A INTERSECÇÃO ENTRE ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE
GÊNERO A PARTIR DA CRÍTICA DA HETEROSSEXUALIDADE E
CISGENERIDADE COMPULSÓRIAS EM DISCURSOS
TRANSFEMINISTAS
Beatriz Pagliarini Bagagli1
Resumo: Este trabalho pretende analisar a forma como a orientação sexual é textualizada a partir de discursos
transfeministas. Iremos selecionar textos provenientes de blogs e de redes sociais. Os discursos transfeministas visam representar os sujeitos transgêneros e neste processo, questionam as evidências socialmente consolidadas sobre gênero, utilizando noções como o binarismo e a cisgeneridade compulsória. A partir do momento em que as orientações sexuais são simbolizadas tendo referência a binaridade do gênero como objeto logicamente estável - estabelecendo, no campo do simbólico, o parâmetro que define quais são as posições entre o “mesmo” e “diferente” (homo e hetero) - julgamos relevante analisar os deslocamentos de sentidos que o discurso transfeminista é capaz de efetuar. Observamos, desta forma, como identidade de gênero e orientação sexual, se interseccionam. Pretendemos compreender como estes processos se dão a partir não apenas de uma crítica à heterossexualidade compulsória, mas também à cisgeneridade compulsória. Há, portanto, um ponto em que a crítica à normatividade da orientação sexual toca a crítica à normatividade da identidade de gênero. Iremos utilizar o arcabouço teórico e metodológico da análise de discurso, nos atentando, neste processo, para as formas de constituição de subjetividade que se textualizam a partir da intersecção crítica entre sexualidade e gênero - tendo como premissa que o sujeito e o sentido se constituem ao mesmo tempo.
Palavras-chave: Identidade de gênero. Transfeminismo. Análise do discurso.
Ao me deparar com textos que circulam nas redes sociais e em blogs pude delimitar uma questão que dizia respeito ao sujeito ou aos processos de subjetivação: o encontro do gênero com a sexualidade, ou, em outras palavras, o ponto em que gênero se torna instável e atinge a sexualidade e vice-versa. Tratam-se de textos que articulam, mais ou menos diretamente, questões designadas como transfeministas, isto é, o ponto de encontro, por sua vez, entre o movimento transgênero e o campo feminista. Gênero se torna um objeto instável nos discursos transfeministas na medida em que este movimento feminista propõe trabalhar simbolicamente a representação política dos sujeitos transgêneros, transexuais e travestis, trabalhando, desta forma, subjetividades que se apresentam enquanto incongruentes em relação às expectativas sociais normativas em relação ao gênero. Meu objetivo foi então observar como os questionamentos de evidências em relação ao gênero atingiam o campo da sexualidade - em forma de deslocamentos e indeterminação (recíprocos) de sentidos.
Em Bagagli (2017) meu objetivo foi compreender precisamente os processos de subjetivação que envolvem gênero e sexualidade a partir do momento em que os conceitos de heterossexualidade e cisgeneridade compulsórias faziam sentido nestes textos: como produção teórica crítica. Ou melhor: não apenas como estes conceitos funcionavam em si mesmos na produção teórica transfeminista, mas como eles produziam sentido a partir de uma articulação mútua.
A noção de corpo como condição de possibilidade da sexualidade (não é destino, neste aspecto) (WEEKS, 2000) foi igualmente útil para a saída do empirismo, o que nos possibilita a análise crítica dos sentidos (enquanto evidência) acerca dos corpos na sua relação com a sexualidade e gênero. Neste aspecto, a sexualidade não decorre de um cálculo lógico sobre o gênero inscrito nos corpos, isto é, trata-se de sair da evidência de uma sexualidade colada a um corpo sexuado na relação com outros corpos. Pude trabalhar esta questão através dos estudos de gênero e sexualidade, tais como os assim designados como teoria queer ou transfeminismo, assinalando a importância de perspectivas contra-hegemônicas que levem em consideração a articulação consubstancial e/ou interseccional entre identidade de gênero e orientação sexual.
Pudemos concluir que nem todas as heterossexualidades e homossexualidades são as mesmas, o que implica dizer, frente aos relatos que analisamos, que nem toda sexualidade é cisgênera, ou seja, nem toda sexualidade centra-se em parceiros e cônjuges cisgêneros e suas respectivas corporeidades para “fazer sentido” ou simplesmente para existir. Diante os relatos de pessoas trans, que possuem tanto um teor descritivo de suas vivências quanto crítico e analítico das normas sociais, podemos compreender que não apenas a heterossexualidade é compulsória, mas também é a cisgeneridade, assim como a norma não ser apenas heterossexual, ela também é cisgênera. Neste processo, podemos observar como o imbricamento de questões de gênero e sexualidade – no que diz respeito à analítica das normas heterossexuais e cisgêneras - não é óbvio quando tratamos de vivências transgêneras, tendo em vista que os estudos feministas e de gênero ainda parecem tratar estas duas questões de maneira ainda estanque, num desdobramento entre sexualidade e gênero que ainda produz pontos cegos na teoria – ora desconsiderando as não heterossexualidades a partir de corporeidades trans, ora presumindo as não-cisgeneridades a partir de vieses cissexistas (que conjugam tanto a compulsoriedade como a deslegitimação da identidade heterossexual a partir de uma posição trans).
Considero agora, neste momento, uma articulação teórica com a análise do discurso. Parto do princípio de que gênero e sexualidade dizem respeito ao sujeito na medida em que se constituem como sistemas de representação, que dizem, portanto, respeito aos processos de produção de sentido (que envolvem, em nossa perspectiva teórica, a consideração do conceito de língua, em seu modo de funcionamento próprio e autonomia relativa frente às determinações sócio-históricas).
Neste aspecto, sentido e constituição do sujeito são processos que ocorrem simultaneamente. Segundo Orlandi (1998, p.58), a subjetividade é entendida como o acontecimento da estrutura significante no homem, ou seja, “é como a língua - sujeita a equívoco - acontece no homem [...] não
se pode trabalhar o sujeito sem o discurso, deste modo, compreender o sujeito é compreender como funciona a língua”.
Pêcheux (1997) afirma acerca da existência de uma área intermediária entre o logicamente estabilizado e o não-estabilizado (derivados do jurídico, do administrativo, das convenções da vida cotidiana e mesmo da medicina) na qual a análise de discurso pode intervir. O autor também entende como uma forma de resistência possível se “despedir do sentido que reproduz o discurso da dominação, de modo que o irrealizado advenha formando sentido do interior do não-sentido” (PÊCHEUX, 1990, p.17). O não-sentido é entendido como espaço possível para irrupção de sentidos novos que tem a potencialidade de afetar o real da história. Neste aspecto, Gadet e Pêcheux (2010, p.64) afirmam que “o equívoco aparece exatamente como o ponto em que o impossível (linguístico) vem aliar-se à contradição (histórica); o ponto em que a língua atinge a história”.
Considero a distinção que tece Orlandi (1998) entre o não-sentido e o sem-sentido. Segundo a autora, o não-sentido é da ordem do interdiscurso e da relação com o Outro, domínio da memória em que há movimento possível dos sentidos e dos sujeitos, sendo, desta forma, entendido como horizonte de possibilidade (e não do vazio); o sem-sentido, por sua vez, deriva do efeito imaginário que produz evidência e estabilização em relação ao outro, gerando o efeito de apagamento da margem e do possível (agora sim como efeito de vazio) através de um efeito (mesmo que paradoxal) de saturação.
Alves (2013a) afirma que mulheres trans tem muita dificuldade em se assumirem como lésbicas ou bissexuais. Isto porque, como analisa a autora, a heterossexualidade é presumida como compulsória para que as identidades transgêneras sejam inteligíveis: se alguém deseja pertencer a um gênero diferente daquele que foi designado ao nascer, automaticamente vincula-se a pressuposição de que esta pessoa se atraia afetivamente/sexualmente por pessoas do gênero “oposto” em relação ao gênero que ela se identifica. A autora afirma que o feminismo foi de suma importância para o seu processo de auto aceitação.
Alves (ibid.) também designa como “genitalização” a importância usualmente atribuída aos genitais como um “elemento essencial do afeto” ou como uma “categoria fundante das relações interpessoais” e a forma como certos signos corporais se tornam “premissas para nossas relações”. Questionar a centralidade do genital para a definição do sentido da sexualidade, neste aspecto, é fundamental para que as pessoas trans passem a ocupar uma posição inteligível, seja na homossexualidade, heterossexualidade ou bissexualidade. Uma das premissas centrais deste
questionamento é de que “homossexualidade não requer simetria genital e nem heterossexualidade requer assimetria genital” (ALVES, 2013b).
Alves (2013c) também nos mostra que uma das formas pelas quais a sexualidade de pessoas trans é apagada é através da noção equivocada de que as próprias identidades transgêneras seriam em si mesmas uma forma de sexualidade. Tal visão vincula-se frequentemente à noção de que a sigla LGBT refere-se a “uma coisa só”, imiscuindo indiscriminadamente identidade de gênero e sexualidade. A partir da crítica a esta noção, afirma-se que não há nenhuma especificidade do campo da sexualidade que decorre exclusivamente da transexualidade (ALVES, ibid.).
Não faz sentido agruparmos a transexualidade com outras sexualidades. Contudo, justamente porque a transexualidade não é uma sexualidade, as pessoas trans* podem se identificar como trans* e como de uma sexualidade (ou não-sexualidade). Explico: Alguém pode ser trans* E heterossexual; trans* E gay; trans* E lésbica; trans* E bissexual; trans* E pansexual; trans* E assexual etc. O fato de uma pessoa escolher se identificar como de outro gênero, não implica que a) ela tenha uma sexualidade “natural” inscrita no corpo/identidade “original” que irá ser “transportado” com ela para a nova identidade; e b) que ela tenha que assumir “naturalmente” a heterossexualidade do gênero no qual ela identifica. (ALVES, ibid.)
Grimm (2017) define a heteronormatividade como um “conjunto de estruturas que circunscrevem os relacionamentos sexoafetivos entre homens e mulheres como única verdade e possibilidade”, assim como os processos de invisibilização e subalternização dos relacionamentos homossexuais. A autora analisa a relação entre a heteronormatividade e cisnormatividade na deslegitimação da lesbiandade de mulheres trans.
A heteronormatividade presume a cisnormatividade, na sua legitimação dos relacionamentos heterossexuais. Isso é: pressupõe também a inexistência ou a marginalização de pessoas trans – pressupõe também a possibilidade de “curar” pessoas trans, pra que se reconheçam dentro da identidade que lhes foi assignada pelo estado [...] E se trata, também, de heteronormatividade quando mulheres trans lésbicas são lidas enquanto “homens heterossexuais que se vestem de mulher”. Quando se nega às mulheres que amam e se relacionam com mulheres trans o reconhecimento de que estão se relacionando com uma mulher – negando que se trata de um relacionamento entre mulheres – pressupõe-se a heterossexualidade como um destino determinado pelos corpos ali envolvidos. A heteronormatividade se amarra, aqui, com o cissexismo – pelo pressuposto de que nossas genitálias ocupam um caráter central na definição de quem somos – de modo a pressupor que nossas orientações afetivas se definem pela genitália. (GRIMM, ibid.)
Cabe, desta forma, ressaltar que a heterossexualidade compulsória, como forma de produção de sentido (podemos pensar em termos de um funcionamento da interpelação ideológica) acerca dos corpos e das sexualidades dos sujeitos, funciona diferentemente em função da posição cis ou trans dos corpos. A heterossexualidade compulsória sobredetermina a condição de possibilidade de sexualidade de todos os sujeitos “fazerem sentido” dentro dos marcos normativos - assim como a possibilidade de resistência este imperativo - mas o faz a partir de uma divisão de sentidos sobre os
sentido estabilizado em relação ao próprio gênero, uma verdade previamente estabelecida (podemos pensar em termos de pré-construído, como algo dito anteriormente que sustenta as redes de sentido que fornecem as evidências de uma forma-sujeito). Sejam quais forem, as sexualidades dos sujeitos trans estão expostas aos efeitos do sem-sentido, assim como dos seus eventuais parceiros/cônjuges.
Na medida em que lutam pelo reconhecimento não apenas em relação à legitimidade de suas identidades de gênero, mas também de suas sexualidades, o movimento transfeminista ou transgênero resiste ao sem-sentido na medida em que reivindica o sentido acerca de seus corpos (a partir da crítica à genitalização) a partir do não-sentido, promovendo a constituição de um local de enunciação de suas identidades de gênero na relação com a sexualidade a partir da resistência à cis e heteronormatividades. Neste processo, ao retomar as palavras de Pêcheux, o irrealizado advém formando sentido acerca das sexualidades e corpos dos sujeitos trans.
Referências
ALVES, Hailey Kaas. 2013a. Sobre ser mulher trans* e bissexual: uma experiência pessoal. Disponível em: <http://transfeminismo.com/so bre-ser-mulher-trans-e-bissexual-uma-experiencia-pessoal/> Acesso em 05/01/2017.
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_____. Algumas considerações sobre a questão das mulheres trans* lésbicas, bissexuais e
pansexuais. 2013c. Disponível em:
<https://generoaderiva.wordpress.com/2013/08/02/algumas-consi deracoes-sobre-a-questao-das-mulheres-trans-lesbicas-bissexuais-epansexuais/> Acesso em 05/01/2017.
BAGAGLI, Beatriz Pagliarini. Orientação sexual na identidade de gênero a partir da crítica da
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GADET, Françoise; PÊCHEUX, Michel. A língua inatingível: o discurso na história da linguística. 2ª. ed. Campinas: Pontes, 2010.
GRIMM. Raíssa Éris. Heteronormatividade e transfobia – sobre a invisibilidade trans lésbica. 2017. Disponível em: <https://sapaprofanawordpress.com/2017/02/01/heteronormatividade-e-transfobiasobre-a-invisibilidade-trans-lesbica/> Acesso em 10/02/2017.
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Silêncios e luzes: sobre a experiência psíquica do vazio e da forma. São Paulo: Casa do Psicólogo,
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WEEKS. Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, G. O corpo educado. Pedagogias da
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The intersection between sexual orientation and gender identity since the critique of compulsory heterosexuality and cisness in transfeminist discourses
Astract: This work intends to analyze the way that sexual orientation is textualized in transfeminist
discourses. We will select texts from blogs and social networks. Transfeminist discourses aim to represent transgender subjects and, in this process, question the socially consolidated evidence of gender, using notions such as binarism and compulsory cisness. At the moment that sexual orientations are symbolized since the reference of the binary of gender as a logically stable object - establishing, in the field of the symbolic, the parameter that defines the positions between the "same" and "different" (homo and hetero) - we deem relevant to analyze the displacements of meanings that the transfeminist discourse is capable of effecting. In this way, we see how gender identity and sexual orientation intersect. We intend to understand how these processes are based not only on a critique of compulsory heterosexuality, but also on compulsory cisness. There is, therefore, a point where the critique of the normativity of sexual orientation touches the critique of the normativity of gender identity. We will use the theoretical and methodological framework of discourse analysis, focusing on this process for the forms of subjectivity that are textualized from the critical intersection between sexuality and gender - with the premise that the subject and the sense are constituted at the same time.