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Estud. av. vol.27 número79

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Academic year: 2018

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ESTUDOS AVANÇADOS27 (79), 2013 295

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MARTISTA e um pesquisador de

pri-meira linha, quando chega aos 74 anos de idade, reúne um patrimônio cul-tural que não se adquire apenas nos ban-cos universitários. José Eduardo Martins possui uma trajetória de vida que lhe dá autoridade para mostrar às gerações mais novas o que significa a existência plena de um músico, de um educador, de um investigador, enfim, de um cidadão que aprimorou (e aprimora até hoje) sua vi-são de mundo, através da prática diária do fazer artístico, da convivência acadê-mica e do cultivo da espiritualidade hu-manística.

A série “Témoignages” do Observa-toire Musical Français,sob a direção da ilustre musicóloga Danièle Pistone, visa registrar o pensamento e as reflexões das grandes personalidades musicais france-sas ou estrangeiras de nossos tempos e que, de algum modo, tangenciaram a cultura francesa. A par de sua carreira internacional, de sua rica produção bi-bliográfica e discográfica, José Eduar-do Martins é um intelectual que, desde cedo, tornou-se íntimo da literatura e da cultura francesas. Depois de receber orientação do pedagogo e pianista rus-so José Kliass, Martins, aos vinte anos de idade, viveu quatro anos em Paris, quando recebeu a orientação de vários mestres, entre eles Marguerite Long, no piano, e Louis Saguer, nas matérias teóricas. Martins tornou-se mais tarde um especialista em Debussy, com vá-rios trabalhos publicados na França e no Brasil sobre o eminente compositor. Sua gravação dos Douze études pour piano é antológica. Para Martins, “estes

magní-ficos Estudos são o cume da escrita pia-nística de Debussy”. Antes, ele já havia gravado a integral de outro compositor francês, Jean Philippe Rameau, l’oeuvre de clavier.

Martins, portanto, de modo muito adequado, foi escolhido para participar da série “Témoignages”. Dois musi-cólogos, um brasileiro, José Francisco Bannwart, outro francês, François Ser-venière, propuseram várias questões ao pianista, algumas polêmicas, sobre os mais variados temas, tais como sua car-reira em Paris, as personalidades com quem conviveu, a questão da cultura erudita versus o mass media, o desapare-cimento da crítica musical, a crise atual da música de concerto, a escolha do reper-tório, a relação com empresários, o pa-pel do artista moderno dentro da Uni-versidade, a comunicabilidade da música contemporânea e a relação entre técnica e cultura, entre competência inata e ad-quirida e entre talento e trabalho.

Martins fez uma opção, digamos, política sobre a escolha de seu repertó-rio: “quase todo meu percurso, desde os anos 70, tem sido estruturado sobre a apresentação das grandes obras-primas esquecidas ou sobre a interpretação da música contemporânea”. Daí se compre-ende o repertório que Martins nos lega, através de gravações surpreendentes, como a integral dos estudos de Scriabi-ne, a obra de Francisco de Lacerda, Car-los Seixas, Lopes-Graça, Kuhnau, e dos contemporâneos, onde se destacam os brasileiros e os belgas. Além disso, Mar-tins trouxe-nos de volta as preciosidades da obra de Henrique Oswald, esquecida

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ma lição de música e de vida

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desde os arroubos modernistas da Sema-na de Arte ModerSema-na.

Quantos conselhos Martins nos ofe-rece no que se refere ao desafio da inter-pretação dos compositores do passado! Ele mostra que, enquanto a interpretação dos mestres do classicismo e do roman-tismo se baseia na “tradição interpreta-tiva”, a execução, ao piano, do repertó-rio originalmente cravístico possui outra tradição. Martins chama a atenção que pretender realizar um som de cravo no piano “é um simulacro”. A partir daí, Martins faz interessantes reflexões sobre a velha discussão da execução de obras antigas por instrumentos de época ou por instrumentos modernos. Segundo o ilustre musicólogo François Lesure, por ele citado, “não é o instrumento que as-segura a priori a autenticidade da obra, mas sim o estilo do intérprete”. Sem dúvida, trata-se de um texto que mere-ce ser discutido em todas as classes de “Práticas Interpretativas” dos programas universitários de pós-graduação.

Em outro ponto, Martins responde quais são as identidades e as distinções na interpretação de Scriabine, Mussor-gski, Debussy e Fauré, autores que ele conhece profundamente. Segundo Mar-tins,

Conhecer, pelo menos, um conjunto das composições representativas de um criador, é importante. Todavia, o estilo representativo deveria sem-pre ser alimentado pelos dados da vida de um compositor, seu pensa-mento, sua correspondência essen-cial, aspectos concernentes ao meio onde o criador viveu, seu círculo de amizades, bem como seus músicos favoritos. A curiosidade ou o espíri-to de pesquisa nos conduzem, às ve-zes, a resultados surpreendentes. No entanto, a análise de uma obra sob

diferentes aspectos se torna absolu-tamente necessária.

Quanto ao futuro incerto da música de concerto, Martins incute em seus dis-cípulos uma única preocupação: a rigo-rosa formação do músico.

No meio de toda essa profusão de ideias e luzes, caminhos e sábias provo-cações, Martins afirma: “eu acredito no talento e na competência”. As entrevis-tas de José Eduardo Martins compõem um pequeno grande livro. Memorável!

Ricardo Tacuchian é professor titular da

UFRJ e UniRio. Maestro e compositor. Membro da Academia Brasileira de Música. @ – [email protected]

I Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Academia Brasileira de Música, Rio de Ja-neiro/RJ, Brazil.

MARTINS, J. E. José Eduardo Martins, un pianiste brésilien (Entretiens avec José Francisco Bannwart e François Servenière).

Paris: Observatoire Musical Français,

Referências

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