UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
AVALIAÇÃO DA DOR DE NEONATOS E CRIANÇAS PELA ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA
FERNANDA HANKE BOTTEGA
Orientadora: Profª MSc. Eniva Fernandes Stumm 2011
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA VIDA – DCVIDA Rua do Comércio, 3000 – Bairro Universitário
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Fone: (55) 3332-0200 – Fax (55) 3332-9100 www.unijui.edu.br
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FERNANDA HANKE BOTTEGA
AVALIAÇÃO DA DOR DE NEONATOS E CRIANÇAS PELA ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA
Artigo apresentado ao Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Enfermagem em Terapia Intensiva, do Departamento de Ciências da Vida, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ -, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Enfermagem em Terapia Intensiva.
Orientadora: Profª. MSc. Eniva Fernandes Stumm
Ijuí, RS 2011
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO... 4
TRAJETÓRIA METODOLÓGICA... 6
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 7
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 13
REFERÊNCIAS ... 14
AVALIAÇÃO DA DOR DE NEONATOS E CRIANÇAS PELA ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA1
Fernanda Hanke Bottega2 Eniva Miladi Fernandes Stumm3
RESUMO: Avaliar a dor e instituir medidas para seu alívio torna-se um diferencial no cuidado a crianças em terapia intensiva. Este estudo busca apreender ações de uma equipe de enfermagem referentes à avaliação de neonatos e crianças em situações de dor durante o processo de hospitalização em uma Unidade de Terapia Intensiva. É qualitativo, descritivo, estudo de caso, realizado em uma instituição hospitalar do noroeste do Rio Grande do Sul. A coleta de dados ocorreu mediante entrevista aberta, com dezesseis trabalhadores de enfermagem. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo e emergiu a categoria analítica: a enfermagem na avaliação e controle da dor de neonatos e crianças em uma Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica. Existem barreiras para tratar a dor em pediatria, que incluem ausência de avaliação, reavaliação adequada; entendimento inadequado sobre conceitos, quantificação da dor e déficit de conhecimento.
DESCRITORES: Avaliação da dor; Crianças; Cuidados de enfermagem.
ABSTRACT: Assess pain and institute measures for their relief becomes a difference in the care of children in intensive care. This study seeks to capture a share of nursing staff regarding the evaluation of neonates and children in situations of pain during the hospitalization in an intensive care unit. It is a qualitative, descriptive, case study, conducted in a hospital in the northwest of Rio Grande do Sul. The data were collected through open interview with sixteen nursing staff. The data were subjected to content analysis and the analytical category emerged: nursing assessment and pain management of newborns and children in an Intensive Care Unit Pediatric Neo. There are barriers to treat pain in children, which include lack of assessment, reassessment appropriate; inadequate understanding of concepts, quantification of pain and lack of knowledge.
KEY WORDS: Pain assessment; Children; Nursing.
1 Artigo originado do Trabalho de Conclusão do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Enfermagem em
Terapia Intensiva da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) - campus Ijuí-RS.
2 Enfermeira. Pós-Graduanda em Enfermagem em Terapia Intensiva. Autora do trabalho. Ijuí, Rio Grande
do Sul, Brasil.
E-mail: [email protected]
3 Mestre em Enfermagem, Doutoranda em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo
(UNIFESP). Coordenadora e professora do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem em Terapia Intensiva. Orientadora do trabalho. Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil.
RESUMEN: Evaluar el dolor y instituir medidas para su alivio se convierte en un diferencial con el cuidado de los niños en cuidados intensivos. Este estudio trata de captar acciones de un equipo de enfermería con respecto a la evaluación de los recién nacidos y niños en situaciones de dolor durante la hospitalización en una unidad de cuidados intensivos. Se trata de un estudio cualitativo, descriptivo, estudio de caso, realizado en un hospital en el noroeste de Rio Grande do Sul. Los datos fueron recolectados a través de entrevistas abiertas con dieciséis trabajadores de la enfermería. Los datos fueron sometidos a análisis de contenido y surgió una categoría analítica: la enfermería en la evaluación y control del dolor de los recién nacidos y los niños en una Unidad de Cuidados Intensivos Neo Pediátrica. Existen barreras para tratar el dolor en los niños, que incluyen la falta de evaluación, reevaluación apropiada, falta de comprensión de conceptos, la cuantificación del dolor y la falta de conocimiento.
PALABRAS CLAVE: Evaluación del dolor; Niños; Cuidados de enfermería.
INTRODUÇÃO
A dor é uma preocupação da humanidade e em todas as civilizações e períodos históricos se procurou esclarecer os motivos da ocorrência da mesma e os procedimentos para seu controle. Apesar de a dor estar inserida em uma categoria universal, não é expressa do mesmo modo em todas as culturas e nem sentida de forma idêntica pelos indivíduos. O limiar de dor varia não somente de um indivíduo para outro, mas de acordo com sua cultura, independentemente de suas bases anatômicas e fisiológicas (TEIXEIRA, 2008).
Define-se dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada ou relacionada a dano real ou potencial dos tecidos e cada indivíduo aprende a utilizar esse termo a partir das suas experiências anteriores (IASP - INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR THE STUDY OF PAIN, 2011). Como o tratamento da dor é considerado parte do cuidado e esta é definida como o quinto sinal vital, é fundamental enfatizar seu significado e ampliar o conhecimento dos profissionais da saúde sobre a importância do tratamento efetivo da mesma. Ela deve ser avaliada tão automaticamente quanto os demais sinais vitais: temperatura, pulso, respiração e pressão arterial (SOUSA, 2002).
Os mecanismos responsáveis pela percepção da dor iniciam no terceiro trimestre da gestação e seguem até dois anos de idade. Já, a percepção da dor no neonato e na criança varia pouco em relação à vida adulta, apesar de mudanças nos aspectos emocionais da experiência dolorosa, das interpretações do significado e do comportamento e expressão cognitiva diante da dor. A idéia de que o sistema de percepção da dor seria subdesenvolvido no recém-nascido e lactente era baseada na incapacidade que crianças, nesta fase, têm de verbalizar a dor. Nesse
contexto, pesquisas mostram que as propriedades neurofisiológicas dos receptores da dor são similares entre adultos e crianças (CONCEIÇÃO, 2005).
As crianças têm dor tanto por doenças como o câncer, quanto por lesões, cirurgias, queimaduras, infecções, efeitos de guerra, terrorismo, violência, procedimentos diagnósticos, dentre outros (IASP - INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR THE STUDY OF PAIN, 2011). Na perspectiva do cuidado em enfermagem, aliviar o sofrimento e a dor é uma ação de promoção de bem estar, conforto e, portanto, medidas diagnósticas inovadoras são estratégias para um cuidado integral, que atendam as necessidades do paciente. Assim, avaliar a dor e instituir medidas para seu alívio torna-se um diferencial no cuidado a neonatos e demais crianças em terapia intensiva.
A equipe de enfermagem que atua no cuidado à criança com dor percebe que a ansiedade e o desconforto comprometem o estado geral da mesma. Dessa forma, a responsabilidade de promover alívio da dor e conforto requer avaliação dos aspectos fisiológicos, emocionais, comportamentais e ambientais que a desencadeiam ou a exacerbam. No cuidado holístico, é importante considerar situações de desconforto e de dor vivenciadas, com o objetivo de proporcionar uma melhor qualidade de vida a esses pacientes (MORETE; MINSON, 2010).
A avaliação da dor baseada na alteração de expressões comportamentais da criança após um estímulo doloroso parece ser mais sensível e específica na detecção da dor quando comparada a medidas fisiológicas. Dentre os comportamentos que indicam dor no neonato e na criança, estão o choro, agitação, resposta motora, mímica facial, padrão de sono e vigília. Entre as reações fisiológicas, destacam-se aumento da freqüência cardíaca, respiratória, pressão arterial, diminuição da saturação de oxigênio, apnéia, cianose, tremores e sudorese (SOUSA et al, 2006).
Por ser uma experiência subjetiva, a dor não pode ser caracterizada por instrumentos físicos e não existe um instrumento padrão que permita ao enfermeiro mensurá-la (SOUSA, 2002). Diversos instrumentos são utilizados em recém-nascidos e crianças para avaliar a dor, tais como: Sistema de Codificação Facial Neonatal (NFCS - Neonatal Facial Coding System), Escala de Dor Neonatal/ NIPS, Perfil da Dor do Neonato Prematuro (PIPP - Premature Infant Pain Profile), Escala de Dor de FLACC (Face, Legs, Activity, Cry, Consolability), Escala Facial de Dor, Escala Linear Analógica Não Visual e o Modelo de Esquema Corporal (CHRISTOFFEL, 2009).
Dentre as inúmeras atribuições da equipe de enfermagem em terapia intensiva, uma delas consiste em proporcionar qualidade na assistência, mais especificamente, no que tange
ao manejo da dor em neonatos e crianças. Nesse contexto, a avaliação, o manejo e o tratamento da dor podem interferir na redução da morbidade, no tempo de internação, minimizar o desconforto e prevenir complicações, daí a relevância dessa pesquisa.
Com base no exposto, o objetivo deste estudo é “apreender ações de uma equipe de enfermagem referentes à avaliação de neonatos e crianças em situações de dor durante o processo de hospitalização em uma Unidade de Terapia Intensiva”.
TRAJETÓRIA METODOLÓGICA
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, descritiva, estudo de caso, realizada na Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica de uma instituição hospitalar porte IV da região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. A referida unidade disponibiliza dez leitos, seis são destinados a neonatos e quatro para as demais crianças. A equipe é formada por seis enfermeiras e 29 técnicos em enfermagem, um médico plantonista 24 horas, um fisioterapeuta e uma secretária.
Participaram do estudo dezesseis profissionais de enfermagem, quatro enfermeiros e doze técnicos em enfermagem que atuam na referida unidade. Como critérios de inclusão foram elencados os seguintes: ser enfermeiro ou técnico em enfermagem, atuar na Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica, local da pesquisa, há no mínimo seis meses, período considerado mínimo para a adaptação na respectiva unidade e aceitar participar do estudo. Como critérios de exclusão elegeram-se: não aceitar participar do estudo, estar trabalhando na Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica, local da pesquisa, há menos de seis meses e não ser enfermeiro ou técnico em enfermagem.
O número de participantes foi definido pelo método de exaustão, ou seja, a partir do momento em que as informações começaram a se repetir, indicou o término da coleta de dados (MINAYO; GOMES, 2007).
Os dados foram coletados nos meses de maio e junho de 2011, mediante entrevista aberta, gravada e transcrita na íntegra, com a seguinte questão norteadora: fale-me, como você identifica e avalia a dor em neonatos e demais crianças internadas na UTI em que trabalha? Também foi utilizado um roteiro com dados de caracterização e sociodemográficos dos pesquisados, com os seguintes dados: profissão, idade, sexo, estado civil, filhos, escolaridade, tempo de profissão, de atuação em UTI Neo-Pediátrica e turno de trabalho. Ainda, foi realizada observação simples em um diário de campo. A análise dos resultados seguiu os pressupostos da análise de conteúdo (GIL, 2002).
Foram respeitados todos os preceitos éticos de uma pesquisa com seres humanos, conforme Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1996). Para tanto, o projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unijuí, Parecer Consubstanciado nº 0008/2011 de 14/03/2011. Para manter o anonimato dos sujeitos, optou-se por nomeá-los de E1, E2, E3... E16.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Participaram do estudo dezesseis trabalhadores da equipe de enfermagem da Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica, dos quais quatro são enfermeiros e doze são técnicos em enfermagem. Atuam nos turnos manhã, tarde e noite. A idade dos entrevistados variou de vinte a cinquenta anos e quinze são do sexo feminino. Nove participantes possuem filhos, sete são casados, dois divorciados e os demais são solteiros. Quanto ao tempo de profissão, este variou de dois a 23 anos e o tempo de atuação em Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica de dois a dez anos.
Da busca de apreender a essência do conteúdo existente nas falas dos pesquisados, emergiu uma categoria analítica, descrita e analisada sequencialmente.
Categoria analítica - A enfermagem na avaliação e controle da dor de neonatos e crianças em uma Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica.
Em unidades de terapia intensiva um neonato ou uma criança pode ser submetido a inúmeros procedimentos dolorosos ao dia, e a atenção para a monitoração da dor deve ser uma das prioridades da equipe de enfermagem que as assistem. Os referidos profissionais, que passam a maior parte do tempo com o paciente e mantêm uma relação de proximidade com ele e seus familiares, são os primeiros a perceber e a avaliar a dor do paciente. Dessa forma, a possibilidade de ocorrência da dor, avaliação rotineira e tratamento adequado se constitui em preocupação constante da enfermagem (VIANA; DUPAS; PEDREIRA, 2006). Para tanto, considera-se que a equipe de enfermagem tenha formação adequada e atualização sobre a temática, daí a relevância da atuação do enfermeiro e da pesquisa.
Os efeitos da dor e do estresse em neonatos e crianças em uma unidade de terapia intensiva são evidenciados e se reconhece, atualmente, que eles têm o direito de não sentir dor e de quando ter, ser avaliada, registrada e devidamente controlada (CHRISTOFFEL, 2009). A dor deve ser avaliada em um ambiente clínico, para se empreender um tratamento ou conduta
terapêutica adequada. A eficácia desse tratamento depende da avaliação e mensuração confiável e válida (SOUSA, 2002). Pimenta (2003) complementa, ao afirmar que a dor não é sanada apenas com medicamentos, por isso a necessidade de apreender aspectos emocionais e sociais que a permeiam.
A avaliação da dor inclui local, intensidade, freqüência, duração, qualidade da dor, bem como registro em instrumentos específicos (RIGOTTI; FERREIRA, 2005). Os sinais dolorosos manifestados pelo neonato quando observados isoladamente não caracterizam precisamente a dor sentida por esse, dessa forma é necessário que o profissional associe os sinais para tornar a avaliação eficaz (FREITAS; MOURA, 2009).
Nas falas dos pesquisados evidencia-se que eles interpretam o choro, as expressões facial e corporal como sinais sugestivos de dor. Essas concepções dos sujeitos vão ao encontro das considerações da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (2010), a qual pontua que manifestações como choro, resmungo, gritos e proteção de partes do corpo também podem ser consideradas para tal avaliação.
Percebemos dor quando eles estão bem agitados, inquietos e tem a parte do rosto que é a feição de dor (...) eles choram bastante. (E1)
(...) pelos reflexos, pela reação do bebe, quando o bebe está muito inquieto, alguma coisa ele tem. (E3)
Nós percebemos a dor pelo grau de agitação (...) ele começa a se mexer, também dá para ver pela expressão facial de choro. (E5)
(...) às vezes eles fazem careta de dor, ou ficam sudoréticos, começam a suar mais (...) choro também. (E9)
Ele manifesta a dor com irritabilidade, com choro, sono intranquilo. (E10)
A expressão facial muda, no toque, (...) está dolorida, ele chora diferente e puxa o membro, ou alguma coisa (...) e tem uma expressão também diferente. (E11)
Nesse contexto, considera-se importante esclarecer que o neonato (zero a 28 dias de vida), não é capaz de referir a dor por meio de relatos verbais e sim por meio de respostas
fisiológicas e comportamentais. As respostas comportamentais dele são: expressão facial, movimentos corporais, choro, choramingo e grito. Pode-se ainda observar postura dolorosa, afastamento dos membros, batimentos dos braços, rigidez, flacidez e punho cerrado. A expressão facial é um parâmetro efetivo e confiável na avaliação de dor do recém-nascido e fornece informações sobre o estresse e desconforto durante um procedimento doloroso (CHRISTOFFEL, 2009).
A expressão facial é o artifício mais estudado, considerado o padrão-ouro nessa faixa de idade e inclui contração das sobrancelhas, aperto dos olhos, aprofundamento da prega nasolabial, abertura dos lábios, boca esticada verticalmente, boca alongada horizontalmente, contração dos lábios, língua esticada e tremor no queixo (SILVA et al, 2004). O choro na avaliação da dor tem sido questionado por ser pouco sensível e específico. Vários recém-nascidos não choram durante um procedimento doloroso e o choro pode ocorrer por fome, fraldas molhadas, falta de carinho, atenção, entre outros (CHRISTOFFEL, 2009).
Outros sinais apresentados pelas crianças, e referidos pelos sujeitos como importantes na avaliação da dor, foram: alterações nos sinais vitais e verbalização de dor, explicitadas nos fragmentos das falas de E2, E4, E5, E6, E9, E13 e E14.
As crianças que já verbalizam dizem: tia, dói a mão, dói isso, dói aquilo, mas basicamente é o choro onde a gente vê que alguma coisa não está bem. (E2)
Tem uns que conseguem falar, dizer que tem dor (...) choro, desconforto e às vezes até os sinais vitais ficam alterados. (E4)
O batimento cardíaco dele também, pode-se perceber até mesmo a queda de saturação pela dor, pelo choro. (E5)
Quando estão chorando, às vezes alguns têm queda de saturação, ficam cianóticas, (…) a frequência cardíaca e a pressão alteram. (E6)
Pelo monitor se identifica taquicardia (...). (E9)
A criança fica taquicárdica, ela pode apresentar também uma respiração ofegante. (E13) (...) aumenta a frequência cardíaca, a cor deles muda. (E14)
Dentre os fatores fisiológicos que se manifestam frente a situações de dor, destacam-se: frequência cardíaca e respiratória, pressão arterial, saturação de oxigênio e dosagens hormonais, ligadas à resposta endócrino-metabólica (NICOLAU et al, 2008).
Entre um e dois anos de idade, a criança pode verbalizar expressões de dor, tal como “dodói, dói” (CHRISTOFFEL, 2009). Já, a criança em idade pré-escolar (três a cinco anos) se expressa com mais clareza, localiza a dor e começa adquirir noção de tempo. Apresenta choro alto, gritos, expressões verbais: “ai, ai, ui, ui ui, isso dói”, agitação de braços e pernas, não coopera, necessita de contenção, solicita para cessar o procedimento, agarra-se aos pais, ao enfermeiro ou outra pessoa, pede apoio emocional, pode ficar inquieta e irritável com a continuidade da dor (CHRISTOFFEL, 2009), conforme mencionado por E4, E8 e E15. Eu identifico que ele está com dor quando ele começa a chorar sem cessar. (E4)
Eu vejo assim, quando a criança grita ou chora, um choro intenso. (E8)
Percebo que ele está com dor pelo o choro intenso. (E15)
E por fim, no período escolar (seis aos doze anos), a criança apresenta reações frente à realização de um procedimento doloroso, tais como se esquivar, pedir um tempo, “daqui a pouco”, rigidez muscular, punhos e dentes cerrados, rigidez corporal, olhos e testa franzidos. Essa criança pode reagir com exagero a doenças, lesões e procedimentos e relata suas experiências prévias de dor (CHRISTOFFEL, 2009). Crianças acima de sete anos são capazes de detalhar melhor experiências dolorosas e necessidade de conforto e alívio (TORRITESI; VENDRUSCULO, 1998).
O choro foi o parâmetro mais descrito nas entrevistas, mas se tem conhecimento de que as expressões faciais são mais específicas e facilmente identificadas na dor pediátrica. Os participantes atribuíram importante valor ao choro no momento da avaliação da dor do paciente pré-verbal. Entretanto, na prática sua utilização é questionável, visto que o choro pode ser desencadeado por outros estímulos, tais como desconforto, fome e frio, além de neonatos e crianças farmacologicamente comprometidos e entubados, serem incapazes de vocalizar o choro. Assim, cabe ao enfermeiro diferenciar o choro relacionado a fome do relacionado a dor, visto que há vários estudos que diferenciam o choro de dor com o de fome. Esse ultimo é composto de rápidas variações de frequência, sons plosivos e mais curtos, já o
de dor, é mais forte possuindo o segundo formante com maior amplitude (OLIVEIRA et al, 2011). E1, E7, E10 e E12 relatam que, após a avaliação da dor, tentam amenizá-la, de alguma maneira.
A gente administra a medicação conforme o plantonista pede, para dor (...) tenta acalmar a criança com o bico. (E1)
Nós medicamos conforme o médico prescreve (...) a enfermeira e o médico avaliam (...) a gente faz as medicações conforme eles vão chorando, se manifestando (...) você vai vendo a necessidade. (E7)
Tentar acomodar melhor no leito, envolver de uma maneira mais aconchegante com lençol fazendo ninho, sucção não nutritiva (…) acariciando, ficando junto dele, segurando a mão, conversando, o “xixixi” que eles gostam, que se assemelha ao ruído intra-utero. Estudos confirmam e eles se acalmam (...) outra forma é o colo da mãe(...) a gente percebe que eles se acalmam pelo aconchego da mãe. (E10)
Tentar mudar um pouco a posição, tentar aconchega eles, (...) tentar confortar da maneira que for possível. (E12)
Abordagens não farmacológicas utilizadas pela equipe de enfermagem incluem a educação e a preparação da criança para reduzir a ansiedade, desloca a percepção do foco da dor por meio da distração, imaginação, dentre outras estratégias. Os procedimentos não farmacológicos compreendem sucção não nutritiva, mudanças de decúbito, suporte postural, diminuição de estimulações táteis, aleitamento materno precoce, glicose oral antes e após aplicação de um estímulo doloroso (CRESCÊNCIO; ZANELATO; LEVENTHAL, 2009). Atualmente, as estratégias farmacológicas para o tratamento da dor em pediatria são os analgésicos antiinflamatórios não esteroidais, analgésicos opióides, adjuvantes, analgesia local, regional e anestesia geral. Além disso, combinações de intervenções farmacológicas e não farmacológicas tem sido adotadas (LEMOS; AMBIEL, 2010). Essas têm como objetivo diminuir ou aliviar as situações que podem aumentar a dor, o estresse da criança e que influenciam no seu comportamento. Nesse sentido, cabe ao enfermeiro uma avaliação cuidadosa das características individuais da criança e influências ambientais. Dessa forma, os pais e familiares devem ser envolvidos, tanto quanto possível, nas decisões relativas ao
tratamento de seu filho, por estarem mais familiarizados com a maneira da criança reagir à dor (CHRISTOFFEL, 2009).
A valorização da parceria entre pais e equipe de saúde, no alívio da dor, se constitui em um dos importantes esforços para o sucesso desta prática. O envolvimento e a interação são essenciais, pois os pais têm capacidade para perceber qualquer alteração no comportamento dos seus filhos (NASCIMENTO et al, 2010). Dessa maneira, podem colaborar com a avaliação dos profissionais de saúde e observa-se que nenhum entrevistado referiu a família como importante no processo de avaliação da dor da criança. Além disso, observou-se que as mães não podem permanecer 24 horas na Unidade com seus filhos e as visitas são permitidas das 9 às 12h, das 14 às 18h e das 21 às 06h. Na maioria das unidades as visitas são permitidas em horários determinados, o que se justifica pelo fato de a equipe da UTI estar centrada na assistência aos pacientes (PRATES et al, 2009). Já, nos padrões internacionais, o paciente e a família são considerados uma só unidade de cuidado (JOINT COMMISSION INTERNATIONAL, 2011).
Os profissionais da saúde ao satisfazerem as necessidades do paciente oferecem alívio efetivo à dor, de acordo com um julgamento apropriado e abordagens as mais avançadas disponíveis. O alívio da dor e dos sintomas da doença é uma contribuição importante na qualidade de vida do paciente, no sentido de favorecer a recuperação, além de outros benefícios (PESSINI, 2002).
Conforme evidenciado na fala de E16, na Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica estudada não há rotina e não se utilizam escalas para avaliação da dor em crianças.
Dentro da unidade a gente não tem uma rotina especificada para isso, não se usa as escalas que a gente estuda na academia. (E16)
Não é correto, simplesmente, achar que a criança está com dor, mas sim fazer um julgamento com base em uma análise, como resposta fisiológica e comportamental. Essas alterações não devem ser interpretadas individualmente, mas de forma holística (OLIVEIRA et al, 2011). Além disso a equipe de enfermagem deve dispor de instrumentos que permitam sistematizar a avaliação da dor, a fim de implementar cuidados que minimizem o sofrimento (FREITAS; MOURA, 2009). Na seleção do instrumento há de se levar em consideração as condições da criança, idade, sexo, aspectos sócio-culturais e desenvolvimento cognitivo (TORRITESI; VENDRUSCULO, 1998).
Também observou-se que a experiência contribui no momento da avaliação, conforme levantamento dos dados sociodemográficos dos participantes, bem como evidenciado em fragmento da fala de E16.
Eu identifico através das carinhas, através da noção das carinhas do bebe, da dor leve, da dor moderada, da dor grave, conforme a expressão facial e também alio alguns conhecimentos que a gente vai tendo ao longo dos anos. (E16)
A experiência profissional com crianças e o conhecimento prévio das reações à dor são fatores facilitadores do processo de avaliação da mesma (RODRIGUES, et al, 2008). Todavia, apesar das limitações no manejo da dor em crianças, uma avaliação criteriosa fornece subsídios à decisão de intervir nas circunstâncias estressantes e dolorosas que acometem a criança enferma (SILVA et al., 2004). Dessa forma, cabe aos profissionais de saúde que atendem a população pediátrica saber identificar os melhores métodos de avaliação de dor na criança, de acordo com sua idade e conhecer as estratégias preconizadas para o manejo da dor nesses pacientes (LEMOS; AMBIEL, 2010). Saber interpretar as reações de dor do neonato e da criança por meio da avaliação das alterações fisiológicas, comportamentais, percepções da família e autorrelato auxilia a enfermagem a compreender a linguagem da criança e planejar uma assistência de qualidade para a criança e sua família. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo mostra que existem barreiras para o efetivo tratamento da dor em pediatria. Estas incluem ausência de avaliação e reavaliação adequada da dor; entendimento inadequado referente a conceitualização e quantificação dessa dor; déficit de conhecimentos sobre como identificar, avaliar e tratar a dor.
A dor como um sinal subjetivo, acrescida da impossibilidade do neonato e da criança verbalizá-la, requer que o profissional de saúde que atua em Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica esteja atento às alterações comportamentais e fisiológicas que acompanham o episódio doloroso, além de apontar para a necessidade da utilização de instrumentos para avaliação da dor nessa faixa etária. Por outro lado, a avaliação da dor caracteriza-se como um desafio no cuidado à criança apesar da certeza e das evidências científicas de que a identificação e o manejo da dor determinam um cuidado qualitativo. Ainda nesta perspectiva
considera-se importante que os profissionais de saúde valorizem os relatos das mães e os sinais por elas identificados que dizem respeito às condições clínicas do neonato e da criança. Os profissionais de enfermagem que atuam em Unidade de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica, na sua grande maioria, desenvolvem seu trabalho com seriedade e se preocupam com o bem estar dos neonatos e crianças. No entanto, é importante que se invista na formação de profissionais de nível médio e superior acerca dos parâmetros para a identificação, avaliação padronizada e tratamento da dor das crianças internadas em Unidades de Terapia Intensiva Neo-Pediátrica. Dessa forma a equipe de enfermagem responsável pelo cuidado dessas crianças estará apta a traduzir a linguagem não verbal e implementar medidas humanizadas de conforto, com repercussões positivas na recuperação das mesmas.
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