UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ECONOMIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGRONEGÓCIOS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL
ELIANE VELTRUDES ZANATA BENEDITO DA SILVA
RESÍDUOS ORGÂNICOS EM CUIABÁ/MT: ÓBICES PARA
INTERNALIZAÇÃO DE CUSTOS E RECICLAGEM
Cuiabá-MT 2016
ELIANE VELTRUDES ZANATA BENEDITO DA SILVA
RESÍDUOS ORGÂNICOS EM CUIABÁ/MT: ÓBICES PARA
INTERNALIZAÇÃO DE CUSTOS E RECICLAGEM
Dissertação apresentado no Programa de Pós-Graduação, Faculdade de Economia, Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito para obtenção do título de Mestre em Agronegócio e Desenvolvimento Regional.
Orientador: Alexandre Magno de Melo Faria
Cuiabá-MT 2016
ELIANE VELTRUDES ZANATA BENEDITO DA SILVA
RESÍDUOS ORGÂNICOS EM CUIABÁ/MT: ÓBICES PARA
INTERNALIZAÇÃO DE CUSTOS E RECICLAGEM
Dissertação apresentado no Programa de Pós-Graduação, Faculdade de Economia, Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito para obtenção do título de Mestre em Agronegócio e Desenvolvimento Regional.
APROVADA, em 05 de outubro de 2016. BANCA EXAMINADORA
DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus, presente na minha vida e em toda minha trajetória no Mestrado.
Ao amado Evanildo Rafael da Silva, esposo e Hilkias Rafael Zanata da Silva, filho, por suportarem comigo as dificuldades pelo caminho. Aos meus pais, Cleide Zanata Bendito e Euclides Benedito, que mesmo de longe sempre torceram e intercederam por mim.
Ao querido orientador e amigo, Prof. Dr. Alexandre Magno de Melo Faria, que não mediu esforços para auxiliar e contribuir com o meu crescimento, além do apoio em todas as horas de dificuldades, sempre motivando e estimulando a continuar.
A todos os professores pela dedicação e pelos incentivos, com vistas a uma formação sólida e construtiva, em prol da ciência, tendo como foco a pesquisa, fonte de inspiração para prosseguir no doutorado.
Aos servidores Técnicos Administrativos da Faculdade de Economia, Secretaria do Mestrado, pelo profissionalismo, colaboração em todos os momentos e pela amizade.
Aos diretores da Faculdade de Economia, Prof. Dr. Dirceu Grasel, Diretor e Prof. Dr. Alexandre Magno de Melo Faria, Diretor Adjunto pela dedicação na condução dos trabalhos, e pelo apoio sempre dispensados.
Ao Coordenador do Mestrado Prof. Dr. Dilmar Dalemolle pelo apoio em todos os momentos de dúvidas, sempre está disposto a colaborar.
Aos meus colegas e amigos do Mestrado, Turma 2014, pelos momentos de alegria, de aprendizado e de companheirismo.
A Rubia Araújo Coelho, amiga inseparável ao longo de todo o mestrado. Irmãs de alma mesmo sem palavras nos entendemos pelo olhar... Amigas para sempre.
A Nágela Bueno dos Santos pela amizade intensa, carinho e companheirismo no final, tão sofrido... Amizade eterna...
Aos amigos mais próximos que contribuíram para a vitória de chegar ao fim... Fabrício Cesar Moraes, Gabriela de Lourdes Pinto de Oliveira, Heitor Tiago Gonçalves, Luis Márcio Resende Silva, Luiz Augusto Magalhães (Sober 2015).
A CAPES pelo apoio financeiro, que colaborou para a dedicação no curso.
“Você estar preparado é tão importante quanto o desejo de sobreviver, [...] por pior que seja o panorama, se você permanecer focado e otimista pode vencer qualquer obstáculo.”
RESUMO
Os resíduos orgânicos quando não dispostos de maneira adequada podem trazer contaminação ao meio ambiente. As cidades populosas geralmente possuem dificuldades em fazer a gestão integrada dos resíduos sólidos. O objetivo deste trabalho foi indicar procedimentos a serem adotados a fim de identificar os óbices relacionados com os custos de geração de resíduos orgânicos por agentes econômicos classificados como grandes geradores em Cuiabá. Foram pesquisados 12 estabelecimentos, entre os grandes geradores de resíduos orgânicos, os quais foram divididos em três grupos de acordo com as características de cada agente, feiras permanentes, supermercados atacadistas e empresas atacadistas de hortifrúti. O grupo pesquisado gera aproximadamente 50 toneladas diárias de resíduos orgânicos. Foram utilizados três tipos de método para investigação dos resultados, quantitativo, estatística descritiva e DAP; análise fatorial exploratória e qualitativa. Os formulários aplicados aos agentes econômicos foram subdivididos nessas três áreas. Também foi realizada aplicação de questionário, e entrevistas com agentes públicos, os dados coletados permitiram observar a governança dos agentes. Os resultados indicaram que os agentes econômicos tentem a socializar suas externalidades negativas, empurrando suas responsabilidades para terceiros, essa ação foi observada nas análises da DAP e fatorial exploratória. Com os dados qualitativos verificou-se a fragilidade da estrutura institucional, vital para a redução dos óbices na gestão integrada de resíduos orgânicos. Conclui-se que a atitude dos agentes frente aos problemas que envolvem os resíduos orgânicos indica para haver sucesso na gestão dos resíduos orgânicos, as instituições devem se fortalecer, para cobrar e regulamentar o marco regulatório que definem as ações dos agentes econômicos. Consequentemente a gestão integrada dos resíduos sólidos será eficiente.
ABSTRACT
Organic waste, when not disposed of properly, can lead to contamination of the environment. The populous cities often have difficulties in the integrated management of solid waste. The objective of this work was to indicate procedures to be adopted in order to identify the obstacles related to the costs of organic waste generation by economic agents classified as large generators in Cuiaba. Twelve establishments were surveyed, among the large organic waste generators, which were divided into three groups according to the characteristics of each agent, permanent fairs, wholesale supermarkets and wholesale vegetables and fruits companies. The research group generates approximately 50 tons of organic waste per day. Three types of method were used to investigate the results, quantitative, descriptive statistics and DAP; Exploratory and qualitative factorial analysis. The forms applied to economic agents were subdivided into these three areas. A questionnaire was also applied, and interviews with public agents, the data collected allowed to observe the governance of the agents. The results indicated that the economic agents try to socialize their negative externalities, pushing their responsibilities to third parties, this action was observed in the reviews of the DAP and exploratory factorial. With the qualitative data we verified the fragility of the institutional structure, vital for the reduction of the obstacles in the integrated management of organic wastes. It is concluded that the attitude of the agents to the problems that involve organic waste indicates to be successful in the management of organic waste, institutions must strengthen, to collect and regulate the regulatory framework that define the actions of economic agents. Consequently the integrated management of solid waste will be efficient.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Composição gravimétrica do resíduo sólido domiciliares da área urbana
de Cuiabá/MT. 21
Figura 2: Aterro Sanitário 22
Figura 3: Plano de Resíduos Sólidos por Abrangência 24
Figura 4: Classificação dos resíduos e a forma de destinação ambientalmente
correta para cada tipo 25
Figura 5: Modelo de fluxos de matéria e energia do Sistema Econômico 54
Figura 6: Os três níveis da economia ecológica. 55
Figura 7: Uma visão “macro” da macroeconomia – na perspectiva da economia
ecológica. 56
Figura 8: Localização em Cuiabá dos estabelecimentos comerciais e feiras
atacadistas que participaram da pesquisa. 62
Figura 9: Dimensão da montagem das variáveis do Grupo 1 68
Figura 10: Dimensão da montagem das variáveis dos Grupos 2 e 3. 69 Figura 11: Caminhão recolhendo os resíduos orgânicos na Feira do Distrito
Industrial. 74
Figura 12: Dimensão confirmada das variáveis dos Grupos 2 e 3. 89
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Geração e destinação do RSU em Cuiabá, Mato Grosso, Centro-Oeste e
Brasil 23
Tabela 2: Grupos escolhidos para a coleta de dados da pesquisa. 60 Tabela 3: Nome das variáveis e área de enquadramento das questões - Grupo 1. 63 Tabela 4: Nome das variáveis e área de enquadramento das questões - Grupos 2 e 3. 64 Tabela 5: Dados Quantitativos dos Resíduos Orgânicos – separados por grupos 77 Tabela 6: Valor que custaria transportar e receber no aterro sanitário os resíduos
orgânicos com porcentagem que a geração dos agentes representa no total de Cuiabá.
78
Tabela 7: Valor da coleta e transporte de resíduos sólidos em Cuiabá. 80 Tabela 8: Custos do envio ao aterro dos agentes econômicos. 81 Tabela 9: Valor que estaria disposto a pagar para empresa ou associação que
realizasse a destinação correta dos resíduos orgânicos 82
Tabela 10: Custo por tonelada dos resíduos orgânicos dos agentes econômicos 84
Tabela 11: Solução fatorial do programa – Grupo 1. 86
Tabela 12: Solução fatorial do programa – Grupos 2 e 3. 88
Tabela 13: Agentes Econômicos e a destinação das avarias e resíduos orgânicos. 92 Tabela 14: Comparação do valor de referência encontrado e o valor que os resíduos
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS
ABRELPE Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais AGLURB Aglomerado Urbano
EUA Estados Unidos da América
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas ONU Organizações das Nações Unidas
PERS Política Estadual de Resíduos Sólidos
PMGIRS Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos PNRS Política Nacional de Resíduos Sólidos
SEMA Prefeitura Municipal de Cuiabá; Secretaria Estadual do Meio Ambiente SMSU Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Cuiabá
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 13
2. GESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANO 19
2.1. LEIS QUE NORTEIAM A QUESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS 24
2.1.1. Nacional - Política Nacional de Resíduos Sólidos 25
2.1.2. Estadual - Política Estadual de Resíduos Sólidos 27
2.1.3. Municipal - Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos
Sólidos e Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos 30 2.2. POTENCIAL DE RECICLAGEM DOS RESÍDUOS ORGÂNICOS E
LOCAIS ONDE FORAM IMPLANTADOS 34
2.2.1. Decomposição Aeróbica - Compostagem 35
2.2.2. Decomposição Anaeróbica 35
2.2.3. Locais onde foram implantados 36
3. REFERENCIAL TEÓRICO 37 4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 59 4.1. ÁREA QUANTITATIVA 65 4.2. ÁREA ESCALAR 67 4.3. ÁREA QUALITATIVA 71 5. RESULTADOS E ANÁLISES 73 5.1. RESULTADOS E ANÁLISES 73 5.2. ÁREA ESCALAR 85 5.3. ÁREA QUALITATIVA 91 CONCLUSÃO 103 REFERÊNCIAS 107 ANEXOS 116 APÊNDICES 122
INTRODUÇÃO
As preocupações sobre questões ambientais intensificaram-se na década de 1970. A discussão sobre a degradação do meio ambiente e formas de mitigar os impactos causados pelo excesso de extração dos recursos naturais se tornaram global. Nessas conferências, países participaram com o intuito de discutir assuntos como redução da emissão de gases do efeito estufa, desmatamento, poluição e ações a serem adotadas por países desenvolvidos e em desenvolvimento, em favor da conscientização de mudança de hábitos, e postura frente ao meio ambiente. Encontros foram realizados, em 1972, em Estocolmo, pela Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano; em 1982, em Nairóbi.
No ano de 1987, foi elaborado o relatório Brundtland, pela Comissão Mundial das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ONU). Nele foi apresentada uma nova definição de desenvolvimento: o processo das gerações atuais, de realização de suas necessidades, não podem comprometam as gerações futuras de usufruir das mesmas oportunidades de prover suas próprias necessidades, esse conceito foi nomeado de desenvolvimento sustentável (CMMA, 1988).
O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi definido num tripé que é formado por atividade econômica, meio ambiente e bem-estar da sociedade. Os princípios desse conceito tratam de ações realizadas no presente, mas que visem dar às gerações futuras as mesmas oportunidades que atendam suas necessidades cotidianas, envolvimento da sociedade, preservação dos recursos naturais e do meio ambiente, elaboração de planos que garantam o direito ao acesso a educação e ao emprego, para que se essa população tenha acesso à segurança da sociedade e respeito a outros costumes (SACHS, 1994).
Em 1992, o Rio de Janeiro recebeu uma conferência conhecida como Rio 92 ou Eco 92, mais um encontro, onde representantes de vários países compareceram, para a discussão das ações referentes ao meio ambiente. Foram reunidos indicações e procedimentos que os países deveriam adotar como meta para um futuro sustentável como resultado desse encontro foi publicado a Agenda 21. Essas ações não dependem exclusivamente dos governos, mas de todos os setores produtivos e dos consumidores para que estejam sensibilizados aos desafios das
questões ambientais. “Os acordos assinados durante a Conferência alargaram e fortaleceram o substrato filosófico, jurídico e político que deve fundamentar e nortear os atos futuros. Porém, se pretendemos nós, os povos de todo o mundo, fazer das promessas realidade, é preciso passar do discurso à ação” (BRASIL, 1995, p.7).
Dessas preocupações, uma delas refere-se à crescente geração de resíduos e rejeitos sólidos pelo processo agrícola, industrial e pelo consumo crescente, principalmente nas cidades. Os resíduos são o resultado da produção e consumo, geralmente nocivos, pois agridem o meio ambiente de várias formas: química e fisicamente. Para que esses materiais não contaminem o meio ambiente são necessários tratamentos, que os transformarão em resíduos menos agressivos, e que em alguns casos o subproduto dessa transformação, pode ser usado para produção energética e de calor, reduzindo as extrações de outras fontes primárias para a mesma finalidade (GEORGESCU-ROEGEN, 2012). Qualquer processo econômico produz resíduo, esses resíduos afetam de modo negativo os seres humanos, pois acumulam substâncias tóxicas e quando essas substâncias entram em contato com o meio ambiente elas degradam e poluem o ecossistema que os indivíduos dependem (DALY e FARLEY, 2004).
Com o crescente processo econômico, a produção de resíduos sólidos aumenta, trazendo transtornos às populações. A geração total de resíduos sólidos, mundial, é em torno de 1,3 bilhões de toneladas por ano, representando aproximadamente 2,7 milhões de toneladas por dia, sendo a quantidade per capita de 1,2 quilos por habitante urbano por dia. A parte orgânica dessa geração mundial é de 46% do total. Países mais industrializados possuem menor geração de resíduos orgânicos quando comparado a países com grau menor de industrialização. Nos países de alta renda, por exemplo, a produção diária de 1,65 milhões de toneladas de resíduos sólidos, a quantidade per capita diária está entre 1,1 a 4,5 quilos por dia, a parte orgânica desses países com alta renda é de 28%. Nos países com baixa renda, a produção diária de 204.802 toneladas de resíduos sólidos, a quantidade per capita diária está entre 0,6 a 1,0 quilos por dia, e a parte orgânica chega a 64% (HOORNWEG e BHADA-TATA, 2012).
A produção de resíduos sólidos no Brasil foi de aproximadamente 73,504 milhões de toneladas no ano de 2014, isso representa uma quantidade média diária de 204.177 toneladas. (BRASIL, 2016). A quantidade per capita produzida diariamente no país foi de 1,062 quilos em 2014, valor abaixo da média mundial e menos da metade de países com alta industrialização
(ABRELPE, 2015). A parte orgânica referente à geração brasileira é de 51,4% (CUIABÁ, 2013). O estado brasileiro que mais gerou resíduos sólidos foi São Paulo, com o total de 61.344 toneladas por dia de resíduos, ano de 2014, sendo a quantidade per capita de 1,381 quilos. No outro extremo, com menor geração de resíduos no Brasil, Roraima gerou o total de 400 toneladas por dia em 2014, com quantidade per capita de 0,670 quilos. O estado de Mato Grosso produziu em 2014, a quantidade média de 2.750 toneladas por dia, a quantidade diária per capita de 0,853 quilos (ABRELPE, 2015).
Em Cuiabá foram geradas aproximadamente 237.967 toneladas de resíduos sólidos no ano de 2014, representando uma quantia de 661 toneladas por dia na cidade que são recebidos no aterro sanitário (BRASIL, 2016). A quantidade gerada, per capita de resíduos sólidos, em 2014, para Cuiabá foi de 0,738 quilos por dia (BRASIL, 2016). A parte orgânica referente ao total foi de 42,39% (DOMINGOS, 2011, p.77; CUIABÁ, 2013, p.92) 42,60% abaixo da média brasileira de resíduos gerados, no mesmo período, 1,041 kg/hab/dia (ABRELPE, 2015, p.41). A prefeitura de Cuiabá faz a coleta dos resíduos sólidos urbanos, aqueles produzidos nos domicílios, nas repartições e instituições públicas e de limpeza em vias comuns. Dessa forma, em 2014 foram depositados aproximadamente 100.874 toneladas de resíduos orgânicos no aterro sanitário.
Há diferenças entre resíduos gerados e coletados, os primeiros são o total de resíduos produzido nos domicílios, empresas públicas e privadas; o segundo refere-se somente à parte que é retirada dos locais e enviada à destinação adequada, seja para a reciclagem ou aterro sanitário. Com o crescimento da geração de resíduos, como consequência do aumento da população urbana, leis e regimentos foram necessários para regulamentar as ações e todos os indivíduos, para que não ultrapassasse o direito do outro (CUIABÁ, 2013).
De acordo com a Lei 5422 de 2011, os geradores que produzem acima de 200 litros por dia são considerados grandes geradores, essa lei regulamenta os deveres dos agentes que se enquadram nessa categoria, ficando os mesmos responsáveis pela coleta e transporte de seus resíduos gerados, “a responsabilidade do gerador pela destinação adequada de seus resíduos, de acordo com sua natureza e origem” - Art. 3º, III. A prefeitura fica responsável pela fiscalização desse grupo para que a lei seja obedecida, o descumprimento é passível de pagamento de multas. Em seu artigo 4º, a lei autoriza o estabelecimento a “contratar empresas especializadas para realizarem, nas suas dependências, os serviços de transporte, armazenamento, classificação e
triagem de resíduos”, com isso a contratação é de responsabilidade do grande gerador, desde que a empresa esteja cadastrada na Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Assuntos Fundiários (CUIABÁ, 2011).
De acordo com o Plano de Gerenciamento Integrado dos Resíduos (PGIRS), como resultado do crescimento dos resíduos, e a disposição inadequada desses resíduos trazem efeitos para a própria população que a produz como enchentes devido ao acúmulo de lixo nas redes pluviais da cidade. Os resíduos sólidos são materiais descartados após o uso, embalagens de produtos, entre outros, neles estão contemplados os produzidos nas residências, e nas empresas e órgãos e limpeza públicos, eles são classificados de três formas, “resíduos secos, resíduos úmidos e rejeitos”, a primeira são os inorgânicos, que podem ser reciclados e com isso gerar renda para catadores, e também empresas do setor de reciclagem (CUIABÁ, 2013, p.85).
A segunda forma também é chamada de resíduos orgânicos, eles possuem uma participação significativa no total de resíduos gerados. Os resíduos orgânicos têm em sua composição principalmente restos de alimentos preparados, cascas cruas, folhas, sementes, restos de alimentos industrializados, entre outros. Essa parte úmida, quando é destinada ao aterro sanitário, é disposta e coberta, produzindo uma reação química, onde libera o gás metano, e um líquido chamado de chorume, que se atingirem os lençóis freáticos e o solo os contaminam. Entretanto, quando esses resíduos orgânicos são dispostos nos aterros, eles são depositados em valas cobertas, após um determinado tempo, eles produzem metano na decomposição anaeróbia que sofrem, gases do efeito estufa colaborando para o aquecimento global (CUIABÁ, 2013).
Resíduos orgânicos são compostos “principalmente por matéria orgânica e que podem ser submetidos a um processo de reaproveitamento ou, compostagem”, descrição contida na Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS), em seu Art.4º, inciso XXIX (CUIABÁ, 2014). Se forem tratados a partir da compostagem, por exemplo, podem se transformarem em subprodutos de alta qualidade, substrato, que poderá ser reintegrado ao processo de produção de hortaliças, verduras, legumes, flores, e toda produção agrícola como adubo orgânico (NASCIMENTO, 2016). A terceira forma de classificação são os rejeitos, materiais que não há possibilidade de reciclagem, dada a tecnologia atual disponível (CUIABÁ, 2013).
Na tendência de regular as questões dos resíduos sólidos, corroborando com os esforços internacionais sobre essa discussão, foram publicadas leis que direcionam o comportamento dos indivíduos. A nível nacional tem-se a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) regulamentada em 2012 (BRASIL, 2012). Em Mato Grosso tem-se a Política Estadual de Resíduos Sólidos (PERS) regulamentada em 2002 (MATO GROSSO, 2002). E a lei municipal, em Cuiabá, tem-se a Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS), regulamentada em 2014 (CUIABÁ, 2014); e o Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRS), publicado em 2013 (CUIABÁ, 2013).
O processo de reintegração ao sistema produtivo é conhecida como throughput, palavra traduzida como transumo, que de acordo com Daly (2007), pode ser a transformação de algo em outro produto que possa ser reintroduzido na produção como insumo. No presente trabalho buscou-se definir uma nomenclatura para o processo específico que os resíduos orgânicos passam no tratamento. Chegou-se então a transidânicos, transformação de resíduos orgânicos, devido às possibilidades de transformações que os resíduos orgânicos podem ser submetidos, de acordo com as tecnologias disponíveis, até o fechamento da pesquisa é possível utilizar dois tipos de processos: compostagem e biodigestão. O primeiro tipo transforma os resíduos orgânicos em composto, e o segundo tipo o resultado da transformação é o biogás e biofertilizante.
Diante do exposto vale o questionamento: seria possível criar sistema de gestão de Resíduos Sólidos Urbanos Orgânicos onde os agentes econômicos classificados como grandes geradores pudessem internalizar o custo de seus resíduos?
O objetivo geral da presente dissertação indicar procedimentos a serem adotados a fim de identificar os óbices relacionados com os custos de geração de resíduos orgânicos por agentes econômicos classificados como grandes geradores em Cuiabá. Para alcançar esse objetivo será necessário (1) caracterizar a geração de resíduos orgânicos em Cuiabá no setor de Feiras permanentes, Supermercados Atacadistas e Empresas Atacadistas de Hortifrúti1; (2) analisar a atitude e percepção dos atores frente a questão dos resíduos orgânicos; (3) apresentar a estrutura de governança dos resíduos orgânicos dos agentes privados e públicos. A hipótese inicial deste trabalho é que há uma lacuna no planejamento público, quanto a implementação dos marcos
1
regulatórios para criação do mercado de reciclagem de resíduos orgânicos, para que sejam realmente destinados a tratamentos adequados, e assim reduza o potencial de contaminação ambiental em Cuiabá.
A presente pesquisa faz-se necessária para se iniciar uma discussão sobre o potencial de tratamento de resíduos sólidos orgânicos em Cuiabá, que poderia alterar sua característica atual de dejeto e os transformar em insumos para atividades produtivas. Apresentar a situação de grupos específicos poderia ajudar a nortear ações e auxiliar tomadas de decisão dos gestores, tanto públicos quanto privados, para que os problemas relacionados com resíduos orgânicos sejam resolvidos ou minimizados.
A parcela orgânica dos resíduos é preterida em trabalhos científicos, dados as poucas informações e por não possuírem um mercado adequado para geração de renda, como acontece com os inorgânicos. Por esse motivo, decidiu-se abordar esse tema na presente dissertação para tentar reduzir a lacunas de informações em um quadro de necessária reciclagem de materiais. No trabalho de Domingos (2011, p.103), que apresentou pesquisa sobre os inorgânicos recicláveis, ele apontou que dentre os objetos de pesquisa que foram “[...] desconsiderados citam-se os vidros, as borrachas, as madeiras, os tecidos e os [resíduos] orgânicos”, abrindo uma oportunidade para a presente pesquisa ser realizada.
Além da introdução, a presente dissertação, foi dividida em 5 capítulos. No Capítulo 2, Cuiabá e a gestão dos resíduos sólidos urbano, e a legislação que regulamente a questão dos resíduos. No Capítulo 3, o referencial teórico de base para as análises dos dados, conceitos importantes no entendimento da relação resíduos com meio ambiente, desenvolvimento sustentável, tem-se como conceito principal a economia ecológica. No Capítulo 4, os procedimentos metodológicos que serão adotados para alcançar os objetivos, geral e específicos. No Capítulo 5, os resultados da pesquisa e análises frente ao referencial e a legislação. Na sequência a conclusão, referências bibliográficas, anexos e apêndices.
2. GESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS URBANO
Nesse capítulo serão apresentadas informações sobre a cidade de Cuiabá, a legislação vigente de referência e a situação para a gestão integrada dos resíduos sólidos, formas de reciclagem dos resíduos orgânicos e exemplos de locais onde fazem a reciclagem desse tipo de resíduos.
As cidades surgiram de excedente populacional, da migração das áreas rurais para as áreas urbanas, na esperança de melhor oportunidade de trabalho, saúde, cultura, lazer, educação. Para suprir essa demanda infraestruturas nas cidades precisam ser providenciadas, como pontes, ruas, casas, prédios, entre outros (CATUZZO, 2013). A população rural brasileira representava a maior concentração populacional, 54,92% na década de 1960. Com o passar das décadas a população rural migrou para os centros urbanos, que passaram a concentrar mais pessoas e assim a porcentagem se inverteu, ficando a maior parte na zona urbana. Pelos dados do censo de 2010, a população rural brasileira foi de 18% e a urbana de 82% (IBGE, 2015).
Na cidade de Cuiabá, seguindo a tendência de urbanização, a concentração de pessoas na cidade é maior. De acordo com o censo demográfico de 2010, realizado pelo IBGE, Cuiabá possuía uma população de 551.098 habitantes, sendo 98% localizada na área urbana e 2% na área rural (IBGE, 2015). A população estimada para 2016, pelo IBGE, foi de 585.367 habitantes para a cidade de Cuiabá, um crescimento estimado de 5,85% no período de 2010 a 2016 (IBGE, 2016).
Cuiabá sofreu transformações, que contribuíram para o crescimento da população, principalmente imigrantes de outros estados do país, buscando melhores oportunidades, e assim contribuíram para o crescimento da cidade. Conforme Aquino (2009, p.109), essas transformações foram “reflexos do processo de colonização, fortalecendo-se cada vez mais como um centro comercial, administrativo e de serviços, a fim de atender à crescente demanda de todo o estado de Mato Grosso”. Quanto a informações geopolíticas, o perfil socioeconômico de Cuiabá informa que:
O município de Cuiabá possui área de 3.538,17 km², correspondendo 254,57 km² à macrozona urbana (Lei n.º 4.719/04) e 3.283,60 km² à área rural. Além do distrito-sede de Cuiabá, integram o município os distritos de Coxipó da Ponte, Coxipó do Ouro e
Guia, com áreas e distâncias ao distrito-sede [...]. Em 2011, a Lei n.º 5.395/11 [...] reorganizou os distritos-sede de Coxipó do Ouro, Nossa Senhora da Guia e Coxipó da Ponte. Cuiabá localiza-se na mesorregião Centro-Sul-Mato-Grossense, na microrregião Cuiabá. Esta microrregião é formada pelos municípios de Chapada dos Guimarães, Cuiabá, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio do Leverger e Várzea Grande. A sede municipal, situada à altitude ortométrica de 177 metros, segundo demarcação realizada pela Comissão Rondon, em 1909, encontra-se no Centro Geodésico da América do Sul, nas coordenadas geográficas15º 35’ 56” de latitude sul (S) e 56º 06’ 01” de longitude oeste (W) de Greenwich (Gr) (CUIABÁ, 2012, p.47-48).
Cuiabá pode ser considerada uma cidade com grande potencial de polarização, sendo um mesopolo nacional e principal polo agropecuário-administrativo de Mato Grosso (FARIA, AZEVEDO JUNIOR e DASSOW, 2015, p.69). A posição geográfica da cidade facilita a passagem de cargas e produção de todo o estado, e por ser capital ela atrai principalmente o setor de comércios e serviços (CUIABÁ, 2012). “Confirmando a característica das capitais estaduais, Cuiabá polariza todo o estado de Mato Grosso, com grande influência sobre os municípios de sua mesorregião e principalmente sobre os municípios da microrregião de Cuiabá” (FARIA, AZEVEDO JUNIOR e DASSOW, p.70).
Com esse excedente populacional, as cidades receberam grande quantidade de pessoas, porém não tiveram tempo de se planejar para esse crescimento, com isso transtornos relacionados com a poluição do ar, da água, solo, causam problemas para a população, afetando a saúde, cultura, lazer, educação e o bem-estar ficam prejudicados. “O crescimento das cidades e da geração dos resíduos e a falta de consciência, aliados ao orçamento restrito dos municípios fazem com que os resíduos não tenham destinação final adequada” (CUIABÁ, 2013, p.296).
A partir desse crescimento e centralização, pode-se afirmar que quanto maior a população, maior a quantidade gerada de resíduos sólidos. A quantidade total de resíduos urbanos, do município, a ser coletada, transportada e disposta no aterro sanitário de Cuiabá, para o ano de 2014 foi de 236.714,4 toneladas, dos domiciliares e públicos. Os custos relacionados com a coleta e transporte dessa quantidade de resíduos foram de 18.449.152,02, ano de 2014; por tonelada o custo de transporte foi de R$ 77,94 (BRASIL, 2016).
Todos esses resíduos são enviados ao aterro sanitário, pois a cidade não possui coleta seletiva em todos os bairros. Nos bairros onde há segregação dos resíduos, a prefeitura tem a responsabilidade de recolher os resíduos úmidos, que são os orgânicos e rejeitos (CUIABÁ,
2013). De acordo com Domingos (2011, p.77) e Cuiabá (2013, p.92), a quantidade gerada de resíduos orgânicos foi de “42,39% do total de resíduos gerados” em 2010 dos materiais que chegam ao aterro sanitário municipal de Cuiabá. A seguir na Figura 1, consta a composição gravimétrica dos resíduos sólidos, por categorias. Foi apresentada a parte dos resíduos que é orgânica; a parte dos resíduos que fazem parte da limpeza pública, que são folhas, mato e galhada por serem também de origem orgânica; e os demais resíduos das outras categorias em outros.
Figura 1: Composição gravimétrica do resíduo sólido domiciliares da área urbana de Cuiabá/MT.
Fonte: Elaboração própria com base no PGIRS (CUIABÁ, 2013, p.91).
As normas seguidas na implantação de um aterro sanitário asseguram que as disposições dos resíduos não causarão dano à saúde pública e a segurança do meio ambiente, reduzindo a probabilidade de causar poluição no solo, e águas subterrâneas, e com técnicas adequadas a produção de metano do aterro pode ser aproveitada, ou ainda apenas queimado, reduzindo o potencial de poluição que o metano possui, reduzindo-o a gás carbônico (CUIABÁ, 2013). Os itens necessários para a implantação de um aterro sanitário são:
Instalações de apoio;
Sistema de drenagem de águas pluviais;
Sistema de drenagem, coleta e tratamento de líquidos percolados (chorume) e de drenagem de gases formados a partir da decomposição da matéria orgânica presente no lixo;
42,39%
5,97% 51,64%
Matéria Orgânica(1) Folhas, Mato e Galhada (2) Outros(3) (2)
(1) (3)
Impermeabilização lateral e inferior, de modo a evitar a contaminação do solo e do lençol freático (CUIABÁ, 2013, p.296).
O local, onde a célula é implantada para serem depositados os rejeitos, é impermeabilizado para que não haja contato com o solo, e possível contaminação, drenagem para tratamento dos líquidos gerados na decomposição, chorume, entre outras ações com a finalidade de evitar danos ao meio ambiente, pela contaminação que esse líquido possa causar. Algumas técnicas podem ser utilizadas para amenizar o potencial contaminante do chorume nos aterros sanitários, para isso há a necessidade de se determinar qual maneira seria mais adequada. No aterro sanitário de Cuiabá a técnica utilizada é de captação e lagoa de tratamento do líquido gerado pela decomposição dos resíduos orgânicos (CUIABÁ, 2013). A Figura 2 contém os itens necessários que compõem um aterro sanitário.
Figura 2: Aterro Sanitário
Fonte: www.lixo.com.br (apud CUIABÁ, 2013, p.296).
Na Tabela 1 podem-se notar as quantidades estimadas geradas e coletadas em Cuiabá, Mato Grosso, Centro-Oeste e Brasil. Nota-se que nos dois anos apresentados a seguir, houve
crescimento tanto na quantidade gerada quanto na quantidade coletada de resíduos sólidos urbanos (RSU). Os resíduos gerados em Cuiabá no ano de 2014 foram 1,319% maiores que no ano anterior, a quantidade de RSU coletado no ano de 2014 foi de 1,322% maiores que no mesmo período. Assim o crescimento da quantidade coletada foi 0,227% superior à gerada, mostrando indicativos de maior cobertura de coleta, “quanto maior é o percentual de eficiência, maior é a quantidade de resíduos coletados para reciclagem e menor será a quantidade de rejeitos dispostos no aterro” (CUIABÁ, 2013, p.228).
Tabela 1: Geração e destinação do RSU em Cuiabá, Mato Grosso, Centro-Oeste e Brasil.
REGIÃO
POPULAÇÃO TOTAL (HAB)
RSU GERADO RSU COLETADO
(t/dia) (kg/hab/dia) (t/dia) (kg/hab/dia)
2013 2014 2013 2014 2013 2014 2013 2014 2013 2014
Cuiabá 569.830 575.480 418,97 424,50 0,735 0,738 410,59 416,02 0,721 0,723
Mato Grosso 3.182.113 3.224.357 3.118 3.175 0,980 0,985 2.691 2.750 0,846 0,853
Centro-Oeste 14.993.191 15.219.608 16.636 16.948 1,110 1,114 15.480 15.826 1,032 1,004
Brasil 201.032.714 202.799.518 209.280 215.297 1,041 1,062 189.219 195.233 0,941 0,963
Fonte: Elaboração própria com dados da ABRELPE (2015) e IBGE (2016).
Conforme Catuzzo (2013, p.27), “a falta de aplicabilidade da legislação urbana, o crescimento desordenado, a verticalização e a redução de espaços verdes impactam cada vez mais na vida do citadino.” As cidades crescem num processo acelerado e não planejado de urbanização (FORGIARINI, 2010), as alterações na paisagem que antes era natural, sem a intervenção do homem, dá lugar a prédios cada vez mais altos que compõem a paisagem urbana, e podem provocar um esgotamento, ou devastação na natureza que havia no local, e aglomeração urbana. Para que os resíduos também não tragam degradação ao meio ambiente e afetarem a saúde da população, leis e políticas foram elaboradas a fim de determinar as responsabilidades dos agentes na questão ambiental, de destinação dos resíduos sólidos. A seguir serão apresentadas as leis que norteiam a questão dos resíduos sólidos na cidade de Cuiabá.
2.1. LEIS QUE NORTEIAM A QUESTÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS
A preocupação com a degradação do meio ambiente já estava presente na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, inciso 3, cita que “As condutas e atividades lesivas ao meio ambiente sujeitarão aos infratores, pessoas físicas ou jurídicas, às sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar o dano causado” (BRASIL, 2012). Na Figura 3 o histograma traz a sequência, e hierarquia, dos planos que auxiliam na gestão dos resíduos sólidos para todos os municípios brasileiros, tendo a Constituição Federal como fonte primária na preocupação a gestão adequada dos resíduos.
Figura 3: Plano de Resíduos Sólidos por Abrangência Fonte: ABRELPE (2015, p.19).
Desde a década de 1990 o tema do meio ambiente vem sendo debatido, com maior frequência, a fim de encontrar meios adequados da destinação de resíduos que poderiam trazer transtornos para a população. A partir do encontro da Rio 92, a sociedade tem se conscientizado que deve buscar soluções para esses problemas. Leis e regulamentos nas esferas nacionais,
estaduais e municipais colaboram na organização de diretrizes a serem alcançadas, pelo poder público e a população, e assim melhorar a ordem e limpeza urbana. Essas leis contêm as responsabilidades de cada agente envolvido na gestão dos resíduos sólidos, os direitos e deveres de cada um dos geradores. Nos próximos subitens serão apresentadas as principais políticas, e leis que embasam o tema dos resíduos sólidos, nas três esferas. A cidade de Cuiabá está implantando a gestão integrada de resíduos sólidos urbanos.
2.1.1. Nacional: Política Nacional de Resíduos Sólidos
Nacionalmente tem-se a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei nº 12.305 de 2 de agosto de 2010, sancionada no ano de 2012, que alterou a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1999. Essa Lei é a matriz que os estados e municípios se baseiam para formularem suas leis específicas, ou atualizações nas leis existentes, no que tange os resíduos sólidos. Entre seus objetivos, a PNRS, relacionados no art. 7º, o inciso II se refere a “não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos” (BRASIL, 2012). A Política contém os procedimentos para as devidas providências a cerca da destinação correta dos resíduos sólidos gerados nos municípios brasileiros, e as indicações dos procedimentos dos destinos para cada tipo de resíduos, Figura 4:
Figura 4: Classificação dos resíduos e a forma de destinação ambientalmente correta para cada tipo
A PNRS está diretamente ligada às diretrizes da responsabilidade de cada esfera, nacional, estadual e municipal, da destinação adequada dos rejeitos e resíduos sólidos, principalmente a reutilização e reciclagem desses resíduos, a preocupação com o desgaste do meio ambiente pela extração dos recursos sem controle do limite da capacidade possível de recuperação do meio ambiente, para que exista qualidade de vida para o ser humano. Seus princípios encontram-se no art. 6º da PNRS, elencados a seguir:
I - a prevenção e a precaução;
II - o poluidor-pagador e o protetor-recebedor;
III - a visão sistêmica, na gestão dos resíduos sólidos, que considere as variáveis ambiental, social, cultural, econômica, tecnológica e de saúde pública;
IV - o desenvolvimento sustentável;
V - a ecoeficiência, mediante a compatibilização entre o fornecimento, a preços competitivos, de bens e serviços qualificados que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida e a redução do impacto ambiental e do consumo de recursos naturais a um nível, no mínimo, equivalente à capacidade de sustentação estimada do planeta;
VI - a cooperação entre as diferentes esferas do poder público, o setor empresarial e demais segmentos da sociedade;
VII - a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
VIII - o reconhecimento do resíduo sólido reutilizável e reciclável como um bem econômico e de valor social, gerador de trabalho e renda e promotor de cidadania; IX - o respeito às diversidades locais e regionais;
X - o direito da sociedade à informação e ao controle social; XI - a razoabilidade e a proporcionalidade(BRASIL, 2012).
Os itens dos princípios da PNRS (BRASIL, 2012), têm conceitos ligados à literatura econômica, de desenvolvimento sustentável e da economia ecológica. No item I, prevenção seria evitar uma atitude que possa causar alguma complicação futura. O princípio da precaução consiste em admitir que a sociedade seja insuficiente na prevenção de desastres naturais causados por intervenção humana. A previsibilidade de desastres irrecuperáveis levou a construção de ações que evitem os danos no meio ambiente. A precaução tem por finalidade evitar, antecipar procedimentos que defendam a integridade da natureza que pode ser degradada (ROMEIRO, 2001).
O item II contém o poluidor-pagador que é o indivíduo que causa algum tipo de dano ao meio ambiente e em consequência recebe uma punição, multa em valor monetário corrente, para reparar o prejuízo ambiental, esse conceito acaba deixando o infrator com sensação de poder poluir, pois pagando a taxa ou imposto pela poluição ele fica livre para poluir no limite ao qual pagou (CANEPA, 2010). Na PNRS os valores são de responsabilidade das prefeituras que
determinam e cobram em suas políticas específicas (BRASIL, 2012). O princípio do protetor-recebedor consiste no individuo ou agente que poupa o meio ambiente e por isso ele recebe estímulos pela sua boa conduta de preservar a natureza evitando os danos causados pela degradação, é o conceito contrário do poluidor-pagador (RIBEIRO, 2003).
Nos itens IV e V contêm os conceitos de desenvolvimento sustentável, que preserva o presente pensando nas gerações futuras terem as mesmas oportunidades das gerações presentes (CMMA, 1988). Obsolescência programada, item VII, que consiste em fabricar um produto com vida útil menor, para que o consumidor precise repô-lo com espaço de tempo reduzido. O item VIII refere-se a valorizar um produto com pouco valor ou sem valor econômico, mas que pode ter valor social, de inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade e mitigação da natureza. Os resíduos sólidos descartados são materiais que os consumidores não usam e querem se ver livre o mais rápido possível, contudo podem se tornam insumos em um novo processo produtivo, como Daly nomeou de throughput (DALY, 2007).
Quanto aos resíduos orgânicos especificamente, a PNRS em seu art. 36º, contém as responsabilidades, sobre a destinação dos resíduos, e sugere “implantar sistema de compostagem para resíduos sólidos orgânicos e articular com os agentes econômicos e sociais formas de utilização do composto produzido”, em seu inciso V (BRASIL, 2012). Essas foram as principais diretrizes, a partir dessa atualização que os estados e municípios teriam um modelo para se basear e assim regulamentar as questões que envolvem os resíduos sólidos urbanos, de toda a natureza.
2.1.2. Estadual: Política Estadual de Resíduos Sólidos
No estado de Mato Grosso tem-se a Lei 7.862 de 19 de dezembro de 2002, Política Estadual de Resíduos Sólidos (PERS), baseada na versão anterior da PNRS. Entre seus objetivos, destacam-se os itens que se refere à responsabilidade do estado em disciplinar a questão dos resíduos; o apoio à implantação do gerenciamento integrado de resíduos sólidos em todos os municípios; incentivar linhas de créditos para que os municípios possam implantar de forma efetiva os planos de gerenciamento; e no apoiar implantação de acordos intermunicipais entre os municípios. Os objetivos completos estão no art. 3º:
I - preservar a saúde pública;
II - proteger e melhorar a qualidade do meio ambiente; III - estimular a recuperação de áreas degradadas;
IV - assegurar a utilização adequada e racional dos recursos naturais; V - disciplinar o gerenciamento integrado dos resíduos;
VI - estimular a implantação, em todos os Municípios mato-grossenses, dos serviços de gerenciamento integrado de resíduos sólidos;
VII - gerar benefícios sociais e econômicos;
VIII - estimular a criação de linhas de crédito para auxiliar os Municípios na elaboração de projetos e implantação de planos de gerenciamento de resíduos sólidos licenciáveis pelo órgão ambiental estadual;
IX - ampliar o nível de informação existente de forma a integrar ao cotidiano dos cidadãos o tema resíduos sólidos;
X - implementar o gerenciamento integrado dos resíduos sólidos urbanos, incentivando a cooperação entre Municípios e a adoção de soluções conjuntas (MATO GROSSO, 2002).
Os princípios da PERS fazem parte das diretrizes que auxiliaram na redução da poluição, na proteção e recuperação do meio ambiente, para que os recursos naturais sejam utilizados de forma consciente para evitar a degradação e postergação da extinção de espécies nativas. Para que isso possa ser possível, a PERS contempla, em seus princípios, a participação social, o dever da indústria ou empresa importadora de fazer a logística reversa, a colaboração entre os agentes econômicos para a promoção do bem-estar social, entre o poder público, setor produtivo e a sociedade. No art. 5º estão os princípios indispensáveis, que são:
[...]
III - redução, ao mínimo, dos resíduos sólidos, por meio do incentivo às práticas ambientalmente adequadas de reutilização e reciclagem;
[...]
VI - responsabilização dos geradores pelo gerenciamento dos seus resíduos sólidos em todo o seu ciclo;
[...]
IX - cooperação interinstitucional entre os órgãos do Estado e dos Municípios, estimulando a busca de soluções consorciadas e/ou compartilhadas;
X - responsabilização por danos causados pelos agentes econômicos e sociais com adoção do princípio do poluidor pagador;
[...]
XIII - adoção dos princípios do desenvolvimento sustentável como premissa na proposição do modelo de Gestão de Resíduos Sólidos para o Estado de Mato Grosso, baseado em agenda mínima para alcançar os objetivos gerais propostos, a curto e médio prazos;
XIV - erradicação dos lixões (MATO GROSSO, 2002).
Corroborando com a PNRS, a adoção de punição aos infratores, que poluem o meio ambiente, o conceito de poluidor-pagador, e o estímulo ao consórcio para a implementação de aterros como solução para a gestão de resíduos sólidos nos municípios. Um item que abre a
discussão dos deveres sobre os resíduos gerados está no item VI, que a destinação dos resíduos são de responsabilidade dos geradores, com isso os municípios do estado tem respaldado na PERS a determinação dos custos de destinação dos resíduos sólidos. As ações do Poder Público estão listadas no art. 6º, entre elas, destacam-se as a seguir:
I - incentivo à não-geração, minimização, reutilização e reciclagem de resíduos através de:
a) alteração de padrões de produção e de consumo; b) desenvolvimento de tecnologias limpas; c) aperfeiçoamento da legislação correlata. [...]
XI - incentivo à criação de novos mercados de produtos reciclados e a ampliação dos já existentes;
XII - preferência, nas aquisições, a produtos compatíveis com os princípios e fundamentos desta lei;
XIII - articulação institucional entre os gestores visando à cooperação técnica e financeira, especialmente nas áreas de saneamento, meio ambiente, recursos hídricos e saúde pública;
[...]
XV - investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias ambientalmente adequadas;
[...]
XX - induzir os Municípios à adoção de práticas de gerenciamento e gestão que garantam a sustentabilidade econômica de seus sistemas de gerenciamento de resíduos sólidos, baseadas na remuneração justa dos serviços prestados e na vinculação dos valores cobrados à efetiva execução dos mesmos;
XXI - apoio técnico e financeiro aos Municípios na formulação e implantação de seus planos estratégicos de ação para o gerenciamento dos resíduos sólidos, de acordo com critérios a serem definidos no regulamento;
XXII - introduzir o conceito de gerenciamento integrado de resíduos sólidos, estabelecendo metas estaduais, regionais e locais para controle, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e destinação final adequado para todo e qualquer resíduo sólido gerado;
XXIII - incentivar e promover a articulação e a integração entre os Municípios para a busca de soluções consorciadas e/ou compartilhadas, principalmente para o tratamento e a destinação final de resíduos sólidos (MATO GROSSO, 2002).
Essas ações que a PERS elencadas, relata que a esfera estadual ficaria responsável por cada ação, pelo suporte técnico e financeiro. A política abre possibilidade de parceria com a iniciativa privada, e associações sem fins lucrativos, art. 11º, item X. A PERS não traz especificamente ações para a destinação e manipulação de resíduos orgânicos, mas trata de forma geral sobre os resíduos sólidos, a fim de regulamentar as ações, diretrizes e responsabilidades de cada agente envolvido. Relata o planejamento para incentivos ao setor de reciclagem, tanto para empresas quanto para os municípios, sugere consórcios para a formação de aterros sanitários compartilhados (MATO GROSSO, 2002). Os municípios, baseados na PERS e PNRS
direcionarão as especificações de cada tipo de resíduos e as formas de manipulação de cada para o melhor direcionamento, sendo para reciclagem ou para o aterro, se os resíduos não possuir nenhuma alternativa viável de reaproveitamento.
2.1.3 Municipal: Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos e Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos
Na esfera municipal de Cuiabá, tem-se o Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos (PGIRS) e a Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS). Outras Leis foram implantadas em Cuiabá, anteriores, a exemplo da Lei nº 4.493 de 30 de dezembro de 2003, que “cria o programa comunitário de reciclagem de resíduos orgânicos e inorgânicos no âmbito do município de Cuiabá”, com o objetivo de promover educação ambiental e treinamento para os trabalhadores da coleta de materiais recicláveis, para que pudessem aproveitar melhor os resíduos agregando mais valor no trabalho desempenhado (CUIABÁ, 2004, p.428).
Um instrumento importante a ser utilizado para direcionar as ações que envolvem os resíduos sólidos na cidade de Cuiabá é o PGIRS. Ele “é o instrumento que define o conjunto de informações e estratégias integradas de gestão, destinados a normatizar os procedimentos operacionais de gerenciamento de resíduos sólidos”, sendo um agrupamento de informações sobre como fazer a separação, armazenamento, e a destinação, transporte, e demais procedimentos referentes aos resíduos sólidos de acordo com as leis ambientais e sanitárias (CUIABÁ, 2013, p.159).
Após estudos e discussões com a sociedade, foi divulgado o PGIRS, adequado ao PNRS e o PERS, com reuniões de uma comissão criada para esse fim, com participações populares em palestras com representantes da prefeitura e da procuradoria municipal, a fim que as correções contemplassem todos os atores envolvidos da sociedade. As ações que o PGIRS contempla “podem ser classificadas em dois grupos distintos: Ações Institucionais e Legais; e Ações Técnicas e Operacionais”(CUIABÁ, 2013, p.298). O primeiro refere-se as ações que a prefeitura e os agentes realizam, para que o plano seja colocado em prática, e revisado de quatro em quatro
anos para que se confirmem se o planejamento está implantado e em funcionamento. O segundo está ligado às ações práticas que forem planejadas para a execução do plano de gerenciamento, com identificação de cada agente responsável em cada etapa. De acordo com o PGIRS,
A Questão Ambiental foi o mais debatido de todos os eixos estratégicos, porque perpassa todos os demais eixos [...] em que se encareceu a necessidade de criação de espaços especialmente protegidos, a proteção de áreas verdes e áreas de preservação permanente, com a finalidade de se evitar também a ocupação dessas áreas, que contribuirão para uma sadia qualidade de vida dos munícipes (CUIABÁ, 2013, p. 28).
Entre os princípios que regem o PGIRS estão: “[...] proteção do meio ambiente; [...] Eficiência e sustentabilidade econômica; [...] Prevenção e Precaução; Poluidor pagador e o protetor recebedor; [...] Desenvolvimento sustentável; [...] Resíduos como um bem econômico e de valor social; [...]” (CUIABÁ, 2013, p.10). No PGIRS constam diretrizes para o acondicionamento e transporte de resíduos sólidos, e um quadro com os maiores geradores2 cadastrados na Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSU), esses grandes geradores são empresas, instituições, ou outro órgão, que “geram resíduos que excedem o volume de 100 (cem) litros ou 40 (quarenta) quilos por período de 24 horas”, os indivíduos desse grupo “pagam uma taxa para a coleta e destino final dos seus resíduos no Aterro Sanitário Municipal” (CUIABÁ, 2013, p.97 e 100).
Os princípios do PGIRS estão de acordo com a politica nacional e a estadual de resíduos sólidos. O indivíduo ou empresa que polui está sujeito à sanção de multas para repararem o dano causado ao meio ambiente, através do conceito mais conhecido de poluidor-pagador. De acordo com Colombo (2006, p.1), esse conceito de poluidor-pagador não tem por objetivo autorizar ou dar o direito ao individuo de poluir, “pelo contrário, ele tem uma vocação preventiva e também uma vocação repressiva, para evitar que o dano ao meio ambiente fique sem reparação.” Esses danos causados no meio ambiente pelos poluidores são externalidades negativas que trazem prejuízos a toda a sociedade, para reparar esse problema
[...] os poluidores diretos são chamados a reparar o dano em primeiro lugar e o Estado fica na condição de devedor solidário e reserva, o que significa uma maior garantia para o meio ambiente e solução jurídica mais adequada, evitando-se, assim, a socialização dos ônus e a privatização dos bônus; exatamente o que se pretende com a aplicação do princípio do poluidor-pagador (LIMA E MOREIRA, 2014, p.17).
2
Para os resíduos orgânicos, o PGIRS, traz um planejamento mais completo, se comparado ao PNRS e ao PERS, pois são de competência dos municípios esses planos, conforme o art. 10º do PNRS. Com informações como separar, guardar e transportar esse tipo de resíduos o PGIRS incentiva a compostagem através de cooperativas, como destino aos resíduos orgânicos, como forma de minimizar os impactos que esses materiais possam levar ao meio ambiente, se não for bem acondicionado os agentes infratores podem sofrer punição de multas a serem aplicadas, baseada no principio do poluidor-pagador, onde quem polui paga pelo dano causado ao meio ambiente e à sociedade (CUIABÁ, 2013).
O município de Cuiabá também tem a Lei Complementar nº 364, de 26 de dezembro de 2014, que regulamentou o PGIRS, instituindo a Política Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS). Nela consta as responsabilidades dos geradores de resíduos e do poder público, na geração, no “serviço de coleta, transporte, tratamento e destinação final dos resíduos sólidos”, em seu art. 1º e 2º. Os princípios da PMGIRS estão elencados no art. 5º, entre eles, “a prevenção e a precaução; o poluidor-pagador e o protetor-recebedor; visão sistêmica, na gestão dos resíduos sólidos, que considere as variáveis ambiental, social, cultural, econômica, tecnológica e da saúde pública; o desenvolvimento sustentável; [...]” (CUIABÁ, 2014).
Esses instrumentos que as leis se utilizam na coerção do indivíduo, as políticas de comando e controle, o princípio do poluidor-pagador, têm o propósito de tentar impedir ou pelo menos reduzir a poluição que os resíduos dispostos em local inadequado podem trazer à sociedade. A poluição que os resíduos causam são externalidades negativas que como consequência expõem à sociedade riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Para que essas falhas de mercado sejam corrigidas, as externalidades, ações impositivas precisam ser definidas através das leis. Assim espera-se que os indivíduos não poluam, pois esse ato lhe trará problemas, e terá que pagar as multas. A definição da quantidade de resíduos que cada agente gera por dia, é um instrumento que a prefeitura, através da Lei Complementar 364 de 2014 (PMGIRS), define como critério de fiscalização, e que determinará a classificação que o gerador fará parte, e as diretrizes que terá que seguir.
Na PMGIRS a referência de quantidades geradas por dia foi aumentada, se comparada com o PGIRS. Para ser considerado grande gerador, no art. 15º relata que para quantidades maiores que 200 l/dia ou 50 kg/dia, essa quantia se refere a todos os grandes geradores, sejam
empresas, condomínios, unidades geradoras de resíduos sólidos, e que são obrigados a separar os “resíduos secos recicláveis dos resíduos úmidos, orgânicos e rejeitos”. São considerados grandes geradores de resíduos orgânicos, no art. 18º, item III
§ 4º [...] supermercados, restaurantes, quartéis, feiras, eventos periódicos, serrarias, beneficiadoras de arroz ou de grande quantidade de pequenos geradores diários, a exemplo de pequenos comerciantes de coco, milho, cana e outros alimentos, ficam obrigados a segregar os resíduos orgânicos dos rejeitos, devendo, após, destinar os resíduos à empresas ou a instituições públicas ou privadas que desenvolvam atividades de produção de vegetais orgânicos, compostos orgânicos, fibras, produtos industriais e artesanatos em geral (CUIABÁ, 2014).
Esses grandes geradores tem a responsabilidade, de acordo com a PMGIRS, de fazerem planos de gerenciamento de resíduos sólidos, que deverão ser aprovados pelos órgãos competentes, caso não cumpram essa exigência, descrito no item I do art. 18º, estarão sujeitos a multas que variam de R$ 1.844,00 a 10.000,00. Em seu art. 44º a PMGIRS traz as penalidades inerentes aos infratores, com isso há uma tentativa de moralizar diante do poluidor-pagador, com “advertência; multas; suspensão do exercício de atividade por até noventa dias; interdição do exercício da atividade; perdas de bens.” As sanções variam de R$ 461,00 chegando a R$ 10.000,00 de acordo com a gravidade do dano causado, ou infração cometida contra a lei (CUIABÁ, 2014).
Para os resíduos sólidos orgânicos especificamente a Lei 364 de 26 de dezembro de 2014, trata esse material como rejeito e sua destinação deva ser o aterro sanitário, sendo sua transformação possível e determinada na PNRS. Embora no Plano (PGIRS) traga a compostagem como solução, na PMGIRS esse material sofre deterioração sendo sua destinação para o aterro sanitário juntamente com os rejeitos, isso pode ser notado no inciso terceiro do art. 11º da PMGIRS, “deverão segregar os resíduos sólidos secos recicláveis dos úmidos, orgânicos e rejeitos, [...] e os úmidos para a coleta domiciliar convencional, com destinação ao aterro sanitário municipal.” Porém na mesma Lei há contradições por relatar que os resíduos orgânicos são considerados como rejeitos, e no art. 4º, itens IX e XXIX, contêm a forma de ser feita a destinação correta, compostagem, como a PNRS recomenda (CUIABÁ, 2014).
As leis tem o objetivo à normatização das ações dos indivíduos, e dos agentes econômicos em especial, com a natureza, principalmente no que diz respeito à poluição que eles possam
causar. Por esse motivo há a necessidade de instituir valores econômicos, que impeçam a intenção de prejudicar o meio ambiente em beneficio próprio, para isso as taxas e multas, regulação da destinação dos resíduos, advertências, acompanhamento e determinação do ciclo de vida do produto, são instrumentos utilizados no sentido de conscientizar os potenciais infratores que se o dano for realizado, eles terão penalidades a serem pagas, ressarcindo o prejuízo causado. Assim externalidades negativas podem ser evitadas ou no caso de ser realizadas poluem o meio ambiente, o causador deverá reparar o dano na busca de um processo que traga maior sustentabilidade ao local.
2.2. POTENCIAL DE RECICLAGEM DOS RESÍDUOS ORGÂNICOS E LOCAIS ONDE FORAM IMPLANTADOS
Os resíduos quando tratados adequadamente podem ser transformados em insumos (transumo) que voltam ao processo produtivo, produtos ricos em nutrientes que alimentaram plantas, reduzindo o risco de poluírem o meio ambiente, água, ar, aumentando a vida útil dos aterros sanitários, que passam a receber menos resíduos, pois os resíduos que podem ser reciclados são efetivamente aproveitados, reduzindo a necessidade de extração de novas matérias primas, redução de necessidade energética para a produção, entre outros benefícios. Muitas vezes o metano gerado nos aterros com o acondicionamento dos resíduos orgânicos não são aproveitados por serem onerosos ao poder público a sua implantação e a complexidade de operação da captação desse gás, por formarem bolsões no processo, não sendo possível a geração apenas em um local, que facilitaria a captação e aproveitamento desse gás.
O mais indicado seria evitar o envio de resíduos recicláveis ao aterro, que deveria apenas receber rejeitos, que não podem ser reciclados. Os resíduos orgânicos poderiam geram compostos para adubar hortas orgânicas, produção de grãos, mudas para reflorestamento, em solos degradados, entre outros; e também indicados para plantas em hortas e jardins para a nutrição de plantas. Os processos de transformação foram denominados de transidânicos, a seguir serão apresentadas duas formas possíveis para o aproveitamento dos resíduos orgânicos: (1) através da decomposição aeróbica, primeiramente, compostagem, e em seguida (2) decomposição
anaeróbica, sistema que gera o biofertilizante e o biogás para ser usado como fonte de energia, e exemplos de lugares onde são utilizados.
2.2.1. Decomposição Aeróbica - Compostagem
Os resíduos orgânicos podem ser reciclados através da compostagem. A compostagem é uma forma que utiliza o Oxigênio (O2), aeróbica, com isso é evitado que metano (CH4) seja gerado e lançado na atmosfera. Essa técnica de reciclagem é aplicada em resíduos sólidos orgânicos, e é feita de modo controlado, para que micro-organismos benéficos se desenvolvam (CARVALHO e GUERRA, 2015). “A decomposição biológica e estabilização da matéria resulta em composto orgânico, cuja utilização no solo não oferece riscos ao meio ambiente” (CUIABÁ, 2013, p.293). As substâncias que são matérias-primas no processo de compostagem são:
Resíduos Industriais: Grande variedade na geração de resíduos pelas industriais. Ex.:
bagaço de cana-de-açúcar, cascas de eucalipto, bagaço de laranja, torta de tomate.
Estercos de Animais: A composição dos estercos é variável, sendo influenciada por
vários fatores como a espécie, idade, alimentação, raça, outros. Ex.: bovino, suíno, equino, ovino.
Restos Vegetais: Grande variedade na composição química. Ex.: capim, grama,
verduras, legumes.
Fração orgânica do lixo doméstico (CARVALHO e GUERRA, 2015).
A compostagem pode ser realizada de várias formas, o modo tradicional utiliza técnicas manuais, onde a mão-de-obra e ferramentas simples é eficiente, porém o tempo necessário para estabilizar o material é maior. Há máquinas automáticas, que realizam o processo sem a intervenção humana, apenas é necessário colocar os resíduos na máquina e ligá-la.
2.2.2. Decomposição Anaeróbica
A decomposição anaeróbica utiliza bactérias que se desenvolvem na ausência de oxigênio (O2), o resultado do processo é o gás metano (CH4) e o dióxido de carbônico (CO2), o primeiro é um gás altamente poluente que colabora com o aumento do efeito estufa, e o aquecimento global. Porém se for acondicionado adequadamente pode ser aproveitado como fonte de geração
energética. Essa técnica é um tratamento mecânico biológico (TMB) que “é definido como o método de tratamento de resíduos que inclui processos de triagem de inertes e tratamento biológico dos materiais orgânicos, por meio da digestão anaeróbia” das bactérias (CUIABÁ, 2013, p.294).
2.2.3. Locais onde foram implantados
As formas de realizar a transformação dos resíduos orgânicos foram implantadas em alguns locais, tanto no Brasil quanto em outros países. No Brasil há um exemplo em Campinas (SP), de uma parceria pública privada que a prefeitura firmou com uma empresa, a Ecosigma que atua com a coleta e tratamento dos resíduos em usinas de compostagem, trabalha com a “produção de compostos orgânicos, húmus de minhoca, terra vegetal, substratos especial, biofertilizantes, minhocas para reposição, pesca e ração animal” (ECOSIGMA, 2016). Seguindo a referência da empresa Ecosigma existe outras empresas que realizam o tratamento, geralmente por compostagem, pois é a forma de menor custo, embora utilizem tecnologias que aceleram o processo de amadurecimento do composto, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O resultado do transidânico é comercializado pelas empresas.
Como exemplo de local internacional que realiza o tratamento em seus resíduos orgânicos tem-se a Tailândia que realiza a compostagem para a reciclagem dos resíduos orgânicos para o processo. A meta era a redução de resíduos, em cinco anos conseguiram reduzir 291 ton/dia, entre 2005 e 2009. A porcentagem de resíduos orgânicos produzido na Tailândia é acima de 60%, com isso foi aplicado um projeto que trate esse volume, com a compostagem e biodigestores, gerando composto e energia através do gás (SHARP E SANG-ARUN, 2012).