Diagnóstico e utopia
FÁBIO WANDERLEY REIS
C
REIO QUE A DISCUSSÃO sobre a sobrevivência das idéias expressas sintéti-camente no Manifesto Comunista pode se basear com proveito na distin-ção de três aspectos: o diagnóstico dos processos que Marx e Engels observa-vam, o projeto de ação política mais ou menos imediata e a utopia ou o ideal orientador.O aspecto de diagnóstico é aquele que, especialmente no referente à di-nâmica geral do capitalismo, mais parece justificar comentários admirados na atualidade pela nitidez e vigor com que nele se antecipam traços os quais os fenômenos ligados à globalização dos nossos dias só fizeram intensificar. Não obstante os erros quanto à previsão das conseqüências dessa dinâmica sobre a estrutura de classes (a pauperização e a polarização de classes), dois dos traços mencionados podem talvez ser destacados: o caráter revolucionário da econo-mia capitalista, cuja lógica a leva à permanente inovação tecnológica e a sub-verter a cada dia as relações de produção estabelecidas; e os desdobramentos dessa lógica no plano das formas de organização político-territorial, por um lado, ajudando a plasmar o Estado-nação moderno como espaço privilegiado das transações econômicas que suplanta a fragmentação e o paroquialismo tra-dicionais; por outro, criando um mercado internacional ou transnacional que se afirma vigorosamente desde os primórdios do capitalismo moderno. Em belo volume recente, O longo século XX, que coloca em perspectiva singular-mente clara a globalização atual, Giovanni Arrighi retoma análises clássicas que remontam a Marx para mostrar a crescente ampliação da escala em que economia e política se articulam.
mercado globalizado e duramente competitivo que o Manifesto aponta e ante-cipa.
Por outro lado, o apego ao projeto político revolucionário associa-se com equívocos a serem encontrados quanto à dimensão política do próprio aspecto de diagnóstico que consideramos em primeiro lugar. O que temos aqui é uma teoria política nitidamente distorcida, vinculando a idéia de poder político ex-clusivamente ao poder de uma classe para oprimir outra, permitindo a preten-são de que, na sociedade sem classes supostamente passível de ser descrita como "vasta associação da nação como um todo", o poder público perderia o seu caráter político. Daí a fantasia de substituir a política pela mera administração das coisas, acoplada ao rechaço do aparato institucional do Estado liberal como simples instrumento dos negócios da burguesia. O foco exclusivo na ação revo-lucionária bloqueia a percepção da possibilidade de que o amadurecimento do capitalismo produzisse, em vez da ruptura, as condições para o amadurecimen-to da própria democracia e para o compromisso institucional em que se desta-caria o componente social da cidadania, ao lado de seus componentes formais
correspondentes aos direitos civis e políticos, e no qual a própria dimensão contraditória do capitalismo se veria institucionalizada. Em particular, quando posta em confronto com a espetacular derrocada do socialismo real, essa saída
social-democrática revelar-se-ia a única verdadeiramente estável — e talvez a via por meio da qual se poderia aspirar à aproximação gradual das condições entre-vistas na utopia.
A este ponto, porém, a avaliação se contorce, pois a dinâmica econômi-co-tecnológica recente sintetizada no rótulo de globalização compromete tam-bém a solução social-democrática. Propiciando a intensificação da competição, essa dinâmica coloca objetivamente em xeque os componentes daquela solução que se consagraram no pós-guerra (o keynesianismo, o Estado de bem-estar e as organizações sindicais conjugados em estruturas neocorporativas), e termina por engendrar uma nova perspectiva filosófica na qual os direitos sociais institucionalmente assegurados de outrora são abandonados ao jogo flexível do mercado em que alguns ganham e outros perdem. Os efeitos perversos daí resultantes, sob a forma de exclusão social e incremento da desigualdade, dei-xam claro que se abre mão do próprio compromisso institucional e se coloca em risco a democracia mesma. Combinados ao potencial de crises que se dá na
Resta o aspecto do ideal ou da utopia. A visão positiva do caráter revolu-cionário da burguesia, a qual marca algumas das passagens mais famosas do Manifesto, associa-se com algo que tende a ser relegado ou omitido nas discus-sões das idéias de seus autores: a visão positiva do próprio mercado como espa-ço no qual se realiza o valor da autonomia individual, visão esta que surge com nitidez, por exemplo, em Resultados do processo imediato de produção e se rea-firma em outros termos em passagens igualmente célebres da Ideologia alemã, carregadas de forte individualismo. Conjugadas ao óbvio solidarismo que se afirma na visão do homem sociabilizado e capaz de se alçar acima dos egoísmos vis que fazem "derreter no ar tudo que é sólido", essas perspectivas trazem à utopia marxista algo que poderia ser visto como peculiar combinação de realis-mo e sonho — ou, mais adequadamente, corealis-mo conjugação de dois valores que se articulam tensamente: o da autonomia, ou da busca individual desembara-çada de fins ou interesses definidos autonomamente, e o valor da solidarieda-de, ou da convergência livre de violências. Ora, a articulação tensa desses mes-mos valores é característica da própria noção contemporânea de cidadania, em que o ideal moderno e liberal de autonomia e capacidade de autoafirmação se combina com o ideal clássico de civismo virtuoso e solidário, do qual os direi-tos sociais e a concepção de um Estado capaz de garantir proteção social uni-versal são expressão. Também por este aspecto, sem dúvida, as idéias de Marx e Engels se encontram vivas. E, se as condições do mundo globalizado e inte-grado trazem formidáveis ameaças novas às aspirações aí contidas, elas repre-sentam também o desafio - passível de ser visto de maneira positiva, além de objetivamente inescapável, se não nos quisermos entregar a determinismos ce-gos — de tratar de realizar tais aspirações na escala inédita do planeta como tal.