CARTOGRAFIA DA CIDADE EM SUAS MÚLTIPLAS PASSAGENS: VÁRZEA GRANDE ( )

Texto

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

INSTITUTO DE GEOGRAFIA, HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

TATIANE ROSA SARAT

CARTOGRAFIA DA CIDADE EM SUAS MÚLTIPLAS PASSAGENS: VÁRZEA GRANDE (1970 – 1990)

Cuiabá- MT 2010

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TATIANE ROSA SARAT

CARTOGRAFIA DA CIDADE EM SUAS MÚLTIPLAS PASSAGENS: VÁRZEA GRANDE (1970 – 1990)

Texto de Defesa apresentado à Banca Examinadora do Programa de Pós-Graduação, Mestrado em História, Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso, para a realização do Exame de Qualificação, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História, sob orientação da Profª. Drª Regina Beatriz Guimarães Neto.

Cuiabá- MT 2010

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AGRADECIMENTOS

Mesmo que para qualquer pessoa que, um dia vier a ler este trabalho, o nome que apareça seja Tatiane Rosa Sarat, como a autora, o mesmo foi produzido graças à um sem número de pessoas que se envolveram nesta jornada de forma voluntária ou involuntária. Qual pesquisador não encheu a paciência de alguém que nada tem a ver com a sua pesquisa contando apaixonadamente sobre o seu objeto de pesquisa? A pesquisa em si é um ato de amor. Ama-se de forma tão profunda que a própria noção de tempo, de ser e de existir se esvai em incontáveis horas/dias/meses/anos que nos dedicamos a este amor.

Ao ato da existência agradeço a Deus! Que, mesmo nos momentos de descrença e rebeldia, sempre me acompanhou e me conduziu. Ao ato do “ser” agradeço a todos os membros da minha família que estão inseridos na história, ora contada, como personagens ativos de uma cidade multifacetada e que me encantaram e emocionaram com o carinho que sempre despenderam à mim no meu caminhar acadêmico e no convívio familiar.

Ao ato de amar agradeço a todos os amigos que me acompanham desde a infância até os amigos que fiz no meio acadêmico. Agradeço a minha orientadora que em cada orientação me ensinou que o amor pode ser exercido de várias formas, inclusive, com um olhar mais severo ao meu trabalho, mas, sobretudo naquele olhar de: calma você consegue! Agradeço aos amores e paixões que vieram e que alimentaram ainda mais a minha alma tornando a minha sensibilidade maior e, assim trazendo mais cores para a paisagens textuais ora apresentada!

O nome de cada um estará gravado em meu coração por não haver espaço para colocar o nome de todos. Mas a memória humana é ilimitada e o amor expande ainda mais a nossa capacidade de agradecer e lembrar daqueles que de mesmo sem saber contribuíram com a realização deste sonho.

À todos meus mais sinceros agradecimentos!

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Resumo

A protagonista dessa trama é a cidade Várzea Grande que vivenciou em seu território grande parte dos eventos importantes que transformaram o estado de Mato Grosso no gigante do agronegócio mundial. Várzea Grande por sua localização geográfica estratégica foi passagem dos migrantes que vieram de todas as regiões do Brasil, sensibilizados pelas políticas de ocupação do território amazônico durante o período ditatorial. Assim, adentramos em uma cidade que foi expandida de forma totalmente desordenada. Acompanhamos as trajetórias de migrantes que estavam “fora” da idealização do migrante/colono engendrado pelos ditadores que, tendo apenas a força de trabalho, sangue e suor construíram o titulo de “Cidade Industrial”

para a vizinha pobre da Capital. Buscando suprir as necessidades básicas da existência (moradia e trabalho) tornaram Várzea Grande na segunda maior cidade de Mato Grosso. Ressaltando a multiplicidade de culturas que constituiu uma verdadeira “Babel” de sotaques, costumes e práticas culturais

Palavras-chave: Ocupação e reordenamento urbano.

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ABSTRACT

The protagonist of this plot is the city Várzea Grande, which experienced in its territory most of the important events that transformed the state of Mato Grosso into the giant of agribusiness worldwide. Várzea Grande for its strategic geographical location was the passage of migrants who came from all regions of Brazil, sensitized by the policies of occupation of the Amazon territory during the dictatorial period. Thus, we entered a city that was expanded in a totally disordered way. We followed the trajectories of migrants who were "out” of the ideal of the migrant / settler engendered by the dictators who, having only the workforce, blood and sweat, built the title" Industrial City "for the poor neighbor of the Capital. Seeking to supply the basic necessities of existence (housing and work), Várzea Grande became the second largest city in Mato Grosso. Highlighting the multiplicity of cultures that constituted a true “Babel” of accents, customs and cultural practices

Keywords: Occupation and urban reorganization.

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LISTA DE TABELA

TABELA 1EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO GERAL NO MUNICÍPIO DE VÁRZEA GRANDE ... 28

TABELA 2LOTEAMENTOS APROVADOS NA DÉCADA DE 1980 ... 87

TABELA 3IDH-MVÁRZEA GRANDE 2000 ... 91

TABELA 4LOATEMAENTOS APROVADOS NA DÉCADA DE 1990... 94

TABELA 5POPULAÇÃO E TAXA DE CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO -VÁRZEA GRANDE -1970 À 2000 ... 96

TABELA 6POPULAÇÂO E TAXA DE CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO POR DISTRITO SEGUNDO SITUAÇÃO DE DOMICÍLIO 1990 À 2000 ... 98

TABELA 7COMPOSIÇÃO DO SETOR TERCIÁRIO DO MUNICÍPIO DE VÁRZEA GRANDE ... 116

TABELA 8CARGOS DE EMPREGO DA FAMÍLIA GOMES SARAT ... 146

TABELA 9CARGOS DE EMPREGO DA FAMÍLIA CALDEIRA ROSA ... 152

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LISTAS DE MAPAS

FIGURA 1MAPA AMAZÔNIA LEGAL ... 34

FIGURA 2ZONEAMENTO URBANO VÁRZEA GRANDE ... 49

FIGURA 3MAPA DE CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO DE VÁRZEA GRANDE ... 78

FIGURA 4MAPA VÁRZEA GRANDE EM 1956 ... 79

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ... 13

CAPÍTULO I ... 27

A CIDADE COMO UM LUGAR DE PASSAGEM ... 27

1.1 - No Portal da Amazônia ... 35

1.2 - Lugar de passagem ... 44

1.3 - Encontros e despedidas ... 49

1.4 - Tem gente que chega pra ficar... ... 52

1.5 - O comerciante. ... 53

1.6 - Todos os dias é um vai e vem... ... 59

1.7 - O migrante ... 60

1.8 - Tem gente que veio só olhar... ... 64

1.9 - O vendedor ... 65

1.10 - O garimpeiro ... 67

1.11 - Tem gente a sorrir e a chorar... ... 70

1.12 - A prostituta ... 72

1.13 -O caminhoneiro ... 75

CAPITULO II ... 78

A CIDADE COMO UM LUGAR DE ESTABELECIMENTO ... 78

2.1 - VÁRZEA GRANDE ... 78

2.2 - A grande cidade ... 95

2.3 - Brejo e Cruz ... 103

2.4 - As associações de moradores ... 110

2.5 - Cidade do Trabalho ... 115

2.6 - Os trabalhadores ... 122

CAPITULO III ... 127

OUTSIDERS E ESTABELECIDOS – A SAGA DE MORAR E TRABALHAR ... 127

3.1 - Os estabelecidos: Gomes Sarat ... 132

3.2 - Os outsiders : Os Caldeira Rosa: uma roda viva. ... 136

3.3 - A cidade... 143

3.4 - As práticas de se empregar ... 146

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 172

BIBLIOGRAFIA. ... 174

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APRESENTAÇÃO

As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor do seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa. (Ítalo Calvino: cidades invisíveis)

Este trabalho tem como objetivo apresentar o movimento de transformação que ocorreu na cidade de Várzea Grande durante as três ultimas décadas do século XX. Tal movimento proporcionou que a cidade recebesse uma série de denominações que representaram a inserção de múltiplas práticas culturais na cidade.

Nos discursos produzidos sobre a cidade encontramos predicados como: cidade-corredor, cidade-rodoviária, cidade-dormitório e cidade-industrial. Ao comparar essas produções discursivas com os eventos que se desencadearam em Mato Grosso e em toda a Amazônia durante o período analisado consegui estabelecer vínculos de ligação entre esses acontecimentos.

Tais vínculos me possibilitou visualizar novas cartografias da cidade que foi demarcada pelas práticas sociais de homens, mulheres, velhos e crianças que por sem-número de motivos se direcionaram para a Amazônia, sobretudo, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, instaurada em 1964.

Todo processo de pesquisa passou pelo clivo de um campo específico do saber que é a disciplina História. Para Jörn Rüsen a narrativa histórica é o ato de tornar presente o passado é, e também uma prática cultural de interpretação do tempo1. Para Hayden White “o historiador realiza um ato essencialmente poético, em que prefigura o campo histórico e o constitui como um domínio no qual é possível aplicar as teorias específicas que utilizará para explicar ‘o que estava realmente acontecendo’ nele2”.

1RÜSEN, Jörn. Razão histórica: teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

2 WHITE, Hayden. Meta-história: A imaginação do século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995. Página - 12

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Trabalhar com os discursos produzidos sobre a cidade foi fazer uma viagem a um mundo de multiplicidades. Para percorrer os caminhos escolhidos, foi de suma importância a bagagem que a graduação de História da Universidade Federal de Mato Grosso e o seu Programa de Pós- Graduação de História me possibilitaram. A minha vivencia acadêmica me fez olhar para o mundo que me cerca e a ele fazer questionamentos que estão no âmbito da História Cultural (inserir nota sobre história cultural), ou seja, quando busco entender as transformações ocorridas na cidade de Várzea durante as ultima décadas do século XX, não estive preocupada em dizer o que “realmente aconteceu”, mas sim, identificar o modo como nessa cidade, naquele período histórico, uma determinada realidade social foi construída, pensada e dada a ler3.

O cenário encontrado durante os primeiros contatos com as representações da cidade me fez questionar sobre quais seriam, pois, os agentes que lhe retratariam? A historiadora Sandra Pesavento ajudou a me posicionar quanto a essa questão ao afirmar que: a cidade é objeto de múltiplos discursos e olhares, que não se hierarquizam, mas que se justapõem, compõem ou se contradizem, sem por isso, serem uns mais verdadeiros ou importantes que outros4.

Sendo assim busquei levantar documentos produzidos pelos mais distintos campos de poder sobre a cidade. Pois segundo Lyn Hunt, a história cultural é uma nova forma de pensar a cultura, diferenciando da forma “antiga” baseada nas tradições nacionais. Essa afirmação me deixou mais a vontade para trabalhar na multiplicidade da documentação, que não se restringiu à oficial, pois para uma historiadora com seus posicionamentos centrados na historia cultural, pensar em cultura é pensá-la como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo. Para reforçar essa afirmação temos a da renomada historiadora Sandra Pesavento que colocou que foram deixadas de lado as concepções de viés marxista, que entendiam a cultura como integrante da superestrutura e que também foram deixadas de lado concepções que opunham a cultura erudita à cultura popular5.

Para entender as modificações do espaço citadino em Várzea Grande foi preciso estudar os mecanismos que tornaram possível a inserção de Várzea Grande no processo de re-ocupação da Amazônia, e as maneiras como as pessoas se relacionaram com esses acontecimentos transformando Várzea Grande, em um primeiro momento, numa cidade rodoviária, ou seja,

3CHARTIER, Roger. História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1989.

4PESAVENTO, Sandra Jatahy. O imaginário da cidade: visões literárias do urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002. Página 09.

5 PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2005.

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tendo-a como um lugar de passagem, e depois em um lugar onde essas pessoas passaram a estabelecer residência.

Acompanhando os eventos que ocasionados por esse movimento de transformação da cidade, essa dissertação apresentará acontecimentos que se desencadearam durante as décadas de 1970 a 1990, esses marcos temporais condizem com a duração dos fenômenos observados.

Iniciei com a década de 1970, pois foi durante essa década que, segundo Regina Beatriz Guimarães Neto, o governo ditatorial conseguiu dotar seus órgãos para organizar uma re- ocupação da Amazônia Legal, com a criação de programas e a construção de rodovias federais que possibilitaram o re-ordenamento populacional, tal mudança que no discurso privilegiaria os

“novos” espaços que estavam sendo implantados, sobretudo, no norte de Mato Grosso também teve ressonância nos demais municípios do Estado e dentre eles Várzea Grande. Escolhi a década de 1990 para finalizar o meu trabalho, pois os projetos de implantação de cidades e políticas que visavam a Amazônia se consolidaram e o fluxo de migrantes se normalizou.

Diante de um recorte temporal de mais de 30 anos, ficou muito difícil escolher o que seria contado e o que seria excluído deste trabalho, assim para a confecção desse texto foi preciso refletir sobre a especificidade da escrita da história. Em meio às discussões da historiografia contemporânea compartilho das reflexões teóricas de Paul Veyne que disse:

Em história, como no teatro, é impossível mostrar tudo, não porque isso ocuparia muitas páginas, mas porque não existem nem fato histórico elementar nem partículas factuais6.

A percepção de que o historiador não mais constrói verdades absolutas e da impossibilidade de narrar um evento sobre todos os aspectos possíveis levou a comunidade acadêmica perceber a importância de uma figura que até então passava despercebida: o historiador, ou seja, aquele que tem na produção de textos de história a sua profissão. A entrada desse agente em cena com sua subjetividade ajudou a entender, de forma mais inteligível, a narrativa histórica, principalmente com relação às escolhas dos temas e caminhos percorridos na seleção dos eventos a serem narrados. Sobre esse assunto Paul Veyne escreveu que:

Quais são, pois, os fatos dignos de suscitar a atenção do historiador? – Tudo depende da trama escolhida. O fato nada é sem sua trama, uma mistura muito humana e muito pouco

“cientifica” de causas materiais, de fins e acasos; de uma fatia da vida que o historiador isolou segundo sua conveniência, em que os fatos tem seus laços objetivos e sua importância relativa.7

6 VEYNE, Paul. Como se escreve a historia e Foucault revoluciona a historia. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 4ª edição revisada, 1998. Pagina 43

7 Op. Cit. p 42

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Corroborando com essa afirmação temos a de Hayden White que colocou que:

diversamente do romancista, o historiador defronta com um verdadeiro caos de acontecimentos já constituídos, dos quais há de escolher os elementos da estória que vai contar. Realiza sua estória mediante a inclusão de alguns acontecimentos e a exclusão de outros, realçando alguns e subordinando outros8

A trama ora apresentada é resultado de um dialogo entre os meus desejos e o que a corporação de ofício da qual estou inserida me permitiu, assim delineando o lugar social do qual eu falo. Foi no rastro do caminhar de milhares de homens e mulheres que transitaram e, ou, se estabeleceram em Várzea Grande que me encontrei.

Perceber que a histórias dos meus depoentes são também a minha história causou-me um misto de estranheza e felicidade. A estranheza se deu pelo fato de me ver ligada a rostos estranhos, pessoas que graças a uma serie de eventos da pesquisa surgiram em minha vida e muitas outras que já se encontravam no meu dia-a-dia passaram a me pertencer de uma forma toda especial.

Mas o sentimento que mais impulsionou essa pesquisa foi a felicidade, sobretudo ocasionada pelos maravilhosos momentos com meus depoentes que de forma tão carinhosa me receberam e me contaram a minha historia. Contudo, a cidade que me foi apresentada pelos vestígios como as fontes de jornais e crônicas oficiais não era a mesma cidade das tardes de domingo que era quando a minha família se reunia na casa da matriarca, Dona Luzia, onde os tios, tias e a minha mãe, após o almoço e envoltos por suas proles contavam as histórias de quanto chegaram a Várzea Grande, ou seja, “na cidade” e os estranhamentos e as novas experiências que enfrentaram nos primeiro anos. Os relatos quase sempre de miséria, das carestias e das surpresas não casavam com o que aprendíamos na escola sobre a Cidade- Industrial.

As histórias que meus tios e tias contavam giravam em torno dos mesmos fatos. As durezas de não possuir casa e de terem que alugar uma casa de um cômodo onde se amontoavam os quatorze jovens frutos da união dos seus pais. Do fascínio que comer repolho lhes causou a ponto de comerem só isso durante um mês inteiro, de terem que trabalhar desde crianças para conseguir prover o próprio sustento e dos irmãos mais novos, das distancias que andavam para

8 WHITE, Hayden. Meta-história: A imaginação do século XIX. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995. Página -22

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chegar nos trabalhos e dos namoros que não eram como hoje não!9. O curioso dessas tardes de domingo era que cada domingo as mesmas historias ganhavam conotações diferentes e mesmo assim nós, as crianças, parávamos para ouvir e nos fascinar ou compadecer com elas. A vivência na academia me instrumentalizou para fazer uma nova leitura dessas historias e me apropriar delas para essa dissertação. Pois como coloca Walter Benjamim: Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois10.

As leituras que possibilitaram a confecção desse trabalho de história partiram, então, dessa dicotomia, ou seja, da pesquisadora que, instrumentalizada por uma instituição e pertencente a uma classe de oficio foi atrás das fontes necessárias para traçar os caminhos dos depoentes e da Tatiane, filha da Dona Luzinete, neta da Dona Luzia e Dona Ana, sobrinha, prima, vizinha e namorada, ou seja, também moradora de Várzea Grande e fruto do processo analisado.

Ter Várzea Grande como cenário desse trabalho foi um grande desafio, pois é praticamente nula produções de história sobre essa cidade. Trabalhar com um tema pouco trabalhado pela academia, ou seja, com poucas referências bibliográficas específicas, fez com que eu buscasse outros caminhos para uma maior aproximação com o meu objeto.

A condição imposta fez surgir um amplo leque de possibilidades, tornando o ofício de historiadora mais prazeroso. A busca da documentação, de extrema importância para qualquer trabalho de história, foi uma aventura que percorreu os mais diversos lugares da cidade e do Estado. Para suprir as lacunas que iam aparecendo conforme a pesquisa avançava, e lembrando os ensinamentos de Le Goff no clássico “Documento/Monumento”, quando disse que “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada [...] pelas forças que operam11” fui levada a arquivos pessoais, bibliotecas (municipais, estaduais e federais), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas e Arquivo Público de Mato Grosso.

Recolhendo as mais diversas fontes documentais como: fotografias, folhetins, livros de recordações individuais, Censos demográficos, levantamentos sobre economia e as fontes jornalísticas.

9 Depoimento da senhora Edinalva Caldeira Rosa, Várzea Grande. 21/08/2009

10 BENJAMIM, W. Magia e técnica, arte e política –ensaios sobre literatura e historia da cultura. Obras escolhidas, Vol. 1. São Paulo: Brasiliense.

11 LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.

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Foi caminhando entre “documentos” e “monumentos” que procurei explorar ao máximo o que cada fonte tinha a me oferecer para a produção dessa dissertação. Me valendo dos ensinamentos de Michel de Certeau, quando disse que: é na fronteira entre o dado e o criado e finalmente entre a natureza e a cultura, que ocorre a pesquisa” 12 entendi que o papel do historiador é trabalhar sobre o material para transformá-lo em história.

Outra grande contribuição veio de Paul Veyne quando afirmou que o conhecimento do passado não é um dado imediato, e ainda me ajudou a entender como encarar o documento, segundo Veyne:

Existe de fato, grande número de lacunas no tecido histórico, pela razão que há também uma grande quantidade entre essa espécie muito particular de eventos que denominamos documentos que a historia é conhecimento por vestígios. [...] por mais numerosos que sejam, os documentos são necessariamente indiretos e incompletos; deve-se projetá-los sobre um plano escolhido e ligá-los entre si13.

Foi realizando ampla pesquisa, refinamento, dialogo entre as fontes e uma trama que englobasse os objetivos e curiosidades suscitados no decorrer da pesquisa documental que busquei “tapar os buracos” e os percalços que me foram impostos.

Foi somente na década de 1970, ou seja, depois de mais de 100 anos da fundação de Várzea Grande que houve as primeiras tentativas de produzir uma história da cidade. Durante a gestão de Julio Campos no governo de Mato Grosso foram produzidos livretos com os perfis dos municípios que existiam até aquele período e a primeiro livreto lançado foi o que trazia a história de Várzea Grande, tal trabalho teve como foco de sua escrita a construção do discurso que colocava Várzea Grande como sendo a Cidade Industrial do Estado. Outro assunto que tomou bastante espaço nessa publicação foi o destaque que deu a um grupo de pessoas que foram denominadas as “principais famílias de Várzea Grande”. Neste espaço só foram citadas as famílias de pessoas que figuravam no cenário político, municipal, estadual e federal.

Para trabalhar com esses dados foi bastante proveitosa a leitura de A historia vigiada de Marc Ferro, em especial a primeira parte: A Historia institucional. Neste capitulo o autor

12 CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. p.78

13 VEYNE, Paul. Como se escreve a historia e Foucault revoluciona a historia. Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 4ª edição revisada, 1998. p.124

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abordou as formas de controle do discurso como sendo reflexo das relações de poder. Para o meu trabalho esse esclarecimento foi importante para perceber que na tentativa de sustentar o discurso de Cidade Industrial, e próspera e assim enaltecer a figura dos prefeitos, houve uma supervalorização do período contemporâneo, colocando toda a história da cidade como sendo uma espera até a chegada do momento da glória. Cabe ressaltar que a família Campos exerceu verdadeiro monopólio sobre o cenário político em Várzea Grande.

Diante da escassez de bibliografia que tratasse sobre a cidade de Várzea Grande, esse estudo baseou-se, sobretudo, em fontes primárias. O levantamento das fontes impressas, especificamente, jornais, foi realizado durante 3 anos no Arquivo Público Estadual de Mato Grosso, tendo como resultado a confecção de um catálogo com todas as notícias relacionadas à Várzea Grande. Esse levantamento foi feito nos jornais: Correio Várzea Grandense, O Correio, Olho Vivo, Jornal do Comércio e Industrial, Bom dia Mato Grosso, Jornal Eco/Um e Jornal Farol do Norte.

A confecção desse catálogo foi somente o primeiro passo. O segundo passo foi realizar uma ampla investigação contextual para entender acerca das forças acionadas para que fossem veiculadas tais noticias. Tive como norte para as minhas analises documentais, sobre fontes impressas, o artigo História dos, nos e por meio dos periódicos, de Tânia Regina de Luca. Neste artigo, além de abordar a forma como foi sendo incluída esse tipo de fonte na produção historiográfica, a autora prestou uma grande contribuição, dando importantes sugestões que foram utilizadas nesse projeto como: caracterização do grupo responsável pela publicação, indicação dos principais colaboradores, identificação do público a que se destinava, analise de todo o material de acordo com a problemática escolhida por essa dissertação.

A intenção de trabalhar a cidade a partir de suas representações, especialmente as fontes impressas surgiu, pois durante o período de pesquisa se mostraram bastante abundantes e férteis.

A maneira como encaro essa fonte partiu do entendimento que a imprensa registra, comenta e participa da história14, sendo assim a sua analise foi realizada, não como um “meio” de obter informações, mas sim, como um agente da história que conta.

Como ressalta Maria Helena Capelato, a informação é um direito público, mas o jornalismo é, geralmente uma atividade exercida no setor privado15. Sendo assim os interesses representados são os de quem escreve o jornal, mas que, contudo, perpassa por uma relação,

14 CAPELATO, Maria Helena Rolim. A imprensa na história do Brasil. São Paulo: Contexto/Edusp, 2ª edição:1994.

15 Op. Cit, 1994

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como lembra Pierre Bourdier16, com a clientela, pensando nessa clientela não somente como o leitor e sim, em uma rede de interesses que englobam agentes políticos e econômicos.

O jornal que mais utilizei foi o “Correio Várzea Grandense”, cuja leitura me levou a perceber fortes simpatias com o PDS (partido sucessor do ARENA17),e que dominava o cenário político em Várzea Grande. Contudo, lembrando o que Foucault dizia em “A ordem do discurso”: Por mais que o discurso seja bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação como desejo e com o poder18.

Ao observar a forma como as noticias eram distribuídas nos periódicos e o conteúdo das mesmas, como o destaque as “grandes obras” que estavam sendo construídas, pude realizar uma leitura dos desejos de uma elite que visava a manutenção do poder em Várzea Grande.

Escolher trabalhar com fatos recentes, ou seja, o “tempo curto” possibilitou a utilização de uma importante fonte histórica, a fonte oral. Entendo a “Historia Oral” como um procedimento metodológico de pesquisa e de constituição de fontes para o estudo da historia contemporânea. Não foi a ausência de documentação escrita que me levou a realizar as entrevistas, pois como afirma Regina Beatriz Guimarães Neto: é necessário reconhecer que a fonte oral não é o “outro” da fonte escrita: fazem parte, tanto uma, quanto outra, do sistema escrituarístico moderno, operando com os mesmos códigos de referencia cultural.

A inclusão das fontes orais neste trabalho deveu-se a uma escolha pessoal e a um posicionamento teórico dentro do campo da historiografia contemporânea. A historia que desejei contar teve como ponto de partida uma absoluta rejeição a historia “oficial” da cidade. Escolhi narras as vivencias de homens e mulheres “comuns” que transitaram pelos caminhos amazônicos e dentro da cidade estabeleceram um sem-número de relações e a transformaram, seja o seu espaço físico, seja na forma de representá-la pelas teias da memória.

As entrevistas foram realizadas, pois acredito que me ajudaram a trazer novas versões da história da cidade. Pois, percebi que nos jornais, quando falavam sobre as políticas que viabilizaram a ocupação de norte, buscavam apresentar somente a construção de estradas, pontes

16 BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1997.

17A ARENA, ou Aliança Renovadora Nacional foi um partido político criado com a intenção de apoiar ao governo instituído a partir do AI-1. Foi fundada no dia 4 de abril de 1966, era um partido fundamentalmente

conservador. Sua criação foi a partir da instauração do bipartidarismo pelo AI-2 de 27 de outubro de 1965

que determinou a extinção do pluripartidarismo. Em 1980, o pluripartidarismo foi legalizado novamente.

18 Foucault, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 6a edição, Tradução de Laura de Almeida Sampaio. 1998.

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e uma série de coisas que se faz com cimento, mas o que me interessou foi seguir os rastros de sangue, pois como Marc Bloch colocou, nós os historiadores somos como os ogros que farejam o cheiro do sangue humano. As estradas me interessaram a partir do momento que percebi pés caminhando sobre elas, as pontes me interessaram para entender quem elas estavam ligando a quem.

Trabalhar com as fontes orais exigiu ampla leitura para entender o uso desse tipo de fonte em todas as suas dimensões, teóricas e metodológicas. Os autores que mais me ajudaram foram:

Janaina Amado e Marieta de Moraes19, Marluza Harres20, Antônio Torres Montenegro21, Foucault22e Regina Beatriz Guimarães Neto23.

Aprendi que para quem se dispõe trabalhar com relatos orais o ouvido é o órgão mais importante do corpo. Citando Ecléa Bossi: A memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento [...] Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito (BOSI, 1983, p. 03). Corroborando com essa fala temos a de Antonio Torres Montenegro quando afirma que: o entrevistador deve colocar-se na postura de parteiro de lembranças, facilitador do processo que se cria de resgatar as marcas deixadas pelo passado na memória.

Os momentos que passei com meus entrevistados jamais poderão ser transmitidos em sua totalidade.

Para melhor compreensão entendo que é preciso deixar evidente o questionário realizado para localizar de onde partiram as respostas, dividi meus entrevistados em dois grupos:

migrantes e antigos habitantes. Para os migrantes as questões foram: a trajetória dos migrantes

19 AMADO, Janaina e FERREIRA, Marieta de Moraes. Usos e abusos da historia oral. Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas , 1996.

20 HARRES, Marluza Marques. História oral: algumas questões básicas. Anos 90 (UFRGS. Impresso), v. 15, p. 99-112, 2008.

21 MONTENEGRO, Antônio Torres. Historia oral e memória: a cultura popular revisitada. 6ª Ed. São Paulo:

Contexto, 2007.

22 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.

23 GUIMARÃES NETO, Regina B. A lenda do ouro verde: Política de colonização no Brasil Contemporâneo. Cuiabá, Unicen, 2002.

_________________. Cidades de Fronteira. In: SILVA, Luiz Sérgio Duarte da (org.).

Relações cidade-campo: Fronteiras. Goiânia: Ed. UFG, 2000. p. 181 – 193.

_________________. Artes da Memória, Fontes Orais e Relatos Históricos. In: História e Perspectivas, n. 23 – jul.dez. 2000 – Uberlândia/MG. 2000. p 99 – 114.

________________. Vira mundo, vira mundo: trajetórias nômades. As cidades na Amazônia. In:

Projeto Historia: revista do Programa de Estudos pós-graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Nº(1981). São Paulo: EDUC, 1997. P.49-69.

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até chegar a Várzea Grande, maneiras de conseguir moradia, lugares por onde trabalhou e lugares de diversão. Para os antigos habitantes procurei investigar as representações que fizeram dos migrantes e as percepções que tiveram ao ver a cidade crescendo com a chegada de novos habitantes. Utilizando-me das representações produzidas pelos indivíduos que me prestaram depoimentos procurei escrever um texto sobre acontecimentos vivenciados na coletividade onde não me preocupei em extrair a “verdade” ou a “realidade” dos acontecimentos respeitando o tempo da memória de cada um dos entrevistados, procurando valorizar e tratar os relatos nos parâmetros do ofício do historiador.

No primeiro capitulo procurei centrar minha narrativa nos mecanismos que inseriram Várzea Grande na epopéia da conquista da Amazônia. Para tal busquei na bibliografia existente compreender de forma ampla o que significou para os habitantes da Amazônia os investimentos tanto do Governo Ditatorial quanto das empresas privadas que se instalaram na Amazônia, sobretudo na parte que cabe a Mato Grosso nesse processo. Assim pude perceber um jogo de estratégias muito bem arquitetado do qual de diversas maneiras pessoas, principalmente, do Sul e do Nordeste e demais partes do Brasil se direcionaram para a Amazônia atraídas pelas propagandas de bonança que eram veiculadas pelo Estado aliado à iniciativa privada.

Nesse cenário de euforia temos a cidade de Várzea Grande que segundo narraram suas crônicas, possuía uma vida econômica inexpressiva no cenário estadual e uma densidade demográfica baseada no setor rural e mesmo assim baixa. A centenária “Várzea dos vaqueiros”, como a chamava o Coronel Ubaldo Monteiro tinha em sua historia um fator que passava despercebido pelos que visaram representá-la que era a sua posição na configuração geográfica do Estado.

Sendo local de passagem desde tempos anteriores a sua fundação, em 1970 Várzea Grande tinha seu território cortado pelas principais rodovias federais do período a BR-364, a BR- 070 e a BR-163, assim a cidade passou a receber uma quantidade imensa de pessoas trafegando em seu espaço urbano mais sem efetivamente se apropriar do espaço. Eram homens e mulheres de difícil captura que em razão de suas práticas na cidade escorregam de nossas mãos como um punhado de areia. Esses personagens mesmo não se fixando na cidade contribuíram para que novas cartografias da cidade fossem produzidas.

Esses personagens circulavam em Várzea Grande, pois, sendo um local de passagem a cidade também era um grande entreposto comercial, onde se vendia de tudo. Essa outra característica da cidade proporcionou que novas práticas culturais fossem inseridas e novos personagens adentrassem em nossa história. Tais relações só foram possíveis porque durante o

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período analisado todo o trafego das BRs passavam dentro do perímetro urbano de Várzea Grande, situação que só foi alterada no fim da década de 1990.

Para apresentar esses atores me apropriei da estrutura do baralho de Tarô onde encontram-se uma série de iconografias de personagens que são representados por signos que emitem um sem-número de possibilidades de interpretações que são lidos de acordo com a posição que são postos à mesa. Inspirada na capacidade das ciganas em contar suas histórias, algo que se a assemelha ao que nós historiadores fazemos, que é transformar um objeto em historia, transformei diversas categorias de migrantes que transitavam por Várzea Grande no anonimato em personagens de um novo baralho confeccionado de acordo com as exigências do ofício de historiadora.

As figuras retratadas foram: o comerciante, o migrante, o vendedor, o garimpeiro, a prostituta e o caminhoneiro. Cada qual nos mostrando uma faceta da cidade e todos contribuindo para essa dissertação síntese. Os personagens que escolhi, excetuando o comerciante e a prostituta, não tinham em Várzea Grande um “lugar”, propriamente dito, ou conceitualmente dizendo. Na conceitualização dos seus “não-lugares” o antropólogo francês Marc Àuge24 nos explicou o que vem a ser um lugar, segundo ele para um espaço se tornar um lugar é preciso que para o seu usuário ele possua três características: ser identitário, ser relacional e histórico. A imagem do viajante é por excelência a do freqüentador de não- lugares.

Capturar as representações dos que vivenciaram o dia-a-dia de uma cidade-rodoviária foi trabalhar com vestígios minúsculos. Para tal, foi preciso realizar um trabalho meticuloso de leitura e re-leitura das fontes impressas e dos relatos orais para que de fragmento em fragmento meus personagens ganhassem vida. Eram pessoas que circulavam nos mais distintos lugares da cidade sem estabelecer moradia.

Das figuras retratadas o comerciante foi o representado (por meio das fontes impressas) e quem produziu representações (por meio dos relatos orais), personagem central na trama foi ocupando a cidade e grande colaborador para a construção e manutenção do discurso de paraíso produzido sobre a Amazônia. Fio condutor de novos meios de se relacionar com o espaço o comerciante, em Várzea Grande, também trouxe muitas informações sobre os demais personagens dessa trama e com ele também chegamos ao migrante, ao vendedor, ao garimpeiro, a prostituta e ao caminhoneiro.

24 AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, Papirus.

1994

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A ordem do qual foram distribuídos no texto condiz com as transformações ocorridas na cidade em decorrência de suas práticas não perdendo o pano de fundo que foram as políticas que visavam o processo de re-ocupação da Amazônia. Assim temos o migrante que passava por Várzea Grande ajudando a impulsionar a economia da cidade que era um dos últimos referenciais de cidade para os que almejavam o norte e por isso era onde se comprava o necessário para continuar a viagem. A carestia que as novas cidades passavam devido a distancia que estavam dos centros comercias que eram Cuiabá e Várzea Grande propiciou que surgissem uma quantidade de pessoas que se tornaram elos entre os produtos e os consumidores. Destituídos de nomes os vendedores ambulantes iam de cidade em cidade revendendo produtos e era em Várzea Grande que repousavam antes de partir para o norte.

Mas o norte de Mato Grosso não era um lugar reservado somente para os colonos. Nos idos da década de 1970, Mato Grosso também passava pela euforia do ouro e muitas cidades foram fundadas com o estigma do sangue dourado. Evento que nos trouxe mais um personagem nômade na cidade, o garimpeiro. Este foi representado por donos de bares e hotéis que nos permitiu mapear alguns de seus passos pela cidade através de uma cartografia de suas práticas.

Pensar nas práticas de homens nômades na cidade excluindo a prostituta não seria escrever uma historia sobre abertura das fronteiras agrícolas em Mato Grosso. Eram mulheres que por sua distribuição no espaço citadino foram reveladoras do papel de entreposto comercial que a cidade se tornou.

Segundo os relatos e alguns recortes de jornal elas ficavam em torno das grandes avenidas que cumpriam o papel de ligação com o norte e ainda mais, a permanência delas em lugares como a Avenida da FEB nas imediações do Posto Zero Quilômetro obedeceu a esta lógica, pois as prostitutas só deixaram a ocupar, de forma mais intensa essas avenidas, quando o contorno Mario Andreazza foi construído e o transito dentro da cidade se normalizou. Esse dado me trouxe a figura do caminhoneiro que transitava pela cidade e também tinha no Posto Zero seu lugar de descanso e diversão. E é com a fim da circulação dos caminhoneiros pela cidade após a construção do contorno rodoviário Andreazza que a cidade passou a vivenciar outra lógica e crescer para outros lugares.

No segundo capitulo procurei focar minhas pesquisas nos migrantes que passaram a se estabelecer em Várzea Grande. Busquei entender quais teriam os eventos transformaram a cidade-rodoviária em um lugar propicio à moradia. Da segunda metade da década de 1980 até os dias atuais Várzea Grande passou a figurar no cenário estadual com tendo uma das com maiores densidades demográficas do Estado.

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As pesquisas de campo apontaram para dois grandes vetores de atração de migrantes:

facilidade em conseguir moradia e a instalação de indústrias em Várzea Grande, o que facilitava na conquista de empregos. Das práticas de se conseguir moradia percebemos a existência de quatro categorias: bairros mais antigos da cidade (com ocupação feita antes da década de 1960), loteamentos (lotes de terras que foram comprados depois da década de 1970 pela iniciativa privada), COHABs que atuou em Várzea Grande construindo bairros inteiros durante a década de 1980 até os dias atuais e grilagens.

Espalhadas por todos os cantos da cidade essas pessoas passaram por todo tipo de privações que uma cidade com pouca infra-estrutura e sem nenhum empenho em melhorar a situação de seus habitantes podia oferecer. Isolados na imensidão de sua própria sorte a único meio que tinham para conseguir melhorias era se unir. Assim chegamos às Associações de bairros que, em Várzea Grande, faziam o papel dos vereadores. Pois, eram elas que reivindicavam e levavam até o Poder Municipal as urgências dos bairros.

Em contrapartida às representações que encontrei sobre os bairros, que era de muita miséria, em Várzea Grande havia espaços que não sofreram tais privações e esses espaços eram os mini núcleos industriais que graças aos lucros que davam para a receita municipal eram favorecidas com tudo aquilo que os bairros não tinham como: água e energia.

As táticas e estratégias adotadas pelos habitantes da cidade proporcionou que Várzea Grande recebesse diversas denominações. As que são utilizadas até os nossos dias são:

Cidade-dormitório e Cidade Industrial. Ser denominada a cidade industrial de Mato Grosso fez com que grande quantidade de migrantes se direcionasse para Várzea Grande e nela se estabelecesse.

A narrativa sobre as indústrias em Várzea Grande foi feita a partir dos depoimentos orais e de uma seleção de manchetes de jornais que durante toda década de 1980 traziam semanalmente notícias sobre os núcleos industriais. Essas duas fontes travam um duelo sobre o que veio a ser a implantação dessas fabricas em Várzea Grande, pois os relatos me trouxeram as histórias de inserção no mercado de trabalho com salários baixos e condições de trabalho questionáveis. Já os jornais pintam um cenário de prosperidade e bonança. Foi nas fissuras de cada discurso que produzi um texto para retratar os atrativos para que migrantes viessem a se instalar em Várzea Grande.

No terceiro capítulo procurei entender como as pessoas que vieram dos lugares mais variados constituíram novas redes sociais. Quando comecei essa pesquisa, percebi que em Várzea Grande não existiu nenhum programa voltado para o estabelecimento de migrantes na

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cidade. Contudo, durante a década de 1980, observamos que a demografia desse município aumentou consideravelmente.

Em meio as pessoas que se estabeleceram em Várzea Grande, percebemos uma multiplicidade de práticas culturais que foram ocasionadas pelo fato de se tratar de pessoas, que segundo o IBGE, vieram de todas as regiões da federação.

Sobre as condições econômicas de homens e mulheres que se estabeleceram na cidade verifiquei que se tratava de uma população majoritariamente de baixa renda. Após reduzir a escala de observação, observei fatores que me possibilitou perceber que mesmo se tratando de pessoas economicamente pouco favorecidas, havia elementos que os distinguia.

Como representantes de uma parcela significativa dos habitantes de Várzea Grande, escolhi duas famílias para esse estudo sendo elas: os Gomes Sarat que se encontram em Várzea Grande desde o século XIX e os Caldeira Rosa que vieram para a cidade somente na década de 1980.

Após longa observação sobre as práticas culturais e sociais dessas famílias percebi que ambas se encontravam em condições econômicas semelhantes. Contudo, para os Gomes Sarat conseguir residência e emprego foi mais fácil.

Utilizando os aportes teóricos de Norbert Elias e John Scotson no livro “Estabelecidos e Outsiders” consegui entender melhor como pensar essa situação. Com auxílio dessa obra percebi que devido a uma rede social bem consolidada os Estabelecidos conseguiam melhores cargos de empregos que os outsiders. Pois, os outisders eram pessoas recém chegadas na comunidade e não conseguiam se inserir em uma rede social. Para esse trabalho me foquei nas táticas e estratégias adotadas por ambas famílias para conseguir emprego e moradia. Esses dois elementos se apresentaram como os maiores aspectos de distinção entre esses dois grupos sociais.

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CAPÍTULO I

A CIDADE COMO UM LUGAR DE PASSAGEM

Todos os dias é um vai e vem a vida se repete na estação Tem gente que chega pra ficar Tem gente que vai pra nunca mais Tem gente que vem e quer voltar Tem gente que vai e quer ficar Tem gente que veio só olhar Tem gente a sorrir e a chorar

(Encontros e Despedidas – Milton Nascimento).

Instalado, por razões que só a natureza pode explicar, entre o chamado “sul maravilha” - São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul - e o “eldorado amazônico”25, o estado de Mato Grosso teve sua demografia aumentada vertiginosamente durante as três últimas décadas do século XX. Resultado de movimento migratório, o aumento demográfico fora impulsionado por mecanismos públicos e privados que fizeram chegar ao estado grupos sociais provenientes de diversos pontos do país.

Quanto aos grupos sociais que adentraram o território matogrossense a partir de 1970, afirmou a historiadora Regina Beatriz Guimarães Neto, que produziam deslocamentos diversos fazendo do território um espaço onde homens e mulheres pobres estavam à procura de terra e trabalho26.

Seguindo na trilha deixada por uma parcela de indivíduos que fizeram parte destes grupos é que centramos nosso olhar em migrantes que adentraram o território mato-grossense e que, guiados pelo sonho de melhoria de vida, chegaram à cidade de Várzea Grande. A cidade, como lugar de múltiplas relações sociais e de grande dinamismo, nos permite ser pensada como um lugar de “Encontros e Despedidas”.

25 A busca de uma ‘fala’ amazônica. Várzea Grande: Jornal Correio Várzeagrandense, 14/03/84 a 10/03/84.

26 Regina Beatriz Guimarães Neto. A lenda do ouro verde: Política de colonização no Brasil Contemporâneo. Cuiabá, Unicen, 2002.

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Várzea Grande, entretanto, cuja formação remete à segunda metade do século XIX - exatamente à data de 15 de maio de 1867 -, ainda não teve sua história adequadamente explorada pela produção histórica regional. Os trabalhos existentes são raros, mesmo assim, foram eles que nos permitiram conhecer aspectos de sua formação e desenvolvimento, deixando bastante evidente também a urgência em se produzir trabalhos que a tragam como objeto de estudo27.

A Várzea Grande que se delineou em nossa pesquisa constituiu-se lentamente através da leitura da documentação encontrada acerca de fatos ocorridos no Brasil e Mato Grosso a partir da década de 70 do século XX. Neste conjunto documental e de restrita bibliografia, ao entrarmos em contato com uma estatística de crescimento populacional, chamou-nos a atenção o crescimento urbano do município, principalmente, com relação ao período entre 1970 a 2000.

Estes números aguçaram meu olhar na tentativa compreender melhor este fenômeno e os processos atrelados a ele. Conforme tabela, que fora retirada do censo realizado pelo IBGE no ano de 2000, temos o seguinte:

Tabela 01 – Evolução da população geral no município de Várzea Grande.

Tabela 1 Evolução da população geral no município de Várzea Grande

ANOS 1950 1960 1970 1980 1991 1996 2000

HABITANTE S

5.503 10.834 18.305 76.676 161.958 193.401 215.298

Fonte: IBGE – Censo Demográfico, ano 1940, 1950, 1960, 1991, 1996 (contagem), 2000. Org. Maria Lucia Coradini de Campos.

Conforme nos mostrou a tabela acima, o ano de 2000 apresentou um total de 215.298 habitantes/km² para o município de Várzea Grande. Este número, embora significado não representava um problema com relação à acomodação da população no território do município - cuja extensão é de 938 km², de acordo com dados extraídos do Plano Diretor do município. Além disso, havia afirmado o ex-secretário de planejamento

27 Entre os trabalhos que trazem pistas sobre Várzea Grande podemos citar: Ubaldo Monteiro. No portal da Amazônia: o 1º século do município industrial de Várzea Grande. Goiás: Rio Bonito, 1970; Luiza Ricci Rios Volpato. Cativos do Sertão: Vida cotidiana e a escravidão em Cuiabá (1850-1888). São Paulo: UFMT/Marco Zero, 1993; Maria Adenir Peraro. Bastardos do Império: família e sociedade em Mato Grosso no século XIX. São Paulo: Contexto, 2001. Estes trabalhos, a exceção do primeiro, não possuem Várzea Grande como foco principal de suas análises, trazem informações relevantes sobre o lugar.

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de Várzea Grande que, desde o ano de 1984 o município já era capaz de abrigar 600 mil pessoas28.

Embora o discurso governamental tenha dado conta de abrigar a população, o número é significativo o suficiente para nos questionamentos quanto a um crescimento que devemos considerar no mínimo abrupto.

Apesar das supostas condições do município, 215.298 habitantes vivendo em Várzea Grande chamou-nos atenção por estar em certo descompasso em relação aos anos anteriores.

Percebemos, através do caminhar de nossa pesquisa, que fora durante as décadas de 1980 e 1990 os anos de maior aumento da população. Contudo, as investigações nos mostraram que tal situação não ocorrera somente em Várzea Grande, mas em todo o Estado de Mato Grosso.

Estudos sobre Mato Grosso das três últimas décadas do século XX apontaram uma série de mecanismos implantados sobretudo pelo Governo Ditatorial no sentido de promover e facilitar a ocupação da parte norte do Estado. Estas ações tornaram possível a vinda desse contingente.

Neste conjunto, o município de Várzea Grande, fosse pela vizinhança com a capital do estado, Cuiabá, fosse pela posição geográfica que ocupa, teve sua história entrelaçada com os eventos que se convencionaram chamar: “processo de reocupação das terras amazônicas”.

Desde meados do século XX a Amazônia passou a receber maiores investimentos por parte do Estado. Contudo, foi durante o Governo Ditatorial - implantado no Brasil após o golpe militar de 1964 -, que o Governo Federal e a iniciativa privada alcançaram seus braços na Amazônia e empreenderam um “mega-projeto” de ocupação do território. Neste projeto foram reestruturados órgãos federais de planejamento regional; determinaram-se políticas estaduais;

criaram-se novas políticas territoriais e programas de desenvolvimento agropecuário e agromineral para a Amazônia e também alguns projetos de “colonização”29

O projeto do governo ditatorial para Amazônia tinha - no discurso oficial -, a preocupação de ordem estratégica na extensa fronteira da Amazônia com os seus países vizinhos.

28 Em Várzea Grande a prefeitura incentiva a criação de novos núcleos industriais. Correio Várzeagrandense. Várzea Grande. 23/11/85. Página 13.

29 Regina Beatriz Guimarães Neto. Vira mundo, vira mundo: trajetórias nômades. As cidades na Amazônia. In: Projeto Historia: revista do Programa de Estudos pós-graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Nº (1981). São Paulo:

EDUC, 1997, p. 52.

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Contudo, Regina Beatriz Guimarães Neto30 nos mostrou que devemos olhar para esse processo na perspectiva das ações efetivas de um amplo mercado de vendas de terras, representado pelas iniciativas dos núcleos de colonização criados sobretudo para viabilizar uma política de ocupação de grandes áreas da Amazônia. Ela afirma ainda que tais políticas foram iniciativas e estratégias de controle ao acesso à terra e ao mercado de mão de obra31.

Na década de 1970 foi lançada a “Operação Amazônia”, cujo lema era “Integrar para não entregar” e cujo objetivo era sanar os problemas da região amazônica, motivo pelo qual foram sendo criados órgão federais como: a SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o BASA (Banco da Amazônia). Também foram lançados programas como POLAMAZÔNIA (Pólo Amazônia), o POLONOROESTE (Pólo Noroeste), o POLOCENTRO (Pólo dos Cerrados) e o PROBOR (Programa da Borracha).

Quanto aos programas, o então secretário de Goiás Otton Nascimento, no jornal “A Folha de São Paulo”, fala em defesa dos programas federais dizendo:

O equilíbrio social do Brasil, do Nordeste, do Centro- Oeste e da Amazônia só poderá ser obtido por um equacionamento global do problema. De um lado, continuando os programas da SUDENE e da SUDAM e de outro, complementando estes com o desenvolvimento mais rápido da região do Centro-Oeste, a única capaz de receber e assimilar os excedentes populacionais do Nordeste e a fração migrante de outros Estados [...] não será difícil mostrar, ao agricultor que labuta duramente na terra nordestina, que a vida lhe será mais fácil32.

Eram mensagens como estas que, veiculadas pela mídia nacional pela voz de um representante do Poder Público que reforçavam: por um lado, o caráter de missão que deveria ser encarada por todos os brasileiros, pois, o que estava em jogo era o “equilíbrio social” do Brasil.

E por outro lado, a promessa de terra “boa e fértil” que, propagandeada como coisa ociosa estava à espera de homens que desejassem trabalhar.

O discurso vigente em fins da década de 1960 para Mato Grosso era o de que se este estado fosse dividido em lotes iguais por seus habitantes, cada habitante ficaria com mais de um quilômetro quadrado, pois tratava-se de uma extensão de 123.549 Km para uma população de

30 GUIMARÃES NETO, Regina B. A lenda do ouro verde: Política de colonização no Brasil Contemporâneo. Cuiabá, Unicen, 2002.

31 Regina Beatriz Guimarães Neto, op. cit., 2002.

32 “Centro-Oeste aberto aos nordestinos”. A Folha de São Paulo. 21/04/1968.

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1.200.000 pessoas33.

Para que houvesse maior facilidade entre os “homens sem terra” e a “terra sem homens”

um fator revolucionou o acesso à região amazônica e ao estado de Mato Grosso, e este foi a implantação de rodovias que foram construídas durante esse período.

Os principais eixos rodoviários eram: A BR-364 que corta o estado no sentido Sudeste- Oeste, entre o Rio Araguaia e Comodoro, seguindo em direção à Vilhena, Porto Velho e Acre; a BR-070, que corta o Sul do Estado entre Barra do Garças e a divisa com a Bolívia; a BR-174 corta a parte Sudoeste do Estado, entre Cáceres e a divisa com Rondônia; a BR-158, que corta a faixa Leste de Mato Grosso no sentido Norte – Sul, paralelamente ao Rio Araguaia entre Barra do Graças e Vila Rica; a BR-242, que liga um pequeno trecho entre São Félix e a BR-158 na altura do Posto da Mata, Nordeste do Estado; a BR-163, principal eixo rodoviário de Mato Grosso, vem do Mato Grosso do Sul, formado por Rondonópolis e Cuiabá e segue em direção ao Norte. Está BR margeia as pequenas cidades do interior em direção ao Pará34.

Antes da construção da BR-163, que hoje é a principal veia de ligação entre Cuiabá e as cidades do norte, a BR-364 possuía o mesmo destaque. Partindo de Cuiabá, a BR-364 era a espinha dorsal de uma área de influência de aproximadamente 410. 000 Km²35, atravessando os rios Paraguai e Guaporé e passando pela serra e o chapadão dos Parecis. Essa BR percorre todo o território de Rondônia no sentido norte/sul e se torna um elo artificial de ligação entre as bacias do Prata e a Amazônica. Segundo o Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER), entre 1981 a 1984 passaram cerca de 150.000 colonos por essa rodovia com destino à Rondônia36

O jornal “Correio Várzea-grandense” traz, em 1984 a reportagem do fim da pavimentação de mais de 1500 quilômetros da BR-364, observando, contudo, que nem a construção de Brasília havia feito melhor por uma representação acerca do Centro-Oeste e Mato Grosso.

Neste sentido, o diretor geral do DNER, à época João Cataldo Pinto, que fora responsável pela obra, pensara aquele momento como sendo: o fim de um histórico ciclo de abandono e

33 Mato Grosso: muita terra e pouca gente. A Folha de São Paulo. 21/04/1968, p 01.

34 “Na Couto Magalhães, a rota para a conquista de uma vida nova”. Várzea Grande. 19/02/84 a 25/02/84. Correio Várzea-Grandense, p. 10-11.

35“Figueiredo torna real o sonho de Rondon”. Correio Várzea-grandense. Várzea Grande, 15/09/1984, p.09-07.

36 Idem.

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descaso de sucessivos governos e que só foi rompido pela indomável coragem do homem interiorano37.

O termo “integração”, que circundava os discursos acerca das rodovias, apresentava dupla função. Por um lado, transformava Mato Grosso em objeto de atração, ligando os migrantes ao “eldorado” amazônico; por outro lado, ligava o estado de Mato Grosso ao restante do Brasil.

O termo possui um forte sentido para o estado por remeter-se ao problema do

“isolamento” como uma percepção que permeou, por muito tempo, a história do Estado estando presente em textos de cronistas, viajantes e até mesmo de alguns membros da academia.

O jornalista responsável pela matéria a respeito da extensão territorial do estado infelizmente não deixou vestígios de sua identidade. Porém, deixou-nos o relato de sua aventura de cerca de um mês na BR-364 em período anterior à sua pavimentação. Ele descreveu o sofrimento dos motoristas, que mesmo com dinheiro no bolso chegavam a ficar em média 15 dias esperando serem atendidos na estrada. Segundo o nosso autor desconhecido, alguns chegavam a passar fome por não ter meios de transpor as adversidades impostas pela selva amazônica.

Durante o período analisado, alguns membros da elite matogrossense escreveram sobre o momento que o estado estava, deixando registradas suas percepções acerca das mudanças ocorridas. Sobre a construção das novas rodovias Ubaldo Monteiro escreveu:

[…] a evolução mudou o mundo e Mato Grosso passou a sorrir com a construção das estradas de penetração, desbravando os sertões amazônicos, por onde trafegam milhares de automóveis conduzindo homens e cargas, na vertiginosa corrida do século XX, contrastando com o emperramento do progresso nos tempos imperiais e durante os primeiros lustros da época que vivemos38.

Esse sentimento de euforia com as novas medidas adotadas pela Federação para Mato Grosso, em contraste com o ressentimento da lembrança de períodos anteriores, também era compartilhado por Lenine Póvoas em seu livro: “Mato Grosso: um convite à fortuna”, de 1976.

No capítulo intitulado “Os índices da prosperidade” Lenine Póvoas diz o seguinte:

Tempo houve em que Mato Grosso figurava em último lugar em todas as estatísticas que se fizeram no país. Era

37 Idem.

38 MONTEIRO, Ubaldo. Várzea Grande: Passado e presente confrontos, 1867 – 1987. Cuiabá, Ed Policromos.

1988.

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como se dizia, o cerra-fila da Federação. Tal situação mudou. […] No que diz respeito ao aumento da população, Mato Grosso registrou, no decênio 1960- 1970, com exceção apenas do Distrito Federal, a mais alta taxa geométrica de incremento anual de população dentre todos os Estados e Territórios do Brasil39.

Na fala desses contemporâneos podemos observar que as rodovias que traziam pessoas e bens de consumo para o estado tornando-se verdadeiros signos do progresso.

Num mapa produzido pelo projeto de pesquisa: “Movimentos populacionais, cidades e culturas no ambiente amazônico” - que faz parte do Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal de Mato Grosso, encontramos elementos ricos em informação acerca dos meios de acesso utilizados por migrantes em suas trajetórias pela Amazônia.

O mapa nos mostrou que nos caminhos utilizados para se chegar às sedes municipais - que eram os principais pólos de atração de migrantes - Várzea Grande era passagem obrigatória.

Porém, pela proximidade que está possui com a cidade de Cuiabá, Várzea Grande quase não aparece no mapa. A representação cartográfica apresenta o município apenas na marca de “sedes municipais”.

Como se percebe, Várzea Grande é representado por um quadrado azul claro do lado de um quadrado maior, na cor vermelha, que representa Cuiabá. Essa alegoria ilustra um pouco a relação existente na produção histórica dessas cidades.

39 Lenine Póvoas. Os índices de prosperidade. In:___. Mato Grosso: um convite à fortuna.

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Figura 1 Mapa Amazônia Legal

Foi nesse contexto social e político que foram implantados, especificamente nas décadas de 1970-80, os núcleos denominados projetos de colonização que foram responsáveis pelo surgimento de centenas de cidades de pequeno porte em toda a extensão da Amazônia, sobretudo, na parte norte de Mato Grosso. Os estados mais atingidos por este fenômeno foram Mato Grosso e Rondônia.

De acordo com os dados fornecidos pelo INCRA-BR (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em 1981, de um total de 101 empresas de colonização autorizadas à funcionar inicialmente no país, no período de 1970 a 1981, aproximadamente 42% estavam localizadas no estado de Mato Grosso40.

40 Regina Beatriz Guimarães Neto. Vira mundo, vira mundo: trajetórias nômades. As cidades na Amazônia. In: Projeto Historia: revista do Programa de Estudos pós-graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Nº (1981). São Paulo:

EDUC, 1997, p. 52.

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