MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
Secretaria da Reforma do Judiciário
Esplanada dos Ministérios, Bloco T, 3º andar, Sala 324 CEP 70.064-900, Brasília-DF, Brasil
Fone: 55 61 3429-9118
Correio eletrônico: [email protected] Internet: www.mj.gov.br/reforma
Distribuição gratuita
Tiragem: 1.000 exemplares
Redação e organização: Juíza Gláucia Falsarella Foley
Editado por: Margareth Leitão
Impresso pela: Cromos - Editora e Indústria Gráfica Ltda.
A transcrição e a tradução desta publicação são permitidas, desde que citadas a autoria e a fonte.
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA Ministro de Estado da Justiça
Márcio Thomaz Bastos Secretário de Reforma do Judiciário
Pierpaolo Cruz Bottini Chefe de Gabinete José Junio Marcelino de Oliveira
Coordenador-Geral de Modernização da Administração da Justiça André Luis Machado de Castro
Assessora da Coordenação de Modernização da Administração da Justiça Angélica Batista Junger do Prado
Coordenadora da Chefia de Gabinete Ana Teresa Iamarino
PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO Representante residente do PNUD - Brasil
Kim Bolduc
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL
Presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios Desembargador Lécio Resende da Silva
Juíza Coordenadora do Programa Justiça Comunitária Gláucia Falsarella Foley
Secretária Executiva do Programa Justiça Comunitária Vera Lúcia Soares
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ... 7
JUSTIÇA COMUNITÁRIA: UMA REALIDADE ... 9
JUSTIÇA COMUNITÁRIA: CONSOLIDANDO A DEMOCRACIA E PROMOVENDO OS DIREITOS HUMANOS POR MEIO DO ACESSO À JUSTIÇA A TODOS ... 11
PRÓLOGO ... 13
AGRADECIMENTOS ... 15
PREFÁCIO ... 17
INTRODUÇÃO ... 19
1. BREVE APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA JUSTIÇA COMUNITÁRIA... 23
1.1. Histórico ... 23
1.2. O Programa Justiça Comunitária. Linhas gerais ... 24
2. O LOCUS: A COMUNIDADE ... 26
2.1. O conceito de comunidade ... 26
2.2. Conhecendo o locus. O mapeamento social ... 27
2.3. Animação de redes sociais ... 31
2.3.1. As redes sociais ... 31
2.3.2. As redes sociais em movimento ... 34
3. OS ATORES E A SELEÇÃO ... 36
3.1. Os agentes comunitários ... 36
3.2. O perfil dos agentes comunitários ... 36
3.2.1. Requisitos pessoais ... 36
3.2.2. Responsabilidades e compromissos... 37
3.3. As etapas da seleção... 37
3.3.1. O recrutamento ... 38
3.3.1.1. Divulgação do processo seletivo ... 38
3.3.1.2. Cadastramento dos interessados ... 38
3.3.1.3. Esclarecimentos sobre o Programa ... 38
3.3.1.4. Inscrição dos interessados ... 39
3.3.2. A seleção ... 39
3.3.2.1. Análise dos formulários de inscrição ... 40
3.3.2.2. Dinâmica de grupo ... 40
3.3.2.3. Entrevista de seleção ... 41
3.3.2.4. Referências judiciais e sociais ... 41
3.3.2.5. Escolha dos candidatos ... 41
3.4. O quadro atual de agentes comunitários de justiça e cidadania ... 42
4. AS ATIVIDADES DOS AGENTES COMUNITÁRIOS ... 45
4.1. Informação jurídica... 45
4.1.1. Reflexões práticas. Informação jurídica ... 46
4.2. Mediação comunitária ... 46
4.2.1. Reflexões práticas. Mediação comunitária ... 48
4.3. Formação e/ou animação de redes sociais ... 50
4.3.1. Reflexões práticas. Formação e/ou animação de redes sociais ... 51
5. A EQUIPE INTERDISCIPLINAR ... 52
5.1 O papel da interdisciplinaridade ... 52
5.2 A equipe interdisciplinar do Programa Justiça Comunitária ... 52
5.3 Apresentando a equipe interdisciplinar ... 53
6. OS CENTROS COMUNITÁRIOS DE JUSTIÇA E CIDADANIA ... 56
6.1. A finalidade ... 56
6.2. A estrutura física ... 56
7. A ESCOLA DE JUSTIÇA E CIDADANIA ... 59
7.1. Pressupostos epistemológicos... 59
7.2. As atividades de capacitação dos agentes comunitários... 61
7.3. A programação curricular... 62
7.3.1. Cidadania e noções básicas de direito ... 62
7.3.2. Os cursos e as oficinas de mediação ... 63
7.3.3. Capacitação para a animação de redes sociais ... 66
7.4. O corpo docente ... 67
7.5. As atividades abertas da Escola de Justiça e Cidadania ... 67
7.6. Interlocuções institucionais ... 68
7.7. O boletim periódico ... 72
7.8. Avaliação do processo de aprendizagem ... 73
7.9. Os recursos pedagógicos ... 73
7.10. Materiais e equipamentos da Escola de Justiça e Cidadania ... 74
8. AS PARCERIAS INSTITUCIONAIS ... 75
8.1. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) ... 75
8.2. Secretaria de Reforma do Judiciário (SRJ) ... 75
8.3. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ... 76
8.4. Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) ... 77
8.5. Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT) ... 77
8.6. Universidade de Brasília (UnB) ... 77
8.7. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República ... 78
9. OS CASOS CONCRETOS ... 79
9.1. As estatísticas ... 79
9.2. O perfil das demandas ... 80
9.3. Os conflitos criminais ... 81
9.4. Ilustração de alguns casos concretos ... 82
9.4.1. O caso da vaca... 82
9.4.2. O caso dos irmãos ... 83
9.4.3. O caso da fumaça ... 84
9.4.4. O caso das amigas que trocaram as casas ... 84
9.4.5. O caso do DVD extraviado ... 85
9.4.6. O caso das mães de crianças especiais ... 86
10. REGISTRO E MEMÓRIA ... 87
10.1. O sistema de banco de dados ... 87
10.2. Registrando as atividades ... 87
11. O TRABALHO VOLUNTÁRIO ... 89
11.1. A natureza do trabalho voluntário ... 89
11.2. A adesão voluntária. Questões práticas ... 90
12. EM BUSCA DA AUTO-SUSTENTABILIDADE DO PROGRAMA ... 92
12.1 Uma proposta para a reprodução nacional de um programa de justiça comunitária em larga escala e de baixo custo ... 92
13. A AVALIAÇÃO DO PROGRAMA ... 94
13.1. Avaliação. Conceito e objetivos ... 94
13.2. A subjetividade da avaliação ... 95
13.3. Momento da avaliação ... 95
13.4. A avaliação do Programa Justiça Comunitária ... 96
BIBLIOGRAFIA ... 98
APRESENTAÇÃO
A Constituição Federal de 1988, fruto da mobilização democrática da Nova Repúbli-ca, representou profundo avanço no sentido de assegurar uma série de direitos e garan-tias para o povo brasileiro. Nesse contexto, o Poder Judiciário assumiu um novo e impres-cindível papel o de transformar direitos meramente formais em garantias efetivas.
A realidade fático-constitucional acabou por incluir, entretanto, e para além do in-comensurável aumento de demandas, uma série de conflitos sócio-políticos e econômicos ao âmbito de competência dos Tribunais. Houve, sem dúvidas, inchaço material do Poder Judiciário, com impactos evidentes no tempo e na qualidade da prestação jurisdicional. Foi posto em xeque, assim, o imperativo do acesso à justiça.
Evidente, pois, o alerta de que os métodos tradicionais de resolução judicial de conflitos individuais e coletivos não poderiam mais ser vistos como única alternativa às contendas e querelas individuais e sociais, bem como de que a noção de acesso à justiça não pode e não deve se restringir ao acesso ao Judiciário. É papel da sociedade e do Poder Público o empenho na valorização de maneiras de se efetivarem direitos e de se arbitra-rem conflitos que representem alternativas concretas ao ainda moroso processo judicial formais e informais.
Quando o que se pretende é a obtenção de soluções satisfatórias, é fundamental apostar e defender que as mesmas podem ser encontradas, inclusive, fora do sistema formal de justiça. Fugir da centralização burocrática quando possível, em prol da autono-mia da sociedade em torno de suas responsabilidades. É nessa crença que se insere o Programa de Justiça Comunitária aqui apresentado.
No trabalho que agora se apresenta, é possível verificar o sucesso de um projeto que partiu da associação entre diferentes entes públicos Judiciário, Executivo e Legislativo e a esfera comunitária com suas lideranças, num objetivo uníssono. Sucesso que só foi possível porque as instituições parceiras apostaram na capacidade da comunidade de resolver seus próprios conflitos com autonomia, emancipação e solidariedade, oferecen-do as condições necessárias para tanto.
Por acreditarmos que a democracia se configura em um processo em que a partici-pação é elemento central, instrumento legítimo para acentuar a cidadania e lutar contra a exclusão social, a disseminação das práticas aqui retratadas se afigura como fundamen-tal, pois provê a continuidade dos esforços empreendidos pelos parceiros na construção de uma sociedade mais justa, calcada na ênfase dos valores comunitários.
Márcio Thomaz Bastos Ministro da Justiça
JUSTIÇA COMUNITÁRIA: UMA REALIDADE
A Secretaria de Reforma do Judiciário foi criada com o objetivo de promover, coor-denar, sistematizar e angariar propostas referentes à reforma do Judiciário. Tem como papel principal ser um órgão de articulação entre o Executivo, o Judiciário, o Legislativo, o Ministério Público, Governos Estaduais, entidades da sociedade civil e organismos inter-nacionais, para a promoção e difusão de ações e projetos de melhoria do Poder Judiciário. Visando democratizar a realização da justiça e criar as condições indispensáveis ao pleno exercício da cidadania, a Secretaria de Reforma do Judiciário, juntamente com os demais parceiros aqui apresentados, decidiu apoiar o Projeto Justiça Comunitária, por acreditar que nele há o estímulo à comunidade, ao desenvolver mecanismos próprios de resolução de conflitos, por meio do diálogo, da participação comunitária e da efetivação dos direitos humanos.
O programa aqui apresentado implica uma transformação do modo de ação institucional por incorporar as dimensões e problemáticas comunitárias em suas ações. O reconhecimento do papel principal da comunidade na construção da justiça promove a responsabilidade ativa e cidadã, e proporciona a apropriação por parte da própria comu-nidade do processo de transformação e superação de estigmas, combatendo, pois a ex-clusão social.
Acreditando na relevância desse papel e dando continuidade aos nossos esforços para a melhoria do sistema de justiça brasileiro, elaboramos o presente relato dessa experiência, cujo objetivo é retratar a realidade desse meio alternativo de resolução de conflitos, que difere dos demais por ser intrínseco à própria comunidade.
Experimentado nesta unidade da Federação, reúne um conjunto de informações e iniciativas que será essencial para, além de compartilhar a experiência e de fornecer ferramentas operacionais para a sua multiplicação, trazer reflexão e diálogo coletivo dos temas sociais.
Pierpaolo Cruz Bottini
JUSTIÇA COMUNITÁRIA: CONSOLIDANDO A DEMOCRACIA E PROMOVENDO OS DIREITOS HUMANOS POR
MEIO DO ACESSO À JUSTIÇA A TODOS
O PNUD identifica o acesso à justiça como um elemento prioritário para a garantia do desenvolvimento e como uma área de cooperação fundamental para o cumprimento de seu mandato em várias partes do mundo. Nesse contexto e no marco de seu mandato, o PNUD vem apoiando desde 2005, em parceria coma Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, o Programa de Justiça Comunitária, coordenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.
Para o PNUD, o Programa de Justiça Comunitária representa um paradigma com grande potencial transformador na medida em que articula ações de disseminação de informação jurídica, mediação de conflitos e animação de redes sociais, tendo como pro-tagonistas e parceiros a própria comunidade através dos agentes comunitários e mem-bros do poder judiciário local, com o objetivo único de ampliar o acesso à justiça daquelas pessoas que invariavelmente não dispõem de informação adequada ou dos meios neces-sários para tal.
O PNUD entende que o fortalecimento de programas de justiça comunitária que levem em consideração o marco normativo brasileiro, a diversidade cultural e o respeito à dignidade das pessoas envolvidas nos processos comunitários será um mecanismo para a consolidação da democracia e promoção dos direitos humanos através do acesso à justiça a todos.
A publicação desse relato é uma oportunidade ímpar de socializar essa experiência concreta de construção coletiva. Por isso, o PNUD deseja que o presente relato da expe-riência de justiça comunitária coordenada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e implementada pelos agentes comunitários de justiça e cidadania e representantes do poder judiciário sirva como exemplo de uma prática bem sucedida de acesso à justiça, preocupada com o cidadão, e que este possa inspirar a realização de experiências seme-lhantes em outras cidades brasileiras e em outros países da América Latina.
Kim Bolduc
Representante Residente
PRÓLOGO
Tenho imensa honra e satisfação em apresentar o presente documento. O relato elaborado cumpre plenamente o seu papel. Conduz de um lugar ao outro uma expe-riência que, no caso, é de grande sucesso. Disponibiliza, a todos os interessados, uma concreta possibilidade de transformar a realidade ao seu redor, partindo sempre de si mesmos.
Olho para essa experiência como quem observa uma frondosa árvore, de ampla copa, numerosos frutos e fortes sementes. Sei que um dia essa árvore já foi semente. Nasceu da vontade e visão da Excelentíssima Juíza de Direito Gláucia Falsarella Foley e cresceu na terra fértil do Egrégio Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Como adubo, recebeu amor, determinação, sensibilidade e força de vontade em abun-dância. A seiva, que dilui os nutrientes e leva o alimento a todas as partes, ficou a cargo dos dedicados agentes comunitários de justiça e cidadania.
Assim como o destino de uma árvore é adaptar-se ao solo e ao ambiente, crescer e produzir frutos, também a justiça comunitária seguiu esse caminho. As informações con-tidas neste documento servirão, assim como as sementes, para difundir a autonomia, a consciência e a convicção de que é possível sermos protagonistas da nossa própria histó-ria, independentemente de classe, posição ou condição social.
A todos aqueles que farão uso desse relato de experiência, uma especial recomen-dação: cuidem das informações deste documento como quem cuida de uma criança. Dêem a ele a atenção e a dedicação necessárias e, assim como nós, vocês também terão a alegria e a satisfação de terem como retorno o recompensador resultado da emancipa-ção social, condiemancipa-ção primeira da paz, justiça e cidadania.
Desembargador Lécio Resende da Silva
AGRADECIMENTOS
A Coordenação do Programa Justiça Comunitária do Distrito Federal manifesta o seu agradecimento à Secretaria de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça e ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) pela generosa iniciativa de divulgar esta experiência, fornecendo meios para a publicação deste relato.
Nossos agradecimentos aos membros e servidores do Tribunal de Justiça do Distri-to Federal e dos Territórios, na pessoa de seu Presidente Desembargador Lécio Resende da Silva. Essa Corte, reafirmando a sua vocação vanguardista, apostou neste projeto, desde o seu nascedouro, e assegurou a estrutura necessária para a sua construção e consolidação.
Um especial agradecimento a todos os membros da equipe do Programa Justiça Comunitária que, com competência e entusiasmo, devotaram conhecimento e experiên-cia a este trabalho, ofertando suas leituras, comentários, pesquisas e assessoria. Este momento de celebração é de responsabilidade de cada um deles. Agradecemos ainda pela participação valiosa a todos os consultores e consultoras nesta fase de replanejamento do Programa.
Também gostaria de agradecer aos representantes das instituições parceiras que, em permanente interlocução, imprimiram a sua contribuição pessoal e institucional ao Programa. Sem a colaboração do Ministério Público do Distrito Federal, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, da Defensoria Pública do Distrito Federal, do Progra-ma das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Secretaria Especial de Direi-tos Humanos da Presidência da República e da Secretaria da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, a trajetória do Programa Justiça Comunitária narrada neste trabalho não teria sido possível.
Aos Agentes Comunitários de Justiça e Cidadania, alma do Programa Justiça Comu-nitária e protagonistas de todas as narrativas impressas nestas páginas.
Gláucia Falsarella Foley
PREFÁCIO
O presente relato tem por objetivo compartilhar a experiência do Programa Justiça Comunitária, coordenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, desde outubro de 2000. A partir de uma breve contextualização do tema da justiça comu-nitária no cenário contemporâneo, este material oferece algumas ferramentas operacionais para auxiliar todos aqueles que já iniciaram ou pretendem iniciar essa fascinante jornada em busca da democratização da realização da justiça, no âmbito comunitário.
Trata-se de uma exposição nem sempre confortável da aprendizagem extraí-da desses seis anos de experiência, nas ciextraí-dades-satélites de Ceilândia e Taguatinga. A ilustração de nossos erros e acertos tem por objetivo inspirar novos e atuais progra-mas e, na medida do possível, ajudar a evitar que experiências negativas se repitam desnecessariamente.
É bem verdade que cada comunidade tem a sua trajetória que a faz única, e essa experiência precede qualquer esforço institucional que lhe seja externo, porque somente a comunidade é que pode definir o seu processo de transformação e desenvolvimento. Contudo, é exatamente a dificuldade de sintonia entre os anseios da comunidade e os objetivos de um programa institucional que justifica a publicação do presente trabalho.
Para que este material ganhe contornos interativos, é indispensável que haja um diálogo entre o conteúdo aqui exposto e a perspectiva de seus leitores e usuários. Nesse sentido, a página virtual do Programa Justiça Comunitária1 dedicará, a partir da edição
deste relato, um espaço de interação com o leitor, a fim de que o debate possa fluir, trazendo benefícios a todos os projetos voltados à democratização da justiça, ainda que operacionalizados sob modelos diferentes.
Partimos da convicção de que, diante de um cenário de profunda fragmentação do tecido social, todas as experiências que busquem a animação de redes sociais, o estímulo ao diálogo solidário e a reflexão coletiva dos temas sociais são indispensáveis e devem ser expostas à necessária troca, à generosa partilha. Nesse sentido, a partir do registro de uma experiência concreta, este trabalho pretende provocar o debate sobre a possível integração entre pluralidade, autonomia, ética, democracia e justiça, a ser estabelecido entre todos os que apostam na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
É sob essa perspectiva, pois, que este trabalho pretende desenvolver não um mo-delo, mas caminhos possíveis para delinear os traços de uma justiça comunitária para a emancipação social.
Gláucia Falsarella Foley
Juíza Coordenadora do Programa Justiça Comunitária 1. Disponível em: <http://www.tjdf.gov.br/tribunal/institucional/proj_justica_comunitaria/index.asp>.
INTRODUÇÃO
Diante da crise dos paradigmas da modernidade, a realidade contemporânea, plu-ral e fragmentada, requer a construção de uma concepção de direito pertencente a uma nova constelação paradigmática. No âmbito da realização da justiça, a racionalidade mo-derna que celebra a universalidade, a linearidade e a verticalidade já não se mostra suficiente para lidar com as complexidades que marcam os tempos atuais.
A justiça realizada por meio da jurisdição estatal é um modelo que segue os pa-drões da modernidade ocidental, posto que estruturada a partir de princípios universais pautados em imperativos legais. Trata-se de um tipo de justiça que codifica procedimen-tos e aplica a norma no caso concreto, com base em deduções racionais advindas da autoridade da lei ou dos precedentes. Em situações de conflito, o Estado substitui a vontade dos cidadãos, a fim de dizer o direito e assegurar a paz social. Sob esse padrão, o Estado detém o monopólio do exercício da atividade jurisdicional.
Isso não significa afirmar, contudo, que o Estado detenha o monopólio da criação do direito. Há uma parcela da sociedade que, excluída do atendimento jurisdicional, bus-ca fórmulas próprias de resolução de conflitos, criando alternativas para manter o mínimo de coesão social. Essa pluralidade de ordens jurídicas, apesar de ser uma realidade, em geral não é reconhecida oficialmente pelo Estado. Contudo, a partir do final da década de 70, sobretudo nos EUA, assistimos a emergência de um movimento de resgate dos méto-dos alternativos de resolução de disputas (ADRs)2 como um instrumento de realização da
justiça.3
Esse fenômeno tem sido analisado sob diferentes perspectivas. O debate se divide entre os opositores à flexibilização do pretenso monopólio estatal de realização da justiça e aqueles que acreditam que os métodos alternativos de resolução de disputas revelam sinais de uma justiça do futuro.
Os críticos, apesar de algumas divergências de linhas de pensamento, questionam: seria esse movimento parte de um processo de privatização das funções consideradas eminentemente estatais? Estaria o Estado outorgando suas atribuições jurisdicionais aos cidadãos, deixando-lhes escapar a autoridade de arbitrar conflitos e equilibrar desigual-dades para promover a paz social? Não seria essa uma forma de reservar a justiça social aos socialmente incluídos e destinar uma justiça de segunda classe aos excluídos?
2. A sigla tem as iniciais da denominação em inglês: Alternative Dispute Resolution.
3. AUERBACH, Jerold S. Justice without law? Oxford, UK: Oxford University, 1983, apud FOLEY, Gláucia Falsarella. Justiça comunitária: por uma justiça da emancipação. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, Brasília, 2003. p. 69-72.
De outro lado, entre os entusiastas, encontramos desde os que vêem esse movi-mento como uma alternativa eficaz à morosidade e à inacessibilidade do processo judicial oficial, até os que o consideram um instrumento de resgate do estatuto do cidadão e da comunidade, a fim de restaurar a sua capacidade emancipatória, por meio da autogestão de seus conflitos.
Esse movimento de resgate e de construção de novos métodos de resolução de conflitos conta com um importante instituto, objeto de debate ao longo das últimas três décadas: a mediação. Trata-se de um processo no qual uma terceira parte desinteressa-da e sem qualquer poder de decisão facilita que as partes em conflito construam uma solução. Em contraste com o sistema jurisdicional, a lógica da mediação oferece, poten-cialmente, um padrão dialógico, horizontal e participativo.
Quando operada na esfera comunitária, a mediação potencializa a sua dimensão emancipatória, na medida que trata de autodeterminação, de participação nas decisões políticas, reelaborando o papel do conflito e desenhando um futuro sob novos paradigmas. Muito embora a experiência a ser partilhada neste relato tenha sido concebida por iniciativa de um ente estatal, o modelo desenvolvido é comunitário porque, além de contar com membros da comunidade como seus principais operadores, é exatamente na esfera comunitária, onde a vida acontece, que se estabelece o locus preferencial de atuação do Programa. Em poucas palavras, é a justiça realizada pela, para e na comunidade.
O caráter emancipatório de um projeto não se define pela natureza da entidade que o implementou, mas pelos princípios com os quais opera. Portanto, não há qualquer razão na assertiva que confere legitimidade exclusivamente aos programas de justiça comunitária levados a efeito por entes não-estatais. Se há prevalência da dialógica em detrimento da retórica persuasiva, da coerção e da burocracia verticalizada4, se o saber
local é respeitado como parte do processo de aprendizagem, se o conflito é transformado em oportunidade de empoderamento individual e social e se as atividades são voltadas para transformar tensão social em possibilidades de criação de solidariedade e paz social, a justiça é do tipo comunitária e, como tal, ostenta vocação para a prática transformadora. Por fim, há que se esclarecer que, embora a justiça comunitária seja por vezes classificada como instrumento alternativo de resolução de conflitos, o modelo ilustrado neste trabalho não pretende afirmar-se em substituição ao sistema judicial oficial. Ao
4. Retórica, burocracia e coerção são, na análise de Sousa Santos, os três componentes estruturais do direito que podem se articular sob diferentes combinações, a depender do campo jurídico ou dentro de um mesmo campo (SOUSA SANTOS, Boaventura de. O Estado e o pluralismo jurídico em África. In: SOUSA SANTOS, Boaventura de; TRINDADE, João Carlos (Orgs.). Conflito e transformação social: uma paisagem das justiças em Moçambique. Porto: Afrontamento, 2003. p. 7).
contrário, o pressuposto adotado é o de que a jurisdição revela-se um instrumento apto a proteger direitos e garantir a realização da justiça, em especial nas situações extremas em que as circunstâncias dos conflitos repousam na violência e na ausência do diálogo e, ainda, diante de um acentuado descompasso de poder seja econômico, social ou políti-co entre as partes em políti-conflito.
Nesse sentido, a justiça comunitária deve ser interpretada em complementaridade ao sistema oficial. Por outro lado, considerando a sua vocação de promover a paz e coesão social nas esferas da comunidade, onde os conflitos havidos, em geral, não são levados ao Poder Judiciário, a justiça comunitária constitui importante instrumento de realização de justiça, apto a integrar um projeto emancipatório que redimensione o direi-to, articulando-o sob uma nova relação entre ética e justiça.
1. BREVE APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA JUSTIÇA COMUNITÁRIA5 1.1. Histórico
O Projeto Justiça Comunitária do Distrito Federal nasceu a partir da experiência advinda do Juizado Especial Cível Itinerante do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, o qual busca atender às comunidades do Distrito Federal com dificuldades de acesso à justiça formal. Durante os primeiros três anos de experiência, no interior de um ônibus especialmente adaptado para a realização de audiências, foi possível constatar a absoluta falta de conhecimento dos cidadãos em relação aos seus direitos e, ainda, a dificuldade de produção probatória, tendo em vista a informalidade com que os negócios são firmados nessas comunidades.
Um fato, porém, revelava o êxito da experiência. Aproximadamente 80% da de-manda do Juizado Itinerante resultavam em acordo. Esse dado confirmou que a iniciativa do ônibus efetivamente rompeu obstáculos de acesso à justiça, tanto de ordem material, quanto simbólica. A ruptura com a liturgia forense e a horizontalidade com a qual as audiências eram realizadas ajudaram a criar um ambiente de confiança favorável ao alto índice de acordos constatado.
Contudo, apesar dos acordos não resultarem de nenhum tipo de coerção, o que se verificava à época era que nem sempre os seus conteúdos correspondiam ao sentimento de justeza trazido por cada parte ao processo. Como a produção probatória era difícil, os acordos pareciam resultar de uma razão meramente instrumental, que levava à renúncia parcial do direito, a fim de se evitar os riscos de uma sucumbência total. Esse consenso da resignação, pois, parecia contrariar todo o esforço de se buscar a democratização do acesso à Justiça formal.
Essas constatações impulsionaram a reflexão sobre a possibilidade de se desenvol-ver na comunidade espaços nos quais fossem possíveis a democratização do acesso à informação e o diálogo visando consensos justos, do ponto de vista de seus protagonis-tas. Para tanto, o clássico operador do direito deveria ceder lugar a pessoas comuns que partilhassem o código de valores e a linguagem comunitária e, dessa forma, pudes-sem fazer as necessárias traduções. Delineava-se, assim, o primeiro esboço do Projeto Justiça Comunitária.
Seus contornos, porém, ganharam maior definição no decorrer do debate havido entre os representantes das entidades parceiras6, os quais imprimiram, a partir da
pers-pectiva de cada instituição, a sua contribuição para a elaboração do Programa, cujos breves traços são apresentados a seguir.
5. O inteiro teor do Programa Justiça Comunitária do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios encontra-se disponível em: <www.tjdf.gov.br/tribunal/institucional/proj_justica_comunitaria/index.asp>.
6. Durante o segundo semestre de 1999, as instituições parceiras foram representadas pelos seguintes membros: Defensoria Pública do Distrito Federal: Fernando Antonio Calmon Reis, defensor público; Faculdade de Direito da Universidade de Brasília: José Geraldo de Sousa Júnior, diretor da Faculdade de Direito da UnB; Alayde Avelar Freire SantAnna e André
1.2. O Programa Justiça Comunitária. Linhas gerais7
O Projeto Justiça Comunitária foi criado em outubro de 2000, com o objetivo de democratizar a realização da justiça, restituindo ao cidadão e à comunidade a capacidade de gerir seus próprios conflitos com autonomia.
A iniciativa foi levada a efeito pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, em parceria com o Ministério Público do Distrito Federal, a Defensoria Pública do Distrito Federal, a Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e, à época, a Comissão de Direitos Humanos da OAB/DF, sob o convênio firmado com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos da Presidência da República.
Atualmente, o Programa está instalado nas cidades-satélites de Ceilândia e Taguatinga, com 332.455 e 223.452 habitantes, respectivamente8. O Programa conta
com 40 agentes comunitários que, na qualidade de membros das comunidades nas quais atuam, compartilham a linguagem e o código de valores comunitários.
Os agentes comunitários são credenciados no Programa, por meio de um proces-so de seleção levado a efeito pela equipe psicosproces-social9. Encerrada essa etapa, os
selecionados iniciam uma capacitação permanente na Escola de Justiça e Cidadania10,
onde recebem noções básicas de Direito, treinamento nas técnicas de mediação comuni-tária e de animação de redes sociais, além da participação nos debates sobre direitos humanos.
Macedo de Oliveira, advogados da UnB; Ministério Público do Distrito Federal e Territórios: Renato Sócrates Gomes Pinto, procurador de justiça e Newton Cezar Valcarenghi Teixeira, promotor de justiça; Ordem dos Advogados do Brasil - Secção do Distrito Federal (OAB/DF): Sandra Ferreira Moreira, Iaris Ramalho Cortês e Tereza de Jesus Pinheiro Montenegro, conselheiras da OAB/DF; Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT): Edmundo Minervino Dias, desembargador presidente; Gláucia Falsarella Foley, juíza de direito, Marcelo Girade Corrêa e Vera Lucia Soares, técnicos judiciários.
7. Este panorama resulta de um processo de replanejamento pelo qual passou o Programa Justiça Comunitária, no segundo semestre de 2006, o qual contou com a valiosa contribuição da consultora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) Doutora Marília Weigert Ennes, contratada também para a consultoria na confecção do mapeamento social e animação de redes sociais.
8. Fonte: SEPLAN/CODEPLAN. Pesquisa distrital por amostra de domicílios 2004.
9. O perfil dos agentes comunitários e o processo de seleção estão descritos no Capítulo 3 deste trabalho. 10. Ver Capítulo 7.
A atuação dos agentes comunitários é acompanhada por uma equipe interdisciplinar, composta de advogados, psicólogos, assistentes sociais, servidores de apoio administra-tivo, um artista e uma juíza que coordena o Programa. As atividades11 desenvolvidas
pelos agentes comunitários são as seguintes: 1) informação jurídica; 2) mediação comu-nitária; e 3) formação e/ou animação de redes sociais.
A primeira atividade tem por objetivo democratizar o acesso às informações dos direitos dos cidadãos, decodificando a complexa linguagem legal. Para tanto, os agentes comunitários produzem, em comunhão com os membros da equipe interdisciplinar, mate-riais didáticos e artísticos, tais como cartilhas, filmes, peças teatrais, musicais, cordéis, dentre outros.
A mediação comunitária, por sua vez, é uma importante ferramenta para a promo-ção do empoderamento e da emancipapromo-ção social. Por meio dessa técnica, as partes direta e indiretamente envolvidas no conflito têm a oportunidade de refletir sobre o contexto de seus problemas, de compreender as diferentes perspectivas e, ainda, de construir em comunhão uma solução que possa garantir, para o futuro, a pacificação social.
A terceira atividade refere-se à transformação do conflito por vezes, aparente-mente individual em oportunidade de mobilização popular e criação de redes solidárias entre pessoas que, apesar de partilharem problemas comuns, não se organizam, até porque não se comunicam.
Ao desenvolver essas atividades, o Programa Justiça Comunitária tem por preten-são a transformação de comunidades fragmentadas em espaços abertos para o desenvol-vimento do diálogo, da autodeterminação, da solidariedade e da paz.
2. O LOCUS: A COMUNIDADE
A complexidade e a fragmentação da realidade social são traços da contempora-neidade impressos nas esferas mundial e local. Em toda sociedade, porém, há agrupa-mentos humanos unidos por diversas identidades, dentre elas a territorial, que confere à comunidade o status de locus privilegiado para o desenvolvimento de programas de trans-formação social.
Essa identidade territorial, segundo Kisil, é vivenciada onde os indivíduos ou gru-pos sociais mais facilmente reconhecem como pertencentes a uma mesma comunidade (...). A fonte mais imediata de auto-reconhecimento e organização autônoma é o territó-rio. As pessoas identificam-se com os locais onde nascem, crescem, vão à escola, têm seus laços familiares, enfim se socializam e interagem em seu ambiente local, formando redes sociais com seus parentes, amigos, vizinhos, organizações da sociedade civil e autoridades do governo.12
No mesmo sentido, o Programa Justiça Comunitária adota a comunidade como esfera privilegiada de atuação, porque concebe a democracia como um processo que, quando exercido em nível comunitário, por agentes e canais locais, promove inclusão social e cidadania ativa, a partir do conhecimento local. É na instância da comunidade que os indivíduos edificam suas relações sociais e podem participar de forma mais ativa das decisões políticas. É nesse cenário que se estimula a capacidade de autodeterminação do cidadão e de apropriação do protagonismo de sua própria história.
2.1. O conceito de comunidade
Em meio à vasta literatura sociológica dedicada a conceituar comunidade, a defini-ção talhada por Lycia e Rogério Neumann revela-se bastante útil para este trabalho, considerando a sua objetividade: Comunidade significa um grupo de pessoas que com-partilham de uma característica comum, uma comum unidade, que as aproxima e pela qual são identificadas.13
Conforme os próprios autores alertam, em geral, a unidade comum é a região onde as pessoas vivem, mas nada impede que uma comunidade seja constituída a partir de interesses e/ou causas partilhados. De qualquer sorte, no núcleo do conceito está locali-zada a idéia de identidade compartilhada.
Neste trabalho, a denominação comunidade será atribuída aos agrupamentos hu-manos que vivem na mesma localização geográfica e que, nessa condição, tendem a 12. KISIL, Marcos. Comunidade: foco de filantropia e investimento social privado. São Paulo: Global; Instituto para o
Desenvolvimento Social (IDIS), 2005. p. 38.
13. NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcellos; NEUMANN, Rogério Arns. Repensando o investimento social: a importância do protagonismo comunitário. São Paulo: Global; Instituto para o Desenvolvimento Social (IDIS), 2004. p. 20-21. (Coleção Investimento Social).
partilhar dos mesmos serviços (ou da ausência deles), problemas, códigos de conduta, linguagem e valores.
A partilha territorial, entretanto, não leva necessariamente à construção de uma comunidade coesa socialmente. Essa característica vai depender do grau de conexão entre seus membros e de sua capacidade de promover desenvolvimento local, ou seja, de seu capital social.
O capital social se verifica de acordo com o grau de coesão social que existe nas comunidades e que é demonstrado nas relações entre as pessoas ao estabelecerem re-des, normas e confiança social, facilitando a coordenação e a cooperação para o benefício mútuo.14
Segundo Robert C. Chaskin15, a aferição da coesão social de uma comunidade se
dá a partir da análise de quatro elementos, a saber: 1) senso de comunidade ou grau de conectividade e reconhecimento recíproco; 2) comprometimento e responsabilidade de seus membros pelos assuntos comunitários; 3) mecanismos próprios de resolução de conflitos; 4) acesso aos recursos humanos, físicos, econômicos e políticos, sejam locais ou não.
Onde há coesão social, há identidade compartilhada, cuja criação depende da mobilização social e do envolvimento com os problemas e soluções locais. Há, portanto, segundo Putman16, um ciclo virtuoso entre capital social e desenvolvimento local
susten-tável. Nesse sentido, desenvolver comunidade é um processo que agrega valores éticos à democracia e constrói laços de solidariedade.17
2.2. Conhecendo o locus. O mapeamento social
Primeiramente, é preciso definir o que se pretende com o mapeamento social, a fim de que os formulários de identificação e cadastramento dos dados sejam elaborados de maneira a veicular as perguntas adequadas. Nesse sentido, é importante ressaltar que o mapa a ser confeccionado não se resume a uma fotografia momentânea dos elementos identificados, mas deve ser um guia para subsidiar o diálogo entre essas informações, para servir de base a uma permanente animação de redes sociais.
Para o Programa Justiça Comunitária do Distrito Federal, a identificação das organi-zações sociais é fundamental para servir de referência para: a) o processo de seleção de 14. AUSTRALIAN BUREAU OF STATISTICS, Social capital and social wellbeing, apud NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcellos; NEUMANN, Rogério Arns, Repensando o investimento social: a importância do protagonismo comunitário, cit., p. 47. 15. CHASKIN, Robert J. Defining community capacity: a framework and implications from a comprehensive community initiative, apud NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcellos; NEUMANN, Rogério Arns, Repensando o investimento social: a importância do protagonismo comunitário, cit., p. 24.
16. PUTNAM, Robert D. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2005. p. 186.
novos agentes comunitários; b) o encaminhamento dos participantes para a rede social, quando a solução do conflito assim o demandar; c) o conhecimento das circunstâncias que envolvem os problemas comunitários; e, d) a constituição de novas redes sociais ou o fortalecimento e a animação das já existentes, quando a demanda ostentar potencial para tanto.
No decorrer da execução do Programa Justiça Comunitária do Distrito Federal, as dificuldades enfrentadas na confecção desse mapeamento foram inúmeras, desde a ca-rência de recursos humanos em especial na fase inicial até a dificuldade de se traçar uma estratégia de animação de redes sociais, quando toda a prioridade do Programa estava voltada para a capacitação dos agentes comunitários nas técnicas de mediação.18
Apesar das dificuldades, o Programa conseguiu reunir, com a colaboração de alguns agentes comunitários, informações relevantes para a confecção do mapa, sem contudo estabelecer uma conexão entre elas. Na ausência de um planejamento prévio aliado a uma clara estratégia metodológica de conexão entre essas informações, os dados coletados não se comunicaram.
Com o propósito de suprir essa lacuna, o Programa está desenvolvendo um passo-a-passo19 como estratégia para a confecção permanente do mapeamento social das duas
cidades-satélites, o qual contém as seguintes fases:
a) definir a área geográfica a ser mapeada com limites claros;
b) definir as fontes de informação e a metodologia adequada (documentos de ór-gãos oficiais, visitas às instituições, entrevistas pessoais ou por telefone, entre outras);
c) recrutar os agentes comunitários para a coleta dos dados e estimular que o façam com o auxílio de alguns moradores;20
d) criar um formulário para a identificação e o cadastramento;21
e) organizar um banco de dados apto a promover o cruzamento dessas informações.
18. Hoje, a avaliação é a de que o fato de o Programa ostentar três pilares não significa necessariamente que eles devam ser construídos um a um. Havendo uma estrutura mínima, o ideal é que os três sustentáculos de um programa de justiça comunitária sejam desenvolvidos em conjunto, uma vez que há íntima relação entre eles. A título de exemplo, é a partir de uma programação eficiente das atividades voltadas à animação de redes sociais que se podem atrair demandas para a mediação efetivamente comunitária, com largo impacto social.
19. A formulação desse passo-a-passo foi uma adaptação da experiência desenvolvida pela equipe psicossocial do Progra-ma Justiça Comunitária da sisteProgra-matização sugerida por Lycia Tramujas Vasconcellos NeuProgra-mann e Rogério Arns NeuProgra-mann (Desenvolvimento comunitário baseado em talentos e recursos locais ABCD. São Paulo: Global; Instituto para o Desenvolvimento Social (IDIS), 2004).
20. O Programa Justiça Comunitária conta com alguns amigos do Programa. Em geral, são ex-agentes comunitários que, por alguma razão, desligaram-se do Programa sem, contudo, deixarem de contribuir para a realização de atividades pontuais.
A fim de adotar uma metodologia coerente com a estrutura do Programa, a equipe interdisciplinar reduziu a área e as suas expectativas objeto do mapeamento, trans-formando essa tarefa de difícil execução em algo viável, envolvente e eficiente. A partir dessa redução e da consciência de que a cartografia social é uma atividade em perma-nente construção, adequaram-se as etapas desse processo à capacidade estrutural, para não gerar novas frustrações.
A definição territorial da área mapeada e de suas limitações obedeceu ao critério de local de moradia de cada agente comunitário, o que possibilitou, inclusive, maior inserção dos agentes em sua comunidade. Optou-se por localizar deficiências e necessidades, mas também talentos, habilidades e recursos disponíveis. Essa estratégia possibilita que o mapeamento sirva de espelho para a comunidade que, ao se olhar, tenha consciência de seus problemas, mas também conheça as suas potencialidades, o que é essencial para a construção de uma identidade comunitária.
Esse método também torna possível investigar em que medida as soluções para os problemas comunitários já existem ali mesmo, exatamente naquela comunidade que, por razões histórico-estruturais de exclusão social, não enxerga nenhuma solução para os seus problemas, senão por meio do patrocínio de uma instituição externa àquele habitat. Essa conexão entre problemas e soluções promove um senso de responsabilidade pela comunidade como um todo, o que cria uma espiral positiva de transformação social.22
Para que essa conexão efetivamente aconteça, é indispensável que o processo de mapeamento não tenha por objetivo tão-somente a confecção de um banco de dados, repleto de informações úteis, porém sem ligação entre si. A construção permanente do banco de dados é, sobretudo, um meio de fortalecer relações e criar novas parcerias.
Segundo Lycia e Rogério Neumann, ao identificar os recursos locais, os moradores passam a conhecer o potencial de sua comunidade e começam a estabelecer novas cone-xões, ou fortalecer as já existentes, entre os indivíduos, seus grupos e as instituições locais, assim como entre esses atores, e as causas que são importantes para o desenvol-vimento daquela comunidade.23
Nesse sentido, apresenta-se a seguir as informações a serem coletadas para o mapeamento social do Programa Justiça Comunitária. Esse processo, sob essa nova formatação, teve início em 25 de agosto de 2006.24
22. NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcellos; NEUMANN, Rogério Arns, Desenvolvimento comunitário baseado em talentos e recursos locais ABCD, cit., p. 26.
23. Ibidem, p. 23.
24. Nessa data teve início o semestre letivo de 2006 da Escola de Justiça e Cidadania, oportunidade em que se apresentou a nova metodologia de captação das informações relativas à comunidade, a fim de que os agentes comunitários possam contribuir de maneira mais efetiva para a confecção do mapeamento social.
RECURSOS DISPONÍVEIS25
Associação de Moradores
Estas organizações são fundamentais por sua capilaridade e pelo potencial de pro-duzir capital social e protagonismo comunitário, ou seja, por sua capacidade de mobilização em torno de interesses e valores comuns. É um contraponto à cultura de dependência de apoio institucional externo. É interessante que a identificação das associações inclua a informação sobre seu funcionamento (local, periodicidade de reuniões, dentre outros) bem assim as suas realizações.
Instituições em geral
Entidades públicas = escolas, hospitais, postos de saúde, parques, bibliotecas, etc.; Associações e instituições = igrejas, clubes, cooperativas, centros comunitários, etc.
O elenco destas instituições deve ser acompanhado de um levantamento quanto ao acervo de recursos que cada uma delas pode oferecer. Por exemplo, é importante registrar se uma escola pública possui e/ou está disposta a oferecer salas para reuniões abertas aos finais de semana, computadores, cursos de alfabetização de adultos, quadras de esportes, educadores voluntários, conselhos de pais e mes-tres, sinergia entre a escola e a comunidade, organização estudantil, etc.26
Habilidades pessoais
Em toda comunidade, é possível identificar líderes, voluntários, bordadeiras, cozi-nheiras, artistas, educadores, mediadores natos de conflitos, etc. Essas pessoas, entretanto, muitas vezes estão soltas e poderiam potencializar seus talentos se firmassem parcerias ou simplesmente se tivessem maiores oportunidades de ex-pressar as suas habilidades. O mapeamento pode auxiliar no desencadeamento desse processo.
DIFICULDADES
É indispensável que o formulário de informações coletadas para a confecção do mapa tenha um espaço destinado ao registro dos problemas da comunidade, se-gundo a perspectiva da própria comunidade. Além disso, é interessante classificar o problema de acordo com a sua natureza: estrutural, social, pessoal27. Essa
clas-sificação, quando efetuada pelo próprio agente comunitário, em comunhão com as pessoas entrevistadas, pode provocar uma reflexão importante sobre o contexto nos quais repousam os conflitos individuais ou coletivos daquela comunidade. Assim, problemas como desemprego, analfabetismo, ausência de saneamento, fal-ta de hospifal-tais e escolas, violência doméstica, crianças de rua, crime organizado, gangues de jovens, alcoolismo, evasão escolar, crimes, abuso infantil, problemas psicológicos, dentre outros, comporão um mosaico útil para impulsionar uma refle-xão coletiva acerca de suas circunstâncias.
25. NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcelos; NEUMANN, Rogério Arns, Desenvolvimento comunitário baseado em talentos e recursos locais ABCD, cit., p. 53-61.
26. Ibidem, p. 64. 27. Ibidem, p. 24.
Embora não haja um momento de conclusão do mapeamento social, eis que se trata de um processo permanente na mesma medida da dinâmica social, é fundamental que os resultados parciais sejam objeto de partilha e debate na comunidade. Além disso, é importante que, periodicamente, sempre que possível, haja uma análise dos resultados alcançados a partir da confecção do mapa, tais como parcerias, empreendimentos ou eventos desencadeados a partir desse processo.
2.3. Animação de redes sociais 2.3.1. As redes sociais
As redes sociais são a expressão dos contornos da contemporaneidade. Para Ma-nuel Castells, redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difu-são da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura28. O padrão de organização em
rede caracteriza-se pela multiplicidade dos elementos interligados de maneira horizontal. Os elos de uma rede se comunicam voluntariamente, sob um acordo intrínseco que reve-la os traços de seu modus operandi: o trabalho cooperativo, o respeito à autonomia de cada um dos elementos, a ação coordenada, o compartilhamento de valores e objetivos, a multiliderança, a democracia e, especialmente, a desconcentração do poder.29
Há um processo simbiótico entre participação política, exercício da autonomia e solidariedade entre os membros de uma comunidade organizada em rede. As redes per-mitem maximizar as oportunidades para a participação de todos, para o respeito à dife-rença e para a auto-ajuda em um contexto de mútua assistência. Participação traz mais oportunidade para o exercício dos direitos políticos e das responsabilidades. Para se ter acesso aos recursos comunitários, o nível de atividade e de compromissos dos grupos sociais aumenta e a auto-estima cresce, após a conquista de mais direitos e recursos. Há uma reciprocidade entre os vários componentes dessa cadeia ecológica, na medida que implica retroalimentação.30
Castells declara que o principal agente da mudança atual é um padrão de organi-zação e intervenção descentralizada e integrada em rede, característica dos novos movi-mentos sociais.31
28. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução de Roneide Venancio Mayer com a colaboração de Klauss Brandini Gerhardt. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 497 (A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, v. 1). 29. MARTINHO, Cássio. O projeto das redes: horizontalidade e insubordinação. Aminoácidos, Brasília, Agência de
Educa-ção para o Desenvolvimento (AED), n. 2, p. 101, 2002.
30. FOLEY, Gláucia Falsarella, Justiça comunitária: por uma justiça da emancipação, cit., p. 123-127.
31. Pelo fato de que nossa visão histórica de mudança social esteve sempre condicionada a batalhões bem ordenados, estandartes coloridos e proclamações calculadas, ficamos perdidos ao nos confrontarmos com a penetração bastante sutil de mudanças simbólicas de dimensões cada vez maiores, processadas por redes multiformes, distantes das cúpulas de poder. São nesses recônditos da sociedade, seja em redes eletrônicas alternativas seja em redes populares de resistência comunitária, que tenho notado a presença dos embriões de uma nova sociedade, germinados nos campos da história pelo poder da identidade. E conclui: o caráter sutil e descentralizado das redes de mudança social impede-nos de perceber uma espécie de revolução silenciosa que vem sendo gestada na atualidade (CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Tradução de Klauss Brandini Gerhardt. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. p. 426-427. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, v. 2).
A leitura de que as redes revelam novas formas de relações sociais também é compartilhada por Roberto Armando Ramos de Aguiar, para quem as redes vão possibi-litando a combinação de projetos, o enfraquecimento dos controles burocráticos, a descentralização dos poderes, o compartilhamento de saberes e uma oportunidade para o cultivo de relações horizontais entre elementos autônomos.32
Essa nova estrutura que vai se consolidando como alternativa ao sistema oficial está associada à prática da mediação: Como a verticalidade e as estruturas piramidais vão sendo confrontadas pelas redes, a solução dos conflitos tende a abandonar as for-mas clássicas e judicializadas para admitir novas forfor-mas de composição de conflitos co-mo a mediação, que consiste na possibilidade de discussão mediada dos problemas para se chegar a um acordo final33. Essas experiências permitem que a lógica da rígida
es-trutura da linguagem judicial ceda lugar à retórica, à arte do convencimento, ao envolvimento. É o que ele denomina direito dialogal, que respeita as diferenças e radicaliza a democracia.34
Mas, afinal, diante da centralidade do mercado e da retração estatal que marcam os tempos atuais, em que malhas sociais essas redes são construídas? Quais são os espaços possíveis para a reinvenção da emancipação?
Para Sousa Santos, as sociedades capitalistas são constituídas de seis estruturas, seis esferas de relações sociais, as quais produzem seis formas de poder, de direito e de conhecimento de senso comum. São espaços centrais para a produção e reprodução das relações de poder, mas são também suscetíveis de se converterem em lugares centrais de relações emancipatórias35, a partir de práticas sociais transformadoras. Apesar de
cada esfera guardar autonomia em relação às demais, posto que apresentam dinâmicas próprias, a ação transformadora em cada uma delas só pode ser colocada em movimento em combinação com as demais.36
Em cada espaço dessa estrutura multifacetada, a ação transformadora destina-se a construir condições para que os paradigmas emergentes possam ser experimentados em oposição à reprodução dos velhos padrões de dominação. Esses espaços são os seguin-tes: a) a esfera doméstica, cujo paradigma dominante é constituído pela família patriar-cal, em contraposição à emergência da democratização do direito doméstico, baseado na autoridade partilhada, na prestação mútua de cuidados, dentre outros; b) o espaço da 32. E acrescenta: Isso enseja uma profunda revisão tanto no momento da gênese normativa, nas formas de sua cons-trução, como também aponta para novas formas de aplicação, manutenção e controle dos que vivem no interior dessas relações, onde não há lugar para a lentidão, nem espaço para assimetrias acentuadas, nem oportunidades de acumulação de poder pelos velhos detentores da máquina burocrática. É uma outra dimensão da democracia emer-gindo (AGUIAR, Roberto Armando Ramos de. Procurando superar o ontem: um direito para hoje e amanhã. Notícia do Direito Brasileiro, Nova série, Brasília, Universidade de Brasília, Faculdade de Direito, n. 9, p. 71, 2002).
33. Ibidem, p. 76.
34. Ibidem, mesma página.
35. SOUSA SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. p. 271.
produção, no qual reina o expansionismo capitalista a ser transformado em um novo padrão pautado em unidades de produção baseadas em cooperativas autogeridas; c) o mercado, no qual o consumo voltado para as satisfações individualistas possa ser direcionado para as necessidades humanas, por meio do estímulo a um consumo solidá-rio; d) o espaço comunitário propriamente dito, em que a sociedade colonial37,
repre-sentada por antigas formas de organização pautadas na exclusão das diferenças, possa dar espaço à identidade múltipla, inacabada, valorizando o senso comum emancipatório orientado para uma ação multicultural e democrática; e) a esfera da cidadania, consti-tuída pelas relações entre o Estado e a sociedade e entre os membros da sociedade; nesse espaço, o paradigma emergente é voltado à democracia radical, à realização dos direitos humanos, transformando as relações de poder em autoridades partilhadas; f) o espaço mundial, no qual o paradigma do desenvolvimento desigual e da soberania exclu-siva seja transformado em soberania recíproca e democraticamente permeável.
Nesses espaços estruturais, a construção do paradigma emergente pressupõe uma tripla transformação: do poder em autoridade partilhada; do direito despótico em direito democrático; e do conhecimento-regulação em conhecimento-emancipação.
Os espaços privilegiados para a formação dessas redes solidárias, na perspectiva do Programa Justiça Comunitária, são três das seis esferas indicadas por Sousa Santos: o espaço doméstico, o comunitário e o da cidadania. Nesses espaços, é possível reinterpretar os conflitos, instrumentalizando-os para o exercício da autonomia, sob uma perspectiva solidária.
A autonomia é a capacidade de autodeterminação de um ser humano ou de uma coletividade. Segundo Franco, é o poder de se administrar por si mesmo, criando as normas nomos, para si mesmo auto. Mas, conforme adverte esse autor, o exercício da autonomia pressupõe uma relação de poder, de vez que cada um, em sua auto-suficiência, não se volta à realização da humanização. Assim, para romper com a lógica do poder, a autonomia deve se universalizar, por meio da construção de um mundo unificado por comum-humanização.38
O conceito de autonomia com o qual opera o Programa Justiça Comunitária tem, portanto, essa dimensão da alteridade. O seu desenvolvimento ocorre nos locais em que as pessoas erigem suas vidas e enfrentam as dificuldades, em comunhão com as outras. É nessas arenas locais doméstica, comunitária e da cidadania que os cidadãos podem desenvolver a capacidade de refletir, dialogar e decidir em comunhão os seus conflitos, dando ensejo à realização da autonomia política, no sentido de resgate do auto nomos e da radicalização da democracia39. Essa requer mais participação popular, menos exclusão
37. SOUSA SANTOS, Boaventura de Sousa, A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência., cit., p. 339. 38. FRANCO, Augusto. Ação local: a nova política da contemporaneidade. Brasília: Agora; Instituto de Política; Fase,
1995. p. 61 e 80.
39. MOUFFE, Chantal. Deliberative democracy or agonistic pluralism? Social Research, v. 66, n. 3, p. 745-758, 1999. Disponível em: <http://vweb.hwwilsonweb.com/cgi-bin/webspirs.cgi>. Acesso em: nov. 2002.
social e, conseqüentemente, mais justiça social. São nessas esferas que o cidadão co-mum sente que é possível intervir na vida política, exercitando a cidadania. São nesses espaços que as pessoas constroem suas relações e fazem escolhas ao longo da vida. São esses os espaços em que se tece a teia da vida.40
2.3.2. As redes sociais em movimento
Conforme já assinalado, o mapeamento social permite a descoberta das vocações, talentos e potencialidades da comunidade e de seus membros. No decorrer da perma-nente sistematização e análise dos dados coletados, é importante que haja um movimen-to que conecte as iniciativas e organizações comunitárias, colocando-as em permanente contato e diálogo.
A animação de redes sociais tem por objetivo promover capital social, cujo grau, embora não possa ser mensurado41, pode ser avaliado a partir da presença dos
seguin-tes elementos na comunidade: sentimento de pertença, reciprocidade, identidade na di-ferença, cooperação, confiança mútua, elaboração de respostas locais, emergência de um projeto comum, repertório compartilhado de símbolos, ações, conceitos, rotinas, fer-ramentas, estórias e gestos, relacionamento, comunicação, realização de coisas em conjunto.
Mas, como promover esses encontros em face de uma realidade que estimula o ceticismo na comunidade e até mesmo um certo grau de resignação de seus membros em relação aos temas afetos à vida política? Conforme Neumann assevera, nas comuni-dades de baixa renda, a alta migração de moradores, a violência, a insegurança e a desconfiança de tudo e de todos tendem a quebrar as relações sociais e a isolar as pessoas em suas casas e espaços. Não permitindo que compartilhem anseios, dúvidas e medos. Um trabalho de desenvolvimento de uma comunidade de dentro para fora deve começar por aproximar as pessoas e ajudá-las a construir ou fortalecer as relações e confiança mútua.42
Nesse sentido, é fundamental que os agentes comunitários e a equipe interdisciplinar mantenham em suas agendas permanentes contatos com a comunidade, por meio de reuniões previamente organizadas.
Para preparar as reuniões, deve-se:43
verificar se há infra-estrutura no local (se o espaço comporta o número de pes-soas, se há barulho, etc.);
40. CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Tradução de Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1997.
41. FRANCO, Augusto de. Capital social. Brasília: Instituto de Política; Millennium, 2001. p. 62.
42. NEUMANN, Lycia Tramujas Vasconcellos; NEUMANN, Rogério Arns, Desenvolvimento comunitário baseado em talentos e recursos locais ABCD, cit., p. 32.
levantar as necessidades de material; definir o facilitador;
elaborar a pauta da reunião a ser divulgada com antecedência; elaborar um acolhimento inicial;
elaborar uma dinâmica na qual todos possam participar;44
fechar a reunião, amarrando o que foi deliberado;
confirmar eventuais tarefas assumidas individualmente ou em grupo; divulgar a data de uma próxima reunião.
A reunião também deve propiciar que o tema que a ensejou seja objeto de re-flexão, abordagem e troca de saberes diferenciados, incluídos o dos técnicos que even-tualmente participem e daquele produzido localmente. Também deve haver um espaço para falar do futuro, que é sempre um norteador dos esforços comunitários.
Ao proporcionar esses encontros e promover esses diálogos, os agentes comunitá-rios agem como tecelões, contribuindo para que essa teia social se revele coesa o sufi-ciente, indicando que aquele aglomerado humano lançou-se na aventura de construir a sua comunidade.
44. A experiência do Programa Justiça Comunitária revelou que, quando realizadas em pequenos grupos, as reuniões tendem a ser mais eficientes, porque propiciam um ambiente mais acolhedor e possibilitam maior conexão. As dinâmicas envolvendo grandes grupos tendem a privilegiar somente os mais extrovertidos, o que facilita que as decisões sejam do tipo assembleísticas, ou seja, prevalecem o argumento e a perspectiva daquele que levar mais aliados e, por conseqüência, tiver maior número de adesões.
3. OS ATORES E A SELEÇÃO 3.1. Os agentes comunitários
Para que o programa de justiça a ser desenvolvido seja efetivamente comunitário, é indispensável que seus principais operadores sejam integrantes da comunidade na qual se pretende atuar, porque não haveria sentido algum se a abordagem efetivamente co-munitária de realização da justiça dependesse da atuação de técnicos sem qualquer afini-dade com a ecologia local, ou seja, a linguagem e o código de valores próprios.
O palco privilegiado da justiça comunitária é a comunidade que, embora permeada por dificuldades sociais, agrega membros com talentos e habilidades, os quais são potencializados quando mobilizados por um trabalho comunitário que efetivamente tra-duza as aspirações e necessidades locais.
O fato de os agentes comunitários necessariamente pertencerem aos quadros da comunidade na qual o Programa opera é essencial para que haja sintonia entre os anseios e as ações locais. É por meio do protagonismo dos agentes locais que a comunidade poderá formular e realizar a sua própria transformação.
3.2. O perfil dos agentes comunitários
Os requisitos mínimos, as responsabilidades e os compromissos exigidos para o melhor desempenho dos agentes comunitários em suas atividades são os seguintes:
3.2.1. Requisitos pessoais
idade mínima: 18 anos;
grau de instrução mínimo: 2º grau completo (ensino médio);45
experiência anterior: participação e/ou interesse em trabalhos sociais, voluntariado, movimentos populares;46
45. No início do Programa, era suficiente que os candidatos soubessem ler e escrever. Logo em seguida, passou-se a exigir o primeiro grau completo (ensino fundamental) para, ao final, demandar o segundo completo (ensino médio). Essa decisão resultou da constatação de que algumas habilidades essenciais para o bom desenvolvimento das atividades inerentes às atribuições dos agentes comunitários habilidade de comunicação, potencial cognitivo para assimilação do conteúdo teórico da capacitação e discernimento para relatar os casos atendidos de forma objetiva, destacando os pontos essenciais envolvidos em cada conflito faziam-se presentes com maior intensidade no agrupamento social que apresentava um grau maior de escolaridade. Ressalte-se, porém, que a relevância dessas habilidades deu-se em razão, dentre outras, do enorme desafio de construção conjunta membros da equipe interdisciplinar e os agentes comunitários - de um modelo de mediação comunitária. Isso significa afirmar que, tão logo a prática desse novo modelo de mediação comunitária seja consolidada e parte dos agentes comunitários se convertam em capacitadores da técnica de mediação, o Programa poderá rever o grau de exigência relativo à escolaridade mínima, de maneira a incluir, em seus quadros, um número maior de membros da comunidade.
46. Inicialmente, buscou-se selecionar lideranças comunitárias para o desempenho da função. Na primeira seleção, con-tudo, não foi possível o preenchimento de todas as vagas com esse perfil, seja pela dificuldade, à época, de localiza-ção das lideranças na comunidade, seja porque as lideranças identificadas guardavam forte vínculo político-partidário.
aptidões e características de personalidade: capacidade comunicativa, iniciativa, sociabilidade, autenticidade e criatividade;
ser residente, no mínimo, por 2 (dois) anos no local onde atuará como agente comunitário;
primariedade criminal;
não ter envolvimento direto com militância político-partidária.
3.2.2. Responsabilidades e compromissos
resguardar o sigilo em relação aos casos atendidos;
ter disponibilidade e disposição para atuar ativamente nos espaços comunitários: residências, instituições, escolas e templos religiosos, entre outros;
ter disponibilidade e disposição para freqüentar os cursos, reuniões e capacitações promovidos pela Escola de Justiça e Cidadania, às sextas-feiras, no período vespertino e, eventualmente, nos finais de semana.
3.3. As etapas da seleção
O fato de o Programa Justiça Comunitária contar com a atuação voluntária de agentes comunitários não significa prescindir de um cuidadoso processo de seleção. Ao contrário, exatamente porque a atividade é voluntária, o nível de compromisso que se espera deve ser aferido, analisando-se em que medida os propósitos do Programa guar-dam sintonia com os anseios e com o perfil do candidato a agente comunitário.
No decorrer destes seis anos de implementação do Programa Justiça Comunitária, foram realizados alguns ajustes na condução da seleção, a fim de aprimorar os procedi-mentos47. A partir da observação e avaliação permanente da atuação dos agentes
comu-nitários, foi possível a elaboração de mecanismos que possibilitaram: a) melhor elabora-ção do perfil exigido para a funelabora-ção de agente comunitário; b) melhor definielabora-ção dos proce-dimentos de recrutamento e seleção; e, c) melhor análise dos dados coletados na seleção. O processo seletivo, conduzido pela equipe psicossocial do Programa, é realizado em duas fases: recrutamento e seleção propriamente dita. O recrutamento é o processo de captação de membros da comunidade interessados em se candidatar à atividade pro-posta. A seleção é o procedimento que facilita a identificação e escolha dos candidatos
A análise dos trabalhos desenvolvidos pela primeira turma de agentes proporcionou ao Programa uma constatação importante: a condição de líder não implica necessariamente bom desempenho no papel de agente comunitário. Ao contrário, o que se verificou é que, por vezes, alguns agentes operavam de maneira assistencialista, clientelista e verticalizada, o que é incompatível com o propósito do Programa, que busca exatamente estimular a autonomia da comunidade e o diálogo em relações estabelecidas horizontalmente.
com o perfil mais adequado para o desempenho das atividades do Programa. As etapas desse processo serão discutidas a seguir.48
3.3.1. O recrutamento
Na fase inicial do processo seletivo, é importante divulgar a descrição das atividades gerais inerentes à função de agente comunitário, bem assim a definição dos requisitos minimamente exigidos, a fim de que a adesão do candidato ao processo de seleção seja consciente, ou seja, que haja adequação entre as suas expectativas e as propostas do Programa.
3.3.1.1. Divulgação do processo seletivo
procurar instituições diversas49, tais como escolas, associações de moradores,
prefeituras comunitárias, ONGs, entre outras, que realizem eventos comunitários nos quais possa haver divulgação do Programa e da seleção;
promover eventos para a divulgação da seleção na comunidade;
distribuir folhetos de divulgação do Programa50 e colar cartazes nos espaços da
comunidade, com a colaboração de agentes comunitários já atuantes;
divulgar na mídia escrita e falada somente quando necessário. O ideal é que se possa ir pessoalmente à comunidade, para que haja um direcionamento mais apurado na busca dos possíveis candidatos.
3.3.1.2. Cadastramento dos interessados
cadastramento de todos os interessados a serem convidados a participar da reu-nião de esclarecimento mais detalhado dos objetivos e atividades do Programa.51
3.3.1.3. Esclarecimentos sobre o Programa
realização de reunião de esclarecimento aos prováveis candidatos sobre a pro-posta do Programa (objetivos, atividades, requisitos, capacitação, compromisso, dedica-ção, entre outros). Essa reunião é realizada nos Centros Comunitários correspondentes a cada localidade na qual o Programa opera;
48. Todo o processo de recrutamento e seleção está ilustrado, de maneira simplificada, no fluxograma do Anexo III. 49. Por ocasião de um determinado processo seletivo, a equipe psicossocial remeteu cartas às organizações sociais,
solicitando a indicação de pessoas com as características desejadas. Esse mecanismo de recrutamento, porém, mostrou-se inadequado para a identificação do perfil procurado, porque muitas instituições em especial as lideradas por representantes de perfil tradicional encaminhavam pessoas carentes de emprego, sem qualquer experiência em trabalhos comunitários ou identidade com os propósitos do Programa. A equipe psicossocial e a coordenação decidi-ram, então, visitar pessoalmente as instituições comunitárias, para apresentar o Programa, divulgar a seleção e esclarecer minuciosamente o perfil exigido. Essa forma de divulgação mostrou-se mais adequada, a julgar pelo número de candidatos que surgiram com o perfil adequado.
50. Ver Anexo IV.
51. Na verdade, o ideal é que esse cadastro seja realizado ao longo do ano, sempre que possível. Assim, havendo um novo processo seletivo, a equipe psicossocial entra em contato com os cadastrados, para verificar se o interesse em se candidatar permanece.