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Stefan Zweig - Mendel dos livros (Ed. Assírio & Alvim, Portugal).pdf

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Stefan Zweig

MENDEL

DOS LIVROS

tradução do alemão, apresentação, cronologia biogrdfica e notas

ÁLVARO GONÇALVES

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Mendel dos Livros Stefan Zwcig

Publicado em Portugal por Assírio & Alvim www.assirio.pt

©Álvaro Gonçalves (tradução) © Porto Editora, 2014 1. • edição: setembro de 2014 Assírio & Alvim é uma chancela da Porto Editora, Lda.

Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou cm parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.

Este Uvro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Ungua Portuguesa.

Distribuição Porto Editora, Lda. Rua da Restauração, 365 4099-023 Porto 1 Portugal

www.portoedltora.pt

Execução grtifica Bloco Gr6tlco. Ldl. Unidade Industrial da Mala. DEP. LEGAL 379182114 ISBN 978-972-37-1781-5

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ÍN D I C E

Apresentação, Álvaro Gonçalves... 9 Cronologia Biogrdfica .. .. .. .. .. .. ... ... 17

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APRESENTAÇÃO

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Stefan Zweig nasceu em 28 de novembro de 1881

em Viena no seio de uma família judia de alta burgue­ sia. Filho de um próspero e rico industrial têxtil e de uma descendente de banqueiros internacionais, passou a sua infância, adokscência e juventude em Viena. Fez os estudos primdrios na escola primdria de Werdertor­ gasse e os estudos liceais no liceu vienense Maxi,milian­ gymnasium (mais tarde denominado W asagymna­ sium), instituição prestigiada e .frequentada na altura essencialmente por filhos de abastados judeus vienenses. Em 1900, inicia os estudos universitdrios na Universi­ dade de Viena, inscrevendo-se no curso de Filosofia e frequentando em simultâneo cadeiras da drea das

Ciências Literdrias. Após ter passado uma temporada na Universidade de Berlim, termina os estudos univer­ sitdrios, em 1904, com um doutoramento subordinado

ao tema «A Filosofia de Hippolyte Taine». Foi justa­

mente a «.filosofia» de Taine, segundo a qual o homem era o resultado da influência do seu meio histórico-cul­ tural que inftuendou fortemente a sua escrita biogrd­ fica de figuras históricas, que incluíam políticos e

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ex-ploradores, mas também pensadores, escritores e poetas. O interesse pelas figuras históricas do passado leva-o também a aproximar-se de importantes personalidades do seu tempo, mantendo contacto, por exemplo, com Sigmund Freud, Paul Valiry, Rainer Maria Rilke e, sobretudo, com o poeta, escritor e dramaturgo belga de expressão francesa Emile V erhaeren, cu,ja obra traduz e divulga em língua alemã.

O seu interesse pela Literatura, que resulta não propriamente dos ensinamentos dos mestres do seu li­

ceu, que de resto detesta, mas sim do ambiente literdrio e cu,/tural frroilhante da Viena do pós-guerra, leva-o, logo no início da sua ca'rreira literdria, a dedicar-se à tradução de grandes poetas modernistas, jd citados. Como jovem intelectual, deixa de se interessar exclusi­ vamente pelos nomes consagrados da literatura, da mú­ sica e da arte alemã e europeia (Gottfried Keller, Hen­ rik Ibsen, ]ohannes Brahms, Wilhelm Leibl e Eduard von Hartmann), para se dedicar à leitura e ao estudo

de novos talentos que iam emergi.ndo na cena literdria e cu,ltural europeia: Baudelaire, Whitman, Valéry, Mallarmé, entre outros, cu,ja divulgação na língua alemã se deve em grande parte ao seu interesse e, sobre­ tudo, às suas traduções e estudos introdutórios publica­ dos em prestigiadas editoras alemãs.

Como poeta e dramaturgo, deixa-se influenciar pelo movimento simbolista, vigente, na altura, no

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contexto do chamado Modernismo Vienense. No en­ tanto, é no género da chamada N ovelle alemã que mostra a sua grande arte de narrar histórias de perso­ nagens em situações-limite, recorrendo formalmente a um estilo simultaneamente intimista, elegante e só­ brio. A descrição dos labirintos intrincados da alma humana é fortemente irifluenciada pela leitura dos textos seminais do seu amigo Sigmund Freud, de que se alimentou também o seu conterrâneo vienense Ar­ thur Schnitzler. Não obstante ter tido uma atitude crítica em relação a muitos dos conceitos defendidos por Freud, as suas N ovellen, em especial Amok

(1922) e Veiwirrung der Gefühle (1927) («Confo­ são de Sentimentos»), revelam claramente essa in­ fluência, na forma como escalpeliza os conflitos psí­ quicos resultantes, segundo a opinião do fondador da psicandlise, das normas morais rígidas da sociedade

burguesa contemporânea vienense.

A crescente influência dos nacional-socialistas na sociedade e política austríaca, aliada à instauração do chamado «austrofascismo», em 1933, (regime fon­

dado pelo Chanceler Engelbert Dolfuss e que se ba­ seava na ideologia fascista de Mussolini) e após ter sido vítima de uma busca domicilidria na sua casa de Salzburgo, forçam-no a abandonar definitivamente a Áustria, mudando-se primeiro para Inglaterra, em

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Apesar de ter conseguido a cidadania inglesa, em

1940, receia ser confandido com os alemães e, conse­ quentemente, ser considerado um enemy alien. Por isso, decide partir para o Brasil passando pelos Esta­ dos Unidos, Argentina e Paraguai, obtendo um visto permanente do regime de Getúlio Vargas. Estabelece­

-se, com a sua segunda mulher Lotte Zweig, com quem

se casara entretanto, em Petrópolis, onde, recatado e isolado do bulício do Rio de janeiro, pensa ter encon­ trado a paz necessária para continuar a escrever. Neste período, redige a Novela de Xadrez, inicia a escrita de um ensaio sobre Montaigne e termina a autobio­ grafia O Mundo de Ontem. Recordações de um

Europeu.

Na sua condição de «cidadão europeu» tolerante,

tal como o seu mentor Romain Rolland, desiludido com a situação de guerra e destruição da Europa, tanto em termos físicos como culturais e vivendo num estado de profunda depressão, que o persegue há já al­ guns anos, prepara minuciosamente a sua morte, or­ gankando o seu espólio, escrevendo cartas, que seriam

de despedida, aos amigos mais íntimos, redigindo o testamento e uma «declaração» dirigida às autorida­ des brasileiras, em que agradece a sua hospitalidade

durante a sua estada de uns meses em Petrópolis. Fi­ nalmente, em 1942, suicida-se, juntando-se-lhe a se­ guir a sua mulher no leito de morte.

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A novela Mendel dos Livros foi escrita em 1929

e publicada, em folhetim, no jornal didrio vienense Neue Freie Presse, de que era colaborador perma­ nente. Não obstante ser uma obra com um tema pouco comum nele, ao contrdrio do seu amigo e tam­

bém judeu Joseph Roth, ela tem muito a ver com o próprio Stefan Zweig. Escrita na perspetiva de um autor/narrador distante e objetivo, que narra a histó­

ria de um judeu ortodoxo galiciano, estabelecido hd anos em Viena como alfarrabista/vendedor de livros ambulante, e cujo único interesse eram os livros que comprava e vendia a universitdrios e académicos de Viena, a história constitui espantosamente a anteci­ pação em mais de uma dezena de anos do definha­ mento do escritor Stefan Zweig: a metdfora de um es­ critor, «cidadão europeu», pacifista empenhado, entregue de corpo e alma, como o próprio Mendel o era aos seus queridos livros, à criação de uma obra li­ terdria europeia com características universais, mas que, vítima da barbdrie nacional-socialista, perde tudo, isto é o seu país, a sua língua, os seus leitores da

língua alemã para quem escrevia e o próprio sentido da vida. Se, por um lado, Stefan Zweig se serve da

novela Mendel dos Livros e, consequentemente, do judeu galiciano jakob Mendel para expressar uma determinada mensagem, que ignora, de certo modo inconscientemente, a condiç do terrível dos judeus

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orientais (descrita por Joseph Roth no seu livro de en­ saios Judeus Errantes), utilizando-o como o paradigma

das transformações provocadas pelo pós-guerra na Viena dos anos vinte, ela não deixa de ser uma pode­ rosa história premonitória do que viria a acontecer anos depois naquela Viena de Mendel e o que viria a acontecer a ele próprio, Stefan Zweig, após o aban­ dono da Áustria e da língua alemã que tanto amava.

abril de 2014

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1881

«A sua fama mundial foi bem merecida e é

trágico que a força de resistência psíquica deste homem muito talentoso tenha ruído

em consequênda da grave pressão destes tem­ pos. O que mais admirava nele era o dom que possuía para dar vida, psicoúJgica e ar­ tisticamente, às épocas e figuras históricas»

THOMAS MANN, «Elogio fünebre». Aufbau,

Nova Iorque, 27 de fevereiro de 1942

Viena: 28 de novembro. Stefan Zweig nasce no seio da alta burguesia vienense, em Viena, Schottenring,

14. Segundo filho do industrial têxtil, Moriz Zweig

(1845-1926), e de Ida Brettauer 1854-1938), des­ cendente de banqueiros internacionais.

1887-1892

Frequenta a escola primária na Werdertorgasse,

1. 0 Bairro de Viena.

1892-1900

Frequenta o Maximiliangymnasium (liceu austríaco), designado posteriormente Wasagymnasium, no

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A PARTIR DE 1897

Publica os primeiros poemas nas revistas alemãs Deuts­

che Dichtung (Berlim) e Die Gesellschaft (Munique).

1900

Termina os estudos liceais. Primeira viagem à França.

1900-1904

Inicia os estudos universitários na Universidade de Viena: Filosofia e Ciências Literárias.

1901

Publica o seu primeiro livro de poemas, Silberne Saiten («Cordas de Prata»), na editora berlinense Schuster & Lõffier.

1902

Inicia a colaboração com o jornal vienense Neue Freie Presse, passando a ser colaborador permanente deste jornal até 1938.

Conhece o fundador do sionismo, Theodor Herzl. Viagem à Bélgica. Conhece Emile Verhaeren. Pu­ blica, em colaboração com Camill Hoffmann, tra­ duções de poemas de Baudelaire: Gedichte in Vers und Prosa (Hermann Seemann, Berlim).

1902/o3

Frequenta a Universidade de Berlim no semestre de verão.

Estabelece contacto com o círculo literário berlinense Die Kommenden.

1904

Termina os seus estudos na U nivetsidade de Viena com uma tese de doutoramento subordinada ao tema <<A Filosofia de Hippolyte Taine».

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Sai o seu primeiro livro de contos, Die Liebe der Erika Ewald («0 Amor de Erika Ewald»), na edi­ tora Egon Fleischel de Berlim.

Sai o livro Ausgewiihlte Gedichte («Poesias Escolhi­ das») de Verhaeren, na editora Schuster & Lõffier, de Berlim, em tradução de Zweig.

Viagem a Paris. Conhece Rilke e Rodin. Visita Verhaeren na Bélgica. Viagem a Inglaterra.

1905

Viagem a Espanha e Alger. Sai a monografia sobre Paul Verlaine (Schuster & Lõffier, Berlim).

1906

Publica o segundo volume de poemas Die frühen Kriinze («As Primeiras Coroas») na prestigiada edi­ tora Insel Verlag, de Leipzig.

Estada de quatro meses em Inglaterra.

Traduz o livro Die visioniire Kunstphilosophie des William Blake («A Filosofia de Arte Visionária de William Blake»), de Archibald B.G. Russel (edi­ toraJulius Zeitler, Leipzig).

1907

Muda-se para o seu primeiro apartamento na Koch­ gasse, 8, no 8.0 Bairro vienense. Publica a peça de teatro em verso T ersites.

Sai a monografia sobre Rimbaud: Rimbaud: Leben und Dichtung («Rimbaud: Vida e Obra»), na lnsel Verlag, com traduções de Karl Klammer e intro­ dução de Zweig.

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1908

Sai o livro Balzac: sein Weltbild aus den Werken (« Balzac: A Sua Conceção do Mundo a Partir das Suas Obras»), na editora Robert Lutz, Estugarda. 26 de novembro: Estreia da peça T ersites simultanea­ mente em Dresden e Kassel.

1908/o9

Novembro: Faz uma viagem de longo curso e de longa duração ao continente asiático (Ceilão, Gwa­ lior, Calcutá, Benares, Rangum e para o interior da

Índia).

1910

Publica dois volumes de obras do poeta e escritor belga Emile Verhaeren, traduzidas por si («Poesias Escolhidas» e «Três Dramas», acompanhados de um estudo monográfico sobre o autor, na editora lnsel Verlag. Nesta mesma editora, publica o en­ saio «Dickens» como introdução a uma edição de obras completas.

Viagem a Paris. Primeiro encontro com Romain Rolland.

1911

Viagem aos EUA, Canadá, Canal de Panamá, Cuba e Porto Rico.

Publica o volume de contos Erstes Erlebnis. Vier Geschichten aus Kinderland. («Primeira Experiên­ cia. Quatro Histórias da Terra da Infância»).

1912

Tradução dos Hymnen an das Leben («Hinos à

Vida») de Verhaeren, na editora Insel Verlag.

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5 de maio: Estreia da peça Der verwandelte Komo­ diant («0 Comediante Transformado»), no Teatro Lobe, em Breslau.

26 de outubro: Estreia da peça Das Haus am Meer (<<A Casa à Beira-Mar») no Burgtheater de Viena. Conhece a sua futura mulher Friderike Maria von Winternitz (1882-1971).

1913

Publica a novela Brennendes Geheimnis («Segredo Ardente»), Der verwandelte Komodiant e a tradu­ ção da obra Rubens, de Verhaeren, na editora lnsel Verlag.

1914

Após a eclosão da Primeira Guerra Mundial, alista­ -se como voluntário, sendo destacado para o Ar­ quivo Militar, a partir de 1 de dezembro. Colabora nos escritos de propaganda do Arquivo Militar e na revista patriótica Donauland.

1915

Viagem em serviço para a Galícia, libertada recen­ temente.

1916/I917

Neste período, Stefan Zweig e Friderike von Win­ ternitz vivem numa vivenda em Kalksburg, a sul de Viena. Compra a casa na Kapuzinerberg, em Salzburgo, um antigo pavilhão de caça de um bispo do século XVII.

1917

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Conferências na Suíça sobre a temática do paci­ fismo. Contacta intelectuais e escritores pacifistas alemães, franceses e suíços. Conhece James Joyce, Hermann Hesse, René Schickele, entre outros. Sai o drama paciflstaferemim na editora Insel Verlag.

1918

Estreia da peça Jeremias' no novo teatro municipal em Zurique. Estreia da peça Legende eines Lebens («Lenda de Uma Vida»). Traduz o romance de Romain Rolland Clerambault e a peça de teatro

Die Zeit wird kommen («0 Tempo Virá»).

Passa um ano em Zurique no Hotel Belvoir com Friderike, onde redige o ensaio sobre Dostoievski. 25 de dezembro: Estreia da peça Legende eines Le­ bens («Lenda de Uma Vida»), em Hamburgo.

1919

Fins de março: regressa à Áustria. Muda-se, junta­ mente com Friderike, para Salzburgo. Estreia da peçaferemim no Volkstheater, em Viena.

Publica a tradução da obra Emil oder die Erziehung («Emil ou a Educação») de Rousseau, na editora Kiepenheuer, Potsdam.

1920

Casa-se com Friderike von Winternitz na Câmara Municipal de Viena. É publicada a novela Der Zwang (<<A Obrigação») e o conjunto de ensaios Drei Meister («Três Mestres») sobre Balzac, Dickens e Dostoievski, a primeira parte da série Baumeister

der Welt (<<Arquitetos do Mundo»).

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1921

Publica a biografia: Romain Rolland, der Mann und

das Werk («Romain Rolland, o Homem e a Obra»), na editora Rütten & Loening, Frankfurt am Main.

Dostoievski: Siimtliche Romane e Novellen, («Obras Completas»), com a introdução de Stefan Zweig (ln­ sel Verlag).

1922

É publicado o volume Amok. Novellen einer Leidens­ chaft (<<Amok. Novelas de Uma Paixão») na editora lnsel Verlag. Organiza e publica uma edição das obras de Paul Verlaine em alemão, também na lnsel Verlag. A Insel-Bücherei publica a obra Die Augen des ewigen Bruders («Os Olhos do Eterno Irmão»), que rapidamente se torna um êxito editorial.

1923

Sai o estudo monográfico Frans Masereel. Der Mann und BiUner («Frans Masereel. O Homem e o Artista») na editora Axel J uncker Verlag de Berlim. Sai a obra Sainte-Beuve; Literarische Portriits em dois volumes, organizada por Zweig na editora Frank­ funer Verlagsanstalt.

1924

A lnsel Verlag publica Die gesammelten Gedichte («As Poesias Reunidas»).

Escreve a introdução à obra Romantische Erziihlun­ gen (« Contos Românticos») de Chateaubriand (editora Rikola, Viena-Leipzig-Munique).

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1925

Escreve a introdução à obra ]ugenderinnerungen (« Memórias da Juventude») de Renan publicada pela editora Frankfurter Verlagsanstalt.

É publicado o segundo volume de ensaios da série Baumeister der Welt («Hõlderlin, Kleist e Nietzsche>>): Der Kampf mit dem Diimon («0 Combate com o Demónio»), na editora lnsel Verlag.

Viagem à Alemanha e à França.

1926

Falecimento do pai.

É publicada a comédia Volpone, adaptação livre da obra de Ben Jonson (Kiepenheuer, Potsdam). Realiza conferências em várias cidades da Alemanha.

6 de novembro: Estreia da peça Volpone no Burgthea­ ter em Viena.

1927

Sai o volume de novelas Verwirrung der Gefohle («Confusão de Sentimentos») na editora lnsel Verlag e a obra Sternstunden der Menschheit («Os Momentos Decisivos da Humanidade») na editora Insel-Bücherei. Na União Soviética, sai uma edição de dez volumes

das obras de Stefan Zweig, que é prefaciada por Ma­ ksim Gorki.

1928

É publicada a primeira biografia de Stefan Zweig da autoria de Erwin Rieger. Sai o terceiro volume de ensaios da série Baumeister der Welt (« Casanova, Stendhal e Tolstoi»): Drei Dichter ihres Lebens («Três

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Escritores da sua Própria Existência»), na editora lnsel Verlag.

Viagem à Bélgica e à França. Viagem à União Sovié­ tica para assistir aos festejos do centenário do nasci­ mento de Lev Tolstoi.

1929

É publicada a obra Joseph Fouché - Bildnis eines politischen Menschen («Joseph Fouché- Retrato de Um Homem Político»); Das Lamm des Armen («0 Cordeiro do Pobre») e o volume de quatro novelas Kleine Chronik («Breve Crónica»), na lnsel Verlag. Viaja pela Alemanha e pela Bélgica.

Profere o discurso em memória de Hugo von Hofmannsthal no Burgtheater, em Viena.

1930

Viagem prolongada à Itália. Visita, em companhia de Frideríke, Maksim Gorki em Sorrento. Encontro com Alben Schweitzer, em Günsbach. Representa­ ção da peça Das Lamm des Armen em Breslau, Ha­ nover, Lübeck, Praga e Viena.

1931

Recebe a encomenda do libreto para a ópera Die schweigsame Frau («A Mulher Silenciosa») de Ri­ chard Strauss.

Viagem a França. Encontro com o seu amigo Jo­ seph Roth.

Publica o quano volume de ensaios da série Bau­ meister der Welt («Freud, Mesmer e Mary

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Baker--Eddy>>): Die Heilung durch den Geist («A Cura pelo Espírito»), na editora Insel Verlag.

1932

A lnsel Verlag publica Marie-Antoinette. Bilrlnis ei­ nes mittleren Charakters (« Maria Antonieta. Re­ trato de Um Carácter Comum»). Viagem à França e à Itália. Conferências em Florença e Milão.

1933

Queima de livros pelos nacional-socialistas em que se incluem também os livros de Stefan Zweig. Proibição da venda dos seus livros na Alemanha. Até 1938, os livros são publicados pela editora Herbert Reichner de Viena. Inicia os estudos pre­ paratórios, em Basileia, para o livro T riumph und

Tragik des Erasmus von Rotterdam («Triunfo e Tra­ gédia de Erasmo de Roterdão»). Viagem à França e à Itália. Estada prolongada em Londres, onde vive num pequeno apartamento alugado.

1934

Confrontos em Viena entre a Heimwehr e os socia­ listas.

Após ter sido sujeito a uma busca domiciliária por suspeita de possuir armas, revoltado, Zweig decide abandonar a Áustria e emigrar para Inglaterra. Fride­ rike prefere ficar em Salzburgo, juntamente com as filhas do seu primeiro casamento. É publicado o li­ vro T riumph und Tragik des Erasmus von Rotterdam. Lotte A.ltmann torna-se sua secretária e acompa­ nha-o à Escócia para recolher material para a

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grafia de Maria Stuart. Após o seu regresso, pla­ . neia desfazer-se da sua casa em Salzburgo.

1935

Tradução da peça de Pirandello Non si sa come (edi­ tora Reichner Verlag).

Estreia da ópera Die schweigsame Frau (<<A Mulher Silenciosa») de Richard Strauss, com o libreto de Stefan Zweig. Pouco depois da estreia, a ópera é proibida na Alemanha.

Viagem à Suíça e à França. Viagem aos EUA para proferir conferências sobre os mais variados temas. Sai o livro Maria Stuart (Reichner Verlag, Viena).

1936

Muda-se para um apartamento maior em Londres: Hallam Street, 49.

São publicados em Viena dois volumes de novelas completas.

Sai o estudo Castellio gegen Calvin - Ein Gewissen gegen die Gewalt (« Castellio contra Calvino -Uma Consciência Contra a Violência»).

Em agosto, viaja pela primeira vez ao Brasil. Gran­ diosa receção. Profere conferências e faz leituras das suas obras. A seguir, viaja pela Argentina e par­ ticipa no congresso do PEN-Clube.

1937

É publicado em Viena um volume de ensaios e memórias Begegnungen mit Menschen, Büchern, Stadten («Encontros com Pessoas, Livros, Cidades») e a lenda Der begrabene Leuchter ( «Ü Candelabro

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Enterrado», ambos publicados pela editora Herben Reichner.

A casa de Salzburgo é vendida. Separação defini­ tiva da sua mulher Friderike.

1938

Viaja a Ponugal acompanhado da sua secretária Lotte Altmann. Trabalhos preparatórios para a biografia de

Fernão de Magalhães.

Sai a obra biográfica Magellan. Der Mann und seine Tat («Magalhães. O Homem e o Seu Feito»). Falecimento da mãe.

Requer a cidadania britânica. Divorcia-se de Friderike.

Anexação (Anschluss) da Áustria pelo Deutsches R.eich. Os seus livros são queimados publicamente em Salzburgo, juntamente com os dos seus compatrio­

tas judeus.

Profere conferências em trinta cidades americanas.

1939

Sai a versão inglesa do romance Ungeduld des Her­ zens (« Impaciência do Coração») na editora Cas­ sells de Londres com o título « Beware of Pity». Sai também a versão alemã em Amsterdão (Albert de Lange) e em Estocolmo (Bermann Fischer). Muda-se para a cidade de Bach, na Inglaterra. Ca­ sa-se com a sua secretária Lotte Altmann.

Inicia a escrita do ensaio dedicado ao seu escritor preferido Honoré de Balzac.

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26 de setembro: Profere um breve elogio fúnebre perante a urna do seu amigo Sigmund Freud no Golders Green Crematorium.

1940

O casal Zweig adquire a cidadania britânica. Profere uma conferência subordinada ao tema Das

"Wien von Gestern («A Viena de Ontem») em Paris. Em julho, viaja a Nova Iorque e à América do Sul. Regressa a Nova Iorque. Último encontro com os escritores no exílio. Inicia a escrita do livro Brasi­ lien. Land der Zukunft (« Brasil, País do Futuro»).

1941

Aluga uma casa em New Haven. Prepara a biografia

de Américo V espúcio na Universidade de Yale: Ame­ rigo - Geschichte eines historischen lrrtums (<<Amerigo - História de Um Erro Histórico»), publicada na

Bermann Fischer, em Estocolmo.

O livro Brasilien. Ein Land der Zukunft sai em ver­ são alemã na Bermann Fischer de Estocolmo e a versão inglesa na editora Viking de Nova Iorque. Neste mesmo ano, saem as versões portuguesa, es­ panhola, sueca e francesa.

Viagem ao Brasil.

O casal Zweig passa a residir em Petrópolis, a pou­ cos quilómetros do Rio de Janeiro.

Escreve a novela Schachnovelle (« Novela de Xa­ dreZ»). Inicia a escrita de um estudo sobre Mon­ taigne e termina a autobiografia Die Welt von

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Ges-tern. Erinnerungen eines Europders. («0 Mundo de Ontem. Recordações de Um Europeu»).

1942

O alastramento da guerra mundial agrava o seu es­ tado de depressão. No dia 22 de fevereiro, suicida­ -se, juntando-se-lhe mais tarde a sua mulher Lotte. Funeral estatal, em que participa o próprio Presi­ dente do Brasil, Getúlio V argas.

Em maio de 1942, a Universidade de Viena retira­ -lhe o título de Doutor.

Esta Cronologia biográfica de Stefan Zweig recupera a Cro­ nologia que elaborei para a Novela de Xadrez, traduzida por mim e publicada na coleção «Ü Imaginário» da Assírio & Alvim em 2013. Foi, no entanto, revista e corrigida para esta edição. Recorri, essen­ cialmente, às seguintes fontes:

• Harcmut Müller, Stefan Zweig, mit selbtszeugnissen und Bild­

dokumenten. Reinbeck hei Hamburg, Rowohlt Taschenbuch Ver­ lag, 2008.

• lnternationale Stefan Zweig Gesellschaft, Literacurarchiv

Salzburg - Universitat Salzburg: http://stefan-zweig.sbg.ac.at/ impressum.htm

• Marc Rombach, Die Stefan-Zweig-Homepage: http://www.

stefanzweig.de

• Oliver Matuschek, Stefan Zweig:Drei Leben - Eine Biogra­

phie, Frankfurt am Main, Fischer Taschenbuch Verlag, 2008.

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De novo em Viena e de regresso a casa vindo de uma visita à periferia, fui apanhado inespera­ damente por uma bátega de água que, com o açoite molhado, afugentava rapidamente as pes­ soas para os portões das casas e para os abrigos, e eu próprio tive de procurar apressadamente um refúgio protetor. Felizmente; a cada canto de Viena está sempre um café à espera, - assim, com o chapéu já a pingar e os ombros perfeita­ mente encharcados, refugiei-me logo naquele que estava mesmo à frente. Visto de dentro, tinha o aspeto de um café de subúrbio tradicional, de tipo quase esquemático, sem as atrações de última moda dos salões de dança do centro da cidade, copiadas da Alemanha, com um ambiente bur­ guês da antiga Viena e a abarrotar de gente sim­ ples, que consumia mais jornais do que doçaria. Naquele momento, fazia-se já noite, o ar, já de si abafado, estava densamente marmorizado com anéis de fumo azul, contudo aquele café tinha um aspeto limpo com os seus sofás de veludo

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vi-sivelmente novos e a sua caixa registadora de bri­ lho de alumínio: com toda aquela pressa, nem se­ quer me dei ao trabalho de ler o seu nome, mas também para quê? - E então sentei-me naquele

ambiente quente, a olhar com impaciência atra­ vés das vidraças tintadas de azul à espera que a chuva importuna se dispusesse a afastar-se uns quilómetros para mais longe.

Sem nada para fazer, deixei-me sentar por ali e comecei a sentir aquela passividade indolente que brota narcoticamente de forma invisível de todos os cafés genuinamente vienenses. Com aquela sensação de vazio, pus-me a contemplar in­ dividualmente as pessoas, nas quais a luz artificial desta sala de fumo deixava marcas de sombra dum cinzento pouco saudável em torno dos olhos, olhava para a rapariga da caixa registadora, admi­ rando como ela com gestos mecânicos entregava ao empregado de mesa o açúcar e a colher para cada um das chávenas de café, lia, meio adorme­ cido e inconsciente, os cartazes, completamente triviais, que se encontravam pendurados nas pare­ des, e esta espécie de apatia quase me fazia sentir bem. Mas subitamente despertei de uma forma estranha do meu estado de sonolência, despontava em mim um movimento interior de uma inquie­ tação vaga como se fosse o início de uma ligeira

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dor de dente de que ainda não se sabe se parte da esquerda, da direita, do maxilar de baixo ou do de cima; senti apenas uma surda tensão, um desas­ sossego espiritual. Pois, subitamente - não teria sabido dizer como - fiquei com a sensação de uma vez ter estado lá havia já anos e que, através de uma recordação qualquer, me sentir ligado àquelas paredes, àquelas cadeiras, àquelas mesas, àquele espaço invulgar e envolto em fumo.

Quanto mais impelia a vontade a fim de apreender aquela recordação, era maior a forma maliciosa e escorregadia como ela recuava -como uma medusa brilhando incerta no estrato mais profundo da consciência e, ainda assim, longe de se poder agarrar, de se poder apanhar. Fitava em vão cada um dos objetos que se encon­ travam no local; é certo que não conhecia alguns deles, como por exemplo a caixa registadora auto­ mática tilintante e aquele revestimento castanho de parede de falso palissandro, tudo isso deve ter sido colocado mais tarde. Mas sem dúvida que estive ali há vinte anos ou mais, justamente ali fi­ cou perdurado, oculto no invisível como o prego na madeira, algo do meu eu, já encoberto há muito tempo. Estendi e empurrei violentamente todos os meus sentidos para o espaço e simulta­ neamente para dentro de mim mesmo - e ainda

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assim - raios partam! - não conseguia alcançar aquela recordação desaparecida e afogada dentro de mim mesmo.

Irritei-me como quem se irrita quando uma fa­ lha qualquer nos torna conscientes da insuficiência e deficiência das nossas capacidades mentais. Mas eu não perdi a esperança de ainda assim recuperar aquela recordação. Sabia que precisava apenas dum minúsculo gancho ao alcance da mão, pois a minha memória é de uma índole particular, simultanea­ mente boa e má, por um lado, desafiadora e obsti­ nada e, por outro, indescritivelmente fiel. Ela traga o mais importante, tanto no que diz respeito aos acontecimentos como também aos rostos, tanto ao lido como ao vivido, descendo muitas vezes até ao fundo da sua obscuridade e nada dá desse sub­ mundo sem pressão, respondendo apenas ao cha­ mamento da vontade. Mas só me basta o mais fu­

gaz apoio, um postal, alguns traços de escrita sobre um envelope, uma folha de jornal amarelecido e, rapidamente, como o peixe preso ao anzol, o as­ sunto esquecido ressurge, sacudindo-se, da profun­ deza escura da superfície da água, completamente viva e sensível. Reconheço então cada um dos por­ menores de uma pessoa, a sua boca e, na sua boca, por sua vez, a falha entre os dentes à esquerda quando se ri e o tom rouco do riso e como o

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bi-gode se contrai enquanto se ri e como com esse riso nasce um rosto novo e diferente - vejo tudo isso de imediato numa visão completa e recordo-me, passados anos, de cada palavra que aquela pessoa al­ guma Vf1 me tenha dito. Mas, para ver e sentir algo ocorrido no passado de forma sensível, necessitava sempre de um estímulo sensorial, de uma minús­ cula ajuda da realidade. Assim, fechei os olhos para poder refletir de forma mais intensa, para moldar e agarrar aquele anzol misterioso. Mas nada! De novo, nada! Soterrado e esquecido! E fiquei de tal modo exasperado sobre o aparelho de memória que se encontra entre as minhas têmporas que podia golpear a fronte com os punhos exatamente como sacudimos uma máquina de venda automática es­ tragada, que retém ilicitamente o que lhe pedimos. Não, não podia continuar sentado tranquilamente, era tal a enervação que aquele falhanço íntimo me causava, e levantei-me deveras irritado para me des­ contrair. Mas que estranho - mal dera os primei­ ros passos na sala, quando começou a produzir-se dentro de mim, tremeluzindo e brilhando, aquele primeiro resplendor fosforescente. Lembrei-me que à direita da caixa registadora devia haver um cami­ nho a conduzir para uma sala sem janelas e ilumi­ nado apenas com luz artificial. E, de facto, era ver­ dade. Estava ali, com um revestimento de papel de

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parede distinto de então, mas, ainda assim, exata­ mente naquelas proporções, aquela sala traseira quadrada, com os seus contornos imprecisos, justa­ mente a sala de jogos. Instintivamente, pus-me a observar cada um dos objetos em meu redor, com os nervos a vibrar já de alegria (tinha a sensação de que em breve flcaria a saber tudo). Duas mesas de bilhar estavam por ali como lodeiros verdes e silen­ ciosos, nos cantos havia mesas de jogos, numa das

quais dois conselheiros ou professores universitários jogavam xadrez. E, num canto, junto ao aquecedor de ferro, por onde se ia à cabina de telefone, havia uma mesa de tampo quadrado. E, subitamente, senti um clarão no meu íntimo. Soube, de ime­ diato, de imediato, de um único e ardente golpe, que me fez estremecer de encantamento: Meu Deus, esse era o lugar de Mendel, de Jakob Men­ del, de Mendel dos livros, e, passados vinte anos, ti­ nha ido eu parar de novo ao seu quartel-general, ao Café Gluck, na parte alta de Alserstrassel, Jakob Mendel, como tinha eu podido esquecê-lo, durante um período incompreensivelmente longo, aquela personagem tão particular, aquele homem lendário,

1 Importante rua vienense, que atravessa os 8.0 Qosefstadt)

e 9.0 (Alsergrund) bairros. Situa-se aqui o antigo Hospital Geral (Allgemeines Krankenhaus-AKH), que constitui atualmente um dos polos universitários da Universidade de Viena.

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aquela maravilha do mundo peculiar, famoso na Universidade e num círculo restrito e respeitoso -como varrê-lo da memória, a ele, ao mago, ao cor­ retor dos livros, que se sentava ali de forma persis­ tente, de manhã até à noite, um símbolo do saber, sendo a glória e a honra do Café Gluck!

E só tive de revirar os olhos para dentro, por trás das pálpebras, durante aquele único segundo, quando se ergueu, do sangue iluminado por ima­ gens, a sua figura inconfundível e plástica. Vi-o de imediato em pessoa, como ele se sentava sem­ pre a uma mesinha quadrada coberta por um tampo de mármore de um sujo acinzentado, que estava sempre repleto de livros e escritos. Como ele se sentava ali, persistente e imperturbável, com o olhar, que, atravessando os óculos, cravava hipnoticamente num livro, como ele se sentava ali e, sussurrando e resmungando, durante a lei­ tura, oscilava para a frente e para trás o seu corpo e a calva mal polida e manchada, um hábito que trouxera da chederl, a escola infantil do Leste. Ali, naquela mesa e apenas naquela mesa lia os seus

1 Palavra de origem hebraica para «quarto/habitação• e desig­

na, por extensão, a escola tradicional judaica de carácter religioso onde se aprendem as bases do judaísmo e da língua hebraica, tanto

no judaísmo ocidental (até fins do séc. XIX) como no oriental (até

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catálogos e livros, tal como lhe ensinaram a ler na escola de talmudel, cantarolando em voz baixa e balanceando-se, um berço preto e baloiçante. Pois tal como uma criança que adormece e se desprende do mundo através daquele vaivém rítmico e hipnó­ tico, também o espírito, segundo a opinião dos de­ votos, se entranha mais facilmente na graça da sub­ mersão devido a esse balançar e oscilar do corpo ocioso. E de facto aquele Jakob Mendel não via e não ouvia nada do que acontecia à sua volta. Ao seu lado, os jogadores de bilhar faziam barulho e vociferavam, os marcadores corriam dum lado para o outro, o telefone matraqueava; esfregava-se o chão, acendia-se o fogão e tudo lhe passava ao lado. Um dia, um carvão em brasa saltou para fora do fogão, e, a dois passos dele, o parquê já cheirava a queimado e fumegava, só então, alertado pelo cheiro infernal, um dos hóspedes se deu conta do perigo e atirou-se apressadamente para apagar a fu­ marada: mas o próprio Jakob Mendel, que se

en-1 Expressão derivada do hebraico e que significa «estudo» ou

«aprendizagem». Constitui o texto mais importante do judaísmo

tradicional ou rabínico. É uma compilação, em dezenas de volumes,

de discussões e debates legais, éticos e alegóricos conduzidos por antigos rabis ao longo dos séculos. Representa, deste modo, o registo histórico das gerações fundadoras do judaísmo rabínico e a fonte básica da lei judaica tal como é cumprida pelos judeus ortodoxos.

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contrava a pouca distância do local e já enegrecido pelo fumo, não se apercebera de nada. Pois, lia como outros rezam, como os jogadores jogam e os bêbados, atordoados, olham para o vazio, lia com uma concentração tão comovente que, desde aquele momento, todo o tipo de leitura feita por uma outra pessoa me parecia sempre qualquer coisa de profano. Naquele pequeno alfarrabista galiciano chamado Jakob Mendel, vira pela primeira vez como jovem o grande mistério da concentração absoluta que faz tanto um artista como um erudito, um verdadeiro sábio como um louco, esta felici­ dade e infelicidade trágica da absoluta obsessão.

Quem me levara até ele fora um colega mais velho da Universidade. Estava, naquela altura, a fazer uma pesquisa sobre o então ainda pouco co­ nhecido médico e magnetizador paracélcico Mes­ mer, de resto com pouco êxito; pois as obras que diziam respeito ao tema revelaram-se insuficien­ tes e o bibliotecário, a quem eu, um novato ingé­ nuo, pedira informações, resmungou em termos pouco amáveis, afirmando que informações bi­ bliográficas eram algo que me diziam respeito a mim e não a ele. Na altura, o tal colega referiu­ -me pela primeira vez o seu nome. «Vou contigo a Mendel», prometeu-me, «ele sabe tudo e conse­ gue tudo, ele traz-te o livro mais invulgar do mais

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recôndito alfarrabista alemão. O homem mais eficiente de Viena e, para além disso, é ainda um indivíduo original, um sáurio de livros pré-histó­ rico de uma raça em extinção.»

Assim, fomos os dois ao Café Gluck e, quem diria, lá estava sentado Mendel de livros, de óculos, barba desalinhada; vestido de negro e balanceando o corpo, enquanto lia, como um arbusto escuro ao vento. Aproximámo-nos dele, não sentiu a nossa presença. Limitava-se a ficar sentado e balanceava a parte superior do corpo para a frente e para trás, à maneira dum pagode, por cima da mesa, e atrás dele balançava num gancho o seu sobretudo preto e gasto, igualmente atulhado até não poder mais de revistas e papelinhos com apontamentos. Para nos anunciar, o meu amigo pôs-se a tossir com força. Mas Mendel, com os óculos grossos colados ao li­ vro, ainda não notou nada. Finalmente, o meu amigo bateu no tampo da mesa com a mesma in­ tensidade e força com que se bate à porta - então Mendel olhou finalmente para cima, levantou com a rapidez mecânica para cima da testa os pesados óculos de armação de aço e, por baixo das sobran­ celhas cinzentas eriçadas, dois estranhos olhos cra­ varam-se em nós, olhos pequenos, negros e desper­ tos, rápidos, agudos e tremulantes como a língua de cobra. O meu amigo apresentou-me e eu expus

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o meu pedido, começando por revelar uma apa­ rente füria em relação ao bibliotecário - pois o meu amigo tinha-me recomendado expressamente a astúcia -, que não me quisera dar nenhuma in­ formação. Mendel recostou-se e cuspiu cuidadosa­ mente. Depois, soltou uma breve risada, expres­ sando-se com o seu jargão marcante do Leste europeul: «Ele não quis? Não - ele não foi capaz! Não passa de um inútil2, um jumento maltratado com cabelo grisalho. Conheço-o. Para a minha des­ graça, há já largos vinte anos, mas não aprendeu nada desde então. Embolsar o salário, é a única coisa que sabem fazer! Deviam carregar pedras, em vez. de estarem sentados rodeados de livros.»

Com esta enérgica descarga emocional tinha­ -se quebrado o gelo, e um bondoso movimento da mão convidava-me, pela primeira vez, a aproxi­ mar-me da mesa de mármore quadrada repleta de papelinhos com apontamentos, portanto daquele altar de revelações bibliófilas ainda desconhecido para mim. Disse rapidamente quais eram os meus

1 Não sendo possível traduzir o alemão muito característico,

com uma forte influência do iídiche, falado pelos judeus orientais

residentes na Viena do século XIX e dos princípios do século XX,

tqdas as falas da personagem «MendeJ. foram revertidas ao alto-ale­ mão vienense.

2 No original alemão: Parch. Expressão de origem iídiche que

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desejos: Obras contemporâneas sobre o magne­ tismo, assim como todos os livros e polémicas pos­ teriores a favor e contra Mesmer; mal terminei a frase, Mendel fechou durante um segundo o olho esquerdo, exatamente como se fosse um atirador prestes a disparar. Mas, verdadeiramente, este gesto de atenção concentrada durou apenas um se­ gundo, depois enumerou rapidamente e de forma fluida, como se estivesse a ler a partir dum catá­ logo invisível, duas ou três dezenas de livros, cada um deles com os respetivos local e ano de publica­ ção e o preço aproximado. Fiquei perplexo. Em­ bora viesse preparado, não estava à espera daquilo. Mas o meu espanto parecia agradar-lhe; pois, de imediato, pôs-se a tocar no teclado da sua memó­ ria as mais espantosas variações bibliotecárias sobre o meu tema. Perguntou-me se queria saber tam­ bém alguma coisa sobre os sonambulistas e sobre as primeiras experiências com a hipnose e so­ bre Gassnerl, a bruxaria e a Christian Science2 e

1 Trata-se do padre jesuíta austríaco Johann Joseph Gassner

(1727-79), que, baseando-se na convicção de que todas as doenças

não naturais se deviam às forças demoníacas e utilizando métodos

de exorcismo, obteve grande êxito na cura das mais variadas doen­

ças de que padeciam os seus paroquianos. É hoje considerado um

dos pioneiros do hipnotismo.

2 Movimento religioso fundado por Mary Baker Eddy

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Blavatskyl. Jorravam de novo os nomes, os títulos, as descrições; só nessa altura compreendi como me deparara em Jakob Mendel com uma memória de prodígio sem igual, de facto com uma enciclopé­ dia, com um catálogo universal sobre duas pernas. Fitei, completamente atordoado, aquele fenómeno bibliográfico, camuflado num invólucro pouco vistoso, dir-se-ia até algo ensebado, dum pequeno alfarrabista galiciano, que, depois de me ter matra­ queado cerca de oitenta nomes para os ouvidos, aparentemente sem dar imponância, mas no seu íntimo satisfeito com o seu trunfo jogado, se pôs a limpar os óculos com um lenço que outrora talvez tivesse sido branco. Para dissimular um pouco o meu espanto, perguntei-lhe timidamente qual de entre aqueles livros poderia, na melhor das hipóte­ ses, arranjar-me. «Pois, vamos ver o que se pode fazer», resmungou por entre dentes. «Venha cá amanhã outra vez, Mendel sempre conseguirá en­ tretanto desencantar alguma coisa e o que não se

(«Ciência e Saúde»). Defende uma forma radical de idealismo fl­ losóflco, considerando a realidade espiritual como a única e verda­ deira realidade. De acordo com a fllosofla da «Ciência Cristã», o mundo material não passa de um ilusão.

1 Helena Petrovna Blavatsky (1831-91). Teósofa russa, que

fundou em 1875, em Nova Iorque, a Sociedade Teosóflca. Através

do estudo do sânscrito, iniciou-se nas práticas esotéricas do ocul­ tismo oriental, divulgando-as nas várias revistas fundadas por si.

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encontrar, arranjar-se-á noutro sítio. Quem tem bom sensol, tem também sorte.» Agradeci gentil­ mente e, por pura amabilidade, cometi, sem que me apercebesse, uma gafe ao propor-lhe que ano­ tasse os títulos dos livros que desejava num papeli­ nho. Naquele preciso momento senti uma cotove­ lada de advertência da parte do meu amigo. Mas era já tarde de mais! Mendel já me tinha lançado um olhar - e que olhar era! -, um olhar simulta­ neamente triunfante e ofendido, sarcástico e de su­ perioridade, um olhar decididamente régio, o olhar shakespeariano de Macbeth, quando Macduff exige ao herói invencível que se entregue sem combater. Depois, soltou de novo uma curta gargalhada, a enorme maça de Adão na sua garganta grugulejou para cima e para baixo de forma estranha, ao que parece, Mendel acabara de engolir a custo uma pa­ lavra grosseira que quisera proferir. E não há dú­ vida que o bom e honrado Mendel teria tido razão em proferir todo o tipo de grosseria; pois só um es­ tranho, um ingénuo (um amhorez2, como ele dizia) podia fazer-lhe a ele, a Jakob Mendel, a ele, a Jakob

1 No original alemão: Sechel. Palavra de origem iídiche, que

significa «bom senso».

2 Palavra de origem iídiche que significa «idiota•, «ingénuo»

ou «inculto», sobretudo no que respeita aos conhecimentos bíbli­ cos, talmúdicos, hebraicos e aos costumes judeus.

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Mendel uma proposta tão humilhante para ele ano­ tar um título de livro, como se fosse um aprendiz de uma livraria ou um empregado de biblioteca, como se aquele cérebro livresco inigualável e diamantino alguma vez. tivesse necessitado de um tão grosseiro recurso como esse. Só mais tarde compreendi até que ponto tinha ofendido o seu génio singular com aquela amável oferta; pois aquele judeu galiciano, J akob Mendel, pequeno, comprimido e completa­ mente envolvido nas suas barbas, para além de ser corcovado, era um titã da memória. Por trás da­ quela fonte calcária, suja e coberta por um musgo cinzento, encontravam-se, fazendo parte do mundo invisível de fantasmagoria, como que cunhados por meio de fundição de aço, cada um dos nomes e cada um dos títulos alguma vez impressos num &ontispício dum livro. Conhecia toda e qualquer obra, tanto a que tivesse sido publicada um dia an­ tes como a que tivesse duzentos anos de existência, logo à primeira, o local exato de publicação, o autor, o preço, se era nova ou antiga, e, em cada livro, lembrava-se, com uma visão infalível, simultanea­

mente da encadernação e das ilustrações e dos suple­ mentos fac-similados, via cada obra, independente­ mente de a ter tido nas suas mãos ou apenas a ter visto uma vez. ao longe :11uma montra ou numa bi­ blioteca, com a mesma clareza ótica como um

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ar-tista vê o interior das suas criações, que são ainda in­ visíveis ao resto do mundo. Lembrava-se, por exemplo, se um livro aparecia em oferta no catálogo dum alfarrabista de Ratisbona por um preço de seis marcos e, de imediato, se esse mesmo livro estivera disponível num exemplar diferente havia dois anos num leilão em Viena por quatro coroas, e, simulta­ neamente, também do arrematante: não, J akob Mendel nunca se esquecia dum título, dum nú­ mero, conhecia cada planta, cada infusório, cada es­ trela no cosmo em perpétua oscilação e permanente agitação do universo do livro. Sabia de cada especia­ lidade mais do que os especialistas, dominava as bi­ bliotecas mais do que os bibliotecários, conhecia de memória os armazéns da maior parte das firmas me­ lhor do que os seus proprietários, apesar das suas notas e dos seus ficheiros, enquanto ele de nada dis­ punha a não ser da magia da lembrança, daquela memória incomparável e só explicável verdadeira­ mente através de centenas de exemplos individuais. Cenamente que aquela memória só tinha podido exercitar-se e formar-se daquele forma diabolica­ mente infalível graças ao eterno segredo de toda a perfeição que é a concentração. A exceção dos livros, este homem estranho não sabia nada do mundo; pois todos os fenómenos da existência começavam a tornar-se realidade para ele só quando estes se

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nham vertido em letras, quando se tinham reunido num livro e, por assim dizer, se tinham esterilizado. Mas mesmo esses livros, não os lia com o objetivo de compreender o seu sentido, o seu conteúdo inte­ lectual e narrativo: o que atraía a sua paixão era ape­ nas o seu nome, o seu preço, o seu aspeto, o seu frontispício. Ao fim e ao cabo, improdutiva e sem nenhuma criatividade, um mero inventário de cen­ tenas de milhares de títulos e nomes gravados no macio córtex cerebral de um mamífero, em vez de, como é habitual, estar registado num catálogo de li­

vros, aquela memória específica de alfarrabista de Jakob Mendel era, contudo, na sua perfeição única como fenómeno, não menos importante do que a de Napoleão para as flsiognomias, de Mezzofantil para as línguas, de um Lasker2 para as aberturas de xadrez, de um Busoni3 para a música. Colocado numa instituição universitária, num cargo público, aquele cérebro teria ensinado e surpreendido milha­ res, centenas de milhares de estudantes e estudiosos, seria proveitoso para as ciências, uma inigualável

1 Giuseppe Caspar Mezwfanti (1774-1849): Cardeal italiano,

tornou-se famoso devido ao seu domínio de dezenas de línguas.

2 Emanud Lasker (1868-1941): jogador, matemático e fllósofo

alemão, foi campeão de xadrez durante 27 anos.

3 Ferruccio Busoni (1866-1924): compositor, pianista e maes­

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aquisição para o tesouro público a que chamamos

bibliotecas. Mas esse mundo superior estava para o pequeno alfarrabista galiciano sem formação acadé­ mica, que não fora muito para além da sua forma­ ção na escola talmúdica, para sempre vedado; assim, essas fantásticas capacidades podiam apenas ter o efeito de uma ciência oculta sobre a mesa de már­ more do Café Gluck. Mas se alguma vez aparecer o grande psicólogo (esta obra ainda falta no nosso mundo intelecrual), que, de uma forma tão persis­ tente e paciente como Buffon ordenou e classificou as diferentes espécies dos animais, descreva indivi­ dualmente e exponha nas suas variantes, todas as es­

pécies e formas primitivas do poder mágico a que chamamos memória, então deveria lembrar-se de Jakob Mendel, deste génio dos preços e dos títulos,

deste mestre sem nome da ciência antiquária. Em termos profissionais e para os ignorantes, Jakob Mendel não passava sem dúvida de um pe­ queno comerciante de livros usados. Todos os do­ mingos apareciam no Neue Freie Presse e no Neues

Wiener Tagblatt os mesmos anúncios estereotipa­ dos: «Compro livros antigos, pago os melhores preços, vou de imediato ao local, Mendel, Obere Alserstrasse» e depois um número de telefone, que

na realidade era o número do Café Gluck. Vascu­ lhava o depósito de livros, arrastava semanalmente,

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com a ajuda de um velho carrejão de barbas impe­ riais, o novo despojo até ao seu quartel-general e daqui de novo para outro sítio, pois para exercer a atividade de comércio de livros em conformidade com as normas, faltava-lhe a concessão. De modo que se limitou ao pequeno comércio de livros usa­ dos, a uma atividade menos lucrativa. Os estudan­ tes universitários vendiam-lhe os seus manuais, que, pelas suas mãos, passavam de um ano mais ve­ lho para o ano mais novo, para além disso, com um pequeno custo adicional, intermediava e arranjava qualquer obra procurada. Com ele, um bom conse­ lho era barato. Mas o dinheiro não tinha nenhum lugar disponível no seu mundo; pois nunca nin­ guém o vira vestido doutra forma que não fosse com o mesmo casaco puído, consumindo de ma­ nhã cedo, à tarde e à noite o seu copo de leite e dois pãezinhos, e comendo ao almoço uma refeição ligeira que lhe iam buscar à casa de pasto do outro lado da rua. Não fumava, não jogava, sim, pode di­

zer-se até que não vivia, apenas os dois olhos esta­ vam vivos por trás dos óculos, alimentando inces­ santemente aquele ser enigmático que dá pelo nome de cérebro com palavras, títulos e nomes. E a massa, macia e fértil, absorvia aquela abundante in­ formação sofregamente como o prado absorve os milhares e milhares de gotas da chuva. Não lhe

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in-teressavam as pessoas, e de todas as paixões huma­ nas conhecia provavelmente apenas uma, sem dú­ vida a mais humana de todas elas que é a vaidade. Quando alguém ia ter com ele para lhe pedir al­ guma informação, depois de se ter cansado de a procurar em todo o lado, e ele conseguia, logo à

primeira, dar-lhe a resposta esperada, isso era sufi­ ciente para provocar nele um sentimento de satisfa­ ção, de prazer e talvez ainda isto, que, em Viena, e no estrangeiro havia umas dezenas de pessoas que respeitavam e necessitavam dos seus conhecimentos. E em cada um daqueles conglomerados desajeitados de milhões de seres a que chamamos metrópoles surgem, sempre em pontos reduzidos, algumas pe­ quenas facetas que refletem, numa minúscula super­ fície, o único e o mesmo universo, invisível para a maior parte das pessoas, precioso unicamente para os apreciadores, para os devotos da mesma paixão. E estes apreciadores de livros conheciam todos eles Jakob Mendel. Da mesma forma que quando al­

guém queria um conselho sobre uma partitura re­ corria a Eusebius Mandyczweski 1 na Sociedade de

1 Musicólogo e compositor austríaco de origem romena

(1857-1929), foi discípulo de Martin Gustav Nottebohm e pro­

fessor no conservatório na prestigiada GeseOschaft der Musikfreunde.

Editou as obras completas de Franz Schubert, Joseph Haydn e Johannes Brahms, de quem era amigo íntimo.

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Amigos da Música, que, de carapuça cinzenta na cabeça, se sentava ali com aparência amável no meio de documentos e partituras, e, num simples gesto de levantar o seu olhar, resolvia sorridente­ mente os problemas mais difíceis que se podiam imaginar, da mesma forma que ainda hoje sempre que alguém necessita de um esclarecimento sobre o teatro e a cultura da Viena antiga 1 se dirige infali­ velmente ao omnisciente Glossy2, os poucos biblió­ filos ortodoxos de Viena iam, em romaria, com a mesma confiante naturalidade, sempre que lhes surgia um osso especialmente duro de roer, ao Café Gluck para ver Jakob Mendel. Observar Mendel durante uma daquelas consultas proporcionou a um jovem curioso como eu um prazer muito espe­ cial. Enquanto, normalmente, sempre que lhe apre­ sentavam um livro de menor qualidade, se limitava a fechar a capa com desprezo, murmurando: «Duas

coroas», perante uma qualquer raridade ou uma obra única, dava um passo atrás, respeitosamente, colocava uma folha por baixo do livro, e via-se

1 No original alemão: Altwiener Theater und Kultur. O con­

ceito de Alt- Wien refere-se nostalgicamente ao período anterior a

1850, coincidente com o chamado período de Biedermeier, que, por sua vez, caracteriza tendências conservadoras e retrospetivas das artes em geral.

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como ele se envergonhava de súbito dos seus dedos sujos, manchados de tinta e com unhas negras. De­ pois, começava terna e cuidadosamente e com um enorme respeito a folhear o raro exemplar, página a página. Ninguém podia incomodá-lo num mo­ mento desses, tão-pouco como a um verdadeiro de­ voto durante a oração, e, de facto, aquele gesto de observar, tocar, cheirar, pesar, cada uma daquelas ações individuais tinha qualquer coisa de cerimo­ nioso, de uma sucessão regulada por um· culto de um ato religioso. As costas encurvadas moviam-se para lá e para cá, ao mesmo tempo que resmungava e rosnava, coçava o cabelo, soltava sons primitivos vocálicos, um «Ah» e «Üh» prolongado e assustado de uma admiração deslumbrada e depois, de novo, um rapidamente horrorizado «Ai» ou «Ai, meu Deus», quando faltava uma página ou uma folha parecia ter sido carcomida. Finalmente, pesava o calhamaço respeitosamente na mão, farejava e chei­ rava o volumoso quadrado com os olhos semicerra­ dos não menos comovido do que uma rapariga sentimental frente a uma tuberosa. Durante aquele procedimento de certo modo complicado, o pro­ prietário tinha de manter a sua paciência. Mas uma vez terminado o exame, Mendel dava de bom grado, dir-se-ia entusiasmado, todo o tipo de infor­ mações, a que se juntavam histórias abundantes e

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inevitáveis e relatórios de preços dramáticos de exemplares similares. Naqueles momentos, parecia ficar mais lúcido, mais novo, mais vivo e só uma coisa o podia irritar desmedidamente: quando, por exemplo, um novato lhe queria oferecer dinheiro por aquela avaliação. Depois, recuava ofendido como um conselheiro de galeria de arte a quem um viajante americano quer dar uma gorjeta pela sua explicação; pois, ter o privilégio de manusear um valioso livro significava para Mendel o mesmo que para uma outra pessoa era encontrar-se com uma mulher. Aqueles momentos eram para ele noites de amor platónicos. Somente o livro, nunca o di­ nheiro, tinha poder sobre ele. Por isso, grandes co­ lecionadores, de entre eles também o fundador da Universidade de Princeton, tentavam conquistar em vão os seus préstimos para as suas bibliotecas como conselheiro e comprador, - Jakob Mendel recusava as ofertas; não conseguia imaginar-se nou­ tro sítio que não fosse o Café Gluck. Jovem baixo e encurvado, com uma barba ainda suave e de um negro macio e melenas em forma de anéis, viera, havia trinta e três anos, do Leste para Viena com o intuito de estudar o rabinato; mas logo deixara o ri­ goroso Deus único Jeová para se entregar ao poli­ teísmo brilhante e de mil formas dos livros. Na­ quela altura dera com o caminho para o Café

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Gluck, que lentamente se transformara na sua ofi­ cina, no seu quartel-general, na sua estação de cor­ reios, no seu mundo. Como um astrónomo, que, solitário no seu observatório, observa, todas as noi­ tes, através da minúscula abertura do telescópio, miríades de estrelas, as suas misteriosas evoluções, o seu caos deambulante, o seu apagamento e reacen­ dimento, Jakob Mendel olhava, através dos seus óculos, a partir daquela mesa quadrada para o ou­ tro universo dos livros, que gira e renasce da mesma forma perpetuamente, para aquele mundo sobre o nosso mundo.

É óbvio que ele gozava de grande prestígio no Café Gluck, cuja fama se associava, para nós, mais com a sua cátedra invisível do que com o apadri­ nhamento do eminente músico, do criador de Al­

ceste e de lphigénie: Christoph Willibald Gluck. Pertencia igualmente ao inventário como a velha

caixa registadora de cerejeira, como as duas mesas de bilhar mal remendadas, a cafeteira de cobre, e a sua mesa era guardada como se fosse um santuário. Pois, sempre que apareciam os seus inúmeros clientes e informadores, estes eram amavelmente incitados pelo pessoal do Café a encomendar al­ guma coisa, de modo que a maior parte do lucro da sua ciência afluía na realidade à volumosa car­ teira de couro que o chefe dos empregados de mesa,

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Deubler, trazia presa à volta da cintura. Por esse facto, Mendel usufruía de múltiplos privilégios. Tinha o telefone gratuito, guardavam-lhe o correio e faziam-lhe todas as encomendas; a velha e boa mulher da limpeza escovava-lhe o sobretudo, co­ sia-lhe os botões e levava-lhe todas as semanas uma pequena trouxa de roupa para lavar. Só ele tinha o direito que se fosse buscar o almoço a uma casa de pasto que ficava nas imediações, e todas as manhãs vinha à sua mesa o senhor Standhartner, o dono do Café, cumprimentá-lo pessoalmente (obvia­ mente, sem que Jakob Mendel, absorto nos seus li­ vros, desse por esse cumprimento). Chegava pon­ tualmente às sete e meia da manhã e deixava o Café só quando se apagavam as luzes. Nunca fa­ lava com os outros clientes, não lia jornais, não se apercebia de nenhuma mudança, e quando uma vez o senhor Standhartner lhe perguntou cordial­ mente se não lia melhor com a luz elétrica do que anteriormente com a luz baça e vacilante das lâm­ padas de Auerl , levantou a cabeça e olhou espan­ tado para as lâmpadas elétricas: aquela mudança ti­ nha-lhe completamente passado ao lado, apesar do ruído e o martelar de obras de instalação que

ti-1 Lâmpada de gás incandescente de filamento metálico de

ósmio, ligas de cério e outros metais raros inventada pelo químico

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nham durado vários dias. Era unicamente através das lentes redondas dos óculos, através daquelas duas lentes relampejantes e absorventes que se fil­ travam no seu cérebro os milhares de infusórios negros das letras, todos os restantes acontecimen­ tos lhe passavam ao lado como se fossem um ruído oco. Na realidade, passara mais de trinta anos, isto é toda a parte consciente da sua vida, sentado uni­ camente ali àquela mesa quadrada, lendo, compa­ rando, calculando, num estado de sonho contí­ nuo, interrompido somente pelo sono.

Por isso, fui acometido por uma espécie de susto aterrador quando vi, vazia como uma lápide tumular, dormitando, naquele espaço, a fonte de oráculos que era a mesa de mármore de Jakob Mendel. Só então, com a idade, compreendi quanto é o que desaparece com semelhantes seres humanos, primeiro porque tudo o que é único se torna, de dia para dia, mais valioso no nosso mundo que se vai tornando irremediavelmente uniforme. E mais, jovem e inexperiente como era, por um pressentimento profundo, sentira por ele uma grande afeição. Graças a ele, aproxi­ mara-me, pela primeira vez, do grande mistério de que somente através da concentração interior, através da monomania análoga de forma sagrada à loucura se podia alcançar tudo o que é

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dinário e superior na nossa existência. Que uma vida pura no espírito, a completa abstração numa única ideia se pode produzir, também hoje, uma imersão não inferior à de um iogue indiano ou de um monge medieval na sua cela, demais a mais um café com iluminação elétrica, junto a uma ca­ bine telefónica - este exemplo obtivera eu como um jovem muito mais daquele pequeno alfarra­ bista completamente anónimo do que dos nossos escritores contemporâneos. Ainda assim, pudera esquecer-me dele - na realidade foi nos anos da guerra e numa entrega semelhante à dele à sua própria obra. Mas naquele momento, em frente àquela mesa vazia, sentira perante ele uma espécie de vergonha e, simultaneamente, uma renovada curiosidade.

Pois, onde estava ele, o que lhe acontecera? Chamei o empregado de mesa e perguntei-lhe. Não, lamentou, não conhecia nenhum senhor chamado Mendel, que um senhor com aquele nome não frequentava aquele Café. Mas talvez o chefe dos empregados de mesa soubesse dizer al­ guma coisa. Este, avançando lentamente com a sua barriga proeminente, pôs-se a pensar hesi­ tante: Não, nem tampouco ele conhecia um se­ nhor chamado Mendel. Mas será que talvez esti­ vesse a referir-me ao senhor Mandl, o senhor

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Mandl da drogaria da Florianigassel? Senti um sa­ bor amargo nos lábios, um sabor da fugacidade: Para que vivemos se o vento atrás dos nossos sapa­ tos apaga as nossas últimas pegadas? Durante trinta anos, talvez quarenta anos, uma pessoa respirara, lera, pensara, falara naquele espaço de uns quantos metros quadrados e foi necessário passar apenas três ou quatro anos, vir um novo faraó para que não se soubesse nada mais de Joseph, nada mais se sabia no Café Gluck de Joseph Mendel, de Mendel dos livros! Perguntei quase com raiva ao chefe dos em­ pregados de mesa se não poderia falar com o se­ nhor Standhartner ou se não haveria ninguém do pessoal antigo? Ó, o senhor Standhartner, ó Deus, há tanto tempo que ele vendera o Café, que ele morrera, e que o antigo chefe dos empregados de mesa vivia agora na sua pequena propriedade perto de Krems. Não, que não estava lá ninguém ... ou talvez! Sim, claro - a senhora Sporschil ainda lá estava, a mulher da limpeza (vulgarmente conhe­ cida como a senhora dos chocolates). Mas que ela certamente já não se lembraria dos clientes indivi­ dualmente. Pensei de imediato: ninguém se es­ quece de um Jakob Mendel e mandei chamá-la.

1 A Florianigasse (Rua Floriani) situa-se no 8.0 Bairro de Vie­

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E ela veio, a senhora Sporschil, de cabelo gri­ salho, desgrenhada, dando pequenos passos hidró­ picos, dos seus misteriosos aposentos, limpando apressadamente as mãos a uma toalha: aparente­ mente estivera a varrer o seu sombrio aposento ou a limpar as janelas. Notei imediatamente no seu comportamento inseguro que se sentia desconfor­ tável por ser chamada assim de súbito para a frente por baixo das grandes lâmpadas elétricas à parte nobre do Café - os vienenses veem em todo lado detetives e polícias quando alguém os quer interro­

gar. Assim, ao princípio, olhou para mim descon­ fiada, com um olhar dirigido de baixo para cima, um olhar muito cuidadosamente submisso. O que podia eu querer de bom dela? Mas mal a interro­ guei sobre Jakob Mendel, fitou-me com os olhos arregalados, dir-se-ia irradiantes, e os ombros levan­ taram-se-lhe bruscamente. «Meu Deus, o pobre Mendel, ainda há quem pense nele! Sim, o pobre Mendel» - ficou de tal modo comovida que quase chorou, como pessoas idosas o ficam quando se lhes faz lembrar a sua juventude, alguma feliz expe­

riência comum. Perguntei-lhe se ele ainda era vivo. «Ó meu Deus, o pobre Mendel deve ter morrido já há seis anos, não, sete anos. Um homem tão amável e generoso, e quando penso durante quanto tempo o conheci, mais de vinte e cinco

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anos, pois ele já cá estava quando entrei. E foi uma vergonha a forma como o deixaram mor­ rer.» Ficava cada vez mais nervosa, perguntava se era um familiar seu. Que nunca ninguém se inte­ ressara por ele, ninguém perguntara por ele - e se não sabia o que lhe tinha acontecido.

Não, que não sabia de nada, garanti-lhe; ela que me contasse, que me contasse tudo. A boa mulher olhou tímida e envergonhada, limpando constantemente as suas mãos húmidas. Com­ preendi que lhe era penoso, como mulher da lim­ peza, ficar com o avental sujo e os seus cabelos brancos desgrenhados no meio do salão do café, para além disso olhava constantemente de forma apreensiva para a direita e para a esquerda com o receio de estar a ser ouvida por algum dos empre­ gados de mesa. Então, sugeri-lhe que fôssemos ao salão de jogos, ao velho lugar que outrora fora de Mendel e que ali me contaria tudo. Comovida, acenou com a cabeça afirmativamente de modo que eu percebesse, e a velha senhora, já um pouco vacilante, foi andando à minha frente e eu atrás dela. Os dois empregados de mesa seguiram-nos espantados com o olhar, notaram que havia ali uma ligação qualquer, e até alguns hóspedes fica­ ram admirados vendo-nos como um par desigual. E acolá, junto à sua mesa, contme {muitos

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ou-tros pormenores foram-me acrescentados através de um outro relato) sobre Jakob Mendel, sobre o declínio de Mendel dos livros.

Sim, portanto, também depois, contou-me, que quando começara a guerra, continuava a vir, dia atrás de dia, pelas sete e meia da manhã, sen­ tando-se como habitualmente fazia, e estudava como sempre o dia inteiro, sim, toda a gente ti­ nha a sensação e comentava frequentemente de que ele não tinha a mínima consciência de que se estava em plena guerra. Como aliás eu devia sa­ ber, nunca pegava num jornal e nunca falava com ninguém; e mesmo quando os ardinas bran­ diam as edições especiais e toda a gente se con­ centrava à sua volta, nunca se levantava e se dava ao trabalho de se pôr à escuta. Também não no­ tara que não estava lá Franz, o empregado de mesa (que morrera em combate em Gorlice), e não soubera que o filho do senhor Standhartner fora preso em Przemysl, e não dissera uma única palavra sobre como o pão estava cada vez mais miserável e sobre o facto de terem que lhe dar uma zurrapa de chicória em vez de leite. Só estra­ nhara uma única vez por virem tão poucos estu­ dantes universitários e era tudo. - «Meu Deus, o pobre homem, nada o alegrava ou o perturbava a não ser os seus livros.»

Referências

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