Domingos de Siqueira Cortes e Família Escrava
1Fernando Franco Netto2
Resumo: O presente trabalho tem como objetivo entender como se deu a formação das famílias de
escravos de Domingos de Siqueira Cortes, em Guarapuava-Paraná, bem como perceber através dos registros paroquiais quais eram as suas estratégias para que os arranjos matrimoniais fossem algo concreto na situação em que viviam. Com relação aos escravos de Guarapuava, estuda-se o caso particular do domicílio do Senhor de escravos Domingos de Siqueira Cortes, que no seu plantel tem um número considerável de casamentos e, também uma família extensa formada por pais, filhos e netos. O período da pesquisa compreende grande parte do século XIX e, as fontes de pesquisa são baseadas nos registros paroquiais referente aos Assentos de Casamento e Batismo dos escravos localizados no Arquivo Nossa Senhora de Belém em Guarapuava. Percebe-se que apesar dos registros informarem poucas uniões estáveis, no período estudado, ao considerarmos parcela significativa de indivíduos que poderiam ter seu passado escravo, essa relação se torna importante no trabalho, haja vista que o porcentual de cativos que estão se casando se torna expressivo.
Palavras-chave: casamento, estratégia, família, escravidão. Introdução
De acordo com o livro de assento de casamento de escravos encontrado na Paróquia Nossa Senhora de Belém, localizada no centro da cidade de Guarapuava, Paraná, os documentos comprovam que existiram casamentos de cativos no período referente a grande parte do século XIX. A presente pesquisa procura mapear os matrimônios ocorridos nessa região do sul do Brasil que foram documentados na paróquia da cidade, para, a partir disso, traçar a frequência e os motivos com que ocorriam casamentos de escravos. Para compreender um pouco mais sobre o assunto, utiliza-se de algumas pesquisas importantes que tratam de famílias negras e escravas no Brasil, bem como, o compadrio escravo e o dia a dia desses cativos que fizeram parte da história do Brasil.
Quanto a formação das famílias escravas, talvez essas tenham se formado a fim de “apaziguar” as relações existentes entre escravos em si e entre escravos e seus senhores, considerando que tendo uma família, que proporcionasse raízes ao escravo, este agiria de maneira diferente na hora dos conflitos,
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Texto apresentado no 7º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, Curitiba (UFPR), de 13 a 16 de maio de 2015.
como cita Manolo Florentino e José Roberto Góes. “os laços parentais, por sua vez, criavam uma sólida base para o relacionamento pacífico, assim como as cerimônias rituais.”3
Na obra de Manolo Florentino e José Roberto Góes é possível perceber diversos pontos que tornavam a existência das famílias escravas algo benéfico, é possível perceber que os matrimônios eram os laços familiares mais frequentes entre os escravos. Mas, ao que se refere essa busca da paz entre os escravos? A seguinte citação faz parte da conclusão da obra “A paz nas senzalas”.
A paz entre os escravos precedia aos enfrentamentos com o senhor, ao menos aqueles em que eles tivessem alguma chance de sucesso. E sucesso naquela sociedade incrivelmente injusta, não precisava ser tanta coisa. Comida, descanso, um pouco de sossego e, se possível, roçados, alguns dias livres, divertimentos e famílias. Uma estratégia para fazer aliados era fazer parentes. De muitas maneiras se devia fazer um parente, no tempo da escravidão. Não é preciso recorrer a uma infausta digressão sobre o conceito para concluir que, no que diz respeito às relações parentais como expressão de uma aliança política (política e afeto geralmente andam juntos, pois não?), ainventividade dos escravos deve ter sido muito solicitada.[...]Pelo casamento e, antes ou depois, por meio do nascimento de uma criança escrava, vários indivíduos criavam ou estreitavam laços, que nas difíceis circunstâncias da vida em escravidão, eram laços de aliança.4
Embora a citação pareça ser autoexplicativa, cabe aqui algumas considerações. Vemos mais uma vez de que forma os laços parentais auxiliavam o dia a dia dos escravos, essas famílias, além de ser uma garantia de menos rebeldia dos escravos para com os seus senhores, ainda gerava filhos, alguns que permaneciam escravos e outro que por conta da Lei do Ventre Livre nasciam libertos. O casamento religioso era, portanto, conveniente aos escravos e aos senhores, pois com isso os escravos até queixavam-se menos e sentiam-se como gente, era um pouco de paz e trégua entre senhores e escravos. Para José Flávio Motta, em sua obra “Corpos Escravos, Vontades Livres” tem-se o seguinte trecho referente a formação da família no meio escravista.
Em suma, se por um lado, as famílias escravas desenvolvem-se em meio às relações de cunho paternalístico que se estabelecem entre senhores e escravos ao longo do período da escravidão negra no Brasil, por outro, tais famílias consubstanciam-se na manifestação da vontade da própria população cativa e expressam seus elementos culturais próprios. São, decerto, um instrumento de controle social empregado pelos senhores; mas são, igualmente, uma efetiva estratégia de sobrevivência da qual lançam mão os escravos.[...]a família escrava, nuclear ou extensa,compreendendo os indivíduos ligados por laços de sangue, ou
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FLORENTINO, Manolo e GÓES, José Roberto. 1997. A paz das senzalas: famílias escravas e o tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c.1790-c.1850. p. 32. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira
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ainda pelo parentesco ou compadrio, tem sua existência inserida já na historiografia nacional[...]5
Ou seja, tem-se a afirmação de que o desenvolvimento das famílias escravas era algo concreto, fossem por laços consanguíneos, ou por compadrio, que se dava pelo batizado. Para os senhores, esses laços que envolviam seus escravos podiam ser uma forma de controlá-los, mas, para os escravos que formavam essas famílias era muito mais que isso, pois significava a volta da presença fraterna de se ter uma família. Segundo Miriam Moura Lott;
Os casamentos, as missas, as confissões, as visitações pastorais com objetivo de admoestar os devotos, tinham o objetivo de “domesticar” a população. Entretanto, estes mesmos ritos abriam possibilidades de inserção social para os escravos. A eles era garantido o acesso aos sacramentos e a guardar os domingos por ser considerado o Dia do Senhor.6
Embora Miriam Moura esteja falando de outra região, não se pode deixar de levar em consideração tal informação sobre o que o casamento representava para determinada época e localidade. O direito da confissão, do casamento, do batismo dos filhos tinha como objetivo domesticar a população. Mas essa domesticação tinha seu lado bom, pois possibilitava ao escravo certa inserção social, pois eles estavam tendo o direito aos sacramentos da igreja e até mesmo a ter o dia de domingo livre, por ser considerado o dia do senhor, sem contar que os laços parentais eram benéficos em muitos momentos da vida. Ainda segundo Lott:
O matrimônio possuía um papel normatizador sobre as populações coloniais. (...)Para se ter ideia da importância dada ao casamento como forma de controle das populações, observa-se a reincidência de denúncias e punições determinadas pelas visitações diocesanas acerca das uniões consensuais.7
Ou seja, o matrimônio era sim uma estratégia entre os escravos, o escravo usava o casamento como forma de se beneficiar, pois quando esse escravo se casava e constituía uma família ele passava a ter mais direitos e regalias, com, por exemplo, um espaço para ele e sua prole. Nesse espaço para viver com a família havia certo controle interno, era um espaço em que o casal podia dividir o “fogo” com
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MOTTA, José Fávio. Corpos escravos, vontades livres: posse de cativos e família escrava em Bananal (1801 -1829)/ José Flávio Motta-p.225 São Paulo: FAPESP: Annablume, 1999.
6LOTT, Miriam Moura. “Casamento e relações de afetividade entre escravos: Vila Rica séculos XVIII e XIX”.Anais da V jornada setecentista. p. 7,8. Curitiba, 26 a 28 de novembro de 2003.
7LOTT, Miriam Moura. “Casamento e relações de afetividade entre escravos: Vila Rica séculos XVIII e XIX”.Anais da V jornada setecentista. p. 4. Curitiba, 26 a 28 de novembro de 2003.
seus filhos, podiam ter um pouco de liberdade, ao menos dentro das suas moradas. Isso é o que se pode acompanhar no seguinte trecho de Robert Slenes.
É importante enfatizar, no entanto, que a busca da privacidade por parte do escravo não visaria apenas a criação de um maior espaço psicológico e emocional; estaria ligada também à procura de mais independência econômica e cultural.8
Dessa forma é possível notar que em várias regiões do Brasil houve o casamento de cativos como uma forma de estratégia entre eles em busca de melhores condições de vida. O escravo já não queria mais viver sozinho, por mais que as condições fossem difíceis, ele queria ter com quem compartilhar sua vida. São diversas as fontes que afirmam a presença do matrimônio entre os escravos. E diante disso é possível afirmar que a própria igreja via o casamento entre os escravos com bons olhos. Outro detalhe importante que deve ser levado em consideração é que além das uniões sancionadas pela igreja, aquelas formais, também existiam muitas uniões consensuais entre os escravos, ou seja, os escravos e cativos formavam suas famílias por conta própria, se amasiando e tendo filhos mesmo sem o reconhecimento da igreja. Isso pode ser observado até mesmo pelo número de filhos que uma mesma escrava batizava, se analisarmos com atenção os intervalos entre o batismo de um filho e outro pode-se deduzir que esta escrava vivia sim em uma união estável, mas que apenas não tinha sido sancionada pela igreja.
Dos matrimônios de escravos
Não faz muito tempo que a discussão sobre haver ou não famílias escravas no Brasil teve uma conclusão. Sabe-se que a formação de famílias entre escravos foi algo concreto, em Guarapuava foi algo presente durante todo o século XIX. Segundo Fernando Franco Netto.
[...] Guarapuava foi uma dessas regiões do Brasil Meridional que produziu relações relativamente estáveis para a população escrava, onde a comunidade era provavelmente unida em se tratando de laços de afinidade e de estratégias parentais. Ao mesmo tempo, a atitude de seus proprietários permite inferirmos que eles também participavam dessas estratégias, oferecendo condições para que os escravos pudessem se relacionar melhor com outras pessoas, principalmente os livres.9
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SLENES, Robert W. Na Senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX/ Robert W. Slenes. p. 182 -Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999. 7 PINTO, Natália Garcia. Entre laços, tramas e vontades: as relações familiares de escravos e libertos na Pelotas oitocentista do século XIX (1830/1850). 9
A partir dessa assertiva, pode-se concluir que muitas foram às estratégias produzidas pelos escravos na localidade em função das relações que estavam acontecendo, principalmente quando se verifica que os proprietários de escravos também participavam dessas relações.
Os dados sobre casamentos de escravos em Guarapuava no período que compreende os anos de 1813 a 1886, informa que foram um total de 141 registros. Pelos registros contidos nos Assentos de Casamento podem ser encontradas diversas informações sobre esses casamentos, como, por exemplo, a data do matrimônio, o nome dos noivos, a idade, a cor, o nome do proprietário entre outros detalhes. Esses números dão a entender que o casamento era um interesse de ambas as partes, os noivos cativos e seus senhores.
Acredita-se que além dos casamentos que constam registrados em livros de assentos na paróquia, mais casais viviam em situação marital, sugerindo que o casamento para estes escravos era algo que os beneficiava, pois começariam ali a formação de sua família e de relações sociais.
Do senhor e das famílias que se formaram em Guarapuava
Domingos de Siqueira Cortes pode ser considerado um importante proprietário na localidade de Guarapuava. A família Cortes era extensa na região, haja vista que nos registros encontra-se o sobrenome da família fazendo parte de outros domicílios em Guarapuava.
Em sua propriedade, no período de 1849 a 1884, sete escravos ou com passado escravo casaram-se. No total foram quatro homens e três mulheres. Os escravos foram Veríssimo e Florinda, Nicolau e Maria Rita, Pedro Fernandes dos Santos e Josepha Maria de Lima (condição indefinida, haja vista não haver registros que identifiquem seu passado), José Raymundo Fagundes e Maria Rosa Anunciação (condição livre).
O primeiro registro de casamento que temos no plantel foi o do escravo Veríssimo com sua noiva Florinda, também escrava. A data do matrimônio foi em 11/09/1849. Os dois nubentes, além de serem escravos, eram de origem crioula. Os pais dos noivos, pelo que tudo indica, também eram escravos, pois nos registros informa que Ignácio e Magdalena eram os pais de Veríssimo, como está registrado apenas o primeiro nome, supõe-se que os dois também eram escravos. Quanto à Florinda, nos registros aparece apenas o nome de sua mãe, Francisca e conforme sugerido anteriormente, por se tratar do primeiro nome, provavelmente a mãe de Florinda era escrava. Outra informação
relevante nos registros é que os noivos eram batizados, sendo Veríssimo batizado em Palmeira e Florinda em Sorocaba.
Juntos o casal teve seis filhos que foram batizados. O primogênito do casal foi Salvador que foi batizado no dia 08/12/1851 e teve como padrinhos o casal Miguel de Souza Menezes (escravo) e Libânia Fernandes (liberta). O menino nasceu no dia 03/11/1851 e faleceu no dia 17/05/1854 aos 3 anos de idade.
O segundo filho foi a menina Magdalena, ela foi batizada no dia 02/10/1853 pelos padrinhos Francisco José da Costa e Matilde Florinda que eram casados. Provavelmente, os padrinhos eram indivíduos de condição livre, pois não há registro de passado escravo para eles.
A terceira filha do casal recebeu o nome de Luiza e foi batizada no dia 29/06/1856 pelos padrinhos Francisco de Siqueira Cortes e Maria Izabel de Lima, ambos eram solteiros. O padrinho Francisco de Siqueira Cortes provavelmente fazia parte da família do senhor Domingos de Siqueira Cortes e Maria Izabel de Lima também deveria fazer parte das relações familiares de sua família.
No dia 24/10/1858 foi batizada a quarta filha do casal, Maria, seus padrinhos foram Antonio, solteiro, escravo de Domingos de Siqueira Cortes e por Libânia Fernandes, liberta, casada com Miguel de Souza Menezes. Nesse caso, verifica-se as relações entre os escravos, pois Maria foi batizada por escravos ou com passado escravo, reforçando a idéia de que eles, os escravos, quando podiam procuravam fortalecer seus laços com o seu passado.
Hefigênia foi a quinta filha do casal, batizada em 09/12/1860 por Pedro Aleixo, francês, casado e Leopoldina Vitalina de Souza, solteira. Pode ser que o padrinho estava de passagem por Guarapuava e a fim de registro procurou aproximação com o ambiente escravo oferecendo-se para ser padrinho.
Teresa foi a sexta filha do casal a ser batizada, no dia 05/02/1865 pelo casal Pedro Manoel da Costa e Josefina Maria Gertrudes. Pelos registros o casal de padrinhos são pessoas livres.
O intervalo genésico do casal, a partir do momento em que eles começam a ter o primeiro filho foi de aproximadamente 2,3 anos. Ao considerarmos a média em que os indivíduos livres tinham os seus filhos, é bastante razoável supor que o casal percebia a importância desse intervalo para o bem estar da mãe e dos filhos.
Em 1859, o escravo Nicolau casou-se com Maria Rita de condição indefinida, pois, não há registros sobre o seu passado. Nicolau provavelmente era irmão de Veríssimo, pois nos registros
consta que seu pai era Ignácio e sua mãe Magdalena, ambos falecidos. Os pais da noiva são Bento Pedroso e Leopoldina Mendes dos Santos.
O terceiro casamento realizado no plantel de Domingos de Siqueira Cortes foi o de Pedro Fernandes dos Santos, liberto, origem de Sorocaba. Sua noiva foi Josepha Maria de Lima, e seus pais são João Rodrigues Fernandes e Anna Maria dos Santos.
Por fim, o último casal foi Raymundo José Fagundes, liberto, origem africana, e sua noiva Maria Rosa Anunciação, livre, sendo os pais da noiva Manoel Francisco Bello e Anna Maria de Jesus.
Pelos registros de Assento de Batismo, todos esses casais, no período analisado, não tiveram filhos que fossem batizados oficialmente. As demais crianças com registro de batismo na propriedade foram fruto de uniões matrifocais.
Das mães solteiras pertencentes a Domingos de Siqueira Cortes
De acordo com o registro de batismos da paróquia Nossa Senhora de Belém, pode-se notar que alguns filhos de mãe solteira pertencentes a Domingos de Siqueira Cortes foram batizados no período de 1849 a 1871.
Pelo que consta nos registros a escrava, mulata, crioula e solteira Cesarina pertencente a Domingos de Siqueira Cortes foi a primeira mãe solteira a batizar um filho neste plantel, vindo depois a batizar mais quatro filhos, todos sem o nome do pai nos registros. Tratando-se do batismo da menina Josefa, como padrinhos, temos o casal João Manoel da Silva e Maria Alves da Luz. Posteriormente, Cesarina batiza outro filho seu, desta vez um menino. A criança recebe o nome de José e tem como padrinhos o casal João Ribeiro de Morais e Gertrudes Maria das Dores. Passado algum tempo temos o batismo de Dinna, a terceira filha de Cesarina e seus padrinhos foi, Bento de Siqueira Côrtes e Rosa Maria de Jesus, que são neto e avó. Na data de 01/11/1863, foi a vez do menino Marcos ser batizado, tendo como padrinho o tenente Policarpo Antunes Ferreira Maciel. O último batismo registrado pela mãe Cesarina refere-se a mais uma menina chamada Joana e aconteceu no dia 05/02/1865, a menina teve como madrinha a liberta e solteira Benta de Souza.
Outra escrava a batizar filhos na condição de solteira foi Serafina, na data de 14/12/1851 ela batiza sua filha Rita, os padrinhos da menina são o casal João Ribeiro de Morais e Gertrudes Maria
das Dores. Serafina ainda batiza Victória, no dia 15/10/1854, que recebe como padrinhos Pedro Lustosa de Siqueira e Maria de Belém.
Josefa foi outra escrava, crioula de Domingos de Siqueira Cortes a batizar filhos seus. A primeira a ser batizada foi Isidia, no dia 01/01/1868 sendo padrinhos Antonio Caetano Coelho de Amaral e Maria Madalena. Depois dela foi a vez de Luís ser batizado, na data de 21/11/1869, o menino foi batizado por Pedro Alves da Rocha Loures e sua esposa Francisca de Paula França. Por último tem-se o registro do batismo de José, que aconteceu na data de 06/11/1871 e os padrinhos do menino foram José Antonio de Almeida França e sua esposa Maria das Dores França.
Essas foram as escravas de Domingos Siqueira Cortes que batizaram filhos na condição de mãe solteira, o nome do pai das crianças não aparece em nenhum dos casos, mas, deve-se levar em consideração, por exemplo, o caso da primeira escrava a batizar filho no plantel, que foi Cesarina. De acordo com os registros, ela batizou cinco filhos que tem o pai como ausente, mas aqui abro um questionamento, será que ela era mesmo mãe solteira, ou vivia num relacionamento consensual que apenas não tinha sido reconhecido pela igreja ainda e para ela isto já bastava? A julgar o tempo de intervalo entre um batismo e outro vemos que de fato esta é uma possibilidade plausível, ainda se compararmos com o caso de outra família reconhecida pelo matrimônio que também batizou seus filhos vemos que os intervalos são em períodos bem parecidos. Este fato só reforça a ideia de que a família era algo bem mais presente do que aquilo que os registros de casamento nos oferecem.
Conclusão
O presente trabalho abordou alguns aspectos importantes sobre os registros de casamento de escravos num período em que pode-se separar em duas grandes fases com relação à escravidão no país. Num primeiro momento o período em que o tráfico atlântico tinha força no processo de acumulação dessa mão-de-obra para as propriedades agrícolas. Num segundo momento, as transformações por que passaria a sociedade e a economia interna e internacional em face das Leis que proibiriam o tráfico atlântico, bem como o processo de enfraquecimento das estruturas escravistas internas. Assim sendo, o trabalho procurou analisar aspectos relacionados com as possibilidades de união estável entre os cativos numa localidade voltada para a economia interna.
Percebe-se que apesar dos registros informarem as poucas uniões estáveis, no período estudado, ao considerarmos parcela significativa de indivíduos que poderiam ter seu passado escravo, essa relação
expressivo. Com relação às estratégias das famílias escravas, o domicílio de Domingos de Siqueira Cortes é relevante no sentido de que os casais que oficialmente realizavam o matrimônio se perpetuavam no tempo, expandindo suas famílias com filhos e netos.
Referências bibliográficas:
FLORENTINO, Manolo e GÓES, José Roberto. 1997. A paz das senzalas: famílias escravas e o tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c.1790-c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira
LOTT, Miriam Moura. “Casamento e relações de afetividade entre escravos: Vila Rica séculos XVIII e XIX”. Anais da V jornada setecentista. Curitiba, 26 a 28 de novembro de 2003.
MOTTA, José Flávio. Corpos escravos, vontades livres: posse de cativos e família escrava em Bananal (1801 -1829)/ José Flávio Motta -São Paulo: FAPESP: Annablume, 1999.
FRANCO NETTO, Fernando. População, escravidão e família em Guarapuava no século XIX. 2005. 395 f Tese (Doutorado) Universidade Federal do Paraná, UFPR, Curitiba. 2005.
PINTO, Natália Garcia. Entre laços, tramas e vontades: as relações familiares de escravos e libertos na Pelotas oitocentista do século XIX (1830/1850)
SLENES, Robert W. Na Senzala uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX/ Robert W. Slenes.-Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1999.