Terceira Margem 25 anos depois: relato de experiência crítica lúdica no limiar da convergência do rádio FM em Belo Horizonte 1

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Terceira Margem – 25 anos depois: relato de experiência crítica lúdica no limiar da convergência do rádio FM em Belo Horizonte

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Adriana Miranda 2 , Leo Cunha 3 , Nina Pena 4 , Nísio Teixeira 5 ,

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG) Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG) Resumo

Este trabalho aborda a trajetória do programa Terceira Margem na rádio Geraes FM, em Belo Horizonte, nos anos de 1994 e 1995, com base na releitura das laudas, informativos disponíveis e reaudição dos programas preservados. Os objetivos incluem detectar como o programa se encaixava neste paradigma diferenciado, mas frustrado em suas próprias limitações, em torno do modo lúdico do comunicador existente na rádio Geraes e minimizar lacuna de estudos sobre processos de tomada de decisões de programação de rádio musical, aqui evidenciada por: 1) locução como dicção cotidiana (coloquialidade); 2) crítica musical exercida em três camadas: escolha das músicas, concepção da programação e conexões extra-artísticas e 3) intertextualidade multimidiática do programa em estratégia estética, editorial e comercial como exercício (analógico) antecipado dos processos de convergência entre rádio e mídias sociais hoje possíveis no ambiente on line

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Palavras-chave: rádio; rádio Geraes FM; programação musical; memória; Belo Horizonte Introdução

No dia 30 de janeiro de 2006, a rádio Geraes FM - frequência 91,7 - realizava a sua última transmissão em Belo Horizonte, colocando um ponto final numa curta, porém renomada existência de quase 15 anos. A experiência da Geraes repercutiu nas rádios FM já existentes na capital mineira, como Guarani e Inconfidência, e ao mesmo tempo também nas emissoras vindouras, como a UFMG Educativa. Assim, a emissora se incorpora à história do rádio belo-horizontino, que remonta aos anos 1920 (MARTINS, 1999).

Propõe-se aqui um olhar retrospectivo para um dos programas da Geraes FM, o Terceira Margem, um quarto de século depois de seu fim, em março de 1995. Apesar da

1Trabalho apresentado no GT História da Mídia Sonora, no VI Encontro Regional Sudeste de História da Mídia.

2 Jornalista, produtora e apresentadora do Terceira Margem, egressa do curso de Comunicação Social da PUC-MG.

E-mail: drixgmiranda@gmail.com

3Jornalista e escritor, produtor e apresentador do Terceira Margem, egresso do curso de Comunicação Social da PUC-MG.

E-mail: escritor.leo.cunha@gmail.com

4 Jornalista e publicitária, formada pelo curso de Comunicação Social da UFMG. E-mail: ngpena@gmail.com

5 Orientador do trabalho. Jornalista e professor do departamento de Comunicação Social da UFMG. Produtor e apresentador do Terceira Margem. E-mail: nisiotei@gmail.com . Texto desenvolvido a partir de resumo expandido apresentado ao Grupo de Trabalho Memória e Música do VI COMÚSICA, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Cachoeira / São Félix - BA, 03 a 05 de julho de 2019, a cujos comentadores autores e autoras agradecem a contribuição.

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curta existência do mesmo, através dele constatam-se muitas evidências da programação da Geraes FM como um todo. E, como reflexo das mesmas, talvez a experiência do Terceira Margem tenha constituído um exemplar daquilo que Ferraretto (2014) aponta, citando Jost (2001), como um elemento lúdico de organização e manifestação da programação e locução em rádio - em contraponto ao elemento autentificante e ficcional.

O modelo proposto por François Jost (2001) para a análise e compreensão do conteúdo televisivo contempla três modos de emissão: (1) autentificante; (2) ficcional; e (3) lúdico. Sem desconsiderar os demais, pretende-se demonstrar que o primeiro possui maior relevância para a compreensão do papel do comunicador radiofônico ao longo da história. O modo autentificante engloba emissões que, de acordo com o pesquisador francês, “possuem asserções verdadeiras sobre o mundo, fornecendo informações para ampliar o conhecimento e que se destacam, em última instância, como um exercício da prova” (JOST, 2001, p. 19) (…) Em relação ao modo ficcional, Jost salienta que este, embora se posicione no polo oposto ao do real, não se relaciona com a falta de veracidade ou com a mentira: “Nós aceitamos que o autor parte de assertivas verdadeiras e faz com que estas pareçam reais.Este fazer-parecer condiciona de outra maneira a nossa recepção” (JOST, 2001, p. 21). (…) Fazendo referência a Umberto Eco, François Jost observa que alguns programas fogem à oposição entre o real e o ficcional. Insere, assim, a ideia do modo lúdico, em outras palavras, a possibilidade de o comunicador brincar com a audiência. Como o modo autentificante, supõe discursos de veracidade, mesmo que eles sejam parciais e estejam reduzidos a um simples jogo de perguntas e respostas. Apoia-se sobre seres de carne e osso que autentificam e garantem o bom desenvolvimento de uma assertiva. No entanto, como o modo ficcional, possui regras autônomas em certos casos distantes do cotidiano. Como a ficção também, sua coerência é avaliada com base em regras de jogo, que são dadas ao telespectador. (JOST, 2001, p. 21 apud FERRARETO, 2014, p. 63-65)

Examinaremos adiante, com detalhes, as maneiras como o programa Terceira Margem adotou e construiu sua dicção lúdica. Porém, internamente, ele também se situava em uma estrutura de convergência editorial, estética e comercial que não prosseguiu adiante, ainda que inserido, à época, na articulação inovadora entre música e radiodifusão (KISCHINHEVSKY, 2011) então desenvolvida pela Geraes FM. A qual, todavia, também se revelou insuficiente para reprogramar a emissora, cuja trajetória não sobreviveu ao momento histórico, tecnológico e crucial de transição, entre “a segmentação (a partir dos anos 1950 até o início do século XXI) e convergência radiofônica (meados dos anos 1990 até a atualidade)”. (FERRARETO, 2014, p. 68)

Como uma rádio FM dos anos 1990, a Geraes FM, portanto, experimentava a um só tempo a segmentação e convergência. Mas também vivenciava período limiar de uma

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relação simbiótica com a indústria fonográfica, como indica Kischinhevsky (2007) na ocupação e exploração e comercial da FM. Porém, em contexto pautado por multiplicidade da oferta em movimentos contraditórios que testemunham redefinições empresariais em meio à transição aos suportes digitais, “um processo em que grandes grupos de comunicação acabam investindo em novos negócios muito diversos entre si, temendo ficar para trás e perder mercados, diante de um cenário de crescente competitividade.”

(KISCHINHEVSKY, 2016, p. 43)

Ainda para o autor, se de um lado a presença de pequenas e médias empresas de comunicação ajuda a preservar uma certa independência e autonomia locais, por outro, a interrupção de investimentos publicitários combinada com concentração do mercado

“levam as emissoras a cortar custos e a buscar ganhos de escala. Estações independentes de grandes redes automatizam de forma crescente sua programação, abrindo mão até de locutores na maior parte de seus horários”. (KISCHINHEVSKY, 2011, p. 255).

Parece-nos, precisamente, que este foi o arco do caso e do ocaso da Rádio Geraes FM. De uma iniciativa local apresentada como alternativa à programação na FM belo-horizontina, testemunhou e sofreu impacto, no curto espaço dos quase 15 anos de sua existência, de boa parte desses elementos de transição editorial, tecnológica e econômica pelas quais passaram as rádios FM brasileiras no período. O que culminou em sua venda em 2006 para a rede Mix FM, então presente em mais de 20 praças no Brasil.

Mas no momento de inauguração da rádio, a história e a perspectiva eram outras . Em 5 de junho de 1991, reportagem de Veja Minas Gerais 6 anunciava em tom promissor a proposta da emissora, então veiculada experimentalmente por cerca de um mês. Ouvintes, empresários locais, concorrentes e divulgadores de gravadoras apontavam pioneirismo e originalidade. Dali em uma semana a Geraes FM seria oficialmente inaugurada:

A rádio Geraes mostrou-se original em termos de segmentação, apresentando uma proposta tão interessante quanto arriscada no que diz respeito ao aspecto comercial, na contramão das tendências nacionais nos anos 1990 e remetendo aos moldes norte-americanos de FM. Além da postura de curadoria musical, foi possível identificar inovação na valorização do jornalismo cultural – que também servia-se de uma curadoria exigente – e nas estratégias publicitárias, que propunham acordos e parcerias que estão bastante em voga nos dias de hoje e costumam ser referidas como atitude de vanguarda. (PENA, 2017, p.51)

6 REVISTA VEJA - MG. Uma nova onda no ar. Revista Veja – Minas Gerais , Belo Horizonte, 5 de junho de 1991, n. 23, p.4-5.

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Como exemplos, partimos de programetes variados indicados no trabalho de Nina Pena (2017), pautados em cultura e informação e dispostos ao longo da programação da rádio como o “Artes Geraes” (por Andrea Lanna, artista plástica); “Ciências Geraes” (Rui Medeiros, professor); “Unimed Saúde” (Marcus Bolívar, médico); “Momento Gourmet”

(Eduardo Maya, que originou o festival Comida di Buteco). Esta estratégia traria sempre a presença de um “comunicador autentificante” como apontado por Ferraretto, mas distribuído por estes programetes-pílulas ao longo da programação diária e marcado pelo uso de uma dicção cotidiana como gesto inovador e marca característica da rádio. Inácio Neves, diretor da rádio relata:

Durante Congresso Nacional de Rádio em BH um apresentador da Eldorado FM - uma rádio que era considerada vanguarda pela própria equipe fundadora da Geraes - ouviu o programa “BH Memória”, que contava a história da cidade através da arquitetura, e pediu permissão para reproduzir o formato. Os próprios funcionários da rádio também participavam como colaboradores. O “Pera, uva, maçã” informava a programação infantil na cidade e era apresentado por filhos de funcionários. Carlos Ivan tinha um programa de blues e a locutora portuguesa Catarina Calvo assumiu o especial de jazz, enquanto Waleska Falci comandava o dançante

“Tutti-Frutti”, animando as noites de sábado.(PENA, 2017, p. 42)

O trabalho de Pena (2017) também reitera, nesse sentido, como as vozes das Geraes eram jovens e praticamente estreantes, seguindo a proposta compartilhada por Inácio Neves e pelo concessionário João Guimarães de “não levar vícios” para a rádio. Waleska Falci, hoje na rádio Inconfidência FM, Alda Rezende (hoje cantora), Catarina Calvo, Adriana Braga, Ediney Barbosa, Luis Fernando e ainda Paulo César Toledo - que chegou a ser coordenador artístico na Geraes e depois na rádio Guarani FM – foram alguns nomes do núcleo de locução. De acordo com Kiko Ferreira, programador da rádio nos primeiros anos,

a equipe da Geraes era muito unida e todos tinham um bom conhecimento geral e muita interlocução com a cidade, com movimentos culturais.

Apesar disso, a ideia era que na programação em geral predominasse o conteúdo musical , não se requeria que locutores de horários regulares falassem muito . A informação devia ser pontual e precisa, trazida pelos jornalistas e/ou por especialistas em suas respectivas áreas no caso de programas temáticos específicas ou sobre gêneros musicais. (FERREIRA in PENA, 2017, p. 42. Grifos nossos)

Aspecto interessante porque, em nosso ponto de vista, mostra como a tônica autentificante da programação da Geraes ao longo do dia permitiria um fechamento noturno com algo no sentido oposto: bem mais aberto e experimental. A faixa a partir das 22 horas

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poderia abrigar “programas especiais”, os quais, no dizer de Kiko Ferreira, eram “'um momento de rebeldia'; quando a preocupação com as regras de programação era momentaneamente suspensa” (FERREIRA in PENA, 2017, p.42). E aí, dentre estes programas, estavam por exemplo o “Baú do Ed” (por Ed Motta); Diskarreggae (por Fernando Furtado); “Kakofonia” (rock clássico, por Marcos Kacowicz); Free Time (novidades de gêneros diversos, por Marcos Correa), “Nômade” (músicas estrangeiras predominantemente não anglófonas, por Paco Pigalle) e o “Terceira Margem” (articulação temática de poesia, cinema, pintura e músicas diversas, pelo trio Adriana Miranda, Leo Cunha e Nísio Teixeira).

Assim, parece-nos que a partir desse horário, os comunicadores radiofônicos noturnos da Geraes, embora certamente ainda calcados na divulgação precisa de informações culturais e na permissão para um conteúdo musical mais heterogêneo ou

“rebelde” ao da programação geral (mas nem tanto, como se verá adiante), assumiam um tom predominantemente lúdico. Isto ocorria tanto pelo viés da manutenção da chave geral da dicção cotidiana da voz “jovem” da Geraes FM, mas sobretudo na concepção por trás de cada programa. É o que veremos a partir de agora no caso específico do Terceira Margem.

Histórico do programa

O Terceira Margem foi ar na programação da Rádio Geraes semanalmente sempre às 22 horas aos domingos durante quase um ano – de 26 de junho de 1994 a 26 de março de 1995, com duração de meia hora no início, estendida para uma hora posteriormente. O Terceira Margem tinha como objetivo uma elaboração crítica de programação a partir das variações possíveis de um mesmo tema por programa e sua interrelação nos campos da música, pintura, cinema e da literatura – como flores, folclore celta, noite, drogas ou Doors.

A ideia do programa derivou de breves experiências nos tempos de graduação na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) entre os anos de 1988 e 1991.

Naquela época, boa parte das experimentações da rádio laboratório do curso de Comunicação Social acontecia através da Rádio Intervalo, capitaneada pelo funcionário Sebastião Rodrigues de Oliveira e discentes como seu xará Sebastião Jacinto Júnior, Luiz Fernando Godinho, Hélio Dias, Robson Leite e outros veteranos do curso. Basicamente, a rádio consistia em transmitir, do estúdio do terceiro andar do prédio 13, no campus PUC Coração Eucarístico, programas e músicas diversas a caixas de som espalhadas nos três andares do prédio e também na cantina em frente, a Schufnner Dias, nos intervalos de aula

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da manhã. Naquela ocasião, Nísio Teixeira propôs a outros colegas, como Leo Cunha, Luís Cláudio Diniz Mendes, Túlio Ferreira, a colaboração para programas sem periodicidade definida, o“Antítese”, que brincavam com subtítulos de filmes 7 , misturavam programação musical variada com tons de radioteatro (aí com participação esporádica do saudoso colega Marcus Tafuri). Dessa experiência criou-se a célula do que viria a ser o Terceira Margem:

um tema central que aglutinaria referências musicais, literárias, cinematográficas e outras.

Esta concepção foi a base do projeto, cuja primeira versão foi produzida em 19 de junho de 1994, escrita com o então também egresso da PUC-MG, Leo Cunha (que à época também já havia começado sua carreira como escritor infanto-juvenil e tradutor): através de meticulosa pesquisa, percorrer todas as variações possíveis de um mesmo tema, nos campos da música, pintura, cinema e da literatura, selecioná-los e organizá-los de maneira precisa para a difusão em um programa de rádio. O projeto foi encaminhado à Adriana Miranda (também egressa contemporânea da PUC-MG, que trabalhava na Geraes e posteriormente apresentaria o programete “BH 100 anos”, em torno do centenário da capital mineira em 1997). Ela se dispôs a entregar o projeto ao programador da Geraes FM, Carlos Ivan.

Acreditávamos que o formato proposto se aproximava aos programas do quadro noturno da emissora. Outro ponto forte era o público alvo defendido pelo programa, que destacava pessoas de classes distintas (de A a C), mas sobretudo estudantes secundaristas e de nível superior, bem como os profissionais pertencentes a esse grau de formação – coincidindo com o público da Geraes FM, que Prata (2010) define como “público adulto abastado”.

Embora tanto o programador Kiko Ferreira (que participou da fundação da emissora, mas já estava afastado no momento da proposição do Terceira Margem) como Carlos Ivan apontem que a emissora logo ficou “mais restrita, A-A, meio elitista” (IVAN in PENA, 2017, p.99).

No projeto, destacamos como a sociedade contemporânea experimentava momento singular de explosão informacional, em todos os níveis, inclusive nas artes. Caberia ao programa propor algum tipo de organização editorial temática que brincasse, embora também reunisse, portanto, referências aparentemente distintas. Acreditamos que a primeira convergência realizada pelo programa foi essa, mais estética, para que depois surgissem a editorial e, consequentemente, a midiática.

7 O segundo programa, por exemplo, recebeu o nome de “Antítese II – a missão” e o terceiro, “Antítese III – à procura de Spock” em irônica referência, respectivamente, às produções blockbusters de Rambo e Star Trek.

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Reunir todas essas informações, em nosso entendimento, seria interessante ao ouvinte – por exemplo, como no programa piloto proposto no projeto (mas só efetivado na quinta edição do Terceira Margem) em torno do grupo The Doors. Durante o programa haveria trechos de William Blake, Aldous Huxley, Emmanuel Swedenborg, Jorge Luís Borges, o xamanismo e sua relação com a banda. Além, é claro, da execução de músicas do grupo e seus seguidores confessos, como David Bowie ou Echo and The Bunnymen e breves comentários sobre o filme homônimo lançado por Oliver Stone em 1991. (Anexa ao final deste artigo está a lista com demais programas e respectivos repertórios). Poucos dias após a proposta ter sido encaminhada por Adriana a Carlos Ivan, ela traz não só uma resposta positiva da Geraes FM, mas também se mostra interessada em participar do programa, bem como de sua produção e locução, integrando-se à equipe.

O início

Assim, com estreia em 26 de junho de 1994, em programa dedicado aos “poemas que viraram música” o Terceira Margem reunia a equipe composta por Nísio Teixeira, Leo Cunha e Adriana Miranda. Cada bloco do programa envolvia obrigatoriamente essa menção ao cinema e à poesia/literatura em menor ou maior grau. No projeto original, uma parte destinada à mensagem falada (poesia/prosa) tinha a intenção de convidar um ator ou outro artista para recitar trechos escolhidos, o que nunca ocorreu (esse gesto poderia incluir mais incisivamente o programa na dicção “ficcional”) salvo uma ocasião ou outra em que poemas curtos eram recitados pelos próprios membros da equipe (como no caso do célebre poema “Cota Zero”, de Carlos Drummond de Andrade, que abriu um Terceira Margem sobre carros). Informações adicionais sobre a obra, o artista e o tema abordado também eram agregadas ao texto final. O slogan “Terceira Margem – um programa multicultural”

foi gravado pelo locutor Paulo César Toledo, o “PC”, para uma vinheta que teve ao fundo o início da faixa “ Just another brother” , do álbum Hand on the torch lançado pelo grupo US3 em 1993 (disco, aliás, que foi um dos grandes exercícios interaudiotextuais da época). E assim o primeiro programa não se furtou a fazer uma espécie de pequeno editorial sobre a proposta e sobre o que os ouvintes teriam a partir dali, em locução dividida pelos três integrantes tendo como fundo a faixa instrumental “ Draize train” , do grupo The Smiths.

O nome Rolling Stone tem a ver com Like a Rolling Stone , de Bob Dylan.

Bom, isso todo mundo já sabe ou pelo menos desconfia. Mas de onde vieram os nomes The Doors, All About Eve, Siouxsie and the Banshees? E você já imaginou qual a relação entre os Smiths com Oscar Wilde, William Butler Yeats e os Waterboys? Ou então, o que têm em comum o Roxy

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Music, Enya e escritor argentino Jorge Luís Borges? E ainda, que bandas já gravaram músicas sobre a AIDS, sobre a geração beatnik, sobre Dr.

Jekyll e Mr Hyde? O programa Terceira Margem chegou para cruzar estas e outras paralelas. Não queremos abraçar nenhum estilo musical. Pelo contrário, queremos pesquisar, misturar e descobrir detalhes ao acaso.

Cada semana o programa vai tecer uma teia diferente, entrelaçando os grupos, cantores, escritores, atores e personagens que recheiam os sonhos e as idolatrias deste fim de século. É uma tentação irresistível, mas, como disse Oscar Wilde, a única maneira de vencer uma tentação é ceder a ela.

Está começando Terceira Margem, o programa onde as entrelinhas se encontram.” (TERCEIRA MARGEM, Poemas musicados, 26 de junho de 1994)

Além da escolha e utilização das músicas como fios condutores para a programação, a equipe produtora do Terceira Margem cuidava da produção e distribuição de um folheto informativo que sintetizava o que fora abordado em cada programa. Este impresso continha não só, integralmente, o texto utilizado e lido pela locução, mas também explorava intertextualidades possíveis somente na mídia impressa e assim complementava com a inclusão de letras, poemas, traduções, imagens, além de sugestões para leitura e audição. O informativo trazia, além da indicação do repertório utilizado no programa da semana, o anúncio do tema de trabalho da semana vindoura. Este folheto jornalístico era editado por Leo Cunha em tamanho A4, em frente e verso, preto e branco. Após esta matriz, a equipe dividia os custos de cerca de 500 fotocópias, assim transformadas em folhetos que eram, por sua vez, distribuídos pessoalmente pelos integrantes da equipe em lugares estratégicos frequentados pelo público alvo, como as salas de cinema do Usina Unibanco, Savassi Cineclube (hoje extintas), Belas Artes Liberdade, além da própria sede da rádio Geraes FM na rua Montes Claros, bairro Anchieta, e de universidades como UFMG e PUC/MG.

Naquele primeiro momento da realização do programa, as gravações das locuções e montagem aconteciam nos estúdios da Video Verso Produções, produtora de vídeo dirigida pelo marido de Adriana, José Antônio, com trabalhos de edição do irmão dela, Leandro Miranda. As locuções eram gravadas no estúdio para criar a matriz sonora em uma pista de áudio registrada em VHS ( Vídeo Home System , a notória fita de videocassete). O processo de edição do programa também era feito nesse suporte e somente após a edição final da matriz em VHS é que se convertia para as fitas em Digital Audio Tape (DAT), que era, afinal, o suporte utilizado pela rádio. Somente alguns meses depois é que as locuções seriam gravadas e editadas nos estúdios da Geraes FM diretamente no suporte DAT.

Após o terceiro programa, sob a temática Índios”, quando o Terceira Margem abordou desde Tom Jobim a Sepultura, passando pela trilha sonora do filme “A Missão” e

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Ella Fitzgerald na meia hora dedicada à sua programação, Carlos Ivan chamou Adriana Miranda para uma conversa. Segundo ele, a proposta do programa seguia sendo muito interessante, mas em termos de programação, o elevado grau de mistura de estilos poderia se configurar um problema. Assim, se, por um lado, a rebeldia da programação noturna mostrou que tinha lá os seus limites, por outro, a advertência confirmou o caráter eclético e disruptivo da proposta, ainda que no permitido pelo horário experimental do final da noite.

O meio

Todavia, apesar desse ecletismo ser central e caro à proposta, não eram tão comuns assim as discrepâncias na programação interna de cada programa. E por razões mais pragmáticas que propriamente estéticas. Primeiro, porque não havia um acesso muito fácil à materialidade da canção. Como exposto em Pena (2017) a Geraes FM surgiu em meio a uma transição tecnológica sem precedentes. Ao longo de seus quinze anos, testemunhou transições entre discos vinis, CDs, miniCDs, DATs, mp3... - o que certamente impactou e contribuiu para a crise da emissora do ponto de vista logístico, técnico e operacional. Eram raras as vezes que podíamos contar com o acervo da própria rádio. Havia uma lista, nem sempre atualizada, de canções já convertidas ao acervo DAT da rádio com as quais dificilmente poderíamos contar. Era mais fácil recorrer aos acervos pessoais em vinil e CD – até em função da própria circunstância da gravação e do planejamento a ela necessário para a edição final do programa, como dito, feito no início integralmente na pista sonora em VHS na Video Verso Produções (e sujeito, portanto, ainda aos horários mais disponíveis do estúdio) para ser então convertido ao DAT e só aí entregue pessoalmente na emissora.

Tal gesto de proxemia das materialidades disponíveis levava sempre a uma discussão em torno do quão familiar à equipe sempre poderia soar o repertório do programa e a uma constante autocrítica interna: de que modo surge, a cada programa, o fã - e não o programador em ação? Questão que se torna sobremodo imperativa naqueles tempos, quando o acesso ao produto musical não era amplo e imediato como atualmente. Era, precisamente, o papel da rádio, dos fanzines, do jornalismo cultural, fazer o exercício de apontamentos e sugestões para esse consumo, essa fruição.

Este exercício da crítica também era dificilmente simultâneo ao da fruição da produção musical indicada como se verifica atualmente; pelo contrário, poderia haver um hiato temporal enorme entre a divulgação de uma crítica e a fruição musical ali indicada, entre a publicação de uma resenha no jornal ou revista sobre um disco ou canção e seu

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imediato alcance. Mas é precisamente este aspecto que marcava a preocupação e a oportunidade de um programa radiofônico para esta difusão: o rádio era a única mídia disponível em que a fruição material da canção poderia acontecer em “tempo real” e logo após a crítica, com ampla difusão. Não por acaso, aliás, a MTV chegara há pouco tempo no Brasil (outubro de 1990) para ocupar esse espaço no campo audiovisual. Afinal, a partir da produção de clipes no Fantástico (TV Globo) na década de 1970, essa indicação musical comentada já começava a conquistar a TV aberta – processo que evidencia ainda mais a força do comunicador na rádio após o advento televisivo, como aponta Ferraretto (2014) 8

No caso do Terceira Margem, sempre havia portanto uma discussão interna em torno do tema escolhido e a partir daí (e dos acervos pessoais) fazia-se a escolha e organização das músicas – tanto as que fariam o fundo musical como também as que seriam executadas na íntegra. Muitas vezes, esse exercício cruzado da crítica musical sobre a canção e programação era bastante enriquecedor e incorporado à dicção lúdica do programa – não só na abertura, mas durante a apresentação das canções e também nas demais conexões artísticas relacionadas na teia do Terceira Margem. Isto implicava então em três camadas de intertextualidade crítica: escolhas das canções, sua programação e conexões extramusicais possíveis.

A televisão é o tema do Terceira Margem de hoje. Criada na transição dos anos 30 para os 40 nos Estados Unidos, a tevê sempre acendeu calorosas polêmicas sobre seu poder de massificação, alienação e difusão da cultura contemporânea. ZZ Top, Robert Redford, Titãs, Psychodelic Furs, Dire Straits e muitos outros estão na parabolicamará do programa de hoje.

Então desligue a TV e se ligue no Terceira Margem: o programa onde as entrelinhas se encontram. (TERCEIRA MARGEM, TV, s/d)

No cinema, filmes sobre ladrões, presídios e contravenções sempre foram bem explorados. A começar da escapada mais famosa, a de “Pappillon”, com Stevie McQueen até o mais recente candidato ao Oscar, “Um Sonho de Liberdade”, com Tim Robbins e Morgan Freeman. Sem falar nos inesquecíveis “Alcatraz - Fuga Impossível” e nas acrobacias exageradas de Sylvester Stallone e Kurt Russel em “Tango & Cash”. Fora das prisões, os marginais foram tratados de maneira simpática, como a dupla infalível de

“Golpe de Mestre”, vivida por Paul Newman e Robert Redford - onde eles

8Espaço que, como dito, mesmo antes da MTV, já era ocupado por programas de videoclipes – inclusive e não por acaso dirigidos por comunicadores do rádio, como os radialistas Marco Antônio, na Manchete (FMTV, que também teria Tim Rescala, João Kleber e Patrícia Pillar); Kid Vinil na TV Cultura (Som Pop); Amir Francisco na Alterosa; Serginho Caffé na Bandeirantes (Super Special) e depois Record (Kliptonita). Tais programas obviamente dependiam da imagem audiovisual, sobretudo aquela oficialmente lançada. Não por acaso se percebia então sempre a existência de algum tipo de bloco especial dedicado ao Michael Jackson, artista que logo percebeu a força midiática dessa estratégia do clipe, mesmo antes do paradigmático Thriller. Raras vezes edições eram feitas unindo hits a outras imagens - como no quadro Visual Clip , do programa Clip-Clip (que marcou a estreia do som estereo na TV brasileira), que inclusive substituía o papel do comunicador radialista pelos bonecos Muqirana Jones e Edgar Ganta. Uma edição, por exemplo, uniu filme sobre skatistas ao som de This is not America , de Pat Metheny e David Bowie (1985). Clip-Clip foi ao ar entre 16/09/1984 e 14/03/1987 e foi o primeiro a ser dirigido pelo Boninho. Disponível em https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/musicais-e-shows/clip-clip/ Acesso em 30 de junho de 2020.

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trapaceiam até o espectador - ou as peripécias de David Mamet em “Jogo de Emoções”. Ou ainda, “Conselho de Família” de Costa-Gavras e “Cães de Aluguel” de Quentin Tarantino. Voltando ao Brasil, “Memórias do Cárcere” é um premiado filme onde Carlos Vereza personifica o escritor Graciliano Ramos, confinado pela ditadura Getulista. Na música, quem encarnou a marginália foi o cantor e compositor Lobão, taxado pela mídia como “drogado risonho”. O cantor recebeu tratamento exemplar, quando foi preso por porte de drogas. Depois de um protesto de artistas, o cantor foi liberado. Nessa ocasião, Lobão compôs “Vida Bandida” 9 , um de seus maiores sucessos, onde critica o abuso das autoridades. (TERCEIRA MARGEM, Marginália, 20 de março de 1995)

Posteriormente, provavelmente agosto de 1994, com a mudança de meia hora para uma hora de programa, o Terceira Margem passou a ser gravado nos estúdios da própria Rádio Geraes FM, com o apoio de Ediney Barbosa e Waleska Falci. Isso facilitou e permitiu maior inclusão de um eventual acervo musical da rádio na programação. E, claro, dobrar o tempo do programa também foi um sinal de aprovação por parte da direção da rádio. E ainda de um retorno positivo eventual do público, culminando na escolha do programa como tema de trabalho para uma disciplina do professor Fábio Martins (UFMG) no hoje extinto curso de radialismo da UFMG. A autora, Tatiana Carvalho Costa, chegou a entrevistar a equipe para seu artigo final 10 .

Nesse sentido, é importante destacar que aquela única advertência levada pelo programa – por ocasião de “Índios” - foi devido à sua formatação inicial e à heterogeneidade de gêneros musicais organizados em meia hora de programação. Nunca houve qualquer imposição, direcionamento ou obrigatoriedade de inclusão de canções, fossem elas quais fossem, como se verifica na dupla crítica de Kischinhevsky (2011), quando aponta a ausência de estudos no Brasil sobre os processos de tomada de decisões em torno da programação de rádios musicais e, nelas, muitas vezes a orientação passiva por publicações especializadas, paradas de sucessos e, sobretudo, por indicações específicas de faixas por parte de promotores das grandes gravadoras, fazendo com que as emissoras não operem “como ator local servindo a audiência da cidade, mas como distribuidor e divulgador de produtos fornecidos por um sistema industrial de alcance nacional, que define o que deve ou não fazer sucesso” (KISCHINHEVSKY, 2011, p. 253)

Por outro lado, certamente, a leitura de publicações especializadas – na época em questão, notoriamente a revista Bizz, por exemplo, e as colunas musicais do jornalismo

9Na verdade, a canção é parceria com o poeta Bernardo Vilhena, que escreveu o poema em 1975, tendo sido apenas posteriormente musicado por Lobão para o álbum homônimo de 1987.

10Apesar dos esforços, inclusive da própria autora do estudo, não foi possível, até o fechamento deste artigo - reencontrar o texto.

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cultural local e nacional – pautavam alguns momentos de discussão entre a equipe. Porém, como dito, não havia o acesso imediato constante à materialidade sonora indicada no jornalismo cultural daquele tempo. Provinham de discos que eram, eventualmente por nós três, comprados ou recebidos como presentes de nossos círculos familiares e de amizade.

No programa sobre Doors, por exemplo, havia uma crítica do jornalista Pepe Escobar publicada na revista Bizz sobre um show ao vivo do grupo Echo and the Bunnymen na Inglaterra em que eles faziam uma interpretação magistral de Soul Kitchen , canção do Doors. Leo Cunha havia também estado entre a plateia do famoso show do grupo no Canecão, no Rio de Janeiro, em 1987, e confirmado a potência da performance ao vivo da banda, inclusive de Soul Kitchen 11 . Então, na programação para este Terceira Margem sobre os Doors, o ideal era que, obviamente essa versão pudesse ser incluída. Mas não tínhamos acesso a ela (uma versão oficial está na caixa Crystal Days : 1979-1999, lançada apenas em 2001) e a saída era debruçar entre escolhas possíveis e a partir dos álbuns que dispunhamos do Echo: Porcupine (1983) do acervo de Leo Cunha e a coletânea Songs to learn and sing (1987) do acervo de Nísio Teixeira. Então nos estúdios da Video Verso Produções houve um rápido debate em torno de duas candidatas: Leo defendendo Gods will be gods , de Porcupine e Nísio por Do it clean . Apesar de uma performance vocal mais próxima de Ian McCulloch, vocalista do Echo, à de Jim Morrison, dos Doors, em Gods will be gods , a escolha acabou recaindo por Do it clean , por constar já no primeiro álbum do Echo, Crocodiles (1980), e por Nísio lembrar que essa foi uma canção também indicada pelo crítico Arthur Geraldo Couto Duarte como conectada aos Doors no programa Fahrenheit 451, da Liberdade FM (outra boa referência crítica – e no rádio - para a equipe).

Dessa forma, o Terceira Margem espelhava o espírito geral da programação da Geraes FM, e parece sem dúvida se aproximar muito do que nos EUA é conhecido como freeformat , uma alternativa à fábrica de sucessos das gravadoras, mais comum nas rádios universitárias daquele país, no qual “a programação propositadamente mescla músicas dos mais diversos gêneros, priorizando os artistas que não encontram abrigo no rádio mais comercial” (KISCHINHEVSKY, 2011) ainda que outros estudos, segundo ainda o texto citado de Kischinhevsky, também apontem uma grande influência da indústria fonográfica sobre esse segmento universitário da rádio FM.

11 Leo Cunha publicou uma crônica sobre o show no jornal Hoje em Dia de 03 de junho de 2002, sob o título

“Desmemórias de um show memorável” em que dá detalhes sobre a performance da banda e sobre como Charles Gavin, baterista dos Titãs, o ajudou a voltar pra casa. Uma outra versão do texto foi publicada como capítulo intitulado “Salvo pelos Titãs” no livro Videntes e outros pitacos no cotidiano . São Paulo: Melhoramentos, 2012.

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O fim

O aumento de tempo do programa, sua boa repercussão e a transferência das gravações para os estúdios da Geraes foi um alento. Não só pela aprovação do público interno e externo ao programa, mas por sinalizar uma perspectiva de autosustentação financeira, uma vez que o Terceira Margem era todo feito sem remuneração da equipe ou qualquer ajuda de custo para fotocópias ou compra dos então (caros) discos de vinil e CDs.

Com um programa agindo multimidiaticamente na fronteira radiofônica do FM e também da mídia impressa, seguíamos apostando na compensação financeira dessa visibilidade permitida pela Geraes e, consequentemente, na possibilidade de anunciantes no rádio e no folheto – o que, todavia e gradativamente não foi sendo correspondido seja diretamente junto à equipe ou via departamento comercial da rádio. O único anúncio que constava no jornalzinho distribuído era o do próprio estúdio da Video Verso Produções – e isso como contrapartida às horas de gravação e edição no local, também não remuneradas.

Recém saídos da universidade, outras oportunidades de emprego surgiam aos membros da equipe no setor editorial, jornalístico e de assessoria. O tempo foi sendo cada vez exíguo para seguir numa dedicação voluntária ao projeto Terceira Margem, até que, três meses após a virada do ano de 1995, a 26 de março - nove meses após o seu nascimento - o programa transmitia, em comum acordo entre seus integrantes, a sua última edição.

Quando da apresentação do resumo dessa proposta de artigo e do projeto Terceira Margem no VI Comusica, em Cachoeira (BA) um dos presentes, o professor Lúcio Agra (UFBA) apontou que a concepção do programa e a performance da equipe estaria hoje facilmente compreendida e instalada num ambiente on line , como um blog. Certamente, hoje um projeto Terceira Margem adotaria o podcast como ponto de partida. O professor resumiu bem a sensação atual da equipe em um olhar retrospectivo: a proposta intertextual do Terceira Margem, concebida, ironicamente, em 1994 - ano que marcou também o início da World Wide Web no Brasil - e óbvia e certamente por ser aquele momento ainda muito incipiente para algo mais avançado no ambiente on line , esbarrava nos limites materiais então por ela mesma provocados. Voltamos a salientar que foi uma característica dos anos 1990 essa pro[e con]fusão de suportes e tecnologias da informação – mas que também e sobretudo, foram impostos ao programa. Tal aspecto, inclusive, foi brevemente experienciado em 2011 numa disciplina do curso de Comunicação Social da UFMG:

perceber e refazer o percurso do programa em um contexto contemporâneo, no qual há

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ampla oferta e acesso do suporte material da canção e facilidades para a gravação de locuções, edição e publicação do programa, mantendo-se a dicção cotidiana e lúdica. 12

É interessante perceber como esse cenário experimental radiofônico marca e se impõe não só sobre o programa em sua curta existência, mas também de certa forma impacta sobre o projeto da Geraes FM como um todo. Com seu final em 2006, a Geraes foi incorporada pela Liberdade FM no ano seguinte, que a transformou em Mix FM até fevereiro de 2012. Nesse ano ela se tornou Fã FM e, em 12 de junho de 2017, a mudança mais recente: como parte do grupo Sempre Editora, que inclui o jornal O Tempo, tornou-se Rádio Super FM, mesclando música e jornalismo em sua programação.

Referências

FERRARETTO, L. A. Da segmentação à convergência: apontamentos a respeito do papel do comunicador de rádio . C&S. São Bernardo do Campo, v. 36, n. 1,jul./dez. 2014, p. 59-84.

JOST, F. La télévision du quotidien : entre realité et fiction. Bruxelles: De Boeck, 2001.

KISCHINHEVSKY, Marcelo. O rádio sem onda – Convergência digital e novos desafios na radiodifusão. Rio de Janeiro: E-Papers, 2007.

KISCHINHEVSKY, Marcelo. Por uma economia política do rádio musical – articulações entre as indústrias da música e da radiodifusão sonora. Matrizes. São Paulo. nº 1 jul./dez. 2011, p.247-258.

KISCHINHEVSKY, Marcelo. Rádio e mídias sociais – mediações e interações radiofônicas em plataformas digitais de comunicação. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.

MARTINS, Fábio. Senhores ouvintes, no ar... a cidade e o rádio . Belo Horizonte: Arte, 1999.

PENA, N. G. No mais, Geraes: um sinal de vida inteligente? 102p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Curso de Comunicação Social/Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 28 de junho de 2017.

PRATA, Nair. Panorama do rádio em Belo Horizonte. In: O rádio entre as montanhas : histórias, teorias e afetos de radiofonia mineira / Nair Prata (org.). Belo Horizonte: Fundac, 2010, p.129-153.

TERCEIRA MARGEM. Um programa Multicultural – Poemas musicados. Rádio Geraes FM . Belo Horizonte, 26 de junho de 1994. Programa de rádio. Programa de rádio. Disponível em https://soundcloud.com/conteumacan-o2/terceira-margem-programa-01-estreia-poemas-musicados- 26-junho-1994 . Acesso em 03 de outubro de 2020.

TERCEIRA MARGEM. Um programa Multicultural – Os Celtas. Rádio Geraes FM . Belo Horizonte, 03 de julho de 1994. Programa de rádio. Disponível em https://soundcloud.com/conteumacan-o2/terceira-margem-programa-02-os-celtas-03-de-julho-de-19 94 . Acesso em 03 de outubro de 2020.

TERCEIRA MARGEM. Um programa Multicultural – The Doors. Rádio Geraes FM . Belo Horizonte, 24 de julho de 1994. Programa de rádio. Disponível em https://soundcloud.com/conteumacan-o2/terceira-margem-programa-05-the-doors-24-de-julho-de-1 994 . Acesso em 03 de outubro de 2020.

12 Em 2011, um laboratório na disciplina de rádio ministrada por Nísio Teixeira e Elias Santos no curso de Comunicação Social da UFMG reexperimentou o formato e a proposta do Terceira Margem como parte dos trabalhos finais dos alunos. Parte dessa produção discente pode ser ouvida nos canais do YouTube. No caso, a proposta de Luíza Lages, Luíza Glória e Leo Rodrigues, com trabalhos técnicos de Gilberto Correa. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=p9T69POMbR0 . Acesso em 30 de junho de 2020.

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TERCEIRA MARGEM. Um programa Multicultural – Marginália. Rádio Geraes FM . Belo Horizonte, 20 de março de 1995. Programa de rádio.

TERCEIRA MARGEM. Um programa Multicultural – TV. Rádio Geraes FM . Belo Horizonte, s/.

Programa de rádio. s/d.

Anexo I – Quadro dos programas veiculados

Terceira Margem – um programa multicultural - Domingo, 22 horas – Geraes FM 91,7 FM Número e tema do programa * data * repertório (na ordem de apresentação, com intérprete e ano)

1 - Poemas musicados 26 de junho de 1994

The stolen child (Waterboys, 1994); Indian Song (Philippe Pascaud & Pascalle Le Berre, 1994);

Fortune presents gifts not according to the book (Dead can dance,1990); Terceira Margem do Rio

(Caetano Veloso, 1991)

2 – Os Celtas 03 de julho de 1994

Avalon (Roxy Music, 1982); Bring me the head of the preacher man (Siouxsie and the Banshees, 1984); Triad (Enya, 1987); Too long in exile (Van

Morrison, 1992)

3 – Índios 10 de julho de 1994

Deep Forest (Deep Forest, 1992); Asunción (Ennio Morricone/ The Mission – Soundtrack,1986); Give it back to the indians (Ella Fitzgerald,1956); Tom

Jobim ( Borzeguim ,1987); Kaiowás (Sepultura,1993) 4 – Futebol

17 de julho de 1994 O futebol (Chico Buarque, 1989); Cadê o pênalti? (Jorge Ben Jor, 1978); The Game (Echo

& The Bunnymen, 1989), Goal, goal, goal (The James, 1994); New star (Tears for Fears, 1994)

5 – The Doors 24 de julho de 1994 Shaman's blues (The Doors, 1969); Break on through (The Doors, 1967); Do it clean (Echo &

The Bunnymen, 1989), Never let me down and down (David Bowie, 1993)

6 – Loucura 31 de julho de 1994 Crazy (R.E.M, 1987); Psycho Killer (Talking Heads, 1984); She's lost control (Joy Division, 1979); Brain Damage (Pink Floyd, 1974); Nothing

like the sun (Sting, 1987) 7 – Atores musicados

07 de agosto de 1994 Michael Caine (Madness, 1984); Monty got a

raw deal (R.E.M., 1992); Sean Penn´s Blues (Lloyd Cole, 1987); Initials B.B. (Serge Gainsbourg, 1991); William Shatner (The

Bodines, 1987)

8 – Rádio 14 de agosto de 1994 Take the A train (Duke Ellington Orchestra,

1987); Come on Eileen (Dexys Midnight Runners, 1982); This is Radio Clash (The Clash,

1989); Radio Song (R.E.M., 1991); Panic (The Smiths, 1987)

9 – On the road 21 de agosto de 1994

Hit the road, Jack (Ray Charles, 1990); Born to be wild (Steppenwolf, 1969); Tennessee Plates (Charlie Sexton, 1992); Faraway Eyes (The Rolling Stones, 1974); Mysterious Ways (U2, 1991); Road to nowhere (Talking Heads, 1985) 10 – A lua

28 de agosto de 1994

Moonlight paranoia (Lobão, 1986); Ticket to the moon (Electric Light Orchestra, 1981); The killing moon (Echo & The Bunnymen, 1984); La luna nuova (Premiata Forneria Marconi, 1974); C Moon (Paul McCartney & The Wings, 1987)

11 – O fim do mundo 04 de setembro de 1994 It's the end of the world as we know it (and I feel

fine) (R.E.M., 1987); Until the end of the world (U2, 1994); Armageddon days are here again (The The, 1989); Armageddon time (The Clash, 1989); Emergency on planet Earth (Jamiroquai,

1993)

12 – África do Sul 11 de setembro de 1994 Homeless (Paul Simon e Ladysmith Black Mambazo, 1986); Johannesburg (Housemartins,

1987); Biko (Peter Gabriel, 1980) Mandela (Youssou N´Dour, 1985); Oração pela libertação

da África do Sul (Gilberto Gil, 1985) e Hino do C.N.A . (Djavan, 1986)

24 – TV 18 de setembro de 1995 (?) Television Man (Talking Heads, 1985); Watching

TV (Roger Waters, 1992); TV Dinners (ZZ Top, 1983); Televisão (Titãs, 1985); Soap commercials (Psychedelic Furs, 1980); Money

for nothing (Dire Straits, 1985)

14 – Automóveis 02 de outubro de 1994 Red Barchetta (Rush, 1981); Black limousine (The Rolling Stone, 1981); Drive my car (Bob McFerrin, 1988); I´m in love with my car (Queen, 1975); Love in a car (House of love,

1988)

15 – Atores musicados (reprise) 16 – On the road (reprise)

17 – Flores 20 de novembro de 1994 Flor de liz (Djavan, 1976); Flores (Titãs, 1988);

Flowers in your hair (All About Eve, 1988); The flowers of Guatemala (R.E.M., 1986); Flowers

(The Psychedelic Furs, 1980)

18 – O tema seria sobre Anjos, mas virou Drogas parte I

4 de dezembro de 1994 Heroin (The Velvet Underground, 1992); Sister Morphine (The Rolling Stones, 1971); I´ve got you under my skin (Frank Sinatra & Bono, 1993); Kaya (Bob Marley, 1978); Lucy in the sky

with diamonds (The Beatles, 1967)

19 – Drogas parte II 11 de dezembro de 1994

Purple haze (The Jimi Hendrix Experience, 1969);

The needle and the damage done (Neil Young, 1972); Rock do vapor (Barão Vermelho, 1994);

Pusherman (Curtis Mayfield, 1972); King Heroin (James Brown, 1972)

20 – Os gatos 18 de dezembro de 1994 Cool Cat (Queen, 1992); Negro Gato (Marisa Monte, 1988); Here comes Garfield (Lou Rawls,

1982); Nine lives (Stray Cats, 1989); Curiosity killed the cat (Curiosity killed the cat, 1987

21 – A noite 25 de dezembro de 1994 Into the night (B.B. King, 1985); Good rockin tonight (Paul Mc Cartney, 1993); Give me by the

night (George Benson, 1980); Saturday night especial (Lynyrd Skynyrd, 1993); The midnight

hour (The Commitments, 1991)

22 – Vizinhos 8 de janeiro de 1995 (?) Glória (Lobão e Cazuza, 1986); Neighborhood girls (Suzanne Vega, 1985); What's the matter here

(10.000 Maniacs, 1989); Behind the wall (Tracy Chapman, 1988); Neighbours (The Rolling Stones,

1981) 23 – Casamento

15 de janeiro de 1995 Bride (The band of Holy Joy, 1989); My sister Rose (10.000 Maniacs, 1989); I know it's over (The Smiths, 1986); Jeopardy (Greg Kihn Band,

1983); O casamento dos pequenos burgueses (Chico Buarque, 1979)

24 – Mágica 22 de janeiro de 1995

(Apenas o registro de alguns autores intérpretes foram encontrados – trilha de Bagdad Café e grupos Renaissance, Triumph e Black Sabbath).

25 – O mar 29 de janeiro de 1994 Lenda das sereias (Marisa Monte, 1989);

Descobridor dos sete mares (Lulu Santos, 1994);

The wild wild sea (Sting, 1991); Deep blue sea (John Lee Hooker, 1966); Seven seas of Rhye

(Queen, 1974) 26 - Vestidos

Lemon (U2, 1993); Blue Velvet/Blue star (Isabela Rosselini, 1986); Pretty in pink (The Psychedelic Furs, 1986); You can leave your heat on (Joe

Cocker, 1986); Un vestido y un amor (Caetano Veloso, 1994)

27 – Marginália 20 de março de 1995 Sambodrome (B.A.D., 1986); Vida bandida (Lobão, 1987); Low Life (Sting, 1986); I started

something (The Smiths, 1987), A foto da capa (Chico Buarque, 1993)

OBS .: não foi possível confirmar a programação de fevereiro e início de março de 1995, nem precisar a data de Vestidos, mas inferir a de Vizinhos e TV,

como indicado pela “?” acima.

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