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O problema do portador em raiva

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Academic year: 2017

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0 PROBLEMA DO PORTADOR EM RAIVAl Dr. Moacyr R. Nilsson ’

Sáo revistas algumas referências sôbre o problema do por- tador ern raiva, destacando-se aquelas em que individuos morreram de raiva enquanto os animais mordedores perma- neceram aparentemente sadios. Discutem-se também as limita+es do diagnóstico que contribuiriam para não revelar a existência dos portadores.

Este trabalho não pretende uma revisão, pois conhecemos bem as dificuldades e limitacões de qualquer revisáo. Pretende, isto sim, pela sua importância intrínseca, trazer o problema à discussáo e assim des- pertar aten@0 para as implica@es epi- demiológicas conseqüentes.

Prevenimos ainda que náo trazemos com êste artigo nenhuma contribuicáo pessoal, constituindo ele muito mais uma colecáo de dados sôbre a questáo.

A demonstxacáo da condi@o de portador dos morcegos hematófagos, na qual tiveram papel destacado os veterinários brasileiros Torres & Queiroz Lima (1)) seguidos por Pawan (2) em Trinidad, trouxe prova ine- quívoca da existencia de portadores “sadios” na natureza, e contribuiu para uma verda- deira revolu@io na epizootiologia da raiva. Estes achados keram com que voltasse à tona o velho problema, antes já bastante discutido e controverso. Náo nos deteremos em analisar esta condicáo de morcêgo por- tador, nem citaremos outras referências confirmatórias a êste respeito, inclusive em morcegos náo hematófagos, porque já é fato conhecido e aceito por todos. Deixando de lado, portanto, os morcegos transpor- tamos a questáo para outras espécies ani- mais e principalmente para 0 cáo, esco-

1 Trabalho apresentado ao XI Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil, 9-14 dezembro, 1968.

*Veterinário, Chefe substituto da Seccão de En- zootias do Instituto Biológico da Secretaria da Agri- cultura de São Paulo, Brasil,

lhendo a ordem cronológica para facilidade de exposicáo. Selecionamos para iniciar nossa série um autor que se dedicou intensa- mente ao estudo da raiva e para o qual deu imímeras contribu@es. Referimo-nos a Remlinger (3)) que em 1907 comprovou em cobaia a infecciosidade da saliva de um cáo, cinco dias depois dêste ter-se restabele- cido de uma raiva paralítica. Neste mesmo trabalho e em outro semelhante (4) Rem- linger estabeleceu um paralelo de seu caso com o de Chauveau que descreveu, em 1847, o caso de um menino morto pela raiva pro- vocada por um cáo que permaneceu vivo e aparentemente sadio. Igualmente, todos os casos de cura da raiva em que foram de- monstradas transmissões pela saliva (5-6) no curso da doenca, embora sem evidência de elimma@o após a cura, sáo argumentos que podem favorecer a aceita@0 do por- tador. Entre êstes, Philips e colaboradores

(7) relataram em 1921 casos de recupera@0 da raiva em uma vaca e em 4 cáes, sendo que de um d&Ies retiraram saliva no 9” dia da doenca e inocularam-na em dois coelhos, que contraíram raiva típica comprovada.

Em favor dêstes argumentos há também um trabalho de Forst (8)) que verificou, em 1924, na Checoslováquia, até 6-9 dias de- pois, a virulência da saliva de cáes que sobre- viveram à forma abortiva da raiva.

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mordida na arcada superciliar por um cao ocorrendo com Schoening (17) em trabalho - -

“Saint-Germain”, único exemplar desta raca na regiáo, cáo este que na ocasiáo da morde- dura foi perseguido a tiros. Posteriormente, o animal foi localizado e reconhecido e, como permanecesse sadio, náo foi recomendado o tratamento da senhora, que contraiu raiva e morreu 55 dias após, sem ter sofrido mor- dedura de qualquer outro animal. 0 ani- mal mordedor foi sacrificado dois anos de- pois por causa de urna bronquite crônica e infelizmente sua saliva náo foi examinada em momento algum.

Em urna revisáo bem cuidada, Koch (ll )

em 1930 reportou vários casos de raiva abor- tiva, de sua própria observacáo e de outros, aceitando “ipso Tato” a existencia de por- tadores. Em 1934, na Hungria, Halasz (12) descreveu um caso de cura em bovino, no qual a raiva foi demonstrada pela inoculacáo da saliva em 12 coelhos pela via intramus- cular; comprovou-se a infecciosidade da saliva até 8 dias depois da cura.

Topacio e colaboradores (13), em 1939, nas Filipinas, realizaram urna pesquisa de raiva em 2005 cérebros de cáes aparente- mente normais, 0 que constituiu urna amos- tragem de 26.937 cáes sacrificados. Encon- traram 6 com corpúsculos de Negri, dos quais 3 foram inoculados, mas um só posi- tivo. Starr e colaboradores (14) veriíicaram um caso de recuperacáo em um cáo que, sacrificado um mes após a cura, possuía corpúsculos de Negri no cérebro e vírus no cérebro e nas glândulas salivares.

Em 1941 na China, Yu (15) fez referên- cia a 182 pessoas mordidas por cáes normais, dentre as quais 18 contraíram raiva, sendo que em 5 destas náo houve ferimento. Só conseguimos dêste trabalho um resumo, razáo pela qual náo pudemos saber se os animais que morderam os 18 raivosos eram realmente normais ou se estavam no período de incubacáo, quando ainda náo apresen- tavam sintomas de raiva. Em 1942 Webster (16), em seu livro sobre a raiva, defendeu a idéia da existencia de portador, o mesmo

apresentado no 6” Congresso Científico do Pacífico, referindo-se ambos a casos de re- cuperacáo e de persistencia do vírus no organismo de animais.

Remlinger & Bailly (18) discutiram em 1946 o tema da presenta do virus rábico na saliva de cáes sadios e chamaram atencáo para o dogmatismo existente sobre a letali- dade da raiva, o que faz com que muitos recusem a existencia do portador “sáo”. Ainda neste trabalho, os autores defenderam a hipótese da possibilidade de relacáo entre a presenta do vírus nas glândulas salivares e estado refratário à raiva.

De 1946 foi também o dramático relato de Pérez-González (19)) na Espanha, sobre uma crianca mordida no pescoco pelo cáo de um vizinho; a crianca morreu de raiva típica dois meses mais tarde, pois ñao fôra tratada porque a observa&0 diária do ani- mal náo revelara qualquer anomaha. 0 animal mordeu outro cáo, que contraiu a raiva, morrendo também, náo sem antes ter mordido outro cáo, que também morreu. Um ano após a morte da crianca o cao que a havia mordido ainda estava sadio.

Em 1948, na China, Lieou (20), em um artigo sobre portadores, revelou que o virus inoculado em cáes pela via intracraniana pode desaparecer do cérebro por vários días e depois reaparecer (fenômeno de eclipse). Considerou ainda este autor que, em condi- @es naturais, o vírus pode permanecer la- tente por meses, mesmo anos, no cérebro do homem, manifestando-se especialmente em traumas, frio ou emocões. Suas atima- @es localizaram-se no terreno da hipótese, carecendo de demonstracáo. Adicionalmente, verificou éste autor que a saliva é virulenta 10-l 1 dias antes dos sintomas e que coelhos inoculados pela via intraperitonial podem conter vírus no sangue e permanecer nessas condicóes até 4 meses (período de observa- @io).

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Nihon * 0 PORTADOR EM RAIVA 197

estudo da raiva, com o fito de aplicá-la ao diagnóstico, e veriiicaram em soros de caes, equídeos, bovinos e gatos raivosos um au- mento da globulina alfa 2. Todos os casos positivos à inoculacáo também o foram à eletroforese e apenas dois cáes positivos à eletroforese se mostraran negativos à ino- culacáo. Em 1957, Andral e Sérié (22) prosseguindo com as pesquisas sobre a ele- troforese, confirmaram com maiores dados o valor da prova para o diagnóstico precoce da raiva. Examinaram 423 cáes pela eletro- forese e pelos métodos histológico e bio- lógico, simultaneamente, encontrando urna concordancia em 316 cáes, isto é, 74%, assim distribuídos : 13 1 casos positivos, eletroforese positiva e 185 casos negativos, eletroforese negativa; e tuna discordancia em 107 casos (25%): 105 casos negativos, eletroforese positiva e dois casos positivos, eletroforese negativa. Procurando esclarecer estas discordancias, estabeleceram um plano de estudo em que separaram as seguintes categorias de animais: 1) cáes com eletro- forese positiva, raiva atípica, mas coniir- mada; 2) cáes com eletroforese positiva, sintomatologia clássica, mas que se resta- beleceram; e 3) cáes com eletroforese posi- tiva, mas sem qualquer sintoma. Efetuaram êste estudo com 21 cáes e descreveram as observacóes obtidas com 3 exemplares, cada um deles correspondendo a urna das catego- rias acima. 0 lo caso, correspondente à cate- goria dos animais com eletroforese positiva, raiva atipica e posterior confirmacáo, pode ser assim resumido: 47 dias após ter mor- dido seu dono e 45 dias depois de apresentar urna paralisia do maxilar inferior, espontâ- neamente curada, o cáo adoeceu e morreu em 48 horas com confirmacáo biológica da raiva, tendo o vírus sido isolado de sua saliva 45 dias antes. 0 2” caso referia-se à categoria dos animais com sintomatologia clássica, eletroforese positiva, mas sobrevi- ventes, cuja resumo é 0 seguinte: animal com paralisia típica do maxilar, ocasiáo em que foi retirada saliva. Cinco dias depois foi

observado um retrocesso da paralisia do maxilar, quando nova amostra de saliva foi retirada. Em ambas as ocasióes a eletro- forese foi positiva. A saliva inoculada em animais de laboratório reproduziu nêles a raiva. Finalmente, o 3 ’ caso pertence à categoria dos assintomáticos com aumento das globulinas alfa 2. Tratava-se de animal aparentemente sáo, sem qualquer suspeita, do qual foi retirada saliva e inoculada em varios animais de laboratório, com isola- memo do vírus em camundongos. Referem- se ainda os autores a dados estatísticos pró- prios que indicam haver na Etiópia 35% de cáes errantes, que possuem aumento importante de globulinas alfa 2. Concluíram por todos êstes dados experimentais que na Etiópia a raiva clàssicamente descrita repre- senta urna excecáo, e que os cáes possuem, em grande parte, uma imunidade natural ou uma imunidade adquirida no curso da evo- lucáo da raiva, inaparente ou náo.

Posteriormente, êstes mesmos autores (23) realizaram inquéritos sorológicos em 100 cáes errantes, encontrando 24 positivos à soro-neutralizacáo, com títulos que variavam de 1: 6 até 1: 1000 contra 30 DL,, de vírus. Em um último trabalho, Andral e Sérié (24) relataram o recebimento de urna gata com suspeita de raiva, com paresia dos poste- riores, além de agressividade. Duas cobaias foram deixadas na gaiola com a gata, para serem mordidas. Quinze dias após a chegada, náo apareceram outros sintomas, permane- cendo a paresia estacionária, o que levava a excluir a raiva, urna vez que passara 0 período de observacáo indicado, de 10 dias. Resolver-am, entretanto, conservar o animal mais algum tempo e ele morreu 5 dias de- pois, ou seja 20 dias após a chegada ao laboratório.

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tituem urna demonstra9áo experimental da possível existência de infeccáo rábica ina- parente ou latente. Andrade (25-26) em Sáo Paulo, aplicou a eletroforese em cáes normais e raivosos e concluiu ser ela arma importante no diagnóstico, registrando pelo menos um caso de possível recuperacáo, infelizmente sem isolamento do vírus da saliva.

Broz & Phan-Trinh (27) descreveram em 1961 o caso de urna mulher vietnamita que morreu de raiva atípica, sem sintomas, e fora mordida 60 dias antes por um cáo. Este mesmo animal mordeu em um período de 26 dias 10 pessoas, das quais duas morreram de raiva. Sete dias depois de morder a 10” pessoa o cáo foi sacrificado sem ter revelado qualquer sintoma de raiva. Lamentàvelmente náo foram realizados exames de laboratório do animal.

racáo.

Webster (30) notou a presenta do virus e lesóes características em camundongos re- cuperados de raiva e sacrificados meses de- pois. Isto ocorreu em camundongos inocu- lados com vírus de rua pela via intramuscular e com vírus diluido (1:40 a 1:80).

0 mesmo náo tem sido observado por outros autores em relacáo a camundongos vacinados que se recuperaram. Neste caso estáo os trabalhos de Jelesic e Atanasiu (31) e Constantinesco e colaboradores (32)) que atribuíram o fato da náo recuperacáo do vírus ao fenômeno da auto-neuro-esterili- zacão, estudado antes por Levaditi e colabo- radores (33).

Em 1962, Yurkovsky (28)) analisando os trabalhos dos Institutos Pasteur da Uniáo Soviética, destacou que nas várias repúbli- cas, a partir de 1947, ocorreram 21 casos de raiva em pessoas mordidas por cáes apa- rentemente sadios, sendo o diagnóstico ba- seado principalmente no quadro clínico, mas em 5 de 6 examinados foram encontrados corpúsculos de Negri no cérebro. Exames clínicos dos 21 cáes mordedores, depois da morte dos indivíduos, nada revelaram. Apoiado nestes dados, o autor advertiu ser necessário examinar as glândulas salivares de todo animal que morda alguém, para só dispensar do tratamento os casos com- provadamente negativos.

inoculacáo.

Constantinesco e Birzu (34), em trabalho sobre este mesmo fenômeno concluíram que animais vacinados têm aumentados o período de incuba@0 e a duracáo da doenca e afirmaram que a raiva em organismos par- cialmente imunizados se comporta como outras infeccóes por vírus, isto é, torna-se auto-esterilizável e curável. Johnson (35) também observou que a auto-esterilizacáo pode ocorrer quando a doenca é de longa duracáo. Koprowsky (36) explicou este mesmo fenômeno da seguinte maneira: a invasáo do tecido cerebral suscetível por um vírus provoca um mecanismo de defesa local que destrói o vírus. Entretanto a intensi- dade do processo de defesa pode produzir a substituicáo de neurônios por tecido da microglia e, se os centros vitais sáo destruí- dos, sobrevém a morte do animal, sem isola- mento do virus.

Os fatos descritos até aqui, em animais domésticos, verificados em condicóes naturais ou experimentais, têm induzido vários au- tores a investigar em animais de laboratório fatos semelhantes, com a finalidade de en- contrar urna possível correlacáo.

Em nossas experiencias com camundon- gos, embora reduzidas, nunca conseguimos isolar o vírus nem verificar a presenta de corpúsculos de Negri nos cerebros de ca- mundongos que se recuperaram.

Assim, D’Aunoy (29) verificou em coelho infectado experimentalmente a virulencia da saliva 16 dias depois da inoculacão, con- traindo o animal a raiva, mas com recupe-

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Nilsson - 0 PORTADOR EM RAIVA 199

Infeliiente tôdas estas tentativas de iso- lamento de vírus de animais de laboratório têm sido feitas a partir de cérebro e náo de glândulas salivares, o que daria informa- @es muito mais importantes. Mesmo na- queles casos de recupera@0 em que o virus náo foi depois isolado do cérebro haverá sempre a possibilidade de, em determinada fase anterior, ocorrer elimmacáo do vírus pela saliva. Realizamos algumas tentativas neste sentido mas sempre após a recupe- racáo e náo antes, isto porque náo podíamos prever quais os animais que iriam recu- perar-se. Obtivemos sempre resultados nega- tivos, mas as tentativas foram em pequen0 numero.

A introducáo e o aperfeicoamento da imunofluorescência deverá abrir novas pos- sibilidades para urna intensiíicacáo de pesqui- sas dêste tipo. Resultados, a nosso ver, de importância maior em relacáo ao problema do portador assintomático, comparados com êstes anteriores, foram obtidos por Svet- Moldavskaya (39) na Uniáo Soviética. Este autor inoculou vírus em ratos pela via oral, nasal, ocular e subcutânea, realizando bióp- sias periódicas das glândulas salivares. Em resumo, assinalou Svet-Moldavskaya iso- lamentos de vírus em todos os grupos inoculados pelas varias vias, em períodos que variaram de 5 a 45 dias. Alguns ratos sacrihcados até 70 dias depois da inocula9áo possuíam vírus no cérebro e nas glândulas salivares. Alguns dos vírus reisolados reve- laram em novos ratos, longos períodos de incubacáo. Demonstrou portanto o autor que vírus em pequenas doses e em varias vias podem tornar portadores os ratos ino- culados. Náo podem deixar de ser citadas, pelas implicacóes que obviamente sugerem, as verificacóes de Soave (40-42) sobre períodos de incuba@o longos em cobaias inoculadas, manifestando-se a raiva após %ress” ou administra$io de cortisona. Dos mais importantes também para concluir as referencias a animais de laboratório, é o trabalho de Bell (43)) que inoculou camun-

dongos pela via intraperitonial encontrando casos de recupera@0 com e sem seqüelas. Provas de “challenge” e de soroneutralizacáo serviram para evidenciar os casos de recu- peracáo. Bell concluiu que a recuperacáo na raiva é uma ocorrência comum, repro- duzível e previsível.

Passaremos a ver, ràpidamente, o pro- blema em relacáo aos animais selvagens, outros que náo os morcegos. Bell (44), em trabalho sôbre raiva crônica e portadores, indicou alguns fatos que evidenciam a exis- tencia de portadores. Sáo 6les: 1) isola- mento do vfrus de animais aparentemente normais; 2) encentro de corpúsculos de Negri em animais sacrificados, dos quais o vírus náo foi isolado; 3) presenta de anti- corpas neutralizantes em sôros de animais aparentemente normais; 4) capacidade espe- cífica de neutraliza@0 do tecido cerebral e 5) animais de espécies suscetíveis refratários à inocula@o intra-cerebral.

Wood & Davis (4.5) isolaram vírus de 30 rapôsas em 1,000 capturadas. Villa e cola- boradores (46), na Argentina, isolaram vírus em 2 de 42 rapôsas, aparentemente sás. Santos e Passos (47) isolaram vírus da raiva de uma rapôsa no Nordeste, sem his- tória clfnica. KokIer & Wittman (48), em 105 raposas mortas, encontrar-am 95 nega- tivas, 7 suspeitas (corpúsculos de Negri) e 3 positivas. Recentemente, Johnson (49)) estudando o problema da raiva em animais selvagens, assinalou certas particularidades dos vírus isolados dêstes animais, como tropismo para outros órgáos além do cérebro, principalmente glândulas salivares e mamá- rias, puhnóes e rins, além de urna baixa patogenicidade para camundongos adultos, mesmo inoculados pela via intracutânea. Enfatizou também a utilizacáo da fluores- cencia e de camundongos lactentes para o isolamento dêstes vírus.

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missíveis dos Estados Unidos. Com êstes trabalhos, os autores revelaram alguns fatos importantes, como, por exemplo, a existên- cia de urna substancia inibidora do vírus da raiva (SIR), que pode responder às discre- pâncias muitas vêzes encontradas no diagnós- tico da raiva, entre os métodos utilizados, como inoculacáo, pesquisa de corpúsculos e imunofluorescência. Verificaram também haver urna correlacáo entre a presenta da SIR e de anticorpos neutralizantes. A SIR foi encontrada mais em jaritataca do que em raposa. 0 que permitiu a revelacáo da SIR foi o isolamento do vírus da saliva de 3 jaritatacas durante o curso da raiva, o mesmo náo acontecendo com as glândulas salivares de 2 dêstes animais depois de mor- tos. Esta substancia inibe o vírus mas náo influencia a imunofluorescência. Verificaram ainda êstes autores que raposas infectadas com menores doses excretavam maior quan- tidade de virus na saliva. Períodos de in- cubacáo prolongados também foram obtidos em jaritatacas. Urna jaritataca eliminou grande quantidade de vírus em sua saliva 18 dias antes de morrer. A quantidade de vírus das glândulas salivares quase sempre foi superior à dos cérebros.

Especial atencáo tem sido dedicada por alguns pesquisadores americanos e russos à raiva que ocorre na regiáo ártica, sob várias denominacóes (56, 57). Entre suas particu- laridades, destaca-se a raridade de casos no homem, apesar de bastante difundida entre raposas, lobos, cáes e outras espécies. Cran- del1 (56) assinalou possíveis diferencas anti- gênicas entre amostras dêstes vírus do Artico e outras amostras do vírus da raiva. Rari- dade, quando náo ausencia, de corpúsculos de Negri também tem sido assinalada.

Bel1 (58, 59) tem dado valiosa contribui- @ío para este problema do portador em urna série de trabalhos sobre a raiva abortiva, em que sáo discutidos e analisados vários aspec- tos da questáo. Deu nova vida à técnica da cérebro-neutralizacáo de Kubes & Gallia (601. oue nrouôs nara distinauir animais

vacinados dos que se recuperam da doenca

(61).

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Nilsson - 0 PORTADOR EM RAIVA 201

imunofluorescência. Em fevereiro de 1967, outro caso de raiva após a mordedura de cao aparentemente sadio foi reportado em Jamkhandi. A vítima apresentou sinais de raiva após um mes, morrendo depois, quando o cao ainda permanecia normal, mas o animal náo foi conseguido para estudos. 0 animal de Surandai continuou em obser- vacáo e as retiradas de saliva prosseguiram. De 9/1/66 a 31/8/67, foram examinadas 358 amostras e urna vez sòmente 0 vírus foi isolado, em camundongos lactentes, de saliva colhida em 8/1/67. A fluorescencia de 169 amostras, colhidas de 12/3/67 a 31/8/67, revelou-se positiva em 8 vêzes com 0 isotio- cianato de fluoresceína e 20 vêzes com a Rhodamina B. 200. Todas estas amostras positivas à fluorescencia foram negativas nos testes biológicos.

Relacionaremos a seguir, sucintamente, alguns fatôres limitantes que poderiam ex- plicar as dificuldades encontradas na prática para evidenciar a presenta de portadores.

1. Deficiência dos métodos diagnósticos: a) diferenca de sensibilidade entre camun- dongos adultos e lactentes (67)

b) existência de vírus de baixa patogenici- dade (68)

c) discrepâncias entre corpúsculos e inocu- lacáo (material em más condi@es de con- servacáo)

d) fenômeno da auto-neuro-esterilizacáo

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e) amostras de virus patogênicas pela via intramuscular para cobaias, apatogênicas para camundongos, via intracraniana (69)

f) amostras de vírus negativas à inocula@io e à presenta de corpúsculos de Negri em esfregacos e positivas ao exame histológico (70)

g) na reacáo de imuno-aderência algumas amostras revelaram-se positivas, mas negativas

à inoculacáo e corpúsculos (71)

2. Dificuldades de isolar vírus de morcegos por ocasiáo dos surtos de raiva (percentagem de isolamentos náo condizente com a gravidade do surto) (72)

3. Presenta da substância inibidora do

V~IIIS da raiva em glândulas salivares de ani-

mais selvagens (52, 54)

4. Experiências da India, cáo de Surandai, 13 vêzes em 238 amostras (64)

5. Necessidade de colhk grande número de amostras e de inocular um grande número de animais.

Para concluir gostaríamos de assinalar a verifica@0 por Fernandes e colaboradores (73) de que o vírus da raiva poderá infectar certas células de mamíferos em cultura, propagar-se nestas células infectadas por um prolongado período de tempo, talvez indefinidamente, sem interferir no meca-

nismo da replicacáo celular. Com células endoteliais de coelho, o vírus permaneceu em verdadeira simbiose. Desconhecem-se os locais em que 0 virus se encontra nos organismos animais durante os longos pe- ríodos de incubacáo entre a exposicáo e a doenca. Como o vírus se mantém em tal estado latente também é desconhecido. Talvez seja possível estabelecer um paralelo entre a relacáo endossimbiótica do vírus com a célula endotelial do coelho e sua pro- longada persistencia no organismo animal. Como é rompido este equilíbrio náo se sabe.

A introducáo da técnica de imunofluores- cência e a sua universalizacáo, principal- mente aliada à inoculacao de camundongos lactentes, conforme preconiza a 0Ms (74)) método este já empregado e confirmado por Moron e colaboradores (75), deverá consti- tuir importante subsídio ao desenvolvimento de pesquisas que contribuiráo decisivamente para a solucáo de grande número de proble- mas relacionados à raiva, inclusive o do portador aparentemente sadio.

Resumo

0 problema do portador em raiva vem preocupando há muitos anos os estudiosos do assunto. 0 autor faz urna revisáo sele- cionada de alguns trabalhos relacionados ao problema, destacando aquéles em que pes- soas mordidas por animais de aspecto normal morreram de raiva.

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cia inibidora do vírus da raiva em glândulas melhor a questáo. A observacáo é de suma salivares de animais selvagens, a falta de importância, pois que, urna vez estabelecida periodicidade na eliiinaFão do vírus pela com mais seguranca a freqüência do fenô- saliva e a deficiência dos métodos utilizados meno, poderá contribuir para esclarecer no diagnóstico da raiva, pelo menos antes melhor a epidemiologia da raiva e até mesmo do advento da técnica da imunofluorescên- indicar a modifica@ío do esquema de trata- cia, cuja aplica@o intensa e universal deverá mento das pessoas mordidas por animais dar oportunidades para que se conheca suspeitos. El

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El problema del portador de la rabia (Resumen)

El problema que plantea el portador de la rabia viene preocupando desde hace muchos años a los estudiosos de la materia. El autor lleva a cabo una revisión seleccionada de al- gunos trabajos relativos al problema, desta- cando aquellos en los que individuos mordidos por animales de aspecto normal fallecieron víctimas de la rabia.

También se consideran algunas de las difi- cultades con que se ha tropezado en la deter- minación de posibles portadores naturales, incluyéndose entre las primeras la existencia de sustancia inhibidora del virus de la rabia en las glándulas salivales de animales silvestres, la

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Nilsson - 0 PORTADOR EM RANA 205

The Problem of the Carrier in Rabies (Summury)

Tl-re problem of rabies carriers has been a rabies diagnosis methods, at least those used matter of concern to experts in this disease for before the advent of immunofluorescence, a many years. The author reviews some selected

articles on the subject, particularly those deal- diagnostic method that should be intensilied ing with persons who died of rabies from bites throughout the world in order to throw more inflicted by animals of normal appearance. light on the subject. Observation is considered There is also mention of some of the difficul- extremely important to help establish the fre- ties in identifying possible carriers in nature, quency of the phenomenon more accurately the following among them: presente of a rabies and thus clarify the epidemiology of the disease, virus inhibiting substance in the salivary glands and possibly even indicate modifications to be of wild animals; lack of periodicity in virus made in the treatment scheme for persons

elimination in the saliva; and deñciency in bitten by suspect animals.

Le problème de porteur de virus rabique (Résumé)

Le problème que pose le porteur de virus rabique a préoccupé, depuis de nombreuses années, les personnes qui ont étudié cette ques- tion. L’auteur passe en revue un certain nombre de travaux se rapportant au problème en signal- ant les cas où des personnes mordues par des animaux d’aspect normal sont mortes de la rage.

Il examine également quelques-unes des difficultés rencontrées pour déterminer des porteurs possibles dans la nature, y compris, entre autres, la présence de la substance inhibi- trice du virus rabique dans les glandes salivaires d’animaux sauvages, le défaut de périodicité

dans l’élimination du virus par la salive et l’imperfection des méthodes utilisées dans le diagnostic de la rage, tout au moins avant l’in- troduction de la méthode d’immunofluorescence dont l’application intensive et universelle devra offrir la possibilité de mieux connaitre la ques- tion. L’observation présente une importance

extrême, étant donné que, lorsqu’on aura établi

avec plus de sûreté la fréquence du phénomène, elle permettra d’apporter plus de clarté sur l’épidémiologie de la rage et même de justifier une modiíication du système de traitement des personnes mordues par des animaux suspects.

COEXISTENCIA ORGÁNICA

“El porvenir de las enfermedades infecciosas dependerá de los recursos y la ingeniosidad de los hombres de mañana. Si comprenden-y hoy son muchos los que no lo comprenden-que el hombre ha de vivir con sus infecciones en un estado de pacífica coexistencia ecológica, libre de accesos desmedidos de farmacoterapia y de tentativas de erradicación, la protección contra las en- fermedades infecciosas progresará incluso ante una posible invasión de micro- organismos extraterrestres”.

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