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Campus Darcy Ribeiro Prédio da FACE Brasília - DF. NOTA DE ESCLARECIMENTO

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Academic year: 2021

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NOTA DE ESCLARECIMENTO

Assunto: Posicionamento contrário da ANEPCP à aprovação do Projeto de Lei do Senado nº 439 de 2015 de autoria do Senador Donizeti Nogueira

1. Considerando o Projeto de Lei do Senado nº 439/ 2015 (de autoria do Senador Donizeti Nogueira), o qual dispõe sobre o exercício de atividades nos campos da Administração;

2. Considerando que o Projeto de Lei referido estabelece, dentre outros aspectos, que cargos e funções com atribuições voltadas para os campos da Administração, em organizações privadas, não governamentais e públicas, somente poderão ser providos por Tecnólogos e Administradores profissionais regulares na forma da lei, que ficam obrigados a comprovar, anualmente, perante organização empregadora, a regularidade com o Conselho Regional de Administração – CRA. Estabelece multas aplicáveis pelos CRAs;

3. Considerando, ainda, a instituição e o atual processo de consolidação do Campo de Públicas no Brasil;

4. A Associação Nacional de Ensino e Pesquisa do Campo de Públicas firma posicionamento contrário a sua aprovação, de acordo com os argumentos a seguir esboçados:

a) Rechaçamos veementemente o conteúdo expresso no projeto de Lei do Senado nº 439/ 2015, o qual, para nós, apenas representa o desconhecimento acerca do Campo de Públicas no Brasil;

b) Para um melhor entendimento da amplitude do Campo de Públicas no Brasil faz-se necessário ressaltar que a realidade brasileira reflete, tardiamente, a experiência internacional consolidada pela qual, desde os anos 1960 e 70, afirma-se um campo distinto daquele compreendido como administração de negócios (business), composto por cursos como public administration, public management, public policy, public policy and management, public affairs e nonprofit management. Expressão emblemática dessa tendência foi a criação, ainda nos anos 1970, nos Estados Unidos, da NASPAA – National Association of Schools of Public Affairs and Administration, entidade que reúne instituições ofertantes de cursos em todas essas formações;

c)

O Brasil só a partir de 2005, com a criação de grande número de novos cursos de graduação, inicia um movimento em busca do reconhecimento de uma nova área

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de educação no nível superior. Desde então, professores e coordenadores de cursos do Campo de Públicas realizaram 15 Fóruns de coordenadores e professores que reuniram representantes de diversas instituições de educação superior, possibilitando um acúmulo de discussões que apontaram para a consolidação do campo a partir da aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Administração Pública, publicadas no Diário Oficial da União de 14 de novembro de 2011 e da homologação pelo Ministério da Educação (MEC) em janeiro de 2014.

d) Conforme a Carta de Brasília (elaborada durante a realização do IX Fórum de Professores e Coordenadores do Campo de Públicas, que apresenta a trajetória do Campo no Brasil), este processo está assentado em dois conjuntos de referenciais fundamentais:

d.1) Referenciais epistêmicos: As últimas décadas testemunharam deslocamentos de papéis e o aumento da complexidade da esfera pública que, embora mantenha a centralidade do Estado, crescentemente cria novos espaços e incorpora novos atores sociais, ampliando a participação direta da sociedade civil nas políticas públicas e na governança democrática. Trata-se de tendência mundial Trata-seguida pelo Brasil, que Trata-se reflete tanto na produção intelectual sobre a gestão das políticas públicas, quanto na multiplicação de cursos de graduação e pós-graduação para formação de quadros profissionais competentes para atuar na formulação, implementação, análise e avaliação de políticas públicas;

d.2) Referenciais empíricos: Os referenciais epistêmicos acima balizam a constituição de um campo de públicas no Brasil, com a evidente ampliação dos ambientes de atuação profissional. O crescimento do campo é reflexo direto da consolidação democrática do país que, nas políticas educacionais, adotadas inclusive pelo MEC (REUNI), implicaram a criação de cursos especificamente voltados a qualificar e formar quadros para compreender essas mudanças e interferir profissionalmente, atuando na gestão dessas transformações.

e) O reflexo mais visível desse percurso, no Brasil, foi a criação, nos últimos 10 anos, de quase 80 cursos presenciais e cerca de 50 cursos na modalidade Educação a Distância (PNAP/UAB/MEC), com diversas denominações – administração pública, gestão de políticas públicas, gestão pública, gestão social e políticas públicas – e egressos atuando principalmente em organizações da esfera pública; f) Deve-se ressaltar, aqui, que as Diretrizes Curriculares Nacionais em

Administração Pública (Resolução Nº 01 do CNE, de 13 de janeiro de 2014), em seu art. 1º, expressa que: "Ficam instituídas as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Administração Pública, bacharelado, que

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compreendem o campo multidisciplinar de investigação e atuação profissional voltado ao Estado, ao Governo, à Administração Pública e Políticas Públicas, à Gestão Pública, à Gestão Social e à Gestão de Políticas Públicas". [grifos acrescidos]

g) Desse modo, resta claro para nós a possibilidade e a necessidade de aplicação da Diretriz Curricular de Administração Pública aos cursos bacharelados em Gestão de Políticas Públicas, Gestão Pública, Gestão Social e Políticas Públicas. Tal afirmação está respaldada no artigo 1º da referida DCN.

h) O Campo de Públicas no Brasil reconhece, portanto, as DCN de Administração Pública como uma conquista dos discentes e docentes que reivindicaram o reconhecimento de um campo multidisciplinar de formação acadêmica, científica e profissional de nível superior, assim como da pesquisa científica, comprometido com a consolidação democrática;

i) Esse Campo, por sua vez, tem como objetivo formar profissionais, gerar conhecimentos, desenvolver e difundir metodologias e técnicas, propor inovações sociais e promover processos que contribuam para o fortalecimento da esfera pública, a qualificação e melhoria da ação governamental e a intensificação e ampliação das formas de participação da sociedade civil na condução dos assuntos públicos;

j) Nesse sentido, compreende tanto as ações de governo quanto as de outros agentes públicos não governamentais, sobretudo as organizações da sociedade civil sem fins lucrativos;

k) Em vista da necessidade de consolidação do Campo, em Março de 2015 foi criada a Associação de Ensino e Pesquisa do Campo de Públicas (ANEPCP), a qual realizou no final de 2015 o I Encontro Nacional de Ensino e Pesquisa de Campo de Públicas, realizado em Brasília com a participação de 500 alunos, egressos e professores;

l) Para além da associação acima referida, o Campo de Públicas conta também com a atuação da Federação Nacional dos Estudantes dos Cursos do Campo de Públicas (FENEAP), entidade máxima de representação em âmbito nacional dos estudantes de nível superior de Administração Pública, Ciências do Estado, Gestão Pública, Gestão de Políticas Públicas, Gestão Social e Políticas Públicas - o chamado Campo de Públicas. Essa federação foi fundada em 8 de julho de 2007,

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por ocasião do VI Encontro Nacional dos Estudantes de Administração Pública (ENEAP).

m) No ano de 2016, realizou-se a XV Encontro Nacional dos Estudantes de Administração Pública (ENEAP), em Natal/RN. Esse evento contou com 673 participantes de mais de 20 instituições de Ensino Superior das cinco regiões do Brasil, proporcionando a discussão de temáticas chave como a inovação da gestão pública e a diversidade, enquanto desafios da gestão de políticas públicas - contribuindo, igualmente, para a consolidação do Campo de Públicas;

n) Ressalte-se que, durante o referido evento, foi fundada a Associação Brasileira dos Profissionais do Campo de Públicas - Pro Pública. Essa se configura como a entidade de representação máxima em âmbito nacional dos profissionais formados em Administração Pública, Gestão de Políticas Públicas, Gestão Pública, Gestão Social e Políticas Públicas – o chamado Campo de Públicas;

o) Desse modo, é notório que os profissionais formados no Campo já possuem representação própria, motivo pelo qual se torna inaceitável exigir dos profissionais a obrigatoriedade de comprovação de regularidade com o Conselho Regional de Administração – CRA;

p) Portanto, a separação entre as áreas de Administração e Administração Pública deve ser reconhecida, dentre outros motivos, pela existência de representação institucional específica desta última;

q) Ademais, o reconhecimento desta cisão já foi explicitado em outras ocasiões, a exemplo da publicação da Portaria Normativa nº 3, de 6 de março de 2015, a qual estabelecia as regras para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENADE) no ano de 2015. No referido normativo, o Ministério da Educação estabelece, em seu artigo 1º, os cursos a ser avaliados, listando, expressamente, e de modo desvinculado os cursos de administração e administração pública: “ENADE, resolve: Art. 1º O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - ENADE, no ano de 2015, será aplicado para fins de avaliação de desempenho dos estudantes dos cursos: I - que conferem diploma de bacharel em: a)Administração; b)Administração Pública; [...]”

r) Desse modo, conforme já anteriormente expresso, a filiação dos profissionais formados pelos cursos do Campo de Públicas aos Conselhos Profissionais ligados aos cursos de Administração de empresas, igualmente, se mostra inviável e inaceitável em virtude do fato de que os cursos do Campo se reconhecem tão somente nas Diretrizes Curriculares Nacionais dos curso de graduação em

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Administração Pública, publicadas no Diário Oficial da União de 14 de novembro de 2011 e da homologação pelo Ministério da Educação (MEC) em janeiro de 2014;

s) Inexistem, portanto, argumentos suficientes para a aprovação do projeto de lei em comento;

t) Importa frisar que o Campo de Públicas possui como princípios fundamentais a serem atingidos por seus cursos: I - o ethos republicano e democrático como norteador de uma formação que ultrapasse a ética profissional; II - a flexibilidade como parâmetro das Instituições de Educação Superior, para que formulem projetos pedagógicos próprios; III - a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade que garantam a multiplicidade de áreas do conhecimento em temas como política, gestão pública e gestão social e sua interseção com outros cursos (art. 2º, RESOLUÇÃO Nº 1, DE 13 DE JANEIRO DE 2014 - MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CÂMARA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR);

u) O nosso objetivo é propiciar formação humanista e crítica de profissionais e pesquisadores, tornando-os aptos a atuar como políticos, administradores ou gestores públicos na administração pública estatal e não estatal, nacional e internacional, e analistas e formuladores de políticas públicas;

v) Nesse sentido, por tudo o que aqui se afirmou, o desejo do legislador do Projeto de Lei do Senado nº 439 de 2015 – de estabelecer que cargos e funções com atribuições voltadas para os campos da Administração, em organizações privadas, não governamentais e públicas somente poderão ser providos por Tecnólogos e Administradores profissionais regulares na forma da lei, os quais serão obrigados a comprovar a regularidade com o Conselho Regional de Administração – se mostra impróprio e inaceitável.

Pelo exposto, reafirmamos o nosso posicionamento contrário à aprovação do Projeto de Lei do Senado nº 439 de 2015 de autoria do Senador Donizeti Nogueira, em virtude do que pedimos o apoio dos demais parlamentares atentos a essa causa.

Brasília, 14 de dezembro de 2016.

Magda de Lima Lúcio Presidente da ANEPCP

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