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Open Bico de Pena: escrita de si de Nivalson Miranda

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Academic year: 2018

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

SUELLEN BARBOSA GALDINO

BICO DE PENA:

escrita de si de Nivalson Miranda

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SUELLEN BARBOSA GALDINO

BICO DE PENA:

escrita de si de Nivalson Miranda

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação como requisito para obtenção do título de Mestre.

Linha de Pesquisa: Memória, Organização, Acesso e Uso da Informação.

Orientadora: Profª. Drª. Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira

JOÃO PESSOA

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G149b Galdino, Suellen Barbosa.

Bico de Pena: escrita de si de Nivalson Miranda / Sullen Barbosa Galdino.- João Pessoa, 2015.

168f. : il.

Orientadora: Bernardina Juvenal Freire de Oliveira Dissertação (Mestrado) - UFPB/CCSA

1. Miranda, Nivalson Fernandes de, 1927-. 2. Ciência da informação. 3. Arquivo privado pessoal. 4. Memória.

5.Trajetória de vida.

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SUELLEN BARBOSA GALDINO

BICO DE PENA: escrita de si de Nivalson Miranda .

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do título de Mestre.

Aprovada em: 27/02 /2015.

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________

Profª. Drª. Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira – PPGCI/UFPB Orientadora

______________________________________________

Profª. Drª. Maria Elizabeth Baltar Carneiro de Albuquerque – PPGCI/UFPB Examinadora Interna

________________________________________________

Profª. Drª. Zeny Duarte de Miranda Magalhães dos Santos – PPGCI/UFBA Examinadora Externa

______________________________________________ Profº. Dr. Carlos Xavier de Azevedo Netto – PPGCI/UFPB

Suplente Examinador Interno

________________________________________________ Profº. Dr. Henry Pôncio Cruz de Oliveira– PPGCI/UFC

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A Deus. Aos meus pais Antônio e Solange. Ao meu amado esposo Jucynaldo, e aos filhos que teremos.

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AGRADECIMENTOS

Toda glória e todo louvor a Deus, que não me deixou desanimar e me fez seguir firme e constante nesta jornada acadêmica. Fácil não foi, porém é gratificante chegar ao fim, olhar para trás e ver tudo o que construí ao longo desses dois anos: conhecimento, crescimento pessoal, discernimento e amigos que prosseguirão junto comigo em outras caminhadas.

O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios

vem do Senhor (Prov. 16:1). É melhor obter sabedoria do que ouro!

É melhor obter entendimento do que prata! (Prov. 16:16).

Agradeço ao meu esposo, Jucynaldo Correia, pela dedicação e apoio. Pelas idas e vindas à Universidade Federal da Paraíba, para que eu não voltasse para casa de ônibus. Por estar sempre ao meu lado desde a inscrição para a seleção do mestrado, nas lágrimas derramadas diante das primeiras dificuldades e em dias decisivos, tais como: a qualificação, entrevistas para a dissertação e defesa. Pelo incentivo diário, mesmo significando muitos finais de semana e feriados abdicando dos passeios, descanso e comemorações.

À minha querida mãe Solange, que sempre ora por mim, torcendo e vibrando por cada passo, pelas conquistas e até pelos sonhos e planos. Tenho orgulho de tê-la como mãe, exemplo de mulher, mãe, amiga, sogra e avó. Sei que ela não teve as mesmas oportunidades que eu; por isso mesmo, sempre agarro bem forte cada oportunidade surgida, pois quero que ela se orgulhe de mim e me veja alcançar tudo o que ela almejou e não realizou.

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Paraíba. Artista plástico de um traço delicado e perfeito. Aprendi a dar poesia ao texto, sem que ele deixe de ser um trabalho científico.

Aos amigos sempre presentes, que torceram por mim desde a inscrição para a seleção do mestrado, a exemplo dos amigos que fiz na graduação em Arquivologia na Universidade Estadual da Paraíba: professora Mara Cordeiro, professora Esmeralda Porfírio, Dayana Ribeiro, Kleane Pâmela, Egberto Lima. À Rosane Coutinho Pereira Lacet, por sua generosidade, alegria e incentivo para que eu persistisse no meu sonho. Aos demais colegas, pelo auxílio nesses dois anos, quer fosse para a apresentação dos trabalhos, produção dos artigos, ou mesmo para as viagens para o ENANCIB. Em especial à minha querida Célia Medeiros, que compartilha comigo das mesmas angústias e alegrias, tardes de estudo, planos para o futuro, confidências femininas e até o mesmo gosto por saias indianas.

Aos que fazem parte do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação/UFPB, em especial aos docentes com os quais eu tive a oportunidade de conviver e aprender ao longo do cumprimento dos créditos. Com alguns desses professores, eu tive a grata surpresa de ter um contato mais próximo nos corredores da Universidade, como o professor Carlos Xavier e a professora Elizabeth Baltar. O professor Carlos Xavier sempre diz que todo sofrimento é pouco para o aluno, contudo, nas entrelinhas da sua fala, compreendo que todo sofrimento é pouco sim, pois é na adversidade que o aluno cresce e se supera, aprende a dar valor a cada segundo de estudo e entende que trabalhar em grupo é uma soma de aprendizado e multiplicação de saberes.

À CAPES, por financiar a pesquisa por meio de bolsa de estudo durante os 24 meses de realização do mestrado.

Meus sinceros agradecimentos à banca examinadora nas pessoas da Professora Drª Maria Elizabeth Baltar C. de Albuquerque e da Professora DrªZeny Duarte de Miranda M. dos Santos que, prontamente, aceitaram o convite e abrilhantaram este trabalho com suas experiências, e olhar meticuloso, e, sobretudo, com o conhecimento da área.

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recebeu e contribuiu, incansavelmente, para a realização deste trabalho, através de suas memórias, lembranças e material arquivado no Instituto.

À restauradora Piedade Farias, que tive a satisfação de conhecer ainda no meu período de estágio de graduação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) e, com muita alegria, pude contar com sua ajuda, por meio de suas memórias e até mesmo de documentos arquivados referentes a Nivalson Miranda que, pouco a pouco, traçaram junto com toda a pesquisa, a escrita de si desse historiador-artista ou artista-historiador.

Ao artista plástico Bertrand Martins, por sua intensa generosidade e ajuda na pesquisa de campo, por ceder parte de seu tempo tão corrido com o mesmo propósito, de fazer a obra de Nivalson Miranda (re)conhecida, além de juntar força para preservar o acervo, sua história pessoal, seu legado, tanto em vida quanto após a morte.

À família de Nivalson Miranda, na pessoa do curador do acervo, Norrison Miranda, seu primogênito, eu sou grata pela permissão e viabilização da pesquisa bem como por me receber e abrir as portas da residência para permitir conhecer o acervo deixado pelo artista-historiador, mesmo em um momento de profunda tristeza, pela partida do ente querido.

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Arquivar a própria vida é definitivamente uma maneira de publicar a própria vida, é escrever o livro da própria vida que sobreviverá ao tempo e à morte

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RESUMO

Perceber os arquivos privados e pessoais enquanto lugares de memória nos possibilita delinear a trajetória de vida de um indivíduo em meio às funções que exerceu ou exerce ao longo de sua vida e no meio em que está inserido, juntamente com as pessoas que convivem à sua volta. Nesse sentido, a presente pesquisa debruça-se sobre o acervo ainda inexplorado e sem uma organização arquivística do pesquisador e artista plástico Nivalson Fernandes de Miranda, com o objetivo de prospectar a trajetória sócio-histórica e cultural da vida desse artista, por meio do seu arquivo privado pessoal entendendo-o sob a perspectiva de uma escrita de si. Para tanto, adotamos como pressuposto metodológico a pesquisa qualitativa do tipo documental associada à história oral na vertente da história temática e, em alguns casos, da história oral de vida. A investigação, realizada no acervo do artista e nos escritos sobre ele, nos autoriza a afirmar que o acervo do artista plástico é de grande importância para a sociedade, tendo em vista o fato de abranger o patrimônio histórico e narrar por meio de pesquisas, rascunhos e desenhos um período histórico, social e cultural. O artista ainda permeia seus trabalhos artísticos com a arte da escrita, sendo esse autor de um catálogo sobre a cidade de Areia e as cidades circunvizinhas e de poemas publicados em caderno feminino de um jornal impresso paraibano. De tal modo, ao realizar entrevistas com as pessoas que tinham ligação com o pesquisador e analisando os gêneros documentais que compõem o acervo de Nivalson Miranda, percebemos a importância e diversidade que o acervo apresenta, desde documentos textuais, iconográficos, cartográficos até os tridimensionais em que são inseridos os seus trabalhos artísticos. Concluímos, então, que o acervo do artista plástico promove conhecermos a trajetória de vida do seu produtor, assim como possibilita desbravar o legado que ele nos deixou.

(11)

ABSTRACT

Perceiving the personal private archives while places of memory enables us to delineate the trajectory of an individual's life amid the functions he held or holds throughout his or her life and in the environment he or she has taken part of, along with the persons who live around him or her. In this sense, this piece of research focuses on the still unexplored archive and with no archival organization of the researcher and plastic artist NivalsonFernandes de Miranda, aiming to prospect the social, historical and cultural trajectory of the life of that artist, through his personal private archive by understanding it under the perspective of a writing of self. For this reason, we adopted as methodological fundamentals the qualitative research of the documental type associated with the oral history with regard to the aspect of the theme history and, in some cases, the oral history of life. The survey, carried out in the artist´s archive as well as in the writings about him, enables us to affirm that the plastic artist´s archive is of great importance for society, considering the fact that it encompasses the historic heritage and it narrates through research, drafts and drawings a historical, social and cultural period. The artist still permeates his artistic works with the art of writing, once he is the author of a catalogue about the municipality of Areia and the surrounding towns as well as poems published in a women´s column in a printed newspaper in Paraíba. Therefore, while carrying out interviews with people who were connected with the researcher and examining documental genres that comprise Miranda´s archive, we perceived the importance and diversity that the archive presents, from textual, iconographic, cartographic documents up to the three-dimensional ones in which his artistic works are part of. We conclude, thus, that the plastic artist´s archive provides us the chance to know the life trajectory of its producer as well as it enables unveiling the legacy he left for us.

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LISTA DE FOTOGRAFIAS

FOTOGRAFIA 1: NIVALSON MIRANDA ... 18

FOTOGRAFIA 2: MÃE DE NIVALSON MIRANDA ... 71

FOTOGRAFIA 3: CARLOS AZEVEDO E NIVALSON MIRANDA (SPA)... 76

FOTOGRAFIA 4: NIVALSON MIRANDA, A PEDRA DO INGÁ NA PRAÇA ... 83

FOTOGRAFIA 5: ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES DA PARAÍBA ... 85

FOTOGRAFIA 6: FORMATURA DO CURSO DE FARMÁCIA ... 86

FOTOGRAFIA 7: FORMATURA DO CURSO DE FARMÁCIA ... 86

FOTOGRAFIA 8: PESQUISA DE CAMPO ... 92

FOTOGRAFIA 9: CURTA “A NINHADA” ... 110

FOTOGRAFIA 10: HERÁLDICA ... 121

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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 : BRASÃO DA FAMÍLIA MIRANDA ... 70

FIGURA 2: BRASÃO DA FAMÍLIA FERNANDES ... 71

FIGURA 3:ESTAMPAS DO SABONETE EUCALOL: BRASÕES, BANDEIRA ÚNICA, CÃES . 93 FIGURA 4 : SABONENTE EUCALOL- BRASÕES ... 94

FIGURA 5: ÁLBUM "SERTÃO HISTÓRICO MONUMENTAL" ... 105

FIGURA 6 : CAPA DO CATÁLOGO - "AREIA E SEU ENTORNO" ... 105

FIGURA 7 : EXPOSIÇÃO- ACERVO DE TEMAS HISTÓRICOS E ICONOGRÁFICOS DO PROF. N. MIRANDA ... 112

FIGURA 8:EXPOSIÇÃO- ERA PRECISO DEFENDER ... 112

FIGURA 9 : EXPOSIÇÃO NORDESTE HOLANDÊS ... 113

FIGURA 10:EXPOSIÇÃO VÁRZEA DO RIO PARAÍBA ... 113

FIGURA 11 : CONVITE- EXPOSIÇÃO "RELICÁRIO ARQUITETURAL RELIGIOSO DO BRASIL ... 114

FIGURA 12: CONVITE- EXPOSIÇÃO "BRASONAMENTO DO NORDESTE HOLANDÊS ... 114

FIGURA 13 : NM 2006 ... 119

FIGURA 14: NIVALSON MIRANDA ... 119

FIGURA 15 : RECADO DE NIVALSON MIRANDA PARA A RESTAURADORA PIEDADE FARIAS ... 120

FIGURA 16: ARQUITETURA RELIGIOSA DO BRASIL ... 122

FIGURA 17 : BRASÕES DA EXPOSIÇÃO "NORDESTE HOLANDÊS" ... 127

FIGURA 18 : RECORTE DE JORNAL- ARTISTA PARAIBANO FAZ SUCESSO EM PORTUGAL ... 135

FIGURA 19: RECORTE DE JORNAL- NIVALSON CONTA A HISTÓRIA COM OBRA DE ARTE EM AZULEJOS ... 135

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LISTA DE ESQUEMAS

(15)

LISTA DE DESENHOS

DESENHO 1: PRECE ... 27

DESENHO 2: TEMPO ... 67

DESENHO 3: PAINEL DO RIO PARAÍBA COM LOCALIZAÇÃO DOS ENGENHOS ... 74

DESENHO 4: DOM PEDRO E A REDE VELHA ... 80

DESENHO 5: CONCEPÇÃO ARTÍSTICA DO ANTIGO CONVENTO DE ALMAGRE – LOCALIZADO NA PRAIA DO POÇO ... 100

DESENHO 6: XILOGRAVURA - ORAI POR NÓS ... 108

DESENHO 7: XILOGRAVURA - O CALVÁRIO ... 109

DESENHO 8: VISTA ÁREA DA CAPITAL DA ... 116

DESENHO 9: JORNAL A UNIÃO ... 116

DESENHO 10: IGREJA DA MISERICÓRDIA ... 118

DESENHO 11: PEDRA DO INGÁ ... 120

DESENHO 12: LITORAL DO NORDESTE HOLANDÊS 1630/1654 ... 126

(16)

LISTA DE QUADROS

QUADRO 1: PANORAMA DOS DOCUMENTOS PESSOAIS DE NIVALSON MIRANDA DE

CARÁTER ACADÊMICO, QUANTO AO GÊNERO, À ESPÉCIE E AO TIPO DOCUMENTAL ... 87

QUADRO 2:PRINCIPAIS FIGURAS PRESENTES NOS BRASÕES ... 97

QUADRO 3: TÉCNICAS E FORMA DE USO POR NIVALSON MIRANDA ... 123

QUADRO 4: COMPOSIÇÃO DOCUMENTAL DO ACERVO DE NIVALSON MIRANDA ... 130

QUADRO 5: OBRAS DE CUNHO ARTÍSTICO, HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE NIVALSON MIRANDA ... 132

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LISTA DE SIGLAS

ADUFPB: Associação dos Docentes da Universidade Federal da Paraíba ASPEP: Associaçãodos Servidores Públicos do Estado da Paraíba

ASPLAN: Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba

CAPES: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior FFSC: Fundação Fortaleza de Santa Catarina

FUNJOPE: Fundação Cultural de João Pessoa IHGC: Instituto Histórico e Geográfico do Cariri IHGP: InstitutoHistórico e Geográfico da Paraíba INSS: Instituto Nacional do Seguro Social

IPGH: Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica

IPHAEP: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba IPHAN: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

JP: João Pessoa

PPGCI: Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação PRP: Partido Republicano Paulista

(18)

SUMÁRIO

1 PRIMEIROS ENTALHES ... 19

2 LEGADO EM TRÊS DIMENSÕES ... 28

2.1 ARQUIVO PRIVADO PESSOAL ... 39

2.2RABISCOS DE LEMBRANÇAS: MEMÓRIA E ARQUIVO DE ARTES ... 51

2.3 NARRATIVAS DO ETHOS ... 57

3 AS MARCAS DO TEMPO: LEGADO E VIDA DE NIVALSON MIRANDA ... 68

3.1 A FORMAÇÃO REGIDA PELA ARTE DA VIDA ... 84

3.2 O GOSTO PELA ARTE ... 90

4 PINTOR COM ALMA DE POETA: TRAJETÓRIA SOCIAL E CULTURAL... 101

4.1 PERMEANDO AS ARTES DA ESCRITA ... 104

4.2 O ARTISTA PLÁSTICO: EXPONDO HISTÓRIA ... 111

5 NIVALSON MIRANDA: TRACEJANDO ARTE E VIDA A BICO DE PENA ... 119

5.1 AS TÉCNICAS QUE DERAM VIDA ÀS OBRAS DE ARTE ... 122

5.2 O ACERVO DO ARTISTA ... 128

5.3 A ARTE IMPRESSA NOS JORNAIS ... 133

6 NOS QUADROS DA IMORTALIDADE ... 141

REFERÊNCIAS ... 148

ANEXOS ... 155

(19)

Fotografia 1: Nivalson Miranda

Fonte: Acervo Nivalson Miranda

(20)

Suellen Barbosa Galdino 19

1

PRIMEIROS ENTALHES

A mão segura a foto e o olhar se fixa. Reencontram-se os rostos dos amigos desaparecidos. E o próprio rosto também, surpreso em se rever antes das devastações do tempo. Eu era assim? E o que eu pensava naquela época? Mudei? Ou estava tudo “posto” desde o começo? Interrogações sobre o enigma identitário e o continuum do ego.

Estamos todos condenados à autobiografia.

(GERARD VINCENT, 1992)

___________________________________

Na atualidade, as pesquisas em arquivos privados são, em parte, realizadas quando o proprietário do acervo é reconhecido socialmente. Nesse sentido, Ducrot (1998) entende que o arquivista deve se propor a realizar pesquisas não apenas em arquivos da elite, mas também nos arquivos de minorias, de indivíduos comuns com uma vida quotidiana simples, refletindo desse modo a sociedade. A autora ainda pontua:

O arquivista deve urgentemente trabalhar para salvaguardar os fundos de importância histórica que ainda estão com suas famílias de origem, correndo-se o risco de que as dificuldades econômicas, ou a ignorância, possam provocar seu desmembramento ou sua destruição (DUCROT, 1998, p. 167).

Dedicado às artes plásticas, Nivalson Miranda, como era conhecido artisticamente, viveu quase nove décadas esmerando-se para expressar através de suas pinturas a bico de pena, aquarela e outras técnicas, suas pesquisas, suas paixões, sua expressão de vida. Homem das artes, simples no agir e no trato para com as pessoas, porém, de um reconhecido e admirado conhecimento sobre a história e a cultura da Paraíba. Todavia, tinha como característica alimentar um espírito jovem e criativo em seu fazer, de modo que para a família, os amigos e admiradores de sua arte, ele era um homem idoso com vivacidade de adolescente.

(21)

Suellen Barbosa Galdino 20

mundo, sonhos e ideias. Dessa forma, o seu arquivo, como um todo, se constitui de documentos em diversificados gêneros1 e espécies que, em razão de sua

organicidade, o revelam. Através de sua arte, ele se comunicava com o mundo. Influenciado pelo Patrimônio Histórico da Paraíba, Nivalson Miranda construiu, ao longo de sua vida, uma trajetória de dedicação e amor pelas artes, pela memória, pela história e cultura de seu estado natal – a Paraíba, afirmativa que se ancora no fato de significativa parte de seu arquivo estar dedicado as memórias dos espaços urbanos e cultura da Paraíba, muito embora essa vertente criativa tenha perpassado também por outras regiões brasileiras e internacionais. Com formação inicial em Farmácia, ele exerceu por mais de 30 anos a função de professor junto ao Departamento de Farmácia da Universidade Federal da Paraíba, de onde se afastara formalmente após a aposentadoria.

Por ter exercido vários papéis sociais, como professor, pesquisador e artista plástico, em nosso entendimento, a obra de Nivalson Miranda merece um justo reconhecimento pelo trabalho desempenhado, bem como pelo legado2 artístico,

cultural e histórico que deixou formando seu fundo arquivístico. Conhecer sua documentação e escrever sobre ela possibilita que sua história seja visível e em alguns casos (re)conhecida pela sociedade paraibana. Isso não significa dizer que ele foi um artista invisível, todavia, seu trabalho parece ainda não receber o devido reconhecimento por parte da sociedade civil, do poder estatal e da comunidade acadêmica.

Sabemos que ao acumular sua história, um indivíduo realiza uma seleção natural do que acredita merecer visualização posteriormente. Desse modo, afirma Artiéres (1998, p. 11):

[...] não arquivamos nossas vidas, não pomos nossas vidas em conserva de qualquer maneira; não guardamos todas as maçãs da

1

Por gênero documental adotamos a concepção de Bellotto (2006), entendendo ser esta a forma que assume um documento, dependendo assim do sistema de signos utilizados. E referente à espécie, Bellotto (2006) considera ser a configuração assumida por um documento conforme disposição e natureza das informações presentes.

2 Por legado, entendemos tudo aquilo que foi deixado por Nivalson Miranda, enquanto obras

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Suellen Barbosa Galdino 21

nossa cesta pessoal; fazemos um acordo com a realidade, manipulamos a existência: omitimos, rasuramos, riscamos, sublinhamos, damos destaque a certas passagens.

Outrossim, tornar a obra desse artista e pesquisador conhecida é, ao mesmo tempo, preservar seu arquivo e não permitir seu esquecimento ao longo do tempo. “O arquivo passa a representar uma espécie de pirâmide. Guarda a memória do titular e a de seu tempo para as gerações futuras, podendo contar muito mais do que se imagina” (DUARTE; FARIAS, 2005, p. 34).

Ao vasculhar os meandros do arquivo pessoal de Nivalson Miranda é possível inferir a sua relação com pesquisas de cunho memorialístico, possibiltando desbravar histórias de vida ainda inéditas por se tratar de um acervo desconhecido pela sociedade. Por conseguinte, entendemos que o fato de o arquivo estar envolto entre memórias e histórias de vida, bem como subsidiar seu próprio itinerário informacional justifica a escolha pela linha de Memória, Organização, Acesso e Uso da Informação junto ao Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação na Universidade Federal da Paraíba (PPGCI/UFPB).

Nesse sentido, é pertinente destacar a importância de trabalharmos sobre os arquivos privados pessoais para o campo da informação e da memória, sendo esses os responsáveis por desvendar aspectos referentes ao titular do acervo, bem como aspectos no qual envolvem questões de caráter social, educacional, político e histórico, de uma sociedade situada no tempo e espaço. Isso significa dizer que o titular não se apresenta como alguém isolado em si mesmo, mas um sujeito histórico em cuja trajetória muitas vidas e fatos são envolvidos, vividos e desenvolvidos.

O interesse por este campo de pesquisa surgiu, inicialmente, por compreender a dimensão dos arquivos privados pessoais como espaços de discursos múltiplos cujos documentos possibilitam visualizar o movimento do “eu” no

contexto sócio-histórico e, em segundo, do desejo de conhecer, e ao mesmo tempo ressignificar, a trajetória3 do professor-pesquisador, do artista-historiador ou do

3 Adotamos a concepção de trajetória de Bourdieu (1989), que certifica ser a trajetória

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Suellen Barbosa Galdino 22

historiador-artista Nivalson Miranda, dedicado às artes e preocupado em manter vivo, o patrimônio cultural e histórico, delineado por seus traços a bico de pena e outras técnicas.

Apesar de seus 86 anos, conseguiu vencer o corpo marcado pelo tempo em constante disputa com uma mente criativa que o acompanhara substituindo a idade por uma terna jovialidade que motivava suas ideias e ideais. Confirmando sua jovialidade, Azevedo (2013) afirma que guarda “uma grata recordação daquele jovem de 86 anos, vitalíssimo, lucidíssimo e, naturalmente, muito humano. Demasiadamente humano”.

Outro fator, não menos importante, refere-se ao fato de o mesmo ter falecido em 17 de agosto de 2013, e ainda próximo ao seu falecimento, ele caminhava por entre as ruas da capital paraibana e em especial no âmbito da UFPB, buscando realizar suas pesquisas e desenvolver sua arte. Desta forma, esta pesquisa dará início ao (re)conhecimento post-mortem do trabalho de um professor-artista, ou artista-historiador entre tantas outras denominações que podem revelar Nivalson Miranda por parte da academia, bem como contribuirá para ampliar pesquisas na produção de um conhecimento sobre o legado informacional de Nivalson Miranda, tomando como premissa teórica, a relação entre Escrita de Si e os Arquivos Privados Pessoais, além de imortalizar o seu fazer por meio do escrito científico.

Aqui consideramos o que preconiza Gomes (2004), em relação aos arquivos pessoais: ela observa que estes espaços privados aumentam em valorização as práticas de uma escrita de si. Deste modo, a referida autora afirma que “a acumulação e a disponibilização desse vasto e diversificado material arquivístico estimularam e permitiram, ao mesmo tempo, a sistematização de conhecimentos e de metodologias referentes à sua guarda e ao seu uso como fonte e objetivo histórico” (GOMES, 2004, p. 10).

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Suellen Barbosa Galdino 23

incipiente, devido à grandeza de o artista revelar seus vários “eus”, sua peculiaridade, seu modo de se expressar-se.

Assim sendo, utilizamos das palavras de Artiéres (1998) para expressar a importância de pesquisas em arquivos privados, pois retratam o indivíduo, sendo este guardado por si mesmo, através de tudo o que preservou ao longo de sua vida, ainda que este seja reflexo de suas próprias escolhas, como afirma Artiéres (1998, p. 11): “Arquivar a própria vida é se pôr no espelho, é contrapor à imagem social a imagem íntima de si próprio, e nesse sentido o arquivamento do eu é uma prática de construção de si mesmo e de resistência”.

Aliado as palavras de Artiéres o estudo toma como pressuposto teórico a escrita de si de Foucault (992) que de acordo com Araújo (2011, p. 8) é “[...] a representação de si sinaliza para uma tentativa de organização do eu pós-moderno, descentrado, fragmentado, cujas identidades múltiplas giram ao redor de um núcleo caótico e mutante”. Foucault (1992) preconizava que a escrita de si constitui o próprio sujeito. Vale salientar que este sujeito exerce vários papéis ao mesmo tempo, tais como pai, professor, pesquisador, artista plástico, etc., e não de uma forma cronológica. Por este fim, a escrita de si permite-nos compreender Nivalson Miranda como um todo indivisível que sempre estava em construção. Nesta perspectiva, a prática da escrita de si está no fato de escrever para si e para outrem (FOUCAULT, 1992).

Face ao exposto, a realização desta pesquisa encontra eco nos estudos teóricos sobre arquivos privados e, sendo o arquivo deste artista e pesquisador nunca explorado, suscitou-nos o desejo de debruçarmo-nos sobre o legado de sua vida. Nessa direção, o foco central deste estudo funda-se no processo de construção da memória sobre Nivalson Miranda, por seu arquivo privado pessoal ainda estar sem a devida organização, tendo a permissão de sua família e do curador de seu arquivo, seu primogênito.

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Suellen Barbosa Galdino 24

Com vistas a responder à indagação norteadora deste estudo, traçamos os seguintes objetivos: Objetivo Geral, prospectar4 a trajetória sócio-histórica e cultural

da vida de Nivalson Miranda por meio do seu arquivo privado pessoal, entendendo-o sentendendo-ob a perspectiva de uma escrita de si. Em relaçãentendendo-o aentendendo-os Objetivos Específicos, vislumbramos mapear seu legado informacional por meio de suas obras, técnicas e seus escritos; e estabelecer as tipologias documentais que compõem o arquivo privado pessoal e, desse modo, traçar com base nos rastros, restos e vestígios seu itinerário pessoal, a partir do entendimento do seu acervo como ato confessional.

Dessa feita, esta pesquisa busca construir uma trajetória positiva5 da vida e

obra de Nivalson Miranda por meio de seu arquivo pessoal associado às perspectivas da história oral. Para tanto, adotar-se-á como pressuposto metodológico a pesquisa qualitativa do tipo documental associada à história oral na vertente da história temática e em alguns casos da história oral de vida. Assim, Meihy (1998, p. 51) esclarece que “por partir de um assunto específico e preestabelecido, a história oral temática se compromete com o esclarecimento ou opinião do entrevistador sobre algum evento definido”.

Ainda ao que se refere à história oral de vida, a autora pontua que ela é muito mais subjetiva que objetiva, possibilitando uma abertura maior para o depoente expressar seu ponto de vista sobre as questões abarcadas durante a entrevista. “A história oral de vida é o retrato do depoente, nessa direção, a verdade está na versão oferecida pelo narrador, que é soberano para revelar ou ocultar casos, situações e pessoas” (MEIHY, 1998, p.45).

Referente à pesquisa do tipo documental, Gil (2006, p. 66) destaca que:

4 É um termo do âmbito da geologia, que é usado para descrever os métodos usados para

descobrir os filões ou jazidas de uma mina. Também pode estar relacionada com a arqueologia, no caso de descrever as técnicas aplicadas na localização de um jazida arqueológica de valor histórico. Portanto, utilizamos o verbo prospectar com vistas a obter informações sobre Nivalson Miranda, tendo como base o seu acervo privado ainda inexplorado e, portanto, desconhecido. Logo, queremos conhecer o artista plástico e, ao mesmo tempo, dar visibilidade à sua obra e ao seu legado, por meio da escrita de si extraída nos rastros, restos e vestígios que ele mesmo selecionou.

5 O termo positivo, aqui adotado, refere-se a um olhar otimista do objeto pesquisado. Ótica

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Suellen Barbosa Galdino 25

A pesquisa documental assemelha-se muito à pesquisa bibliográfica. A única diferença entre ambas está na natureza das fontes. Enquanto a pesquisa bibliográfica se utiliza fundamentalmente das contribuições dos diversos autores sobre determinado assunto, a pesquisa documental vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa.

Nesse sentido, a pesquisa do tipo documental atende aos objetivos deste trabalho tendo em vista o fato de utilizarmos como material de pesquisa, a documentação que compõe o arquivo privado pessoal do artista ainda sem tratamento documental, aliado a outros documentos como discursos de outrem sobre o investigado, recortes de jornais, fotografias, entre outros.

Trabalhando com a história oral como o método que nos ajudará na elaboração deste estudo, teremos como auxiliar a entrevista. “A entrevista é uma forma de interação social. Mais especificamente, é uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação” (GIL, 2006, p. 115).

Já para Minayo (2012, p. 64), a entrevista é primeiramente uma conversa efetivada por iniciativa do entrevistador, realizada entre duas pessoas, ou mesmo entre vários interlocutores, tendo como objetivo a construção de informações relacionadas com um objeto de pesquisa. Consequentemente, a entrevista visa compreender o papel exercido por Nivalson Miranda a partir do discurso de pessoas próximas ao mesmo, contribuindo, desta forma, para o construto de seu papel nos locais em que ele vivia.

Ressaltamos ainda que a técnica utilizada foi a entrevista livre por se tratar de uma entrevista com maior flexibilidade, uma vez que é construída com base na lembrança do entrevistado. É oportuno destacar que este tipo de entrevista requer do pesquisador certa maturidade para não perder de vista o foco a ser atingido.

Dessa forma, no caminho percorrido para desvendar, por meio da escrita de si, Nivalson Miranda, tornou-se imprescindível uma análise minuciosa de seu arquivo, como do auxílio da história oral presente nas falas dos que o conheceram e conviveram com sua vontade de ir além e pesquisar o novo.

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indispensável, compreender seu entorno, ou seja, sua família, seus amigos, profissão, arquivo privado, biblioteca pessoal, produção artística e obras de arte. Exercendo suas identidades, ele percorreu períodos históricos e vários contextos sociais.

Diante desse contexto, o trabalho foi dividido em seis capítulos. O primeiro de caráter introdutório. O segundo capítulo intitulado “LEGADO EM TRÊS DIMENSÕES” versa acerca de questões sobre o acervo de Nivalson Miranda e apresenta questões teóricas sobre o arquivo privado pessoal, memória e escrita de si.

O terceiro capítulo que tem por título “AS MARCAS DO TEMPO: legado e vida de Nivalson Miranda” aborda a vida do artista plástico, buscando apresentar os sobrenomes Fernandes e Miranda, bem como sua formação escolar que, aos poucos, se misturam com o gosto pela arte, vida e patrimônio e o torna autoditada.

O quarto capítulo intitulado “PINTOR COM ALMA DE POETA: trajetória social e cultural” destaca o legado de Nivalson Miranda em suas várias identidades, pois exercia ao mesmo tempo inúmeros papéis sociais, como esposo, pai, professor, pesquisador, artista plástico, cidadão, etc. Desse modo, o título do capítulo leva em consideração o fato de Nivalson Miranda se enveredar por múltiplos caminhos a exemplo de poeta e documentarista, tecendo ele próprio as rimas e métricas do poema de vida no qual buscava.

Na quinta parte, “NIVALSON MIRANDA: tracejando arte e vida a bico de pena”, nos propomos a apresentar a arte de Nivalson Miranda que, por sua vez, utilizava várias técnicas para desenvolver seu trabalho, tais como: pinturas a bico de pena, aquarela queimada, cerâmica vitrificada, xilogravura, madeira e linóleo.

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Desenho 1: Prece

Fonte: Acervo de Nivalson Miranda Autoria: Nivalson Miranda

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2

LEGADO EM TRÊS DIMENSÕES

Da mesma maneira que a personalidade de um indivíduo não reside em seu nome e no lugar em que vive, essa personalidade do documento não se reduz a ter uma etiqueta e encontrar-se em um lugar determinado, questões que podem ser resultado de uma ação técnica, irreflexiva, repetitiva e empírica; senão está em estruturas mais profundas, produto de uma atividade intelectual, teórica e criativa

(RENDÓN ROJAS, 1999, p. 35, tradução nossa).

___________________________________

Uma palavra tem o poder de produzir significados, sentidos e conhecimento, dependendo de como é empregada, do contexto em que for inserida e até mesmo da noção prévia de quem a utiliza. Desta forma, uma palavra pode fazer sentido para uma pessoa e para outra, não fazer sentido algum, consequentemente não produzindo nenhuma relevância para o indivíduo. Assim sendo, a despeito da análise de uma palavra, Capurro (2007, p. 155) esclarece:

O estudo da história de uma palavra, da sua etimologia, não está relacionado, como a própria palavra etimologia à primeira vista sugere, com seu verdadeiro significado (do grego, étymon) que, aparentemente, pode ser à base de sua formação e de seu uso; mas, em vez disso, com a inter-relação de seus diferentes usos (particularmente sua tradução em outras línguas e contextos), inclusive suas metáforas e metonímias.

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De tal modo, entendemos que a informação para fazer sentido, ela deve gerar conhecimento e fazer a diferença no contexto em que estiver inserida, pois de que adianta uma informação se ela não proporciona mudanças para o indivíduo e para a comunidade a qual faz parte. A informação tem sido pesquisada e analisada por áreas do conhecimento, as quais visam à resolução de problemas informacionais enfrentados por várias camadas sociais.

Consequentemente, os indivíduos buscam a informação para responder às suas necessidades e inquietações. Portanto, partindo do fato de que a informação é um evento social, ou seja, um fenômeno social, produzimos o (Esquema 1) apresentando a informação e suas ligações com o indivíduo, tomando como base aula expositiva da disciplina ‘informação e patrimônio’ ministrada pelo professor Dr.

Carlos Xavier de Azevedo Netto.

Esquema 1: A informação

Fonte: Adaptado de Azevedo Netto (2013).

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materialidade da informação não está apenas no seu registro, mas no efeito que ela motiva nos sentidos humanos. Assim, a informação acaba sendo registrada na estrutura de conhecimento de cada indivíduo.

Esquema 2: O que é a materialidade da Informação?

Fonte: Adaptado de Azevedo Netto (2013).

Neste sentido, estando a informação atrelada de forma direta ao homem, sua materialidade poderá ser registrada na estrutura de conhecimento de cada pessoa e, assim, vinculada à produção documental dos indivíduos, pois à medida que eles refletem acerca desse fenômeno social que é a informação, geram documentos que lhes possibilitem existirem enquanto atores sociais e como produtores culturais. Destarte, temos nesse percurso os arquivos privados, nos quais preservam a identidade individual ou coletiva, considerando que cada indivíduo é capaz de integrar várias identidades, ou seja, ele tem a possibilidade de dialogar e, ao mesmo tempo, interagir com seus outros ‘eus’, sem perder a noção de si mesmo.

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Destarte, a respeito da noção de arquivo privado, Santos (1999, p. 33) afirma que a formação desse arquivo é materializada ao passo que o produtor agrupa “documentos resultantes de conjuntos de atos, em concordância com o seu modo de vida. Ele agrupa os itens documentais, dispondo-os próximos ou distantes. Segundo uma necessidade presumida ou a constância dos acontecimentos”.

Ainda nesse sentido, Moura e Garcia (1998, p. 175) esclarecem:

[...] embora a formação de arquivos de pessoas singulares e de famílias remonte a épocas muito recuadas, a noção de "arquivo privado" demorou a ser acolhida pela doutrina e pela legislação, porque os conjuntos documentais de entes privados não eram qualificados como "arquivos". Apenas os atos públicos podiam fazer parte do "arquivo", que era considerado, por essa razão, arquivo público. Esta concepção prevaleceu durante muitos séculos.

Assim, a epígrafe introdutória deste capítulo nos instiga a trilhar as veredas do arquivo pessoal de Nivalson Miranda com vistas a desvendar quem ele foi, enquanto ser humano, intelectual e artista plástico. Portanto, sendo o acervo do artista repleto de documentos inexplorados, teremos os mesmos como base para responder quem foi esse artista, historiador, pintor do patrimônio, da história e da vida. Assim, para Santos (1999, p. 33), “o sentido monumental e histórico do arquivo privado se encontra presente no próprio ato intencional de acumular documentos”.

“O termo latino documentum, deriva de docere, “ensinar”, evoluiu para o

significado de “prova” e é amplamente usado no vocabulário legislativo” (LE GOFF, 2003, p. 526). Todavia, Cruz Mundet (2001, tradução nossa) pontua ser este um significado pouco preciso e prontamente elenca três elementos que caracterizam o documento: o suporte, a informação e o registro.

O suporte que confere corporeidade física, e pode ser desde tábuas de barro até um disco óptico.

A informação, quer dizer a notícia que transmite.

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Suellen Barbosa Galdino 32

Os documentos são compreendidos, em sua maioria, como sendo um conjunto de informações em suporte tradicional ou digitais e eletrônicos, refletindo as atividades do órgão produtor. Entretanto, Bellotto (2014, p. 38) avança sobre a concepção conceitual de documento ao afirmar que o documento pode ser:

Qualquer elemento gráfico, iconográfico, plástico ou fônico pelo qual o homem se expressa. É o livro, o artigo de revista ou jornal, o relatório, o processo, o dossiê, a correspondência, a legislação, a estampa, a tela, a escultura, a fotografia, o filme, o disco, a fita magnética, o objeto utilitário, enfim, tudo o que seja produzido por razões funcionais, jurídicas, científicas, culturais ou artísticas pela atividade humana (BELLOTTO, 2014, p. 38).

Todavia, é pertinente refletir sobre a informação não apenas atrelando-a ao suporte. Deste modo, referente à informação na arquivologia, Fonseca (2005, p. 10) destaca que ela não tem sido considerada como objeto privilegiado, surgindo na literatura da área como consequência do documento de arquivo. Essa ainda é uma visão custodial da arquivística, na qual o documento é mais importante se comparado com a informação e o conhecimento. É um pensamento restrito, no qual se preocupa unicamente com o documento físico, com sua guarda e com sua gestão.

Por conseguinte, Lousada e Almeida Júnior (2012) destacam a existência atual de duas escolas fundamentais, constituintes do pensamento arquivístico moderno, sendo a primeira escola denominada como custodial ou tradicional e a segunda como pós-custodial ou pós-moderna. A escola custodial é fundamentada, primeiramente, na noção dos arquivos como fonte de pesquisa para a História, fato que entusiasmou sua ampliação, pois os arquivos históricos tornaram-se a dimensão mais importante e visível para a área e para a sociedade, o que ocasionou forte influência no plano teórico e prático. Consequentemente, Silva e Ribeiro (2011, p. 160-161) asseguram:

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Já a segunda escola é considerada por alguns estudiosos como Pós-moderna e identificada por Arquivologia Pós-moderna ou Arquivística Pós-custodial, proveniente, sobretudo, do trabalho de pesquisadores canadenses. Segundo Lousada e Almeida Júnior (2012), é composta por três abordagens de estudo:

Arquivística Integrada – Origina-se em 1980 no Canadá Francês com o

objetivo de reintegrar o archivists e os records manager, por meio de uma visão global do ciclo de vida documental;

Arquivística Funcional - Nasce no Canadá Inglês em 1987. Suas origens são

baseadas na identificação de um novo paradigma enunciado primeiramente por Taylor e aprofundado posteriormente nos estudos de Terry Cook;

 Diplomática Contemporânea - Suas bases surgem nos estudos de Paola Carucci (1987), na Itália e, em seguida, aprofundada no Canadá por Luciana Duranti.

De acordo com Mariz (2012, p. 19), “a evolução tecnológica é um fator que teve impacto significativo em vários aspectos da “vida” dos arquivos, como, por exemplo, a mudança de ênfase do suporte dos documentos para o conteúdo e a informação neles contida”. Assim sendo, compreendemos que na perspectiva pós-custodial, o foco é a informação e não apenas o suporte.

Deste modo, apreendemos que o documento tridimensional pode ser material de arquivo, possuindo esse, organicidade. “[...] é o contexto orgânico de produção dos documentos que lhes dá significado próprio que não pode ser deixado de lado” (DUARTE; FARIAS, 2005, p. 54).

Nessa mesma perspectiva, Rondinelli (2011) certifica que os documentos vão além dos textuais e, em suporte de papel, são também imagens e sons, em meio convencional e eletrônico. “No que diz respeito a objetos, referem-se a coisas que vão além de dados, textos e documentos vistos acima. Trata-se aqui de incluir peças museológicas, arquitetônicas e muitas outras [...]” (RONDINELLI, 2011, p. 39).

Consequentemente, Buckland (1991, p. 354, tradução nossa) discute o que vem a ser um documento, fazendo a seguinte observação:

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diagrama é um documento. Um mapa é um documento. Se um mapa é um documento, por que não um mapa de contorno tridimensional também ser um documento? Por que não um globo também ser considerado um documento, uma vez que é, afinal, uma descrição física de alguma coisa?

Destarte, o conceito de documento não está pautado em um texto escrito, ou mesmo no suporte no qual a informação é ancorada. O que irá dizer se algo é um documento é, primeiramente, a informação ali impregnada, onde está inserida e como será interpretada.

Poderíamos dividir objetos em artefatos destinados a constituir discurso (como livros), artefatos que não foram assim destinados (como navios), e objetos que não são artefatos em tudo (como antílopes). Nada disso impede qualquer um deles de ser evidência, de ser informativo sobre uma coisa ou outra. Também não impede as pessoas de fazer uso diferente do que pode ter sido planejado. Um livro pode ser tratado como um batente. Letras iniciais iluminadas em manuscritos medievais tinham a intenção de ser decorativo, mas tornaram-se uma importante fonte de informações sobre o vestido medieval e implementos (BUCKLAND, 1991, p. 355, tradução nossa).

Portanto, amparamo-nos nessa citação para considerar o arquivo de Nivalson Miranda, como conjunto de documentos, tendo em vista que tudo que ali está evidencia e informa a existência de um homem, produzindo arte a fim de constituir um discurso, o discurso da arte como meio de preservação da memória cultural e histórica de modo singular da Paraíba. Seguindo este pensamento, Herrera (1991, p. 121, tradução nossa) pontua:

Documento em um sentido muito amplo e genérico é todo registro de informação independentemente de seu suporte físico. Abarca tudo o que pode transmitir o conhecimento humano: livros, revistas, fotografias, filmes, microfilmes [...], mapas [...], fitas gravadas, discos, partituras [...], selos, medalhas, quadros [...] e de maneira geral tudo o que tenha um caráter representativo nas três dimensões e que esteja submetido à intervenção de uma inteligência ordenadora.

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Suellen Barbosa Galdino 35

1. É uma objetivação (materialização) do pensamento e em qualquer suporte; 2. É criado direta e conscientemente para conduzir para o mundo da

informação e, com isso, desmaterializar o pensamento;

3. Tem a capacidade de conservar a memória social, por ter uma função comunicativa social;

4. Serve como instrução para orientação do projeto social humano; 5. Possui uma sintaxe reconhecível, com forma lógica;

6. Serve de autoconhecimento do ser humano;

7. Só chega a ser documento biblioteconômico (informacional), quando manejado e tratado como tal.

A respeito da última propriedade, Rendón Rojas (1999, tradução nossa) ressalta que a existência do documento se deve não apenas ao autor ter como objetivo obter a informação ideal e nem a outros fatores que ajudam ou podem ajudar a essa objetivação, mas também ao cientista da informação que trabalha com essa informação para colocá-la dentro de um sistema de informação documental. Ou seja, a ação do cientista da informação produz um sentido diferente para o documento inicial, pelo fato de inseri-lo em um contexto específico que outrora não tinha.

Para o autor, a personalidade do documento não se reduz a ter uma etiqueta e encontrar-se em um lugar determinado, mas a está em estruturas mais profundas, produto de uma atividade intelectual, teórica e criativa, necessitando assim de uma investigação teórica minuciosa. Todavia, é preciso refletir que o documento, independente do tratamento documental, ao ser produzido em decorrência das atividades e funções de seu produtor, ele já é documento de arquivo. Mas, o tratamento e a organização dados a esse documento, oferecem a ele condições de manuseio adequado e sua preservação ou eliminação.

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Suellen Barbosa Galdino 36

especial, referem-se a todos os documentos produzidos e/ou recebidos por Nivalson Miranda, especialmente, as obras de arte.

O acervo de um arquivo se origina por meio de uma gama infinitamente diversa, partindo desde uma tabuleta assíria até provas-objeto de um processo judiciário, oriundos de atividade funcional ou intelectual de instituições ou de pessoas, produzidos no decurso de suas funções (BELLOTTO, 2014).

Assim, a forma pela qual o documento é criado determina seu uso e destino final, seja para eliminação ou para a guarda permanente. É a razão de sua origem e emprego, e não o suporte sobre o qual está constituído, o que vai determinar sua condição de documento de arquivo ou de biblioteca (BELLOTTO, 2014). Consequentemente, Camargo (1998, p. 170) assegura:

Ao contrário do bibliográfico, o documento arquivístico não dispõe de autonomia, nem prescinde da relação que mantém com seu contexto de origem. Para além do suporte, do formato e do conteúdo, passíveis da modalidade de identificação típica da biblioteconomia, importa conhecer o vínculo orgânico entre o documento e a ação que nele se materializa a título de prova ou evidência.

Destarte, todo o acervo documental de Nivalson Miranda é tratado como

sendo documento de arquivo, tendo em vista o fato de toda documentação

acumulada pelo artista ter uma vinculação orgânica com o seu produtor. “O esforço

para produzir o entendimento literal de seu conteúdo transforma- se, assim, num

elemento essencial para definir o documento de arquivo, qualquer que seja a

entidade que lhe deu origem” (CAMARGO, 1998, p. 172).

O documento de arquivo não pode ser confundido com qualquer documento

produzido para determinada função, tendo em vista que ele irá refletir a instituição

ou indivíduo que o produziu, sendo o testemunho inconfundível da vida de

instituições públicas ou privadas ou de pessoas físicas. Do mesmo modo, Bellotto

(2014, p. 307) esclarece:

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Suellen Barbosa Galdino 37

privada, no decorrer da sua existência. Arquivos são capazes de demonstrar como decorrem – e decorrem – as relações administrativas, políticas e sociais por elas mantidas, tanto no âmbito interno como no externo, seja com outras entidades de seu mesmo nível, ou com as que lhes são, hierarquicamente, superiores ou inferiores.

De tal modo, Bellotto (2014, p. 300) examina quais são as características que

identificam por si a informação/documento arquivístico em relação a outras

configurações documentais, chegando ao seguinte entendimento: “Os princípios básicos da arquivística são suficientes para demonstrar o quadro daquelas características: o da organicidade, o da proveniência, o da unicidade, o de indivisibilidade ou integridade, o das três idades ou do ciclo vital documentos e o da

cumulatividade”. No caso do acervo do artista plástico Nivalson Miranda,

explicitamos que cada documento, desde os escritos e rascunhos até os desenhos

finais, possui uma ligação e juntos apresentam seu produtor.

De acordo com Bellotto (2014), o documento de arquivo se distingue de outras categorias documentais, pois sua criação é contínua, orgânica, única e seriada e, sua validade existencial estar amarrada à coletividade da qual faz parte. Concomitantemente, na identificação dos documentos de arquivo, a autora ressalta também princípios que os demarcam de forma clara e definitiva em relação a outras classes de documentos:

1. Unicidade – sua forma de aparecimento e de utilização primária;

2. Organicidade – sua condição no tempo e no espaço, sempre em decorrência das atividades administrativas que se repetem;

3. Indivisibilidade – sua especificidade de atuação.

Portanto, pontuamos a visão da referenciada autora, acerca dos arquivos pessoais, em que ela considerando os mesmos como interdisciplinares por excelência

e afirma: “os arquivos pessoais não tinham merecido, até duas ou três décadas atrás,

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Suellen Barbosa Galdino 38

Sendo o arquivo de Nivalson Miranda resultado de suas escolhas, podemos observar que ele é produto do seu cotidiano bem como de suas relações. Dessa forma, Le Goff (2003, p. 535-536) esclarece:

Os materiais da memória guardados nos arquivos são resultantes de escolhas, de um processo de seleção. O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder.

Essa seleção ocorre naturalmente, sendo cada documento único e insubstituível. “Um arquivo é composto de fragmentos de memória, retalhos reunidos para compor a imagem que se pretende eternizar” (ASSIS, 2009, p. 130). De tal modo é o legado deixado por Nivalson Miranda, composto por retalhos tridimensionais. “O titular do arquivo pessoal deixou um legado e este legado pode ser compreendido e extraído a partir dos seus documentos” (TOGNOLI; BARROS,

2011, p. 77).

O legado do professor e artista Nivalson agrupa, em seus documentos, a sua vida, obra e guarda particularidades que o torna único. Conforme Assis (2009), os arquivos congregam testemunhos da memória individual ou coletiva transformados em documentos. Assim, algumas pessoas arquivam seus documentos/pertences por sentir a necessidade de preservar os rastros de suas atividades. Portanto, o ato de se lembrar de si é, ao mesmo tempo, se lembrar do outro e com o outro.

Em sentido bastante amplo, qualquer registro da experiência humana pode ser entendido como um arquivo – das pinturas rupestres pré-históricas aos bancos de dados da atualidade - na medida em que tais registros são conjuntos de testemunhos e informações sobre essa experiência (ASSIS, 2009, p. 36).

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Um objeto é adquirido e guardado, para ser então ressignificado no momento em que se insere no espaço e no tempo da história de vida individual e também do arquivo. Os objetos do arquivo estão impregnados de memória, para além do uso ordinário que tiveram. Eles falam de lugares, de pessoas e da experiência vivida, enfim, tornam-se documentos (ASSIS, 2009, p. 135).

Na presente pesquisa, os documentos de Nivalson Miranda perpassam seus documentos pessoais e de caráter profissional: são os rascunhos de suas obras, os recortes de jornais, fotografias, as próprias obras de arte e os objetos pessoais que ele utilizava para produzir arte. Isso é justificado pelo fato de as obras terem sido acumuladas no dia a dia da vida do artista plástico, enquanto pesquisador, historiador e documentarista e até mesmo poeta, pois essa era a forma de ele se expressar, por meio dos seus desenhos ou da escrita de versos que retratavam o seu olhar do mundo.

2.1 ARQUIVO PRIVADO PESSOAL

É importante atentarmos para o surgimento da denominação arquivo, com vista a alcançar a concepção do arquivo privado. Deste modo, de acordo com Derrida (2001, p. 12), o sentido de “arquivo” advém do termo grego “arkheîon”, ou seja, “inicialmente uma casa, um domicílio, um endereço, a residência dos magistrados superiores, aqueles que comandavam”.

O referido autor narra que a casa dos cidadãos detinha o poder de representar a lei onde se depositavam os “documentos oficiais”; esses cidadãos eram chamados

de “arcontes” - guardiões dos documentos oficiais. Os arcontes, além de serem

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Suellen Barbosa Galdino 40

A respeito dos arquivos privados, a Lei de arquivo nº 8.159, dispondo sobre a política de arquivos públicos e privados, considera em seu art. 11 “conjuntos de documentos produzidos ou recebidos por pessoas físicas ou jurídicas, em decorrência de suas atividades” e ainda, nos artigos 13 a 15, considera os arquivos privados

versus o poder público, observando os mesmos como de interesse público e social. Segundo Bellotto (2006), o documento privado é todo aquele que não é público, sendo ele emanado por pessoa física ou jurídica de direito privado. Para tanto, a autora observa ser importante a distinção existente entre os arquivos originados por instituições não governamentais e os originados por famílias ou indivíduos, implicando apreciar os arquivos econômicos, sociais e pessoais.

Por conseguinte, em conformidade com a referida autora, entendemos arquivos econômicos como os documentos produzidos por empresas comerciais, industriais, financeiras ou de serviço, sendo elas pequenas ou grandes. Logo, em relação aos arquivos sociais, eles podem ser: religiosos, notariais, de movimentos e entidades políticas, instituições educacionais privadas, esportivas, beneficentes e culturais. Os arquivos pessoais estão relacionados à vida, obra e atividades de uma pessoa.

Nesse sentido, destacamos o fato de o arquivo de Nivalson Miranda ser considerado um arquivo privado e pessoal, pois se trata de documentação gerada por uma pessoa física, relacionada à vida, à obra e às atividades do pai de família, professor, artista plástico e pesquisador. Assim, no decorrer desta pesquisa, sempre que nos referirmos ao acervo de Nivalson Miranda, entendemo-lo como arquivo privado pessoal.

Prontamente, Bellotto (2006, p. 257) destaca também, a caracterização técnica dos arquivos privados, elencando para tanto quatro pontos e, ressaltando tratar-se essencialmente de arquivos de caráter permanentes:

Origem por razões funcionais, administrativas, profissionais ou pessoais dentro das atividades de instituições não governamentais ou pessoas físicas;

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Suellen Barbosa Galdino 41

Conjuntos orgânicos de documentos ordenados em seções, séries e subséries, processos e dossiês. O fluxo e a organicidade são inerentes ao funcionamento e às atividades da instituição ou à vida pessoal e profissional do titular do arquivo;

Término dos prazos de utilização primária, ligada a cada uma das razões estipuladas no primeiro item. Os prazos devem ser normalizados por comissões constituídas pelas entidades produtoras de arquivo. No caso dos arquivos pessoais, o uso pela pesquisa se dá, em geral, após a morte do titular, passando a documentação a uma entidade pública ou privada ou, ainda, permanecendo em poder da família, que poderá autorizar o acesso. Em ambos os casos, devem ser previstos contratos e acordos com os herdeiros quanto a restrições parciais, publicações futuras, etc.

Com relação à documentação permanente de Nivalson Miranda, essa é originada de suas atividades funcionais, administrativas, profissionais, pessoais e também enquanto artista plástico e pesquisador. A respeito da utilização do acervo do artista, para pesquisas de cunho científico, ressaltamos que o mesmo encontra-se sob a responsabilidade da família, que neste caso, nos autorizou o acesso sem qualquer restrição, após a sua morte.

De tal modo, em acordo com Bellotto (2006), o arquivo pessoal é constituído por documentos produzidos ou recebidos por uma pessoa física e que, preservados até mesmo após a morte dessa pessoa, formam seu testemunho, como um conjunto orgânico, podendo ser aberto para pesquisa. Neste sentido, a referida autora define arquivo pessoal como sendo um,

Conjunto de papéis e material audiovisual ou iconográfico resultante da vida e da obra/atividade de estadistas, políticos, administradores, líderes de categorias profissionais, cientistas, escritores, artistas etc. Enfim, pessoas cuja maneira de pensar, agir, atuar e viver possam ter algum interesse para as pesquisas nas respectivas áreas onde desenvolvem suas atividades; ou ainda, pessoas detentoras de informações inéditas em seus documentos, que se divulgadas na comunidade científica e na sociedade civil, trarão fatos novos para as ciências, a arte e a sociedade (BELLOTTO, 2006, p. 266).

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Suellen Barbosa Galdino 42

seu acervo inédito, capaz de produzir conhecimento para a sociedade. Já em outro momento, Bellotto (2014) argumenta que o campo estimulante dos arquivos pessoais gera curiosidade, interesse, indagação e até mesmo um certo voyeurismo6, pois é

próprio do ser humano no que concerne ao ato de penetrar mais que o permitido na intimidade do seu semelhante.

Conforme expõe Prochasson (1998, p. 105), “foi há cerca de 20 anos que os historiadores franceses se voltaram com uma espécie de gula irreprimível para aquilo que convém chamar de fontes privadas”. Os arquivos privados sempre existiram pelo fato de o homem ser direcionado a acumular seus registros, inicialmente para reconhecimento enquanto cidadão, depois para reconhecimentos de si, através dos recortes da memória: fotografias, cartas, diários, primeiros escritos dos filhos, o livro de receitas da avó, etc.

Para Santos (1999, p. 79), “o homem que opta por um arquivo particular, acumula documentos que têm relação com suas atividades, cotidianidade, moda e costume no decurso de sua vida”. Guarda além de documentos, memórias vivas do ontem que não voltam mais, mas que pode ser recordado em meio ao acervo acumulado. Assim, o referido autor observa ser o arquivo, lugar onde se preserva o “eu” para as necessidades do produtor e mesmo de outros interessados.

O arquivo passa a ser espaço livre, tanto para os manuscritos autógrafos, quanto para os documentos produzidos a partir de atividades públicas e privadas. Eles são convenientemente reunidos a serviço do titular, pelo prazer de guardar a própria representação de seus valores, estendendo-se posteriormente à leitura e aos interesses de outrem (DUARTE; FARIAS, 2005, p. 52).

Duarte e Farias (2005) entendem que a constituição de um arquivo privado é consolidada no momento em que o titular reúne documentos resultantes de um conjunto de atos, efeito do seu cotidiano. Deste modo, ajunta os documentos de acordo com sua necessidade, ou assiduidade dos fatos. Por este fim, Oliveira (2009, p. 46) assegura que “os arquivos privados pessoais revelam-se, portanto, como a

6 Desordem sexual que consiste na observação de uma pessoa em situações íntimas sem que

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Suellen Barbosa Galdino 43

própria consistência do sujeito, o lugar onde guarda aquilo que lhe é de foro íntimo, tendo nele um sentido pessoal, próprio”.

Diante do exposto, Vogas (2011) destaca o fato de os arquivos pessoais nascerem a partir de uma acumulação natural de papéis advindos de atividades, necessidades práticas e legais, vida pessoal e demais interesses de um indivíduo, sendo assim preservados por múltiplos motivos. “É em torno do produtor que a

documentação orbita. [...] O ordenamento dado aos papéis, bem como a seleção desses de um universo específico de documentos que tenha passado por suas mãos, variam de pessoa para pessoa” (VOGAS, 2011, p. 35).

Neste sentido, um acervo surge diante da necessidade de cada produtor, sendo essa acumulação natural ou mesmo intencional. Desse modo, Assis (2009, p. 51) entende que a intencionalidade é uma característica comum nos arquivos de caráter pessoal.

Paralelamente à intencionalidade, também caracteriza o arquivo pessoal à questão da intimidade. Um arquivo deste tipo é constituído de documentos que não representam apenas as funções públicas do produtor: entram ali documentos que expressam sua visão de mundo, sua vida sentimental, seus hábitos, suas condições financeiras. Juízos de valor, preconceitos, opiniões pessoais sobre diversos assuntos ou sobre outras pessoas, além de outros aspectos reveladores da personalidade do produtor de arquivos e daqueles com quem ele se relacionava através, por exemplo, da correspondência, podem ser identificados no conjunto de documentos. Por isso, ter acesso ao arquivo pessoal é também, em muitos casos, ter acesso à vida íntima (ASSIS, 2009, p. 51).

O arquivo pessoal de Nivalson Miranda é o resultado de sua vida e de sua arte, o legado de uma existência para preservação de uma história. A maneira como o artista plástico observava o mundo através do seu bico de pena, com suas peculiaridades, proporciona mais que um interesse por pesquisar quem ele foi, e nos conduz ao fascínio de conhecer as histórias entrelaçadas às suas obras e ao patrimônio histórico.

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Suellen Barbosa Galdino 44

diversificados, que vão desde o papel e fotografias, até objetos inusitados que geram indagações a respeito dos motivos de sua preservação.

Seria preciso valorizar particularmente outras categorias de arquivos privados, menos explícitas que as correspondências e os diários íntimos e mais propícias a revelar informações brutas mas pobres de significação: é o caso, me parece, dos dossiês de trabalho, onde se pode ver a matéria-prima de uma obra em vias de elaboração, das cadernetas de anotações ou dos blocos de croquis, das agendas nas quais podem ser percebidas as redes de conhecimentos e as hierarquias relacionais que as animam ( PROCHASSON, 1998, p. 116).

Quando se fala em pesquisas em arquivos privados, percebemos um foco maior nos diários íntimos de personalidades, até mesmo por ser algo que chama atenção e a curiosidade alheia. Isso é evidenciado por Prochasson (1998), o qual destaca os dossiês de trabalho, cadernetas e agendas como outras categorias de arquivos privados capazes de tornar visíveis informações ainda brutas, contudo sem tanta significação para quem vier a lê-los e interpretá-los, pois, muitas vezes em uma agenda, por exemplo, só são assinalados tópicos norteadores da vida do indivíduo em meio a sua rotina acelerada.

No arquivo de Nivalson Miranda, foram localizadas pesquisas e rascunhos das obras que, posteriormente, ele produziu e das que produziria. Talvez, os rascunhos separados das pesquisas realizadas pelo artista plástico e das fotografias produzidas nas pesquisas de campo não nos digam muito ou quase nada sobre o que ele planejava fazer; todavia, os mesmos rascunhos unidos às anotações ou até a um possível diário de campo sejam capazes de (re)construir o seu desejo inicial ao produzir aquele esboço do que seria o desenho de uma ruína histórica.

Imagem

Figura 1 : Brasão da Família Miranda
Figura 2 : Brasão da Família Fernandes
Figura 3 : Estampas do Sabonete Eucalol: Brasões, Bandeira única, Cães
Figura 6 : Capa do Catálogo - "Areia e seu  Entorno"
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