TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO DÉCIMA OITAVA CÂMARA CÍVEL 1 APELAÇÃO CÍVEL

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APELAÇÃO CÍVEL 2009.001.27482

APELANTE: LAUDEMIRA LEONCIA DA SILVA APELADO: LUIZ FELIPE WHYTE DYLONG

PROCESSO CIVIL – APELAÇÃO – ADJUDICAÇÃO COMPULSÓRIA – PROMESSA DE CESSÃO DE DIREITOS SOBRE IMÓVEL COM QUITAÇÃO DO PREÇO – NEGÓCIO JURÍDICO COM REGISTRO IMOBILIÁRIO – TRANSFERÊNCIA DA POSSE OCORRIDA HÁ MAIS DE TRINTA ANOS. – A escritura de promessa de compra e venda foi firmada pelo filho dos vendedores (a apelante e seu marido) nomeado procurador através de mandato outorgado por instrumento público. - Procuração reconhecida como válida após perícia grafotécnica demonstrando verdadeira a assinatura do marido da apelante que havia sido declarado ausente e que reapareceu. – A própria apelante confirma ter outorgado a procuração ao seu filho. – AUSÊNCIA: o reaparecimento do ausente lhe assegura imediata retomada da administração de seus bens. – RELEVÂNCIA DA NATUREZA CONSTITUTIVA DA SENTENÇA SOMENTE PARA A VALIDADE DOS ATOS PRATICADOS PELA CURADORA. – A própria curadora firmou a procuração juntamente com o curatelado que ao reaparecer reassumiu a gestão de seu patrimônio. – É VÁLIDO O MANDATO OUTORGADO PELO AUSENTE QUE REAPARECEU PARA CONSTITUIR PROCURADOR, MESMO QUE TENHA NOVAMENTE DESAPARECIDO. – NORMAS DERIVADAS DO NOVO CÓDIGO CIVIL (ARTS. 36 E 39) E DO CPC (ART. 1.162,I) INDICAM QUE O AUSENTE NÃO É INCAPAZ: em qualquer lugar onde se encontre, enquanto vivo, a sua capacidade está íntegra e seu comparecimento ou de procurador ou de quem o represente faz cessar a curatela. – PRESERVAÇÃO DO INTERESSE DE TERCEIROS DE BOA-FÉ. – Confirmação da sentença que determinou a adjudicação compulsória. - APELO DESPROVIDO.

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Vistos e examinados estes autos, ACORDAM os

Desembargadores da Décima Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por MAIORIA, nos termos do voto do relator designado, em conhecer da apelação e NEGAR-LHE PROVIMENTO.

VOTO DO RELATOR DESIGNADO

Presentes as condições recursais (legitimidade, interesse e possibilidade jurídica) e pressupostos legais (órgão investido de jurisdição, capacidade recursal das partes e regularidade formal – forma escrita, fundamentação e tempestividade), a apelação deve ser conhecida.

Ousei divergir do eminente relator original pelas seguintes razões:

O outorgante da procuração – pai do mandatário e marido da apelante – estava sob curatela em razão de sua ausência.

A curadora, encarregada de zelar pelo patrimônio do ausente, foi nomeada para o exercício do encargo em 29.12.1971, sendo a sentença de natureza constitutiva registrada no 2º Ofício de Registro de Interdições e Tutelas, conforme se vê da certidão de fls. 354.

Em 02 de fevereiro de 1977, o ausente compareceu juntamente com sua curadora ao 8º Ofício de Notas e, ambos, casados pelo regime da comunhão de bens, nomearam como procurador o filho do casal Loucinval Salvador da Silva.

A curatela dos ausentes se constitui com a sentença. A natureza constitutiva da sentença significa que os atos do curador somente serão

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eficazes em relação ao patrimônio do ausente após a efetiva constituição da curatela que depende da assinatura do termo de compromisso. Na lição de Marcelo Rodrigues (Emancipação, interdição e ausência – p. 724) “o registro é pressuposto para a assinatura do termo de curatela e a inexistência de qualquer um destes acarretará a nulidade dos atos praticados pelo curador.”

O registro da curatela do ausente serve para dar publicidade ao fato de que o patrimônio do ausente está sendo gerido por outra pessoa porque o titular do patrimônio está em local desconhecido, não forneceu notícias sobre seu paradeiro e não constituiu procurador para cuidar de seus bens.

A Lei dos Registros Públicos determina o registro da sentença (arts. 29, VI e 94) e mera averbação da cessação de ausência pelo aparecimento (art. 104). Portanto, o fato do retorno do ausente faz cessar a curatela, devendo a circunstância ser simplesmente averbada para assegurar a publicidade e facilitar a resolução de algum conflito entre atos praticados pelo curador e pelo próprio “ausente”. O artigo 1.162, I do CPC afirma a cessação da curadoria do ausente pelo simples comparecimento do ausente, do seu procurador ou de quem o represente.

O ausente não é incapaz. Conforme observaram Costa Loures e Dolabela Guimarães, citados por João Baptista Villela na obra “Princípios do Novo Código Civil Brasileiro” (Quartier Latin, 2008), o novo código afastou o conceito de incapacidade quando normatizou a “Curadoria dos bens do ausente” (art. 22 e seguintes), porque na situação “particular do ausente, o de que se cuida é tão-somente de prover os meios necessários para a gerência ou administração do seu patrimônio, deixado ao abandono com a ausência. Em qualquer lugar

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onde possa ele se encontrar, enquanto vivo, a sua capacidade há de ser presumidamente integra.”

Compatibilizando os princípios e as normas da antiga legislação com as regras vigentes, podemos concluir que a “curatela dos ausentes” se constitui com a sentença e que o registro garante a publicidade necessária à integral validade dos atos praticados pelo curador. Entretanto, o negócio jurídico celebrado pelo “ausente” também é válido devendo eventual conflito ser solucionado nos limites das forças do patrimônio do próprio “ausente”.

Na hipótese em julgamento sequer ocorreu o conflito entre negócios celebrados pela curadora e pelo próprio ausente. Houve um negócio jurídico com manifestação conjunta de vontade. A curadora/cônjuge e o ausente outorgaram procuração outorgando poderes ao filho para vender o imóvel situado na Estrada do Morgado, 135 em Jacarepaguá, podendo o mandatário receber o preço, dar quitação e transmitir o domínio.

A autenticidade da procuração foi confirmada através de exame grafotécnico (fls. 268/277) em que o perito afirma que a assinatura consignada no livro P-613, fls. 159-v, em 02.02.1977 é de autoria do punho de Benedito Antonio da Silva.

Superada eventual falsidade da assinatura resta examinar os efeitos do reaparecimento do ausente no local do seu domicílio para constituir procurador para alienar bem do seu patrimônio.

Atualmente não há dúvida, conforme lição de João Baptista Villela, diante das normas derivadas dos artigos 36 e 39 do NCCB que o “ausente recupera integralmente a senhoria dos seus interesses quando reaparece.”

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A procuração foi assinada pelo ausente e pela curadora afastando qualquer possibilidade de divergência na gestão patrimonial. No caso, poder-se-ia afirmar uma superposição de legitimados à gestão do patrimônio. A curadora poderia celebrar o negócio jurídico sem a necessidade da presença do “ausente”. Tendo comparecido para outorgar a procuração em conjunto com o “curatelado” a apelante agiu em nome pessoal e seu marido reassumiu a gestão do seu patrimônio. O posterior desaparecimento não afasta a validade da procuração outorgada porque a ausência somente estaria novamente configurada se não houvesse procurador responsável pela gestão dos bens daquele que se encontra em local incerto e desconhecido.

No exercício do mandato o filho do casal prometeu vender o imóvel indicado na procuração para Osiris Alves Pereira Nunes que pagou integralmente o preço e foi imitido na posse. (fls. 185/186) A apelante não conseguiu demonstrar a invalidade do instrumento de mandato no qual consta sua assinatura.

Posteriormente o Espólio de Osiris cedeu os direitos aquisitivos para Luiz Felipe White Dylong que busca a adjudicação compulsória que deve ser deferida em respeito ao terceiro de boa-fé que, em razão do tempo decorrido e da soma das posses, poderia até usucapir o imóvel.

Voto pelo conhecimento e desprovimento do apelo.

Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2010.

Cláudio dell´Orto

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