O CARRAPATO DOS BOVINOS
Marcelo Bahia Labruna
Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais
1. INTRODUÇÃO
O Boophilus microplus (Canestrini, 1887), carrapato dos bovinos, está presente em todos os Estados do Brasil. Em 1983, este carrapato encontrava-se parasitando bovinos em mais de 95% dos municípios brasileiros (Horn & Arteche, 1984). Naquele período, um estudo pelo Ministério da Agricultura (Horn, 1983) concluiu que as perdas econômicas anuais, devido ao B. microplus, direto e indiretamente, eram próximas de US$ 1.000.000.000,00 (Tab.1). Com a expansão da bovinocultura a partir daquela data, a população bovina composta por cerca de 106 milhões de cabeças em 1983 (Horn, 1983), em 1994, já estava composta por mais de 158 milhões de cabeças. As perdas econômicas devido ao carrapato, seguramente também cresceram neste período.
No século passado, os carrapatos não causavam tantos problemas sérios, uma vez que os animais eram criados em baixas densidades animais, o que dava menos chances para que os carrapatos que estavam no ambiente, encontrassem um bovino para se alimentar. As pastagens eram todas naturais, existindo invlusive, um maior número de inimigos naturais dos carrapatos. As raças bovinas eram criadas quase que sob um sistema de seleção natural, pois não existiam tantas opções terapêuticas para se tratar os animais. Deste modo, os mais fracos acabavam morrendo, sobrevivendo os mais resistentes.
Tabela 1. Prováveis prejuízos causados pelos carrapatos em bovinos no Brasil (Horn, 1983)
FATORES PREJUÍZOS EM US$ PERCENTUAL (%)
Baixa produção de leite 391.299.120 40,42
Mortalidade 263.155.120 27,19 Baixa de natalidade 106.221.372 11,04 Consumo de carrapaticidas 83.738.810 8,65 Juros 53.000.775 5,48 Perda de peso 52.515.740 5,42 Mão-de-obra 9.648.780 1,00 Qualidade do couro 5.820.090 0,60 Doenças 1.155.120 0,12 Pesquisadores 459.290 0,05 Ensino 322.040 0,03 TOTAL 967.866.184 100,00
Entretanto, o crescimento contínuo da população bovina e de sua produtividade vem sendo acompanhado de grandes mudanças nos tipos de criação dos bovinos. A densidade animal média de bovinos, que na década de 40 era menor que 0,4 cabeça/ha/ano, passou para 0,8 cabeça/ha/ano no final da década de 80 (Leite, 1988). As pastagens vêm sendo melhoradas no sentido de produzir maior massa verde e suportar maiores densidades animais e as raças bovinas vem sendo continuamente selecionadas exclusivamente, para uma maior produtividade, esquecendo-se o lado da resistência aos parasitos. Todos esses fatores, aliados ao mau uso de drogas carrapaticidas, vem
favorecendo em primeira mão, aos carrapatos, que vem causando prejuízos cada vez maiores à pecuária nacional.
2. ECOLOGIA E EPIDEMIOLOGIA
O avanço tecnológico contínuo na pecuária nacional, que vem favorecendo ao crescimento das populações de carrapatos, vem sempre sendo acompanhado de avanços no campo da quimioterapia contra os carrapatos. No histórico do combate aos carrapatos no Brasil, a partir do início deste século até os dias de hoje, sempre foram surgindo drogas carrapaticidas cada vez mais eficazes. Entretanto, não basta apenas uma droga eficaz para evitar o prejuízo causado pelos carrapatos. É necessário uma estratégica para combater este parasito, pois só assim será possível vencê-lo. Essa estratégica se adquire, conhecendo melhor este parasito, sabendo onde, como e com quem ele vive, e quais são suas estratégias de sobrevivências e seus pontos fracos. Conhecimentos desta natureza se adquirem em estudos de ecologia e epidemiologia. Estes estudos se distribuem, do ponto de vista acadêmico, em basicamente três integrantes: Agente-hospedeiro-Ambiente, os quais estão intimamente interligados.
2.1 FATORES RELACIONDOS AO AGENTE:
-Ciclo biológico. Como todos os carrapatos, o ciclo de vida do B. microplus
passa pelas fases de ovo-larva-ninfa-adulto (macho e fêmea). O ciclo deste carrapato se divide em duas fases: a fase parasitária, que se passa sobre o hospedeiro e que tem uma duração relativamente constante para qualquer época do ano, uma vez que a temperatura corporal dos bovinos é constante; e a fase não parasitária, que se passa no ambiente e a sua duração vai depender de fatores ambientais como temperatura e umidade relativa (UR).
O B. microplus é um carrapato monoxeno, portanto, só precisa de um hospedeiro para completar a sua fase parasitária. Isto quer dizer que quando uma larva sobe em um bovino (Fig. 1), ela se fixa à pele, e após 7 a 8 dias, muda para o estágio de ninfa. Esta ninfa, imediatamente inicia-se a alimentação e após 7 a 8 dias muda-se para o estágio adulto, sendo que 50% das ninfas mudam-se para adultos machos e 50% para adultos fêmeas. As fêmeas alimentarão por mais 7 dias, quando se desprenderão da pele dos bovinos, caindo ao solo para iniciar a fase não parasitária. Deste modo, a fase parasitária total de larva a fêmea ingurgitada se completa em 21 a 22 dias, num único bovino (Gonzales, 1993). É importante salientar que este período de 21 a 22 dias é para a grande maioria dos carrapatos (dia modal), ou seja , a maioria dos carrapatos B.
microplus se desprenderão do bovino, na forma de fêmea ingurgitada, no 21° ou 22° dia
de parasitismo. Entretanto, como se observa na Tabela 2, esta fase parasitária pode ser mais curta (18 dias) ou mais longa (até 35 dias) para uma minoria de carrapatos. No caso dos machos, eles não se ingurgitam como as fêmeas, e podem permenecer no corpo dos bovinos por até 50 dias, fecundando várias fêmeas neste período. Assim que as fêmeas ingurgitadas caem no solo, elas imediatamente procuram um local protegido de predadores e raios solares, e que tenha um microclima com temperatura e umidade relativa favorável. Estes locais são geralmente no solo embaixo de touceiras e estolões de capins. A escolha deste local com temperaturas frescas e umidade relativa favorável são essenciais para o prosseguimento do ciclo biológico, pois é neste local que estas fêmeas realizarão a postura de ovos.
Figura 1: Ciclo de vida do Boophilus microplus larva adulto macho adulto fêmea metaninfa ninfa metalarva fêmea ingurgitada 22º dia 11º dia 8º dia 4º dia 15º dia 14º dia fêmea ingurgitada realiza postura de ovos larvas nas pastagens
A fase não parasitária em condições controladas a 27°C e UR superior a 80%, apresenta as seguintes durações para cada etapa: O período entre a queda da fêmea ingurgitada do hospedeiro no solo até o início da postura de ovos (período pré-postura) dura de 2 a 3 dias. Iniciando a postura, o período de postura dura cerca de 15 dias, quando cada fêmea ingurgitada coloca de 2000 a 3000 ovos. Após o fim do período de postura, estes ovos continuam o seu desenvolvimento, sendo que após mais 10 dias, as larvas começam a eclodir. Este período de eclosão dura cerca de 10 dias. Após a eclosão, as larvas ainda não estão aptas para subir nos bovinos, pois necessitam de pelo menos dois a seis dias para endurecer suas cutículas e se tornarem infestantes. A partir dai, subirão como larvas infestantes para a ponta dos capins, esperando que passe um bovino
para que elas possam subir nele e iniciar a fase parasitária. Portanto, em condições controladas de temperatura a 27°C, esta fase não parasitária dura cerca de 30 a 35 dias. Entretanto, a duração de cada etapa pode se encurtar ou se prolongar, dependendo de temperaturas mais altas ou mais baixas, respectivamente. A Tabela 2 mostra os extremos máximo e mínimo de duração de cada fase, sob temperaturas não totalmente letais, que para B. microplus corresponde a uma faixa aproximada de 15 a 35°C.
Tabela 2: Duração do ciclo do Boophilus microplus. Extremos máximo e mínimo de cada etapa, sob temperaturas não letais (adaptado de Gonzales et al., 1975; Gonzales, 1993).
FASE PARASITÁRIA Mínimo em dias Máximo em dias
1. De larva a fêmea ingurgitada 18 35
FASE NÀO PARASITÁRIA
1. Período pré-postura 2 40
3. Período de incubação dos ovos 16 197
4. Eclosão à larva infestante 2 19
TOTAL 38 291
-5% em parasitose e 95% no ambiente. Considerando uma população de B.
microplus em um determinado momento, estima-se que apenas 5% desta população estão
sobre os bovinos. Os outros 95% estão no ambiente, tanto na foma de larvas infestantes e ovos (maioria), como na forma de fêmeas em períodos de pre-postura e postura. Esta informação é extremamente importante no sentido de que quando tratamos uma população de bovinos infestada por carrapatos, naquele momento, estamos atingindo
apenas 5% da população de carrapatos, quando o tratamento é eficaz. Isto prediz que os programas de controle de B. microplus devem ser contínuos e a longo prazo.
-Potencial biótico. O potencial biótico se traduz na quantidade de
descendentes que cada fêmea é capaz de dar origem. Os carrapatos possuem um dos maiores potenciais bióticos do filo Artrópode (Balashov, 1972; Oliver, 1989). Uma única fêmea de B. microplus pode dar origem a mais de 3000 larvas. Este fato evidencia que o sucesso do controle químico do B. microplus depende de banhos carrapaticidas eficazes, pois cada fêmea que escapa de um banho carrapaticida mal dado, dará origem a mais 3000 carrapatos nas pastagens. Qualquer produto carrapaticida com eficácia menor que 95%, que é o limite de eficácia mínimo exigido pelo Ministério da Agricultura para que as drogas possam ser registradas como carrapaticidas (Brasil, 1990), pode colocar em risco o sucesso de um controle de B. microplus. Para se ter uma idéia, para uma droga de eficácia de 80%, embora aparenta eficaz, se um bovino com 200 fêmeas for tratado com esta droga, apenas 160 morrerão. As 40 que sobrarem podem colocar, cada uma, 3000 ovos nas pastagens, o que poderia representar um total de 120 000 larvas nas pastagens.
-Especificidade parasitária. Embora outras espécies animais, como equinos,
ovinos, caprinos e bubalinos, quando criadas no mesmo pasto que bovinos, possam se apresentar parasitadas por B. microplus (Moreno, 1984), essas espécies por si só, não são capazes de manter populações de B. microplus. Entretanto, dependendo do tamanho do rebanho destas outras espécies animais, em pastos de bovinos, elas podem contribuir significativamente para o incremento da população de B.microplus, podendo impedir o sucesso de um controle de B. microplus, caso elas não sejam tratadas ou separadas do pasto de bovinos.
-Sobrevivência de larvas nas pastagens. Assim que as larvas tornam-se
infestantes, elas podem permanecer vivas nas pastagens por períodos variados. Este período de sobrevivência dependerá basicamente de três fatores: a temperatura, a umidade relativa e a cobertura vegetal das pastagens. Quando uma larva torna-se
infestante, ela sai de seu microclima no solo abaixo de touceiras e estolões de capim e sobe para o topo de folhas e hastes de capins, onde fica a espera de hospedeiro. Neste local, ela está exposta a condições adversas de vento e raios solares. Com isso, em algumas horas ou dias, caso ela não encontre um hospedeiro, ela perderá água (evapotranspiração) e terá que retornar ao solo, em busca de um microclima favorável abaixo da vegetação, caso contrário ela morreria por dessecação. Neste microclima, ela irá repor suas reservas hídricas, estando novamente apta para subir ao topo do capim e se expor às condições adversas citadas acima. Quando suas reservas hídricas se esgotarem novamente, ela irá descer em busca de um microclima favorável para repô-las, e poder subir novamente no capim. E assim sucessivamente, até que ela encontre um hospedeiro, ou que ela morra por esgotamento de suas energias que gastou subindo e descendo do capim.
Como o metabolismo dos carrapatos está diretamente relacionado à temperatura, na primavera e verão, quando as temperaturas médias são mais altas, as larvas se tornarão mais ativas e farão estes movimentos de subida e descida do capim por mais vezes. Com isso, gastarão suas reservas energéticas mais rápido e morrerão mais rápido. Já no outono e inverno, quando as temperatutas médias forem mais baixas, as larvas se tornarão menos ativas, e farão esta sequência de subida e descida do capim menos vezes, gastando menos energia. Além disso, no inverno na Região Sudeste do Brasil, que se caracteriza por baixos índices pluviométricos, é extrememente comum o sereno na madrugada, que faz com que as pastagens tornem-se totamente molhadas de orvalho. As larvas de B. microplus são capazes de ingerir água diretamente deste orvalho sobre o capim (Wilkinsom, 1957; Wilkinson & Wilson, 1959), o que é suficiente para repor as reservas hídricas perdidas durante o dia. Desta forma, como constatado por Magalhães (1989) em Minas Gerais, fica caracterizado que na Região Sudeste do Brasil, as larvas infestantes de B. microplus sobrevivem nas pastagens por menos tempo nos
meses quentes (primavera e verão) e por tempos maiores nos meses frios (outono e inverno).
No caso de pastos de bovinos que estiverem extremamente sobrepastejados, com cobertura vegetal pobre, haverá incidência direta de raios solares e ventos no solo, limitando regiões no solo que proporcionem o microclima favorável para que as larvas possam repor suas reservas hídricas. Desta forma, o tempo de sobrevivência das larvas seria menor, pois os carrapatos morreriam por dessecação, principalmente em meses de verão.
-Sítio de fixação no hospedeiro. O B. microplus apresenta regiões
preferenciais de fixação à pele no corpo dos bovinos. Ele é encontrado principalmente em regiões ventrais como períneo, escroto, prepúcio, úbere, virilhas, ventre do abdome e torax, axilas, barbela, tábuas do pescoço e no interior e atrás do pavilhão auricular. Essa preferência por essas regiões estão ligadas à temperatura e espessura da pele e à capacidade do bovino de se coçar (auto-limpeza). Entretanto, em infestações maciças, mesmos as outras regiões do corpo dos bovinos podem se apresentar infestadas por B.
microplus. Estes sítios de fixação devem ser levados em conta quando se banha um
bovino com carrapaticida, pois muitas vezes acontece de justamente estas áreas ventrais, receberem menos carrapatidas, em função de um banho carrapaticida mal dado.
-Resistência genética a carrapaticidas. A Organização Mundial da Saúde
(OMS) define a resistência a carrapaticidas como a capacidade de a maioria de indivíduos de uma população, de tolerar doses de um carrapaticida, as quais se apresentam letais a maioria de idivíduos de uma população normal de carrapatos. Os carrapatos se tornam resistentes aos carrapaticadas através de basicamente três mecanismos, do ponto de vista bioquímico: 1. Aumento da taxa de detoxicação: por um aumento da taxa de metabolismo, os carrapatos conseguem metabolizar o princípio ativo do carrapaticida antes que ele possa causar danos ao carrapato. 2. Mudança do sítio de ligação: Por mudanças bioquímicas no sítio de ligação em que a molécula carrapaticida se ligaria no
carrapato, o carrapaticida passa a ser atóxico para o carrapato. 3. Modificações estruturais de enzimas colinesterases: Este tipo de resistência é típico aos carrapaticidas organofosforados, uma vez que estas drogas atuam inibindo esta enzima. Os carrapatos resistentes aos organofosforados apresentam esta enzima estruturalmente modificada, de modo que o carrapaticida não consiga mais inibi-la. (Wilson, 1978; Stone, 1979; Sutherst, 1983).
De modo geral, acredita-se que os genes responsáveis pela resistência dos carrapatos a um determinado carrapaticida já estão presentes em uma população de carrapatos, mesmo antes desta população entrar em contato com o carrapaticida (Stone, 1972). Entretanto, antes do contato com este determinado carrapaticida, estes genes estão em baixas frequências e não estão ainda expressados ou aflorados na população. É necessário uma pressão de seleção ou um contato prolongado e constante desta população com o carrapaticida, para que estes genes se af`lorem ou se expressem em uma parcela significativa da população, até o ponto em que a maioria dos indivíduos desta população apresentem estes genes expressados, e que o carrapaticida não funcione mais (Wilson, 1978). De fato, para todos os carrapaticidas lançados no mercado neste século, alguns anos ou décadas após o seu uso contínuo, foi evidenciada o surgimento de populações resistentes a estes carrapaticidas. Isto aconteceu com os arsenicais, lançados no início do século e com os clorados, organofosforados, amidinas e piretróides, lançados nas décadas de 40, 50, 70 e 80, respectivamente. Para as drogas mais recentes, para as quais ainda não foi constatada a presença de populações resistentes, pode-se esperar que com alguns anos ou décadas de uso, aparecerão populações de carrapatos resistentes a elas.
A história da resistência dos carrapatos aos carrapaticidas deixa claro a necessidade de se combater os carrapatos racionalmente, com um menor número de tratamentos anuais carrapaticidas, a fim de diminuir a pressão de seleção e retardar o aparecimento da resistência e prolongar a vida útil das drogas carrapaticidas no mercado.
-Gerações por ano. Por ser um carrapato monoxeno, o B. microplus é capaz de completar a sua fase parasitária em poucos dias (Fig.1) e isso lhe permite realizar em média, quatro gerações por ano na Região Sudeste. Ou seja, em um ano, ele passa pelo ciclo completo (fase parasitária e fase não parasitária - Tab.2) por quatro vezes. De modo geral, essas gerações se distribuem ao longo do ano da seguinte forma (Fig. 2):
1a geração: Inicia-se na primavera, em torno do final de setembro e outubro. Esta geração é oriunda daqueles carrapatos que passaram o final do outono e inverno nas pastagens. Como a temperatura nestes meses é mais fria, as fases não parasitárias no inverno demoram mais, portanto, as fêmeas ingurgitadas que caem do bovino no final do outono e inverno, vão apresentar períodos de pré-postura e postura mais longos. O período de incubação dos ovos também vai ser mais longo e as larvas que eclodem vão demorar mais para se tornarem infestantes e vão se tornar menos ativas, em função das baixas temperaturas. Entretanto, com o fim do inverno e início da primavera, quando as temperaturas aumentam, esses carrapatos que estão nas pastagens completam o seu desenvolvimento rápido, produzindo várias larvas infestantes de uma vez, dando o pico da primavera de larvas infestantes nas pastagens. Este pico será o responsável pela primeira geração de fêmeas ingurgitadas observadas nos bovinos, nos meses de setembro e outubro.
S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A meses S O N D J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A meses
1ª
1ª
2ª
2ª
3ª
3ª
4ª
4ª
1ª 2ª
3ª
4ª
n º d e c a rr a p a to s n o s b o v in o s n º d e c a rr a p a to s n o s b o v in o sFigura 2: Desenvolvimento do Boophilus microplus na Região Sudeste. Desenho esquemático do número de gerações por ano. A dinâmica dos picos de carrapatos são baseados em uma densidade bovina constante ao longo do ano.
2a geração: Os carrapatos da 1a geração, após se alimentarem nos bovinos por 21 a 22 dias, caem no pasto, iniciando a fase não parasitária que dará origem à 2a geração de larvas nas pastagens. Neste caso, por ser em uma época de temperaturas mais quentes, as fases não parasitárias acontecerão mais rápido e já no final da primavera, os bovinos já se apresentarão parasitados pelos carrapatos desta 2a geração. Pela Figura 2, observa-se que este pico é maior que o pico da 1a geração. Esta diferença ocorre pelo seguinte fato: o pico da primeira geração é menor porque as fases não parasitárias responsáveis por ele, passaram-se no inverno. Neste período, as baixas temperaturas e baixa pluviosidade (estação seca) aumentam a mortalidade de fêmeas inurgitadas nas pastagens e principalmente a mortalidade de ovos, que se desidratam e morrem. Também, há uma
menor produção individual de ovos por fêmea. Entretanto, a fase não parasitária que dará origem à 2a geração de larvas, se dá na primavera, época de temperaturas mais altas e que marca o final da estação seca, com o início das chuvas. Deste modo, a mortalidade de fêmeas ingurgitadas e ovos são menores, e há um aumento da produção individual de ovos por fêmea. Por isso, o pico de carrapatos da 2a geração se apresenta maior que o da 1a geração.
3a geração: Os carrapatos da 2a geração, após se alimentarem nos bovinos por 21 a 22 dias, caem no pasto, iniciando a fase não parasitária que dará origem à 3a geração de larvas nas pastagens. Esta geração também apresenta uma pico alto no final do verão, uma vez que a fase não parasitária, que dará origem a ela, se passará em meses quentes e chuvosos (verão), com alta umidade relativa, extremamente favoráveis ao desenvolvimento dos carrapatos nas pastagens. Entretanto, dependendo do ano, o pico desta 3a geração pode ser menor que o da 2a, em função de um período maior de estiagem (veranico) ou um exesso de chuvas que podem ocorrer neste período. No primeiro caso, o veranico torna os dias muito quentes e as larvas nas pastagens podem morrer muito rápido, por se tornarem muito ativas e não conseguirem compensar a evapotranspiração. No segundo caso, o exesso de chuvas pode lavar as larvas das pastagens e estas passam a gastar muita energia para subir novamente no capim, morrendo rapidamente. Além diso, a inundação parcial de pastagens de áreas baixas, que pode ocorrer neste período, causa uma redução significativa na população de carrapatos.
4a geração. Os carrapatos da 3a geração, após se alimentarem nos bovinos por 21 a 22 dias, caem no pasto, iniciando a fase não parasitária que dará origem à 4a geração de larvas nas pastagens. Esta fase não parasitária inicia-se em meses com temperaturas favoráveis, entretanto, quando vão aparecendo as primeiras larvas desta 4a geração, as temperaturas vão se tornando mais baixas, Consequentemente, as larvas vão se tornando menos ativas. não existindo um pico de carrapatos bem definido nesta 4a geração, uma vez que os carrapatos não se tornam todos ativos de uma só vez, como ocorre nos picos
das outras gerações. Por esta razão, esta geração apresentará uma curva mais longa e mais baixa (Fig. 2), uma vez que as larvas não estarão todas ativas ao mesmo tempo, mas poderão sobreviver por longos períodos nas pastagens (baixas temperaturas). As fêmeas ingurgitadas desta 4a geração que vão caindo dos bovinos neste período, serão as responsáveis pelo pico da primavera da 1a geração.
É importante salientar, que este padrão de quatro gerações não é regra geral para toda a Região Sudeste. O esquema proposto na Figura 2 é apenas uma ilustração geral de como uma população de B. microplus se comporta dentro de um rebanho manejado sob uma mesma densidade animal ao longo do ano, para a maioria da Região Sudeste, com estações do ano bem definidas (inverno seco e frio, verão quente e chuvoso). Entretanto há regiões bastante diversificadas, para as quais não se tem nenhum conhecimento da ecologia do B. microplus. É possível que em algumas destas regiões, principalmente as de altitudes muito altas e que os invernos são bem rigorosos, as fases parasitárias se prolonguem mais no inverno, levando a população de B. microplus a apresentar apenas 3 gerações por ano. Entretanto, há regiões de altitudes mais baixas, que os invernos chegam a ser quentes. Nestes casos, pode haver até 5 gerações por ano. Outro fato que pode influenciar este padrão da Figura 2, são os anos atípicos. Mudanças climáticas fora dos padrões podem influenciar significativamente o desenvolvimento do
B. microplus, alterando o padrão de picos populacionais ao longo do ano. Com respeito
ao manejo das propriedades, é óbvio que se a densidade bovina estiver crescendo ao longo do ano, em função do crescimento dos animais ou da própria adição de animais no rebanho, as populações de carrapatos também crescerão, levando a picos populacionais cada vez maiores.
-10-20% da população alberga 50% dos parasitos. Como acontece para muitos parasitos, numa determinada população de bovinos de uma mesmo padrão racial, os parasitos não se distribuem de forma normal entre os hospedeiros. Cerca de 10 a 20% dos bovinos estarão albergando cerca de 50% dos parasitos, no caso, os carrapatos. Esta distribuição não normal está relacionada à resistência individual de cada bovino (Wharton et al., 1970) e ao padrão de hierarquia do rebanho (Newson et al., 1973; Aguilar & Solis, 1984). Desta forma, é importante uma maior atenção a este grupo dos 10 a 20% nos programas de controle, e quando possível, descarta-los do rebanho, na tentativa de selecionar o rebanho para uma maior resistência aos parasitos.
-Raça. As raças zebuínas apresentam-se bem mais resistentes aos carrapatos,
quando comparadas às raças européias (Moraes et al, 1989). Isto está diretamente ligado à origem do B. microplus. Este carrapato é originário da região da Índia, no Período Plioceno, há cerca de 10 a 12 milhões de anos atrás (Balashov, 1994). Semelhantemente, os ancestrais dos bovinos indianos surgiram nesta região, ao redor deste período. Portanto, o Boophilus microplus e os bovinos indianos têm milhões de anos de convivência juntos, o que ocasionou uma seleção natural efetiva neste gado, fazendo com que eles se apresentem mais resistentes ao B. microplus. Por outro lado, o contato do gado europeu com o B. microplus é recente, tendo iniciado possivelmente após as espedições européias à India, na Idade Média. Por esta razão, o gado europeu se mostra altamente susceptível a altas infestações pelo B. microplus.
De modo geral, quanto maior o grau de sangue europeu em um rebanho, mais difícil será o controle do carrapato. Nestas propriedades, geralmente de atividade leiteira, a atenção ao B. microplus deve ser redobrada, uma vez que os prejuízos causados por este carrapato, principalmente no tocante ao gasto com carrapaticidas e mão-de-obra para os banhos, pode ser considerável.
Uma das razões para os carrapatos estarem causando prejuízos cada vez maiores nos dias de hoje, é a substituição gradual do sangue Zebu no rebanho nacional,
pelo sangue europeu. Este processo, fruto da competição internacional por uma maior produtividade de proteína de origem animal, se deve a uma maior seleção para produção de leite e carne, que vem ocorrendo no gado europeu.
-Auto limpeza. O maior inimigo do B. microplus é o próprio bovino. Basta saber que de cada 100 larvas que sobem em um gado europeu, apenas 10 a 15 chegarão à forma de fêmea ingurgitada. No gado Zebu, este índice é ainda mais surpreendente. De cada 100 larvas, apenas 1 chegará a forma de fêmea ingurgitada. O gado Jersey se destsca como uma excesão do gado europeu, uma vez que, nesta raça, apenas 2 das 100 larvas chegará à forma de fêmea ingurgitada. Esta grande perda por parte do carrapato se deve ao mecanismo do bovino de se auto limpar, ou retirar grande parte dos carrapatos que estão à sua pele (Kettle, 1989). Esta retirada se dá principalmente com a língua (seja o próprio animal ou um bovino lambendo o outro) e se esfregando em tocos, troncos, cupins e rochas. O que desencadeia o mecanismo de auto limpeza é o prurido ocasionado pelo carrapato, quando fixa-se à pele. Esta fixação provoca reações anafiláticas, que são bem mais intensas em bovinos zebuínos do que em europeus (Wikel, 1996).
-Idade. Animais mais velhos, após várias infestações pelo B. microplus em
suas vidas, tornam-se mais resistentes ao carrapato. Entretanto, esta resistência é apenas parcial e quase que sem impactos significantes sobre a população total de carrapatos na propriedade. Portanto, animais de todas as idades sempre deverão ser incluídos em programas de tratamentos carrapaticidas.
-Nutrição/lactação. Como em todas as doenças parasitárias, o estado orgânico do animal vai estar diretamente relacionado à sua susceptibilidade aos carrapatos. Animais mal nutridos apresentarão um sistema imunológico menos eficaz, com isso, apresentarão reações de hipersensibilidade cutânea menos intensas, diminuindo a eficácia da auto limpeza e, consequentemente, se tornando mais susceptíveis ao B. microplus.
Vacas de alta produção em lactação, que estão frequentemente submetidas a uma sobrecarga orgânica, também se tornam mais susceptíveis aos carrapatos. No caso
desta categoria animal, o problema é mais grave, uma vez que, estes animais são muitas vezes mantidos em piquetes sob uma alta densidade animal, o que é extremamente favorável aos carrapatos no ambiente.
Resistência genética. Uma grande alternativa para diminuir ou evitar os
prejuízos causados pelo B. microplus, seria a seleção genética de bovinos resistentes ao carrapato. A Austrália, pioneira neste tipo de trabalho, é o único país que tem um programa sério e concreto, onde se busca a obtenção de animais produtivos, mas resistente ao B. microplus (Angus, 1996). É uma alternativa que traz resultados a longo prazo, mas são resultados sólidos e eficazes. Considerando a vulnerabilidade do controle químico, em função da resistência dos carrapatos aos carrapaticidas, e a condenação crescente no mundo quanto ao uso de venenos na produção de alimentos, a seleção de animais resistentes torna-se uma hoje das poucas alternativas viáveis e eficazes para o futuro do controle de carrapatos.
2.3. FATORES RELACIONADOS AO AMBIENTE
-Estação do ano. Nas estações quentes e chuvosas do ano, as infestações por
B. microplus serão mais intensas, uma vez que as fases não parasitárias se desenvolverão
mais rápido e as larvas se tornarão mais ativas. Já nas estações frias e secas, as infestações serão menores, uma vez que as fases parasitárias se desenvolverão mais lentamente e as larvas se tornarão menos ativas. Nestas estações frias e secas ocorrem alteraçõers climáticas no microclima dos carrapatos no solo, entre as vegetações, levando a uma grande perda do percentual de eclosão dos ovos.
Há uma grande tendência cultural de se imaginar que as épocas frias e secas do ano são as de maiores infestações por carrapatos, pelo grande ataque que os seres humanos sofrem por carrapatos micuins e vermelhinhos, quando caminham pelas pastagens nestas épocas. Entretanto, este carrapato que ataca o homem não é o B.
microplus. É o Amblyomma cajennense, uma outra espécie de carrapato que ataca não só
o homem, como também várias espécies de mamíferos e aves, principalmente os equídeos. Portanto, não se pode avaliar a infestação por B. microplus nos pastos, levando-se em conta este parâmetro de ataque por carrapatos ao homem, uma vez que o B.
microplus, por apresentar uma especificidade parasitária mais definida, raramente ataca o
homem.
-Densidade animal. A densidade bovina nas pastagens é um dos fatores mais
importantes a se levar em conta no controle de carrapatos nas pastagens. O número de unidades animais por hectare representa a quantidade se fonte de alimento para as larvas de B. microplus nas pastagens. Além do mais, o aumento aritmétrico da densidade animal leva a um aumento geométrico da população de carrapatos, em função do alto potencial biótico destes parasitos.
Sistemas mais intensivos de criação de bovinos a pasto, como a rotação dos animais em piquetes de capins, são extrememente favoráveis ao incremento das populações de B. microplus nas pastagens. Nesses sistemas, como no pastejo rotacionado de capin elefante, cada lote de animais fica em cada piquete por apenas alguns dias, retornando a cada piquete após um período variado de 30 a 40 dias. Desta forma, o sistema trabalha com lotações anuais médias de 4 a 6 vacas por hectare, chegando a 20 cabeças por hectare nas estações chuvosas, em alguns sistemas. Se o carrapato não for controlado antes da implantação de tais sistemas de pastejos em uma propriedade, seguramente a população de B. microplus irá estourar nos meses quentes e então, será muito tarde para se tentar abaixar a população a níveis economicamente aceitáveis, uma vez que sob desafio parasitário muito alto, praticamente nenhum produto carrapaticida consegue eficácias acima de 95%. Com isto, será necesário tratamentos contínuos e de intervalos mais curtos, aumentando significativamente os gastos com carrapaticida e mão de obra. Quando o carrapato é controlado a baixos níveis de infestação antes da implantação destes sistemas de manejo, torna-se possível, através de um monitoramento
contínuo, o controle deste parasito ao longo do pastejo rotacionado, através de tratamentos carrapaticidas racionais para impedir a explosão populacional.
-Pastagens. A partir da década de 60, com a substituição gradativa das
pastagens naturais do Sudeste por gramíneas do gênero Brachiaria, a pecuária nacional deu um grande salto, pois estava disponível um novo capim com maior pridutividade de matéria seca e que suportava solos pobres em fósforo, como do Cerrado, e também uma maior densidade animal. Por este último fator, aumentaram também a partir desta época, os prejuízos causados pelos carrapatos, uma vez que com o aumento da densidade animal, aumentaram as populações de carrapatos nos rebanhos. Além disso, ao contrário das gramíneas nativas, que apresentam crescimento cespitoso, as gramíneas do gênero
Brachiaria apresentam crescimento estolonífero, o que proporciona uma boa cobertura
vegetal sobre o solo. Este fato também é extremamente favorável ao carrapato, pois embaixo desta cobertura vegetal, o carrapato encontra ótimos microclimas para o desenvolvimento de sua fase não parasitária, com umidade relativa, temperatura favorável e protegido da luz solar.
As pastagens nativas se apresentam menos favoráveis ao B. microplus por uma série de razões. O fato de apresentarem crescimento cespitoso, reduz as áreas de microclima favoráveis ao carrapato, uma vez que os raios solares conseguem penetrar em uma maior parte do solo. Gramíneas como capim gordura Melinis minutiflora e Andropogon Andropogon gayanus apresentam as folhas altamente pilosas. Este fato dificulta a movimentação das larvas de B. microplus no capim, fazendo com que elas gastem mais energia para caminhar nestas gramíneas. Além disso, o capim gordura e leguminosas so gênero Stylosanthes possuem substâncias químicas com efeitos carrapaticidas, o que contribui para uma menor infestação por carrapatos nestas pastagens.
Portanto, não há dúvidas de que bovinos mantidos em pastagens de capim
Caso contrário, os prejuízos com gastos com carrapaticidas e mão de obra podem ser significativos, em função de explosões populacionais de carrapatos.
-Altitude. Em algumas áreas da Região Sudeste, como o nordeste e Zona da
Mata de Minas Gerais e algumas áreas litorâneas do Estado do Rio de Janeiro, as temperaturas de inverno não chegam a níveis baixos como em áreas de altitudes mais elevadas, acima de 400 metros. Por outro lado, nestas áreas mais baixas, as temperaturas de verão chegam a ser mais altas, a ponto de ser prejudicial ao carrapato no ambiente. Por estas razões, as infestações pelo B. microplus no inverno tornam-se intensas, já que as temperaturas nesta época são frescas e favoráveis ao carrapato.
-Predadores e doenças. Assim como todo ser vivo, os carrapatos possuem
microorganismo que lhes causam doenças, como bactérias e fungos, e indivíuos que lhes predam, como aves e formigas. Frente às grandes modificações realizadas pelo homem no ecossistema dos carrapatos e bovinos, como a substituição de pastagens e o incremento das densidades bovinas e de raças susceptíveis aos carrapatos, o impacto natural destes inimigos naturais dos B. microplus passaram a ser insignificantes na dinâmica populacional do B. microplus. Entretanto, eles servem como objeto de estudos para alternativas futuras para controle biológico de carapatos, em associação ou como substitutos aos venenos carrapaticidas.
Fatores sócio-econômicos e culturais. Dentro do ecossistema do B. microplus,
existe o homem, que se destaca como o principal elemento modificador dos fatores ligados ao agente, hospedeiro e o próprio ambiente, no qual ele está inserido. Entretanto, sendo ele o principal responsável pelas mudanças que vêm ocasionando prejuízos cada vez maiores pelos carrapatos, cabe a ele, o gerador e aplicador de tecnologias, descobrir e aplicar formas racionais de diminuir ou evitar estes prejuízos. Neste contexto, aparece a figura do produtor rural, aquele que convive dia a dia com o carrapato. Este deve assimilar e aplicar estas tecnologias, a fim de evitar perdas econômicas em função do carrapato.
Em função da realidade que se encontra o meio rural brasileiro, poucas são as propriedades que têm, de forma apropriada e efetiva, acesso às informações tecnológicas aplicáveis. Quando têm, muitas vezes, aparece uma infinidade de entraves que colocam o carrapato abaixo de vários outros problemas, na escala de prioridade do dia a dia. De modo geral, quanto maior o nível tecnológico de uma propriedade rural, maiores são as modificações neste ecossistema do B. microplus, sendo maiores os prejuízos ocasionados pelos carrapatos. Nestes casos, aumenta a prioridade do carrapato no contexto da propriedade rural, e a demanda por tecnologias relacionadas à práticas racionais de controle de carrapatos passa a ser maior.
3. COMBATE AOS CARRAPATOS
3.1. TRATAMENTOS CARRAPATICIDAS
O uso de drogas com efeito carrapaticida é a principal arma disponível, no combate aos carrapatos. Desde o início do século, o uso de carrapaticidas vem sendo utilizado sistematicamente, sendo que a cada década, drogas mais eficientes surgem no mercado de carrapaticidas. Entretanto, não basta apenas aplicar o carrapaticida para que os carrapatos sejam controlados, e os prejuízos evitados. É necessário o uso dos conhecimentos adquiridos na epidemiologia e ecologia desta parasitose, a fim de se poder planejar um programa de controle de uma população de carrapatos.
3.1.1. TRATAMENTOS CURATIVOS
Este tipo de tratamento é o mais utilizado no Brasil. O aplicação de carrapaticidas é realizada sem a existência de um programa de controle, sendo baseado na
visualização do carrapato ou no nível de infestação dos animais. O número de banhos carrapaticidas varia de 6 a 24 por ano, com média ao redor de 12, utilizando apenas cerca de 500 a 1000 ml de calda por animal (Leite, 1988; Rocha, 1996). Nestes casos, a maioria dos produtores não tem conhecimentos sobre a biologia do B. microplus ou das interações parasito-hospedeiro-ambiente, e das diferentes formas que os carrapatos provocam perdas econômicas (Rocha, 1996). Poucos deles reconhecem a importância de mudanças nos padrões raciais do gado, da influência dos diferentes tipos de pastagens e do impacto da densidade animal sobre as populações de carrapatos (Leite, 1988). Estes fatos, associados à falta de conhecimento da ecologia do B. microlus em diferentes regiões, têm proporcionado condições para o aumento das populações de carrapatos e consequentemente, tornando estes tratamentos curativos cada vez menos eficientes para se controlar o B. microplus.
Outro agravante destes tratamentos ccurativos é que por serem feitos sem um planejamento prévio, ocorre um aceleramento no surgimento de populações de B.
microplus resistentes aos carrapaticidas. O produtor rural reconhece que o carrapaticida
perde a sua eficácia com o tempo de uso, mas desconhece os mecanismos de como isto ocorre (Rocha, 1996). Neste esquema de tratamentos curativos, a troca constante de formulações carrapaticidas ao longo do ano é uma realidade. Este fato, associado ao elevado número de banhos por ano (alta pressão de seleção), levam ao aparecimento de populações de carrapatos resistentes a praticamente todas as formulações de produtos comerciais para banhos carrapaticidas (Leite et al., 1995).
3.1.2. TRATAMENTOS RACIONAIS (CONTROLE ESTRATÉGICO DE CARRAPATOS)
O controle estratégico de carrapatos consiste na aplicação de tratamentos carrapaticidas, baseados em conhecimentos da biologia e ecologia do B. microplus, com
o objetivo de diminuir a população de carrapatos nas pastagens, através do tratamentos dos animais. Estes tratamentos fazem parte de um programa a longo prazo, consistindo na concentração da aplicação de banhos carrapaticidas em uma determinada época do ano, de forma que no resto do ano, a população de carrapatos se mantenha a níveis de infestações economicamente aceitáveis, sem o uso de tratamentos carrapaticidas (Magalhães, 1989).
O primeiro passo para a implantação deste programa, é estabelecer uma infra estrutura mínima na propriedade rural, para que este programa possa ser conduzido de forma apropriada. Esta infra estrutura se refere basicamente à qualidade do banho carrapaticida. Banhos carrapaticidas mal aplicados são o principal responsável por insucessos do controle de carrapatos no Brasil. Em cada banho, o volume de calda de carrapaticida deve ser, incontestavelmente, um mínimo de 5 litros por animal adulto. Portanto, cada propriedade deve possuir uma infra estrutura para banhos carrapaticidas, apropriada para o tamanho do seu rebanho. Pequenas propriedades, com rebanhos de 10 a 20 vacas, podem utilizar a própria bomba costal para executar os banhos carrapaticidas, na dose de 5 litros por vaca. Entretanto, em propriedades com rebanhos maiores, torna-se impraticável o uso de bombas costais para se banhar todo o rebanho com 5 litros por animal. Para estas propriedades, as opções são bombas motorizadas adaptadas com bicos para pulverização ou a instalação de bretes de aspersão. Banheiro carrapaticida só é uma alternativa viável, caso já esteja construído na propriedade, no entanto, não serve para vacas em lactação, pois leva a uma diminuição da produção de leite após o banho. Outro fato extremamente importante, é o ajuste do bico para pulverização dos animais. Bicos mal regulados podem esguichar o carrapaticida na forma de nebulização ou na forma de jato. No primeiro caso, o carrapaticida sai como uma nuvem e não penetra eficientemente entre os pelos do animal, não atingindo todos carrapatos. No segundo caso, o esguicho torna-se muito forte, o que leva a um grande desperdício de carrapaticida, uma vez que para molhar o animal por inteiro, acaba gastando um volume de calda maior do que na
pulverização.Outro ponto essencial para se conseguir um banho eficiente é a contenção do animal. Banhos com os animais soltos no curral são ineficientes, pois dificilmente o operador do banho consegue aplicar em todos os animais, o carrapaticida nas partes ventrais como axilas, virilha, ventre, úbere, períneo e no interior das orelhas, que são justamente as áreas que se apresentam mais infestadas por carrapatos. Portanto, para conseguir um banho eficiente, molhando o animal de baixo para cima e não de cima para baixo, deve-se conter cada animal individualmente, podendo ser com corda, ou enfileirando-os em uma seringa ou tronco.
Estabelecida a infra estrutura para os banhos, o próximo passo é a escolha do produto carrapaticida a ser utilizado. Considerando que para cada propriedade rural existe um histórico particular sobre o uso de carrapaticidas ao longo dos anos, em cada propriedade a população de carrapatos vai se comportar de uma forma, frente aos produtos carrapaticidas. Por esta razão, alguns produtos podem se mostrar altamente eficazes frente aos carrapatos de uma propriedade, mas podem se mostrar totalmente ineficazes aos carrapatos da propriedade vizinha. Para resolver esta questão, deve-se fazer um teste de sensibilidade a carrapaticidas (biocarrapaticidograma), a fim de se traçar o perfil da resistência da população de B. microplus da propriedade em questão. O biocarrapaticidograma é um teste simples que pode ser realizado pelo próprio Veterinário a campo, ou em laboratórios de Doenças Parasitárias em faculdades de Medicina Veterinária (Leite et al., 1995). Os resultados deste teste indicará qual o produto mais eficaz frente a população de B. microplus em questão, devendo ser este o produto a ser utilizado durante o programa de controle estratégico. Algumas populações de B.
microplus podem se apresentar resistentes a todos os produtos carrapaticidas do
comércio, disponíveis para banhos carrapaticidas. Neste caso, a solução é recorrer a produtos mais recentes de última geração, que pelo fato de estarem somente há alguns anos no comércio, ainda não foi constatado o surgimento de populações de B. microplus resistentes a eles.
Escolhido o produto carrapaticida, o próximo passo é determinar o intervalo entre os tratamentos carrapaticidas a ser adotado. Este intervalo é baseado no período residual deste produto. O período residual de cada grupo de produtos carrapaticidas existentes no mercado está na Tabela 3. Ele significa por quantos dias o carrapaticida continuará eficaz após a sua aplicação. Portanto, quando se aplica um carrapaticida, ele deverá matar todos os carrapatos presentes no bovino naquele momento e matar todas as larvas que subirem neste bovino ao longo deste período residual. O intervalo entre os tratamentos deverá ser a somatória do número de dias das fase parasitária do B. microplus (21 dias), mais o número de dias de ação residual do produto. Tomando como exemplo na Tabela 3, um carrapaticida piretróide, para uso em pulverização ou aspersão, este intervalo entre tratamentos deve ser de 28 dias (21 dias da fase parasitária mais 7 de período residual). Isto porque, tratando um bovino hoje com este produto, todos os carrapatos presentes neste animal naquele momento deverão ser atingidos e não darão sequência ao ciclo. Nos próximos 7 dias, toda larva de B. microplus que subir neste bovino, morrerá. Somente a partir do oitavo dia, é que algumas larvas que subiresm no bovino vão conseguir parasita-lo efetivamente. Estas larvas só vão atingir o estágio de fêmea adulta totalmente ingurgitada daqui a 21 dias, que será 28 dias após o tratamento e, portanto, dia de se tratar o bovino novamente, atingindo não só estas fêmeas ingurgitadas, como também os outros carrapatos que subiram no bovino após o oitavo dia após o primeiro tratamento.
Tabela 3: Período residual eficaz contra larvas de Boophilus microplus, para os carrapaticidas existentes no mercado brasileiro, e o intervalo entre os tratamentos carrapaticidas e o número de tratamentos carrapaticidas a ser adotado no programa de controle estratégico. Intervalo baseado na somatória da duração da fase parasitária do B. microplus (21 dias) mais o período residual.
Grupo de carrapaticida Período residual eficaz Intervalo entre tratamentos Número de tratamento s Organofosforados (pulverização) 0 21 7 Piretróides (pulverização) 0 21 7 Piretróides (pour-on) 7 28 6 Amitraz (pulverização) 0 21 7
Moxidectin e Doramectin 1% (injetável) 10 31 6
Fluazuron (pour-on) 40 60 2-3
Fipronil (pour-on) 14 35 4-5
Spinosad (pulverização) 0 21 7
Determinado o intervalo entre banhos ou tratamentos carrapaticida, deve-se determinar o período em que os animais serão tratados ao longo do ano. Na maioria da Região Sudeste, este período deve abranger os meses de outubro a março, atingindo basicamente as 1a e 2a e início da 3a gerações de carrapatos. Os tratamentos devem se iniciar por volta do final de setembro e outubro, no meio do pico da primeira geração. Este momento é determinado fazendo-se inspeções semanais na propriedade a partir de setembro, quanto ao nível de infestação por B. microplus nos animais. Como eles vão estar saindo da 4a geração de carrapatos, estes níveis de infestações estarão baixos. Entretanto, quando for observado um aumento repentino do número de fêmeas ingurgitadas nos animais (“spring rise”), deve-se iniciar os tratamentos estratégicos
imediatamente. A partir dai, todos os bovinos da propriedade, incluindo os bezerros e vacas gestantes, deverão ser tratados no mesmo dia, a intervalos pré-determinados, de acordo com o a duração da fase parasitária do B. microplus (21 dias) e o período residual do carrapaticida (Tabela 3), até o final de fevereiro ou início de março, de forma que os tratamentos abrangam um período contínuo de 150 dias.
A exigência para que os tratamentos abrangam um período de cerca de 150 dias tem uma razão óbvia. Considere uma propriedade, em que o programa iniciou-se no dia 15 de outubro, quando foi realizado o primeiro tratamento carrapaticida (Fig. 3). A partir deste dia, todos os animais serão tratados com um determinado carrapaticida, a intervalos pre-determinados de acordo com a Tabela 3, até por volta da metade de março, cobrindo um período de aproximadamente 150 dias. Portanto, do ponto de vista teórico, as últimas fêmeas ingurgitadas que se desprenderam do animal, sem entrar em contato com o carrapaticida, foi no dia anterior ao início de programa, ou seja, 14 de outubro. Estas fêmeas, ao caírem ao solo e encontrando o seu microclima favorável, nas condições de temperaturas médias do período, irão iniciar a postura de ovos após 2 a 3 dias. Estes ovos se desenvolverão e as larvas começarão a eclodir 25 a 30 dias após o início da postura. Esta eclosão durará cerca de 10 dias, sendo que após 6 dias, as larvas estarão infestantes nas pontas do capim. Portanto, toda esta fase não parasitária se passa num total de aproximadamente 50 dias, no máximo. Cinquenta dias após 14 de outubro, seria o dia 3 de dezembro, ou seja, os animais vão estar em pleno programa de tratamentos carrapaticidas, portanto, praticamente todos os carrapatos que estiverem passando da pastagem para os animais serão atingidos pelo tratamento. Considerando que a maioria dessas larvas surgidas nas pastagens no dia 3 de dezembro, sobreviverão no máximo 60 dias, nestes meses de verão, podendo uma minoria eventualmente sobreviver por 90 dias, o que seria o dia 3 de março, praticamente todas elas, caso subissem em um bovino neste período, seriam atingidas pelos tratamentos estratégicos, que finalizariam 150 dias após o início, ou seja, no dia 13 de março.
Figura 3: Esquema do programa do controle estratégico de Boophilus microplus para a Região Sudeste, nos meses de primavera e verão.
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{⇓15/10 Período de tratamento dos animais ⇓13/03}
Meses: S --- O --- N --- D --- J --- F --- M --- A
⇑14/10: queda de fêmeas ingurgitadas ⇑18/10: início de postura
⇑ 17/11: início da eclosão dos ovos ⇑ 27/11: final de eclosão dos ovos
⇑ 03/12: larvas infestantes no capim
⇑ 01/02: maioria das larvas mortas ⇑03/03: todas larvas mortas ________________________________________________________________________________________________________
Considerando na Figura 3, que as progênies de todas as fêmeas ingurgitadas desprendidas de bovinos anteriormente ao início do programa (15/10) serão atingidas pelos tratamentos carrapaticidas ou morrerão por inanição nas pastagens, pode-se pensar que este programa levará a uma erradicação do B. microplus na propriedade, o que é indesejável, pois criaria uma situação de instabilidade enzoótica para as babesioses. Entretanto, essa erradicação não ocorre, por uma série de fatores:
-Nem sempre os carrapaticidas são 100% eficazes, podendo sempre sobreviver alguns carrapatos.
-Independentemente da eficácia do carrapaticida, os banhos carrapaticdas podem ser afetados por “fatores animais”, o que faz com que alguns carrapatos escapem do carrapaticida (Torrado, 1971).
-O intervalo entre os tratamentos é baseado num período modal de parasitismo (21 dias). Entretanto, conforme demonstra a Tabela 2, com 18 dias de parasitismo, algumas fêmeas ingurgitadas já poderão estar desprendendo-se dos bovinos. A quantidade de fêmeas que desprenderiam-se entre os dias 18 e 20 de parasitismo seria pequena, não sendo suficiente para impedir o sucesso do controle estratégico.
Um fator extremamente importante, que poderia atrapalhar o esquema de banhos carrapaticdas durante o programa, seria a ocorrência de chuvas em dias de banhos. Se estiver chovendo no dia de se efetuar o banho, os animais deverão ser banhados em locais cobertos, como galpões ou estábulos. Após o banho, estes animais deverão permanecer nestes locais cobertos, ao abrigo das chuvas, por algumas horas, para que o carrapaticida possa penetrar nos carrapatos sem que seja lavado pelas chuvas. Após este período, os animais poderão ser soltos na chuva. Nestes casos, os carrapaticidas serão lavados do corpo do animal e não apresentarão o período residual desejado. Para contornar esta situação, basta aplicar o próximo tratamento após 21 dias, desprezando-se, portanto, o período residual no intervalo entre banhos carrapaticidas.
Os tratamentos carrapaticidas atingirão basicamente as 1a, 2a e início da 3a gerações, no período de outubro a março. Desta forma, a populaçào de carrapatos estará relativamente baixa durante o restante do ano, que seria o final da 3a e toda a 4a geração. Esta última ainda é naturalmente afetada pelas condições ambientais nos meses de outono e inverno. Com isto, não serão necessários tratamentos carrapaticidas nos animais até a próxima primavera, quando se reinicia o programa do controle estratégico no rebanho. Após alguns anos de execução do programa do controle estratégico na propriedade, a população de B. microplus poderá estar severamente suprimida e dependendo dos níveis
de infestação nos animais, o número de tratamentos carrapaticidas poderá ser diminuído, para evitar uma erradicação dos carrapatos.
Se o programa do controle estratégico fosse realizado nos meses de outono e inverno, não seria tão efetivo, uma vez que nestes meses a fase não parasitária é mais longa e muitas larvas poderiam sobreviver nas pastagens por mais de 90 dias, em função das temperaturas mais baixas. Entretanto, em algumas áreas abaixo de 400 metros de altitude da Regiões Sudeste, nas quais as temperaturas de inverno se mantêm relativamente alta, este programa deve ser realizado nos meses de abril a agosto. Nestas áreas, como a baixada fluminense e as regiões da Zona da Mata e nordeste de Minas Gerais, o verão é muito quente, chegando a diminuir drasticamente a sobrevivência das larvas nas pastagens. No outono e inverno, as temperaturas são mais amenas, favorecendo a fase não parasitária do B. microplus e a sobrevivência de larvas não ocorre por períodos tão longos como nas regiões de altitudes maiores. Nestas áreas, o período de maior infestação por carrapatos passa a ser este período de abril a setembro, sendo necessário, portanto, os tratamentos nesta época.
Uma vez implantado o programa de controle estratégico de B. microplus na propriedade, vários são os benefícios atingidos por este programa:
-Redução do número de tratamentos carrapaticidas por ano.
-Redução da pressão de seleção para resistência dos carrapatos a carrapaticidas -Redução de gastos com carrapaticidas
-Redução da mão de obra
-Redução de problemas de intoxicação humana e animal. -Redução de contaminação ambiental.
O uso de drogas mais sofisticadas (endectocidas, fipronil e fluazuron) em substituição aos produtos carrapaticidas convencionais para os tratamentos estratégicos, deve ser sempre avaliado quanto ao custo-benefício. Em primeiro lugar, nenhum destes produtos sofisticados pode ser utilizado em vacas em lactação, em que o leite esteja
sendo destinado ao consumo humano. Estes produtos de última geração, como os endectocidas e o fipronil, apesar de terem um preço mais alto no comércio, têm espectro mais amplo, atingindo outros parasitos, além do B. microplus. Este fato, associado ao maior intervalo entre tratamento que eles poporcionam e ao menor gasto com mão de obra (uma vez que estaria tratando mais de um parasito com um único produto de fácil aplicação), deve ser minusiosamente avaliado, a fim de que a alternativa com maior custo-benefício seja adotada na propriedade, aumentando o retorno econômico do controle estratégico.
3.1.3. TRATAMENTOS TÁTICOS
Em uma propriedade que estiver instalado o programa de tratamentos estratégicos, deve-se efetuar uma vigilância constante, efetuando-se tratamentos táticos, quando necessário. Qualquer animal introduzido no rebanho, por exemplo, deve ser previamente tratado, uma vez que poderia estar introduzindo carrapatos resistentes a carrapaticidas na propriedade.
3.2. ROTAÇÃO DE PASTAGENS
A prática de rotação de pastagens com o objetivo de diminuir a infestação por carrapatos nos pastos, é viável quando realizada nos meses de primavera e verão. Nestes meses, a sobrevivência das larvas é menor, portanto, mais larvas morrerão por inanição enquanto o pasto estiver em descanço. Considerando os períodos da fase não parasitária do B. microplus nos meses de primavera e verão, uma rotação de pastagem torna-se eficiente, quando um pasto fica em descanço por um mínimo de 50 a 60 dias nos meses de verão (dezembro a fevereiro)(Wilkinson, 1957). Na prática, este longo período de descanço é na maioria das vezes inviável, emfunção do ciclo das gramíneas.
3.3. ROTAÇÃO DE PASTAGEM COM LAVOURAS
Em situações extremas, em que a contaminação da pastagem estiver muito alta, pastos de gramíneas como as braquiárias são arados e preparados para o plantio de uma lavoura anual como o milho. Ao final da colheita, a braquiária já estará naturalmente reformada no pasto, praticamente sem parasitos (tanto carrapatos como as verminoses). Além disso, ela estará mais vigorosa em função da adubação realizada para o plantio do milho.
3.4. QUEIMADAS
Embora seja uma prática repleta de desvantagens, em casos extremos pode ser utilizada com alternativa para descontaminar os pastos, uma vez que matará toda a população de vida livre de B. microplus existente no pasto.
3.5. VACINAS
Em 1994 foi lançada na Austrália a primeira vacina comercial contra carrapato, a “TickGARD”, formulada com o antígeno Bm86 de célula intestinal de B. microplus, produzido por engenharia genética em cultura de Escherichia coli¸ formulada com adjuvante oleoso (Willadsen et al., 1995). Posteriormente, um grupo cubano clonou esta proteína em levedura Pichia pastoris, a qual anexada um adjuvante oleoso, formulou-se a segunda vacina comercial contra carrapatos, “GAVAC”, desenvolvida pelo Centro de Biotecnologia de Havana, e comercializada pelo laboratório Herber Biotec, e lançada recentemente no mercado brasileiro, em 1995 (Rodriguez et al., 1995). Em 1996, a Hoechst Roussel lançou a “TickGARD PLUS”, sendo a formulação de Bm 86 com um
novo adjuvante, o VaxiMAX, que segundo os testes, induzia a uma maior produção de anticorpos, em comparação com a primeira “TickGARD”. Ambas as vacinas apresentam uma dose vacinal de 2 ml, a qual contem 100 microgramas de Bm86. A grande jogada da vacina com Bm86 é que a imunidade natural a carrapatos se dá basicamente na forma de hipersensibilidade, atingindo as larvas no momento ou nas primeiras horas de fixação. Entretanto, a imunidade artificial com vacinas atinge a reprodução de fêmeas adultas, sendo principalmente na forma de anticorpos IgG1. Com isso, uma forma atua independentemente da outra, mas somando-se os efeitos. A vacina tem sido testada em várias raças bovinas, todas se mostrando boas respondedoras. Os testes de estábulos realizados com estas vacinas mostraram resultados variando de 50 a 90%, mostrando otimismo para os resultsdos a campo. Testes a campo controlado também tem mostrado bons resultados, utilizando-se 3 vacinações (a primovacinação e mais dois busters: 0, 4, 12 semanas para Tickgard e 0, 4 e 7 semanas para Gavac). Estes testes foram monitorados com titulação de anticorpos, todos correlacionando a maior eficácia da vacina com os maiores títulos de anticorpos (acredita-se que o mecanismo de ação da imunidade vacinal seja mais complexo, pois suspeita-se inclusive da participação do sistema do complemento, evidenciada em testes de alimentação de carrapatos in vitro). No caso da Gavac, o teste a campo realizado foi realizado com infestação inicial padronizada e baixa, garantindo baixo desafio parasitário para o resto do experimento (Rodriguez et al., 1995). No caso da Austrália, os testes a campo realizados que deram boa eficácia, foram os iniciados com baixo desafio parasitário no início da estação de carrapatos, associados a tratamentos químicos para evitar o “spring rise”. Estes testes mostraram que sem dúvida, em condições de baixo desafio parasitário, a vacina é realmente eficaz na descontaminação de pastagem. Entretanto, os próprios australianos advertem que em situações em que as condições climáticas permitem a multiplicação do carrapato por todo o ano (como o caso do Brasil), e que os bovinos são altamente sensíveis aos carrapatos (gado europeu), e que o manejo favorece aos carrapatos, a
eficácia da vacina pode ser insignificante, ou seja, a vacina perde seu efeito quando utilizada em altos desafios parasitários. A própria Austrália preconiza o uso da vacina apenas como mais uma arma no controle integrado de pestes, no qual fazem parte, indiscutivelmente, os tratamenos carrapaticidas. Entretanto, com ao uso da vacina, diminui o número de tratamentos carrapaticidas e estes, por sua vez, ajudam a manter o desafio parasitário baixo, a fim de garantir uma boa eficácia da vacina. Trabalhos a campo com Tickgard no Brasil, em áreas favoráveis à multiplicação do B. microplus por todo o ano e sob infestações naturais, demonstram que ela, por si só, não controla as populaçôes de carrapato. Deve haver um aconpanhamento tático com carrapaticidas, para evitar altos picos populacionais. Os pre-requisitos para o uso da vacina em uma propriedade são os seguintes: vacinar todos os animais a partir de um mês no esquema preconizado com buster, no mesmo momento. Como os títulos já estão muito baixos 3 meses após o último buster, recomenda-se revacinações a cada 10 semanas. Vacinar apenas animais bem nutridos. Não vacinar juntamente com vacinas vivas para plasmoses, pois há interferência. Manter o rebanho vacinado “fechado” no pasto. Começar a vacinação em época de baixo desafio parasitário, anteriormente ao “spring rise”, para evitar alto desafio parasitário antes do buster, quando o título de anticorpos ainda não estiver alto. Estar consciente de que os efeitos da vacina são a longo prazo, e não tem o efeito “knock down” como dos carrapaticidas. Na verdade, a vacinação preconiza o tratamento das pastagens, e não diretamente os animais. Todos estes fatos, associados ao custo relativamente alto dessas vacinas, atuam como fatores limitantes pra o uso da vacina contra B. microplus no Brasil.
A primeira vacina com Bm86 de B. microplus, sem dúvida, é o primeiro passo de uma longa caminhada para se chegar a uma vacina com tecnologia de alta eficácia. Esta vacina contem apenas um antígeno, sendo que o estudo de outros antígenos imunizantes poderiam incrementar o efeito protetor desta vacina, tornando-a uma alternativa altamente prática e eficaz.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar da realidade nacional sobre o carrapato dos bovinos, a maioria dos produtores rurais sentem a necessidade de métodos de combate aos carrapatos que diminuam os custos, a mão de obra e que levem a um menor número de banhos por ano (Rocha, 1996). Isto demonstra que embora existem tecnologias de combate ao carrapato (Ex: o controle estratégico) e o reconhecimento pelo produtor rural, do carrapato como um problema, no Brasil parece haver uma longa distância separando essas tecnologias do produtor rural. Considerando a figura do Veterinário no meio rural, como a maior fonte de informações técnicas para o produtor rural (Rocha, 1996), cabe a estes profissionais levar essas tecnologias de controle estratégico de carrapatos, ao produtor rural. Para isto, é imprescindível que estes profissionais demonstrem e discutem com o produtor, as questões relacionadas ao carrapato, o bovino e o meio ambiente, pois só entendendo melhor a epidemiologia e ecologia dos carrapatos, é que os produtores rurais irão realmente levar esta tecnologia a sério, como um verdadeiro investimento em sua propriedade rural.
5. REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS
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