• Nenhum resultado encontrado

Reflexões sobre o na escola e na formação docente

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Reflexões sobre o na escola e na formação docente"

Copied!
12
0
0

Texto

(1)

R E F L E X Õ E S S O B R E O M U L T IC U L T U R A L IS

O N A E S C O L A E N A

F O R M A Ç Ã O D O C E N T E

1

QPONMLKJIHGFEDCBA

( R E F L E C T I O N A B O U T M U L T I C U L T U R A L lS M I N S C H O O L A N O I N T H E

F O R M A T I O N O F T E A C H E R S )

R E S U M O

o

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

a r t i g o fo c a l i z a o m u l t i c u l t u r a l i s m o e s u a s i m

-p l i c a ç õ e s p a r a o c u r r í c u l o d a e s c o l a e d a fo r m a ç ã o

d o c e n t e . A p r e s e n t a a e m e r g ê n c i a d e p r e o c u p a ç õ e s

m u l t i c u l t u r a i s , e x a m i n a a b o r d a g e n s t e ó r i c a s , d i s c u t e

p r i n c í p i o s e e s t r a t é g i a s d e u m e n fo q u e m u l t i c u l t u r a l

n a e d u c a ç ã o , b e m c o m o a n a l i s a q u e s t i o n a m e n t o s q u e

t ê m s i d o fe i t o s a o m u l t i c u l t u r a l i s m o . Oa r g u m e n t o c e n

-t r a l é q u e a s -t e n s õ e s e o s q u e s t i o n a m e n t o s d i r i g i d o s a o

m u l t i c u l t u r a l i s m o n ã o i n v i a b i l i z a m o p r o j e t o m u l t i

-c u l t u r a l ; a o c o n t r á r i o , p o d e m fa v o r e c e r o a v a n ç o t e ó

-r i c o e o d e s e n v o l v i m e n t o d e p r o p o s t a s c u r r i c u l a r e s

p a u t a d a s e m u m a o r i e n t a ç ã o m u l t i c u l t u r a l .ONMLKJIHGFEDCBA

P a la v r a s - c h a v e : m u lt ic u lt u r a lis m o , c u lt u r a , e d u c a -ç ã o m u lt ic u lt u r a l, c u r r íc u lo , f o r m a ç ã o d o c e n t e

A B S T R A C T

T h e a r t i c l e fo c u s e s o n m u l t i c u l t u r a l i s m a n d i t s

i m p l i c a t i o n s t o s c h o o l c u r r i c u l u m a n d t e a c h e r t r a i n i n g

c o u r s e s c u r r i c u l u m . I I p r e s e n t s t h e e m e r g e n c e o f

m u l t i c u l t u r a l c o n c e r n s , e x a m i n e s t h e o r e t i c a l

a p p r o a c h e s a n d d i s c u s s e s p r i n c i p i e s a n d s t r a t e g i e s

o f a m u l t i c u l t u r a l l y o r i e n t e d e d u c a t i o n . I t a l s o

a n a l y s e s m a i n c h a l l e n g e s t o m u l t i c u l t u r a l i s m . 1 t i s

a r g u e d t h a t d e s p i t e a l l t h e t e n s i o n s a n d q u e s t i o n i n g s

i n v o l v e d i n m u l t i c u l t u r a l t h e o r i z i n g a n d p r a c t i c e ,

m u / t i c u l t u r a l i n i t i a t i v e s a r e fe a s i b l e . T h e t e n s i o n s a n d

q u e s t i o n i n g s a r e e v e n s e e n a s fa v o u r i n g b o t h t h e

t h e o r e t i c a l a n d p r a c t i c a l d e v e l o p m e n t o f t h e fi e l d .

K e y w o r d s : m u lt ic u lt u r a lis m - c u lt u r e - m u lt ic u lt u r a l

e d u c a t io n - c u r r ic u lu m - t e a c h e r t r a in in g

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

ANA CANEN"

k .ró:'10hÁVIO BARBOSA MOREIRA3

IN T R O D U Ç Ã O

A pluralidade de culturas, etnias, religiões, visões de mundo e outras dimensões identitárias tem sido cada

vez mais reconhecida nos di ersos campos da vida

contemporânea. A complexidade das relações, tensões e conflitos advindos de choques e entrechoques des-sas identidades plurais e de suas lutas por afirmação e representação em políticas e práticas sociais extrapola

o âmbito da mera reflexão acadêmica. Esse panorama

invade nosso cotidiano, evidenciando-se nos noticiá-rios repletos de preconceitos, xenofobia e guerras, nos espaços virtuais, em que cada vez mais se difundem

mensagens racistas e discriminatórias, bem como em

qualquer local em que se expresse a face desumana

do ódio, da exclusão ou do desprezo ao "outro", per-cebido e tratado como diferente.

Considerar a plural idade cultural no âmbito da

educação e da formação docente implica, portanto,

pensar formas de se valorizar e se incorporar as iden-tidades plurais em políticas e práticas curriculares.

Implica, também, refletir sobre mecanismos discrimi-natórios ou silenciadores da pluralidade cultural, que tanto negam voz a diferentes identidades culturais, silenciando manifestações e conflitos culturais, como

buscam homogeneizá-Ias em conformidade com uma

perspectiva monocultural. A partir de tais reflexões, ao mesmo tempo amplamente defendidas e criticadas,

constitui-se a base do que tem sido denominado de

multiculturalismo em educação. Difundem-se, então,

as discussões sobre os objetivos e as possibilidades

de uma prática pedagógica multiculturalmente orien-tada, sobre as divergências teóricas e metodológicas

referentes à própria concepção de multiculturalismo, bem como sobre os diversos contextos do multicultu-ralismo e suas especificidades.

IO presente texto constitui versão modificada de texto de apoio utilizado no minicurso M u l t i c u l t u r a l i s m o , c u r r í c u l o e fo r m a ç ã o

d o c e n t e , ministrado pelos autores na XXII Reunião Anual da ANPEd, Caxambu, 26 a 30 de setembro de 1999

2Professora Adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ. Doutora em Educação pela Universidade de Glasgow

3Professor Titular da Faculdade de Educação da UFRJ. Doutor em Educação pela Universidade de Londres

(2)

Ao mesmo tempo, os debates recaem, muitas

vezes, ora em metadiscussões que pouco contribuem

para a construção de currículos multiculturais, ora em

radicalismos e posições dogmáticas que contradizem

o fundamento ético, a verdadeira condição de

exis-tência do multiculturalismo - a presença do diálogo

(Gutmann, 1994). Em decorrência de todas essas

po-lêmicas, pode ser útil situar a emergência do

mu\ticu\tura\ismo, clarificar suas abordagens teóricas e possíveis desdobramentos curriculares, identificar tensões e discutir as possibilidades de uma

aborda-gem multicultural na promoção de uma educação

democratizadora,' crítica e comprometida com o

de-senvolvimento de uma cidadania plural e participativa. São esses os objetivos do presente trabalho, que se estrutura em quatro partes. Na primeira, apresenta-se o conceito de cultura do qual se parte, bem como suas

implicações para a concepção de currículo adotada.

Na segunda, discute-se o conceito de

multicul-turalismo, situando-se sua emergência em diferentes

contextos e sua constituição em campo de estudos

acadêmicos. Na terceira, caracterizam-se as diferen-tes abordagens de multiculturalismo e analisam-se suas possíveis contribuições para a materialização de uma educação escolar crítica e transformadora. Na quarta, focalizam-se possíveis princípios de uma abordagem multicultural nos campos do currículo e da formação docente. Na quinta, discutem-se experiências de edu-cação multicultural. Por fim, apresentam-se desafios

e questionamentos ao multiculturalismo,

sugerindo-se caminhos para o desenvolvimento de pesquisas

multiculturalmente orientadas. Argumenta-se que, lon-ge de inviabilizarem o projeto multicultural, as

ten-sões e as críticas a ele dirigi das podem tanto favorecer

o avanço do conhecimento na área, como estimular

propostas curriculares renovadas que visem a prepa-rar cidadãos e docentes capazes de bem viver e atuar

em sociedades cada vez mais multiculturais.

JIHGFEDCBA

C O N C E P Ç Õ E S D E C U L T U R A E IM P L IC A Ç Õ E S

P A R A A S R E F L E X Õ E S S O B R E C U R R íC U L O

Os sentidos atribuídos ao termo

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

c u l t u r a têm variado ao longo do tempo, particularmente no

perío-do da transição de formações sociais tradicionais para a modernidade. Com o apoio de Bocock (1995),

apre-sentam-se alguns deles.

Op r i m e i r o e mais antigo significado de

cultu-ra encontcultu-ra-se na literatura do século XV, em que a palavra refere-se a c u l t i v o da terra, de plantações e

de animais.

QPONMLKJIHGFEDCBA

É nesse sentido que ainda hoje se

enten-dem palavras como agricultura, floricultura.

suinocultura.

O s e g u n d o significado emerge no início do

século XVI, estendendo a idéia de cultivo da terra e de animais para a m e n t e h u m a n a . Ou seja,

fala-se em mente humana cultivada, chegando-se a

con-cluir que somente alguns indivíduos, grupos ou

classes sociais apresentam mentes e maneiras

cul-tivadas e que somente algumas nações apresentam

elevado padrão de cultura ou c i v i l i z a ç ã o . No

sé-culo XVIII, consolida-se o caráter classista da idéia

de cultura, evidenciado na idéia de que somente as

classes privilegiadas da sociedade européia poderi-am aspirar ao nível de refinpoderi-amento que as

caracte-rizaria como cultas. O sentidoainda hoje empregado de cultura, que a associa às a r t e s , tem suas origens

nessa segunda concepção: cultura, tal como a

con-cebem as elites, corresponde ao bem apreciar

mú-sica, literatura, cinema, teatro, pintura, escultura, filosofia etc.

No século XX, a noção de cultura passa a

in-cluir a cultura popular, hoje penetrada pelos

conteú-dos conteú-dos meios de comunicação de massa. Distinções

e tensões entre os significados de cultura elevada e de

cultura popular acentuam-se, acarretando um uso do

termo cultura no qual valorizações e avaliações se en-contram inevitavelmente presentes.

Um t e r c e i r o sentido da palavra cultura,

origi-nado no Iluminismo, a associa a ump r o c e s s o secular

geral de d e s e n v o l v i m e n t o s o c i a l . Esse significado é

comum nas ciências sociais, apontando para a crença

em um processo unilinear e histórico de

autode-senvolvimento da humanidade, peloqual todas as

so-ciedades inevitavelmente passam. Vale acrescentar que tal processo termina por equivaler aos rumos seguidos pelas sociedades européias, as únicas a atingirem o grau mais elevado de desenvolvimento.

Em um q u a r t o sentido, a palavra "culturas" (no

plural) indica os distintos modos de vida, valores e significados compartilhados por diferentes grupos (na-ções, classes sociais, subculruras) e períodos

históri-cos. Trata-se da visão antropológica de cultura,

correspondente aos significados que os grupos

com-partilham, ou seja, aos conteúdos culturais. Cultura

identifica-se, assim, com a fo r m a g e r a l d e v i d a de um dado grupo social.

Finalmente, umq u i n t o significado tem tido

con-siderável impacto nas ciências sociais e nas

humani-dades em geral. Deriva da antropologia social e

também se refere a significados compartilhados. Di-ferentemente da concepção anterior, porém, enfatiza a dimensão simbólica, o que a cultura fa z , em vez de

E D U C A Ç Ã O E M D E B A T E · F O R T A L E Z A · A N O 2 1 • V 2 • N Q 3 8 •

ONMLKJIHGFEDCBA

p . 1 2 -2 3 1 9 9 9 · 1 3

(3)

destacar o que a cultura

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

é .Nessa mudança, efetua-se

um movimento do q u ê para oc o m o . Concebe-se,

as-sim, a cultura como prática social, não como coisa

(artes) ou estado de ser (civilização). Nesse enfoque, coisas e eventos do mundo natural existem, mas não apresentam sentidos intrínsecos: os significados são

atribuídos a partir da linguagem. Quando um grupo

compartilha uma cultura, compartilha um conjunto

de significados, construídos, ensinados e aprendidos nas práticas de utilização da linguagem. A palavra cul-tura evoca, portanto, o conjunto de práticas por meio das quais significados são produzidos e

compartilha-dos em um grupo. São os arranjos e as relações

en-volvidas em um evento que passam, dominantemente,

a despertar a atenção dos que analisam a cultura a

partir dessa quinta perspectiva, passível de ser resu-mida na idéia de que cultura representa um c o n j u n t o

d e p r á t i c a s s i g n i fi c a n t e s .

Se entendermos o currículo, como propõe

Williams (1984), como uma seleção da cultura,

pode-mos concebê-lo, também, como conjunto de práticas

que produzem significados. Nesse sentido,

conside-rações de Silva (1997) podem ser úteis. Segundo o

autor, o currículo é o espaço em que se concentram e se desdobram as lutas em tomo dos diferentes

signifi-cados sobre o social e sobre o político.

QPONMLKJIHGFEDCBA

É por meio do currículo que diferentes grupos sociais,

especialmen-te os dominanespecialmen-tes, expressam sua visão de mundo, seu projeto social, sua "verdade".

Apoiando-se no pensamento pós-estrutural,

Silva discute as relações entre cultura e currículo,

acentuando que cultura deve ser compreendida mais

como produção, como criação, como trabalho, e

menos como produto, como algo pronto, acabado.

Destaca, então, a produtividade da cultura, sua

ca-pacidade de trabalhar, constantemente, inúmeros

materiais. Todo esse trabalho de desmontagem e

desconstrução, bem como de remontagem e

recons-trução, ocorre, acrescenta o autor, em um contexto

de relações sociais que envolvem conflitos,

nego-ciações, acordos. Em síntese, como a cultura, o

cur-rículo pode ser concebido como: (a) uma prática de

significação; (b) uma prática produtiva; (c) uma re-lação social; (d) uma rere-lação de poder; (e) uma prá-tica que produz identidades sociais.

Se o currículo constitui o cerne da relação

educativa, corporificando os nexos entre saber, poder e identidade, será em grande parte por seu intermédio que as escolas buscarão atribuir novos sentidos e pro-duzir novas identidades culturais, auxiliando a

confor-mar novos modos de reação à realidade social

contemporânea, inescapavelmente multicultural.

ONMLKJIHGFEDCBA

M U L T I C U L T U R A L I S M O : C O N C E P Ç Õ E S E S U B S T R A T O S T E Ó R I C O S

Para Kincheloe e Steinberg (1997), o

rnulticul-turalismo significa tudo e ao mesmo tempo nada.

Segundo os autores. não se pode falar de multicul-turalismo, neste final de século, sem se especificar

com clareza o sentido atribuído ao termo. Falar em

multiculturalismo pode indicar diferentes ênfases: (a) uma atitude que se pretenda ver desenvolvida em

re-lação à diversidade cultural; (b) uma meta a ser

alcançada em um determinado espaço social; (c) um

valor (de tolerância, de respeito) a ser desenvolvido entre indivíduos; (d) uma estratégia política de reco-nhecimento da diversidade cultural e esforços de re-presentação política das mesmas; (e) um corpo teórico

de conhecimentos que buscam entender a realidade

cultural contemporânea; ( f ) uma visão crítica do co-nhecimento transm itido pelas instituições organi-zadoras da cultura; (g) o atual caráter das sociedades ocidentais (Kincheloe e Steinberg, 1997 ; McLaren,

1997; Gonçalves e Silva, 1998).

Essa última perspectiva é adotada por

Kincheloe e Steinberg (1997), para quem o

multiculturalismo não é algo em que se acredite ou

com o qual se concorde: é algo que simplesmente é.

Éa inevitável condição da vida ocidental

contempo-rânea. Pode-se responder a essa realidade de

diferen-tes modos, mas não se pode negá-Ia ou apagá-Ia.

Multiculturalismo representa a natureza dessa

respos-ta, que envolve a formulação de definições conflitantes de mundo social decorrentes de distintos interesses econômicos, políticos e sociais particulares. Nessa

formulação, as relações de poder desempenham

pa-pel crucial, auxiliando a conformar o modo como in-divíduos, grupos e instituições reagem à realidade cultural. O multiculturalismo em educação envolve a

natureza dessa resposta em espaços educacionais.

Trata-se, nesse caso, de contextualizar e de compre-ender a produção das diferenças.

O foco nas diferenças é também defendido por Gonçalves e Silva (1998), para quem falar do multi-culturalismo implica falar do jogo das diferenças, cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que,

por uma razão ou outra, experimentam o gosto

amar-go da discriminação e do preconceito no interior das

sociedades em que vivem. Não pode haver, então,

educação multicultural separada dos contextos das

lutas de grupos culturalmente dominados, que

bus-cam modificar, por meio de suas ações, a lógica pela qual, na sociedade, os significados são atribuídos. As

abordagens pedagógicas do multiculturalismo

(4)

sam associar-se, então, a propósitos e esforços de cu-nho político.

No campo político, as discussões multiculturais têm incidido sobre a necessidade de ressignificação de conceitos como direitos humanos, democracia e cida-dania, de forma a articular, em suas formulações, rei-vindicações identitárias, afirmação de padrões culturais singulares e garantia de representação política. Santos (1997), Martuccelli (1996) e Taylor (1994)

destacam-se nessas discussões, identificando ambigüidades e

ten-sões nos debates igualdade X eqüidade, igualdade X

diferença, liberdade

QPONMLKJIHGFEDCBA

X diferença e liberdade X eqüida-de, no tratamento jurídico e legal dos direitos de

gru-pos culturais plurais. Tais debates questionam as

injustiças ligadas à não consideração das necessidades particulares de certos grupos da população em função do caráter abstrato, pretensamente universal, que tais conceitos assumem na política pública. Acentuam,

ain-da, a necessidade de se inserir uma perspectiva

multicultural nos discursos, bem como de se

desconstrui-Ios de forma a favorecer uma efetiva re-presentação de identidades culturais plurais nas

insti-tuições democráticas. Questões como igualdade de

oportunidades e ações afirmativas, como as que

vi-sam a garantir uma quota fixa de vagas para minorias étnicas em universidades, cursos ou outras instâncias, por exemplo, vêm à tona nesse âmbito de discussões. Como corpo teórico, o multiculturalismo

ques-tiona o conhecimento transmitido nas diversas

instâncias produtoras e transmissoras de cultura, iden-tificando etnocentrismos, visões estereotipadas de

de-terminados grupos e buscando aberturas para a

incorporação de uma pluralidade de vozes, de formas diversas de se construir e interpretar a realidade. Con-forme Gonçalves e Silva (1998), as categorias

teóri-cas do multiculturalismo permitem uma leitura de

mundo a partir de "procedimentos lógicos inerentes

às culturas dominadas, produzindo, assim, um novo

conhecimento e, por conseqüência, uma nova subjeti-vidade descentrada e emancipada de valores suposta-mente superiores" (p. 16). Busca-se, nessa perspectiva,

recuperar histórias e visões de mundo que perfazem

identidades plurais, buscando subverter a lógica dos

discursos culturais hegemônicos e as narrativas mes-tras que se pretendem universais.

O multiculturalismo encontra terreno propício

para desenvolver-se no momento em que a cultura

deixa de ser vista como pertencendo a uma

superes-trutura ideológica, como considerava o pensamento

marxista, e passa a assumir uma posição nuclear na

própria infra-estrutura das sociedades

contempo-râneas. Hall (1997a, 1997b) e Silva (1999) insistem

no papel central desempenhado pela cultura nas trans-formações da vida local e cotidiana, acentuando que

as lutas pelo poder tendem a se desenrolar no campo simbólico e discursivo, ou seja, no campo da cultura.

Trata-se de uma verdadeira

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

v i r a d a c u l t u r a l , a partir da qual se repensa o papel da cultura na formação das

identidades. Entendida em um sentido amplo, essa

virada cultural corresponde ao desafio da noção de

que a identidade emerge de uma essência a p r i o r i . Ao

contrário, ela é tida como sendo construída, em gran-de parte, por meio dos discursos culturais, elaborados

e desenvolvidos em espaços diversificados. As iden-tidades seriam, nessa ótica, formadas culturalmente (Hall, 1997a). Ou seja, a cultura constitui nossas iden-tidades. A virada cultural traz, então, para o terreno

das discussões, a necessidade de éompreensão dos

mecanismos de regulação e de poder que autorizam

certos discursos e silenciam outros, que favorecem o

crescimento de certas identidades em detrimento de

outras. Não se trata, porém, cabe acrescentar, de uma categoria essencializada: a cultura constitui campo de

conflitos, constitui espaço em que se desenvolvem

relações de poder em torno de práticas de significa-ção e de representasignifica-ção.

Tendo como principal objeto de estudo os fe-nômenos culturais, surgem, na Inglaterra, os Estudos Culturais, cujas origens encontram-se na Sociologia e que incorporam categorias já presentes na

Antropo-logia, bem como discursos provenientes do

marxis-mo, feminismarxis-mo, pós-estruturalismo e pós-modernismo. Conforme Nelson et aI. (1995), os Estudos Culturais

servem, hoje, como ferramenta de análise em

diver-sas áreas, fazendo com que sejam vistos como uma disciplina não tradicional. Trata-se, no dizer dos au-tores, de um campo "interdisciplinar, transdisciplinar e algumas vezes contra-disciplinar ( ...) comprometi-do com o estucomprometi-do de todas as artes, crenças,

institui-ções e práticas comunicativas de uma sociedade" (p. 13), objetivando "teorizar e capturar as mútuas deter-minações e inter-relações das formas culturais e das forças históricas" ( i b i d . , 9 ) .

Para Giroux (1995), os Estudos Culturais preo-cupam-se com a relação entre cultura, conhecimento

e poder, interpretando a prática pedagógica como um

terreno por meio do qual os estudantes discutem e

questionam, de modo crítico, os diversos discursos e as diversas práticas culturais. Dessa forma, pode-se

afirmar que o compromisso dos Estudos Culturais é

refletir criticamente sobre os espaços e os discursos que produzem e representam a cultura e as

identida-des culturais no mundo contemporâneo, questionando as relações de poder que se encontram na base dessas

(5)

representações e buscando alternativas de intervenção

em projetos de mudanças culturais. Nesse sentido,

Giroux defende uma visão de Estudos Culturais em consonância com a perspectiva de Agger (1992), para quem há de se rejeitar toda tentativa de transformar os Estudos Culturais em uma simples metodologia de lei-tura de textos cullei-turais e de esvaziá-los de seu neces-sário comprometimento político.

O multiculturalismo pode ser visto como cons-tituindo uma das preocupações dos Estudos Culturais. A multiplicidade de culturas, constitutivas de

identi-dades plurais, sempre em movimento e em relações

assimétricas de poder, traz a necessidade de se

desconstruírem discursos e se desafiarem práticas

silenciadoras de determinadas identidades culturais. Preconiza-se, também, a relevância de se compreen-der a identidade como um processo, como fluida, como multifacetada, o que implica rejeitar todo esforço

fei-to no sentido de reduzi-Ia a uma de suas partes e de congelá-Ia em estereótipos.

Os Estudos Culturais focalizam, assim, estra-tégias de significação e de produção das diferenças.

Podem ser entendidos como multiculturalismo

quan-do deslocam o foco dessas estratégias para o contexto das identidades culturais representadas, estereotipa-das ou silenciaestereotipa-das. Essa distinção, contudo, somente

se faz para fins didáticos, uma vez que nem sempre se identificam, com clareza, as fronteiras que demarcam estudos multiculturais de outros estudos no âmbito dos

Estudos Culturais.

JIHGFEDCBA

M U L T IC U L T U R A L lS M O : C O N T E X T O

M U N D IA L E IN S E R Ç Õ E S L O C A IS

Se o substrato teórico para a reflexão acadêmi-ca sobre o multiculturalismo pode ser identifiacadêmi-cado como, em grande parte, situado na matriz da virada cultural e

dos Estudos Culturais, sua existência é percebida na dinâmica de acontecimentos mundiais nos quais se evi-dencia a central idade da categoria cultura em

movi-mentos de afirmação e de resistência, que buscam

responder a processos de exclusão e de aniquilamento

de identidades culturais. O holocausto que atingiu seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial e as

atrocidades étnicas nos

Bálcãs

são emblemáticos da

relevância do multiculturalismo como estratégia

políti-ca e como políti-campo de conhecimentos, de forma a

pre-parar futuras gerações tanto para a rejeição de práticas etnocêntricas, xenófobas e de intolerância para com o

outro, como para uma participação efetiva no proces-so de construção de democracias plurais.

Às situações de violência real devem-se acres-centar os efeitos da violência simbólica decorrentes do processo de globalização excludente que, ao procu-rar homogeneizar manifestações culturais, termina por anular vozes e experiências de grupos oprimidos. As reflexões multiculturais que sugerem estratégias de re-sistências e de afirmação identitária, acabam, nesse

contexto, significativamente estimuladas.

QPONMLKJIHGFEDCBA

À reflexão sobre histórias de âmbito mundial

deve-se acrescentar a preocupação em compreender

traduções locais de mo imentos de afirmação

identitária e em contextualizar esforços multicul-turalmente orientados. Considerando a Europa, Fleuri

(1998) argumenta que o multiculturalismo tem sido

analisado a partir da intenção de integrar imigrantes ao país hospedeiro. Nesse sentido, tal como a cultura

contemporânea, o multiculturalismo apresenta-se

ambíguo por poder ser visto, em muitos casos, como forma de aculturar imigrantes, como possível solução

para os problemas que a presença de grupos étnicos

diversos causa nos países de Primeiro Mundo (Silva, 1999). Por outro lado, além da preocupação com flu-xos migratórios, o multiculturalismo pode constituir

movimento de reivindicação de determinados grupos,

visando, então, a afirmação de identidades culturais específicas. É essa a perspectiva presente na

elabora-ção de propostas de educação multicultural que se

voltam para a preservação da identidade e da cultura

gaélica. Ainda no Reino Unido, fortemente marcado

pela influência inglesa, também associam-se ao

multiculturalismo a tentativa de valorização da

iden-tidade escocesa, bem como as lutas de membros de

ex-colônias por sobrevivência digna na sociedade 1

glesa. Na Espanha, os acontecimentos que envolve ,., as minorias basca e catalã constituem outro exemplo de movimentos multiculturalmente orientados e

ilus-tram as dificuldades presentes na concretização da

União Européia, constituída de fato por verdadeiro mosaico de culturas nem sempre abertas ao diálogo (Grant, 1997).

Na América Latina, a preocupação com a

desi-gualdade e a exclusão que atingem grupos étnicos e

culturais marginalizados, tais como indígenas, negros

e camadas populares, fazem emergir movimentos de

resistência a iniciativas homogeneizadoras, inspiram

propostas multiculturais comprometidas com a

valo-rização e a representação dessas identidades culturais em práticas sociais, culturais e políticas. No Brasil,

os movimentos sociais que têm proliferado a partir

dos anos 80 têm sido particularmente relevantes no

desenvolvimento do multiculturalismo. A partir

de-les, denuncia-se a mobilidade social diferenciada para

(6)

brancos e negros, aponta-se a falácia da democracia racial brasileira, assim como desafia-se o mito da uni-dade linguística, apontando-se, por exemplo, para a presença de 206 etnias indígenas no país, cada uma

com suas formas linguísticas e dialetais, bem como

com traços culturais distintos.

Presente em todos esses esforços multiculturais

encontram-se as aspirações, já expressas por Paulo

Freire, de dar voz aos silenciados nas histórias ofici-ais, de dialogar com suas culturas, de facilitar a cons-trução de uma cidadania multicultural e crítica. Como conseqüência, a pressão por representação de diferen-tes identidades culturais em políticas e discursos nas diversas instâncias da vida pública tem tido forte im-pacto na educação, particularmente nos estudos sobre currículo e formação docente. Pode-se verificar que a

educação multicultural não é uma concessão, mas sim o resultado de lutas iniciadas no âmbito de movimen-tos sociais e populares visando a uma participação mais igualitária na vida social e cultural.

Além do espaço conquistado nessas lutas, o

multiculturalismo também encontra terreno fértil no pensamento acadêmico, que cada vez mais se abre para a crítica cultural. Com o apoio dos Estudos Culturais, estimulam-se reflexões sobre a constituição de

iden-tidades e sobre formas de se construírem discursos que superem o congelamento de identidades e a

tenta-tiva de universalizar valores culturais dominantes.

JIHGFEDCBA

D O E X O T IS M O D A D IV E R S ID A D E A O

D E S A F IO D A S D IF E R E N Ç A S :A B O R D A G E N S

M U L T IC U L T U R A IS E M E D U C A Ç Ã O

Conforme estudos anteriores (Canen, 1999a,

1999b; Moreira, 1999), a identificação da abordagem de multiculturalismo adotada é crucial para que se

de-tecte em que medida o discurso de valorização da

pluralidade cultural supera ou apenas mascara, no ter-reno da educação, as desigualdades e as exclusões de

identidades culturais.

Dentre as categorizações apresentadas na

lite-ratura, autores como Grant (1993) e McLaren (1997)

têm proposto classificações de abordagens

multi-culturais que, embora com certas distinções, parecem

convergir para o reconhecimento de tendências

multiculturalis liberais ou "folclóricas", de um lado, e tendências multiculturais mais críticas, de outro. No primeiro grupo estão as concepções multiculturais que não problematizam as relações desiguais de poder ou

os mecanismos discriminatórios que inferiorizam iden-tidades culturais específicas. O multiculturalismo é

tratado, então, de forma exótica, folclórica,

limitando-se à promoção de práticas de reconhecimento de

pa-drões culturais diversificados, com seus ritos, costumes, culinária, etc. A idéia é que a sensibilidade à plural idade cultural passa pelo conhecimento e pela aceitação da

diversidade, sem que se faça necessário o

questionamento dos mecanismos pelos quais se

esta-belecem as diferenças, as discriminações e as exclu-sões (Canen, 1997a, 1997b; Moreira, 1999).

Um segundo enfoque corresponde a uma visão

mais crítica do multiculturalismo, sendo denominado de multiculturalismo crítico, interculturalismo crítico ou perspectiva intercultural crítica. Nesse enfoque, a partir de aportes da teoria crítica, as relações entre cultura e poder são trazidas à tona. Busca-se trabalhar no sentido de abrir espaço para vozes culturais anteri-ormente silenciadas em currículos e práticas

pedagó-gicas, desafiar preconceitos, identificar origens

históricas e promover um horizonte emancipatório e

transformador.

Críticas de autores pós-modernos e

pós-colonialistas têm incentivado o refinamento da perspec-tiva intercultural crítica. Essas críticas atingem os

princípios centrais da teoria crítica, tais como a crença na possibilidade de emancipação, no progresso da soci-edade, no indivíduo consciente e centrado, nas grandes narrativas, no indiscutível valor do conhecimento

cien-tífico etc, contribuindo para a reconfiguração do

multiculturalismo crítico. Novas ênfases se fazem então sentir nas pesquisas, que passam a focalizar as formas discursivas de produção das diferenças em currículos e em práticas pedagógicas. Tais estudos evidenciam sen-sibilidade tanto à pluralidade de dimensões que constitu-em nossas identidades, o que implica não defini-Ias unicamente por "rnarcadores-mestres" (gênero, raça,

classe social, nacionalidade, religião, língua etc), como ao processo de hibridização, tido como responsável pelo caráter difuso dos fenômenos culturais contemporâneos

(García Canclini, 1990; Dussel, Tiramonti e Birgin, 1998). Tais estudos costumam refletir também a busca de formas discursivas alternativas.

As categorias acima mencionadas, ao serem in-corporadas ao pensamento multicultural crítico, permi-tem fazer face às limitações de projetos multiculturais

que analisam as identidades a partir de um marcador

único, homogeneizando, equivocadamente,

determi-nados grupos culturais. Tais propostas tratam do

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

n e

-g r o , do í n d i o , da m u l h e r e, embora defendendo a

plural idade cultural, acabam por restringir-se a práti-cas discursivas mono lógicas.

O ponto de vista de que não existem

comunida-des homogêneas, unificadas, localizáveis, é também

QPONMLKJIHGFEDCBA

(7)

abraçado por Ellsworth (1999). A partir da constatação de que se havia esquecido, em sua tese de doutorado,

das diferenças existentes no interior da comunidade lésbica, a autora busca apoio no pós-modernismo para afastar-se de perspectivas monoculturais e dos méto-dos de ensino e de pesquisa tradicionais. Nesse movi-mento, rejeita o adjetivo multicultural, propondo que se utilize o substantivo multicultura, a seu ver passí-vel de designar uma "cultura" em si e ao mesmo tem-po multiplicar e diversificar a noção de cultura. Tal termo parece resistir a usos estáticos, unitários, ao mesmo tempo que sugere que a cultura é sempre

múl-tipla, sempre em processo, sempre em construção.

Nesse enfoque, o valor da pesquisa e do ensino reside na qualidade das multiculturas que os textos e as

rela-ções contribuem para produzir, apoiar, ampliar. Certamente já se tornam evidentes a

complexi-dade e a polissem ia envolvidas nas discussões e nas propostas multiculturais. Analisá-Ias supõe, então, em um primeiro momento, clareza em relação à

concep-ção de multiculturalismo adotada. Caso contrário,

corre-se o risco de se colocar, sob o mesmo termo

definidor, programas pouco questionadores e

progra-mas efetivamente comprometidos com a superação de

linguagens e de práticas monoculturais.

Posteriormen-te, cabe sugerir princípios norteadores de estratégias.

JIHGFEDCBA

C U R R íC U L O E F O R M A Ç Ã O D O C E N T E :

P R IN c íP IO S P A R A O M U lT lC U lT U R A L IS M O

QPONMLKJIHGFEDCBA

E M A Ç Ã O

Como traduzir perspectivas mais críticas do

multiculturalismo no currículo da escola e da

forma-ção docente? Que experiências já apontam para a

efetivação dessas perspectivas? Como superar propos-tas que se limitem a apelar para o respeito, a tolerân-cia e a convivêntolerân-cia pacífica entre diferentes culturas? Deve-se, inicialmente, acentuar que na aborda-gem multicultural crítica as diferenças culturais não

podem ser concebidas à parte de relações de poder

(Silva, 1999). Cabe, ainda, considerar que o processo

curricular informado por uma perspectiva

multi-cultural crítica visa a dois propósitos básicos: promo-ver o respeito pela dipromo-versidade e preparar os alunos para o trabalho coletivo em prol de justiça social. No primeiro caso, trata-se de reduzir preconceitos, de es-timular atitudes positivas em relação ao "diferente",

de promover a capacidade de assumir outras perspec-tivas, de propiciar o desenvolvimento da empatia. No segundo, trata-se de evidenciar as relações de poder

envolvidas na construção da diferença, de criar

opor-incentivar habilidades e atitudes necessárias ao fortale-cimento do poder indi idual e coletivo, bem como de desen olver habilidades de pensamento crítico.

Segundo leeter e Grant (1991), fortalecimen-to do poder e educação multicultural estão

entrelaça-dos e, juntos apontam para uma reforma escolar

abrangente e poderosa Para eles, educação para o for-talecimento do poder significa fazer o estudante acre-ditar em sua capacidade para agir de modo efetivo. Demanda levar em conta muito seriamente as forças, as experiências, as estratégias e as metas dos

mem-bros dos grupos oprimidos. Demanda também ajudá-10s a analisar e a compreender a estrutura social que os oprime e, ainda, capacitá-Ios a alcançar seus pro-pósitos com sucesso. Em parte, significa ajudá-Ios a

serem bem-sucedidos nas escolas e em outras

insti-tuições sociais. Um bom rendimento acadêmico é,

as-sim, visto como condição necessária para um processo

efetivo de fortalecimento do poder dos membros de

grupos oprimidos.

Se na abordagem multicultural crítica enfatizam-se os processos institucionais, econômicos e

estrutu-rais que estão na base da produção das diferenças

(Silva, 1999), o olhar intercultural crítico, tensionado pelas sensibilidades pós-modernas, percebe o currí-culo como uma peça: do sistema cultural mais amplo

e, portanto, como campo de conflitos em torno da re-presentação de vozes culturais plurais e da produção de significados. Nessa perspectiva, trata-se de vislum-brar possibilidades de questionar o pretenso "univer-salismo" dos discursos curriculares, desafiando os

valores que os informam, os contextos em que são

produzidos, os signos e os significados presentes em

sua construção, bem como os estereótipos e os silên-cios que os perpassam. Por outro lado, trata-se de bus-car formas alternativas de discursos curriculares, de

forma a promover tanto a representação de vozes cul-turais plurais como o diálogo das diferenças.

Embora não caibam receitas para a elaboração de currículos multiculturais na escola e na formação docente e seja indispensável cautela em relação a

qual-quer esforço de universalização de propostas, algu-mas linhas gerais podem ser sugeridas.

Em primeiro lugar, parece necessário que o tra-balho curricular procure articular a plural idade

cultu-ral mais ampla da sociedade à pluralidade de

identidades presente no contexto concreto da sala de

aula onde se desenvolve o processo de

aprendiza-gem. O propósito é evitar que, em nome de uma

va-lorização da plural idade presente na sociedade, se reduza a educação multicultural a um elenco de

tópi-cos versando sobre características étnicas e culturais

18 • E D U C A Ç Ã O E M D E B A T E · F O R T A L E Z A · A N O 2 1 • V 2 • N Q 3 8 •

ONMLKJIHGFEDCBA

p . 1 2 -2 3 • 1 9 9 9

(8)

da população. Vale envidar esforços no sentido de

engajar docentes e discentes no questionamento da

inserção de suas identidades culturais nesse quadro mais amplo, analisando as desigualdades, os silêncios e as exclusões nele presentes. Pesquisar os universos

culturais dos estudantes passa, então, a ser tarefa in-dispensável nessa abordagem, a fim de que intenções multiculturais críticas não redundem em práticas pe-dagógicas distanciadas das vivências e das culturas de alunos e de futuros professores.

Em segundo lugar, vale insistir que a educação multicultural não pode ser reduzida ao espaço de uma disciplina a ser incluída no currículo (Canen, 1997a,

1997b, 1999). Uma perspectiva multicultural deve

informar os conteúdos selecionados em todas as

áre-as do conhecimento, contribuindo para ilustrar con-ceitos e princípios com dados provenientes de culturas diversificadas, focalizar as diferenças como proces-sos de construção, decodificar teorias e conceitos na

perspectiva do outro, bem como desafiar mensagens

etnocêntricas, racistas e discriminatórias presentes nos materiais didáticos e nos discursos da sala de aula.

Além dos conteúdos, há que se definir

estraté-gias adequadas ao trabalho multicultural na formação de professores. Encontram-se na literatura especializa-da algumas sugestões: oferta de cursos que abordem questões culturais; discussões em tomo dos elementos constitutivos das identidades dos professores; deba-tes sobre questões polêmicas envolvendo pluralidade cultural e preconceitos a ela relacionados; críticas de

artigos polêmicos publicados na imprensa; análises

de situações de discriminação e elaboração de

ensai-os sobre as mesmas com a utilização de diferentes

fontes; reflexões pessoais sobre a própria identidade e sobre como diferentes aspectos dessa identidade

in-fluenciam as experiências e as formas de significá-Ias; mesas-redondas com a participação de pessoas de padrões culturais diversos; desenhos do mapa-rnúndi

questionando sua construção e o etnocentrismo nele

evidenciado; oferta de cursos sobre a história de um

grupo oprimido; organização do currículo da

forma-ção docente a partir de categorias como

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

c u l t u r a , c o -n h e c i m e -n t o , p o d e r , h i s t ó r i a , l i n g u a g e m , d i fe r e n ç a ,

d i s c r i m i n a ç ã o , i d e n t i d a d e ; análises de etnografias de escolas que atendem a estudantes de distintos grupos culturais; análises de autobiografias, narrativas pes-soais, romances, poesias, músicas, filmes, anúncios' participação em experiências comunitárias e assim por

diante (Moreira, 1999).

Em terceiro lugar, destaque-se a importância do

diálogo como elemento delineador de uma prática

curricular multiculturalmente orientada. Seja em

di-nâmicas que visem a sensibilizar discentes e futuros

docentes para os diferentes aspectos envolvidos na

construção identitária (em contraposição a uma visão essencializada da mesma), ou em discussões desafia-doras de visões estereotipadas de grupos distintos, o diálogo oferece a base indispensável para o desenvol-vimento de uma perspectiva multicultural no currícu-lo em ação.

Em quarto lugar, é necessário acentuar que os aspectos cognitivos envolvidos na formação docente não são suficientes para estimular de fato uma postu-ra multicultupostu-ral, não podendo, portanto, ser

separa-dos de um concomitante envolvimento afetivo. Se a

intenção é desafiar e transformar percepções, valo-res, sentimentos, emoções, há que se procurar,

cuida-dosa e adequadamente, organízar a prática pedagógica de modo a atingir tanto a "mente" como o "coração"

do futuro docente.

JIHGFEDCBA

C U R R íC U L O E F O R M A Ç Ã O D O C E N T E :

E X P E R IÊ N C IA S M U L T IC U L T U R A IS

Experiências multiculturais têm sido desenvol-vidas dentro e fora do espaço formal da escola. Algu-mas das que se realizam fora da escola destinam-se a grupos étnicos específicos, ou seja, a comunidades de

negros, índios, imigrantes, ciganos etc.

QPONMLKJIHGFEDCBA

O perigo de

homogeneização identitária é, nesse caso, bastante

real. Em nome, por exemplo, de uma suposta

identi-dade negra, homogênea, identificável e localizável pode-se minimizar a complexidade das identidades de

diferentes mulheres e homens negros, com valores

diferenciados, formas de vida e de inserção social

variadas. Ainda vale ressaltar o perigo de uma pers-pectiva que busque falar sobre negros a partir da

vi-são de mundo dos não-negros (Gonçalves e Silva.

1998). Importa, então, distinguir estudos negros de estudos sobre negros: estes últimos são construidos a partir de uma perspectiva externa à s concepções de vida próprias dos membros do grupo cultural em pauta. Também no caso dos índios o mesmo dilema se apresenta. Distinguir "educação indígena' de

"edu-cação para o índio" é central para o desenvolvimento de programas efetivos para essas identidades cultu-rais. Kahn (1994) afirma que o que se tem feito é, na erdade. uma educação para o índio, cujo parârnetro,

seja para reproduzir, seja para contestar, tem sido a escola formal. A autora sugere que a educação indí-gena só será possível quando os intelectuais das

pró-prias comunidades indígenas assumirem a concepção

do processo pedagógico de suas escolas.

(9)

Apesar dos problemas mencionados, o trabalho com grupos específicos da população constitui

signifi-cativo aspecto do multiculturalismo em educação.

Cabe, porém, acompanhá-Io de movimentos

multicul-turais no âmbito da educação escolar formal. A

edu-cação multicultural não abarca apenas o trabalho com

grupos ou identidades marginalizadas, pretendendo

contribuir para uma transformação social que abra es-paço para a diversidade. Educação multicultural,

por-tanto, é para todos. Nesse sentido, relatos de

experiências multiculturais nesse âmbito da educação são desejáveis, dada sua rara presença na literatura

especializada no tema.

No que se refere à formação docente

multi-cultural, algumas experiências foram discutidas à luz do olhar do multiculturalismo crítico

pós-moderniza-do (Canen, 1999b). Enfatizando ora conteúdos, ora

estratégias, ora atitudes fomentadas nos cursos, as experiências evidenciaram que o projeto multicultural

é possível, embora permeado de desafios.

Destacam-se, a seguir, alguns deles.

A intenção de preparar professores para lidar com a pluralidade cultural e desafiar preconceitos em seus discursos e práticas esbarra, muitas vezes, em resistências a aberturas para formas plurais de se con-ceber as experiências da vida; outras vezes, é prejudi-cada por falta de sensibilidade ao caráter híbrido e

dinâmico das identidades, como no caso de um curso

em que professores eram preparados em estágios em

escolas que atendiam a populações aborígenes.

Nes-sa experiência, desenvolvida por Finney e Orr (1995),

ainda que os estágios supervisionados tenham sido

concentrados especificamente nesses grupos, não

houve um trabalho concomitante relacionado às

identidades dos próprios docentes em formação. A

conseqüência foi a homogeneização dos aborígenes

no imaginário dos futuros professores, evidenciada nos diários reflexivos que elaboravam como parte da ava-liação. Foi possível constatar também que a percep-ção do outro como "diferente" permaneceu: os

licenciandos não conseguiram visualizar a dialética

implicada na construção das identidades e das dife-renças, nem se mobilizaram para questionar

mecanis-mos que reforçam diferenças.

A concentração de experiências multiculturais em grupos étnicos específicos, embora possa

propici-ar pontos de ppropici-artida ppropici-ara o questionamento das

di-mensões da identidade e da diferença em outros

contextos, corre o risco de cair na essencialização e

na homogeneização das identidades em pauta. No

en-tanto, se a experiência é acompanhada de reflexões

críticas durante o estudo das disciplinas teóricas do

curso de formação. de modo a sensibilizar o futuro

professor para os diferentes aspectos envolvidos na construção de

ONMLKJIHGFEDCBA

u a própria identidade, a relação iden-tidade-diferença eu-outro, pode ser percebida de

ou-tro modo. Essa perspectiva corresponde à promoção

de um projeto de competência pedagógica baseado em um processo de "conscientização cultural", que

bus-ca desafiar preconcei os e estereótipos, bem como

fornecer subsídios para a reflexão sobre formas

alter-nativas de práticas pedagógicas que incorporem a

plural idade cultural em conteúdos e práticas.

O horizonte é a formação de um profissional

reflexivo multiculturalmente comprometido, isto é,

aquele capaz de refletir criticamente sobre seus dis-cursos e suas práticas. Tal profissional procura

per-manentemente avaliar em que medida suas aulas

introduzem e desenvolvem habilidades, conceitos e

questionamentos que sejam úteis para os alunos

vive-rem na sociedade multicultural contemporânea e bem

responderem a suas características e problemas. O trabalho com os conteúdos também é

ressal-tado em programas de formação docente inspirados

pelo multiculturalismo crítico. A intenção, nesse caso, é questionar a validade das teorias à luz de um poten-cial opressivo nelas inerente (Canen, 1999b). Jennings (1995) ilustra tal caminho focalizando o desenvolvi-mento "saudável", tal como é apresentado nas teorias

do desenvolvimento em Psicologia. De fato, ao

des-mascarar o pretenso caráter universal de valores como

autonomia e independência, presentes na visão que

essas teorias transmitem do "ser saudável", Jennings (1995) acentua o caráter liberal do contexto em que

esses valores despontam e ressalta a necessidade de discursos alternativos, nos quais valores como comu-nidade e interdependência, tais como são adotados por identidades culturais diversas, sejam também repre-sentados no "ser saudável".

Em síntese, a concretização de currículos

multiculturais na formação de docentes pode ser

favorecida pelos seguintes procedimentos: associação de elementos cognitivos e afetivos na prática

pedagó-gica; sensibilização para a diversidade cultural e sua influência na educação; conscientização cultural;

de-senvolvimento de uma prática reflexiva

multicul-turalmente comprometida; superação de preconceitos e estereótipos; problematização de conteúdos

(espe-cíficos e pedagógicos); reconhecimento do caráter

múltiplo e híbrido das identidades culturais.

As experiências apresentadas indicam

possibi-lidades, ao mesmo tempo que evidenciam desafios a

serem vencidos na tradução do multiculturalismo em

ação na educação escolar e na formação docente.

QPONMLKJIHGFEDCBA

(10)

r"& A I"\L .IL .I"\D O :D E S A F IO S , Q U E S n O N A M E N T O S

O T E N C IA IS D O M U L T IC U L T U R A L IS M O N A

C A C Ã O , N A F O R M A C Ã O. . D O C E N T E E N A

QPONMLKJIHGFEDCBA

Q U IS A

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Os desafios a serem enfrentados pelo

multicul-ismo não são poucos. Questionamentos incidem

o multiculturalismo como campo de conhecimen---- e sobre seus aspectos políticos e teóricos,

remeten-co a alguns aspectos cruciais. Em primeiro lugar, à sidade,já discutida, de iluminação da polissemia ermo multiculturalismo e da clarificação de suas

rdagens. Nesse sentido, críticas tais como a de que lticulturalismo aborda a diversidade mas não ques-- na a construção das diferenças, por exemplo, podem esafiadas pela abordagem crítica ou pela perspec-.a crítica pós-modernizada do multiculturalismo, que eafarizam a discussão dessa questão.

Em segundo lugar, as críticas destacam a pos-sibilidade de o multiculturalismo reforçar as

diferen-s e odiferen-s preconceitodiferen-s, ao invés de questioná-los. De

- · 0.tal possibilidade se torna real quando se tratam

- identidades culturais de forma a congelá-Ias, como - casos de estudos e estratégias curriculares que

iso-o negriso-o, iso-o índiiso-o, iso-o judeu, iso-o abiso-orígene, e não se ....vam em conta os movimentos e as hibridizações cul-is das identidades. Nessa mesma linha situam-se - críticas ao multiculturalismo que denunciam o

de-sanarecimento da categoria classe social de muitas

ilises. O desafio, nesse caso, é como articular a

pre-pação com a esfera econômica e as contribuições

- abordagens pós-modernas e pós-estruturais nas

is se concede central idade à dimensão cultural da iedade. Recentes estudos de Michael Apple (1996)

em sugerir pistas.

Em terceiro lugar, a capacidade da educação

ulticultural superar preconceitos negativos, assim orno o silêncio com relação aos estereótipos vistos orno "positivos", constituem fontes de outro

impor-tante questionamento (Cole, 1998). Por exemplo, a

afirmativa "os negros são bons em esportes", ainda que pareça elogiosa, também evidencia o congelamen-to identitário que precisa ser desafiado na abordagem

multicultural em educação. Esse aspecto confirma a

necessidade de uma educação multicultural para

to-dos, como se discutiu anteriormente, de uma

educa-ção que não se limite aos espaços em que se situam grupos discriminados ou aos cenários em que

precon-ceitos estejam presentes.

Em quarto lugar, deve-se alertar para o perigo de se recair, em experiências multiculturais, em um

psicologismo exagerado, em função da necessária

valorização do domínio afetivo no trabalho de

forma-ção docente (Moreira, 1999). Outra possível

conse-qüência dessa mesma valorização é a secundarização da análise das relações de poder que respondem pelas diferenças na sociedade. Tais problemas são

facilmen-te percebidos em cursos de formação docente que

requisitam diários reflexivos dos licenciandos, nos quais os processos de construção de suas identidades docentes são descritos em termos individuais,

intuiti-vos, sem articular identidade e diferença e sem

interpretá-Ias como construções que se realizam em

um contexto excludente e discriminador. O desafio

torna-se desenvolver estratégias que enfatizem ade-quadamente o processo de construção das diferenças nas estruturas desiguais de poder, superando, assim, o foco quase exclusivo nas percepções individuais dos licenciandos.

Em quinto lugar, há que se ressaltar os

proble-mas que surgem em experiências dirigidas a grupos

étnicos específicos. O grande dilema ocorre quando a proposta de valorizar e trabalhar a educação nos

pa-drões culturais nativos não corresponde ao que essas

populações almejam. Em outras palavras: em que

medida se deve perseguir uma educação multicultural quando a educação oficial, dominante, é a requisitada por esses grupos? Uma possível solução pode derivar da promoção de diálogo entre os padrões culturais em jogo. Longe de preconizar uma "guetização" de cul-turas, ou seja, o isolamento de identidades culturais

em seus próprios padrões, o multiculturalismo

pro-posto deve atentar para a necessidade de trocas, de estratégias dialógicas, em que ambas as partes

parti-cipem como produtoras de cultura e saiam com seus

horizontes culturais ampliados. O diálogo das dife-renças se impõe, apesar das dificuldades envolvidas em sua concretização no cotidiano das experiências educacionais. Nesse sentido, não são desejáveis pro-postas multiculturais elaboradas por membros da

eli-te sem a participação dos grupos marginalizados

envolvidos.

Em sexto lugar, no campo teórico, a

convivên-cia de discursos modernos e pós-modernos também

provoca tensões no projeto multicultural. Não é fácil conciliar alternativas que preconizem a necessidade de luta por igualdade, por acesso, por fortalecimento do poder e por transformações sociais e culturais, com

a desconfiança pós-moderna em relação a essas

mes-mas categorias. Ao mesmo tempo, podem ser

perce-bidas com nitidez, segundo Buarque de Hollanda

(1992), duas atitudes opostas em relação ao projeto

moderno: uma que procura desconstruir o

modernis-mo e resistir ao

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

s t a t u s q u o , e outra que repudia o

(11)

dernismo para celebrar o

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

s t a t u s q u o . Ou seja, há um

p ó s - m o d e r n i s m o d e r e a ç ã o que, liderado pelos

neoconservadores, rejeita o modernismo em nome dos

males da modernização e impõe uma cultura afirmati-va, e ump ó s - m o d e r n i s m o d e r e s i s t ê n c i a , que se

preo-cupa com a desconstrução crítica da tradição e com a crítica das origens, procurando "problematizar mais do que manipular os códigos culturais, interpelar mais do que disssimular as articulações políticas e sociais"

( i b i d . , p. 9). A adoção do segundo tipo de

pós-moder-nismo pode, então, favorecer não uma ruptura com a

teoria crítica, mas sim uma constante negociação com suas categorias e princípios.

Por fim, coloca-se a questão do universalismo e do relativismo cultural. As interrogações giram em torno da possibilidade de interpretar todas as culturas como

possuidoras de posições epistemológicas aceitáveis

(relativismo) ou, ao contrário, em torno da necessidade de se estabelecerem "limites" ao reconhecimento de pa-drões culturais plurais, em função de um vocabulário ético dito "universal". A questão se torna mais contun-dente nos casos de padrões culturais que preconizam práticas xenófobas, racistas ou que, de forma real ou simbólica, promovem a extinção do outro.

Argumenta-ções de Santos (1997) permitem que se vislumbrem

possíveis saídas. Inicialmente, há que se transcender o falso debate universalismo X relativismo cultural. Todas as culturas são relativas, mas o relativismo cultural, como postura filosófica, é um equívoco. Contra o relativismo, são necessários critérios transculturais que permitam dis-tinguir política progressista de política conservadora,

for-talecimento de poder de dependência, emancipação de regulação. Por outro lado, todas as culturas aspiram a certos valores e ideais elevados, que tendem a ser vistos

como superiores e universais. No entanto, o

universalismo cultural, como postura filosófica, é um

erro. Contra o universalismo, cabe propor diálogos

transculturais em torno de preocupações semelhantes,

isomórficas.

QPONMLKJIHGFEDCBA

O a u t o r reconhece as dificuldades implicadas nesses diálogos e propõe o que denomina de hermenêutica diatópica. Considerando que todas as culturas são in-completas, sugere que se levante ao máximo a

consci-ência da incompletude recíproca, por meio do

engajamento em diálogos que se desenvolvam com um

pé em uma cultura e o outro pé em outra.

Pode-se argumentar que as tensões e os desafi-os apresentaddesafi-os não inviabilizam o multiculturalismo; ao contrário, representam estímulos e trajetos a se-rem percorridos pela pesquisa na área, que deve

per-manentemente informar os esforços de construção e

de desenvolvimento de propostas multiculturais.

No-vas orientações epistemológicas que desafiem a

racionalidade instrumental iluminista e que se abram aos conhecimentos, aos discursos e às perspectivas

plurais podem oferecer contribuições importantes à

pesquisa no âmbito do multiculturalismo. Histórias

orais, histórias de vida, narrativas de grupos culturais sobre suas histórias, estudos de cunho etnográfico e

outros constituem possibilidades de pesquisa que po-dem fazer avançar a teoria e a prática multicultural. Segundo Grant (1999),

q u a n d o o s p r o fe s s o r e s c o m p a r t i l h a r e m

c o m o s e s t u d a n t e s h i s t ó r i a s p e s s o a i s ,

r a z õ e s p a r a s u a s e s c o l h a s p e d a g ó g i c a s ,

p e r s p e c t i v a s s u b j a c e n t e s

à

c o n s t r u ç ã o d e

c e r t o s c o n h e c i m e n t o s , p a r a l e l a m e n t e a o

e m p r e g o d e u m a fi l o s o fi a d e e n s i n o q u e

a b r a c e o p l u r a l i s m o c u l t u r a l e a e q ü i d a

-d e e -d u c a c i o n a l , a a p r e n d i z a g e m d o a l u

-n o s e r á fa c i l i t a d a . ( p . 1)

O autor propõe ainda que os especialistas com-prometidos com educação multicultural e justiça so-cial ensinem e pesquisem de modo a desmistificar os sistemas de racional idade que têm justificado

fazer-mos o que tefazer-mos feito. Os caminhos certamente não

são tranqüilos: o pesquisador que empreende sua

jornada engajado em um projeto multicultural crítico,

desafiador de práticas homogeneizadoras e

exclu-dentes, pode deparar-se com desafios institucionais e

éticos jamais imaginados (Canen, 1999a).

Não é mais possível, contudo, o desprezo, na

educação, em relação às questões multiculturais. A

formação das identidades docentes e discentes em so-ciedades multiculturais e excludentes precisa benefi-ciar-se de projetos curriculares que visem favorecer a construção de uma sociedade mais democrática e mais

plural. Na virada do século, esse desafio não pode

deixar de ser enfrentado.

JIHGFEDCBA

R E F E R Ê N C IA S B IB L IO G R Á F IC A S

AGGER, B.C u l t u r a l S t u d i e s a s C r i t i c a l T h e o r y . Lon-dres: Falmer Press, 1992.

APPLE, M. W. C u l t u r a l P o l i t i c s a n d E d u c a t i o n . Nova

lorque: Teachers College Press, 1996.

BHABHA, H. O l o c a l d a c u l t u r a . Belo Horizonte: UFMG,1998.

BUARQUE DE HOLLANDA, H. Introdução:

políti-cas da teoria. In: BUARQUE DE HOLLANDA,

H. (Org.) P ó s - m o d e r n i s m o e p o l í t i c a . Rio de

Ja-neiro: Rocco, 1992.

(12)

CANEN, A. Competência pedagógica e plural idade

cultural: eixo na formação de professores?

ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

C a d e r

-n o s d e P e s q u i s a , 102, 89 - 107, 1997a.

CANEN, A. Formação de professores: diálogo das

diferenças. E n s a i o , 5 (17), 477-494, 1997b.

CANEN, A. The Challenges of Conducting an

Ethnographic Case Study of a United Kingdom

Teacher Education Institution. J o u r n a l o fT e a c h e r

E d u c a t i o n , 50 (1), 50-56, 1999a.

CANEN, A. Multiculturalismo e formação docente:

experiências narradas. 22" Reunião Anual da

ANPEd, GT. C u r r í c u l o , 1999b.

COLE, M. Racism, Reconstructed Multiculturalism

and Antiracist Education. C a m b r i d g e J o u r n a l o f

E d u c a t i o n , 28 (1), 37 - 48,1998.

DUSSEL, 1., TIRAMONTI, G. & BIRGIN, A. Hacia

una Nueva Cartografía de Ia Reforma Curricular: reflexiones a partir de Ia descentralización educativa argentina. R e v i s t a d e E s t u d i o s d e i

C u r r i c u l u m , 1 (2), 132-161, 1998.

ELLSWORTH, E. Multiculture in the making. In:

GRANT, C. A. (Ed.) M u l t i c u l t u r a l R e s e a r c h :

a r e fl e c t i v e e n g a g e m e n t w i t h r a c e , c l a s s ,

g e n d e r a n d s e x u a l o r i e n t a t i o n . Londres: Falmer Press, 1999.

FINNEY, S. & ORR, J. "I've really leamed a lot, but ...": cross-cultural understanding and teacher education in a racist society. J o u r n a l o fT e a c h e r E d u c a t i o n ,

46 (5), 327-333,1995.

FLEURl, R. M. (Org.) I n t e r c u l t u r a e m o v i m e n t o s

s o c i a i s . Florianópolis: MoverlNUP, 1998.

GARCÍA CANCLINI, N. C u l t u r a s H í b r i d a s :

e s t r a t e g i a s p a r a e n t r a r y s a l i r d e I a m o d e r n i d a d .

México: Grijalbo, 1990

GONÇALVES, L. A. O. & SILVA, P. B. G. O j o g o

d a s d i fe r e n ç a s : o multiculturalismo e seus

contex-tos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

GRANT, C. A. The Multicultural Preparation of US

Teachers: some hard truths. In: VERMA, G. K. (Ed.)

I n e q u a l i t y a n d T e a c h e r E d u c a t i o n : a n I n t e m a t i o n a l

P e r s p e c t i v e . Londres: Falmer Press, 1993.

GRANT, C. A. Introduction: The Idea, the Invitation,

and Chapter Themes. In: GRANT, C. A. (Ed.)

M u l t i c u l t u r a l R e s e a r c h : a r e j l e c t i v e e n g a g e m e n t

w i t h r a c e , c l a s s , g e n d e r a n d s e x u a l o r i e n t a t i o n .

Londres: Falmer Press, 1999.

GRANT, N. Some Problems of Identity and

Education: a comparative examination of

multicultural education. C o m p a r a t i v e E d u c a t i o n ,

33 (1), 9 - 28,1997.

GUTMANN, A. Introdução. In: TA YLOR, C. (Org.)

M u l t i c u l t u r a l i s m o : examinando a política de

reco-nhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. HALL, S. A central idade da cultura: notas sobre as

revoluções de nosso tempo. E d u c a ç ã o e R e a l i

-d a -d e , 22 (2), 15 - 46, 1997a.

HALL, S. I d e n t i d a d e s c u l t u r a i s n a p ó s

-m o d e -m i d a d e . Rio de Janeiro: DP&A, 1997b.

JENNINGS, T. E. Developmental Psychology and the

Preparation of Teachers who Affirm Diversity:

strategies promoting critica I social consciousness in teacher preparation programs. J o u r n a l o f

T e a c h e r E d u c a t i o n , 46 (4),243 - 250, 1995.

KAHN, M. "Educação indígena" versus "Educação para índios": sim, a discussão deve continuar ....

E m A b e r t o , 63, 137 - 144,1994.

KINCHELOE, J.L & STEINBERG, S. C h a n g i n g

m u l t i c u l t u r a l i s m . Buckingham: Open University

Press, 1997.

MARTUCCELLI, D. As contradições políticas do

multiculturalismo. R e v i s t a B r a s i l e i r a d e E d u c a

-ç ã o , 2, 18-32, 1996.

MCLAREN, P. M u l t i c u l t u r a l i s m o c r í t i c o . São

Pau-lo: Cortez, 1997.

MOREIRA, A. F. Currículo, multiculturalismo e

for-mação docente. In: MOREIRA, A. F. (Org.) C u r

-r í c u l o : p o l í t i c a s e p r á t i c a s . Campinas: Papirus,

1999.

NELSbN,

QPONMLKJIHGFEDCBA

c .,

TREICHLER, P. A. & GROSSBERG, L. Estudos culturais: uma introdução. In: SILVA, T. T. (Org.) A l i e n i g e n a s n a s a l a d e a u l a .

Petrópolis: Vozes, 1995.

SANTOS, B. S. Toward a Multicultural Conception

ofHuman Rights. Z e i t s c h r i ft j ú r R e c h t s s o z i o l o g i e ,

18 (1),1 - 15, 1997.

SILVA, T. T. Currículo e cultura: uma visão pós-es-truturalista. Aula inaugural, Faculdade de

Educa-ção, UNICAMP, 1997.

SILVA, T. T. D o c u m e n t o s d e i d e n t i d a d e . Belo Hori-zonte: Autêntica, 1999.

SLEETER, C. E.& GRANT, C. A. Mapping Terrains

of Power: Student Cultural Knowledge versus

Classroom Knowledge. In: SLEETER, C. E. (Ed.)

E m p o w e r m e n t t h r o u g h M u l t i c u l t u r a l E d u c a t i o n .

Nova Iorque: SUNY, 1991.

TA YLOR, C.M u l t i c u l t u r a l i s m o : examinando a política

de reconhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. WILLIAMS, R.T h e L o n g R e v o l u i i o n . Harmondsworth:

Penguin Books, 1984.

E D U C A Ç Ã O E M D E B A T E · F O R T A L E Z A · A N O 2 1 • V 2 • N Q 3 8 •

ONMLKJIHGFEDCBA

p .

JIHGFEDCBA

1 2 -2 3 1 9 9 9 · 23

Referências

Documentos relacionados

A Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, por intermédio da Divisão Multidisciplinar de Assistência ao Estudante (DIMAE/PROAES) torna público o lançamento do presente edital

Então eu acho também bacana, Evelyn, de você trazer essa rede colaborativa para esse nível de escola de você trocar com seus pares, que não é aquela coisa nas portas, ficar

Após a utilização da história em quadrinhos e a sua leitura em sala de aula, os alunos receberam uma apostila simples como observaremos na próxima pagina na figura 11, contendo

Realizou-se um estudo utilizando os solventes metanol e etanol, em diferentes concentrações, para determinar-se qual solvente seria mais eficiente na extração dos

Nos anos destinados à educação infantil, as crianças precisam desenvolver algumas capacidades, entre elas: • desenvolver uma imagem positiva de si, atuando de forma cada vez

Tabela 4 – Tipos, números, total de alterações e índice mutagênicos (IMG %) obtidos para os grupos controle negativo (Co-) e positivo (Co+) e os grupos tratados com as

Acreditamos que o estágio supervisionado na formação de professores é uma oportunidade de reflexão sobre a prática docente, pois os estudantes têm contato

Como já afirmei, esta pesquisa tentou compreender o olhar das crianças negras sobre sua realidade e suas relações no ambiente escolar. Através deste olhar, na simplicidade das vozes