento de um outro tipo legal (menos grave) – devendo a maior ou menor gravidade ser encontrada na especificidade do caso concreto.
Exemplo que vimos do assalto à casa:
- Armando assalta uma casa, para entrar arrombou a porta, entrou e depois viu um cofre, arrobou a porta do cofre, e retirou um colar de pérolas.
Furto qualificado – art.º 252º, n. 1, al. F), Violação do domicílio – art. 185º e Dano – art. 258º:
O agente aqui será punido pelo facto mais grave -art.º 252º, n. 1, al. f), e por força dos princípios “ne bis in idem”, não será punido duas vezes pelo mesmo facto e “lex consumens derogat lex consumate”.
O facto mais grave “consome” (Consumpção) o facto menos grave.
Notas Direito comparado V. art. 30º, n. 1. CAPÍTULO V CAUSAS DE EXCLUSÃO SECÇÃO I
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 43
CAUSAS DE EXCLUSÃO DA ILICITUDE
Artigo 43º Exclusão da ilicitude
1. O facto não é criminalmente punível quando a sua ilicitude for excluída pela ordem jurídica considerada na sua totalidade.
2. Nomeadamente, não é ilícito o facto praticado no exercício de um direito ou no cumprimento de um dever, em legítima defesa, em estado de necessidade justificante ou mediante consentimento.
Observações
N.1 – A ordem jurídica pode excluir a ilicitude de um facto, e nesse caso ele não é punível, basta que um ramo de direito considere o facto como legal para que o Dt. Penal não o possa punir. N.2 – Indicam-se alguns exemplos de causas de exclusão da ilicitude.
O Direito Penal é a última fronteira para permissão de factos, assim desde que, por exemplo, o Código civil permita que um cidadão tenha um comportamento, que o direito penal já não o deverá punir.
Se para um ramo do direito (civil, fiscal, laboral, comercial, etc.) o facto é válido, então esse facto não deve ser punido pelo direito penal.
Exemplos:
Numa busca, viola-se a propriedade de alguém, contudo esse facto é justificado se existir um Mandado de Busca emanado por um Juiz.
-Quando se detêm alguém, à partida estamos a violar o seu direito à liberdade, contudo a Lei Constitucional, Lei Processual Penal e Lei Penal, permite face o comportamento da pessoa.
- Quando a Polícia age em conformidade com a Lei, porque pode e deve, poderá estar a desrespeitar direitos de alguém, contudo essa “violação” é permitida porque existem razões para que tal aconteça.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 44 Notas Direito comparado V. art. 31º. Artigo 44º Legítima defesa
Considera-se legítima defesa a actuação do agente necessária ao afastamento de uma agressão ilícita, iminente ou actual, a quaisquer interesses juridicamente protegidos do agente ou de terceiro.
Observações
Existe legítima defesa quando o agente age para afastar: - Uma agressão ilegal contra ele
- Iminente ou que está a já a ocorrer.
- Que afecta um interesse jurídico protegido pela Lei - Sendo titular do direito o agente ou terceiro.
Exemplo:
João envolve-se em discussão com Baltazar.
A certa altura, para impedir que João o agrida com um soco, Baltazar dá-lhe com uma cadeira nas pernas.
Ora, apesar de a conduta de Baltazar caber no tipo de ofensas à integridade física simples, do Art. 145º, n.º 1, do C. Penal, ela não é ilícita porque visa afastar de forma adequada, ou seja, não excessiva, a agressão actual e ilícita de João.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 45 - Baltazar protege um bem pessoal (a sua integridade física) à custa de outro interesse juridicamente protegido (a integridade física de João), mas defende o Direito perante o ilícito, impedindo que uma agressão ilícita atinja o seu objectivo.
- É este último aspecto que torna o interesse protegido por Baltazar superior ao interesse sacrificado:- Baltazar defende-se e defende o Direito, ele faz a vez da autoridade pública.
É preciso, que não exista uma desproporção grande entre o interesse sacrificado e o interesse defendido.
- Por isso que, por exemplo, se considere que causar a morte em defesa exclusiva de bens patrimoniais não constitui legítima defesa dada a desproporção entre os bens jurídicos.
- É ainda preciso que a acção defensiva seja adequada ou “necessária”, para afastar a agressão. O que significa que se Baltazar, podendo utilizar a cadeira, puxa de uma arma e dá um tiro a João num braço, apesar de não haver uma desproporção clara ou inequívoca entre o bem jurídico protegido (a integridade física de Baltazar) e o lesado (a integridade física de João), a defesa é desnecessária, inadequada ou excessiva, pois Baltazar tinha à disposição um meio perfeitamente adequado e menos gravoso:- a cadeira.
Neste caso estamos perante um excesso de legítima defesa, continuando o facto a ser ilícito. É o que estipula o Artº 48º n.º 1, do C. Penal.
Notas
Direito comparado V. art. 32º.
Artigo 45º Estado de necessidade
Não é ilícito o facto praticado como meio adequado para afastar um perigo actual que ameace interesses juridicamente protegidos do agente ou de terceiro, quando se verifiquem os seguintes requisitos:
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 46
a) Haver sensível superioridade do interesse a salvaguardar relativamente ao interesse sacrificado; e
b) Ser razoável impor ao lesado o sacrifício do seu interesse em atenção à natureza ou ao valor do interesse em perigo.
Observações
Estado de necessidade ocorre quando o agente:
- Pratica um facto como forma adequada a afastar um perigo actual - Perigo para interesse jurídicos relevantes
- Do agente ou terceiro Desde que:
- O interesse a proteger seja superior, para a Lei, que o interesse a sacrificar E,
- A natureza ou valor do interesse protegido (e em perigo), leve a concluir, ser razoável sacrificar o outro interesse.
Exemplo:
O Comandante de um navio que atira a carga ao mar (crime de dano) para evitar o afundamento do navio e salvar a tripulação.
Há aqui direito de necessidade porque o perigo de afundamento do navio não foi praticado pelo Comandante e o crime que este praticou (dano), é meio adequado para afastar o perigo de o navio se afundar e a tripulação morrer.
A vida da tripulação e o valor económico do navio é superior ao valor da carga.
Por fim, é razoável forçar o proprietário da carga deitada ao mar o sacrifício de ficar sem a mesma dado que a natureza e valor dos bens ameaçados é superior ao bem jurídico sacrificado.
Notas
Direito comparado Art. 34º.
Breves notas de apoio – Dt. Penal – II Curso de Advogados – Formador Rui Lourenço Page 47
Artigo 46º Conflito de deveres
1. Não é ilícita a conduta de quem, em caso de conflito no cumprimento de deveres jurídicos ou ordens legítimas da autoridade, satisfizer dever ou ordem de valor igual ou superior ao do dever ou ordem que sacrificar.
2. O dever de obediência hierárquica cessa quando conduz à prática de um crime.
Observações
N. 1 - Existe conflito de deveres quando:
O agente que tiver que cumprir ordens ou cumprir deveres, Desobedece à ordem ou cumpre outro dever
Desde que,
A ordem ou dever seja de igual valor à ordem desobedecida ou dever incumprido
N. 2 – A obediência ao superior hierárquico deixa de existir quando as ordens do superior levam à prática de crimes pelo subordinado (inferior hieráquico).
Exemplo:
Quando viajava de carro (comercial com dois lugares apenas), João vê um acidente com dois feridos graves. A cidade mais próxima fica a 15 Km. E João só tem possibilidade de transportar um dos feridos.
Coloca um deles no lugar disponível existente e leva-o ao hospital, salvando-lhe a vida. O outro ferido, que não pôde ser transportado, morre por falta de assistência.
Existe uma omissão de João face um dos feridos (crime de omissão de auxílio do art. 227º, n. 1 do C. Penal), mas a conduta omissiva de João, não é ilícita porque ele actua num quadro de um conflito de deveres.
João está obrigado a salvar a vida das duas pessoas que se encontravam em perigo. No entanto, ele só tem possibilidade de salvar uma delas, isto é, só pode cumprir um dever à custa da violação de outro dever.