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CONSELHO DE DISCIPLINA

SECÇÃO PROFISSIONAL

Processo n.º Proc. N.º 34 -21/22

DESCRITORES: Processo sumário – Exibição de amarelo a jogador – Exercício de audiência prévia – Poderes de cognição do Conselho de Disciplina – Aplicação automática de sanções por acumulação de cartões amarelos.

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ESPÉCIE: Recurso Hierárquico Impróprio

RECORRENTES: ZOUHAIR FEDDAL AGHARBI e SPORTING CLUBE DE PORTUGAL – FUTEBOL, SAD RECORRIDO: Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol-Secção Profissional.

OBJETO: Decisão sumária proferida no dia 18 de março, em formação restrita, publicitado no Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, que sancionou o Recorrente com suspensão de 1 (um) jogo e multa de €153 (cento e cinquenta e três euros), nos termos do artigo 164.º, n.º 7 do RDLPFP, por factos ocorridos no jogo n.º 12601 (203.01.226), entre a Moreirense FC SAD e a Sporting CP SAD, realizado no dia 14 de março de 2022, a contar para a Liga Portugal BWIN.

DATA DO ACÓRDÃO: 5 de abril de 2022 TIPO DE VOTAÇÃO: Unanimidade RELATOR: Ana Raquel Conceição

NORMAS APLICADAS: Artigos 13.º, alínea d), 164.º n.º 7 e 259º n. º1 todos do RDLPFP2021 SUMÁRIO:

I. No domínio do direito disciplinar desportivo vigora a regra geral da presunção de veracidade dos factos materiais constantes das declarações e relatórios da equipa de arbitragem e do delegado da Liga.

II. As sanções decorrentes da acumulação de cartões amarelos são automáticas, pelo que o recorrente, tendo-lhe sido exibido no jogo o 5º cartão amarelo, conhece o efeito disciplinar que daí automaticamente decorre, não havendo, por isso, nenhum efeito-surpresa que para si fosse imprevisível.

III. O direito à audiência prévia, com consagração constitucional, é expressamente acolhido pelo artigo 214.º do RD, que sob a epígrafe “Obrigatoriedade de audição do arguido” dispõe que “A aplicação de qualquer sanção disciplinar é sempre precedida da faculdade de exercício do direito de audiência pelo arguido.”

IV. O que a referida norma impõe, com respeito à axiologia constitucional, é que seja garantido, efetivamente, o direito de audiência pelo arguido, ou por outras palavras, que seja garantido o exercício do contraditório. Quanto a este ato, foi respeitado o direito de audiência prévia,

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tendo sido apenas encurtado o prazo, como com frequência sucede, por razões ligadas ao próprio calendário das competições.

V. Havendo um primeiro ato sancionatório invalidado pelo órgão decisório, nada obsta à prática, nos termos regulamentares, de um outro ato sancionatório. Este ato secundário veio operar a sanação da invalidade do ato administrativo anterior (no caso a deteção oficiosa da preterição da audição prévia do arguido), em nome do princípio do aproveitamento (melior conservação) dos atos administrativos (em resultado do definido no n.º 5 do artigo 163.º do CPA).

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ACÓRDÃO

Acordam, em Plenário, ao abrigo do artigo 206.º, nº 1, do Regulamento Disciplinar das Competições Organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional1 os membros do Conselho de Disciplina, Secção Profissional, da Federação Portuguesa de Futebol.

I – RELATÓRIO

1. O Recorrente, mediante requerimento dirigido à Senhora Presidente do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, apresentado, através de correio eletrónico, em 25 de março de 2022 (cf. fls. 2), interpôs o presente recurso hierárquico impróprio para o Pleno da Secção Profissional do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, tendo por objeto a decisão sumária proferida no dia 18 de março, em formação restrita, publicitado no Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, que sancionou o Recorrente com suspensão de 1 (um) jogo e multa de €153 (cento e cinquenta e três euros), nos termos do artigo 164.º, n.º 7 do RDLPFP, por factos ocorridos no jogo n.º 12601 (203.01.226), entre a Moreirense FC SAD e a Sporting CP SAD, realizado no dia 14 de março de 2022, a contar para a Liga Portugal BWIN.

2. Com aquele requerimento, o Recorrente apresentou as suas alegações e formulou as respetivas conclusões, como segue (transcrição):

A. O presente recurso configura uma impugnação administrativa necessária que goza de efeito suspensivo, não só por força dos termos conjugados dos artigos 46.º do RJFD, 3.º do Decreto-Lei n.º 4/2015, de 07 de janeiro, e 259.º n.º 1, 287.º n.º 3, 289.º n.º 1 e 290.º do RD, como também pela aplicação conjunta dos artigos 287.º e 290.º do RD, do artigo 4.º, n.º 2, alínea a), da LTAD e dos artigos 158.º, n.º 1, 189.º, n.º 2, e 199.º, n.º 1, alínea b), do CPA.

1 Regulamento Disciplinar das Competições Organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional, aprovado na Assembleia Geral Extraordinária de 27 de junho de 2011 (com as alterações aprovadas nas Assembleias Gerais Extraordinárias de 14 de dezembro de 2011, 21 de maio de 2012, 06 e 28 de junho de 2012, 27 de junho de 2013, 19 e 29 de junho de 2015, 08 de junho de 2016, 15 de junho de 2016 e 29 de maio, 13 de junho de 2017, 29 de dezembro de 2017, 13 de junho de 2018 e 29 de junho de 2018, 22 de maio de 2019 e 28 de julho de 2020, ratificado na reunião da Assembleia Geral da FPF de 26 de agosto de 2020), doravante abreviado, por mera economia de texto, por RDLPFP. O texto regulamentar encontra-se disponível, na íntegra, na página da FPF.

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B. A rectificação de um acto não é susceptível de modificar ou revogar os seus efeitos; e por assim ser, a prática de novos actos sancionatórios no dia 18/03 constitui notória violação do princípio ne bis in idem, pelo que essas segundas sanções enfermam de invalidade.

C. O proferimento de decisão sancionatória em processo sumário previamente ao decurso do prazo de pronúncia regulamentarmente estabelecido equivale à ausência de audiência prévia.

D. Ao arguido foram aplicadas sanções de multa e suspensão previamente ao esgotamento do prazo de pronúncia prévia regulamentarmente previsto, pelo que houve preterição inválida desse seu direito constitucionalmente garantido.

3. Aos autos foram oficiosamente juntos os seguintes documentos com relevância para a decisão deste recurso:

(i) Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16.03.2022 e do Comunicado Oficial n.º 269 da LPFP, de 18.03.2022 (fls42 e 43);

(ii) Relatório de Árbitro (fls. 23 a 34);

(iii) Relatório de Delegado (fls. 35 a 36);

(iv) Fichas Técnicas de Clube (fls. 37 a 42);

(v) Notificação para exercício do direito de audiência prévia (fls. 49); e

(vi) Cadastro disciplinar do jogador Zouhair Feddal Agharbi (licenciado nº 1321180), jogador da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD (1095.1) (fls. 81).

4. Por despacho da Relatora de 29 de março de 2022, o recurso foi admitido com efeito devolutivo, nos termos do disposto no artigo 293.º do RDLPFP20 (fls. 81 a 85). Foi ainda notificada a Comissão de Instrutores nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 292.º, n.º 3 do RDLPFP20, que “deliberou não apresentar qualquer pronúncia sobre o pedido e os fundamentos do recurso interposto pelo jogador Zouhair Feddal Agharbi (licenciado nº 1321180), jogador da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD (1095.1) e a referida SAD.

5. Não foi rececionada qualquer pronuncia pelo recorrente. (fls. 135)

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II – COMPETÊNCIA DO CONSELHO DE DISCIPLINA

6. De acordo com o artigo 43.º, n.º 1, do RJFD20082, compete a este Conselho, de acordo com a lei e com os regulamentos e sem prejuízo de outras competências atribuídas pelos estatutos e das competências da liga profissional, instaurar e arquivar procedimentos disciplinares e, colegialmente, apreciar e punir as infrações disciplinares em matéria desportiva. No mesmo sentido, dispõe o artigo 15.ºdo Regimento deste Conselho3.

7. Acresce que, nos termos do disposto no artigo 262.º, n.º 2, do RDLPFP, as decisões finais proferidas em processo sumário são impugnáveis nos termos previstos no artigo 290.º do mesmo diploma regulamentar, decorrendo do n.º 1 desta norma que tal impugnação é efetuada mediante recurso hierárquico impróprio para o Pleno da Secção Disciplinar.

III – ÂMBITO DO RECURSO

8. Conforme acima referimos, o dissenso do Recorrente relativamente à decisão proferida em processo sumário reside no facto de a aplicação da sanção pela infração imputada ao Zouhair Feddal Agharbi (licenciado nº 1321180), jogador da Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD (1095.1), no Relatório de Árbitro – a saber, «Entrou em tackle sobre um adversário de forma negligente» - não ter sido precedida da audiência prévia do arguido.

9. Fixar o âmbito do Recurso é fundamental para consolidar os contextos estruturais e programáticos em que a ação decisória deve ser exercida. No caso, fazê-lo é também delimitar as concretas questões jurídicas que evitam as muitas possibilidades abstratas de diferentes soluções.

2 Aprovado pelo Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro (regime jurídico das federações desportivas e do estatuto de utilidade pública desportiva) e alterado pelo artigo 4.º, alínea c), da Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro (Cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei) e ainda pelos artigos 2º e 4º Decreto-Lei n.º 93/2014, de 23 de junho, cujo texto consolidado constitui anexo a este último. O artigo 3º da Lei nº 101/2017, de 28 de agosto, veio também a introduzir alterações neste regime, embora sem relevância neste domínio.

3 Disponível, na íntegra, na página eletrónica da FPF.

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10. A questão jurídica de fundo que importa aqui apreciar e decidir é a seguinte: foi garantido o exercício de audiência e de defesa do arguido?

11. Na sequência de retificação ao Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16.03.2022, operada através do Comunicado Oficial n.º 269 da LPFP, de 18.03.2022, o arguido foi notificado dos relatórios oficiais do jogo no dia 18.03.2022, às 09:42.

12. O arguido apresentou alegações no dia 18.03.2022, às 13:30, não contestando qualquer materialidade presente naqueles relatórios oficiais, mas invocando que o prazo de pronúncia que lhe foi concedido para efeitos de pronúncia quanto àqueles relatórios oficiais” contraria frontalmente o regulamentarmente estabelecido no artigo 259.º n.º 1 do RD, que imperativamente prescreve o prazo de 1 dia para a pronúncia do arguido, com termo, portanto, na próxima segunda-feira, dia 21/03/2022 (arts. 14.º n.º 1, 2 e 3 do RD, 87.º b) e c) do CPA) – do qual, à cautela e sem prescindir, não se abdica”.

13. Do exercício da referida pronuncia, o CD, em formação restrita, respondeu nos seguintes termos: Resulta, assim, que não tendo sido mobilizada, por parte do arguido, qualquer argumentação ou elementos probatórios que permitam infirmar o constante dos relatórios oficiais, o Conselho de Disciplina – Secção Profissional entende que não se vislumbra indiciado qualquer abalo à credibilidade probatória reforçada de que gozam aqueles relatórios oficiais, pelo que se confirma a factualidade descrita nos mesmos, com as consequências disciplinares previstas no RDLPFP. Ademais, conforme resulta da própria pronúncia do arguido, o mesmo teve oportunidade de conhecer e se pronunciar sobre o teor dos relatórios oficiais, tendo-lhe sido concedido prazo para pronúncia que se mostra conforme tanto ao exercício dessa faculdade como ao regular funcionamento das competições profissionais – interesses albergados pelos clubes quando aprovaram o regime de sancionamento sob a forma de processo sumário presente no RDLPFP).

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§2. Factos provados

1º. No dia 14 de março de 2022, foi realizado o jogo n. º12601 (203.01.226), entre a Moreirense FC SAD e a Sporting CP SAD, a contar para a Liga Portugal BWIN.

2º A equipa de arbitragem designada para o mencionado jogo integrou os seguintes elementos:

Árbitro: João Pinheiro Assistente 1: Pedro Ribeiro Assistente 2: Luciano Maia 4º Árbitro: João Casegas Observador: António Pinto VAR: Vítor Ferreira

AVAR: Nelson Cunha

3º Ao minuto 61’, o jogador n.º 3 da Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD, Zouhair Feddal Agharbi, foi admoestado com cartão amarelo.

4.º O árbitro fez constar do respetivo Relatório, na parte relativa à admoestação do referido jogador n.º 3, o seguinte: “Entrou em tackle sobre um adversário de forma negligente”.

5.º À data dos factos, nos jogos a contar para a Liga Portugal Bwin disputados na época desportiva de 2021/2022, o jogador Zouhair Feddal Agharbi tem averbadas no seu cadastro várias infrações disciplinares p. e p. no artigo 164.º, nomeadamente as previstas nos n.ºs 1, 2, 3, 4, e 7, por ter sido admoestado com 4 cartões amarelos antes do jogo referido em 1, sendo o cartão amarelo referido em 3 o 5.º cartão amarelo a ser-lhe exibido.

6.º No dia 16 de março de 2022, foi publicado o mapa de infrações com a decisão sumária publicitada no Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP.

7º No dia 17 de março de 2022, os recorrentes dirigiram recurso hierárquico impróprio dessas sanções ao Conselho de Disciplina.

8º No dia 18 de março de 2022, pelas 09:05, o jogador Recorrente foi notificado de um novo mapa de processos sumários, intitulado “RETIFICAÇÕES” (publicitado através do Comunicado Oficial n.º 269, da LPFP, daquela mesma data), atinente ao mesmo jogo da 26.ª jornada da Liga Bwin entre as equipas da Moreirense Futebol Clube – Futebol, SAD e da Sporting Clube de Portugal – Futebol, SAD, nele não constando qualquer sanção aplicada à Sporting Clube de Portugal – Futebol, TSAD ou a seus agentes desportivos, que ficariam a aguardar esclarecimentos.

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9º No mesmo dia 18 de março, pelas 09:42, o jogador foi notificado, por email remetido pelo Conselho de Disciplina, contendo em anexo relatórios do delegado e da equipa de arbitragem do jogo em causa, de que, até às 16 (dezasseis) horas do 18/03/2022 poderia dizer por escrito, querendo, o que se lhe oferecer sobre a factualidade a si respeitante presente nos relatórios oficiais quanto ao jogo oficial em que interveio.

10º Nesse dia 18 de março, pelas 12:22, o recurso que havia sido interposto pelos recorrentes, autuado sob o n.º 32-2021/2022, foi admitido, negando-se-lhe a atribuição de efeito suspensivo, e, no mesmo ato, logo determinado extinto por inutilidade superveniente da lide.

11º Do referido despacho consta a seguinte argumentação, com referência, ao que melhor importa nos presentes autos:

1. Resulta da leitura das conclusões recursivas que o dissenso dos Recorrentes relativamente à decisão disciplinar recorrida assenta, nuclearmente, no seguinte:

o não ter sido dada ao arguido a dada oportunidade de exercer os seus direitos de audiência e defesa previamente à prolação da decisão sancionatória em sede de processo sumário, tendo-lhe sido aplicadas sanções de multa e suspensão com total preterição desse seu direito constitucionalmente garantido.

2. Sucede, porém, que a apreciação do mérito da petição recursiva fica prejudicada pela factualidade superveniente à entrada daquele e atinente à retificação ao Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março de 2022, incluindo o sancionamento impugnando, realizada através do Comunicado Oficial n.º 269 da LPFP, de 18 de março de 2022 (cf. Anexo I), e, ainda, pela notificação dos Recorrentes, realizada, igualmente, em 18 de março de 2022, nos termos e para os efeitos do artigo 259.º, n.º 1, do RDLPF (cf. Anexo II).

2. Nesse sentido, atenta a materialidade indicada no ponto anterior, verifica-se que a finalidade pretendida pelo recurso se torna inútil, maxime atenta a notificação para efeitos de pronúncia Recorrentes que se mostra em curso, o que determina a extinção do procedimento recursório, nos termos estatuídos nos artigos 93.º e 95.º, n.º 1, do Código do Procedimento Administrativo (aplicáveis ex vi artigo 16.º, n.º 1, do RDLPFP).

12º No dia 22 de março, atento o teor do disposto no artigo 6.º [Questões urgentes], do Regimento do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, deliberou o Conselho de Disciplina a ratificação do despacho referido no ponto anterior.

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13.º Na sequência da notificação referida em 8.º, no dia 18 de março pelas 13:19, o jogador Recorrente, apresentou pronúncia não contestando qualquer materialidade presente naqueles relatórios oficiais quanto ao jogo em apreço, mas invocando que o prazo que lhe foi concedido para efeitos de pronúncia quanto àqueles relatórios oficiais

”contraria frontalmente o regulamentarmente estabelecido no artigo 259.º n.º 1 do RD, que imperativamente prescreve o prazo de 1 dia para a pronúncia do arguido, com termo, portanto, na próxima segunda-feira, dia 21/03/2022 (arts. 14.º n.º 1, 2 e 3 do RD, 87.º b) e c) do CPA) – do qual o arguido, à cautela e sem prescindir, não abdica”.

14.º No dia 18 de março, por decisão sumária tomada em formação restrita, publicitada no Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, o Recorrente foi sancionado com suspensão de 1 (um) jogo e multa de €153 (cento e cinquenta e três euros), nos termos do artigo 164.º, n.º 7 do RDLPFP, por factos ocorridos no jogo n.º 12601 (203.01.226), entre a Moreirense FC SAD e a Sporting CP SAD, realizado no dia 14 de março de 2022, a contar para a Liga Portugal BWIN

§3. Motivação quanto à matéria de facto

14. Como já referimos cabe-nos, com liberdade na apreciação da prova, formar uma convicção sobre os factos apresentados, no caso em recurso, através de uma valoração racional e crítica, em conformidade com as regras comuns da lógica e da razão, recorrendo a máximas jurídicas e a um saber fundado na experiência e nos conhecimentos adquiridos.

15. Fazê-lo assim, para julgar, de acordo com estes critérios e orientações, permite-nos racionalizar o iter decisório e objetivar o juízo, condição sine qua non para uma fundamentação argumentada que justifique a decisão.

16. Nesse caminho o primeiro passo, para a formação da convicção do julgador em recurso, é o de levar em consideração todo o acervo probatório carreado para os autos e não apenas o que serviu de base à decisão recorrida.

17. O recorrente não impugna qualquer factualidade.

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18. A materialidade dada como provada correspondente aos factos percecionados pelos membros da equipa de arbitragem e constantes do relatório de árbitro, nomeadamente os factos descritos em 1.º, 2.º, 3.º e 4, por se mostrar respaldada em documentação oficial que beneficia de força probatória especial mantém-se inatacável.

19. A demais materialidade resulta de toda a prova documental constante dos presentes autos.

20. O facto descrito em 5 resulta do cadastro do jogador de fls. 77 e 79.

V – FUNDAMENTAÇÃO DE DIREITO

21. Aqui chegados, só resta aferir se, como defende o Recorrente, o recurso deverá proceder e, para esta análise, atentaremos ao objeto do presente recurso, isto é, aferiremos se foi ou não preterida a audiência prévia aos recorrentes.

22. Conforme resulta da própria pronúncia do arguido, o mesmo teve oportunidade de conhecer e se pronunciar sobre o teor dos relatórios oficiais, tendo-lhe sido concedido prazo para pronúncia.

23. Resta aferir se tal prazo terá de ter a duração perentória de um dia, conforme arguem os recorrentes.

24. Importa realçar que a referida infração resultou determinada no procedimento disciplinar sob a forma sumária.

25. Como se sabe, a natureza da referida forma de processo, resulta da concordância entre os interesses relativos ao regular funcionamento das competições, bem como o legitimo exercício do direito ao contraditório.

26. O regular funcionamento das competições também salvaguarda os interesses prosseguidos pelos clubes e jogadores, quando aprovaram o regime de sancionamento sob a referida forma

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de processo disciplinar.

27. Note-se ainda que os relatórios que suportam a qualificação da infração disciplinar são de elementar interpretação.

28. Dispõe o artigo 259.º n.º 1 do RD que “Os relatórios e os autos (…) são transmitidos com a máxima urgência à Secção Disciplinar que, até ao dia útil seguinte ao da respetiva receção, deles notificará os clubes e os agentes desportivos neles referidos, para, no prazo de um dia, querendo, se pronunciarem por escrito”.

29. O direito à audiência prévia, com consagração constitucional, é expressamente acolhido pelo artigo 214.º do RD, que sob a epígrafe “Obrigatoriedade de audição do arguido” dispõe que “A aplicação de qualquer sanção disciplinar é sempre precedida da faculdade de exercício do direito de audiência pelo arguido.”

30. Assim, o que a referida norma impõe, com respeito à axiologia constitucional, é que seja garantido, efetivamente, o direito de audiência pelo arguido, ou por outras palavras, que seja garantido o exercício do contraditório.

31. O que de facto se verificou.

32. Os recorrentes foram notificados dos relatórios do árbitro, tal como os próprios assumem.

33. Aos arguidos foi dado conhecimento, de forma clara, dos factos que lhe são imputados, isto é, do concreto comportamento, adotado pelo arguido, que se pretendia sancionar.

34. Conheceram e tiveram oportunidade para se pronunciarem sobre todos os elementos probatórios que permitiram o conhecimento e o sancionamento da infração disciplinar em causa, tendo, aliás, apresentado pronúncia dentro do prazo que lhe foi concedido para o efeito.

35. Ao colocar em crise o prazo que lhe foi concedido para efeitos daquela pronúncia como se tal prazo não lhe tivesse permitido defender-se, incorre o arguido num verdadeiro venire

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contra factum proprium.

36. Não se verifica qualquer violação do direito à audiência prévia, e consequentemente foi cumprido na integralidade o disposto no n.º 10 do artigo 32º da CRP e n.º 3 do artigo 269º da nossa lei Fundamental.

37. Pois o arguido foi previamente ouvido e foi-lhe dada a possibilidade de se poder defender das imputações que lhe são feitas.

38. Mais uma vez se refere que a análise do relatório de árbitro é de muitos simples interpretação, simplicidade que se adequa aos interesses das competições, com a urgência de decisões que todos reconhecem ser imprescindível. Uma urgência em nome da execução das decisões em tempo útil, i.e., que permita a execução das sanções (nomeadamente as de caráter automática como no caso dos autos) antes da jornada seguinte da competição, que tem levado ao encurtamento do prazo de pronúncia quando tal seja absolutamente imprescindível em face do calendário desportivo e à utilidade do cumprimento da sanção.

Acresce que, tratando-se da mais simples e evidente análise do relatório de árbitro que admoestou o jogador com cartão amarelo, e em face da acumulação dos mesmos, gera o efeito automático de suspensão, não se vislumbra como pode o Recorrente entender que não foi dado cumprimento ao seu direito de audiência prévia. Efetivamente o Recorrente teve a oportunidade de se pronunciar face ao teor do relatório em causa, tanto que o fez e em tempo útil.

39. Acresce ainda que a sanção de suspensão e multa aplicadas decorrentes da acumulação de cartões amarelos são automáticas (cf. acórdão do STA de 10 de fevereiro de 2022, Processo N° 40/21.6BCLSB) onde se refere: “E não colhe a alegação do ora recorrente no sentido de que nesta acção apenas está em causa a invalidade da decisão disciplinar sancionatória por preterição do seu direito de audiência prévia, enquanto direito fundamental [que na sua tese não terá sido cumprido] uma vez que, não foi ouvido antes da prolação das sanções aplicadas, porque por um lado, a sanção foi aplicada de forma automática, por acumulação de cartões, e por outro lado e mais revelante, mesmo que tal preterição tenha ocorrido, o conhecimento da mesma está a jusante da questão técnica/desportiva, e decorre de matéria, que já se considerou

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que o TAD não tinha competência para decidir”. Realce nosso.

40. O caráter automático da referida sanção, tendo-lhe sido exibido no jogo o 5º cartão amarelo, permite que os recorrentes conheçam o efeito disciplinar que da admoestação durante o jogo com o 5º cartão amarelo automaticamente decorre, não havendo, por isso, nenhum efeito-surpresa que fosse imprevisível.

41. O TAD é incompetente para sindicar sanções que automaticamente decorrem de decisões tomadas pelo árbitro durante o jogo e relativamente às quais é vigente o princípio da autoridade do árbitro.

42. Invocam ainda os arguidos que pelo facto de ter existido uma retificação ao mapa de sumários e este lhe ter sido comunicado duas vezes implica uma violação do ne bis in idem.

43. Melhor, arguem que: “A rectificação de um acto não é susceptível de modificar ou revogar os seus efeitos; e por assim ser, a prática de novos actos sancionatórios no dia 18/03 constitui notória violação do princípio ne bis in idem, pelo que essas segundas sanções enfermam de invalidade.”

44. Embora o Comunicado Oficial n.º 269 da LPFP, de 18 de março tenha a designação de retificação (sendo uma designação meramente para efeitos de organização intraadministrativa e não uma alusão à figura jurídica), é evidente que o mesmo versa sobre o Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março, que depois veio a ser reformado, conferida a audiência prévia ao arguido, pelo Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, de 18 de março.

45. O Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, de 18 de março, implica um ato de reforma do Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março, nos termos do artigo 164.º do CPA, em que se pratica um ato administrativo secundário, ato que versa diretamente sobre outro ato já praticado (ato primário).

46.Este ato secundário veio operar a sanação da invalidade do ato administrativo anterior (no caso a deteção oficiosa da preterição da audição prévia do arguido), em nome do princípio do

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aproveitamento (melior conservação) dos atos administrativos (em resultância do definido no n.º 5 do artigo 163.º do CPA).

47. Assim, o sancionamento do arguido expresso no Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, de 18 de março, tratou-se de um ato de reforma do ato sancionador expresso no Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março, expurgando-o da preterição da audição do arguido e contemplando, previamente à prolação desse ato reformador, essa mesma audiência prévia.

48. O ato reformador (Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, de 18 de março), consubstancia um ato novo, por confrontação com o ato reformado (Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março), de molde a garantir a sanação do ato reformado pelo ato reformador.

49. Sendo que, entendendo-se a sanção expressa no Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março, como ferida de causa determinante de nulidade, por violação do direito à audição prévia:

i) Essa nulidade mostra-se passível de reforma (e conversão), nos termos do n.º 2 do artigo 164.º do CPA – como ocorreu no caso vertente;

ii) A competência para a prática do ato reformador é do órgão que praticou o ato reformado, conforme resulta do n.º 3 do artigo 169.º, ex vi n.º 1 do artigo 164.º, ambos do CPA – tal como ocorreu no caso vertente, em que o ato reformador foi praticado pela mesma formação restrita;

iii) O ato reformador apresenta-se tempestivo, respeitando o prazo previsto no artigo 168.º ex vi n.º 1 do artigo 164.º, ambos do CPA (respeitando, outrossim, a tempestividade do sancionamento em processo sumário prevista no artigo 259.º do RDLPFP);

iv) Em termos de requisitos de forma e de procedimento, o ato reformador observou a forma exigida para o ato reformado e as formalidades exigidas para o ato reformado, em obediência ao previsto, respetivamente, nos n.ºs 1 e 3 do artigo 170.º, ex vi n.º 4 do artigo 164.º, todos do CPA;

v) Ademais, verifica-se que entre o momento da prática do ato reformado e a prática do ato reformador, inexistiram quaisquer efeitos lesivos produzidos quanto ao arguido, porquanto entre 16 de março de 18 de março, não foi disputado qualquer jogo oficial por parte do clube a que o arguido está afeto e a sanção de suspensão em liça apenas produziria efeitos quanto à

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presença em tais jogos oficiais e já não em treinos (por exemplo).

50. Em face do exposto, não há violação do princípio ne bis in idem, porquanto o ato primário (Comunicado Oficial n.º 268 da LPFP, de 16 de março) é reformado, sanado, pelo ato secundário (Comunicado Oficial n.º 270 da LPFP, de 18 de março), não se tratando de uma duplicidade de atos sancionadores, mas de ato sobre um ato (ato reformador sobre o ato reformado), não se concebendo a existência de um desligado do outro.

51. O n.º 5 do artigo 29.º da nossa Lei Fundamental, ao estabelecer que «Ninguém pode ser julgado mais do que do que uma vez pela prática do mesmo crime» dá dignidade constitucional ao clássico princípio ne bis in idem. Conforme referem Vital Moreira e Gomes Canotilho, in Constituição da República Portuguesa Anotada, vol. I, 4.ª edição, pág. 49, este princípio, na dimensão de direito subjetivo fundamental, garante ao cidadão o direito de não ser julgado mais do que uma vez pelo mesmo facto, conferindo-lhe, ao mesmo tempo, a possibilidade de se defender contra actos estaduais violadores desse direito (direito de defesa negativo).

52. Não se verifica, por consequência, qualquer violação do n.º 5 do artigo 29º da CRP, pois não há um “duplo julgamento”, porquanto o ato reformador nunca está desligado do ato reformado, tendo a aplicação das respetivas sanções disciplinares apenas produzido os seus plenos efeitos com o ato reformador datado do dia 18 de março.

VI– DECISÃO

Nos termos e com os fundamentos expostos, é julgado improcedente o presente Recurso Hierárquico Impróprio e, consequentemente, confirmada a decisão disciplinar recorrida que sancionou o Recorrente com suspensão de 1 (um) jogo e multa de €153 (cento e cinquenta e três euros), nos termos do artigo 164.º, n.º 7 do RDLPFP, por factos ocorridos no jogo n.º 12601 (203.01.226), entre a Moreirense FC SAD e a Sporting CP SAD, realizado no dia 14 de março de 2022, a contar para a Liga Portugal BWIN.

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Custas a cargo do Recorrente, fixando-se o emolumento disciplinar em € 408 (quatrocentos e oito euros), valor correspondente a 4 (quatro) UC (artigos 279.º, n.º 4, e 284.º, n.º 3, do RDLPFP).

Registe, notifique e publicite.

Cidade do Futebol, 5 de abril de 2022

O Conselho de Disciplina, Secção Profissional

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RECURSO DESTA DECISÃO

As decisões do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol são passíveis de recurso, nos termos da lei e dos regulamentos, para o Conselho de Justiça ou para o Tribunal Arbitral do Desporto.

De acordo com o artigo 44.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de dezembro, na redação conferida pelo artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 93/2014 de 23 de junho, cabe recurso para o Conselho de Justiça das decisões disciplinares relativas a questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso deve ser interposto no prazo de 5 dias úteis (artigo 35.º do Regimento do Conselho de Justiça aprovado pela Direção da Federação Portuguesa de Futebol, em 18 de dezembro de 2014 e de 29 de abril de 2015 e publicitado pelo Comunicado Oficial n.º 383, de 27 de maio de 2015, com as alterações publicitadas pelo Comunicado Oficial n.º 188, de 9 de janeiro de 2018).

Em conformidade com o artigo 4.º, n.ºs 1 e 3, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto (aprovada pelo artigo 2.º da Lei n.º 74/2013 de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei, na redação conferida pelo artigo 3.º da Lei n.º 33/2014 de 16 de junho - Primeira alteração à Lei n.º 74/2013, de 6 de setembro, que cria o Tribunal Arbitral do Desporto e aprova a respetiva lei), compete a esse tribunal conhecer, em via de recurso, das deliberações do Conselho de Disciplina.

Exclui-se dessa competência, nos termos do n.º 6 do citado artigo, a resolução de questões emergentes da aplicação das normas técnicas e disciplinares diretamente respeitantes à prática da própria competição desportiva.

O recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto deve ser interposto no prazo de 10 dias, contados da notificação desta decisão (artigo 54.º, n. º 2, da Lei do Tribunal Arbitral do Desporto).

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Referências

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