Colégio Dante Alighieri
Ano XVI - Número 44 - dezembro de 2020
ISSN 1980-637X
Publicação do
DANTECultural
DC
TRADIÇÃO EM MEIO
À PANDEMIA
LA TRADIZIONE NELLA PANDEMIA
Le festività italiane a San Paolo hanno cambiato forma, ma non hanno mancato di celebrare San Vito e la Madonna Achiropita — né di produrre fogazza, ghimirella, cannoli e altre prelibatezze
Festas italianas de São Paulo
mudaram de formato, mas não
deixaram de celebrar São Vito e
Nossa Senhora Achiropita – e nem
de produzir fogazza, ghimirella,
cannoli e outras delícias
{EDITORIAL}
CARTA AO
LEITOR
Ao longo de 9 meses de pandemia, a possibilidade de contar com os recursos tecnológicos, especialmente o acesso à internet e as redes sociais, nos deixou menos sozinhos. Muitas das atividades presenciais migraram para o ambiente on-line com sucesso. Mas o contato humano, o abraço e as celebrações coletivas têm nos feito muita falta. Para as pessoas envolvidas na organização das festas italianas de São Vito e da Nossa Senhora da Achiropita, as comemorações deste ano foram bem mais limitadas. Mas, como conta nossa reportagem de Capa, elas fizeram o possível para manter as homenagens ao santo e à santa — e entregar as delícias da cozinha para quem espera o ano todo para saboreá-las. O médico patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, está na Entrevista desta edição. Saldiva, que é ex-aluno do Dante, teve a rotina intensificada por conta da pandemia de Covid-19, já que está envolvido com estudos que analisam clinicamente o comportamento do coronavírus no corpo. A atração pelas pesquisas vem desde os tempos de Colégio, como ele próprio nos conta a partir da página 18.
Mas também de leveza tratamos por aqui: no ano em que se celebra o centenário de nascimento do autor Gianni Rodari, a DC 44 traz uma reportagem sobre o legado do italiano que defendia a fantasia e a imaginação como elementos imprescindíveis para transformar o mundo em um lugar melhor. Sua obra é dedicada ao público infantil, mas certamente pode inspirar também a nós, adultos.
As páginas dedicadas aos comes (e bebes) deste número da revista vêm equilibradas em prazeres e autocuidado: em Gastronomia, a história e os pratos saborosos do TonToni Trattoria, casa que tem à frente o chef Gustavo Rozzino, que aprendeu a cozinhar com o avô ainda na infância. No Perfil, o barman e empresário Ale D’Agostino conta como começou a vender drinks engarrafados — com destaque para o Negroni (feito de Campari, vermute tinto e gim). Já na seção Mesa Consciente, a chef Silvia Percussi, nossa ex-aluna e colaboradora, compartilha um hábito familiar: o de uma dieta in bianco, mais leve e saudável, para purificar o organismo depois dos abusos à mesa — fica como sugestão para o pós-festas de fim de ano.
Por fim, no Papo Aberto desta edição, a professora Elenice Ziziotti, diretora de Relações Humanas e Convivência do Colégio, conta sobre o trabalho que vem sendo feito na área, criada em 2019.
Boa leitura!
FERNANDO HOMEM DE MONTES PUBLISHER
Traduzione della lettera al lettore a pagina 57
DIRETORIA EXECUTIVA
JOSÉ LUIZ FARINA
Presidente
MÁRIO EDUARDO BARRA
Vice-Presidente
FRANCISCO PARENTE JÚNIOR
diretor secretário
PAULO FRANCISCO SAVOLDI
2º diretor secretário
JOÃO RANIERI NETO
diretor Financeiro
MILENA MONTINI
2º diretor Financeiro
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2ª diretora adjunta
SALVADOR PASTORE NETO
diretor adjunto
SÉRGIO FAMÁ D’ANTINO
diretor adjunto
SILVIO MARIA CRESPI
diretor adjunto
DIRETORIA EDUCACIONAL
VALDENICE MINATEL MELODE CERqUEIRA
diretora-Geral educacional
ANGELADE CILLO MARTINS
diretora PedaGóGica
educação inFantile ensino Fundamental 1
SANDRA MARIA RUDELLA TONIDANDEL
diretora PedaGóGica
ensino Fundamental 2 e ensino médio
ELENICE MARIA BONIOLO ZIZIOTTI
diretorade relações Humanase conViVência
PUBLIShER: Fernando Homemde montes
EDITORA: marcella cHartier
(jornalistaresPonsáVel - mtb: 50.858)
PROJETO GRÁFICO:
GraPPa marketinG editorial
REVISÃO: camillade rezende
DIAGRAMAçÃO: simone alVes macHado
VERSÃOEMITALIANO: mayara neto/bruno Vianello
REVISÃODOITALIANO : luciana duarte baraldi COLABORADORES:
adriano de luca, elena Wesley, Giacomo Vicenzo, laura
FolGueira, luisa alcantarae silVa, luisa destri, Pâmela
carbonari, renata miWa, silVia Percussi
TIRAGEM: ediçãodiGital - coléGio dante aliGHieri - alameda
jaú, 1061. são Paulo-sP - Fone: (11) 3179-4400 WWW.
coleGiodante.com.br
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asdeclaraçõesdenossosentreVistadosnãoreFletem, necessariamente, aoPiniãodo coléGio.
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Fone: (11) 3179-4400 WWW.coleGiodante.com.br éumaPublicaçãodo
coléGio dante aliGHieri
DANTECultural
(issn 1980-637X)
DC
Capa/08
Copertina/08
Entrevista/18
Intervista/18
Literatura/24
Letteratura/24
Espaço Aberto/28
Spazio Aperto/28
Centro de Memória/30
Centro della Memoria/30
Cultura/34
Cultura/34
Ensaio Fotográfico/38
Servizio fotografico/38
Gastronomia/46
Gastronomia/46
Perfil/50
Profilo/50
Mesa Consciente/52
Tavola Consapevole/52
Papo Aberto/54
Parliamoci chiaro/54
CAPA
A pandemia impossibilitou as
aglomerações — mas nem por isso
os responsáveis pela organização das
festas de São Vito e de Nossa Senhora
Achiropita deixaram de celebrar e de
produzir as delícias que, neste ano,
também foram entregues no sistema
delivery
08
COPERTINA
La pandemia ha reso impossibile l’assembramento, ma le
persone responsabili dell’organizzazione delle feste di San
Vito e della Madonna Achiropita non hanno mancato di
celebrare e produrre le prelibatezze che, quest’anno, sono
state consegnate nel sistema di consegna a domicilio
08
PERFIL
O barman e empresário Ale D’Agostino
e seus drinks engarrafados — como o
centenário (e italiano) Negroni
50
PROFILO
Il barista e imprenditore Ale D’Agostino e le sue bevande in
bottiglia — come il centenario (e italiano) Negroni
50
ENTREVISTA
O médico e ex-aluno Paulo
Saldiva relembra os tempos de
Dante e fala sobre as influências
que sua formação em nossa
escola exercem até hoje em sua
vida profissional
18
INTERVISTA
Il medico ed ex studente Paulo Saldiva ricorda i
tempi della Dante e racconta le influenze che la sua
formazione nella nostra scuola ha tuttora sulla sua vita
professionale
18
HISTÓRIAS
(6),
ARTE
(32) e
COMIDA
(44)
STORIE
(6),
ARTE
(32) e
CIBO
(44)
HISTÓRIAS
STORIE
Capa/08
Entrevista/18
Literatura/24
Espaço Aberto/28
Centro de Memória/30
Copertina/08
Intervista/18
Letteratura/24
Spazio Aperto/28
Centro dela Memoria/30
Arthur Fujii
A festa de São Vito, em 2020 realizada com distanciamento social
La festa di San Vito, celebrata nel 2020 con distanziamento sociale
DEVOÇÃO SEM
AGLOMERAÇÃO
{CAPA/COPERTINA}
Com delivery e
distanciamento social,
festas italianas mantêm
tradição em São Paulo
DEVOZIONE SENZA AGGLOMERAZIONE
Con le consegne a domicilio e la distanza sociale, le feste italiane
mantengono la tradizione a San Paolo
Traduzione dell’articolo a pagina 58
Por Giacomo Vicenzo
Fotos: Arthur Fujii
{CAPA}
A quase 10 mil quilômetros do Brasil, do outro
lado do oceano Atlântico, está a comuna italiana
de Rossano, na Calábria, de onde veio, viajando
em um navio dentro de caixas de cebola, a imagem
de Nossa Senhora Achiropita. Confeccionada por
escultores da região, a estatueta teve como destino
final a região que hoje dá lugar às ruas estreitas
e a dezenas de ladeiras do tradicional bairro do
Bixiga, em São Paulo.
A chegada da imagem antecedeu a construção
da paróquia, fundada em 4 de março de 1926,
que homenageia a “madona mãe de Cristo”,
como se refere Maria Emília Conte Moitinho, de
72 anos, à santa. Ela faz questão de relembrar as
histórias contadas pelos antigos sobre o início da
tradição que deu origem à festa de Nossa Senhora
Achiropita, que há mais de 100 anos espalha o
cheiro das comidas italianas pelo bairro. “Quando
a imagem chegou a São Paulo, não tinham onde
deixá-la e começaram a fazer festas em 1910.
Foi feito um altar, faziam leilões, a banda tocava
músicas italianas e assim arrecadaram dinheiro
para construir uma primeira capela. Essa pequena
capela, depois, se tornou uma igreja, que hoje
é a que frequentamos”, conta Maria Emília. A
calorosa participação dos imigrantes e de seus
descendentes, bem como a música, transformam
o Bixiga em uma pequena Itália paulistana.
Maria Emília, que hoje cuida das relações
públicas do evento, marca presença na festividade
desde antes de nascer: ainda no ventre de sua
mãe, já “participava”. O trabalho voluntário para
servir e preparar comidas acompanha sua família
há gerações, mas neste ano as dinâmicas impostas
pela Covid-19 também colocaram à prova o
esforço e a união da comunidade italiana. O
povo marcado pelo traço festivo teve que adotar
o distanciamento, e a festa que reunia anualmente
cerca de 250 mil pessoas em 2020 mandou
embalar a tradição para viagem com um propósito
nobre. “Nós temos uma obra social muito grande,
atendemos mais de 1 mil pessoas diariamente e
precisamos do recurso da festa. O delivery ajudou
na arrecadação”, explica Maria Emília.
“Nós temos uma obra social, atendemos mais de 1 mil pessoas diariamente e precisamos do recurso da festa. O delivery ajudou na arrecadação”, explica Maria Emília Moitinho, que cuida das relações públicas da festa da Achiropita
“Abbiamo un’opera sociale, aiutiamo più di 1.000 persone ogni giorno e abbiamo bisogno delle risorse ricavate dalla festa. La consegna a domicilio ha aiutato con la raccolta”, spiega Maria Emília Moitinho, che si occupa delle pubbliche relazioni della festa della Madonna Achiropita
{CAPA}
No século VIII, um artista pintava a imagem da Virgem Maria em uma igreja na cidade italiana de Rossano, na Calábria. Estranhamente, todo o seu trabalho desaparecia durante a noite e tinha de ser iniciado novamente no dia seguinte. Os moradores da cidade, intrigados, escalaram um guarda para tomar conta da entrada da igreja no período noturno. Conta a tradição cristã que uma moça muito bela com uma criança nos braços insistiu para rezar algum tempo naquela noite, e o vigia acabou cedendo e deixando-a entrar. Depois de algum tempo, o vigia foi conferir se estava tudo bem e não encontrou a mulher, mas a pintura, anteriormente inconclusa, completou-se com os rostos da mulher e da criança que ela segurava nos braços. O guarda saiu correndo pelas ruas gritando “Achiropita!”, que significava “não feito por mãos humanas”, dando a entender que a pintura havia sido realizada pelo poder divino.
Pintada por mãos divinas
“A raiz da minha família é o Brás, todos já fizeram parte do evento. Já trabalhei na festa como sorteador, na barraca do churrasco e neste ano fiquei responsável por aferir a temperatura dos visitantes”, conta Juan Depreto, que participa da festa de São Vito desde criança
“La radice della mia famiglia si trova nel Brás, tutti hanno già partecipato all’evento. Ho già lavorato alla festa come sorteggiatore, alla bancarella della grigliata e quest’anno sono stato responsabile di misurare la temperatura dei visitatori”, racconta Juan Depreto, che participa alla festa di San Vito sin da piccolo
O calor da aglomeração não foi possível, mas a
comida aqueceu os corações dos devotos da santa
e de participantes que não perdem uma edição da
festa. “No nosso tradicional delivery não poderia
faltar a fogazza, que é o carro-chefe de que
todo mundo gosta. Também tivemos macarrão,
pimentão recheado, berinjela recheada, cannoli e
tiramisù”, conta ela.
Para a produtora de eventos Marcela Merlo, de
43 anos (e que há 11 trabalha como voluntária
na cozinha), manter a tradição, ainda que de
forma diferente, é
importante, e a ajuda dos voluntários é essencial. “Contamos sempre com eles para a preparação dos nossos pratos. Nós nos dedicamos todos os dias para que tudo corresse perfeitamente.”A festa costuma ter início em agosto e seguir até o mês de setembro, mas neste ano, para aumentar a arrecadação, manteve as entregas dos pratos típicos até o início de novembro, e a opção trouxe clientela. “Trabalhamos todos os dias nas semanas que antecederam os finais de semana da festa”, diz Marcela.
Jovens assumindo a tradição
São Paulo também é palco de outras tradicionais festas italianas. A de São Vito acontece tanto na Associação Beneficente São Vito Mártir quanto na Paróquia São Vito Mártir, e ambas homenageiam o santo católico originário da Sicília — estão a poucos metros uma da outra.A mais antiga é a da associação, que existe desde 1918 no bairro do Brás e está sediada em uma grande quadra poliesportiva, que no início dos anos 1990 reunia um time de futebol e,
atualmente, é utilizada por uma creche, além da própria festa. Neste ano, ela chegou à sua 102º edição sem intervalos, mas sem a presença das tradicionais mammas, que por segurança, por conta da Covid-19, foram afastadas do evento. Assim como outros setores da organização do evento, ficou por conta dos jovens o preparo dos pratos típicos que comumente enchem a quadra de frequentadores que buscam saborear as delícias da culinária italiana.
“Quando a imagem chegou a São Paulo, não tinham onde deixá-la
e começaram a fazer festas em 1910. Foi feito um altar, faziam leilões,
a banda tocava músicas italianas e assim arrecadaram dinheiro para
construir uma primeira capela”, conta Maria Emília sobre a fundação da
igreja da Achiropita
“Quando l’immagine à arrivata a San Paolo, non c’era un posto dove lasciarla e la
comunità ha iniziato a fare feste in suo onore nel 1910. È stato costruito un altare, ci
sono state delle aste, una banda suonava musica italiana e così sono stati raccolti i
fondi per costruire una prima cappella” Maria Emília Moitinho
DEZEMBRO 2020 • 13
{CAPA}
O chef de cozinha Joel Cardoso, de 39 anos, foi quem assumiu a grande responsabilidade de preparar os pratos que aprendeu com as mammas ao longo dos 22 anos em que vem participando da festa como voluntário. A vocação para a gastronomia, inclusive, surgiu na comunidade. “Comecei como voluntário, alguns amigos do ramo foram me inspirando. Sempre acompanhei as mammas e sigo à risca as receitas delas. Agora, elas estão afastadas e a responsabilidade é nossa, dos mais jovens”, diz Joel.
A festa, que reunia cerca de 10 mil participantes, neste ano também teve esse número reduzido e limitado. Na
entrada da associação, um termômetro aferia a temperatura dos visitantes, que tinham a opção de retirar o prato e levar para comer em casa ou fazer uma refeição rápida no local, em mesas de apoio com distanciamento adequado. Os cerca de 200 quilos de fígado bovino, geralmente usados por final de semana para preparar a clássica ghimirella, espécie de churrasco tradicional, caíram para 60 quilos e serviram cerca de 200 pratos, menos da metade dos 800 pratos servidos no ano anterior à pandemia de Covid-19.
Mas a saudade não é só a de ver a fartura matar a fome do público reunido. E o chef Joel certamente não é o único a
O preparo da fogazza, carro-chefe da festa de Nossa Senhora Achiropita
Il preparo della fogazza, il fiore all’occhiello della festa della Madonna Achiropita
O sistema delivery foi a alternativa encontrada para manter a arrecadação para as obras sociais mantidas pelas associações
Il sistema di consegna a domicilio è stata l’alternativa trovata per continuare a fare la raccolta per le opere sociali mantenute dalle associazioni
sentir falta de um ingrediente tipicamente italiano: o contato. “É uma festa muito familiar, e tínhamos o costume de abraçar e beijar todo mundo. Agora está tudo muito distante pela segurança”, lamenta.
O ator Juan Depreto, de 30 anos, participa da festa como voluntário desde 2003, quando ainda era uma criança. “Meu avô fazia parte da diretoria social da associação. A raiz da minha família é o Brás, todos já fizeram parte do evento e da associação. No início, eu trabalhava na festa como sorteador, fiquei dois anos nessa função. Em 2005, passei a ficar na barraca do churrasco, coordenando”, explica ele.
Participar do evento é um ato que une tradição e fé para Juan, que é batizado na igreja e devoto de São Vito, padroeiro dos artistas. Neste ano, suas mãos trocaram as fichas e espetos da barraca de churrasco pelo termômetro que afere a temperatura dos visitantes. Além disso, há dois anos ele começou a ajudar na divulgação do evento, mostrando que a tecnologia pode ser uma aliada da festividade centenária. “Cuido do site e de todas as redes sociais. Quero trazer a festa para as mídias, usar QR code no cardápio, mas sem perder o que já foi construído até aqui. Precisamos sempre nos adaptar aos tempos”, comenta.
{CAPA}
A festa costuma ter início em agosto e seguir até o mês de setembro, mas em 2020, para aumentar a arrecadação, manteve as entregas dos pratos típicos até novembro La festa inizia solitamente ad agosto e prosegue fino al mese di settembre, ma quest’anno, per aumentare gli incassi, le consegne sono andate avanti fino a novembreA organização da festa de São Vito também permitiu a retirada de comida diretamente nas barracas e o consumo no local – com distanciamento social e poucos visitantes por vez
Gli organizzatori della festa di San Vito hanno anche permesso ai visitatori di ritirare i piatti direttamente alle bancarelle e di consumarli sul posto — con distanziamento sociale e pochi visitatori alla volta
Ghimirella, o churrasco
dos camponeses
O tradicional prato italiano tem sua origem nos tempos da Grécia Antiga, ao sul da península itálica, na época conhecida como Grande Grécia. O prato era feito com partes de animais que os ricos dispensavam, como fígado de cabrito e vísceras de porco. Hoje, é mais comumente produzido com fígado bovino nas festas italianas brasileiras.
A Covid-19 também mudou a data da festa, que geralmente acontece em junho, mas excepcionalmente neste ano foi em outubro. Juan percebeu mais mudanças causadas pela pandemia. “As festas tradicionalmente têm muitas filas, mas a edição de 2020 foi muito vazia. Eu me assustei, foi um impacto muito forte. Algumas senhoras tiveram a participação vetada, por segurança. Os voluntários mudaram dos avós para os filhos e netos. O show da banda italiana foi substituído pelo som ambiente.”
Obras sociais, fé e memória
Os recursos angariados nas festas da Nossa Senhora Achiropita e na de São Vito promovida pela Associação Beneficente São Vito Mártir são destinados às obras sociais mantidas pelas instituições. Segundo Maria Emília, que faz parte da organização da festa de Nossa Senhora Achiropita, o evento tem bases e objetivos sólidos. “O primeiro é a devoção à santa. O segundo é manter a tradição, com a comida e com elementos que lembram nossos antepassados. E o terceiro é ajudar a manter as nossas obras sociais”, explica.
Entre os projetos que a festa de Nossa Senhora Achiropita ajuda a manter estão um centro de atendimento para pessoas em situação de rua e um núcleo de convivência para idosos. Na Associação Beneficente São Vito Mártir, os eventos sustentam financeiramente uma creche que atende cerca de 100 crianças em período integral em uma parceria com a Prefeitura de São Paulo.
As duas festas também lembram os participantes da chegada dos imigrantes, que ocuparam e construíram bairros inteiros da capital. Mantê-las vivas, mesmo em meio à pandemia de Covid-19, é uma forma de seguir celebrando a memória e a cultura italianas.
“Colaborar, para mim, significa ajudar na preservação cultural de nossa comunidade. A São Vito se mantém como um reduto italiano centenário em São Paulo. A devoção católica ao santo vem de Polignano a Mare, cidade na província de Bari de onde veio a grande maioria dos italianos instalados aqui na Zona Cerealista do Brás. Entre eles, meus bisavós e os familiares de tantos outros voluntários ou participantes assíduos”, comenta o médico Luiz Lervolino, de 24 anos, que há cinco trabalha na festa de São Vito, seja na barraca de focaccia, seja nas redes sociais do evento — neste ano, também ajudou a recrutar jovens para assumir as funções das pessoas do grupo de risco, que precisaram ser afastadas.
Os pais de Luiz contraíram Covid-19 no início de abril e escolheram continuar ajudando no corpo a corpo. “Minha mãe e minha tia estiveram na quadra presencialmente para preparar antepasto e ghimirella durante a semana – e para servir o público nos finais de semana”, comenta. A ligação afetiva das cozinheiras com sua missão é forte. Luiz lembra-se de uma mamma já falecida que se dedicou à missão por mais de 70 anos. “Angelina Maellaro Centrone preparava e ficava na barraca de ghimirella, sempre sentada espetando os pedaços de fígado e as folhas de louro intercalados nos espetos que iam para a brasa.”
Para Luiz, a festa de 2020 também pôde ser uma válvula de escape para as dificuldades que estamos vivendo. “A pandemia está sendo um momento difícil para todos. Muitos estão sofrendo com depressão, falta de convívio, de lazer. O festejo e a fé renovada em São Vito foram pontos de
alegria e apoio para muitas pessoas. Nesse sentido, chegamos inclusive a promover uma live de música italiana durante o mês da festa. Foi um sucesso em nossas redes sociais, com milhares de interações e muito entretenimento: uma forma de matar um pouco da saudade do evento tradicional”, conta.
São Vito/Guido viveu em meados do século III e morreu como mártir da igreja. Teve sua morte ordenada pelos imperadores Diocleciano e Maximiano, que perseguiam os cristãos. O santo é conhecido como padroeiro dos epilépticos e dos acometidos pela “Praga de São Vito”, suposta maldição que atingiu a Europa entre os séculos XV e XVII e causava surtos de dança coletivos e histéricos. A doença misteriosa já chegou a causar a queda de uma ponte na França, depois que vários cidadãos dançaram freneticamente sobre ela ao mesmo tempo. Os feridos foram abrigados numa capela dedicada ao santo. As preces para São Vito também incluem a proteção contra tormentas, mordidas de cobras e sono excessivo.
São Vito/Guido – protege de mordidas
de cobra a sono excessivo
{ENTREVISTA/INTERVISTA}
Arq
uivo pessoal Paulo Saldiva/arte: Adriano D
e Luca
POR UMA MEDICINA
MAIS HUMANA
Por Elena Wesley
Na linha de frente do combate ao novo coronavírus, o
ex-aluno Paulo Saldiva reflete sobre o cenário da ciência
e da política no Brasil e no mundo
PER UNA MEDICINA PIÙ UMANA
NIn prima linea nella lotta al nuovo coronavirus, l’ex studente Paulo Saldiva riflette sullo
scenario della scienza e della politica in Brasile e nel mondo
Traduzione dell’articolo a pagina 60
O jaleco branco tem sido a principal companhia
do médico patologista Paulo Saldiva nos últimos oito
meses. A pandemia de Covid-19 intensificou a rotina do
professor da Faculdade de Medicina da USP, que, a partir
do prognóstico de pacientes, análise em laboratório e
realização de autópsias, tem se dedicado a entender como
o coronavírus se comporta no organismo humano.
“Pesquisamos se o vírus vai para o cérebro e por
quanto tempo permanece nele, se passa para o feto
através da placenta, por que dá trombose, como afeta
os vasos [sanguíneos]. Estamos perto de cem autópsias
de diferentes cidades e tivemos quase 400 pacientes
internados no Hospital das Clínicas. As análises ajudam os
clínicos que estão na UTI e viram um biorrepositório a ser
compartilhado mundialmente”, explica.
A paixão por encontrar respostas é resultado das aulas do
Dante Alighieri. O menino inquieto que chegava ao colégio
religiosamente de bicicleta ingressou na universidade aos
17 anos e lá se aprofundou na compreensão das doenças
cardiorrespiratórias, das questões ambientais e de sua
relação com as desigualdades sociais. Logo passou a
participar de comitês que regulam o padrão de qualidade
do ar e a incidência de câncer em grandes instituições,
entre elas a Organização Mundial da Saúde, a Organização
Meteorológica Mundial, a Agência Internacional de
Pesquisa em Câncer e a Sociedade Internacional de Saúde
Urbana.
Aos 66 anos de idade, o pesquisador se aventura
no rádio e na TV, nos quais debate a ciência de forma
acessível e provoca reflexões em defesa da qualidade
de vida da população, em vista de um Brasil no qual o
quadro de saúde ou doença não seja determinado mais
pelo endereço de um paciente do que pelo seu código
genético.
DC: O Dante influenciou na sua carreira e na
escolha pelo campo da medicina?
Dr. Paulo Saldiva: Venho de uma família de médicos. Naquela época, não tínhamos muitas opções: era direito, medicina ou engenharia, meio caretão. Mas o que eu fui fazer na medicina foi influenciado pelo Dante. Eu sempre quis ser pesquisador e descobri isso nos laboratórios de física, química e principalmente nas aulas práticas de biologia, por causa da exposição ao método científico que eu tive enquanto aluno. O Dante foi central na minha formação, porque me permitiu ter essa base, ao me oferecer uma mistura muito sólida das humanidades e das ciências naturais. Sofri um acidente praticando judô, uma lesão óssea grave que me deixou internado por meses e, por isso, não consegui fazer cursinho, mas ainda assim entrei na USP aos 17 anos. Sou muito grato ao Dante, lembro até hoje de aulas, construí algumas das maiores amizades da minha vida.
DC: Que memórias você destacaria desse tempo?
Lembra de professores em particular?
PS: Ah, eu poderia fazer uma lista. Lembro perfeitamente da dona Rosa, do primeiro ano, que me ensinou a ler, da professora de história Ebe Reale, a de italiano, Piera Stefani. Havia o professor de matemática Ivo Carletti e a Anna Albanesi, o de química, que era o Edson Albuquerque, e a Germana Di Angelis, de desenho. O professor Doracy Monteiro, de português, o Sérgio Peres, de biologia. Lembro das aulas de filosofia do Demo Ghidelli, e do Gianfederico Porta, diretor da escola. Essas pessoas ocupam meus sonhos e minhas memórias, sou muito grato a elas.
Eu sempre fui muito inquieto. A minha ficha no Colégio não era das melhores. Nos anos 1960 e 1970 muitos professores vinham da Itália, com uma relação disciplinar rígida, mas, para uma pessoa como eu, foi útil ter encontrado esse contraponto. Eu entrei muito pequeno, no que era chamado jardim de infância, e fui até o terceiro ano do colegial, então passei uma parte substancial da minha vida, da minha formação como indivíduo, ali. Eu era tão ligado ao Colégio, que ao longo do meu curso médico e do início da minha carreira, quando eu tinha mais tempo, eu andava de bicicleta até a faculdade e parava no Dante. Passava por aqueles corredores e me encontrava com meus amigos imaginariamente, falava com meus professores, até que eles foram se aposentando, falecendo... Às vezes me convidam para a semana científica, e é uma oportunidade para voltar no tempo.
DC: Em sua atuação como patologista e pesquisador,
você enfatiza o quanto é incomum enxergar o ambiente como parte da saúde. Por que isso acontece?
PS: A cidade deixa, tanto no ambiente físico quanto no cultural, social e econômico, uma impressão digital no corpo das pessoas. Veja a obesidade. Nós nos preparamos durante quase 150 mil anos para passar fome. Para caçar ou colher frutas, tínhamos que
{ENTREVISTA}
“Cuidar da saúde humana é
também melhorar a fisiologia do
ambiente urbano, cuidar de outros
aspectos que deveriam estar
embutidos em políticas públicas
para melhorar a qualidade de
vida das pessoas.”
“Per prendersi cura della salute
umana bisogna migliorare la
fisiologia dell’ambiente urbano,
prendendosi cura anche di altri
aspetti che dovrebbero essere
incorporati alle politiche pubbliche
per migliorare la qualità della vita
delle persone.”
andar muito, então fomos perdendo massa muscular e ganhando na parte cerebral, enfim houve uma série de adaptações genéticas para absorver [nutrientes] com maior eficiência possível. À medida que as atividades mudam, que a violência urbana não permite que as crianças brinquem na rua, que o trabalho passa a ser digitar no computador, surge um conjunto todo de adaptações que levam à obesidade. Para resolver isso não é preciso só fazer dieta, é necessário mudar a organização do trabalho, melhorar a mobilidade urbana.
É por isso que estamos reduzindo a expectativa de vida, e o mais afetado é quem é mais pobre. O risco de morrer de infarto agudo do miocárdio antes do tempo varia quase 16 vezes no território de São Paulo, influenciado por pobreza, cor da pele e nível educacional, fatores que nem estão na faixa da medicina. Em geral, a expectativa de vida é muito baixa nos cortiços do Centro, melhora no centro mais urbanizado e vai caindo conforme se chega à periferia. Ou seja, de acordo com a estação do metrô em que você desce dá para saber seu risco de morrer. Isso quer dizer que cuidar da saúde humana é também melhorar a fisiologia do ambiente urbano, cuidar de outros aspectos que deveriam estar embutidos em políticas públicas para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
DC: A relação entre as desigualdades sociais e a
incidência de doenças vale também para a poluição do ar, que é um eixo central dos seus estudos. Se a poluição mata mais do que a tuberculose, por que não há investimento para combatê-la?
PS: A poluição do ar é ilegível, existe uma sutileza, assim como acontece com o tabaco ou com alimentos com alto teor de gordura. O segundo aspecto é que aquilo que produz poluição geralmente está associado a coisas que geram conforto ou privilegiam o individualismo. Com exceção dos antivacinadores, representados em 20% da população, se eu anunciasse uma vacina eficiente para o coronavírus, a maior parte das pessoas iria gostar, haveria certo consenso. Mas se eu quisesse defender apenas ônibus ou carro na rua, já haveria conflito, porque o tema não é consensual e envolve coisas que são muito caras às pessoas. A poluição gera emprego, o coronavírus tira.
Quando comecei a estudar poluição nos anos 1980, era uma causa à procura de uma doença. Hoje, sabemos que morrem no mundo seis a sete milhões de pessoas por ano por poluição do ar. É quase quatro vezes mais do que a malária! A poluição do ar está relacionada com infecção respiratória em idosos e crianças, infarto, câncer de pulmão e possivelmente de bexiga, baixo peso ao nascer, prematuridade e abortamentos. Só que existe muito interesse econômico envolvido. Quando nós publicamos na
The Lancet [publicação de divulgação científica]
que a poluição do ar ocasiona câncer de pulmão, a Europa começou a testar a emissão de diesel dos
veículos, programar a retirada da frota que circulava na cidade, fazer motores mais leves e avançados. No Brasil, acontece o contrário: as mesmas corporações lutam para manter o padrão mais antigo por causa da lucratividade.
DC: Seria esse um exemplo para explicar o conceito
de racismo ambiental ao qual o senhor aborda, esse compromisso superficial de sustentabilidade das empresas?
PS: Quando a mesma empresa tem procedimentos diferentes de acordo com a região em que atua é o que eu chamo de racismo ambiental. Na Europa se paga o preço, aqui no Brasil a vida humana ainda é um pouco mais barata, então, pode-se subsidiar uma alternativa energética com dinheiro e perda da produtividade de quem morreu.
A saúde ambiental envolve quesitos de direitos humanos. Venho estudando muito o conceito do racismo ambiental, lendo materiais de áreas diferentes. Acho que foi isso o que o Dante me ensinou. Estudar não para fazer os exames, mas aprender e exercer esse aprendizado. Conhecer diferentes áreas, ler Espinoza, A Divina Comédia, é muito raro hoje.
DC: A interlocução entre conhecimentos das
ciências naturais e das humanas também lhe levou à comunicação, com a participação em programas de TV e rádio. Como você ingressou nesse ramo?
PS: Sempre gostei de me comunicar, de fazer a tradução da tecla SAP. Na patologia nós precisamos fazer muito isso com o aluno. Faz seis anos que eu fui para o Jornal da Cultura, no qual participo de quadros semanais. Não recebo nada, mas me divirto muito. Foi uma espécie de escola, porque tive que começar a ler coisas que eu não lia. Logicamente eles montam uma pauta mais de ciência e saúde quando eu estou, mas, se cai crise no Oriente Médio, eu tenho que estudar xiitas e sunitas, então comecei a ler jornais internacionais.
Depois disso, fui para o Futura. O canal havia encomendado uma série de programas para explicar o que acontecia na ciência na cidade de São Paulo e procurava um jornalista, mas era uma tarefa difícil. Precisava ler o projeto, entender e explicar, então acharam melhor chamar um cientista. Fiz também a coluna do Jornal da USP e um programa para jovens sobre a cidade, o Urbanite. Mas o que eu gosto mesmo é de rádio.
No momento em que a ciência está sob ataque, é muito importante dizer que a educação científica é fundamental para o desenvolvimento do país, dar às pessoas o encantamento da ciência, para que descubram a liberdade que a ciência oferece de ter uma curiosidade e poder se dedicar a resolvê-la usando o método científico. Ele é útil não apenas para quem quer ser cientista, mas para todos, porque
“No momento em que a ciência está sob ataque, é muito importante
dizer que a educação científica é fundamental para o desenvolvimento
do país, dar às pessoas o encantamento da ciência, para que
descubram a liberdade que ela oferece — ter uma curiosidade e poder
se dedicar a resolvê-la usando o método científico. Ele é útil não
apenas para quem quer ser cientista, mas para todos, porque sempre é
preciso aprender por si próprio.”
“In un momento in cui la scienza è sotto attacco, è molto importante dire che
l’educazione scientifica è fondamentale per lo sviluppo del paese, mostrare
alle persone la magia della scienza, in modo che scoprano la libertà che ci
offre di avere una curiosità e poter svelare tutto su di essa utilizzando il metodo
scientifico. È utile non solo per chi vuole fare lo scienziato, ma per tutti, perché
l’apprendimento non si ferma alla conclusione di un corso di laurea, è sempre
necessario imparare da soli.”
{ENTREVISTA}
o conhecimento não se esgota na conclusão de um curso do Ensino Superior, sempre é preciso aprender por si próprio.
DC: Você acha que programas como esses
contribuem para a democratização da ciência, sobretudo em tempos de notícias falsas?
PS: Eu espero que sim. Há muito do processo criativo das artes. Ciências humanas e naturais andam juntas. O conteúdo de humanidades na medicina será muito maior no futuro, porque ler os valores culturais da pessoa, conhecer o ambiente em que ela vive, conta.
Quando houve o surto de febre amarela em São Paulo, o Hospital das Clínicas recebeu centenas de pacientes. Tivemos 80 mortos jovens, até que descobrimos pela autópsia os mecanismos que levavam a febre a lesar essa faixa etária. Conseguimos chegar ao tratamento e reduzir a mortalidade de 80% para menos de 20%. Uma das últimas autópsias que nós fizemos era de uma gestante de 23 anos. Ela morava numa região de risco, foi tomar a vacina e, como não se sabia ainda se o vírus passava pela placenta, recomendaram que ela se mudasse. Não ocorreu a quem a atendeu se ela poderia fazer aquilo ou chamar uma assistente social que pudesse averiguar a situação. Não é uma questão de despreparo, é que não faz parte do nosso treinamento verificar se aquilo que nós estamos falando é possível de ser executado, não faz parte colocar-se no lugar da pessoa. Eu acho que esse entendimento vai ser cada vez mais importante no mundo de hoje, em que o acesso não vale para
todo mundo. O curso de medicina não ensina isso, então vamos ter que aprender de outro jeito. Vai além de tratar bem o doente na consulta ou entender o SUS. É entender como ele vive, os valores que ele tem, não apenas os individuais, mas populacionais também. A incidência e a mortalidade de câncer de colo de útero na Arábia Saudita relacionam-se com mudança de vida do HPV ou com a situação que as mulheres vivem no país, sem poder fazer exame preventivo?
DC: A pandemia evidenciou a importância
da ciência, num período de ataques sem muito embasamento e de cortes de investimento por parte do governo. Que saldo o senhor tira desse período?
PS: Todas as crises levam à mudança. A ciência evoluiu de forma espantosa, seja a produção de vacinas, seja o entendimento sobre ventilação mecânica, sejam os mecanismos de como a resposta respiratória sistêmica pode levar à morte de pessoas jovens. E formaram-se redes de cooperação internacional muito eficientes. Não que os cientistas sejam uma sociedade perfeita, mas ela faz mais colaborações do que governos, até pelo custo e pela complexidade.
Acredito na mudança de costume, assim como aconteceu por conta da peste bubônica. No século XV, XVI, no início do Renascimento, pintores flamencos e alemães abordavam a natureza morta de Vanitas. Não havia frutas nem alimentos, mas instrumentos musicais, relógios, objetos de grande valor e um crânio, mostrando como eram efêmeros aqueles bens.
A peste dá força ao calvinismo e à reforma da igreja, por ter se afastado da centralidade, se adornado por coisas que não eram fundamentais, e também dá imagem ao estado autoritário, com quarentena, isolamento, que não tinham precedentes antes. Essas coisas que nós discutimos hoje estão presentes há muito tempo, inclusive chegaram ao Rio de Janeiro com a Revolta da Vacina. O sanitarismo tem um quê de viés autoritário, para haver progresso.
Acho que o trabalho vai mudar muito para quem pode, de acordo com o nível de educação e de ocupação. Muitas corporações vão reduzir suas sedes físicas e talvez as pessoas que estão na periferia sejam trazidas para morar no centro, próximo aos serviços. Seria então um rearranjo urbano. Vai haver estímulo à mobilidade ativa. Aqui em São Paulo nunca se vendeu tanta bicicleta. Para a logística é bom. Em Copacabana o que chega aos quiosques vai de bicicleta.
DC: Esperar mais investimento na ciência no Brasil
é otimismo?
PS: Eu esperaria que a crise resultasse em acordos internacionais, mas a discussão está em comprar ou não vacina chinesa, essas coisas absurdas. Existe ainda um longo caminho no nosso país, num momento de avanço de certo fundamentalismo ignorante.
Não creio que nós tenhamos um reforço na ciência no atual cenário político brasileiro. Eu acho que vamos estar sob ataques, inclusive em São Paulo. A primeira coisa foi a tentativa do governo de tirar verba da Fapesp e das universidades públicas, justo de quem segurou as pontas do estado nessa pandemia. Ainda estamos muito mal de lideranças.
E tem outra coisa. Se você trata vacina como
commodity, você não produz vacina contra o
coronavírus. A Influenza muta todo ano, então tem que tomar vacina todo ano para pegar os vírus que estavam circulando no ano anterior. Daí, se aparece um vírus tipo o H1N1 em 2009, já existem fábrica e tecnologia para produzir. No caso do coronavírus, tanto no Sars-2002 como no Mers-2012, o surto durou pouco, então quem investiu em vacina perdeu dinheiro, porque, quando ela ficou pronta no tempo normal de dois, três anos correndo, já não havia para quem vender. Hoje, é dinheiro a fundo perdido para preparar vacina para esses vírus mais estáveis, porém de potencial pandêmico, a fim de que se possa produzir a vacina para o coronavírus. Temos uma mudança no vírus a cada oito anos mais ou menos, são doenças com características de letalidade distintas. Se tivesse sido mantida a estrutura desde os primeiros surtos, nós teríamos a chance de uma vacina em seis meses. E agora se viu que, por não ter isso, as perdas econômicas foram enormes.
DC: O livro “Saúde e Meio Ambiente: o
desafio das metrópoles” (editora Instituto Saúde e Sustentabilidade), que você assina como autor e coordenador, aborda o papel do poder público na
promoção de qualidade de vida. Que recado você deixaria para os vereadores e prefeitos recém-eleitos?
PS: O poder local pode fazer mais do que o federal, que tem o recurso. Pode produzir um diagnóstico e tentar unificar as políticas públicas ao redor de qualidade de vida e saúde, que vai além de montar unidade básica e hospital. Só se fala em inaugurar hospital, e é importante ter, mas tem mobilidade urbana, tem espaço de convivência, especialmente para idosos.
Estamos numa crise mundial da democracia participativa, mas temos algumas evidências que com a galera mais nova será diferente. Nós temos uma geração de prefeitos – sem fazer juízo de valor – que colocou as avenidas em cima dos rios. Perdemos a chance de ter avenidas e parques ao lado dos rios, como previam os planos diretores. Contudo, a luta pelo transporte coletivo a partir de junho de 2013 entrou na agenda dos prefeitos por meio de demanda popular. Eu acho que existem movimentos a serem copiados, como a ONG Redes da Maré. Conheci a [fundadora] Eliana Sousa Silva e o projeto de gestão e construção de políticas públicas, de identificar potencialidades, de investir na economia regional. Ou seja, um prefeito tem que andar na rua, descer do carro oficial e conhecer a realidade. Assim como nós médicos precisamos entender a alma de quem nos procura, o vereador e o prefeito têm que entender a alma da cidade que administram. As cidades têm vida, engordam, envelhecem, desenvolvem doenças e precisam ser tratadas com muitos exames. E isso não é política de gabinete, é política de contato direto com as pessoas, de ouvir com humildade.
Dr. Paulo Saldiva tomando posse na Academia Nacional de Medicina, em 2018
Dott. Paulo Saldiva che riceve la nomina di membro a pieno titolo presso l’Accademia Nazionale di Medicina nel 2018
Arq
uivo Pessoal
{LITERATURA/LITERATURA}
A FANTASIA
QUE TRANSFORMA
Por Elena Wesley Arte: Adriano De Luca
Autor e pensador da educação infantil, Gianni Rodari completaria cem
anos em 2020, com um legado que permanece atual
LA FANTASIA CHE TRASFORMA
Autore e pensatore dell’educazione della prima infanzia, Gianni Rodari
avrebbe compiuto 100 anni nel 2020, con un’eredità che resta attuale
Traduzione dell’articolo a pagina 63
Do país sem ponta onde Joãozinho Vagamundo se deparou com rosas sem espinhos e casas de quinas arredondadas ao rato que relatava ter comido gatos, cachorros e rinocerontes, Gianni Rodari entrelaçou o inusitado e a realidade em uma grande brincadeira. Para o pensador e autor italiano, parodiar era uma forma de estimular as crianças a se tornarem seres mais criativos e críticos, capazes de mudar o mundo à sua volta. No ano de seu centenário, o legado pedagógico e literário deixado pelo educador permanece atual: diante dos conservadorismos de sua época, já projetava que “é a criatividade que nos salvará, não a lógica”.
Gianni Rodari nasceu em 1920, na cidade de Omegna, na região de Piemonte, ao norte da Itália. Seus pais trabalhavam como padeiros e, apesar de intensa, a jornada de trabalho não se traduzia em grandes lucros. Em contrapartida à falta de recursos financeiros, a infância de Rodari foi marcada pela riqueza cultural italiana. A tradição oral presente nas canções e histórias populares, que faziam parte das celebrações e do dia a dia duro da população mais pobre, influenciaria sua atuação como pedagogo e escritor infantil décadas depois, como demonstram as obras La Freccia Azzurra e La Gondola Fantasma, publicadas em 1954 e 1978, respectivamente.
Até sacramentar seu nome no mundo das palavras como jornalista e autor, no entanto, Rodari percorreu um longo caminho, de perdas e sacrifícios. Aos nove anos de idade, as dificuldades que já lhe acompanhavam se acentuaram: a morte do pai o obrigou a morar com uma tia. Para fugir de um ingresso precoce no mercado de trabalho, ele se matriculou no Seminário e, depois, cursou o Magistério. O sonho de se tornar músico parecia cada vez mais distante, porém a vida lhe reservava outros caminhos para dar vazão ao interesse pelas artes.
Professor de formação já aos 17 anos, Gianni começou a lecionar italiano aos filhos de uma família judia que havia imigrado para a Itália com o objetivo de fugir do nazismo alemão. Às margens do lago Maggiore, a aula acontecia todas as manhãs, o que lhe garantia tempo livre no resto do dia para ler e passear. Submerso nos pensamentos de Dostoiévski, Rodari começava a questionar a rigidez das imposições sociais recorrentes na escola e no discurso e ações do governo fascista de Benito Mussolini.
O interesse político o cativou de vez na década de 1940, com a ascensão do movimento de resistência italiana. Rodari, então, aproxima-se da esquerda e de seus veículos de comunicação.
{LITERATURA}
Curiosamente, foi a atuação como jornalista político que o levou a escrever para crianças, a convite do L’Ordine Nuovo. Com o pseudônimo Francesco Aricocchi, Rodari publicava contos baseados em lendas populares nas edições de domingo. As histórias bem-humoradas e inventivas fizeram sucesso e, assim, surgiram O Livro das Ladainhas e As Aventuras de Cipollino, suas primeiras obras voltadas ao público infantil, sob o pseudônimo de Lino Picco.
Ao contrário do autoritarismo que marcara sua geração, Rodari defendia o incentivo à imaginação e à criatividade como um ingrediente essencial para a formação educacional. Sem falar de forma infantilizada, tratava os
pequenos de igual para igual, crendo que “a linguagem é coisa que deve fazer a criança crescer”. Para isso, valeu-se de elementos simples: a palavra, um desenho, uma provocação iniciada por um “e se?”. A partir dali, a fantasia tomava conta e a vontade de fazer perguntas tendia a crescer.
Nos anos 1950 e 1960, Gianni Rodari se dedicou ao público infantil sob forte influência dos debates sobre humanismo e ética entre os intelectuais da época. O ilustrador Bruno Munari se tornou seu principal aliado no jogo de
palavras e imagens, como conta o professor doutor Luciano Migliaccio, do Departamento de História da Arquitetura e Estética da USP. “A ilustração do século XIX buscava explicar o conteúdo do texto, mas Munari adotou outros elementos. Rodari gostava muito de teatro de marionetes, jogos para crianças, chegava a fazer esculturas, tipo origamis, para montar em quartos de hotel que, segundo ele, eram anônimos e tristes. Cabia à escultura animar a viagem. É assim que Favole al telefono [publicado em 1962] traz histórias que nascem do que parece ser um erro, uma invenção linguística, do non sense, e promove a diversão pelas
próprias palavras. Munari acompanha isso nas capas de livros: No lugar do número do telefone, coloca grafismos e desenhos infantis.”
Em Fábulas por Telefone, o viajante senhor Bianchi conta para a filha, todas as noites, histórias extraordinárias, como a de Tiago de Cristal, um menino transparente, cujos pensamentos e sentimentos eram sempre revelados, ao ponto de impulsionar toda a cidade a questionar a tirania de um ditador que ascendera ao poder. Era o jeito poético com o qual Rodari indagava o mundo e convidava as crianças a serem protagonistas de tal processo.
À produção literária o pensador somou uma rotina de visitas a escolas, onde, de sala em sala, lia as histórias e via a reação dos alunos. Sua pedagogia da imaginação tornava a criança um interlocutor e questionava a adaptação a regras impostas pelo modelo educacional vigente, pelo qual inventar valia menos do que obedecer. “Ele evidenciava as potencialidades da criança, conversava para despertar sua vontade de fazer perguntas. Mesmo o leitor adulto se sente assim ao ler Rodari”, afirma o escritor e artista plástico Alberto Martins, em alusão à sua experiência pessoal com o autor. Foi aos pés da mãe numa tentativa de aprender italiano que Martins se deparou com o pensador e se encantou pela coletânea de Histórias para Brincar, na qual Rodari apresenta e explica três finais possíveis para cada conto. Na fábula “Vozes na Noite”, toda vez que está prestes a dormir, um senhor ouve uma voz que chora, se levanta e viaja por colinas, cidades e continentes para ajudar quem está em sofrimento. No primeiro final, já muito cansado, opta por usar tampões de ouvido para ter ao menos uma noite de sono. No segundo, é preso acusado injustamente de roubo na região por seus próprios vizinhos, desacreditados de
suas inusitadas aventuras. A última possibilidade – e preferida do autor – é a que o senhor muito bom nunca mais ouviu uma voz a chorar, pois “ninguém mais chora, ninguém mais é infeliz. E talvez um dia isso seja possível. O velho senhor é velho demais para chegar a ver esse dia. Mas continua a se levantar, pois o que tem de ser feito tem de ser feito, sempre, sem jamais perder a esperança”. O livro integra o acervo de publicações do autor italiano pela Editora 34.
Apesar da inventividade e do Prêmio Hans Christian Andersen conquistado em 1970, que equivale ao Nobel da área, o trabalho de Gianni Rodari demorou a ser publicado no Brasil. Dependente da seleção de paradidáticos das escolas e ainda influenciado pelo nacionalismo exacerbado da ditadura militar, o tímido mercado de literatura infantil brasileiro ganhou as primeiras edições do escritor por meio da editora Martins Fontes somente na década de 1990, dez anos após a morte do italiano. O hiato, no entanto, não impediu a influência de Rodari sobre outros artistas no Brasil e no mundo. “Murilo Mendes fez a ponte entre Brasil e Itália, os ilustradores Leo Lionni e Saul Steinberg levaram para os Estados Unidos as mesmas ideias da gráfica do livro como estímulo criativo. Não é uma ilustração do texto, mas instrumento para estimular a inventividade, a capacidade da criança”, destaca Migliaccio.
Gramática da Fantasia é a obra mais famosa de Rodari no Brasil. Voltada a educadores, o livro traz sugestões de exercícios que ativem o papel da imaginação no aprendizado. Entre as técnicas apresentadas, estão a salada de fábulas, que consiste em misturar personagens, lugares e fatos de histórias diferentes; ou ainda jogos de palavras com antônimos. Fora da sala de aula, a influência de Rodari impactou a experiência das crianças nos museus, com a criação de laboratórios táteis por Bruno Munari, na expectativa de que as obras deixassem de ser explicadas por adultos, e a leitura pudesse colaborar com a interpretação e criação mais livre das crianças.
Mais do que técnicas, educadores e pesquisadores convergem ao definir o legado pedagógico e literário de Rodari como uma forma de acreditar na inteligência infantil, com responsabilidade ética e compromisso humano. Como podemos perceber em seu discurso ao vencer o Prêmio Hans Andersen, Rodari hoje nos convocaria a recorrer às fábulas para educar nossa mente e acessar a realidade por outros caminhos.
“É preciso ter uma grande fantasia, uma forte imaginação para ser um grande cientista — para imaginar coisas que ainda não existem — para imaginar um mundo melhor do que aquele em que vivemos e botar mãos à obra para construí-lo”. (Trecho do discurso de Rodari no prêmio Hans)
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A infância de Rodari foi marcada
pela riqueza cultural italiana.
A tradição oral presente nas
canções e histórias populares,
que faziam parte das
celebrações e do dia a dia
duro da população mais pobre,
influenciaria sua atuação como
pedagogo e escritor infantil.
“L’infanzia di Rodari è stata segnata
dalla ricchezza culturale italiana. La
tradizione orale presente nelle canzoni
e nelle storie popolari, che facevano
parte delle celebrazioni e della dura
vita quotidiana della popolazione più
povera, avrebbe poi influenzato la sua
performance di pedagogo e scrittore”
{ESPAÇO ABERTO/SPAZIO APERTO}
Por Pâmela Carbonari Ilustração: Renata Miwa
LETTERA A MIA NONNA
Traduzione dell’articolo a pagina 65
Nonna Benjamina,
Faz tempo que não conversamos pessoalmente. Você se foi sem que eu pudesse entendê-la para além do carinho e do amor profundo que sentimos uma pela outra. Na semana passada, fui pela primeira vez até o jazigo onde você quis que a deixássemos. Desde aquele final de maio gelado da nossa despedida, eu nunca mais tinha ido lá. Você chegou a ver a rosa que deixei em frente à sua foto? Não era tão linda quanto as do seu roseiral, me desculpe.
Escrevo não só porque sinto saudades, mas porque tenho refletido muito sobre como seria ser mulher com você ao meu lado, em como seria a sua vida hoje se tivesse a minha idade. Vivo a mais de mil quilômetros do povoado onde você nasceu, conheceu o nonno Henrique, criou meu pai e meus tios e se despediu da gente. Da minha janela, não vejo parreirais, não tenho fogão à lenha, não acerto o ponto da polenta, não sei fazer queijo nem capeletti, trançar lã, palha ou vime. Se você fosse jovem agora, talvez também não saberia. Aliás, é o nonno quem está lendo esta carta? Hoje você saberia ler em português ou em italiano e, se não quisesse, não dependeria dele. Lembra quando eu ia visitá-la, tagarelávamos cada uma em seu idioma e eu tentava ensinar a você as palavras em inglês que aprendia na escola? Bee, honey, grape que para você eram ave, miel, ua. O dialeto vêneto abrasileirado que a senhora falava mal existe nos livros, é língua que ficou na boca de quem não teve como passá-la a limpo. Se eu quiser aprender a falar como a senhora falava vai ser mais difícil que aprender russo, mesmo que eu nunca tenha visto um.
Ganho a vida escrevendo, mas quando penso em você, na sua alegria tranquila, nos seus olhos espertos e no seu sorriso bondoso, são os números que me intrigam e me apavoram. Quanto tempo são 16 gestações? Assar 12 pães por semana são quantos milhares de pães em oito décadas? Com o vinho de todas as suas vindimas somadas daria para embebedar um país inteiro? Conseguiríamos cobrir a estrada entre você e eu com as flores e verduras que você plantou e colheu ao longo dos seus 84 anos? Nesse tempo, foram mais velas queimadas ou latas de spray para cabelo espirradas?
CARTA À MINHA AVÓ
Quantas idas à missa o seu sapato de laço azul fez? Existe alguma unidade de medida capaz de contabilizar as vezes em que o seu polegar e o indicador roçaram as bolinhas do terço durante as suas quimioterapias? Quanto amor é preciso ter dentro de si para amar todos nós? Em uma vida, a senhora teve mais dias felizes que tristes? Quantos momentos de prazer? Quantos instantes só para você?
Apesar de termos nos divertido, eu me arrependo de ter sido criança no tempo em que estivemos juntas. Queria ter aprendido mais e me obrigo a responder eu mesma às perguntas que nem sonhava que ia querer lhe fazer. Tenho que respondê-las a partir das lembranças, dos causos que contam sobre você, das tentativas do meu pai de imitar sua comida, do tanto de ti que há em nós, dos sentimentos que imagino que você tenha sentido. Fique tranquila, esta carta não é para interrogá-la, nonna. É para dizer que, se tivesse dado tempo, gostaria de ter ensinado a senhora a ler.
Sim, confesso que talvez exista um pouco de egoísmo nisso. De poder me conectar contigo no que eu faço para me conectar com o mundo, organizando letra após letra em sequências mais ou menos lógicas. Mas queria que a senhora tivesse conseguido deixar o fogão, o tanque, a igreja, o nonno, os tios, as flores e as lavouras que você via da sua janela por algumas centenas de páginas. Que, na impossibilidade de se ausentar fisicamente da sua realidade, tivesse saboreado os temperos da Bahia através de Jorge Amado, que conhecesse a doçura e as invencionices de Guimarães Rosa, que também imaginasse a casa da família Buendía, de Gabo, parecida com a sua, que estranhasse ou se reconhecesse no que as suas contemporâneas Natalia Ginzburg, Hilda Hilst e Clarice Lispector pensavam.
Nas minhas equações, queria poder elucubrar uma contagem das páginas, das gentes e dos universos que não deu para a senhora conhecer. Na realidade paralela em que lhe ensino a ler, você teria voz e chance para viver a vida que quisesse, avessa ou igual à que nos conhecemos. Em troca, você me ensinaria de onde vinha tanta força e eu lhe daria a chave de um quarto todo seu.
{CENTRO DE MEMÓRIA/CENTRO DELLA MEMORIA}
*Você tem imagens históricas do Dante? Entre em contato com o nosso Centro de Memória, que já reuniu 6 mil fotos de mais de um século de história dantiana. Escreva para o Marcelo: [email protected].
Final de ano letivo, no Dante, é sempre tempo de celebração, despedida e apresentação de trabalhos realizados ao longo do ano. Neste ano tão atípico, não pudemos nos encontrar presencialmente para esses eventos. Mas esperamos que logo estejamos juntos novamente, valorizando ainda mais tais momentos. Na foto, festa de encerramento do ano letivo em dezembro de 1980, com apresentação de alunas e alunos das primeiras séries do curso primário (hoje 2º ano do Ensino Fundamental I).
Traduzione dell’articolo a pagina 65
Arquivo Centro de Memória CDA
ARTE
Barbara Ramazzini DC 24.2
Foto da reportagem de Capa da edição 24 da DC, sobre especiarias
Foto del servizio di Copertina dell’edizione 24 della DC, sulle spezie
Cultura/34
Ensaio Fotográfico/38
Cultura/34
Servizio fotografico/38
{CULTURA/CULTURA}
CADA EUROPA
TEM O SEU OUTRO
UM COMEÇO
PELO DELIVERY
OGNI EUROPA HA IL SUO ALTRO
Traduzione dell’articolo a pagina 65
BATTENTI APERTI NEL MEZZO DI UNA PANDEMIA
Traduzione dell’articolo a pagina 66
Rosa e Momo
dirigido por Edoardo Ponti, Itália, 2020, Netflix
Balcone
Rua Cristiano Viana, 370, Pinheiros
Tel. (11) 3476-7084 ou WhatsApp 93227-2783 Você já conhece esta história: duas pessoas de universos
muito distintos se repelem duramente, censurando no outro o que não veem em si mesmas. Aos poucos, porém, com a intervenção de interlocutores mais empáticos, começam a se aproximar e descobrir dores em comum. Tem início então uma grande amizade.
Assim é possível resumir o enredo de Rosa e Momo, produção da Netflix que adapta para o streaming o romance
A vida pela frente, do escritor francês Romain Gary, publicado
inicialmente em 1975. Mas a atuação de Sophia Loren e de Ibrahima Gueye, respectivamente os protagonistas do título, dá outro sabor à trama, que ainda atualiza os problemas contemporâneos que retrata e mobiliza.
Vivendo em Bari, na província italiana de Puglia, Rosa, que foi prostituta na juventude, cuida de filhos de outras prostitutas. Quando a trama tem início, moram com ela Iosif, cuja mãe está desaparecida, e Babu, filho de Lola, uma mulher trans. Momo, ou Mohamed, é um muçulmano senegalês de 12 anos cuja mãe foi assassinada e que chegará à casa de Rosa por outras vias. Só pela composição dessa família já é
Divulgação
Divulgação Netflix
possível notar a contemporaneidade do retrato. Essa Europa atual se une a outra mais antiga, a do nazismo, por meio da trajetória da protagonista, pois ela é sobrevivente de campos de concentração.
Abarcando dois momentos decisivos da história de como o continente europeu cria seu “outro” e lida com ele, o longa no entanto se concentra nos dramas individuais, fazendo ainda uma incursão pelo universo da contravenção, que tanto mobiliza os espectadores quando retratada do ponto de vista infantil. Especula-se, aliás, que a produção seja a aposta da Netflix para o Oscar.
Dirigido por Edoardo Ponti, filho de Loren, o filme marca o retorno da atriz italiana ao cinema após seis anos. Em 2014 ela estrelou em Voce umana, também sob a direção de Ponti. O sofrimento contido que imprime à personalidade de Rosa se une à determinação raivosa de Momo, criando cenas memoráveis na companhia de Gueye, como aquela que sucede à definição do destino de Iosif.
Quando começou o isolamento social, em março, restaurantes precisaram se adaptar ao delivery – e vários não resistiram e fecharam as portas. O Balcone, em Pinheiros, abriu as portas em julho, já focado exclusivamente no sistema de entrega por aplicativos e retirada. Agora já recebe os clientes no salão, nas noites de terça a sexta — mas com uma comida que nos faz, inevitavelmente, nos sentirmos em casa.
A cozinha italiana atual e sem frescuras, como definem os proprietários (o empreendedor Rodrigo Riccardi, filho de italianos, e o publicitário Gabriel José), se materializa em pratos clássicos e bem servidos, das entradas às sobremesas. O cardápio enxuto é composto basicamente por massas com molhos encorpados e carnes e legumes assados na grelha. A Burrata com creme de tomates tostados (R$ 59) vem em porção generosa e acompanhada de torradas de fermentação natural. O Orecchiette ao pesto (R$ 52) leva uma versão interessante do tradicional molho de manjericão, com alho assado e castanha-do-pará na receita. Stracciatella, raspas de limão-siciliano e farofa de pão equilibram perfeitamente o prato. Vegetarianos, aliás, não passam apuros: outra opção de massa sem carne é o Pappardelle ao molho de cogumelos (R$ 56), que eleva os sabores do shimeji, do shitake, do paris e dos funghi secchi na combinação.
Mas há também opções para os que apreciam bons cortes de carne. O destaque é o Ancho Hereford (R$ 72), que mesmo pedido em casa se mantém tenro e suculento como se tivesse saído da grelha na hora. Acompanhamentos também passam pela parrilla, como a Abóbora assada (R$ 22), que acompanha stracciatella, ou o Purê de batatas rústico (R$ 16), com cebola assada lentamente na brasa. De sobremesa, peça o Bolo de pistache recheado com creme de avelã (R$ 26), cremosíssimo e denso na medida.
Os clientes que pedem pratos pelo delivery recebem também um bilhete simpático com o link de uma playlist especial no Spotify, com artistas da nova cena brasileira mesclados a canções italianas modernas. Uma boa medida para aproximar quem ainda prefere evitar saídas, mas sente falta do prazer tão paulistano de se sentar à mesa de um restaurante. (Marcella Chartier)
UN NUOVO RITMO PER UN ORGANISMO GLOBALE / Traduzione dell’articolo a pagina 66
UM NOVO RITMO PARA O
ORGANISMO GLOBAL
Escrito na forma de um diário durante a quarentena imposta pelo coronavírus, Extremo reúne reflexões de Franco Berardi acerca da crise que assolou o mundo em 2020. Buscando uma perspectiva abrangente, capaz de observar o problema em toda a sua complexidade, ele alerta: não se trata de nada parecido ao que aconteceu na economia mundial de 2008. Desta vez, “a crise vem do corpo” – o “corpo planetário”, como ele nomeia, “entrou em convulsão”.
Partindo do problema sanitário representado pela pandemia e de um registro pessoal do isolamento social, o filósofo e ativista italiano argumenta que todo um modo de vida foi colocado em questão. Crescimento, acumulação, hiperconectividade, frenesi... Quando a ordem é desacelerar, o que acontece com esses imperativos?
Para o autor, são duas as saídas: ou buscamos “formas de vida igualitárias e frugais” ou “seremos empurrados para uma guerra de todos contra todos, para uma angústia ininterrupta e para a extinção da civilização humana”. Assim, as estratégias para sobreviver à pandemia aos poucos vão revelando caminhos para outros tipos de existência: o meio ambiente, a coletividade, o valor do trabalho e as formas de felicidade encontram seu lugar em uma utopia desenhada como possível.
O caráter urgente das palavras do militante incomoda de forma produtiva o leitor desde o início. Por meio de uma perspectiva subjetiva, abre caminho para o otimismo objetivo do filósofo que consegue ver em um cenário de devastação o anúncio de novas possibilidades.
O INFERNO
SÃO OS OUTROS?
L’INFERNO SONO GLI ALTRI? / Traduzione dell’articolo a pagina 66
Um dos mais importantes e deliciosos livros da literatura italiana, O falecido Mattia Pascal ganha nova edição pela Unesp, em ótima tradução de Silvia Massimini Felix. Trata-se de uma nova oportunidade para entrar em contato com essa narrativa inteligente e saborosa que, lançada inicialmente em 1904, notabilizou Luigi Pirandello como romancista.
No centro da trama está Mattia Pascal, que nos apresenta a sua trajetória em primeira pessoa. Infeliz em seu cotidiano familiar e pressionado por dívidas, ele encontra na morte de outro homem a oportunidade de uma nova vida. Longe daquilo que acreditava ser a fonte geradora de seu descontentamento, ele se vê livre para inventar uma nova identidade.
Alternando entre o cômico e o trágico, a
narrativa dá forma a uma fantasia que todos experimentamos em algum momento: qual seria o sentimento de libertar-nos de tudo, livrar-nos dos constrangimentos das relações pessoais e sociais e, assim, do que acreditamos cercear a nossa verdadeira identidade, encontrando abertura absoluta para viver conforme o nosso desejo? A resposta de Mattia surpreende.
Neste momento em que os constrangimentos sociais e domésticos se fazem tão presentes na rotina de boa parte de nós, marcada pela convivência estreita com as pessoas de casa, a leitura parece mais do que adequada. O livro nos toca a imaginação com a capacidade ao mesmo tempo profunda e sutil tão própria das obras de arte, mobilizando questões íntimas e remetendo para horizontes mais amplos.
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O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello,
tradução de Silvia Massimini Felix, Editora Unesp, 262 páginas, 55 reais Divulgação Extremo – Crônicas da psicodeflação, Franco Berardi, tradução de Regina Silva, Ubu Editora, 192 páginas, 54,90 reais