Conselho escolar como instrumento da gestão democrática
José Francisco Lopes Xarão1
Resumo: O trabalho apresenta um relato de experiência da implantação e implementação de
Conselhos Escolares, na Rede Municipal de Educação de São Leopoldo-RS, no período de 2009 a 2012. O objetivo é mostrar como o próprio processo de discussão, acerca da importância e necessidade desse órgão de Gestão Escolar, é já uma oportunidade de exercitar a Gestão Democrática, da e na escola pública.
Introdução
A gestão democrática do ensino público é um princípio da política educacional brasileira consagrado pela constituição de 1988, em seu artigo 206. Posteriormente, em 1996, a lei de diretrizes e bases da educação nacional deu caráter administrativo a esse princípio, ao estabelecer que, ao definir a forma da gestão democrática, em seus sistemas de ensino, a união, os estados e os municípios deverão promover a “participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes” (LDB, Art. 14, II).
Logo após a aprovação da LDB, proliferou pelo país legislações estaduais e municipais instituindo normativas para a gestão democrática da escola pública com o instituto dos conselhos escolares. Embora a lei federal instituísse como um princípio a autonomia dos estabelecimentos de ensino na formulação de seus projetos políticos pedagógicos, nos quais deveriam figurar a forma dessa gestão democrática da escola, incluindo, portanto, a constituição de conselhos escolares, foi rara as iniciativas nesse sentido. Assim, a implantação dos conselhos escolares, como um instrumento da gestão democrática, se deu muito mais por iniciativa dos gestores para cumprir uma legislação federal do que, efetivamente, um movimento da sociedade em democratizar, pra valer, a escola pública. Uma triste contradição, pois a inscrição desses mecanismos, primeiro na constituição federal e depois na lei de diretrizes e bases da educação nacional, foram o produto de muitos anos de luta
do movimento da sociedade civil organizada em defesa da escola pública, gratuita, laica, de qualidade e democrática.
Contribuiu para esse cenário o fato de que a implantação de diversos mecanismos democráticos, estabelecidos pela legislação, coincidiu com o período de desmonte da escola pública. Não foi sem resistência que o movimento popular foi derrotado, em muitas de suas bandeiras, ao ver implantado, da noite para o dia, leis que estabeleciam a gestão democrática da escola pública, sem que nenhum dos seus artigos e parágrafos tivessem sido, ao menos, comunicado previamente, quanto mais discutido amplamente pela comunidade escolar. Em alguns casos, como em São Leopoldo, objeto deste relato de experiência, alguns desses mecanismos foram cassados, como foi o caso da indicação dos diretores das escolas municipais de ensino fundamental pelo voto direto das comunidades escolares.
O que apresentamos a seguir é um relato breve da nossa experiência na gestão municipal da educação, de como uma política pública de democratização da gestão da escola só pode ter sucesso se for implementada e mantida por mecanismos democráticos.
A rede
São Leopoldo situa-se no vale do rio dos sinos, distante 31,4 km da capital gaúcha. A cidade é cortada pelas rodovias BR 116 e RS 240. Foi fundada em 25 de julho de 1824 com a chegada dos primeiros imigrantes alemães. Tornou-se vila em 1º de abril de 1846, e adquiriu o status de município em 1864. São Leopoldo conta com uma população de mais de 210 mil habitantes e uma taxa de urbanização de 99,7%.
A Rede Municipal de Educação de São Leopoldo possuía, em 2012, 46 escolas assim distribuídas: 10 Escolas de Educação Infantil, 35 escolas de Ensino Fundamental e 01 escola de arte. Essa rede atendia, em 2012, Na Educação Infantil (em 10 Escolas Municipais de Educação Infantis - EMEI’S): 2.215 crianças de 0 a 5 anos e 11 meses, em convênios com creches e escolas privadas 2.385 crianças de 0 a 5 anos e 11 meses; no Ensino Fundamental: (em 35 escolas municipais): 20.236
de EF): 1.531 alunos; na Alfabetização de Jovens e Adultos (Projeto CORUJA em 3 das 35 escolas de EF e mais 4 núcleos nas comunidades): 150 alunos; no ProJOvem (em 06 das 35 escolas): 300 alunos; em oficinas de artes na E.M. Artes Pequeno Príncipe: 320 alunos, ou seja, 27.137 alunos/as.
Gestão democrática
Em 2005, com a ascensão da frente popular democrática ao poder municipal, a primeira medida do governo foi restabelecer a eleição direta para diretores e diretoras de escolas do ensino fundamental que havia sido extinto no governo anterior, sob a alegação de que os diretores e diretoras, eleitos pela comunidade escolar, estavam promovendo insubordinação e quebra da hierarquia. Além de restituir esse mecanismo democrático nas escolas de ensino fundamental a nova lei instituiu, nas escolas de educação infantil, essa mesma modalidade de indicação das direções de escola.
Ainda em 2005, ocorreu a primeira conferência municipal de educação da rede municipal, em 40 anos de existência dessa rede. A conferência aprovou a criação do sistema municipal de ensino, a reestruturação do conselho municipal de educação, a revisão dos critérios de repasse de recursos para a autonomia financeira das escolas e indicou a necessidade de criação dos conselhos escolares. Todas as medidas aprovadas foram encaminhadas, exceto a criação dos conselhos. Com a reeleição da frente popular democrática, na área da educação, isso passou a ser uma prioridade.
Foi então que surgiu o dilema: criar uma lei de gestão democrática e fazer com que se cumpra ou fazer uma gestão democrática e criar uma lei que a expresse em termos legais? A saída não era tão simples como pode parecer agora, pois, na cultura das escolas, o que não era regra emanada da mantenedora não precisava ser feito e a participação era quase um tema proibido nas escolas, porque quando havia acontecido fora rechaçado pela administração. O primeiro passo já havia sido dado com a conferência municipal, mas não fora suficiente para criar um movimento próprio. Era preciso criar mais espaços de participação.
A primeira medida foi chamar todos os segmentos da comunidade escolar para discutir a promulgação de um novo regimento padrão para as escolas, uma vez que o vigente era de 12 anos passados. Nossa estratégia foi criar em cada escola núcleos de interessados no debate para serem multiplicadores, na escola, dos temas-chave do regimento. Contribuiu para isso o movimento que já havia sido completado de fortalecimento dos círculos de pais e mestres e a criação de grêmios estudantis em várias escolas.
Paralelo a esse debate que envolveu mais de duas mil pessoas, durante oito meses de discussão, se entregou às escolas sete cadernos do Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares, para serem usados como subsídios nos encontros de formação, previstos na carga horária de cada professor. Cinco escolas se manifestaram sobre o material, em um instrumento eletrônico disponibilizado para as mesmas, mas nenhuma tomou a iniciativa de iniciar, por conta própria, a constituição de seu conselho escolar. A justificativa, em todos os casos, era sempre de que não havia legislação municipal regulando a matéria e que se fizessem depois seriam considerados ilegais. Em vista desse traço da cultura escolar de São Leopoldo decidimos propor, então, que as escolas criassem uma lei municipal que regulamentasse a criação e funcionamento dos conselhos escolares. Para isso, realizaram-se duas audiências públicas e se publicou no site da Secretaria Municipal de Educação um formulário para sugestões.
Também foi realizado um dia de debates nas escolas e colhido as contribuições. Na sequência foi constituído um grupo de trabalho com a incumbência de, a partir das contribuições recebidas, formularem uma proposta de lei. O grupo trabalhou por trinta dias e apresentou um esboço de lei que foi submetido, novamente, ao referendo das escolas e da comunidade em geral, através de um seminário e duas audiências públicas. Outra vez, o grupo se reuniu e de posse de todas as emendas ao projeto, reformulou a proposta e enviou à Câmara Municipal de Vereadores para aprovação. A comissão de educação, daquela casa legislativa, realizou mais uma audiência pública e depois submeteu o projeto de lei ao plenário que o aprovou por unanimidade.
Todo esse processo se deu no período de 2009 a 2011. No dia 15 de abril de 2011 ocorreu a primeira eleição da primeira composição do conselho escolar das escolas municipais. Essa escolha foi o ponto alto de uma trajetória de debates, de convencimento, crítica e autocrítica que mobilizou mais de oito mil pessoas diretamente nas audiências, seminários e reuniões de formação nas escolas.
A forma e o conteúdo
Essa experiência mostrou que o conteúdo da gestão democrática é a sua forma. Lutar para implementar a gestão democrática, discutindo quais instrumentos são os mais apropriados e como eles devem funcionar é já estar fazendo, na prática, a gestão democrática da escola pública. As idas e vindas do projeto de lei para a criação dos conselhos escolares da rede municipal de São Leopoldo nos ensinou que é melhor uma lei com falhas e omissões, mas feita pela comunidade escolar, que uma regra bem estruturada e articulada, do ponto de vista técnico do processo legislativo, porém, distante da realidade das escolas e muito além do grau de consciência adquirido pelos atores no processo de discussão da constituição dos conselhos escolares.
Essa foi também a conclusão da II Conferência Municipal de Educação ocorrida em 2012. Em seu texto final foi consignado que, do ponto de vista dos mecanismos da gestão democrática, a democratização da gestão já estava implementada na rede municipal de educação de São Leopoldo. O desafio que se coloca, daqui em diante, é aprimorar esses mecanismos e garantir seu pleno funcionamento, para que a rede, como um todo, não sofra retrocessos. Assim, de nada adianta a comunidade escolar eleger o diretor ou diretora da escola se esse, durante sua gestão, não promove a formação dos segmentos da comunidade escolar para que esses exerçam, de fato, a gestão na escola, através do conselho escolar. Também, não adianta ter conselho escolar de cartório, com infinidades de atas e reuniões homologatórias das decisões monocráticas do diretor ou diretora. É preciso avançar e fazer cumprir o regimento escolar no capítulo que exige a apresentação do plano escolar anual, onde constem, além do calendário escolar, a previsão de receitas e despesas, os investimentos e as medidas para promover as melhorias que a escola precisa.
Somente essa prática democrática da gestão da escola poderá, no futuro, garantir não só uma escola, mas uma sociedade democrática.
Referências
BRASIL-CONAE-2010- Documento Final - Construindo o Sistema Articulado de
educação: O Plano Nacional de Educação, Diretrizes e Estratégias de Ação.
Brasília MEC-2010. Disponível em:
http://conae.mec.gov.br/images/stories/pdf/pdf/documetos/documento_final_sl.pdf Acesso em 15/07/2013.
BRASIL, LDB. Lei 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm, acesso em 15/07/2013.