Profa. Dra. Silvia Aparecida Guarnieri Ortigoza UNESP Rio Claro Karlise Klafke UNESP Rio Claro

Texto

(1)

O CURSO EAD ECONOMIA SOLIDÁRIA, PRINCÍPIOS, PRÁTICAS EDUCATIVAS E POLÍTICAS PÚBLICAS: SUA IMPORTÂNCIA NA MULTIPLICAÇÃO DO CONHECIMENTO E NA FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES DA EJA

Profa. Dra. Silvia Aparecida Guarnieri Ortigoza sago@rc.unesp.br, UNESP – Rio Claro

Karlise Klafke

karlise.geo@gmail.com, UNESP – Rio Claro

Eixo 02 - Formação continuada e desenvolvimento profissional de professores da educação básica

1. Introdução

A Economia Solidária no Brasil, tem se revelado como “uma outra economia” mais humanizada e justa o que tem propiciado a inclusão social e melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas. Singer (2002, 2004) é um autor que vem demonstrando, por meio de seus artigos e também pelas suas ações como gestor público, que existem saídas e alternativas para fugirmos da lógica perversa das relações de trabalho do mundo capitalista, e essa saída para ele está na Economia Solidária.

No município de Rio Claro, o Programa de Economia Solidária vem se desenvolvendo de forma acelerada nos últimos anos e, grande parte de sua trajetória está abordada no livro: “Desfazendo os nós do capital: território, ação social e economia solidária”.

A economia solidária, ao privilegiar a abordagem territorial, volta a unir as diferentes esferas (social, política, cultural, ambiental) que o capitalismo separou. Enquanto no capitalismo moderno, a mundialização e a desterritorialização da produção e das mercadorias é uma forte tendência, na economia solidária há um grande esforço no sentido de resgatar os vínculos com o local. (ORTIGOZA, 2014, 245,246)

Desse modo, observamos que é de grande importância a ação local na economia solidária, mas é também de suma relevância a sua expansão, é preciso agir no local e transcende-lo para buscar no global as possibilidades de transformação social. Neste sentido, Cunha (2003, p. 69) coloca que: “Iniciativas locais isoladas correm o risco de não gerar a economia solidária, ainda que bem sucedidas individualmente, por isso é fundamental sistematizar experiências, divulgar ideias e transformá-las em propostas, o

(2)

França Filho (2006) é outro autor que compreende a economia solidária no âmbito dos movimentos sociais, atribuindo a ela uma grande potencialidade de emancipação social e produtiva.

E, neste mesmo sentido, mas procurando valorizar a autogestão nos empreendimentos econômicos solidários, Singer (2002, p. 1) nos alerta que “A solidariedade na economia só pode se realizar se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, comerciar, consumir ou poupar. A chave dessa proposta é a associação entre iguais em vez do contrato entre desiguais.”

Segundo a SENAES, economia solidária pode ser compreendida “como o conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, prestação de serviço, poupança e crédito – organizada e realizada solidariamente por trabalhadores sob a forma coletiva e autogestionária.” (ATLAS, 2009, p. 17).

Neste contexto, nos últimos anos, são muitas as experiências que vem sendo desenvolvidas e que têm gerado um grande otimismo entre os brasileiros, principalmente, no que tange a conquista de um país mais justo, solidário e com menos diferenças sociais. Isso porque os movimentos sociais presentes em cada território, e com base em suas próprias potencialidades vão construindo caminhos para a inclusão social produtiva.

Dada a importância desta nova perspectiva econômica que vem crescendo no país, percebemos a necessidade de articular a educação popular e cidadã e adaptá-la às realidades locais, para que possamos gerar a capacidade de integração de mais e mais jovens e adultos nesse movimento social da Economia Solidária. Desse modo, acreditamos que o “saber fazer” e as diversas formas de trabalho devem valorizar a solidariedade e a identidade territorial. Uma das possibilidades é trabalhar no ambiente escolar com o desenvolvimento de programas, construindo parcerias entre a Universidade, a Escola e a Comunidade, pois o conhecimento é a chave de qualquer processo de mudança.

Se nos basearmos no Plano Nacional de Economia Solidária, observamos que em todas as instâncias municipal, estadual e federal a questão da Educação em Economia Solidária ocupa um lugar de destaque, constituindo um dos grupos de diagnóstico e ação denominado de “Conhecimentos: Educação, Formação e Assessoramento”. Neste grupo temático foram levantadas diversas propostas que apontam a necessidade de, por meio de um sistema educacional, disseminar os princípios, os valores e as práticas solidárias no território brasileiro.

Dessa forma, as iniciativas educacionais formais e informais em Economia Solidária devem prever uma formação continuada com o intuito de criar oportunidades de

(3)

aprendizagem a desempenhar atividades profissionais e a criar capacidade de discernimento para lidar com as mais diversas situações no mundo do trabalho.

As diferentes formas de conhecimento devem estar articuladas com as demais ações de promoção da integração do cooperativismo e da elevação da escolaridade. Nesse sentido, alfabetização de jovens e adultos também devem estar aliada ao desenvolvimento de iniciativas produtivas por parte dos envolvidos em sua comunidade. (Plano Municipal de Economia Solidária de Rio Claro)

Diante de todo o exposto, foi ministrado o curso de Educação a Distância - EAD, utilizando metodologias voltadas para a EJA – Educação de Jovens e Adultos, que visou desenvolver um projeto educacional piloto que possa servir de base para outras iniciativas no município de Rio Claro e no Brasil que possam atender diferentes grupos, considerando as especificidades.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) também revela-se como uma importante política pública, baseada nos princípios da gestão democrática, respeitando a diversidade de sujeitos, principalmente aqueles que não tiveram condições de concluírem os estudos. Vista dessa forma a EJA nos parece a melhor alternativa entre os diferentes níveis de ensino para que possamos inserir esta ação educativa em Economia Solidária

A ideia central é disseminar o conhecimento em torno das experiências e princípios da Economia Solidária, de modo que ela possa passar a ser vista como uma possibilidade de acesso ao mundo do trabalho e melhoria da qualidade de vida. O debate e a reflexão devem acontecer em todo o processo educacional no sentido de enxergar nesta nova forma de produção: a emancipação, autogestão e solidariedade. Acreditamos que esta iniciativa pode servir de estímulo para que algumas pessoas possam criar alternativas de trabalho e renda, deixando as condições de desempregados e/ou assistidos e tornando-se cidadãos ativos e produtivos, conquistando mais dignidade e liberdade.

Na prática, o que se tem observado é que desde a criação, em 2003, da Secretaria Nacional de Economia Solidária - SENAES, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego, várias e profundas mudanças foram operadas o que acabou dinamizando formas de fomento e apoio em Economia Solidária no Brasil. Neste contexto, a grande missão da SENAES tem sido: “Promover o fortalecimento e a divulgação da economia solidária, mediante políticas integradas, visando a geração de trabalho e renda, a inclusão social e a promoção do desenvolvimento justo e solidário” (SENAES, 2012). 2. O curso de formação de professores

(4)

O curso “Economia Solidária: princípios, práticas educativas e políticas públicas”, se organizou em 70 horas entre os dias 03 de setembro e 28 de outubro em quatro módulos: 1) Introdução a economia solidária: princípios e conceitos; 2) Economia Solidária e Educação Popular; 3) História da Economia Solidária: Mundo, Brasil e Rio Claro, e, 4) O programa de Economia Solidária em Rio Claro: perspectivas e ações. Além disso, ao final do curso os professores entregaram atividades que seriam aplicas aos seus alunos, com foco à inclusão da Economia Solidária como assunto transversal em sala de aula.

Deve-se indicar ainda, que a avaliação do curso foi realizada em duas etapas: a primeira diz respeito ao cumprimento das atividades (fóruns), frequências às aulas e execução das atividades finais; a segunda corresponde à avaliação do curso por parte dos participantes com base no formulário de avaliação da Pró-Reitoria de Extensão da UNESP - PROEX.

Na primeira modalidade de avaliação, quanto ao desempenho das turmas no uso da Plataforma Moodle, observou-se que esta foi utilizada de forma positiva, se mostrando viável e prática para o curso. Conforme as descrições anteriores.

O curso teve 60 inscritos sendo que o resultado final foi: 29 concluintes (aprovados) e 31 desistentes e/ou reprovados. Deve-se considerar que, embora com alta taxa de desistência, muito provavelmente decorrente de falta de tempo para o cumprimento das tarefas e da complexidade de alguns assuntos abordados, deve-se considerar que o curso foi adequado devido ao excelente desempenho dos participantes que permaneceram até a sua conclusão.

A execução e resultados dessa experiência são expostos a seguir, mas deve-se lembrar que a economia solidária, por tratar-se de uma valorização do território local, deve sempre considerar as peculiaridades de onde está inserida. Dessa forma, esta experiência indica alguns caminhos a seguir, no entanto, devem ser considerados em cada curso e abordagem com os alunos a realidade local sem perder as questões mais globais de seu desenvolvimento.

2.1 Introdução a economia solidária: princípios e conceitos

O Módulo 1, foi essencial para o prosseguimento do curso, isso porque apresentou os princípios da economia solidária, os quais foram trabalhados ao longo dos demais módulos. Por esse motivo o fórum desse módulo foi, um dos mais trabalhados, partiu-se de em uma questão guiadora capaz de expressar as dificuldades dos alunos.

(5)

2.2 Economia Solidária e Educação Popular

No módulo 2, houve a apresentação da importância da educação popular para a economia solidária, ressaltada junto a EJA. O fórum desse módulo obteve também interessantes interações entre os discentes, que relataram o uso da educação popular em sua atividade docente apontando as dificuldades e destacando o sucesso desse método.

2.3 História da Economia Solidária: Mundo, Brasil e Rio Claro

O módulo 3, trouxe uma retrospectiva da economia solidária no mundo, no Brasil e em Rio Claro. A partir desse módulo foram demonstradas as diferentes iniciativas, públicas, privadas e populares para a constituição dos empreendimentos econômicos solidários, o que deu base para o fórum dessa aula. A interação desse fórum não foi tão rica quanto as demais, embora os alunos tenham apresentado discussões pertinentes a temática.

2.4 O programa de Economia Solidária em Rio Claro: perspectivas e ações

Por fim, o módulo 4, trouxe as experiências de Rio Claro, ou seja, a economia solidária na prática e presente no cotidiano dos discentes, como resultado desse módulo e do módulo anterior esperava-se a preparação para a atividade final.

2.5 Atividade Final

A atividade final, constituiu-se da formulação do plano de aula que inserisse a economia solidária como tema transversal nos conteúdos das aulas do ensino básico. Essa atividade foi entregue em três etapas, e a partir da execução de cada etapa as monitoras apresentaram um feedback para a constituição da etapa final. De modo geral, a apresentação dessa atividade foi acima das expectativas da coordenação e monitoria do curso, com algumas poucas exceções.

Para avaliação do curso o aluno elaborou uma atividade, de forma individual ou em grupo, apresentando um plano de aula que envolvia os temas da disciplina que ministrava e a economia solidária. Nesse sentido, a economia solidária entrou como tema transversal.

(6)

3. Avaliação geral do curso

Avaliamos o curso sob duas perspectivas, a do aluno (professores da EJA) e da coordenação e monitoria do curso.

3.1 Avaliação dos alunos

Quanto à avaliação do curso por parte dos participantes, foi sugerido que eles respondessem as seguintes questões:

1. Como você avalia o curso?

2. O Curso atendeu às suas expectativas? 3. Como você avalia as aulas ministradas? 4. Manifeste sua opinião a respeito do conteúdo. 5. Você recomendaria este curso a outra pessoa? 6. Sugestões e comentários para melhorar o curso.

De modo geral observou-se que houve grande aceitação. Quanto à questão 1, relativa à avaliação do curso, 44% dos alunos considerou o curso “Ótimo”, 53% “Bom” e 3% regular. Quanto à questão 2 relativa ao atendimento das expectativas dos participantes, 21% dos alunos considerou que o Curso superou o esperado, enquanto 65% respondeu que o curso atendeu plenamente o esperado e 14% considerou que atendeu parcialmente. As resposta da questão 3 relativas à avaliação das aulas ministradas indicaram que, 44% dos alunos as considerou ótimas, enquanto 53% as classificaram como boas e 3% regulares. Quando perguntados acerca de sua opinião sobre o conteúdo (questão 04), 56% dos alunos responderam “Ótimo” e 44% “Bom”. Na questão relativa á recomendação do curso à outra pessoa, 100% dos alunos responderam que o recomendariam.

A respeito da última questão, de maneira geral, os comentários foram bastante elogiosos. Dentre as sugestões para melhorar o curso tiveram destaque: ampliação das discussões nos fóruns, ampliação do tempo para elaboração das atividades e execução das aulas, apresentação de um cronograma de curso para melhor organização dos participantes; Tais considerações serão levadas em conta quando da próxima oferta do curso.

(7)

O curso “Economia Solidária: princípios, prática educativas e políticas públicas”, com 70 horas, apresentou resultados bastante positivos no que se refere à troca de conhecimento e discussão de assuntos relevantes à temática do curso. Deste modo, a partir de reflexões sobre teoria e prática, foi possível promover o entendimento dos princípios básicos da Economia Solidária e de possibilidades didáticas na inclusão da Economia Solidária como tema transversal nas aulas da EJA, bem como prover o conhecimento das políticas públicas e práticas em Economia Solidária no município de Rio Claro. A partir das atividades propostas nos fóruns, foi possível avaliar o nível de entendimento dos alunos acerca dos conteúdos das aulas. Houve ainda o avanço em algumas discussões temáticas o que favoreceu a compreensão de alguns conceitos e princípios.

No que tange aos conteúdos abordados, de modo geral, os alunos não apresentaram dificuldades significativas ao longo do curso.

Como os alunos do curso eram professores do ensino básico, observou-se que eles precisariam que o curso tivesse maior duração e maior tempo para a realização das aulas. Inclusive, o curto prazo, pode ser apontado também como um dos motivadores de desistências de alguns alunos do curso.

Conclusão

A EAD tem se apresentado como uma estratégia de ensino diferenciada, mais democrática e com maior alcance espacial. Uma de suas vantagens tem sido apontada é a flexibilidade na organização do tempo de estudo pelo aluno; entretanto, quando esse aluno é um professor atuante no ensino básico a questão do tempo ainda se caracteriza como um desafio, o que foi demonstrado nessa experiência aqui relatada. Os professores indicaram que deveria haver mais tempo para a execução de cada aula, embora já fossem distribuídas ao longo de oito dias. Essa questão será considerada em próximas versões procurando ampliar o prazo a ser dedicado a cada aula.

Do ponto de vista do Programa de Economia Solidária do Município de Rio Claro o curso foi de grande importância, pois atendeu aos planos municipal, estadual e nacional de economia solidária, e assim Rio Claro foi a cidade pioneira na introdução dessa temática na formação continuada de professores. Mediante essa consideração, os gestores públicos têm solicitado novas versões do curso.

(8)

CUNHA, G. C. Dimensões da luta política nas práticas de economia solidária. SOUZA, A. R., CUNHA, G. C., DAKUZAKU, R. Y. (orgs.), Uma outra economia é possível: Paul Singer e a economia solidária. São Paulo: Contexto. 45-72. 2003.

FRANÇA FILHO, G. C. Economia Solidária e movimentos sociais. MEDEIROS, A. et al. (Orgs). Políticas públicas de Economia Solidária: por um outro desenvolvimento . Recife: Editora Universitária da UFPE. 49-92. 2006.

MENDES, A. A.; CORTEZ, A. T. C.; ORTIGOZA, S. A. G. (orgs). Desfazendo os nós do capital – território, ação social e economia solidária. Bauru, SP: Canal 6, 180 p. 2013. ORTIGOZA, S. A. G. Vamos privilegiar os mais fracos: A Economia Solidária brasileira como possibilidade de (re) inserção do território como base do desenvolvimento. Revista GOT – Geografia e Ordenamento do Território. n. 6, p. 241-257. Porto, Portugal, 2014. SINGER, P. É Possível Levar o Desenvolvimento a Comunidades Pobres? Texto para Discussão. Brasília: SNES -- SECRETARIA ESTADUAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA. Ministério do Trabalho e Emprego. 6 p. 2004.

SINGER, P. Introdução a Economia Solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. 127 p. 2002.

Imagem

Referências

temas relacionados :