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História vol.26 número1

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Academic year: 2018

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HISTÓRIA, SÃO PAULO, v. 26, n. 1, p. 197-199, 2007 197

Cláudio Umpierre Carlan∗

FEITOSA, Lourdes Conde. Amor e Sexualidade: o masculino e o feminino em grafites

de Pompéia. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2005.

“Uma imagem é superior a mil palavras, e um símbolo a mil imagens.”

Ditado Popular Chinês

A historiadora Lourdes Conde Feitosa já vem, há alguns anos, se dedicando a

uma leitura detalhada dos grafites pompeianos. Essa riqueza iconográfica ficou durante

muito tempo esquecida, em razão da pouca importância dada aàimagem como

documento, pelo meio acadêmico brasileiro, ainda preso a um padrão historicista

alemão do século XIX, para o qual a documentação “escrita” é a única forma de se

construir a História.

Quem nunca leu essa afirmação: “a dificuldade de estudar Brasil Colônia é em

razão da falta de documentação e textos escritos”? Se essa dificuldade, segundo esses

especialistas, existe para o conhecimento e análise do caso brasileiro, imaginem em

outras épocas, outras civilizações e outras culturas? Infelizmente essa herança do século

XIX atingiu também os campos acadêmicos do século XX. Grande parte do vocabulário

científico e seus conceitos, adotados hoje, foram construídos entre os anos de 1840 e

1890. A própria História, como ciência, teve de se adequar a essa construção, ao rigor

dos padrões científicos newtonianos. “O documento fala por si”, “sem documentação

escrita não existe História”. Qual historiador não ouviu, e tremeu, diante dessas frases

de efeito?

Por meio de uma identificação inicial, seguida de uma profunda análise crítica,

Feitosa nos apresenta os agentes responsáveis por essa produção iconográfica,

mostrando para nós o quotidiano desses homens e dessas mulheres. Nos grafites

encontramos várias expressões simbólicas relacionadas com sexualidade, amor, visão e

crítica de uma sociedade antiga, congelada nas paredes de Pompéia, conservada graças a

uma catástrofe da natureza. A importância dessas imagens no dia-a-dia romano era tanta

que, a minissérie produzida e apresentada pelo canal HBO, “Roma”, apresenta na

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FEITOSA, LOURDES CONDE. AMOR E SEXUALIDADE

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v. 26, n. 1, p. 197-199, 2007 198

movimento, reforçando essa forma de expressão para melhor entendermos essa

sociedade, “antiga”, mas tão presente no mundo contemporâneo.

A autora, em sua dissertação de mestrado, “Homens e mulheres romanos: o

corpo, o amor e a moral segundo a literatura amorosa do primeiro século”, realizada na

Unesp de Assis, dando ênfase aos textos de Ovídio e Petrônio, já se preocupava em

apresentar as diferenças entre o que nós definimos por “erotismo”, ou até mesmo

obsceno, para uma sociedade católica conservadora, e o que os romanos definiam como

cotidiano, ou até mesmo religioso.

Muitos dos afrescos pompeianos, estátuas foram escondidos dos olhares

públicos, por apresentar uma forte carga “erótica”, segundo a definição moderna desse

termo. Desde as primeiras escavações em Pompéia iniciadas no século XVIII, até o

fascismo da década de 1920, essas imagens foram relegadas a um plano inferior. Apesar

disso, não podemos esquecer que o próprio Mussolini usou Pompéia, e a Antigüidade

Romana, como uma forma de legitimar o seu poder. As estátuas eqüestres do “duce”

lembram muito as de Marco Aurélio. Sem falar na própria saudação fascista.

Mesmo tendo a imagens como ponto principal, esse trabalho não fica preso a

uma simples análise iconográfica, ou a uma análise de conteúdo, relacionando o emissor

com o receptor da mensagem imagética, por meio do grafito, de uma linguagem própria,

onde estão apresentadas essas expressões populares, que lembram em muito as nossas

charges e, até mesmo, as propagandas modernas. No capítulo quatro da obra, a autora

faz uma alusão à expressão popular dos grafites.

Nos capítulos anteriores, além da dinâmica social, a autora faz uma nova leitura

do cotidiano desses atores sociais. Através de uma profunda análise documental,

levantamento incansável de novas fontes, faz um extenso trabalho comparativo entre

fontes escritas e iconográficas. Os grafites, tão importantes para a compreensão do

mundo romano, principalmente o cotidiano, são detalhadamente descritos pela autora.

Um dos grandes méritos do livro consiste em apresentar um estudo detalhado e

aprofundado dessas classes populares romanas, explicando uma lenta composição

ideológica e social de uma Pompéia forjada pelos gregos, etruscos e samnitas.

Mostrando para nós uma política de resistência à dominação cultural romana.

A historiadora Lourdes Feitosa não subordina sua análise aos velhos padrões

positivistas, mas, pelo contrário, apresenta um quadro variado e original. Portanto,

trata-se de uma leitura obrigatória para todos que buscam interpretações tanto bem ancoradas

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CLÁUDIO UMPIERRE CARLAN

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v. 26, n. 1, p. 197-199, 2007 199

Resenha recebida em 04/2007. Aprovada em 06/2007.

Doutorando no Departamento de História e pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE) –

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