• Nenhum resultado encontrado

CIDADANIA: ESBOÇO DE EVOLUÇÃO E SENTIDO DA EXPRESSÃO

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "CIDADANIA: ESBOÇO DE EVOLUÇÃO E SENTIDO DA EXPRESSÃO"

Copied!
13
0
0

Texto

(1)

CIDADANIA: ESBOÇO DE EVOLUÇÃO E SENTIDO DA EXPRESSÃO

1. Muito se tem escrito no Brasil sobre a idéia de cidadania, em especial a partir da Constituição de 1988 que a consagrou como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º/II). Multiplicam-se os estudos sobre aspectos específicos do tema como a cidadania ativa (Maria Victória de Mesquita Benevides), a cidadania regulada — já chamada "estadania" — (Wanderley Guilherme dos Santos), "a geografização da cidadania" (Milton Santos), etc. Mas parece importante fixar tanto uma idéia-base quanto sua evolução no tempo. Cidadania diz respeito ao cidadão, ou seja, habitante da cidade, o mesmo que polis, na Grécia antiga. A palavra polis também gerou em português a palavra "política" tão conhecida e que por vezes adquire um sentido pejorativo, pois ao inverso do que ela postula, é usada para beneficiar o interesse particular sobre o público.

O conceito de cidadania não teve sua gênese no Estado Moderno. Em Roma, por exemplo, era um estatuto unitário do qual desencadeava-se a igualdade de direitos entre os cidadãos. Entretanto, é inquestionável ter a Grécia, alcançado de forma mais ampla seu sentido através da participação dos cidadãos atenienses - nas assembléias do povo, tomando efetivamente decisões políticas. Ser cidadão é ter acesso à decisão política, ser um possível governante, um homem político. Ter direito não apenas a eleger representantes, mas a participar diretamente na condução dos negócios da cidade. Em Roma nunca houve um regime verdadeiramente democrático e na Grécia somente os cidadãos atenienses (excetuando-se aí os escravos, mulheres e estrangeiros) participavam das assembléias do povo, tinham plena liberdade de palavra e votavam as leis que governavam a cidade - a Polis - tomando decisões políticas. Na Antiguidade, o homem era um ser sem direitos, por oposição ao cidadão. Na era moderna, o homem é sujeito de direitos não apenas como cidadão, mas também como homem.

Ao longo da história, pelo menos três visões distintas da cidadania se sucederam. A visão medieval, a liberal ou moderna e a atual são distintas, mas conexas. Da ausência de submissão pessoal passou-se à noção de simples titularidade de direitos e desta à atual, concernente ao gozo efetivo dos direitos individuais, coletivos, sociais e políticos (ou de participação na vida política), todos embasados na nacionalidade — o direito a ter direitos.

Com efeito, a noção atual de cidadania é a de fruição concreta desses direitos todos, necessários e fundamentais para a expansão da personalidade humana. Mas para que se chegasse a ela um longo caminho teve antes que ser percorrido. É importante, desde logo, esclarecer que os direitos da cidadania não se confundem com os direitos humanos, embora haja uma zona comum entre eles.

(2)

Dalmo Dallari deixa claro esta diferenciação quando analisa a problemática dos direitos humanos no mundo atual. Pode-se dizer que os direitos da cidadania dizem respeito aos direitos públicos subjetivos consagrados por um determinado ordenamento jurídico, concreto e específico.

Já os direitos humanos — expressão muito mais abrangente — se referem à própria pessoa humana como valor-fonte de todos os valores sociais. A discussão sobre os direitos humanos (direito à vida, direito a não ser submetido à tortura, direito a não ser escravizado, direito a uma nacionalidade etc) se coloca, pois, num outro plano de análise teórica. No plano do global, do universal.

2. A autonomia das cidades medievais — derivada das franquias —, na Baixa Idade Média (sécs. XII a XV), transformou as cidadescnum lugar privilegiado para o exercício da liberdade. Liberdade entendida aqui como libertação da servidão. O servo da gleba fugia então dos feudos e penetrava nos muros da cidade, onde se considerava ao mesmo tempo protegido e livre do senhor feudal e da sujeição que devia a ele (a vassalagem).

Mas, ligado ao renascimento do comércio, o processo de urbanização da Europa da Idade Média era "lento demais para permitir às cidades absorver a imigração em massa da população rural" Surge, então, uma massa de miseráveis — os excluídos — que tornam-se um elemento constante da paisagem social da Europa. Quer dizer: paradoxalmente, liberdade e pobreza caminhavam juntas pois, com efeito, a liberdade — que não se confunde com a libertação — pode se reduzir ao direito de morrer de fome.

É interessante notar que a etimologia da palavra "cidadão" remete obviamente à "cidade" (do latim civitas, que, no mundo romano, corresponde a pólis, a Cidade-Estado dos gregos). Isto significa que, na origem, a idéia-força da cidadania diz respeito à idéia da liberdade — real ou ilusória — de que dispunha o habitante da cidade em comparação com o servo da gleba, no limiar do sistema capitalista. A palavra "cidadão" surge no português em 1361, segundo o "Dicionário Etimológico" de José Pedro Machado (outro dicionarista, Antonio Geraldo da Cunha, aponta seu aparecimento no século XIII), sendo certo, no entanto que, no século XVIII, expandiu-se através do francês (citoyen) e do imaginário da revolução. Assim, as expressões "direito à cidade" e seu derivativo "direito da cidadania" têm, hoje, significados muito próximos: são as liberdades públicas. 3. Nos séculos seguintes, a expansão do capitalismo tornou necessária a definição de um quadro institucional que garantisse o novo modo de produção. O Estado moderno nasce absolutista, concentrando poder político. Em reação a isso e à possibilidade de "abuso" do poder, diversas teorias surgiram buscando limitar o poder do Estado para salvaguardar as liberdades: a "separação de poderes" (Montesquieu e Locke); os direitos naturais, a democracia ou a soberania popular (Rousseau).

(3)

Na Revolução Francesa estas teorias são consagradas e ganham um estatuto jurídico. Seu mais importante documento é, sem dúvida, a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que se destina a resgatar os direitos naturais dos homens, os quais estavam esquecidos. Direitos esses que estão elencados no artigo 2º: liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão (o último logo esquecido). São direitos individuais e, como tais, quase coincidem com o caput do artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988 que arrola o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

O cidadão passa a ser, assim, um titular de direitos individuais num Estado regido por leis e não mais um súdito do reino. Ou seja: se o ordenamento jurídico declara o homem titular de direitos, se eles são violados ou ameaçados surge a possibilidade de provocação do Poder Judiciário para que tais direitos sejam restabelecidos. E o Judiciário haveria de dar resposta adequada.

É importante grifar que, a partir da Revolução Francesa, consolida-se a idéia de "liberdades públicas" (ou, tecnicamente, direitos públicos subjetivos) que nada mais são do que os direitos do homem consagrados pelo direito positivo ou, em outras palavras, os poderes de autodeterminação reconhecidos e organizados pelo Estado. No entanto, a expressão "liberdades públicas", no plural, só vai surgir tardiamente com a Constituição francesa de 1852 (art. 25). Antes do século XVIII, era impossível pensar-se em direitos subjetivos oponíveis ao Estado, que caracterizava-se, como dito, pelo absolutismo monárquico.

O Direito Constitucional clássico ainda toma o cidadão como o nacional com direitos políticos perante o Estado (de votar, de ser votado, de participar de concursos para preenchimento de cargos públicos). E a cidadania surge com o alistamento eleitoral (art. 14 da Constituição). É uma idéia restrita e formal e, por isso, não compatível com a ampliação dos direitos inerentes à afirmação da cidadania. Muitos autores, no entanto, continuam hoje veiculando esta idéia liberal ou moderna sem situá-la no tempo e no espaço (Europa do século XVIII). A questão material, fática, muitas vezes, escapa-lhes.

É certo, no entanto, que a própria Constituição usa o mesmo termo em sentidos diferentes. O artigo 23/XIII estabelece a competência da União para legislar sobre nacionalidade, cidadania e naturalização. Ora, aqui é evidente que o termo "cidadania" está sendo tomado no sentido restrito ou formal referido. Mas é claro que tal não pode ser este o sentido da palavra tomada no artigo 1º como fundamento da República, ao lado da soberania, da dignidade da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e do pluralismo político. A cidadania aqui tem o sentido forte de direito de acesso concreto e efetivo aos direitos públicos subjetivos: é o oposto da exclusão social (que dá origem aos "subcidadãos", referidos por Roberto Da Matta e Lúcio Kowarick, dentre outros). 4. Só que os direitos fundamentais de individuais ou coletivos (os individuais que são exercidos coletivamente, por exemplo, a liberdade de associação), mas negativos (exigindo uma inação do Estado) passaram neste século XX a ser

(4)

sociais e positivos (exigindo um fazer, a prestação de um serviço do Estado). A Constituição de 1988 elenca alguns direitos sociais no artigo 6º — todos eles visando possibilitar "melhores condições de vida: a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, e a assistência aos desamparados (os direitos dos chamados "desassistidos sociais", dentre os quais — absurdamente — não se inclui a habitação). Isto para não se falar nos chamados direitos fundamentais de terceira geração, que têm cunho internacional acentuado (v.g., direito à paz, ao desenvolvimento econômico, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado).

Portanto, quando se cogita da cidadania, na atualidade, não se está mais referindo à mera declaração de direitos. A Constituição Brasileira de 1988, por exemplo, é pródiga em declará-los solenemente, assim como inúmeros atos internacionais o fazem. Está sim se questionando a respeito do gozo efetivo deles. Volta-se, de certa forma, ao sentido medieval. Não mais a mera declaração escrita, mas sim sua concreção real garantida. É exatamente nisto — ou seja, na distinção entre declarar e garantir — que reside a noção atual e polêmica de cidadania: como se garantir a fruição dos direitos públicos subjetivos? como proporcionar a igualdade de oportunidades? como dar eficácia às normas constitucionais que tratam dos direitos sociais?

5. Com tal finalidade, a Constituição brasileira de 1988, na esteira da Constituição portuguesa de 1976, tentou instituir, alguns remédios judiciais como o mandado de injunção — cujo dispositivo refere-se expressamente à cidadania — e a inconstitucionalidade por omissão. A jurisprudência, depois, esvaziou-os. Mas cumpre ressaltar que a Justiça nunca esteve habilitada a decidir os conflitos sociais — que extrapolam os esquemas processuais clássicos — até porque, como observa o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, com alguma ênfase, "no Estado moderno, os tribunais não foram criados para julgar os poderosos, mas para punir as classes populares"

De outra parte, também a iniciativa popular das leis tem tal objetivo, de vez que permite a regulamentação de direitos constitucionais que não são passíveis de fruição por não estarem ainda regulamentados na lei (Tocando num problema nevrálgico, na apresentação da citada obra de Maria Victória de Mesquita Benevides, Fábio Konder Comparato pergunta: até que ponto o Parlamento, como órgão por excelência da representação popular, perdeu legitimidade para manter o monopólio da legislação?). Mas, estranhamente, a iniciativa popular é muito pouco utilizada no Brasil, assim como os demais instrumentos da chamada democracia semidireta (plebiscito, referendo, ação popular, audiências públicas etc.,), que Maria Victória Benevides chama de "escola da cidadania".

Todos eles — além de outros instrumentos não instituídos aqui como o direito de veto popular (recall) — são expressões legítimas dos direitos de cidadania, ao lado do direito de sufrágio. Permitindo a participação popular no exercício do poder político, tais instrumentos são de enorme importância para a garantia da

(5)

eficácia social e jurídica das normas constitucionais porque possibilitam, por exemplo, a regulamentação de vários direitos.

6. De qualquer forma, é certo que o processo de avanço das garantias dos direitos da cidadania é muito mais uma questão de poder do que uma questão jurídica. Depende fundamentalmente dos "fatores reais de poder" que integram a Constituição real do Estado do que das formas e modelos jurídicos. Se bem que, como diz Hannah Arendt, reduzir o Direito à lei é a redução do Direito a Hitler. O Direito — tal como a democracia — não pode se reduzir a uma forma. Daí a importância que ganham as reivindicações da sociedade civil organizada em movimentos sociais, em comunidades de base, em associações, etc., uma vez que é só através dela que a cidadania e a democracia (conceitos indissociáveis) serão efetivamente conquistadas

A cidadania, definida pelos princípios da democracia, se constitui na criação de espaços sociais de luta (movimentos sociais) e na definição de instituições permanentes para a expressão política (partidos, órgãos públicos), significando necessariamente conquista e consolidação social e política. A cidadania passiva, outorgada pelo Estado, se diferencia da cidadania ativa em que o cidadão, portador de direitos e deveres, é essencialmente criador de direitos para abrir

novos espaços de participação política.

Porém, é importante a concepção da cidadania como um processo político, social e histórico, que se constrói a partir de ambas as dimensões, individual e coletiva. Sabe-se que o problema da desigualdade é um componente histórico-estrutural, que perfaz a própria dinâmica da resistência e da mudança, pois, o capitalismo representa uma sociedade de discriminação. O que se quer são formas mais democráticas, políticas sociais que reduzam o espectro da desigualdade e da desconcentração de renda e poder. O Estado pode ser um eqüalizador de oportunidades, desde que defina, não o seu tamanho ou presença, mas a quem serve.

Numa sociedade marcada pela desigualdade social, da distribuição da renda e dos benefícios sociais, para todo cidadão consciente a participação é também um dever. A participação no processo político não se restringe ao exercício do voto, à militância em um partido político, num grupo, em comícios ou na discussão de temas políticos com os amigos, colegas e vizinhos. A participação vai, além disso.

Democracia no sentido original significa uma doutrina política ou forma de governo baseada na soberania do cidadão, no seu acesso à cena pública, na pluralidade de idéias e expressão de suas opiniões, na possibilidade de intervir politicamente. Enfim, a democracia aceita em seus próprios princípios, o aparecimento do imprevisível e da livre atuação política de seus cidadãos. A democracia admite, nem todos são iguais. A oportunidade igual em opinar não

(6)

elimina o próprio direito a diferença entre as pessoas. Ora, a democracia não é apenas um regime político com partidos e eleições livres. É, sobretudo uma forma de existência social. Democrática é uma sociedade aberta, que permite sempre a criação de novos direitos. Os movimentos sociais, nas suas lutas, transformaram os direitos declarados formalmente em direitos reais. As lutas pela liberdade e igualdade ampliaram os direitos civis e políticos da cidadania, criaram os direitos sociais, os direitos das chamadas “minorias” - mulheres, crianças, idosos, minorias étnicas e sexuais - e, pelas lutas ecológicas,

o direito ao meio ambiente sadio.

Em nosso país há os que são mais cidadãos, os que são menos cidadãos e os que nem mesmo ainda são. Pois o cidadão deve ser multidimensional, onde cada dimensão se articula com as demais na procura de um sentido para a vida, de uma nova sensibilidade. As contradições fazem do país um contexto de desigualdade e subdesenvolvimento que explicitam-se nas mais diversas

problemáticas conjunturais.

Partimos do pressuposto de que a democracia nos seus moldes clássicos está em crise e que a democracia contemporânea, em um de seus aspectos principais, não pode ser reduzida a certos procedimentos ou “regras do jogo” (eleições livres, pluripartidarismo, etc.), mas que deve garantir a realização de certos direitos aí englobados, além dos direitos civis e políticos, os direitos econômicos, sociais, culturais, etc., ou como denomina Held (1997), o direito público democrático.

Assim, a reatualização do ideal democrático adquire um conteúdo distinto e faz da participação popular - sob diferentes perspectivas, como a ampliação dos direitos civis, a autogestão, o assembleísmo, e outros, sua principal reivindicação. A participação se propugna como um ideal em si mesma, nas palavras de Habermas (1997) e, inclusive, torna-se uma verdadeira ideologia – a democracia participativa.

A criação de espaços públicos para a participação democrática aparece também, no contexto atual, como uma forma de globalização anti-hegemônica ou seja, como um processo de resistência à intensificação da exclusão e da marginalização sociais, produzidas pela globalização.

Com o retorno da democracia representativa, a partir de meados da década de 80, o ideário participacionista toma maior fôlego, ocupando grande parte dos novos modelos de gestão, seguidos por prefeitos de esquerda. A própria Constituição de 1988 incorporou o princípio de participação popular direta na administração

(7)

pública e ampliou a cidadania política, estabelecendo vários mecanismos de reforço a iniciativas populares

Segundo Benevides (2000), a nova Constituição sinalizou para um novo período de descentralização política e administrativa, entendida como a forma mais racional para compatibilizar necessidades sociais com o funcionamento da máquina pública e tornou possível diversos mecanismos de participação direta e indireta, quando consagrou em seus preceitos diversas formas de participação, como o referendo, o plebiscito, a assim chamada "iniciativa popular de lei”, além dos conselhos de co-gestão em diversas áreas.

Benevides assume que seu interesse, ao discutir detalhadamente a urgência da regulamentação, é análogo ao de Norberto Bobbio (O futuro da democracia - Uma defesa das regras do jogo, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986): estabelecer regras do jogo nítidas e transparentes para o avanço da democracia semidireta, estabelecendo um novo espaço público e superando a dicotomia tradicional de representação entre Estado e sociedade civil.

Finalmente, devemos reforçar a observação, da autora, de que o título A cidadania ativa é duplamente sugestivo. De um lado, demonstra o final de um ciclo deflagrado por Sieyès, na Assembléia Nacional Constituinte da França de 1789, ao propor uma distinção de graus de cidadania em critérios censitários (cidadão ativo/passivo). De outro lado, A cidadania ativa, ao demarcar como seu objetivo principal o campo da educação, da busca de uma conscientização social maior, indica que esta só é possível com.uma participação permanente, plena e ativa de todos nós, como cidadãos.

Trata-se, fundamentalmente, como veremos, de reformular a relação dos governos com a cidadania, de colocar as estruturas do governo sob controle direto da população, de levar a cabo uma tentativa de mobilização permanente dos cidadãos, apontando para outra forma de Estado, na prática incompatível não apenas como os modelos políticos liberais, mas com a própria dinâmica do capitalismo, ainda mais em sua fase neoliberal, em que os mecanismos de mercado e de liberdade da propriedade privada primam sobre tudo.

Como sublima Milton Santos, "a cidadania, sem dúvida, se aprende". Tanto assim que a Constituição Federal, no artigo 205, estabelece que a educação — direito de todos e dever do Estado e da família — deve visar o pleno desenvolvimento da pessoa humana, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, que é também, como vimos, uma das várias dimensões da idéia-força da cidadania. Ela se amplia na medida em que se afirma como prática social, para além dos textos legais.

(8)

Portanto não basta a garantia formal de tais direitos, mister é sua concretização. Para tanto, inevitável se faz a implementação de todos eles, visto que apenas em conjunto se podem materializar plenamente.

Direitos no Brasil: necessidade de um choque de cidadania

Como sugere o título, “Cidadania no Brasil – o longo caminho”, livro de José Murilo de CARVALHO (Cidadania no Brasil – O Longo Caminho. Segunda edição. RJ. Ed. Civilização Brasileira. 2002. 162 páginas), diz respeito ao avanço da cidadania no Brasil, enquanto fenômeno histórico. O autor inicia seu trabalho desdobrando a cidadania em três dimensões: direitos civis (direito à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei), direitos políticos (direito à participação do cidadão no governo da sociedade – voto) e direitos sociais (direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde e à aposentadoria).

O objetivo geral de Murilo de Carvalho é demonstrar que no Brasil não houve um atrelamento dessas três dimensões políticas. O direito à esse ou àquele direito, digamos à liberdade de pensamento e ao voto, não garantiu o direito a outros direitos, por exemplo, à segurança e ao emprego. No mesmo sentido, a agudização dos problemas sociais no país nos últimos anos serve de apoio para o autor contrastar as dimensões dos direitos políticos, via o sufrágio universal, com os direitos sociais e os direitos civis. A negação desses direitos, vez ou outra no Brasil, é utilizada pelo historiador para dar sustentação à sua tese de que se tem gerado historicamente neste país uma cidadania inconclusa.

Fundamentado nos estudos de T. A. Marshall sobre a conquista dos direitos na Inglaterra, o historiador mostra que os ingleses introduziram primeiramente os direitos civis, no século XVIII e, somente um século mais tarde – após exercício à exaustão desses direitos –, os direitos políticos. Os direitos sociais, entretanto, tiveram que esperar mais cem anos até que se fizessem serem ouvidos. A tentativa simplista de analisar esta questão meramente pelo viés cronológico nos induziria, entrementes, a simplificações errôneas. Segundo Murilo de Carvalho, se assim o fizéssemos, seriamos levados a pensar a completude da cidadania no Brasil como ‘uma questão de tempo’, quando na verdade, o diferencial entre a nossa cidadania e a dos ingleses está no fato de que o tripé que compõe a cidadania, direitos políticos, civis e sociais foi por aquele povo conquistado e a nós ele foi doado, segundo os interesses particulares dos governantes de plantão. O argumento de sustentação para a tese do autor é a de que a participação na política nacional, inclusive nos grandes acontecimentos, era limitada a pequenos grupos, sem a presença das massas. Desde os mais remotos tempos coloniais até 1930, não havia povo organizado politicamente nem sentimento nacional consolidado. A grande maioria do povo tinha com o governo uma relação ou de distância ou de antagonismo. Se houve ações políticas do povo, estas eram

(9)

realizadas como reação ao que considerava arbítrio das autoridades. Era uma “cidadania em negativo”. Até 1930, o povo não tinha lugar no sistema político, seja no Império, seja na República, daí não haver lugar para a introdução de direitos tais como os sociais. Por isso mesmo, sustenta o autor, a queda da Primeira República teria representado um avanço em relação à sua proclamação em 1989. Tal avanço se daria, se não necessária e imediatamente em direção aos direitos civis e políticos, certamente em direção aos direitos sociais.

Murilo de Carvalho, entretanto, fiel à sua tese inicial – ignorando, pois, a possibilidade de existência de uma certa ordem cronológica no avanço dos direitos –, define como sendo de baixíssimo impacto o exercício da cidadania no Brasil, no pós-1930. Isso se deu, segundo o historiador, pelo fato de os direitos sociais terem sido introduzidos antes da expansão dos direitos civis. Os avanços trabalhistas, longe de serem conquistados, foram doados por um governo cooptador – e mais tarde, ditatorial –, cujos líderes pertenciam às elites tradicionais, sem vinculação autentica com causas populares. Se por um lado a expansão dos direitos trabalhistas – sociais – significou efetivamente um avanço da cidadania na medida em que trazia as massas para a política, em contrapartida, criava uma massa de reféns da União e de seus tentáculos regionais. A “doação dos direitos sociais”, ao invés da conquista dos mesmos, fazia os direitos serem percebidos pela população como um favor, colocando os cidadãos em posição de dependência perante os líderes.

Daí, sem o exercício das liberdades, dificilmente se chegaria a conquista dos direitos políticos plenos. No Brasil, entretanto, se chegou – ainda que esdruxulamente. Eles foram implantados, na segunda metade dos anos 40, por um militar do exército, o General Eurico Gaspar Dutra, que logo colocaria o Partido Comunista Brasileiro na ilegalidade. Ainda assim, o período democrático entre 1945 e 1964 se caracterizara pelo oposto ao governo de Vargas. Houve ali, uma ampliação dos direitos políticos e paralisação, ou avanço lento, dos direitos sociais. Ainda que os direitos civis sejam relegados a um segundo plano, um observador menos atento ficaria com a impressão de que a lógica da pirâmide de Marshall começava a querer tomar forma. Murilo de Carvalho, no entanto, elucida essa percepção.

No período, um ensaio de construção da cidadania se dá, porém, “de cima para baixo”, sem a participação de um povo verdadeiramente organizado. O cidadão em construção aqui ainda não tivera tempo de aprender a ser cidadão, mas a prezar por líderes fortes, geralmente o chefe do Executivo – tanto é verdadeira a assertiva de Murilo de Carvalho que Getúlio Vargas seria eleito senador por dois Estados, nesse período, e ‘voltaria nos braços do povo’, em 1951, à presidência da República.

Dezenove anos após a queda da ditadura Vargas, em 1964, admitida pela apatia popular dos quase cidadãos brasileiros, os direitos civis e políticos seriam duramente sufocados por novas medidas de repressão. Dessa vez, a exemplo da Proclamação da República, tomadas pela cúpula militar. Os governos militares, na

(10)

interpretação de Murilo de Carvalho, repetiriam a tática do Estado Novo:, ou seja, enquanto cercearam os direitos políticos e civis, investiram na expansão dos direitos sociais. Dessa vez, no entanto, os órgãos de representação política foram transformados em meras peças decorativas do regime; eles, na prática, não eram representativos de nada e de ninguém.

Na passagem de análise do Movimento de 1964, Murilo de Carvalho se coloca a seguinte pergunta: Por que a democracia foi a pique em 1964, se havia condições tão favoráveis a sua consolidação? O autor sugere que a resposta pode estar na falta de convicção democrática das elites, tanto de esquerda, quanto de direita e provavelmente pelo fato de o Brasil ainda não contar, no momento do Golpe, com organizações civis fortes e representativas que pudessem refrear o curso da radicalização – toda a organização, sindical, estudantil, institucional. Aqui, o autor mais uma vez ratifica sua crença de que quando os direitos não são plenamente exercidos eles podem impedir o avanço em direção a outros direitos. Após 1985, quando da queda do regime militar, os direitos civis estabelecidos antes do regime militar, tais como a liberdade de expressão, de imprensa e de organização, foram recuperados. Ainda assim, muitos direitos civis, a base da seqüência de Marshall, continuam inacessíveis à maioria da população. Ainda assim, o cerne do problema longe permanece de ser cronológico. A forma esdrúxula como os direitos – que dão sustentação à idéia de cidadania – têm sido introduzidos ou suprimidos no Brasil é que faz a diferença. E muito embora os direitos políticos tenham adquirido amplitude nunca antes atingida, a partir de 1988, a democracia política não resolveu os problemas mais urgentes, como a desigualdade e o desemprego. Permanecem os problemas da área social e houve agravamento da situação dos direitos civis no que se refere à segurança individual.

Murilo de Carvalho constata que, muito provavelmente em função da inversão da pirâmide de Marshall – justamente pela falta de exercício dos direitos pela população – o ciclo dos direitos responsáveis pela aquisição da cidadania, no Brasil, se completaram, mas não conseguem atingir vastas partes da população. Se não bastasse, no momento em que o ciclo dos direitos parecem querer tomar forma no Brasil, as rápidas transformações da economia internacional ameaçam essa condição, pois as mesmas exigem a redução do tamanho do Estado – promotor dos direitos do cidadão.

A conclusão a que chega Murilo de Carvalho é de que o direito a esse ou àquele direito – suponha-se, à liberdade de pensamento e ao voto – não é garantia de direito a outros direitos – suponha-se, segurança e emprego –, o que tem gerado historicamente, no caso do Brasil, uma cidadania inconclusa. O autor procura mostrar que a garantia de direitos civis ou políticos no Brasil longe estiveram, e estão, de representar uma resolução dos muitos problemas sociais aqui presentes – e a recíproca é verdadeira –; eles marcham, segundo o autor, em velocidades díspares. A agudização destes últimos, aliás, tem provado não haver um atrelamento necessário daquelas três dimensões políticas; passível, inclusive, em

(11)

muitos casos, de retrocesso ou de avanço de um ou de outro, determinados segundo a conveniência da circunstância.

- Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os brasileiros podem ser divididos em classes:

a) privilegiados, “doutores” – acima da lei, defendem seus interesses pelo poder do dinheiro e prestígio social – 8% da população brasileira que recebe acima de 20 sm – leis não existem ou podem ser dobradas

b) cidadão simples, de segunda classe, sujeitos aos rigores e benefícios da lei – 63% da população que recebe acima de 2 a 20 sm – para eles existem os códigos civil e penal, mas aplicados de maneira imparcial e incerta

c) “elementos”, terceira classe – ignoram seus direitos civis ou os tem sistematicamente desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo ou pela polícia. Não se sentem protegidos pelas leis ou pela sociedade. Receiam contato com agentes da lei, sendo que alguns optam abertamente pelo desafio à lei e pela criminalidade – 23% que recebe até 2sm. Para eles vale apenas o Código Penal.

Você sabia

- Dia 25 de outubro comemora-se o Dia da Democracia.

Este texto tem como propósito estudar o cidadão como um indivíduo, que residente em um território nacional, dispõe de direitos políticos, ou seja, do direito de participar plenamente da orientação dos negócios do país. Essa possibilidade de interferir na vida da nação tem um fundamento paradoxal: de um lado a ideia do indivíduo como membro da comunidade nacional com obrigações para com a mesma (critério particularista), baseado no direito de solo e de sangue. Por outro lado, a noção do direito do homem (e não do cidadão), significando que todo homem deve ser considerado como um indivíduo livre, respeitável e igual aos demais, reconhecido no plano universal. Assim, o cidadão é, a um só tempo, reconhecido no plano universal como homem e como alguém que tem ligações particulares com uma nação. Essa ambigüidade pode ser geradora de problemas, como nos regimes totalitários onde a ênfase à relação singular faz desaparecer a referência ao universal. Essa definição obscurece ainda um outro aspecto: podemos considerar como cidadão um indivíduo miserável, sem trabalho, fora do circuito econômico? A resposta foi negativa por muito tempo, os regimes censitários estimavam que somente os indivíduos de razoável autonomia financeira e que pagavam impostos seriam dignos do direito de votar. Percebemos que desde Locke e pensadores socialistas como Saint-Simon e Marx, o indivíduo

(12)

é definido pelo lugar que ocupa no processo de produção, como trabalhador remunerado, inserido em uma sociedade na qual o trabalho tornou-se a atividade mais valorizada. Assim aquele que não contribui para o progresso econômico da nação enfrenta as piores dificuldades para ser considerado cidadão. É essa tendência que vemos triunfar na sociedade brasileira.

Analisando nossa história sobre o prisma dos direitos trabalhistas podemos dizer que há um deslocamento da noção de cidadão para a de trabalhador. Quase todos os benefícios previdenciários existentes no Brasil estão vinculados à esfera do trabalho. Dessa maneira, o cidadão se insere em uma filiação social. Significa que enquanto o indivíduo puder vender oficialmente sua força de trabalho, as instituições públicas lhe proporcionarão condições de filiação, reconhecendo sua existência como elemento que contribui para o desenvolvimento econômico e social. Consequentemente o sujeito, definido como cidadão, terá a sensação de pertencer à nação. Para as categorias sociais mais baixas a carteira de trabalho é a prova de sua identidade. Sem ela, o reconhecimento oficial torna-se comprometido. Os indivíduos sem carteira de trabalho não só são desfiliados, no sentido de Castel, mas são des-filiados, ou seja, não podem ser verdadeiramente percebidos como filhos, sendo, quando muito, bastardos. Esse dado é relevante, visto que a produção do mercado informal brasileiro é grande.

As políticas sociais do Estado neoliberal desconhecem essa realidade, visto que pouco se preocupam com o destino dos desempregados e continuam associando apenas ao trabalho legalizado grande parte dos direitos sociais. Tal situação traz outras consequências: há uma fragilização das práticas solidárias e o incremento de práticas individualistas e competitivas, pois é com base na atividade profissional institucionalmente reconhecida que o indivíduo é considerado um cidadão, ou seja, digno do olhar do outro, seja esse outro um indivíduo ou uma instituição. Quando o olhar de outrem só exprime o não reconhecimento, a indiferença, a violência, o indivíduo não se sente somente desvalorizado socialmente, mas invalidado psiquicamente. Ele se sentirá um pouco protegido apenas quando se sentir como um cidadão trabalhador, inserido em uma lógica institucional. Um exemplo foi o ocorrido em agosto de 1993, na favela Vigário Geral no Rio de Janeiro, quando quatro policiais morreram num confronto da polícia com narcotraficantes. Dois dias depois, vários policiais invadiram um bar na favela perguntando se eram todos trabalhadores. O caráter implícito da pergunta era evidente, possuir carteira de trabalho significa que o indivíduo é respeitável, portanto um cidadão protegido pela lei. Todos responderam positivamente. Minutos depois a polícia voltou e matou 21 pessoas que estavam no bar, com exceção de um homem que ficou gravemente ferido e descreveu o ocorrido. No dia seguinte as manchetes nos jornais eram significativas: Os homens mortos eram trabalhadores. Podemos nos perguntar se a indignação teria sido menor, caso os mortos não fossem trabalhadores.

O Brasil é um país teoricamente igualitário, mas na realidade fortemente hierarquizado, e cada qual tenta estabelecer com outrem relações assimétricas. Segundo o antropólogo brasileiro DaMatta, a frase: Você sabe com quem está falando? implica sempre uma separação radical e autoritária de duas posições sociais distintas, onde a parte que profere a expressão tenta inferiorizar seu interlocutor. No mundo dos desafiliados existem, portanto, superiores e medalhões

(13)

que deverão se curvar diante dos medalhões das classes altas valendo-se de sua autoridade ou sua violência, diante dos companheiros que não reúnem as condições necessárias para chegar a este status.

Várias estratégias são empregadas para sair da massa dos iguais. Ter uma relação privilegiada com alguém poderoso em busca de benefícios próprios subordina os valores cívicos aos valores hierárquicos. Na corrupção, onde a lógica do favor se sobrepõe à lógica do direito, a estrutura social fica contaminada pelos valores da intimidade, da proximidade moral, da conveniência econômica, da consideração social. Em lugares marcados pelo desamparo social ou pela pobreza a lógica da violência se torna explícita. O tráfico de drogas se instala e funciona nos vazios deixados pelo próprio Estado, favorecendo a construção de uma cidadania negativa. O gerente da droga passa a ter sobre os membros da comunidade um poder de vida e de morte, em troca de atividades de proteção, de suas doações, exigindo uma submissão total, e quando alguém tentar se livrar colocará a própria vida em risco. Assim sendo, os moradores das favelas são obrigados a desdramatizar todas as situações de violência, vivendo uma cidadania precária ou negativa.

Portanto o brasileiro não é considerado verdadeiro cidadão se não trabalha, recebendo o estigma de vadio ou de quem pertence a classes perigosas. Serão necessárias profundas transformações sociais e institucionais para que todos os sujeitos, oriundos de qualquer categoria social, possam ter acesso a uma cidadania plena e integral.

Referências

Documentos relacionados