Anais da
Semana de Pedagogia da UEM
ISSN Online: 2316-9435
XX Semana de Pedagogia da UEM
VIII Encontro de Pesquisa em Educação / I Jornada Parfor
Universidade Estadual de Maringá, 17 a 20 de setembro de 2013.
MÍDIA IMPRESSA E A BONECA BARBIE NA CONSTRUÇÃO DA FEMINILIDADE
SOUZA, Michely Calciolari [email protected] SIMILI, Ivana Guilherme (orientador) [email protected] Universidade Estadual de Maringá
Educação e diversidade
INTRODUÇÃO
As práticas de embelezamento das meninas nas escolas brasileiras é uma realidade que vem exigindo reflexões da educação. Essas práticas envolvem a construção das aparências e das personalidades das meninas. Nesse sentido, essas práticas podem ser concebidas e analisadas como tecnologias de gênero (LAURETIS, 1994), que no texto serão examinadas por intermédio da relação das meninas com os aprendizados comunicados pela boneca Barbie.
As meninas transpassam nas bonecas suas representações de feminilidade, ou seja, do que é ser mulher. Assim, nos referimos ao padrão de beleza ou estereótipo a ser seguido, com ênfase na boneca Barbie, pontuada pelas autoras como uma boneca “da moda”. Vale destacar que Barbie é universalmente compreendida como o padrão ideal de corpo feminino. Por este motivo ela está presente na vida das mulheres desde muito cedo e, assim, se transforma em um brinquedo que nunca é esquecido pelas gerações (ALMEIDA; HEBERLE, 2006).
A partir do momento que o mercado publicitário compreendeu que a criança era/é uma consumidora de potencial, a boneca, que até então era destinada ao público adulto, passou a ser comercializada para a criança, bem como seus produtos secundários: livros, sapatos, bolsas, maquiagens, entre outros. Diante desse quadro, fica evidente a influência direta que esse brinquedo acarreta na formação de gênero, principalmente da feminilidade.
As reflexões desenvolvidas ao longo do trabalho poderão contribuir com a prática pedagógica dos docentes. Por meio delas, encaminhamentos em sala de aula partirão da descaracterização dos padrões impostos pela sociedade, em especial, pela mídia. Dessa forma, as crianças terão em mente a ideia de que existem pessoas com maneiras distintas
2 de se portar, se vestir e com aparências que se diferem, contudo, esses sujeitos não devem ser considerados e enxergados como diferentes, despreocupados e fora dos padrões.
Entre os recursos midiáticos empregados pelo mercado editorial para estimular as práticas de embelezamento estão os livros que transformam a boneca Barbie em personagem central para tratar de moda e beleza com as meninas. “Dicas de beleza da Barbie”, de Fabiane Ariello, lançado em 2007, é um deles.
Uma das bonecas mais vendida do planeta, Barbie leva consigo não só uma legião de mulheres, mas também setores da sociedade que atuam como instrumentos mediadores desta busca incansável, tais como medicina, estética, comércio e publicidade, enfim, todo o meio para se atingir a perfeição imposta por Barbie. Roveri (2004, p. 17) define como “artefatos culturais”, esses meios de se atingir o que Barbie propõe.
OBJETIVOS
O trabalho tem por objetivo analisar o livreto “Dicas de beleza da Barbie” de Fabiene Ariello (2007), destacando a maneira pela qual as páginas da obra criam noções sobre as práticas de embelezamento e construção da feminilidade no período da infância.
METODOLOGIA
No atinente as características da obra, pretendemos examinar como essa, ao narrar os padrões de beleza de menina-mulher, produz e veicula noções que contribuem para a criação de representações de gênero relacionadas à feminilidade. Para tanto, desenvolveremos uma pesquisa bibliográfica e qualitativa.
Para a escolha do objeto de pesquisa tivemos como princípio a base de dados dos TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá (http://www.dfe.uem.br/TCC/trabalhos.html). Esse sistema existe desde o ano de 2010, porém somente no ano de 2011 o número de trabalhos disponibilizados foi relevante, tendo em vista que o sistema passa por alguns ajustes.
Desse modo detectamos os trabalhos que já haviam sido desenvolvidos com livretos da coleção da boneca Barbie, e encontramos o trabalho de Tomé (2010). A partir desse material descartamos os objetos de análise da autora e selecionamos o único livreto que possivelmente responderia nossa problemática de pesquisa, “Dicas de Beleza da Barbie” (2007), por tratar-se especificamente dos cuidados e do culto ao corpo de a beleza.
3 Ao selecionarmos uma mídia impressa, devemos considerar que os sujeitos são educados por meio das relações culturais e sociais (LOURO, 2008), consideramos que as mídias fazem parte da construção de feminilidades e masculinidades na formação dos sujeitos. Faz-se necessário enfatizar o papel que as mídias impressas – revistas, livros, jornais – possuem na educação das meninas no período da infância. Desse modo, poderemos compreender a função e a amplitude que o livreto “Dicas de beleza da Barbie” possui na educação das meninas.
Siqueira e Faria (2007, p. 172) ressaltam que o corpo consiste em uma construção tanto natural, quanto advindo das relações sociais (culturais) e, “o corpo encontra na mídia um espaço onde representações a seu respeito são amplamente construídas e reproduzidas”. Dicas, avisos, imagens, manuais, entre outros, constituem meios para que os corpos sejam educados tendo como parâmetro padrões, discursos e anseios decorrentes dos conceitos vinculados pelas mídias.
Mesmo com o passar das décadas e com as modificações de estilos e preferências, as mídias – televisão, cinema, jornais, revistas de moda e etiqueta, manuais – frisam a importância da aparecia corporal para os sujeitos tendo como base as transformações e os modelos de cada período da história, ou seja, modificam-se as aparências, gostos, estilos e tendências, porém, os meios midiáticos não deixam de acompanhar e divulgar os padrões.
Denise Bernuzzi de Sant’Anna (2012), afirma que a publicidade e os avanços científicos, acabaram por marcam as pessoas que não desenvolvem certos “cuidados” específicos com o corpo – marcados por eles como essenciais –, como despreocupadas com a aparência e detentoras de baixa autoestima.
Parece que o corpo se tornou o centro de uma espécie de combate permanente, no qual alados e inimigos pouco se distinguem. Quem não for à luta, quem desertar desse campo fisiológico, expressa fraqueza, mostra a pior das covardias, merece, portanto, desprezo. A falta de beleza ilustraria, assim, uma outra, bem maior. Por isso, tal como em várias batalhas, as formas de luta importam menos do que a coragem para empreendê-la. (SANT’ANNA, 2012, p. 124)
Qualquer tipo de tratamento para se alcançar os padrões determinados, são vistos com bons olhos diante de uma sociedade altamente atenta à aparência física. As preocupações giram entorno de qual tratamento executar e quais produtos utilizar, em meio aos inúmeros recursos divulgados pela mídia com maior intensidade a cada dia.
4 No tocante a história das mídias impressas femininas, estacamos as revistas destinadas ao sexo feminino. Tania Regina de Luca (2012), em seu estudo “Mulher em revista”, assegura que somente no ano de 1808 – com a vinda da Família Real para o Brasil –, a impressão de qualquer material foi permitida.
A partir desse período diversas revistas destinadas às mulheres, foram lançadas. Dentre elas, “O espelho diamantino (RJ, 1827), O espelho das brasileiras (Recife, 1831), o Relator de novelas (Recife, 1838), o Correio das modas (RJ, 1839) [...].” (LUCA, 2012, p. 447, grifos da autora). Atualmente, as mulheres dispõem de uma infinidade de revistas, disponíveis em bancas de jornal e online.
As características desse tipo de material diferencia-se da finalidade dos jornais que primam pelas informações diárias de acontecimentos. As revistas apresentam assuntos relacionados ao bem-estar, beleza, moda, culinária, praticas de atividades físicas e casa. Com uma linguagem simples, elas atraem o público feminino por proporcionarem momentos de distração, conselhos, dicas e sugestões, e se tornam muito próximas das leitoras. (LUCA, 2012).
Por volta de 1970, conteúdos relacionados ao mercado de trabalho e profissões, foram introduzidos nos assuntos apresentados nas revistas femininas. Tais adesões deram-se pelas lutas das mulheres, na década de 1960, por igualdade de direitos entre os deram-sexos, espaço no mercado de trabalho e inúmeras outras reivindicações (LUCA, 2012).
A primeira revista inteiramente dedica às mulheres foi a “Revista Feminina”. Idealizada por Virgilina Salles de Souza, a revista circulou entre os anos de 1914 e 1936 e fez muito sucesso devido o empenho de sua criadora em parceria com seu irmão, Cláudio de Souza, médico que desenvolveu fórmulas de cremes e tinturas anunciados na revista, que agradaram, e muito, as mulheres daquele período (LUCA, 2012).
Além dos cosméticos, a Revista Feminina destacava a importância de alguns princípios da época, o matrimônio, gravidez e outros valores dissipados pela igreja Católica. Contudo, a revista também denunciava violência e crimes contra as mulheres e frisava a necessidade da participação das mulheres nas votações eleitorais.
Para a autora, as revisas transmitem ensinamentos, conselhos, propostas de dietas, modos de se portar e se vestir. Desse modo, elas se tornam meios pedagógicos que ditam e interferem na formação dos sujeitos, no modo como se relaciona como os demais e consigo mesmo, como percebe os outros e a si mesmo (LUCA, 2012).
5 As leitoras não percebem que a revista prima por um determinado padrão de mulher: magra, delicada, preocupada com a aparência e que busca conquistar o homem desejado, fazendo uso das dicas encontradas nas páginas das revistas. Elas primam também pelo consumo, as páginas de todas as revistas publicam textos sobre cuidados alimentares, cirurgias plásticas, exercícios físicos, tudo em prol de um corpo padronizado.
Tais padrões também são disseminados pela boneca Barbie e todos os materiais vinculados a ela – livros, filmes, acessórios, cosméticos, roupas, sapatos –. A marca Barbie induz as meninas a desenvolverem certas preocupações e responsabilidades no tocante a beleza, que não deveriam constar na rotina delas.
O estudo sobre as práticas de embelezamento, aqui enfocados, também contribuirão com conhecimentos sobre questões examinadas por Fernanda Roveri (2004), autora que sem dúvida, no Brasil é a precursora de pesquisas sobre a boneca Barbie e a educação das meninas. Para a autora, a boneca incute nas crianças valores e práticas exaltados na sociedade.
Roveri (2004) enfatizou ainda em seus estudos, os ensinamentos acoplados aos brinquedos disponibilizados às crianças. Essas não apenas brincam sem qualquer tipo de pensamento desvinculado da realidade, pelo contrário, elas transpassam os conceitos trazidos pelos brinquedos para sua realidade. Destarte, nosso estudo norteia-se na análise das práticas apregoadas pelas “Dicas de beleza da Barbie”, pois consideramos que todos os materiais disponibilizados às crianças - brinquedos, livretos, materiais áudio visuais - refletem em suas reais vivências.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para que possamos compreender quais os ensinamentos que a obra “Dicas de beleza da Barbie” acarreta na formação de feminilidade infantil, faz-se necessário compreender como os manuais de beleza se configuraram na sociedade. Tomaremos como base a obra “A cidade e a moda: novas pretensões, novas distinções” escrita por Rainho, publicado em 2002.
Os manuais de civilidade e etiqueta tiveram origem no Brasil, a partir do século XIX. Rainho (2002) afirma que as obras consistiam em traduções de manuais advindos de países como França e Inglaterra, “[...] e caracterizavam-se, [...] por enumerar um conjunto de regras e comportamentos a serem adotado pelas pessoas ditas civilizadas.” (RAINHO,
6 2002, p. 68). Cada sujeito deveria vestir-se e portar-se conforme sua classe social, seu sexo e sua idade.
Todavia, desde o século XIV textos sobre comportamentos e regras já faziam parte da realidade europeia. O primeiro manual intitulado “Civilitate morum puerilium” (RAINHO, 2002, p. 98), foi escrito por Erasmo em 1530. O manual destinou-se as crianças e os conteúdos contemplavam o ensinamento de bons modos e maneira de portar-se.
Em meados de 1980, as revistas destinadas às adolescentes e a mídia, principalmente relacionada à moda, passaram a difundir padrões de beleza para meninas. O corpo esbelto e magro, a cintura fina e os seios avantajados eram alguns dos quesitos para uma beleza ideal.
Barbie não poderia ficar fora dessa nova maneira de divulgação da beleza ideal, já que se tornou um ícone de perfeição. Em meio as obras lançadas pela marca Barbie, está o livreto “Dicas de beleza da Barbie”, publicado em 2007i pela editora Fundamento. O livreto destina-se aquelas crianças já alfabetizadas, mais tardar, meninas de oito anos de idade possuem contato com esse tipo de material e a partir desse contato, iniciam um processo de práticas que visam a beleza de modo a se atingir os preceitos da boneca Barbie.
“Dicas de beleza da Barbie”
Fonte: ARIELLO, Fabiana. 2007.
Muito colorido, com flores, cor de rosa e com a imagem da boneca Barbie na maioria das páginas, o livreto apresenta dicas para os cabelos, maquiagem, pele, corpo, pés e mãos e aromas. Cada assunto é trabalhado em aproximadamente quatro páginas, nas quais a própria boneca Barbie conversa com as leitoras.
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Assim sendo, as “Dicas de beleza da Barbie” fazem com que as meninas desenvolvam práticas de embelezamento que visam o padrão Barbie de se portar, se vestir, enfim, buscam se transformar em garotas Barbie. Podemos destacas as dicas de maquiagem e cabelo apresentadas no livreto, que tendem a converter a aparência física das meninas.
A boneca propõe alguns testes relacionados aos itens de beleza abordados. Sobre os tipos de cabelos, Barbie apresenta questões referentes ao aspecto, lavagem e aparência ao longo do dia. As dicas sobre os cuidados com a pele segue a mesma linha, com perguntas sobre oleosidade, maciez, aspereza, espinhas e cravos e as características da pele diariamente. Ao fim dos questionários, as meninas devem fazer a contagem as respostas e acompanhar os cuidados que as corespondem. Sobre as demais dicas, a boneca aponta sugestões para que as meninas façam sucesso e sejam mais felizes.
Devemos destacar os estudos de Ana Carlota Vita (2009) sobre as práticas de embelezamento, na obra “História da maquiagem, da cosmética e do penteado”, para a compreensão das dicas da Barbie. A autora traça um histórico acerca das práticas corporais – que envolvem o penteado, a cosmética e a maquiagem –, ao longo das civilizações.
A autora aponta que a partir dos anos 1980 a 1990, a prática de exercícios físicos para manter a forma (magra) cresceu surpreendentemente. Vita (2009) apregoa que, por meio das revistas, as mensagens marcam o modelo de mulher perfeita, aquela que, “[...] para ser feliz, tinha que ter: uma carreira, bom sexo, um marido de sucesso e, naturalmente, um bebê! Mas isso só seria conseguido por uma mulher magra, praticante de aeróbica e perfeita da cabeça aos pés” (VITA, 2009, p. 145).
Nas décadas seguintes, com os avanços da tecnologia, as mulheres passaram a não aceitar rugas, gorduras indesejadas e diversos “defeitos” do corpo. A busca pelo corpo
8 perfeito ultrapassou os produtos até então disponíveis no mercado. Maquiagens, cremes e outros truques se tornaram insuficientes.
O artigo “Gender, body, and beautification: Girls learning femininity in Brazil” (Gênero, corpo e embelezamento: Meninas aprendendo feminilidades no Brasil), escrito por Bianca Salazar Guizzo (2012), relata o comportamento de meninas com idade de cinco e seis anos em uma instituição de ensino situada em Esteio, cidade do Rio Grande do Sul.
Para a autora, a televisão funciona como uma grande influente na construção dos conceitos de gênero pelas crianças. As meninas, em especial, aprendem a buscar as características encontradas nos programas televisivos, “[...] elas aprendem quais os tipos de pessoas são educadas, bonitas, saudáveis, perfeitas, etc. Além disso, elas querem ser como essas pessoas.” (GUIZZO, 2012, p.111, tradução nossa).
A construção da identidade de um sujeito está intimamente ligada à cultura vivenciada por esse indivíduo. Uma das necessidades percebidas socialmente diz respeito à aparência física (GUIZZO, 2012). As representações de padrões de beleza estão alastradas pelos diversos âmbitos da sociedade e, o livreto “Dicas de beleza da Barbie” constitui um dos veículos desses modelos enfatizados coletivamente.
Guizzo (2012) argumenta que as meninas se engajam em práticas de embelezamento desde a tenra idade e acabam por assimilar determinados estereótipos de mulher como normais, [...] Contudo, essas preocupações não devem ser vistas como uma maneira natural de pensar da mulher. Elas precisam ser entendidas como parte de um processo histórico, social e cultural do sistema de relações (GUIZZO, 2012, p. 113, tradução nossa).
Nas observações desenvolvidas, a autora em tela verificou que meninas com idade entre 5 e 6 anos, frequentavam a escola utilizando maquiagem e roupas extremamente semelhantes àquelas utilizadas pelos adultos. Além de se dedicarem no horário do intervalo, às atividades que envolvessem maquiagens e penteados de cabelo e não admitirem o uso de sapatos que lhes proporcionassem baixa estatura, ou seja, tênis e demais calçados apropriados para a idade, não fazem parte do cotidiano das meninas (GUIZZO, 2012).
O uso de maquiagens pelo público infantil cresce a cada dia. Os meios de comunicação encontraram na criança um forte candidato ao consumo de práticas de embelezamento. As páginas do livreto dedicadas às maquiagens intitulam-se “Cores e Brilhos” (ARIELLO, 2007, p. 16-17). Barbie indica quais os cosméticos adequados para os
9 cílios, boca, bochechas e olhos e tais dicas, garantem às meninas uma “aparência bonita”, conforme o estilo da boneca.
“Cores e brilhos”
Fonte: ARIELLO, Fabiana. 2007
Vira (2009) expõe que foi apenas no século XVIII que a cosmética sofreu um considerável desenvolvimento. Somente nesse período as farmácias foram reconhecidas e legalizadas, bem como os jornais. Os farmacêuticos tiveram a oportunidade de aprofundar seus estudos e serem reconhecidos pela profissão, já que sofriam grandes prejuízos pelos enganadores – charlatões – no período que antecedeu a legalização das farmácias.
Novas técnicas de embelezamento surgiam. Perfumes, ruges, sombras, cremes para o corpo e para os cabelos, foram aperfeiçoados. Os novos estudos deixaram para trás os métodos utilizados desde o período medieval. E, diversas composições cosméticas são comercializadas na atualidade, dentre elas, os perfumes.
Contudo, na Idade Média, a ascensão da Igreja Católica fez com que os cuidados com a beleza passassem de primordiais para fúteis. Vita (2009) aduz que a Igreja pretendia apagar os ideais e a cultura pagã e [...] essa pressão religiosa modificou os hábitos de higiene e a maneira de vestir e de pentear. [...] a maquiagem não pôde mais aparecer, e os penteados rebuscados das romanas não eram mais vistos. (VITA, 2009, p. 55).
Apenas no período renascentista que os cuidados com o corpo, valorização da beleza e as práticas de embelezamento voltaram a ser exercitadas. A caracterização dessas técnicas e até mesmo da higiene com o corpo, não são mais consideradas errôneas perante os olhos da Igreja (VITA, 2009).
A busca pelos cosméticos cresceu concomitantemente ao passar dos séculos e as transformações sociais. No século XX, as mulheres já estavam conquistando seu espaço no mercado de trabalho recebendo seu próprio dinheiro, mudança primordial para o aquecimento nas vendas de maquiagens, perfumes e cremes.
10 O desenvolvimento do cinema contribuiu com o consumo de cosméticos. As estrelas de cinema atuavam como inspiradoras de estilos, roupas e maquiagens. Os produtores de cosméticos passaram a produzir produtos para toda a sociedade, não mais apenas para a elite da sociedade. Todas as mulheres desejam parecer-se com as atrizes (VITA, 2009).
A partir da criação da boneca Barbie em 1959 e o crescimento da linha até a atualidade, as meninas buscam se parecer com boneca e desenvolver práticas para se atingir o corpo perfeito e a felicidade pronunciada por ela. O livreto permite-nos evidenciar o estereótipo de beleza ideal, ser magra, andar sempre na moda, fazer uso da maquiagem certa, do corte correto para os cabelos e da utilização do perfume ideal, constituem-se no padrão da boneca.
As dicas de maquiagem evidenciam que os produtos indicados pela Barbie são os ideais para que a menina possa se sentir bela, desejada, popular, invejada pelas amigas e feliz. Os conselhos marcam quais os cosméticos perfeitos para a boneca e, as meninas acabam por desejar e consequentemente, consumir tais produtos.
Devemos refletir acerca do amparo legal que sustenta o consumo de produtos cosméticos pelas crianças na atualidade. Em 29 de agosto de 2012, afirma o Instituto Alanaii, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), instituiu a Consulta Pública nº 50, “[...] que dispõe sobre os requisitos para a concessão de registro de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes infantis [...].” (ALANA, 2012, online).
Essa Consulta prevê restrições para o uso de alguns produtos pelas crianças, como sabonetes e produtos de higiene bucal. Entretanto, a restrição para o uso de batons, esmaltes e outros cosméticos chega, apenas, até os três ou cinco anos de idade. Com esse quadro, empresas poderão ofertar e direcionar propagandas diretamente para o público infantil de seis anos, público esse que ainda não possui nenhum tipo de discernimento para lidar com o mercado do consumo.
Por estarem em um processo de desenvolvimento psicológico e físico, no qual se inicia o reconhecimento de valores, conceitos de certo e errado e costumes, as crianças acabam por assimilar modelos desde a tenra idade, de modo a incorporar como normais, padrões impostos pela sociedade do consumo. As meninas incorporam práticas de embelezamento que lhes são disponibilizadas, desde muito cedo, livremente (ALANA, 2012).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do exposto, entendemos que Barbie educa as meninas tendo em vista a perspectiva da boneca. Com afirma Tomé (2010), Barbie não é considera um brinquedo pela sociedade, em especial pelas mulheres, mas sim um modelo de beleza, que dita comportamentos, padrões e modos de se portar, tidos como normais.
Buscamos compreender com a análise dos conselhos apresentados pela boneca, quais os comportamentos e padrões que Barbie impõe às meninas, que interferem diretamente na construção da feminilidade infantil. Devemos considerar que as práticas de embelezamento desenvolvidas pelas crianças, consistem em atividades precoces que não deveriam pertencer à infância.
As brincadeiras, que deveriam fazer parte do cotidiano das meninas, não fazem parte do dia-a-dia de milhões de garotas. Os estudos de Guizzo (2012) apontaram que as principais atividades desenvolvidas por elas consistem em brincar de ir ao salão de beleza (cuidados com o cabelo, pele, pés e mãos, maquiagens) e participar de desfiles de moda, prática essa que incentiva a preocupação com o corpo, em particular, com a magreza.
As meninas assimilam padrões, práticas, conceitos de feminino e embelezamento, difundidos e considerados pela mídia, – que investe fortemente no público infantil – como o ideal para se atingir a felicidade. Desse modo, o contato das crianças com a publicidade, destina preocupações, dúvidas e responsabilidades que não deveriam englobar o universo infantil.
REFERÊNCIAS
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ALMEIDA, Danielle; HEBERLE, Viviane. Sobre gênero e preconceitos: Estudos em análise crítica do discurso. In.: VII Seminário Fazendo Gênero, 7., 2006, Florianópolis. Anais... Florianópolis: UFSC 2001. p. 01-07.
ARIELLO, Fabiana. Dicas de beleza da Barbie. São Paulo: Fundamento, 2007.
LAURETIS, Tereza LAURETIS, Teresa De. A tecnologia do gênero. Tradução de Suzana Funck. In: HOLLANDA, Heloisa (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 206-242.
GUIZZO, Bianca Salazar. Gender, body, and beautification: girls learning Femininity in brazil. Revista Ártemis. [online]. v. 13; jan/jul, 2012. p. 110-118.
12 LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas.
Pro-Posições. Campinas, v.19, n.2, maio/ago.2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010373072008000200003&lng =en&nrm=iso>. Acesso em: nov. 2012.
LUCA, Tania Regina de. Mulher em revista. In.: In PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria (Orgs). Nova história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2012. p. 448-468. RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. A cidade e a moda: novas pretensões, novas distinções. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.
ROVERI, Fernanda Theodoro. A boneca mais chique é um choque: considerações
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SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. Sempre bela. In PINSKY, Carla Bassanezi; PEDRO, Joana Maria (Orgs). Nova história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2012. p 105-125. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 5-22, jul./dez. 1990.
SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira; FARIA, Aline Almeida de. Corpo, saúde e beleza: representações sociais nas revistas femininas. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 4, p. 171-188, mar. 2007.
TCC de pedagogia UEM. Disponível em: < http://www.dfe.uem.br/TCC/trabalhos.html> Acesso em: Agosto. 2012.
TOMÉ, Dyeinne C. Educação das aparências: moda, estilo e boas-maneiras nos livros
da Barbie. 2010. 43 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia)
Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2010.
VITA, Ana Carlota R.. História da maquiagem, da cosmética e do penteado: em busca da perfeição. 1 ed. (reimpr.). São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2009.
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A obra possui 27 páginas com custo aproximado de vinte e cinco reais. Todos os direitos do livro são reservados à Mattel, visto que a Barbie e toda marca associada a ela, são propriedade da empresa. ii
Criado em 1994, o Instituto Alana objetiva promover a educação, a assistência social, a cultura e a proteção da população, tendo em vista a valorização do ser humano.