O QUE JÁ ESTÁ ESCRITO!
PERSONAGENS:
SÂMIA - A MULHER DOS CARTAZES
ROBERTA
ISABELE – ESCRIVÃ
CRISTIANE - ASSISTENTE
A Mulher dos Cartazes (Sâmia) entra com carrinho contendo diversos cartazes enfileirados. Permanece próximo ao púbico. À esquerda e atrás estão a Escrivã (Isabele) e sua Assistente (Cristiane). A Escrivã cria cartazes, enquanto a assistente os leva até as fileiras de cartazes. Quando Roberta entra, a mulher dos cartazes passa a mostrar os cartazes para o público, com os dizeres: Roberta entra com uma mala e dirige-se para a escrivã.
Importante: Todas as palavras de Roberta e suas a ações devem estar descritas nos cartazes e mostradas ao público simultaneamente às ações de Roberta. Isso deve acontecer durante toda a cena.
ROBERTA: Por favor, eu gostaria... ESCRIVÃ: Um quarto.
ROBERTA: Sim... Mas que...
ESCRIVÃ: Que seja bastante ventilado... ROBERTA: Ah! Isso mesmo!
ESCRIVÃ: (Entregando as chaves) Quarto sete...
ROBERTA: Você não vai perguntar meu nome, endereço?
ESCRIVÃ: Roberta Lemos, 27 anos bem vividos, psicóloga, casada, residente em:
Fortaleza.
ROBERTA: Você me conhece? ESCRIVÃ: Nunca lhe vi antes. ROBERTA: Quem lhe falou...
ESCRIVÃ: A seu respeito? ROBERTA: É!
ESCRIVÃ: Ninguém!
ROBERTA: Então, como você sabe? ESCRIVÃ: Já estava escrito!
ROBERTA: Escrito? Onde?
ESCRIVÃ: (Apontando para mulher dos cartazes) Lá!
ROBERTA: Tá bom, alguém quer brincar comigo. Mas eu estou indisposta para
brincadeiras! Você pode me dizer onde é que fica meu quarto?
ESCRIVÃ: Isto é totalmente desnecessário! ROBERTA: Por quê?
ESCRIVÃ: Porque você não irá a quarto algum! ROBERTA: Como é que é?
ESCRIVÃ: Você não sairá deste espaço agora! ROBERTA: Posso saber por quê?
ESCRIVÃ: Porque já está escrito! Você irá discutir comigo, dizendo que tudo é um
absurdo, que não acredita nesta história e...
ROBERTA: Isso é um absurdo... Eu não acredito nesta história ROBERTA: Eu não falei... Agora você ficará perplexa e dirá... ROBERTA: Isto é um sonho, só pode ser um sonho...
Roberta caminha até o proscênio. Ela fica alguns segundos olhando o infinito. Vacila em romper o limite do palco, mas não o faz. Percebe a mulher dos cartazes, aproxima-se, dá uma meia volta e vê suas ações descritas no cartaz.
ROBERTA: O que é isto?
ROBERTA: E você é o escritor?
ESCRIVÃ: Mais ou menos! Existe um outro que escreveu esta história, que eu estou
escrevendo agora.
ESCRIVÃ: Eu não consigo entender?
ESCRIVÃ: Nem eu! Mas eu não me preocupo com isto. Apenas cumpro as funções que
me cabem. E no caso: escrever todas as suas ações e falas enquanto você ocupar este espaço!
ROBERTA: Mas isto tem que ter um fim.
ESCRIVÃ: Só depende de você! Os cartazes do lado direito são seu passado, os da
esquerda, seu futuro. Todo o seu futuro já está escrito.
ROBERTA: E se eu for embora agora? ESCRIVÃ: Não irá, isso não está escrito!
ROBERTA: Ah. É? Se você pensa que estou presa aqui, está muito enganada! Você é
que está preso a mim.
Roberta aproxima-se dos cartazes. Vasculha os cartazes passados. Lê em voz alta frases já ditas. Tenta enganar a mulher dos cartazes, movendo-se rapidamente, fazendo coisas inusitadas. Mas sempre um cartaz é mostrado, descrevendo o que ela faz.
ROBERTA: Ahá, enganei você!
Roberta começa a agir com mais rapidez e a mulher dos cartazes acompanha o ritmo, como também o escrivão começa a escrever cada vez mais rápido e entregar cartazes a assistente que corre de um lado a outro, levando cartazes. Roberta verifica as frases futuras. Mistura com outras frases...
ROBERTA: Quer dizer que tudo já está escrito, né?
Roberta faz uma ação rápida. Imediatamente, a escrivã envia uma frase para a mulher dos cartazes, que descreve a sua ação.
ROBERTA: Mas isto não é justo ainda não estava escrito.
Roberta tenta roubar cartazes e senta em cima deles. A mulher dos cartazes ainda consegue ficar com alguns.
Neste momento, Roberta brinca com os sons, inventa frases estranhas, faz pausa. Tudo que ela diz e faz é produzido antecipadamente pela Escrivã e mostrado pela Mulher dos Cartazes. Aqui, cabe ao diretor descobrir ações e brincadeiras vocais que serão descritas nos cartazes.
A Escrivã, a Assistente e Roberta começam a ficar exaustas. Roberta passa a falar em câmera lenta. Roberta parte com fúria para o pescoço da Mulher dos Cartazes, que mesmo em dificuldades continua a Mostrar Cartazes. Roberta tenta imobilizar a Mulher dos Cartazes, mas a assistente arranja uma maneira de entregar os cartazes para que consiga exibi-los, nas mais diversas partes do corpo da Mulher dos Cartazes. Roberta desiste, vai até a Escrivã e lhe toma os cartazes e a caneta.
ROBERTA: Agora quero ver o que você vai fazer!
A Escrivã dá um sinal para a Assistente. Esta traz diversas pilhas de frases em vários carros de transportar bagagens.
ROBERTA: Ah! Não!
ESCRIVÃ: Eu falei: tudo já está escrito! ROBERTA: Quando isto acaba?
ESCRIVÃ: Você que decide! Você é livre!
ROBERTA: Como livre, se tudo que faço e digo já está escrito nesses cartazes? ESCRIVÃ: Só para este espaço!
ROBERTA: Então, quer dizer que eu posso sair daqui? ESCRIVÃ: Claro, quem lhe impede?
Roberta caminha para a saída e hesita.
ROBERTA: E lá fora, o que acontece? ESCRIVÃ: Eu sei lá! A Escrivã é outra! ROBERTA: Só mais uma perguntinha? ESCRIVÃ: Sim?
ROBERTA: Já está escrito se algum dia eu retornarei? ESCRIVÃ: Deixe-me ver!
A Escrivã levanta-se de sua mesa, vasculha alguns cartazes do futuro. Entrega a Mulher dos Cartazes, que mostra somente para Roberta.
ROBERTA: Ah!
Roberta sai.
A mulher vira-se para o público, mostrando o cartaz, escrito: ROBERTA DIZ AH! E SAI DE CENA SEM JAMAIS SABER A RESPOSTA.