PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PARANÁ COMARCA DE CORBÉLIA
VARA DA FAZENDA PÚBLICA DE CORBÉLIA - PROJUDI
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Autos nº. 0002499-10.2020.8.16.0074 Processo: 0002499-10.2020.8.16.0074
Classe Processual: Ação Civil de Improbidade Administrativa Assunto Principal: Dano Ambiental
Valor da Causa: R$1.000.000,00
Autor(s): MINISTERIO PUBLICO ESTADUAL DE CORBELIA Réu(s): Município de Corbélia/PR
DECISÃO
1. Recebo a inicial eis que presentes os requisitos legais (art. 330 c/c art. 1º, I, da Lei 7.347/85).
2. Dada a natureza do litígio, a audiência prevista no artigo 334 do CPC não é obrigatória, razão pela qual deixo de designá-la.
Ademais, o Ministério Público tem a possibilidade de realizar Termo de Ajustamento de Conduta na esfera extrajudicial, não precisando, a princípio, de designação de audiência para tal desiderato.
3. Passo a análise do pedido liminar formulado pela parte autora.
Trata-se de Ação Civil Pública para imposição de obrigação de fazer proposta pelo Ministério Público do Estado do Paraná em face do Município de Corbélia.
Em síntese a parte autora sustenta que: a) em 2011 foi instaurado o Inquérito Civil n. MPPR0042.11.000020-7 com a finalidade de apurar as irregularidades na deposição de resíduos sólidos neste Município e Comarca de Corbélia; b) a fim de sanar as irregularidades noticiadas, em 2013 foi elaborado Termo de Ajuste de Conduta com o requerido, mas não houve o cumprimento das obrigações assumidas, não havendo possibilidade de executá-lo, haja vista que a situação fática já se alterou; c) em 2014 o então Prefeito comunicou que no final de 2012 o aterro sanitário estava saturado, razão pela qual em 2013 houve um remanejamento de resíduos, sendo possível realisar o depósito por mais um tempo, até definitivamente esgotar a sua capacidade; d) diante desse quadro, o Município contratou uma empresa para dar destinação aos resíduos e informou que estava providenciando o saneamento das irregularidades; e) em 2014 o IAP informou que o Município não havia apresentado Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos; que vários materiais passíveis de reciclagem estavam sendo destinados ao aterro, que não havia compostagem e que por haver depósito de lixo doméstico a céu aberto, com presença de chorume, lavrou Auto de Infração Ambiental em desfavor do ente municipal; f) Em novembro/2014 o instituto ambiental informou que o município havia cessado a disposição
de resíduos domiciliares no aterro sanitário, enviando estes a aterro terceirizado, o qual ainda estava pendente de licenciamento, local onde verificou-se a presença de catadores separando resíduos recicláveis; g) diante deste cenário, foi solicitada a realização de vistoria pelo Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Proteção ao Meio Ambiente, onde, ainda, se verificou irregularidades; h) em fevereiro/2018 o IAP informou que no município há um terminal de transbordo que encaminha os resíduos à empresa Sabiá Ecológico e que embora tenha havido a solicitação de licença ambiental, sua emissão não foi concedida por não haver as condições necessárias para a sua aprovação.
Requer a concessão de tutela de urgência para determinar que o Município de Corbélia, no prazo de 60 (sessenta) dias cesse o depósito de resíduos no denominado terminal de transbordo.
Intimado para se manifestar, o Município requerido apresentou manifestação contrária ao pedido liminar, sob o argumento de que não existem irregularidades no local de transbordo (mov. 9.1).
É o relatório. Decido.
Primeiramente, observo a Secretaria que o despacho de mov. 6.1 determinou a intimação do ente público para se manifestar em 72 horas. Não obstante, o prazo foi dirigido em dias úteis, o que retardou a análise da medida liminar.
Ainda, a intimação não foi direcionada com urgência, fazendo com quê o Município não fizesse a leitura da intimação antes do prazo de leitura automática pelo Projudi.
Dessa forma, para que situações como estas não se repitam, advirto que havendo impossibilidade técnica de intimação em horas pelo sistema projudi, esta deverá ser realizada pessoalmente e com urgência que lhe é determinada.
Superada esta questão, passo a análise do pedido liminar.
O livro V do Código de Processo Civil, como forma de minimizar o impacto do decurso do tempo na prestação jurisdicional, previu o instituto da tutela provisória, a qual pode fundamentar-se em urgência ou evidência.
A tutela provisória de urgência pode ser de natureza cautelar ou satisfativa e pode ser concedida em caráter antecedente ou incidental (CPC, artigo 294).
Essa possibilidade de antecipar e/ou assegurar, no todo ou em parte, o efeito da tutela jurisdicional pretendida, foi consagrada por intermédio do artigo 300 do Código de Processo Civil, que dispõe:
Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.
Quanto ao primeiro requisito, é oportuno trazer à colação o ensinamento dos Professores Luiz Marinoni, Sergio Arenhart e Daniel Mitidieiro:
"3. Probabilidade do direito. No direito anterior a antecipação da tutela estava condicionada à existência de "prova inequívoca”' capaz de convencer o juiz a respeito da "verossimilhança da alegação", expressões que sempre foram alvo de acirrado debate na doutrina. O legislador resolveu, contudo, abandoná-las, dando preferência ao conceito de probabilidade do direito. Com isso, o legislador procurou autorizar o juiz a conceder tutelas provisórias com base em cognição sumária, isto é, ouvindo apenas uma das partes ou então fundado em (vale dizer, sem que tenham sido colhidas
quadros probatórios incompletos
todas as provas disponíveis ·para o esclarecimento das alegações de fato). A probabilidade que autoriza o emprego da técnica antecipatória para a tutela dos direitos é a probabilidade lógica - que é aquela que surge da confrontação das alegações e das provas com os elementos disponíveis nos autos, sendo provável a hipótese que encontra maior grau de O juiz tem que se confirmação e menor grau de refutação nesses elementos.
convencer de que o direito é provável para conceder tutela provisória.” (Novo Código de Processo Civil Comentado; São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 312). Grifei.
Com relação ao perigo de dano irreparável ou de difícil reparação, sua exegese deve ser feita não só à luz de situações de efetivo dano, mas, sim, aliado ao conceito de urgência na prestação jurisdicional.
A esse respeito Cândido Rangel Dinamarco discorre que:
Consiste na iminência de um mal ou prejuízo, causado ou favorecido pelo correr do tempo (o tempo-inimigo, de que falava Carnelutti), a ser evitado mediante as providências que o juiz determinará. Embora seja inevitável alguma dose de subjetivismo judicial na apreciação do periculum, sugere-se que o juiz leve em conta o chamado juízo do mal maior, em busca de um legítimo equilíbrio entre as partes – indagando, em cada caso, se o autor sofreria mais se nada fosse feito para conter os males do tempo, ou se sofreria mais o réu em virtude da medida que o autor postula.” (op. cit., páginas 381/382).
No presente caso, verifica-se a presença dos requisitos autorizadores da medida. Conforme constou no relatório de vistoria realizado pelo Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Proteção ao Meio Ambiente (mov. 1.11): a) A estação de transbordo opera sem licenciamento ou autorização ambiental pelo Instituto Ambiental do Paraná; b) Há necessidade de adequação na área de carregamento dos resíduos na estação de transbordo no tocante à impermeabilização, canaletas no entorno e ligação do efluente gerado (chorume) com caixa de contenção; c) [...]; d) Não há tratamento da fração orgânica dos resíduos, sendo o mesmo encaminhados para aterro sanitário pertencente à empresa Sabiá Ecológico Transporte de Lixo Ltda e localizado em Nova Esperança do Sudoeste; e) Não há placa de identificação da área do transbordo de resíduos.
As conclusões apuradas pelo centro de apoio são verossímeis quando comparadas com as demais informações constantes nos autos que atestam a existência de irregularidades no
depósito de resíduos do Município, mormente o auto de infração ambiental (mov. 1.8) e a informação prestada pelo IAP em mov. 1.14, que demonstra que não ainda não foi concedida a licença ambiental da estação de transbordo em razão da ausência de condições necessárias para a sua aprovação.
Ressalta-se que as irregularidades estão sendo noticiadas ao Município desde 2012 e até o momento o Município tem caminhado a passos lentos, apontando poucas soluções para o saneamento integral das irregularidades.
Em que pese o Município ter se manifestado em mov. 9, alegando que não há irregularidades, sequer se pronunciou sobre os pontos levantados pelo centro de apoio técnico do Ministério Público.
Os documentos juntados em mov. 9, apesar de atestarem a regularidade da empresa contratada pelo Município para fazer a destinação dos resíduos, não demonstram o cumprimento das exigências apontadas pelo Ministério Público.
O Município alega que requereu a licença ambiental e, por motivos não esclarecidos, a autarquia estadual arquivou o processo sem antes intimar/notificar o requerido. Ocorre que tal informação vai de encontro aquela de mov. 1.12, que consta que a licença não foi concedida por haver irregularidades.
Observa-se que a inércia do Município em tomar as providências indicadas viola o artigo 225 da Constituição Federal, o qual assegura o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
As provas acostadas junto à inicial e não elidida pelos documentos de mov. 9, demonstram fortes indícios de que o requerido não vem dando o adequado destino e tratamento dos resíduos do Município, o que coloca em risco a saúde da população e gera risco potencial de degradação do meio ambiente.
As alegações do requerido em sentido contrário demandam maior dilação probatória, razão pela qual, havendo dúvida, é necessário adotar a medida que melhor favoreça o meio ambiente que, no presente caso, se traduz no deferimento da medida liminar.
Nesse sentido:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO POPULAR. DEPÓSITO DE RESÍDUOS SÓLIDOS A CÉU ABERTO. TUTELA NÃO CONCEDIDA PELO JUÍZO . PRINCÍPIO DO E DAA QUO IN DUBIO PRO NATURA PRESERVAÇÃO. LAUDO DE CONSTATAÇÃO. PROVA DE DISPOSIÇÃO INADEQUADA DE RESÍDUOS SÓLIDOS EM ATERRO SANITÁRIO DA ESTRADA MELISSA. DEVER DO PODER PÚBLICO EM PRESERVAR E PROTEGER O MEIO AMBIENTE. PRESENÇA DOS REQUISITOS AUTORIZADORES DA TUTELA DE URGÊNCIA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO PARCIALMENTE. (TJ-PR - AI: 00398351320198160000 PR
0039835-13.2019.8.16.0000 (Acórdão), Relator: Desembargador Luiz Mateus de Lima, Data de Julgamento: 11/12/2019, 5ª Câmara Cível, Data de Publicação: 12/12/2019)
MEIO AMBIENTE. CAUTELAR INCIDENTAL EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA. PEDIDO DE LIMINAR OBJETIVANDO O LACRE DE EDIFICAÇÕES E A INTERRUPÇÃO DE ATIVIDADES AGROPASTORIS DESENVOLVIDAS EM IMÓVEL INSERIDO NO PARQUE DA SERRA DO TABULEIRO. ÁREA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL. APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DA PREVENÇÃO E DA PRECAUÇÃO. RECURSO PROVIDO. Sob a regência dos princípios da "prevenção" e da "precaução", o Judiciário deve, como regra e com larga margem de discricionariedade, atuar sempre na defesa antecipada dos valores a que o Direito Ambiental visa proteger, orientando-se pela premissa in dubio pro meio ambiente. (TJ-SC - AG: 807721 SC 2008.080772-1, Relator: Newton Janke, Data de Julgamento: 12/02/2010, Segunda Câmara de Direito Público, Data de Publicação: Agravo de Instrumento n. , de Palhoça)
MENÇÃO DE DECISÃO LIMINAR EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA SOBRE A QUAL AS PARTES TINHAM CIÊNCIA. AUSÊNCIA DE PREJUDICIALIDADE. INSTRUMENTALIDADE DAS FORMAS. ECONOMIA PROCESSUAL. 2. TEMPESTIVIDADE DA CONTESTAÇÃO. REVELIA. PROTEÇÃO AMBIENTAL. DIREITO INDISPONÍVEL. IMPOSSIBILIDADE DE QUE OS EFEITOS DA REVELIA OPEREM CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. 3. RENOVAÇÃO DE LICENÇAS AMBIENTAIS. IMPOSSIBILIDADE. NÃO COMPROVAÇÃO DO FUMUS BONI IURIS E PERICULUM IN MORA. ARGUMENTAÇÃO INCAPAZ DE MITIGAR INDÍCIOS DE IRREGULARIDADES. VEGETAÇÃO EM REGENERAÇÃO. PRINCÍPIOS DE DIREITO AMBIENTAL. DEVER DE PROTEÇÃO E PRECAUÇÃO. IN DUBIO PRO NATURA. ENTENDIMENTO DO STJ. 4. HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA. MANUTENÇÃO DO PATAMAR FIXADO NA ORIGEM. COMPLEXIDADE DA CAUSA E ZELO DO PATRONO.RECURSO DESPROVIDO. (TJPR - 4ª C.Cível - 0010445-66.2014.8.16.0131 - Pato Branco - Rel.: Desembargador Luiz Taro Oyama - J. 17.03.2020)
No que se refere risco de irreversibilidade do dano a ser reparado, conquanto presente tanto para o Município como para a coletividade, dada a natureza do litígio em questão, entendo que deve ser mitigado em relação à parte autora.
Isso porque a cessação do depósito de resíduos no determinado terminal de transbordo poderá ocasionar maiores gastos para o Município, com o redirecionamento dos resíduos para outro local adequado.
Por outro lado, o prejuízo da sociedade poderá ser maior se autorizar a manutenção do depósito em desconformidade com as regras ambientais, haja vista a possibilidade concreta de contaminação da população local.
Ou seja, ambos os prejuízos poderão ser irreversíveis.
Dessa forma, estando-se diante de um caso de irreversibilidade recíproca, bem como sopesando os interesses envolvidos e a tutela dos direitos sociais em questão, entendo que o risco deve ser mitigado em relação à coletividade.
Ante o exposto, CONCEDO a liminar pleiteada para o fim de determinar que, no prazo de 60 (sessenta) dias, o requerido se abstenha de realizar o depósito dos resíduos do município no local denominado como terminal de transbordo ou adote todas as medidas necessárias, mormente licença ambiental do IAP para continuação das atividades, sob pena de multa diária de R$ 1.000,00 (um mil reais), limitada, desde já a R$500.000,00 (quinhentos mil reais).
4. Intimem-se as partes desta decisão.
5. Cite-se a parte requerida para, no prazo de 30 (trinta) dias, apresentar contestação (art. 335 c/c art. 183, ambos do CPC)
6. Posteriormente à contestação, faça a Secretaria da Vara a intimação da autora, para que se manifeste nos casos de ocorrência das hipóteses dos artigos 350 à 352 do CPC, no prazo de 30 (trinta) dias, para opor as considerações que justificadamente entender procedente.
7. Se com a réplica for apresentado documento novo, intime-se a parte requerida para se manifestar, querendo, em 30 (trinta) dias (art. 437, §1º c/c art. 183, ambos do CPC).
8. Na sequência, ainda que transcorrido o prazo in albis, o Cartório deverá intimar as partes para, no prazo de 10 (dez) dias, especificarem as provas que pretendem produzir, ressaltando-se que a especificação de provas não se confunde com o protesto genérico por elas, ocasião em que as partes também poderão se manifestar quanto à possibilidade de conciliação, a fim de se evitar uma audiência infrutífera, sendo o silêncio entendido como negativa.
No mesmo prazo, após o cotejo da inicial, contestação, réplica e elementos documentais porventura já acostados aos autos, verificando se há matérias admitidas ou não impugnadas, as partes poderão indicarem que questões de direito entendem ainda controvertidas e relevantes para influenciar a decisão do mérito (art. 357, IV, do CPC)
Ainda, o Ministério Público deverá se manifestar sobre a possibilidade de realização de Termo de Ajustamento de Conduta, nos termos do art. 6º da Lei 7.347/85.
9. Após, conclusos para saneamento ou julgamento antecipado do feito. Intimações e diligências necessárias.
Corbélia, datado e assinado eletronicamente.
Hellen Regina de Carvalho Martini Oliveira Juíza de Direito