Ritmo e Poesia (Rap): A circularidade da musicalidade
Guimes Rodrigues Filho - Prof. Dr. Instituto de Química /Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UFU
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Circularidade:
“É de fundamental importância entendermos como, de maneira rica de ensinamentos e esperanças, o ato inicial de barbárie foi fundador de civilização. Em sua acepção primeira, o tráfico foi um movimento – uma forma de deportação – de homens e mulheres portadores de ideias, de valores, de saberes, de religiões e de tradições. Foi precisamente esta cultura em movimento que manteve a força da sobrevivência, da resistência, da adaptação e, enfim, do renascimento de indivíduos arrancados à terra dos seus ancestrais. Por sua exclusiva vontade de viver e criar, a violência absoluta que sofreram acabou por produzir reencontros, fecundações e mestiçagens, que, na misteriosa alquimia da constituição de identidades, deram à luz novas e plurais formas de culturas e de identidades.” (disponível on line no site: www.acordacultura, caderno 3 – Modos de Interagir, p. 78)
Musicalidade:
“(…) voltando há milhões de anos, um cuidadoso olhar na História do homem, ao longo de sua existência, nos revela como a música desempenhou um papel único na formação e desenvolvimento da espécie humana, cuja importância é superior à descoberta do fogo, ou à invenção da roda, ou da imprensa. Sim, estamos falando de música e, mais especificamente, de sua matéria-prima: o som. Aqui identificado na sua forma básica de ruído (som sem altura definida), e que contempla sons como urros, grunhidos, palmas, percussão em partes do corpo, entre outros. O som é o ponto de partida dos primeiros habitantes do globo terrestre rumo à formação dos primeiros agrupamentos humanos que, no curso da evolução, irão constituir a nossa
civilização. Para isso, foi necessário que os nossos antepassados organizassem esses ruídos, dando-lhes significado. O desafio era complexo, pois primeiro tinham que ser capazes de produzi-los e, depois, de repeti-los. Para isso, tiveram que desenvolver sua memória, para saber que som significava o quê. Esse fato em si já é um registro da memória dos hominídeos, um marco no desenvolvimento da inteligência dos nossos ancestrais e alicerce para o estabelecimento dos primeiros grupos étnicos, cada qual com sua língua e seus costumes, e que, através de inúmeros processos migratórios ao longo do tempo – nos quais a música é parte integrante das cerimônias religiosas, dos ritos de passagem e das atividades de trabalho – definem posteriormente as bases para a construção dos Estados nacionais modernos.” (disponível on line no site: www.acordacultura, caderno 3 – Modos de Interagir, p. 42).
O presente texto pretende mostrar como os valores civilizatórios afro-brasileiros circularidade e musicalidade circulam pelo mundo através do ritmo e da poesia do rap ( um dos elementos do movimento Hip Hop). Para isso vamos utilizar como referência a linguagem de três grupo , sendo dois brasileiros (Racionais MC e Z’África Brasil) e um porto-riquenho (Calle 13). Dos Racionais utilizaremos o rap Marighela; do Z’África o rap Tem Cor Age; e do Calle 13 o rap LatinoAmerica. Para esses três raps recomendamos assistir aos vídeos no youtube(Racionaishttp://www.youtube.com/wat ch?v=ajrI1FldJ8E;Z’Áfricahttp://www.youtube. com/watch?v=oKcchVdiNfg;Calle13 http://ww w.youtube.com/watch?v=jW9_mFAGO0E). As atividades pedagógicas são voltadas para o Ensino Médio.
Vamos então circular na musicalidade do rap ao redor de alguns países do mundo:
Racionais MC’s Carlos Marighella
A postos para o seu general Mil faces de um homem leal Protetor das multidões
Encarnações de célebres malandros
De cérebros brilhantes Reuniram-se no céu
O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer Tô somado, é o que é, assim foi escrito
O mártir, o mito Um maldito sonhador Bandido da minha cor Um novo messias Se o povo domina ou não Se poucos sabiam ler E eu morrer em vão Leso e louco sem saber
Coisas do Brasil, super-herói, mulato Defensor dos fracos, assaltante nato Ouçam, é foto e é fato a planos cruéis Tramam 30 fariseus contra moisés, morô Reaja ao revés, seja alvo de inveja
Irmão, esquinas revelam a sina de um rebelde, oh meu
Que ousou lutar, amou a raça Honrou a causa que adotou, Aplauso é pra poucos
Revolução no Brasil tem um nome Vejam o homem
Sei que esse era um homem também A imagem e o gesto
Lutar por amor
Indigesto como o sequestro do embaixador
O resto é flor, se tem festa eu vou
Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show
Presta atenção que o sucesso em excesso é cão Que se habilita a lutar, fome grita horrível A todo ouvido insensível que evita escutar Acredita lutar, quanto custa ligar?
Cidade chama vida, que vais por quem ama Clama por socorro, quem ouvirá?
Crianças, velhos e cachorros sem temor Clara meu eterno amor, sara minhas dores Pra não dizer que eu não falei das flores
Da Bahia de São Salvador Brasil Capoeira mata um mata mil, porque Me fez hábil como um cão
Sábio como um monge Antirreflexo de longe Homem complexo sim Confesso que queria Ver Davi matar Golias Nos trevos e cancelas Becos e vielas Guetos e favelas
Quero ver você trocar de igual Subir os degraus, precipício E vida difícil, povo feliz Quem samba fica, Quem não samba, camba
Chegou, salve geral da mansão dos bamba
Não se faz revolução sem um fura na mão Sem justiça não há paz, há escravidão... Revolução no Brasil tem um nome...
A postos para o seu general Mil faces de um homem leal Marighella
Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer Por mim, por você, por ter coragem em dizer
Racionais – Marighela, 2012. (http://centralhiphop.uol.com.br/novochh/arquiv o/9418, visitado em 29/10/2012)
Neste rap os Racionais trazem parte da história do Brasil, especificamente no período do regime militar, e resgatam a importância do movimento de guerrilha na história de luta do povo
brasileiro pela democracia. Carlos Marighela, um afro-brasileiro, se destaca nessa luta. Aqui como atividade pedagógica sugere-se uma pesquisa para se conhecer a biografia de Marighela ao mesmo tempo em que se pode estabelecer um canal de diálogo com a biografia de Mano Brown, um cidadão afro-brasileiro que faz circular pela musicalidade do ritmo e da poesia a denúncia de um Brasil ainda desigual. Aqui, a história do Brasil é revisitada numa espécie de volta ao tempo como nos figurinos da foto de divulgação do CD. É importante também discutir a questão da violência, principalmente no âmbito escolar, e
contextualizar a foto de lançamento do CD dos Racionais assim como as imagens do vídeo. Afinal como cantam os membros do Z’África, no rap Antigamente Quilombo hoje Periferia) se
na favela não tem fábricas de armas quem é que abastece isso aqui?
Pesquisas em jornais, revistas e na internet irão possibilitar fazer um mapeamento, por exemplo, em linguagem matemática sobre os índices de violência casados com os quesitos de cor/raça. E a história do rap também pode ser estudada no contexto da pesquisa, entrelaçando as periferias mundiais.
Z’África Brasil Tem Cor Age
O que importa é a cor E quem tem cor age Tem cor age
De mudar o rumo da história Cor age
Pra transformar cada dia em vitórias É o canto da sabedoria
O ataque reage agora, reage! Tem cor age capoeira de maloca Do fundo do coração
prolifero ideias Centuplicando o pão
a cada passo de uma centopéia Faço barulho
Amenizo tensão Hoje é o futuro Vivo respiro mundão Mas atenção Tem cor age
De fazer um corre de sul a norte Eliminar as estatísticas
Vencer a morte Tem cor age
Na humildade, irmão Tire essa arma das mãos Jogue essa arma no chão O inimigo é outro Não seja o espelho
Uma doença contagiosa irreversível Alastrando o medo
A covardia é justiça no paraíso da maldade Na verdade, vencer é pra quem tem cor age Tem cor age Jão
Tem cor age irmão Tem cor age
Tem cor age
De quebrar as algemas? Quero ver. Tem cor age
A humildade traz vantagem pra viver Tem cor age
Na caminhada a fé vem fortalecer
Tem cor age Jão Tem cor age irmão Tem cor age
Falta cor? Não, falta cor age Falta rap?
Não, falta reportagem Tem que ter cor age Pra cobrar a bronca
Tem que ter talento e ser ligeiro pra colar com a banca
Dos guerreiros organizados Diz o aviso luminoso Cor age é pra cabra-macho Mas acho
que o ventre da mulher Terra supera Cor age pra gerar herdeiros Frutos dessa eterna guerra Irmãos, cor age
Quem dará continuidade?
Matrix, vida padrão, capital, sociedade Cor age pra lutar com os dragão Nadar com os tubarão
Pulverizar tamanduá Afastar escorpião
Então, que rufem os tambores da verdade É mais que um desafio
É mais que um combate Salve a sagacidade, O poder da humanidade
Gente de fibra não foge da briga Porque tem cor age
Tem cor age Jão Tem cor age irmão Tem cor age Tem que ter cor age Pra construir um castelo Cor age pra coçar um parabelo Pisar no verde e amarelo Do genocídio
Cor age pra trampar Cor age pra criar um filho
Cor age pra ultrapassar as barreiras do impossível
Cor age é tudo Ter cor age é meu hino É o sambista versando É o ladrão no pânico É o gavião voando Cor age é o b boy girando Microfone é o portal Da hinfo-percepção
É da rua ao repeteco, universo, rimação É o som
Cor age irmão
Transmita seus pensamentos interage? Jão
transforme os acontecimentos da vida que aflora a energia meteórica favela exótica
resistência quilombola Eu adianto
É a missão malandragem
pra você que faz um mat facing no quintal
Tem cor age Jão Tem cor age irmão Tem cor age
O que importa é a cor E quem tem cor age
Z’África Brasil – Tem Cor Age, 2006 (http://frontlinesound.blogspot.com.br/2010/05/ zafrica-brasil-tem-cor-age-2006.html, visitado em 29/10/2012).
Nesse ritmo e poesia do Z’África é possível trazer a questão quilombola para a sala de aula e uma visita a um território quilombola irá possibilitar a troca de saberes e fazeres e envolver-se como prática de cidadania na luta atual de várias comunidades pela titulação da terra. Afinal a lei 601 de 1850 no seu artigo primeiro proibia a aquisição de terras devolutas por outro título que não fosse o de compra e os escravizados desse modo ficaram impedidos do acesso à terra, criando-se posteriormente os grandes centros de moradias, que costumamos chamar de favelas, que aliás são espécies de moradias encontradas na maior parte dos países chamados de terceiro mundo e dos emergentes, nas regiões com a alcunha de periferias. Uma visita aos “sites” da internet da Fundação
Cultural Palmares (www.palmares.gov.br) e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (www.seppir.gov.br) irá possibilitar saber sobre as políticas públicas para a educação quilombola e claro que uma visita ao Estatuto da Igualdade Racial nos dá uma amostra da história de luta dos negros e negras (pretos/as e pardos/as brasileiros/as) pela inclusão na nossa sociedade. No site A Cor da Cultura também tem informações importantes a esse respeito (www.acordacultura.org.br). Assim, palestras sobre Direitos Humanos com o recorte racial serão benvindas nas escolas. Uma história em quadrinhos da vida do Ministro Joaquim Barbosa, nascido em Paracatu-MG, cidade de territórios quilombolas, pode quase fechar o círculo da circularidade. A história do movimento negro brasileiro que culmina com a lei federal das cotas raciais é também um prato cheio para a conscientização sobre as ações afirmativas. A luta pela inclusão precisa que tenhamos cor age para pisarmos no verde amarelo do genocídio como receita o Z’África. Calle 13
LatinoAmerica Soy,
Soy lo que dejaron,
soy toda la sobra de lo que se robaron. Un pueblo escondido en la cima,
mi piel es de cuero por eso aguanta cualquier clima.
Soy una fábrica de humo,
mano de obra campesina para tu consumo Frente de frio en el medio del verano,
el amor en los tiempos del cólera, mi hermano. El sol que nace y el día que muere,
con los mejores atardeceres. Soy el desarrollo en carne viva, un discurso político sin saliva.
Las caras más bonitas que he conocido, soy la fotografía de un desaparecido. Soy la sangre dentro de tus venas, soy un pedazo de tierra que vale la pena. soy una canasta con frijoles ,
soy Maradona contra Inglaterra anotándote dos goles.
Soy lo que sostiene mi bandera,
la espina dorsal del planeta es mi cordillera. Soy lo que me enseño mi padre,
el que no quiere a su patria no quiere a su
madre.
Soy América latina,
un pueblo sin piernas pero que camina.
Tú no puedes comprar al viento. Tú no puedes comprar al sol. Tú no puedes comprar la lluvia. Tú no puedes comprar el calor. Tú no puedes comprar las nubes. Tú no puedes comprar los colores. Tú no puedes comprar mi alegría. Tú no puedes comprar mis dolores.
Tengo los lagos, tengo los ríos.
Tengo mis dientes pa` cuando me sonrío. La nieve que maquilla mis montañas. Tengo el sol que me seca y la lluvia que me baña.
Un desierto embriagado con bellos de un trago de pulque.
Para cantar con los coyotes, todo lo que necesito.
Tengo mis pulmones respirando azul clarito. La altura que sofoca.
Soy las muelas de mi boca mascando coca. El otoño con sus hojas desmalladas. Los versos escritos bajo la noche estrellada. Una viña repleta de uvas.
Un cañaveral bajo el sol en cuba. Soy el mar Caribe que vigila las casitas, Haciendo rituales de agua bendita. El viento que peina mi cabello.
Soy todos los santos que cuelgan de mi cuello. El jugo de mi lucha no es artificial,
Porque el abono de mi tierra es natural.
Tú no puedes comprar al viento. Tú no puedes comprar al sol. Tú no puedes comprar la lluvia. Tú no puedes comprar el calor. Tú no puedes comprar las nubes. Tú no puedes comprar los colores. Tú no puedes comprar mi alegría. Tú no puedes comprar mis dolores.
Você não pode comprar o vento Você não pode comprar o sol Você não pode comprar chuva Você não pode comprar o calor Você não pode comprar as nuvens Você não pode comprar as cores
Você não pode comprar minha felicidade Você não pode comprar minha tristeza
Tú no puedes comprar al sol. Tú no puedes comprar la lluvia. (Vamos dibujando el camino, vamos caminando)
No puedes comprar mi vida. MI TIERRA NO SE VENDE.
Trabajo en bruto pero con orgullo, Aquí se comparte, lo mío es tuyo. Este pueblo no se ahoga con marullos, Y si se derrumba yo lo reconstruyo. Tampoco pestañeo cuando te miro, Para q te acuerdes de mi apellido. La operación cóndor invadiendo mi nido,
¡Perdono pero nunca olvido!
(Vamos caminando) Aquí se respira lucha. (Vamos caminando) Yo canto porque se escucha.
Aquí estamos de pie
¡Que viva Latinoamérica! No puedes comprar mi vida.
Calle 13 – LatinoAmerica, disco de 2010. (http://puertoricoindie.com/wpcontent/uploads/2 011/09/Calle13-Latinoamerica.jpg, visitado em 29/10/2012).
O Calle 13, aliás o que é Calle, pode ser uma pergunta para se entender a língua do outro. O Residente e o Visitante nos brindam com uma bela passagem pela América Latina e a gente pode então mapear quais são as manifestações afro-latinas. Será que o Tango argentino tem o pé na África? Que África ou serão Áfricas ? O que será que é Candombe ? (Atenção! Em caso de dúvida sobre a grafia da palavra, você precisa
estudar a religiosidade dos povos da América Latina).
Vejam só o que o Calle 13 trouxe de multiplicidade de ritmos e línguas na gravação da música LatinoAmerica. Participaram Maria Rita (cantora brasileira), Toto La Momposina (cantora colombiana) e Susana Baca (cantora de ritmos afroperuanos) e a música ganhou o prêmio de Gravação do Ano no Grammy Latino de 2011. Grammy! Oh, My God!, já estamos misturando o espanhol, o inglês e o português através da musicalidade. É isso aí manos e minas, “vamo que vamo aprendê” línguas! E por falar em línguas quantas línguas falam os indígenas brasileiros? Quantas línguas falam os povos africanos? Vamos (re)aprender, entre outras, as histórias que circulam na circularidade da musicalidade do rap 10.639, modificando 11.645 vezes a LDB da Educação Brasileira.