• Nenhum resultado encontrado

Saberes tradicionais sobre as formas de armazenamento de sementes crioulas conservadas on farm na região oeste de Santa Catarina

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Saberes tradicionais sobre as formas de armazenamento de sementes crioulas conservadas on farm na região oeste de Santa Catarina"

Copied!
5
0
0

Texto

(1)

Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 10, Nº 3 de 2015

Saberes tradicionais sobre as formas de armazenamento de sementes crioulas conservadas on farm na região oeste de Santa Catarina

Traditional knowledge and types of storage of landraces seeds conserved on farm in the western region of Santa Catarina State

BURG, Inês C.*¹; PINTO, Tassiane T.*²; SOUZA, Rosenilda de*³; OLIVEIRA, Wagner B. dos S.*4 GONÇALVES, Gabriel M. B.*5; OGLIARI, Juliana B.*6

*Universidade Federal de Santa Catarina, PPG Recursos Genéticos Vegetais, Neabio – Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade.

1 [email protected]; 2 [email protected]; 3 [email protected]; 4 [email protected]; 5 [email protected]; 6 [email protected].

Resumo: Agricultores familiares armazenam suas sementes crioulas para safra seguinte, seguindo os conhecimentos passados de geração a geração. Para acondicionar estas sementes utilizam recipientes que podem influenciar na conservação e na qualidade das sementes. A presente pesquisa objetivou conhecer as diferentes formas de armazenamento de grãos e sementes de variedades crioulas de milho (comum, doce e pipoca) e de arroz de sequeiro, por meio de entrevistas realizadas com agricultores dos municípios de Anchieta, Guaraciaba e Novo Horizonte. Os resultados demonstraram que as sementes de milho são armazenadas principalmente em garrafas pet, enquanto as sementes de arroz são armazenadas em caixas de madeira. O tipo de armazenamento não foi citado pelos agricultores entrevistados como uma das causas de perda de sementes. A partir das indicações dos agricultores é possível afirmar que as formas de armazenamento utilizadas são consideradas viáveis no âmbito da agricultura familiar.

Palavras-chave: agrobiodiversidade; milho comum, milho pipoca; milho doce; arroz de sequeiro.

Abstract: Farmers have historically storage their landraces seeds for the next crop following knowledge passed through generations. To storage these seed they use different materials that can influence the conservation and quality of the seeds. This research wanted to know the different ways of landraces seeds and grains storage of common corn, popcorn, sweet corn and upland rice conserved by farmers of Anchieta, Guaraciaba and Novo Horizonte, cities with known agrobiodiversity located in the west of Santa Catarina State. The ways of storage used by the farmers does not affect the quality of the seeds in the short and medium term. Therefore, for the reality of family farming that demands little quantities of landraces seeds, the traditional ways of storage are viable.

Keywords: agrobiodiversity; common corn; popcorn; sweet corn; upland rice.

Introdução

Os agricultores familiares da região Oeste catarinense usam baixa a média tecnologia no cultivo de variedades crioulas e suas áreas de produção encontram-se, em sua maioria, em locais com topografia acentuada (IBGE, 2010). Nesta região,

(2)

Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 10, Nº 3 de 2015

são cultivadas variedades crioulas de diferentes espécies, onde suas sementes são colhidas, armazenadas e utilizadas na safra seguinte. Para acondicionar estas sementes são utilizados diferentes tipos de recipientes sendo esta prática, alvo de questionamentos quanto a eficiência na manutenção da viabilidade e vigor da semente. A presente pesquisa objetivou conhecer as diferentes formas de armazenamento de grãos e sementes de variedades crioulas de milho (comum, pipoca e doce) e de arroz de sequeiro conservadas por agricultores de Anchieta, Guaraciaba e Novo Horizonte, municípios localizados na região Oeste do estado de Santa Catarina e que possuem uma reconhecida agrobiodiversidade (CANCI, 2006; OGLIARI et al., 2013).

Metodologia

A pesquisa foi realizada junto aos agricultores familiares de Anchieta, Guaraciaba e Novo Horizonte, localizados no Oeste de Santa Catarina, durante os anos de 2012 a 2014, pela equipe do Núcleo de Estudos em Agrobiodiversidade (NEABio/UFSC), a partir de entrevistas semiestruturadas. Foram entrevistados 66 agricultores de Novo Horizonte mantenedores de variedades crioulas de milho comum e pipoca, 15 de Anchieta e 14 de Guaraciaba de milho doce, e 31 de Anchieta e 43 de Guaraciaba de arroz. Os agricultores foram questionados quanto à forma de armazenamento; realização de secagem e; perda de variedade em decorrência da forma de armazenamento. As respostas dos agricultores foram sistematizadas e analisadas por meio de estatísticas descritivas.

Resultados e discussões

Os resultados demostraram que os agricultores armazenam as sementes de variedades crioulas de milho, prioritariamente, em garrafas pet, 77,8% para milho comum e pipoca e 48% para o milho doce (TABELA 1). Essa prática é comum entre os agricultores, como já foi elucidado por Vogt et al. (2009), onde 45% dos agricultores entrevistados em Anchieta afirmaram armazenar as sementes de variedades crioulas de milho para a semeadura na próxima safra, preferencialmente, em litros plásticos descartáveis.

(3)

Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 10, Nº 3 de 2015

Com relação às sementes de arroz, 55,4% são armazenadas em caixas de madeira, chamadas pelos agricultores de “túia”, a segunda forma mais citada, por 25,7% dos agricultores, foi o armazenamento em sacos de ráfia. Tanto as caixas como os sacos de ráfia são alocadas geralmente nos paióis e galpões. Segundo Ranalli et al. (2003) as propriedades funcionais do arroz são influenciados principalmente pela duração do armazenamento, os autores ainda colocam que os diferentes “microambientes” de armazenamento existentes nas propriedades rurais proporcionam condições imprevisíveis para manutenção da qualidade das sementes que devem ser analisadas pontualmente. Guenha et al. (2014) avaliaram a infestação de pragas em estoques de sementes armazenadas por pequenos agricultores do Moçambique, o método tradicional – armazenamento em sacos de ráfia apresentou uma maior densidade de infestação, além disso, as sementes apresentaram quedas no potencial germinativo, quando comparadas ao método de armazenamento em sacos plásticos hermeticamente fechados.

A porcentagem de agricultores que realizam secagem de sementes diferiu de acordo com a espécie estudada. Para as variedades de milho, apenas 10,6% (comum e pipoca) e 27,6% (doce) afirmaram secar as sementes antes do armazenamento. Por outro lado, para as variedades de arroz, 100% dos agricultores afirmaram realizar a secagem de sementes de forma natural, na sombra ou diretamente sob o sol. Este tipo de secagem, sob condições naturais ao sol, tem sido utilizado desde tempos imemoriais para grãos secos, como uma forma de preservação (BASUNIA e ABE, 2001).

No presente trabalho não foram avaliadas a qualidade e vigor das sementes armazenadas pelos agricultores entrevistados. Entretanto, diversos pesquisadores como Camargo e Carvalho (2008), Antonello et al. (2009), Oliveira et al. (2009), Sanazario et al.(2009), Silva (2010), Nunez e Baudet (2012) e Araújo et al. (2013) avaliaram a qualidade de sementes armazenadas por agricultores familiares em embalagens plásticas do tipo pet por um período de 24 meses ou mais e concluíram

(4)

Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 10, Nº 3 de 2015

que as sementes quando acondicionadas com teor de umidade adequada à espécie, mantêm sua qualidade fisiológica por 180 dias ou mais.

TABELA 1. Formas de armazenamento de sementes de variedades crioulas por agricultores familiares.

Sementes Tipo de armazenamento Frequência de citação (%) Milho comum e

pipoca*

Garrafas pet

Espigas no chão do paiol Freezer/refrigerador

Espigas penduradas no paiol Espigas no armazém Grãos no armazém 77,8 9,7 8,3 1,4 1,4 1,4 Milho doce** Garrafas pet

Espigas no chão do paiol Freezer/refrigerador Espigas em casa 48,0 21,0 28,0 3,0 Arroz** Caixa de madeira

Sacos de ráfia Caixa de fibra Garrafas pet Sob lona 55,4 25,7 10,8 6,8 1,3 *Dados obtidos em entrevistas com agricultores de Novo Horizonte.

** Dados obtidos em entrevistas com agricultores de Anchieta e Guaraciaba.

A forma de armazenamento e suas possíveis consequências não foram citadas para nenhuma das espécies como o motivo de perda de sementes. Além disso, a conservação destas sementes ao longo de décadas por meio destes mesmos métodos de armazenamento repassados geração a geração é um ponto a ser enfatizado, pois demonstra que, mesmo com precariedades, ainda são métodos eficazes no que tange a agricultura familiar e suas necessidades anuais por sementes.

Conclusões

As principais formas de armazenamento utilizadas por agricultores familiares do oeste de Santa Catarina foram garrafas pet para as variedades de milho e caixas de madeira para as variedades de arroz. No entanto, estudos a respeito da qualidade e vigor destas sementes devem ser realizados para avaliar os resultados destas formas de armazenamento.

(5)

Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 10, Nº 3 de 2015 Agradecimentos

Aos agricultores entrevistados, ASCOOPER, SINTRAF, ASSO, Secretários Municipais da Saúde e da Agricultura de Anchieta e Guaraciaba, Paróquia Santa Lúcia/Anchieta.

Referências Bibliográficas

ANTONELLO, L. et al. Qualidade de sementes de milho armazenadas em diferentes embalagens. Ciência Rural, v.39, n.7, 2009.

ARAÚJO, S. L. et al. Guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade nas regiões do Cariri, Curimataú e Seridó Paraibano, Cadernos de Agroecologia, v.8, n.2, 2013.

BASUNIA, M. A.; ABE, T. Thin-layer solar drying characteristics of rough rice under natural convection. Journal of food engineering, v. 47, n. 4, 2001.

CAMARGO, R.; CARVALHO, M. Armazenamento a vácuo de semente de milho doce. Revista Brasileira de Sementes, v.30, n.1, 2008.

CANCI, I. Relações dos sistemas informais de conhecimento no manejo da agrobiodiversidade no Oeste de Santa Catarina. 204 p. Dissertação (Mestrado em Recursos Genéticos Vegetais). Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2006. GUENHA, R. et al. Hermetic storage with plastic sealing to reduce insect infestation and secure paddy seed quality: A powerful strategy for rice farmers in Mozambique. Journal of Stored Products Research, v. 59, 2014.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produção Agrícola Municipal: 2010. Disponível em: http://cidades.ibge.gov.br/xtras/home.php. Acesso: 12/03/2014.

NUÑEZ, P.B.P.; BAUDET, L. M. L. Armazenamento de sementes. In: PESKE, S. T et al. Sementes: fundamentos científicos e tecnológicos. 3. ed. Pelotas: UFPel, 2012.

OGLIARI J. B.; KIST, V.; CANCI, A. The participatory genetic enhancement of a local maize variety in Brazil. In: de BOEF W. S.; SUBEDI, A.; PERONI, N.; THIJSSEN, M.; O’KEEFFE, E. (eds). Community biodiversity management, promoting resilience and the conservation of plant genetic resources. Routledge, Oxon, Ed. 1, p. 265-271, 2013. OLIVEIRA, A. C. S.; COELHO, F. C.; VIEIRA, H. D. Qualidade de Sementes de Milho Armazenadas em Embalagens Alternativas. Resumos do VI CBA e II CLAA, Revista Brasileira de Agroecologia, v.4, n.2, 2009.

RANALLI, R. P.; HOWELL JR, T. A.; SIEBENMORGEN, T. J. Effects of controlled ambient aeration on rice quality during on-farm storage. Cereal chemistry, v.80, n.1, 2003.

SANAZARIO, A. C. et al. Armazenamento de sementes de milho em recipientes reutilizáveis. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 4, n.2, 2009.

SILVA, F. S. et al. Viabilidade do armazenamento de sementes em diferentes embalagens para pequenas propriedades rurais. Revista de Ciências Agro-Ambientais, v.8, n.1, 2010. VOGT, G. A. A dinâmica do uso e manejo de variedades locais de milho em propriedades agrícolas familiares. 116 p. Dissertação (Mestrado em Recursos Genéticos Vegetais). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2005.

Referências

Documentos relacionados