ACAMPAMENTO MARIO LAGO - UM SONHO EM CONSTRUÇÃO

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ACAMPAMENTO MARIO LAGO - UM SONHO EM CONSTRUÇÃO

Kanaan, H. S. Esp.

NEP - Núcleo de Políticas Públicas

UDESC-Universidade do Estado de Santa Catarina hanen@ig.com.br

Neste trabalho são apresentados os resultados de uma pesquisa de campo realizada no acampamento do MST, denominado Mário Lago, que foi inicialmente formado no município de Gaspar, Estado de Santa Catarina. A pesquisa de campo foi realizada entre julho de 2002 à setembro de 2003. O objetivo do trabalho foi traçar um perfil sócio-econômico básico dos acampados. As informações foram obtidas diretamente das famílias mediante entrevistas e preenchimento de um questionário padrão. Foram pesquisadas cerca de 51% das famílias do acampamento. Os dados sócio econômicos levantados na pesquisa de campo incluem escolaridade, meio de sobrevivência, religião, número de filhos, tempo de permanência em acampamento, organização de trabalho, condições de saúde e profissão anterior. Além disto, foram discutidas questões como a origem do acampados, a motivação para participar de uma ocupação, a relação com o MST e as expectativas pessoais após se tornarem assentados. A primeira coisa que chama atenção um acampamento do MST, digo isso em qual quer um deles, é a resistência das pessoas que lá estão. Isso foi o que inicialmente motivou a pesquisa, afinal elas tinham vindo de vários lugares, passando por muitas dificuldades para chegarem ao acampamento e lá resistirem em nome de um mesmo ideal.

Quem eram essas pessoas anônimas que resistiam tão bravamente por um nosso individual, mas também coletivo o de garantir uma vida digna para sua família e ao mesmo tempo construir um projeto de uma sociedade mais justa. Esses eram os acampados do Acampamento Mario Lago, pessoas com trajetórias de vida diferentes, mas que partilhavam um sonho comum.

Os dados que permitiram a realização da pesquisa foi resultado de um questionário aplicado no acampamento, onde as pessoas aproveitavam a entrevista para falar um pouco de seus sonhos e de como fora parar ali.

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Ao contrario do que são comumente noticiados os acampados tinham origem camponesa, ou seja, eram pessoas que trabalharam no campo e que dele foram expulsos, por vários motivos. Alguns deles foram por doença na família, a falta de recurso para tratamento médico, sempre foi um problema em pequenos municípios e na área rural, outro problema citado foi à perda da terra para o banco, por dividas de financiamento agrícola e a grande maioria sempre trabalhou em terra arrendada ou de diarista no campo, vivendo a esperança de conquistar seu pedaço de terra.

Os problemas apresentados acima acabavam provocando o êxodo rural, a maiorias dos agricultores com dificuldade de se manter no campo acabam migrando para a periferia das cidades, engrossando a massa de trabalhadores desempregados e a miséria dos grandes centros urbanos.

Como então organizar esses milhares de trabalhadores? O MST organiza frentes de massa. Militantes organizam reuniões nas periferias das cidades e promovem estudos e discussões sobre reforma agrária, política e a sociedade em que vivemos. Nessas reuniões as pessoas são convidadas a participarem de ocupações e acampamentos para conquistarem novamente seu “pedaço de chão”.

O acampamento Mario Lago. Este acampamento estava localizado nas margens da BR 470, entre os municípios de Gaspar e Blumenau. Nesta época, os acampados estavam naquele local há quase seis meses, aguardando uma decisão judicial, que poderia liberar uma área próxima, que ainda pertence à empresa Sulfabril.

Os primeiros dados da pesquisa apresentam dados referentes ao local de origem dos acampados, mostrando o deslocamento de pessoas de várias partes do estado de Santa Catarina principalmente da região oeste do estado, o acampamento era formado por aproximadamente 100 famílias.Muitos dos acampados eram moradores da periferia de Itajaí, Joinville, Blumenau, pessoas geralmente desempregadas ou subempregadas, com pouca escolaridade. Havia ex-arrendatários, meeiros e bóias frias, que trabalhavam por dia no campo. Também havia filhos de assentados que lutavam por seu direito de continuar vivendo do trabalho agrícola. A maioria dos trabalhados que seguem para o acampamento o fazem acompanhados pela família, portanto é comum encontrar muitas crianças e jovens acampados com seus pais.

Na perspectiva de atender as crianças, jovens e adultos o acampamento Mario Lago contava com uma escola onde se promovia o processo de escolarização e produção do conhecimento, as escola geralmente contam também com salas de alfabetização de adultos.

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São escolas reconhecidas pelo estado e pelas prefeituras e abertas a toda comunidade em que o acampamento está inserido. Neste acampamento também tinha uma escola que atendia crianças das séries iniciais do ensino fundamental. A escola é um espaço no acampamento que merece destaque, porque segundo a pesquisa a maioria dos acampados eram analfabetos ou semi-alfabetizados não chegava a 1% os que tinham o ensino fundamental ou médio. Esta realidade que se apresenta no acampamento reflete a falta de oportunidade que muitas vezes o trabalhador rural tem de freqüentar uma escola uma situação muito comum no campo.

Outro dado relevante é que quando eram perguntados sobre a profissão os entrevistados se identificavam como agricultores, poucos afirmavam exercer outro tipo de profissão, as mais citadas eram pedreiro, jardineiro, motorista, caseiro, operário de agroindústria, dona de casa a cidade de uma maneira geral não oferecia condições de vida digna para esses trabalhadores. Essas pessoas como já foi falado anteriormente eram convidadas a participar das ocupações a partir das reuniões das frentes de massa. Eles tinham no movimento a esperança de conquistar uma vida digna através da luta pela terra.

Havia no acampamento três tipos de organização básica individual, coletivo e grupo as três formas de organização representavam as expectativas de organização dos acampados. Individual: cada produtor é responsável por todos os custos do processo produtivo e com a mão de obra. Em outras palavras, no trabalho individual, cada acampado, assim que recebe seu lote de terra, é responsável por ele e pela renda que possa gerar nele. Geralmente ele conta apenas com a mão de obra da família, que mesmo sendo, algumas vezes numerosa é insuficiente para cuidar da propriedade. Mesmo sendo um produtor autônomo ele sempre está subordinado a uma Cooperativa que comercializa a produção;

Coletivo: entendia-se que tudo deveria ser repartido com o grupo, incluindo o trabalho, os resultados, as despesas com a produção, os alimentos, a terra. Enfim, não haveria nenhum dono nesse sistema. As famílias, ao receber os lotes de terra trabalham de forma coletiva, dividem entre si os custos da produção, o trabalho na lavoura e conseqüentemente o resultado no final da safra;

Grupo: onde um grupo de famílias se une para dividir alguns itens do processo produtivo, como sementes, adubo, trator e mão de obra. A opção por trabalhos em grupos (9%) esteve presente nas respostas. Esta escolha representa um meio termo entre o coletivo e o individual. Esta modalidade de trabalho agrícola opta pelo coletivo de forma parcial. Em

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geral esses grupos são formados por algumas famílias que se tornam parceiras na compra de máquinas e sementes, mas cada um continua tendo autonomia sobre a sua terra.

Muitos deles, na verdade 69% pensavam em trabalhar e viver individualmente, no trabalho e na terra, reforçando a idéia do modelo capitalista de produção e a propriedade privada, as famílias que viviam individualmente no acampamento, geralmente passava mais dificuldades, para sobreviver, porque tinha que administrarem sozinhos o pouco que ganhavam fosse comida, roupas, remédios ou outro tipo de doação para si e sua família. O grupo que era formado por militantes de vários movimentos sociais e tem outra concepção de uso da terra, o uso social. Para eles ela é um bem que pertence a toda a humanidade,

portanto não pode ter um dono deve ser usada por todos que nela queriam trabalhar. Durante a pesquisa outro dado que despertou meu interesse foi saber o tempo que as famílias geralmente ficavam acampadas. O tempo de permanência em acampamentos da maioria dos entrevistados (79%) esta entre um a dois anos. Este tempo inclui acampamentos anteriores ao Mario Lago. Esta situação, é reflexo da falta de política governamental, para a implementação da reforma agrária. Durante a pesquisa de campo pude constatar casos de famílias que estão a mais de cinco anos acampados a espera do lote de terra, e já passaram por vários acampamentos no estado. Uma situação muito comum é a dos jovens filhos de assentados ao completarem o ensino fundamental optam pelo acampamento como uma alternativa para conseguir a terra e continuar trabalhando no campo.

Assim como a educação a alimentação é um fator importante num acampamento, já que conseguir comida é sempre mais difícil numa situação como esta. Na escola havia uma cozinha comunitária onde era feita e servida a merenda para as crianças que estavam na escola. A merenda da escola era servida também a todos os acampados que fossem até a cozinha na hora do recreio, mas as crianças eram sempre prioridades. Apesar das condições precárias em que se encontravam os acampados, que encontravam apenas o mínimo para a sobrevivência, todos conseguiam se alimentar com dignidade. As crianças pareciam felizes e sempre chegavam doações para os acampados. Os homens e mulheres geralmente saiam para trabalhar em sítios ou fazendas próximas ao local onde estavam acampados para ganhar dinheiro e ajudar no sustento de sua família, porque apesar de freqüentes nem sempre as doações eram suficientes para todos do acampamento.

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A realidade que encontramos no acampamento Mario Lago é comum em todos os acampamentos do Brasil, o tempo de espera, depende da região onde o acampamento se encontra, da negociação do governo e da pressão para que as coisas aconteçam.

Problemas de saúde são muito comuns nos acampamentos, os acampados raramente tinham acesso a atendimento e a tratamento médico, pela própria situação do sistema único de saúde. O MST tem uma política de saúde que atende os acampamentos e assentamentos em todo Brasil com programas de capacitação de agente de saúde, hortas com plantas medicinas e sempre que possível atendimento médico, com médicos que trabalham para o movimento. A pesquisa apontou que 61% das pessoas do acampamento Mario Lago afirmam ter problemas de saúde. As queixa mais freqüentes foram de problemas de coluna, pressão alta e doenças no coração. Estas doenças, em geral, são agravadas e/ou decorrentes das condições de vida miserável e de trabalho insalubre. Sempre a um coordenador de saúde a nível estadual no movimento, em Santa Catarina era o Doti1 ele era assentado no Conquista do Litoral no município de Garuva, que prescreve remédios caseiros para os problemas de saúde mais simples, tais como gripes, resfriados, dores de cabeça e enjôos, e também faz curativos nos ferimentos leves. Os problemas mais sérios são encaminhados para os postos de saúde públicos.

A religião é um ponto que merece destaque porque ela influencia nas relações sociais, políticas e na opção na forma de trabalho. A religião predominante dos pesquisados foi à religião católica. Esse dado mascara um pouco a realidade encontrada, porque muitos dos entrevistados que se denominavam católicos praticantes, afirmavam não ter o hábito de freqüentar a Igreja e tinham crenças que eram incompatíveis com os dogmas da religião católica. Muitos deles acreditavam em benzeduras, curas espirituais e viviam com os seus parceiros sem o casamento religioso.

Apenas os evangélicos e os agnósticos eram mais convictos e praticantes de sua crença. Os evangélicos costumavam freqüentar o culto de suas igrejas sempre que possível e procuravam ter práticas sociais coerentes com a fé que praticavam.

Os agnósticos ou ateus eram na maioria militantes de partido de esquerda e movimentos sociais rurais e urbanos. Acreditavam similarmente a visão marxista, que a religião e a fé serviam como um alento para aquelas pessoas que viviam em uma situação tão precária. A

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Doti: a pessoa citada como coordenador estadual de saúde do movimento no estado e uma grande liderança, morava com sua família no assentamento conquista do litoral no município de Garuva, trabalhava como motorista no assentamento e faleceu em julho desde ano em um acidente de caminhão quando saia do assentamento em que morava para fazer entrega de verduras no município de Joinville.

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fé na maioria das vezes era importante para impedir que membros do grupo praticassem atitudes que estivessem em desacordo com o acampamento ou o próprio movimento.

Um aspecto interessante no item religião foi que a maioria das famílias que viviam em grupo ou coletivo eram católica e já participava de movimentos sociais ligados a igreja católica e tinham formação política adquirida na militância. Eram a princípio os mais abertos a aceitar novas formas de organização de trabalho de trabalho.

Metade das famílias entrevistadas apresentou mais de quatro filhos. No entanto, nem todos estes filhos moravam junto com a família, pois uma grande parte dos casais tinha filhos de relacionamentos anteriores. Alguns dos entrevistados afirmaram encontrar nos filhos uma motivação para continuar lutando pelo acesso a terra. O desemprego, a falta de perspectiva profissional e as difíceis condições de vida eram fatores que contribuíam na separação dos casais.

O acampamento também possuía um forte esquema de segurança para proteger a todos os moradores. Os homens do acampamento se revezavam em turno para garantir a segurança do local. O motivo da segurança era garantir a tranqüilidade de todos os moradores do acampamento durante o dia e a noite evitando atitudes que colocassem perturbasse os moradores. Além disso, a segurança recebia e controlava os visitantes, que apesar de serem bem vindos eram sempre questionados na entrada do acampamento sobre o motivo da visita. A segurança também protegia o acampamento da policia e da ação de jagunços a serviço dos fazendeiros para promover a desordem e ameaçar os acampados.

A respeito dos dados obtidos nesta pesquisa é importante fazer algumas observações. Primeiramente, cabe ressaltar que a rotatividade das pessoas nos acampamentos, de forma geral, costuma ser alta. Essa rotatividade se deve principalmente às duras condições de vida dos acampados, com o trabalho árduo, a exposição às intempéries, e outros fatores já comentados. Além disso, muitos acampados sentem a necessidade de estar em regiões mais próximas de seus locais de origem. Portanto, os dados não são absolutos no sentido que se a pesquisa for novamente realizada talvez outras famílias estejam protagonizando a luta. Qualquer julgamento das informações obtidas neste trabalho precisa levar em conta este fato.

Por outro lado, mesmo reconhecendo que a pesquisa abrange um determinado período de tempo, ela não se torna menos relevante. Os dados fornecem características do começo do processo de luta no acampamento os quais possivelmente refletem a trajetória de outros acampamentos. O perfil encontrado nos acampados do Mario Lago, talvez aponte para um

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perfil comum de muitos outros acampados. O sonho e a busca da dignidade fomentam os partidários da reforma agrária.

Decidi pesquisar a realidade dos acampamentos na tentativa de desmistificar várias idéias veiculadas pelos meios de comunicação e que estão presentes no imaginário de grande parte da população urbana. De um modo geral, os sem terra são sumariamente acusados de serem oportunistas baderneiros e de não ter o interesse genuíno em trabalhar com a agricultura. Ou ainda, que o desejo de conquistar a terra oculta a real intenção de posteriormente vendê-la.

A partir da análise e tabulação de dados, as histórias contadas pelos assentados se tornaram estatísticas. Essas confirmavam a teoria de muitos estudiosos do tema que diziam que a maioria dos acampados tem origem no campo. Em muitos casos, são trabalhadores expulsos de suas terras ou diaristas que foram substituídos por máquinas agrícolas no trabalho do campo.

Ao longo do período em que desenvolvi a pesquisa tive a oportunidade de conhecer vários assentamentos agrícolas vinculados ao MST, que se formaram a partir da luta pela conquista da terra. Os municípios que tinham assentamentos rurais próximos apresentavam uma melhor na qualidade de vida, tanto das pessoas que moravam no campo como das pessoas que moravam na cidade. O assentamento fornece um incremento nas vendas do comércio e também aumenta a oferta de alimentos. Este conseqüentemente é vendido a preços mais acessíveis à população urbana. Essa realidade não se reflete apenas nos assentamentos rurais de Santa, mas de varias regiões do país.

No entanto, deve ser destacado que a situação atual dos assentamentos no Brasil é bastante heterogênea. A grande maioria tem passado por sérias dificuldades para se manter. Falta capacitação técnica dos agricultores, acesso à linhas de crédito e assistência técnica governamental. A utilização de insumos e práticas agrícolas modernas, que permitiriam uma maior produtividade e estabilidade da produção agropecuária, é queixa freqüente dos assentados. A baixa escolaridade dos assentados e a falta de implementos agrícolas também são constatadas na maioria dos assentamentos.

As políticas sociais paliativas sempre fizeram parte de nossa história. O pouco que os governos tem feito pela causa social, quando o fizeram, foi motivado especialmente pela necessidade de controlar as tensões sociais, evitando revoltas populares e garantindo a reprodução do sistema político e econômico predatório em que vivemos.

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O acampamento é sempre o começo de uma luta para conquistar o sonho de ter um trabalho, um casa, educação, alimentação, respeito e uma vida digna. Direitos que são garantidos pela constituição, mas que quase sempre foram esquecidos pelos governos ao longo da historia do nosso país.

Bibliografia

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