Bem estar animal de vacas leiteiras confinadas Amanda Cristina Meletto Prado1, Cláudia Josefina Dorigan2
1,2Centro Universitário Barão de Mauá
[email protected], [email protected]2 Resumo
Nos dias atuais, o bem estar animal é um tema que tem despertado o interesse de muitos pesquisadores e também dos pecuaristas. Sendo assim, esse trabalho foi desenvolvido com o objetivo de fazer um levantamento bibliográfico sobre o tema, para subsidiar outras pesquisas futuras de campo. Muitos trabalhos foram encontrados e foi possível identificar neles a relevância do tema e a importância para a comunidade científica.
Introdução
O bem estar animal dos animais de produção há tempos vem sendo discutido e estudado, porém nos dias atuais percebemos uma maior preocupação, vinda também dos próprios consumidores, com os métodos de manejo utilizados na criação desses animais.
Por muito tempo, só foi buscado a melhora nos índices zootécnicos, sem se atentar ao estado fisiológico do animal, que devido à falta de melhorias
tanto em manejo quanto em instalações, dificultavam a adaptação do mesmo ao ambiente.
Atualmente, o bem-estar animal tem forte presença nos códigos morais e nos pilares éticos de vários países e um tratamento apropriado aos animais não é mais visto como algo que possa ser deixado para a livre escolha dos pecuaristas (LAZARIN e MAZUCATO, 2017).
Segundo Broom e Fraser (2010), em muitos aspectos do manejo de animais de produção, a melhoria do grau de bem-estar leva à melhoria da produção. Se o grau de bem-estar de uma vaca leiteira for melhorado, existirá com frequência uma maior produção de leite e, se o bem-estar de bezerras muito jovens for melhorado, os consequentes aumentos na taxa de crescimento e nas chances de sobrevivência levam a vantagens econômicas para o produtor.
Diante da grandeza do nosso país e das diversidades de sistemas de criação, não é difícil verificar vacas em lactação sofrendo restrições
ambientais, nutricionais e sanitárias (BOND et al., 2012), o que as levam a atingir níveis diferentes de estresse. Bovinos com maiores níveis de estresse tendem a produzir menos, além de apresentar maior risco de acidentes, tanto para os trabalhadores quanto para os próprios animais (PARANHOS DA COSTA et al., 2015).
Diante disso, justifica-se a realização de trabalhos de pesquisa que visam avaliar e melhorar o bem estar dos animais de produção.
Objetivos
O trabalho desenvolvido teve como objetivo realizar um levantamento bibliográfico sobre o tema bem estar animal para subsidiar outras pesquisas futuras de campo.
Metodologia
A metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho foi do tipo qualitativa, baseada em um levantamento bibliográfico acerca do tema proposto. Para tanto, foram realizadas buscas em livros, periódicos e “sites” confiáveis. Após serem encontrados, os conteúdos foram lidos, discutidos e organizados conforme apresentado no item resultados e discussão desse artigo.
A pesquisa bibliográfica é feita a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de web sites. Qualquer trabalho científico inicia-se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto.
Existem, porém, pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta (FONSECA, 2002, citado por GERHARDT e SILVEIRA, 2009). Resultados e discussão
a) Bem estar animal: conceito e formas de avaliação:
Na discussão do bem-estar animal a definição do próprio conceito constitui o primeiro desafio do tema, dada à complexidade do assunto e a grande divergência observada entre os cientistas que atuam na área (MANTECA, 2013).
De acordo com Lima et al. (2013), é um termo subjetivo, influenciado pelas diferentes interpretações das pessoas
e culturas distintas que compõem a sociedade.
Para Bromm e Fraser (2010), o bem estar é uma característica do animal individual, que varia em um contínuo desde baixo até alto grau.
Segundo Paranhos da Costa e Sant’anna (2016), o princípio da boa saúde inclui os critérios de ausência de ferimentos, ausência de doença e ausência de dor.
Para Molento (2005), há também como mensurar o bem-estar animal através de avaliações fisiológicas e comportamentais.
Dada a forte relação entre o bem-estar, sanidade e produtividade animal, práticas desenhadas para promover um bom nível de bem-estar animal frequentemente levam a melhorias na produção animal (FRASER et al., 2009).
Os animais são constantemente acometidos pelo estresse e desenvolvem patologias afetando o estado físico (doenças, atraso no crescimento, prejuízos reprodutivos) e emocional (ansiedade, medo, agressividade) (PINHEIRO e BRITO, 2009).
De acordo com Lima e Barbosa Filho (2013) o estresse é uma reação do organismo a uma reação do ambiente, numa tentativa de manter a
homeostase. Porém quando o estresse é prolongado ou crônico, há mudanças negativas na funções fisiológicas e comportamentais.
É muito difícil mensurar clinicamente o estresse, pois cada animal em resposta ao estresse pode utilizar as defesas biológicas disponível de forma diferente e não há resposta específica aplicada a cada estímulo estressante (Moberg, 2000, citado por PINHEIRO e BRITO, 2009).
Para Lima e Barbosa Filho (2013) uma forma utilizada para avaliar o estresse e bem-estar animal é a incidência de comportamentos anômalos ou estereotipias, que são considerados um redirecionamento de desempenho para os quais o animal tem forte motivação, mas cuja realização está impedida por fatores ambientais.
Muitos trabalhos demonstram que as práticas operativas e de manejo corretas asseguram um maior bem-estar do animal e obtêm melhores resultados econômicos (OLIVEIRA et. al., 2008).
De acordo com Broom e Fraser (2010), em muitos aspectos do manejo dos animais de produção, a melhoria do grau de bem-estar leva à melhoria da produção. Contudo, em outras situações, a melhoria do grau de bem-estar leva à redução nos lucros, por
exemplo, quando a alta densidade de lotação é prejudicial ao bem-estar. Vários métodos de estudo e controle do bem-estar animal são usados hoje em dia. Desde os métodos mais simples como observação do comportamento e mensuração de parâmetros fisiológicos como métodos mais sofisticados como Veit et al. (2018) que usou a bioacústica como
método de avaliação do
comportamento em pastejo de novilhas Girolando.
Paranhos da Costa, et al. (2015) trabalharam com gado leiteiro da raça Gir e Girolando, se atentando aos efeitos genéticos e de manejo sobre o temperamento dos animais.
Broom e Fraser (2010) ainda citam sobre os problemas de saúde que afetam o gado leiteiro sendo eles: claudicação, mastite e quaisquer condições que levem a problemas reprodutivos, incapacidade de
demonstrar respostas
comportamentais normais ou fisiológicas emergências, ou ferimentos.
A mastite, que mesmo com melhorias de higiene na ordenha ainda causa transtornos por tratar-se de um processo inflamatório, mediado por substâncias que causam dor ao animal, e de forma semelhante, as
afecções do casco em bovinos tem alta incidência pois o animal não distribui o peso pelos quatro membros, gerando alterações na locomoção, e, por menor que seja a lesão, a inflamação leva à insensibilização do membro afetado (LAZARIN e MAZZUCATTO 2017).
Atualmente, o Protocolo Welfare Quality® (2009) tem sido aceito pela comunidade científica internacional como uma das melhores maneiras para se avaliar o bem estar em animais de produção. Esta metodologia constitui-se em observações diretas e contínuas dos animais durante o manejo dos mesmos, sem intervenção ou com a intervenção mínima do avaliador. Essas observações têm como objetivo medir os indicadores de bem-estar animal propostos pelo referido protocolo (Welfare Quality Assessment protocol for Cattle, 2009).
Para avaliar os indicadores, o avaliador deve se familiarizar com as instalações (baias, currais, pontos potenciais de observação, etc). Qualquer fator que possa perturbar os animais deve ser evitado, na medida do possível (GARCIA, 2013).
As variáveis observadas são agrupadas em quatro grandes grupos, baseados no Protocolo Welfare
Quality® (2009), que são: Alimentação, Instalação, Saúde e Comportamento dos animais.
b) Histórico do bem estar animal: A utilização de animais para produção desempenhou um papel importante no desenvolvimento da civilização humana, uma vez que os alimentos, o vestuário e o transporte eram obtidos a partir de uma ampla variedade de espécies (BROOM e FRASER, 2010). Entretanto, no século XX a industrialização na agropecuária deu início a um sistema de manutenção de animais em altas densidades de lotação. Nos anos 1970, a criação intensiva de animais levou ao confinamento intenso de bovinos, suínos e aves em muitos países (MOLENTO, 2005).
Diante desse aspecto, em países desenvolvidos, e até mesmo no Brasil, surgiu a preocupação com o mau trato dos animais domésticos em áreas urbanas e com o bem-estar dos animais utilizados na pesquisa e na agricultura (HOTZEL e MACHADO FILHO, 2004). As denúncias e comprovações de maus-tratos e das condições de agravo de bem-estar animal nesses rebanhos levaram os países a criar legislações que disciplinassem essa questão (IMPROTA, 2007).
O livro popular Animal Machines, escrito por Ruth Harrison e lançado em 1964, inaugurou o debate sobre a ética da produção animal na agricultura. Este livro denunciou os maus tratos a que os animais eram submetidos na criação animal confinada na Grã-Bretanha (HOTZEL e MACHADO FILHO, 2004).
Em 1967, o Conselho de Bem-Estar de Animais de Produção (Farm Animal Welfare Council - FAWAC), Inglaterra, estabeleceu um conjunto de “estados” ideais chamados de as “cinco liberdades” dos animais. Assim, todo animal de produção deve estar:
▪ Livre de fome e sede ▪ Livre de desconforto
▪ Livre de dor, lesões e doenças
▪ Livre para expressar seu comportamento normal
▪ Livre de medo e estresse (SAAD et. al., 2011).
A Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) é a organização internacional de referência para a saúde animal e atualmente possui a liderança internacional sobre o bem-estar animal, sendo que este aspecto foi identificado pela primeira vez como prioridade no seu Plano Estratégico de 2001-2005. Inclusive a OIE está apoiando países em desenvolvimento,
para implantar normas de bem-estar animal (PINHEIRO e BRITO, 2009). Em 2008, esse mesmo órgão acima citado publicou O Código Sanitário para Animais Terrestres da OIE de 2008.
No Brasil, a legislação de bem-estar animal teve inicio com o Decreto nº 24.645 de julho de 1934, que estabeleceu medidas de proteção animal. Nossa atual Constituição Federal de 1988, no seu artigo nº 225, dota o poder público de competência para proteger a fauna e a flora, vedando práticas que submetam os animais a crueldade. Nesta lógica a Comissão Técnica Permanente de Bem-Estar Animal do Mapa, instituída através da Portaria nº 185 de março de 2008 (atualizada pela Portaria nº 524 de 2011), tem o objetivo de coordenar as diversas ações de bem-estar animal do Ministério e fomentar a adoção das boas práticas para o bem-estar animal pela cadeia produtiva, sempre embasada na legislação vigente e no conhecimento técnico-científico disponível (MAPA, 2015). Em 2008, o MAPA publicou no diário oficial a Instrução Normativa Nº56 de 2008, que estabelece procedimentos gerais de Recomendações de Boas Práticas de Bem-Estar para animais de produção e de Interesse Econômico –
REBEM, abrangendo os sistemas de produção e transporte de animais. Entre as orientações, destacam-se o cuidado com o manejo dos animais, desde o seu nascimento, e a importância de adequar o transporte para reduzir o estresse e evitar sofrimentos desnecessários (BRASIL, 2008, citado por PINHEIRO e BRITO, 2009).
Conclusão
O bem estar animal, além de maiores ganhos ao produtor, traz ao animal uma melhora na qualidade de vida e nos níveis produtivos. Com isso, concluímos, que o bem estar deve ser cada vez mais discutido e aplicado em propriedades de criação animal para além de agregar valor ao produto final, ser possível oferecer um ambiente adequado e confortável para o animal confinado.
Referências
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