Patricia Aparecida Gonçalves de Faria (Graduanda UNESP/Assis PIBIC/CNPq)

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II Colóquio da Pós-Graduação em Letras UNESP – Campus de Assis

ISSN: 2178-3683

www.assis.unesp.br/coloquioletras coloquiletras@yahoo.com.br

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AMMEERRIICCAANNIIDDAADDEE EEMM ““OO CCAANNTTOO DDOO ÍÍNNDDIIOO”” DDEE GGOONNÇÇAALLVVEESS DDIIAASS

Patricia Aparecida Gonçalves de Faria (Graduanda – UNESP/Assis – PIBIC/CNPq) R

REESSUUMMOO:: Em seus poemas, Gonçalves Dias (1823-1864) teve toda uma preocupação com a

divulgação de uma literatura empenhada na construção e na afirmação de uma identidade nacional, a ponto de destacar em seus versos o engrandecimento da terra brasileira e a valorização do índio, elemento humano e americano por excelência. Assim, com vistas atentas à americanidade o trabalho intitulado “Americanidade em ‘O Canto do Índio’ de Gonçalves Dias” tem por objetivo analisar e verificar nos versos de “O Canto do Índio”, presente em Primeiros Cantos (1846), o amor ao mundo indígena e à tradição europeia, o que leva o poema a ser visto e difundido sob a ótica da americanidade, ou seja, do sentimento de exaltação e pertença à América.

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PAALLAAVVRRAASS--CCHHAAVVEE: Literatura Brasileira; Gonçalves Dias; Americanidade; “O Canto do Índio”. :

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O poeta maranhense, quando lança em 1946 os Primeiros Cantos, pela casa Laemmert, propõe uma classificação para seus poemas: “Poesias Americanas”, “Poesias Diversas”, e “Hinos”, sem imaginar que um ano mais tarde iria receber uma crítica calorosa de Alexandre Herculano no artigo intitulado “Futuro Literário de Portugal e do Brasil”, onde o escritor romântico português destaca a figura do poeta maranhense e lamenta o número reduzido de “Poesias Americanas”: “Os Primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho”. (HERCULANO apud BUENO, 1998, p. 99).

Quiséramos que as “Poesias Americanas” que são como o pórtico do edifício ocupassem nele maior espaço. Nos poetas transatlânticos há por via de regra demasiadas reminiscências da Europa. Esse Novo Mundo que deu tanta poesia a Saint-Pierre e a Chateaubriand é assaz rico para inspirar e nutrir os poetas que cresceram à sombra das suas selvas primitivas. (Herculano apud BUENO, 1998, p. 99) Alexandre Herculano destaca a importância da beleza lírica e da força simbólica que emanam desses versos de Gonçalves Dias focados na constituição de uma poética brasileira voltada para a construção de uma identidade literária nacional.

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Nesta perspectiva, pode-se colocar que muitos críticos destacaram, citaram, criticaram, elogiaram e aclamaram Dias como um dos grandes nomes do cenário nacional romântico, inclusive alguns o apontam como um dos formadores da nossa literatura nacional. Efetivamente, Antônio Candido é um dos autores que destaca a figura singular de Gonçalves Dias no cenário nacional a ponto de classificá-lo como o verdadeiro criador da literatura nacional. Assim, no clássico Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, escreve:

[...] a maioria dos poetas e mesmo jornalistas considerava Gonçalves Dias, desde meados do século, como o verdadeiro criador da literatura nacional. Em 1849, Álvares de Azevedo via nele a fonte de inspiração para os novos e, por meio do “livro renovador, “Os Primeiros Cantos”, regenerador da “rica poesia nacional de Basílio da Gama e Durão”. Coincide com este o ponto de vista de um crítico obscuro, N.J. Costa, a sua grandeza de pioneiro, revelador do Brasil aos brasileiros, pois era “o poeta que mais primado nesse gênero, e que deve com justiça ser chamado o criador da poesia nacional”. (CANDIDO, 1981, p.81).

Não poderia deixar de lembrar aqui as palavras amáveis de José Veríssimo no capítulo “Gonçalves Dias e o grupo maranhense”, de sua História da literatura brasileira (1916):

[...] Com muito mais harmonia, mais íntimo e mais vivo sentimento, mais espontânea e original inspiração, maior sensibilidade emotiva, havia relevantemente nele dons de expressão muito superiores - e os posteriores o confirmariam – o primeiro grande poeta do Brasil. (VERÍSSIMO, 1963, p. 180)

Hélio Lopes, por sua vez, no ensaio intitulado “Gonçalves Dias” presente em Letras de Minas e outros ensaios, destaca e exalta o caráter nacionalista de Gonçalves Dias: “Predestinou Deus a Gonçalves Dias para ser a primeira voz, a primeira grande voz, de nacionalidade brasileira. [...] Gonçalves Dias é um dos grandes poetas do Brasil. Gonçalves Dias é um dos grandes românticos de nossa história literária [...]”. (LOPES, 1997, p. 164).

Neste ensaio, Lopes traça como parâmetros para a leitura da americanidade em Gonçalves Dias a exaltação à natureza e a valorização do homem americano. E prossegue afirmando que o indígena na sua poesia é parte integrante da unificação dos povos americanos e a natureza seria incompleta se nela faltasse o homem nativo: “O índio não foi Gonçalves Dias quem o inventou. Não foi ele quem o introduziu na literatura. Mas também é certo que o índio não foi para ele o elemento decorativo de nossas matas. Ou um simples intuito de exotismo”. (LOPES, 1997, p. 167).

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Ora, partindo do princípio que um dos aspectos do nacionalismo romântico brasileiro era o sentimento de exaltação ao índio e às belezas exuberantes da natureza local, pode-se dizer que Dias cantou com maestria em sua poesia o solo americano, expressando assim o instinto de americanidade que caminhou paralelamente à consolidação da construção da identidade nacional e, consequentemente de uma literatura que se pudesse chamar tanto de americana quanto de brasileira.

Portanto, a americanidade pode ser vista como um conceito associado à afirmação de identidade continental, abarcando assim a identidade nacional e categorias como etnia, gênero, sexualidade, dentre outras.

Zilá Bernd, no ensaio “Americanidade e Americanização”, presente no livro Americanidade e Transferências Culturais (2003), traz algumas definições relacionadas ao uso das expressões americano, americanidade e americanização. Para isso, a estudiosa foi buscar auxílio no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o qual define americano como uma noção imprecisa, relativa à América do Norte, especialmente aos Estados Unidos; americanizado como referente à semelhança com os americanos dos Estados Unidos; e americanização como o efeito de americanizar-se, de querer tornar-se semelhante aos cidadãos que vivem nos Estados Unidos da América do Norte, por admiração ao seu modo de viver.

Diante destas constatações, Bernd chama a atenção para o fato de que existe uma ambiguidade no termo americano, na medida em que os cidadãos dos Estados Unidos autonomearam-se como americanos e não estadunidenses. Destaca, também, que os habitantes dos países latino-americanos buscavam sua identidade nacional, de tal forma que estavam empenhados em se definirem como brasileiros, colombianos, argentinos, uruguaios, etc. Sendo assim, podemos constatar que antes de sermos argentinos, mexicanos, estadunidenses, canadenses, cubanos, brasileiros, etc, somos americanos pelo fato de vivermos na América, no continente americano.

Este equívoco assinala, então, que há uma incoerência toda vez que o termo América for utilizado como sinônimo de Estados Unidos, pois se trata de um nome pertencente a todos os habitantes do continente. No Brasil, ocorreu algo semelhante no passado, “pois a historiografia literária brasileira nos mostra que, do século XVII ao XIX, circulava a palavra “americano” em referencia ao Brasil”. (BERND, 2003, p. 29)

Nesta perspectiva, do século XIX, mais precisamente para os escritores românticos, o termo americano estava intimamente ligado a brasileiro e, por conseguinte à brasilidade, de tal forma que se utilizava indiferentemente América por

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Brasil. Entretanto, este termo não perdurou para todo o sempre, pois atualmente nomeamos a nossa terra como Brasil e o nosso povo como brasileiro.

Sobre a americanidade, o crítico Hélio Lopes, a quem já nos referimos antes, em “Cristóvão Colombo”, ensaio presente no livro já citado, registra:

O americanismo, porém, ultrapassa as raias nacionais, abrangendo sobretudo a América Latina. Poderíamos distinguir dois ângulos: ainda o culto da natureza virgem e grandiosa, não necessariamente exótica em oposição à natureza europeia, embora esta fisionomia, embora esta fisionomia se possa distinguir, e o culto dos heróis nacionais. Confluem estes dois ramos para a exaltação única da Liberdade. Tomamos então para nosso uso a cordilheira dos Andes, o condor e os vulcões. E chega-se a roubar o próprio nome da América para restringi-lo ao Brasil. (LOPES, 1997, P. 283).

É a partir dessas constatações que buscarei analisar o poema americano “O Canto do Índio”, de Gonçalves Dias

“O Canto do índio”, presente em Primeiros Cantos, simboliza o amor entre o mundo indígena e a tradição europeia. Trata-se, então, de um dos mais belos poemas de Gonçalves Dias. Em seus versos, o autor transmite a sentimentalidade do herói indígena, a emoção, a idealização feminina europeia, a beleza natural de sua pátria, a exaltação do autóctone, a musicalidade do poema como um todo, o uso constante de metáforas para expressar os sentimentos e as belezas naturais, etc, enfim, um poema de grande inspiração poética de Dias. Cabe aqui destacar que o uso de palavras do vocabulário indígena é constante neste poema: tacape, boré, maça.

Com efeito, o autor de “Canção do exílio” neste poema faz uso de uma cultura letrada coimbrã adquirida nos tempos de juventude que conta com algumas particularidades medievalistas, ou seja, aqui o nativo se aproxima muito do herói cavaleiresco medieval, inclusive no amor idealizado, único, vassalo e imortal que o indígena sente pela europeia: “Mas queira tu ser minha, que eu prometo/ Vencer por teu amor meu ódio antigo.” ou “Porque eu te visse assim, como te via, / Calcara agros espinhos sem queixar-me, / Que antes me dera por feliz de ver-te”.

O que se vê, portanto, nestes versos é uma paixão ardente inter-racial que nasce por acaso e pelo destino: “Eu a vi, que se banhava... / Era bela, ó deuses, bela,”; que torna a europeia mais sensual devido ao próprio cenário natural, onde a natureza americana pura, bela, sensual e acolhedora, na maioria das vezes, é comparada com a beleza feminina da amada. “Eu a vi, que se banhava.../ Era bela, ó deuses, bela, / Como a fonte cristalina,/ Como luz de meiga estrela.”.

O poeta maranhense, por sua vez, enfatiza o sentimento indígena, colocando-o ccolocando-omcolocando-o a vcolocando-oz central sente, ama e vive as mais fcolocando-ortes emcolocando-oções diante da presença da

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amada e da natureza bela e exuberante. Nesta ocasião, mais uma vez, Dias coloca todo o comprometimento com o “sentimento de pertença à América” (BERND; CAMPOS, 1995, p.5), e, consequentemente, com a brasilidade, o sentimento nacional. A união dos amantes pode simbolizar a concretização da superação das diferenças culturais e linguísticas, dentre elas a diferença da crença pagã e a europeia cristã: “Ó Virgem, Virgem dos Cristãos formosa”, e o fim da luta bélica (armas europeias) e a das maças, (armas indígenas como o porrete). Aqui, o uso das metonímias maçãs e ferros (grilhões, algemas) representam um duplo sentido ao final do poema, ou seja, será que haverá a rendição definitiva perante um amor sincero?

Assim, quando coloca o autóctone como parte integrante do solo americano, com voz e emoções, o poeta mostra que soube como ninguém compreender a necessidade da construção de uma identidade literária continental, americanista, e nacional, brasílica.

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BERND, Zilá. (Org) Americanidade e transferências culturais. Porto Alegre: Movimento, 2003.

BERND, Zilá; CAMPOS, Maria do Carmo. (orgs.) Literatura e americanidade. Porto Alegre: Ed. da Universidade /UFRGS, 1995.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1971. v.2 DIAS, Antônio Gonçalves. Cantos. CUNHA, C. A. (org.) São Paulo: Martins Fontes, 2001.

______. Poesia e prosa completas. BUENO, A. (org.) Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.

______. Poesia Indianista. GUIDIN, M. L. (org.) São Paulo: Martins Fontes, 2000. ______. Primeiros Cantos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1846.

LOPES, Hélio. Letras de Minas e outros ensaios. São Paulo: Edusp, 1997.

VERÍSSIMO, José. Gonçalves Dias e o grupo maranhense. In: História da literatura brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969, p. 163-179.

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Referências

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