Universidade Federal do Ceará Faculdade De Direito
MARIA LUDMILA COSTA IPIRANGA
BIOPIRATARIA E SEUS REFLEXOS NA PROPRIEDADE INTELECTUAL
MARIA LUDMILA COSTA IPIRANGA
BIOPIRATARIA E SEUS REFLEXOS NA PROPRIEDADE INTELECTUAL
Monografia submetida à Coordenação do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de bacharel em Direito.
Áreas de concentração: Direito
Ambiental e Propriedade Intelectual
Orientador: Professor Msc. William Paiva Marques Júnior
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará
Biblioteca Setorial da Faculdade de Direito
I12b Ipiranga, Maria Ludmila Costa.
Biopirataria e seus reflexos na propriedade intelectual / Maria Ludmila Costa Ipiranga.
– 2015.
51 f. ; 30 cm.
Monografia (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2015.
Área de Concentração: Direito Ambiental e Propriedade Intelectual. Orientação: Prof. Me. William Paiva Marques Júnior.
1. Biodiversidade - Brasil. 2. Proteção ambiental - Brasil. 3. Patentes - Brasil. 4. Propriedade intelectual – Brasil. I. Marques Júnior, William Paiva (orient.). II. Universidade Federal do Ceará – Graduação em Direito. III. Título.
MARIA LUDMILA COSTA IPIRANGA
BIOPIRATARIA E SEUS REFLEXOS NA PROPRIEDADE INTELECTUAL
Monografia submetida à Coordenação do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito.
Áreas de concentração: Direito
Ambiental e propriedade intelectual
Aprovada em 04/05/15
BANCA EXAMINADORA
________________________________________________________ Professor Msc. William Paiva Marques Júnior (Orientador)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
________________________________________________________ Mestrando Jacques Henrique Gomes da Silva
Universidade Federal do Ceará (UFC)
________________________________________________________ Professora Dra. Theresa Rachel Couto Correia
Dedico este trabalho ao meu pai, que
sempre esteve ao meu lado, apoiando e
AGRADECIMENTOS
Um agradecimento mais que especial para àquele que jamais desiste de mim, fazendo-se sempre presente nos dias de tormentas e nas manhãs de sol, Deus.
À Universidade Federal do Ceará, em especial à Faculdade de Direito (nossa querida Salamanca) por ser a concretização de um sonho e o resultado de muito esforço, local onde fui muito feliz durante os cinco anos que a frequentei.
Ao meu querido orientador, professor William Marques, por ser um
referencial como profissional, seja por sua dedicação ou eficiência, seja por ser essa
pessoa maravilhosa, conhecida nos corredores dessa faculdade por sua generosidade e
alegria de viver.
Ao meu amigo e mestrando Jacques Henrique que tão prontamente aceitou o meu convite para compor essa Banca Examinadora, bem como fica meu “muito obrigada” à professora Theresa Raquel, o qual não se restringe à sua participação nessa avaliação, mas a agradeço também pelas aulas, pelas conversas e pela simpatia.
Ao meu pai, Pedro Ipiranga, que tanto torceu por essa vitória, que sempre esteve nas arquibancadas da vida me incentivando, gritando, aplaudindo, torcendo pelo meu sucesso.
À minha mãe, por todo carinho que me dedicou, aos meus maravilhosos irmãos mais velhos, Cosme Jerônimo, Fabiana, Sarah |Diva, Jamille, Sávio e Júnior que foram um pouco de pai e de mãe com essa “caçulinha”, e que até hoje se fazem presentes nos bons e maus momentos. E um agradecimento especial ao meu irmão mais novo, Paulo, que foi, literalmente, meu companheiro de aventuras na infância e hoje divide comigo as responsabilidades que a vida nos trouxe.
À minha Família e à Soledade, pelos abraços mais gostosos e os sorrisos mais doces.
Ao Roncalli Barreto, por todo incentivo, amor e companheirismo. Saiba que me inspiro muito em você. Obrigada por tornar mais doce a minha vida e mais cheia de sonhos a minha alma, essa trajetória não teria sido a mesma se eu não o tivesse encontrado dentre os corredores da Faculdade de Direito.
do meu lado.
Ao “meseg”, grupo de pessoas da faculdade que tive o imenso e honroso prazer de conhecer e poder desfrutar de suas preciosas amizades ao longo de todo curso, vocês foram essenciais para o encerramento desse ciclo: Edson Cutrim, Paulo Augusto, Luis Carlos, Walessa Miranda, Victor Campos, Thiago Parente, Rayssa Viana, Vinícios Cavalcante e Matheus Pereira. É um privilégio ser amiga de vocês. Juntos, compartilhamos brincadeiras, risadas frouxas, viagens maravilhosas, angústias, medos, sofrimentos, vitórias, superações, nossa amizade apenas se fortalecendo. Fico na torcida por cada um de vocês, que cada sonho seja realizado e que Deus me permita estar ao lado de cada um, para aplaudi-los de pé e cheia de orgulho.
Às minhas tias-mães, Núbia Dutra e Carmén Lúcia, e ao meu sobrinho -irmão, Pedro Dutra, que se fizeram essenciais na minha vida em tão pouco tempo de convívio. Sou muito grata a vocês pelo carinho, cuidado e zelo por mim, por cada sorriso dado gratuitamente quando era só isso que eu precisava, por cada abraço sincero que só vinham para fortalecer essa amizade. Vocês me inspiram a ser uma pessoa melhor a cada dia.
Ao Des. Emanuel Leite Albuquerque pelo carinho que sempre me tratou e pelos conhecimentos jurídicos humildemente repassados.
Ao meu querido e amado gabinete no Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, onde tive o prazer de desfrutar da amizade e ensinamentos de pessoas maravilhosas: Anselmo, Thiago, Lívian, Domenico, Samara, Jô, Netinho, Euclides, Seu Gabriel (vulgo Seu Gabis), Raquel, Eduardo e Daniel. Obrigada a todos por tornarem mais prazerosas as horas de trabalho e por todo carinho que sempre me foi dado.
Por fim, a todos àqueles que de alguma forma contribuíram para a
concretização desse momento, ninguém consegue alcançar nenhum sonho sozinho,
“Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora A presença distante das estrelas!”
RESUMO
Objetiva-se a análise da biopirataria no Brasil, conceituando-a e elaborando um breve
apanhado histórico da sua prática ao longo dos séculos, sem deixar de atentar para o
desenvolvimento legislativo nacional, principalmente ao se tratar acerca desse ato e sua
correlação com as medidas para a proteção das riquezas naturais e das técnicas
tradicionais realizadas por comunidade nativas. Observar-se-á também como se deu a
evolução do direito relacionado à propriedade intelectual em âmbito local e mundial,
não deixando de verificar os artigos mais relevantes na Lei nº 9.279/96, mais conhecida como “Lei de Patentes”, e a sua influência no processo de registro de patentes no país. Por fim, verificam-se as falhas e omissões no ordenamento jurídico que possibilitam
esse ato ser tão recorrente, bem como se verificará casos concretos de registro de
riquezas naturais brasileiras por outros países ou empresas estrangeiras, muitos dos
quais repercutiram internacionalmente.
ABSTRACT
Objective the analysis of biopiracy in Brazil , conceptualizing it and elaborating a brief
historical overview of his practice over the centuries , while attending to the national
legislative development, especially when it comes about that act and its correlation with
measurements for the protection of natural resources and traditional techniques
performed by native community. It will also observe how was the evolution of the law
related to intellectual property at local and global level , not forgetting to check the most
relevant articles of Law nº 9.279 / 96 , better known as " Patent Law " and its influence
in the patent registration process in the country. Finally, there are the flaws and
omissions in the law that allow this act be as applicant and will analyze individual cases
of registration of Brazilian natural resources by other countries or foreign companies ,
many of which had repercussions internationally .
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 BIOPIRATARIA: CONCEITO, EVOLUÇÃO HISTÓRICA E DESENVOLVIMENTO LEGISLATIVO NO BRASIL... 13
2.1 Conceito de biopirataria... 13
2.2 Biopirataria no conceito histórico brasileiro... 15
2.3 A defesa do meio ambiente no ordenamento jurídico brasileiro... 15
2.1.1 Previsão constitucional de proteção de proteção ao Meio Ambiente Brasileiro... 18
2.3.2 Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998... 20
2.3.3 Medida Provisória nº 2.186 de 23 de agosto de 2001... 22
2.3.4 Lei nº 11.105 de 24 de março de 2005... 23
2.4 Protocolo de Nagoya... 24
3 PROPRIEDADE INTELECTUAL NO BRASIL... 27
3.1 Definição do sistema de patentes... 27
3.2 3.3 3.3.1 3.3.2 3.3.3 3.4 4 4.1. 4.1.1. 4.1.2. 4.1.3. 4.2. 5
Um breve apanhado histórico sobre a legislação de patentes no Brasil...
O desenvolvimento do sistema de patentes no cenário internacional com reflexos no sistema brasileiro... Convenção de Paris... Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI)... Organização Mundial do Comércio (OMC) e o acordo acerca dos Aspectos Relacionados ao Comércio dos Direitos de Propriedade Intelectual (sigla TRIPS)...
Lei nº 9.276 de 15 de maio de 1997...
BIOPIRATARIA E SEUS REFLEXOS NA PROPRIEDADE
INTELECTUAL...
Análise de casos de biopirataria no Brasil... O caso do Cupuaçu... O caso do açaí... O caso da Rapadura...
Consequências da biopirataria para o Brasil...
CONSIDERAÇÕES FINAIS...
1 INTRODUÇÃO
A sociedade, com o passar do tempo, pôde observar a importância do meio
ambiente para sua própria sobrevivência, diante de tal fato, protegê-lo passou a ser uma
questão de grande importância para os Estados, bem como garantir a sua soberania
sobre os recursos naturais que estejam presentes em seus territórios.
Dessa forma, a manutenção dos ecossistemas, da biodiversidade ecológica,
dos recursos naturais e genéticos passou a ser uma questão fundamental para o homem,
desenvolvendo, inclusive, uma paridade dos direitos ambientais com os direitos
humanos, em razão da sua relevância, o que elevou a temática ambiental a níveis
internacionais.
Desde então, várias conferências e convenções foram realizadas com o
intuito de proteger o meio ambiente, os Estados passaram a desenvolver ou enrijecer as
suas normas jurídicas para garantir o domínio sobre a sua biodiversidade, buscando
assegurar o controle sobre suas riquezas naturais.
A partir disso, a temática acerca da biopirataria ganhou repercussão
internacional e os países com expressiva diversidade biológica viraram alvo da cobiça
daqueles que não possuem vastos recursos naturais. Iniciou também várias discussões
sobre uma das preocupações dos Estados, além da proteção do meio ambiente: a
apropriação indébita de conhecimentos tradicionais, resguardados por povos indígenas,
quilombolas e outros, acerca da forma de manejo e das propriedades terapêuticas de
recursos naturais retirados da fauna e flora de vários países por grandes indústrias
farmacêuticas e alimentícias.
A primeira conceituação da expressão biopirataria surgiu em 1992, na “Convenção sobre Diversidade Biológica” (CDB), apresentada durante a Eco92. Refere-se à apropriação ilícita de recursos naturais, abrangendo a fauna e a flora em sua
extensão, com o seu envio para o exterior, onde ocorrerá o manejo dessas
matérias-primas por multinacionais, as quais buscam obter lucros com a comercialização dos
produtos advindos dessas matérias, e estes sendo alcançados, não repassam para o país
de origem desses bens naturais, as quantias relativas à comercialização da mercadoria
desenvolvida e comercializada.
O Brasil possui uma substancial diversidade biológica, o que demonstra a
empresas, multinacionais e países. Segundo dados e informações fornecidos pelo
Ministério do Meio Ambiente, o País possui mais de 20%1 do número total de espécies
da Terra, este sendo detentor da maior biodiversidade do planeta2.
Tamanha riqueza natural é um dos bens mais valiosos dos brasileiros. O
ordenamento jurídico pátrio busca a proteção e a conservação dessa biodiversidade por
meio de leis e tratados, no entanto, suas disposições e penalidades apresentam-se
brandas quando comparadas com o lucro que grandes empresas internacionais
arrecadam com produtos, fabricados a partir de matérias-primas brasileiras, as quais são
levadas e utilizadas, na maioria das vezes, de forma ilícita, apossando-se das riquezas
naturais nativas clandestinamente.
Apesar dos esforços legislativos na busca de proteger a fauna e flora
brasileiras, bem como as técnicas e os conhecimentos desenvolvidos por comunidades
tradicionais nativas, estes não se mostram suficientes para sanar os problemas
relacionados à biopirataria. A fiscalização para coibir esse ato ainda é precária, os
recursos destinados ao seu combate são poucos quando analisados com relação à
dimensão do território brasileiro, e ainda verifica-se que a preocupação do governo
resume-se em atuar diplomaticamente quando há casos de repercussão internacional,
como o do açaí, do cupuaçu e da rapadura, os quais aqui serão analisados.
Neste trabalhoabordar-se-á a evolução legislativa relacionada à biopirataria
e propriedade intelectual no Brasil e no mundo, fazendo uso, inclusive, de explicações
embasadas em trabalhos publicados sob a forma de livros, revistas, publicações
especializadas, imprensa escrita, artigos e dados oficiais publicados na internet.
Analisar-se-á também, casos concretos de biopirataria com riquezas naturais nativas, as
quais são levadas para o exterior e lá patenteadas, sem qualquer autorização do
Governo, e o que se tem feito para evitar esse tipo de prática.
1Fonte: Ministério do Meio Ambiente. Disponível em:
<http://www.mma.gov.br/biodiversidade/biodiversidade-brasileira>. Acesso em: 26 de fevereiro de 2015.
2
2 BIOPIRATARIA: CONCEITO, EVOLUÇÃO HISTÓRICA E
DESENVOLVIMENTO LEGISLATIVO NO BRASIL
O Brasil é um país privilegiado por possuir uma considerável
biodiversidade, seja em sua fauna ou flora, ganhando posição de destaque no âmbito
mundial em razão da sua vasta variedade biológica. Suas riquezas naturais
concentram-se na Floresta Amazônica, sua bacia correspondendo cerca de 60% do território
nacional. Segundo dados do Greenpeace, este bioma cobre 4,2 milhões de quilômetros
quadrados (49% do território nacional) e abrange ainda nove estados da Federação:
Amazonas, Pará, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, parte do Tocantins e
parte do Maranhão3.
Há vários importantes biomas no território brasileiro, que também revelam
riquezas naturais de formas particularizadas, como a Caatinga, a Mata Atlântica, o
Cerrado, a Mata dos Cocais, entre outros. No entanto, é a Amazônia que se destaca pelo
seu vasto verde, com expressiva biodiversidade. A floresta abriga mais de 2 milhões de
espécies, o que inclui mais de 200 espécies diferentes de árvores por hectare, 1.400
tipos de peixes, 1.300 pássaros e 300 de mamíferos, representando um terço de toda a
área de florestas tropicais do mundo, mostrando-se essencial para o clima e a
diversidade biológica do planeta4.
Essa riqueza ambiental despertou o interessa de grandes multinacionais,
Estados e nações. Passou a ser objeto de cobiça de muitas empresas, que não respeitam
a soberania brasileira, adentrando em solo nacional, para retirar proveito dos bens
naturais nativos, sem qualquer autorização do governo brasileiro.
2.1. Conceito de biopirataria
Primeiramente, faz-se importante conceituar o que é biodiversidade ou
diversidade biológica. De acordo com o art. 2º, III, da Lei nº 9.985/2000 estes termos
significam:
3Fonte: GREENPEACE. Disponível em:
<http://www.greenpeace.org/brasil/pt/O-que-fazemos/Amazonia/>. Acesso em 20 de março de 2015.
4Fonte: PORTAL DA AMAZÔNIA. Disponível em:
III - diversidade biológica: a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.
Ao longo dos anos, enxergou-se a relevância da diversidade biológica, bem
como a necessidade de manutenção e defesa dos recursos naturais, uma vez que esses
estão, intrinsecamente, ligados à vida humana. Diante dessa realidade, atrelado ao fato
do Brasil dispor de uma gama considerável de espécies em sua fauna e flora, o País
passou a estar na mira daqueles que praticam a biopirataria.
O conceito de biopirataria estabeleceu-se em 1992, na Convenção sobre
Diversidade Biológica (CDB), que aconteceu durante a Eco925, consiste e reflete a
exploração da fauna e flora sem qualquer autorização do Estado que os detém, por
terceiros. Os recursos naturais são exportados e utilizados como matéria-prima na
fabricação de produtos por empresas estrangeiras, sem repasse nenhum dos ganhos
arrecadados (royaties) com a comercialização destes ao país de onde os extraíram, verificando-se, claramente, a ilegalidade nesse tipo de conduta.
Ao conceituar a palavra “biopirataria”, o Instituto Brasileiro de Direito do Comércio Internacional da Tecnologia da Informação de Desenvolvimento (CIITED) entendeu como:
Biopirataria: consiste no ato de ceder ou transferir recurso genético ou conhecimento tradicional associado à biodiversidade, sem a expressa autorização do Estado de onde fora extraído o recurso ou da comunidade tradicional que desenvolveu e manteve determinado conhecimento ao longo dos tempos. 6
De acordo com William Paiva Marques Júnior e Laura Ribeiro Maciel, os
objetivos gerais da CDB revelam uma nítida priorização da conservação da diversidade biológica mundial, com a promoção do uso sustentável de seus componentes, e com a distribuição justa e equitativa dos benefícios derivados do uso dos recursos genéticos7.
5 Em 1992, na cidade do Rio de Janeiro, aconteceu a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Rio92 ou Eco92. O evento contou com a presença de vários países, com o objetivo de discutirem sobre os rumos do desenvolvimento mundial, colocando em pauta o tema desenvolvimento sustentável.
6 CAIXETA, Faise Carolina; MOTA, Abelardo Medeiros Mota. Análise da legislação aplicável no
combate à biopirataria na Amazônia; p.3. Disponível em:
<http://perquirere.unipam.edu.br/documents/23456/55708/analise-da-legislacao.pdf>. Acesso em 21 de março de 2015.
7
Em confronto com os objetivos da CDB apresenta-se o fato da biopirataria
ser uma prática bem utilizada no comércio internacional, para a arrecadação de grandes
montantes de dinheiro, ou seja, revela-se como uma atividade bem lucrativa. Prejudica,
apenas, o país originário da matéria-prima pirateada, pois não há qualquer repasse de
valores a este. Ao considerar o ganho financeiro, o uso dos recursos de forma
sustentável e a distribuição equitativa dos bens naturais passam a figurar em segundo
plano.
Calcula-se que o Brasil perca anualmente com a biopirataria,
aproximadamente, 5 bilhões de dólares e, de acordo com a Rede Nacional de Combate
ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas)8, estima-se que os traficantes de animais
silvestres, faturam mais de 1 bilhão de dólares ao ano com a comercialização desses
animais, que são, muitas vezes provenientes da Amazônia, da Mata Atlântica, das
planícies inundadas do Pantanal Mato-Grossense e da região semi-árida do Nordeste. O
fato que se constata é que quanto mais raro o animal, maior o preço no comércio ilegal
de animais silvestres.
O lucro adquirido através dos produtos obtidos da matéria-prima nacional, e
que são patenteados no exterior, reserva-se somente as empresas estrangeiras,
multinacionais ou laboratórios farmacêuticos, sem haver nenhum repasse de quantias
para o país de origem. Portanto, com essa prática constata-se o desrespeito às leis
internacionais referentes à repartição dos lucros obtidos pela utilização de técnicas
tradicionais e de recursos naturais alheios.
Casos de biopirataria observam-se facilmente no Brasil. Por ser um
comércio muito rentável, há dificuldade no combate a essa conduta ilegal, bem como a
legislação ambiental brasileira possui muitas falhas e lacunas, o que torna ainda mais
dificultoso o trabalho de punir os praticantes desse ato.
2.2. Biopirataria no contexto histórico brasileiro
O Brasil e outros países do Terceiro Mundo detém grande parte das maiores
riquezas naturais biológicas e não biológicas. São países com uma rica biodiversidade,
de Direito. V. 35, n. 2 (2014). Disponível em: <
http://www.revistadireito.ufc.br/index.php/revdir/article/view/297>. Acesso em 21 de março de 2015.
8Fonte: Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS). Disponível em: <
gozando de um privilégio para poucos no mundo. O País dispõe de vastos recursos
hídricos, minerais, animais e vegetais, onde são encontrados em seus vários tipos de
biomas, com destaque para a Floresta Amazônica.
Ao observar o desenvolvimento da História Brasileira, constata-se que a
atenção dos estrangeiros nos recursos naturais nacionais não se limita aos tempos atuais,
faz-se presente ao longo da história do País, desde o seu descobrimento. Na
Pré-Colonia9, houve o grande interesse econômico por parte de nações estrangeiras no
pau-brasil10, o qual foi extraído de forma impetuosa, atualmente, restando poucas árvores ao
longo do território brasileiro.
A exploração11 dessa espécie vegetal apresentou-se de forma intensa,
portugueses, espanhóis, holandeses ambicionavam o lucro que arrecadariam com sua
venda na Europa. Segundo Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira, o pau-brasil
era explorado por meio do escambo (trova sem uso do dinheiro), os indígenas forneciam
a mão-de-obra para corte e transporte da madeira e, em troca, recebiam dos portugueses
objetos de pouco valor12. Dessa forma, garantia-se uma grande margem de lucro àqueles
que comercializavam a matéria-prima na Europa.
Atualmente, o pau-brasil é considerado uma árvore ameaçada de extinção,
herança da época Pré-colonial, quando foi explorada de maneira predatória, sem os
cuidados necessários para sua conservação e manutenção no meio ambiente.
As “Drogas do Sertão” 13 configuram-se como outro caso ao longo da história brasileira, tendo como objeto de exploração muitas plantas e frutas brasileiras,
concentradas na região Norte do País, destinando-os aos países europeus. Além disso,
os estrangeiros também se apropriavam do conhecimento de comunidades tradicionais
indígenas acerca do manejo desses recursos naturais, desenvolvendo produtos que são
fontes de grandes rendimentos até o atual momento.
9 O período da Pré-Colônia estabeleceu-se entre 1500-1530. O Brasil foi relegado ao esquecimento por 30
anos, devido ao comércio com as Índias ainda ser bastante lucrativo e haver a falta de pessoas interessadas em vir se estabelecer na colônia.
10 Madeira avermelhada existente na Mata atlântica, em todo litoral desde o Rio Grande do Norte até o
Rio de Janeiro, da qual se retirava um corante utilizado para tingir tecidos e móveis, muito cobiçada em toda a Europa.
11 A exploração era feita por conta do arrendatário, a Coroa sem nada investir, recebia uma parcela dos
lucros.
12 KOSHIBA, Luiz; PEREIRA, Denize Manzi Frayze. História do Brasil no contexto da história ocidental. 8ª ed. Rev., atual. e ampl. São Paulo: atual, 2003, p. 44.
13 No século XVI e XVII, houve a exploração da região amazônica por meio de missões jesuíticas que
Ao seguir a trajetória do contexto histórico nacional, verificou-se que no
século XVI explorou-se o Pau-Brasil, já no século XVII, o conjunto de produto naturais
conhecido como as Drogas do Sertão foi o que despertou interesse dos exploradores
estrangeiros. No final do século XIX e início do século XX, expôs-se o novo alvo
daqueles que buscavam lucrar com a venda de riquezas naturais brasileiras no mercado
internacional: a borracha. Com este produto em foco, desenvolveu-se no Brasil, o Ciclo
da Borracha14.
Com o surto industrial15 no Norte do País, em razão da exploração da
borracha, verificou-se que muitas pessoas migraram para aquela região, em busca de
trabalho e melhores condições de vida, o que contribuiu para a modernidade e
crescimento de uma parte do território nacional.
Como se pode atentar, a biopirataria é um problema existente no País há
séculos, esse ato traz prejuízos para a nação desde os tempos mais remotos, como se
comprova com o declínio do Ciclo da Borracha, tendo em vista, que esse fato foi um
resultado direto da atitude criminosa dos ingleses, em levar sementes de seringueiras
amazônicas, para plantá-las em países asiáticos e africanos, como na Malásia e no
Ceilão (atual Sri Lanka), os quais possuem condições climáticas semelhantes ao Brasil.
O resultado foi desastroso para o País, pois as seringueiras adaptaram-se bem ao novo
ambiente, onde as árvores produziam látex em maior quantidade. Com isso, estes países
passaram a dominar o mercado internacional, o que prejudicou diretamente o comércio
da borracha brasileira, advindo no seu declínio.
A legislação brasileira evoluiu bastante na busca da preservação da
biodiversidade nacional, bem como da soberania do País sobre seus recursos naturais.
Entretanto, ainda é possível deparar-se com problemas de patentes e extração de bens
naturais envolvendo empresas estrangeiras, principalmente, as do ramo farmacêutico e
de cosméticos, que patenteiam matéria-prima nacional e as tomam como sua. Isso
14
Com a criação e a expansão da indústria automobilística, exigiu-se um significativo aumento da quantidade de borracha, pois esta era a matéria-prima utilizada na fabricação dos pneus. Isso fez com que o Brasil passasse a exportar toneladas de borracha para empresas estrangeiras e houve o incentivo a retirada de látex das seringueiras da Floresta Amazônica.
15 No início do século XX, o Brasil tornou-se o maior produtor e exportador mundial de borracha. O
acontece com diversos produtos bem conhecidos dos brasileiros, como é o caso do
veneno de jararaca, do cupuaçu, da andiroba, entre outros.
2.3. A defesa do meio ambiente no ordenamento jurídico brasileiro
Ao analisar as cartas magnas anteriores à Constituição Federal de 1988, é
facilmente perceptível o pouco enfoque dado à conservação e proteção da natureza,
inclusive no que se trata acerca da fauna e flora brasileiras, expressão da imensa
biodiversidade existente no território brasileiro.
Mostra-se recente o despertar do interesse pela preservação ao meio
ambiente nacional, fato este impulsionado pelo destaque dado ao expressivo avanço dos
movimentos ambientais no cenário internacional. Criou-se uma consciência social sobre
a fundamental importância do meio ambiente para o ser humano, que enxergou a
relevância da natureza para sua existência, depois de utilizá-la de forma criminosa
descriminada e irracional ao longo de milhares de anos.
A preocupação da sociedade com a natureza reflete a mudança no
entendimento social acerca da relevância desta para o próprio ser humano, motivada
pelas alterações climáticas no planeta. A partir daí, o meio ambiente difundiu-se como
assunto de destaque em convenções, congressos e organizações internacionais, as quais
pressionaram os Estados a adotarem algumas medidas de preservação ambiental.
A concretização da defesa do meio ambiente brasileiro veio com a Lei nº
6.938, de 31 de agosto de 1981, a qual instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente.
A Lei dispôs sobre as diretrizes de preservação ambiental, os órgãos fiscalizadores,
âmbito de atuação, mecanismos de aplicação pelos entes federativos, além de outras
providências. No caput do artigo 2º da Lei nº 6.938/81, está expresso o objetivo principal dessa política ambiental:
Art. 2º: A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento sócio-econômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana.
Na Lei nº 6.938/81, percebe-se o primeiro ensaio de combate à biopirataria
estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas relativas ao uso e manejo de recursos ambientais”.
Com relação às normas necessárias para disciplinar o manejo dos recursos
naturais, estas competem aos entes da federação (União, Estados-Membros, Distrito
Federal e Municípios), capazes de elaborar atos normativos supletivos e
complementares, bem como auxiliar os órgãos fiscalizadores definidos na Política
Nacional do Meio Ambiente, como o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis), ainda colhendo as informações prestadas pelos órgãos
responsáveis em relatórios ambientais requeridos pela Administração Direta e Indireta.
A Política Nacional do Meio Ambiente, sem sombras de dúvida, expressa
um progresso na legislação ambiental, apesar de possuir muitas lacunas e conceitos
vagos, sem especificidade em relação ao tema tratado nesse artigo, fato este justificado
em razão do desinteresse e descaso dado à biopirataria, consequentemente, ao seu
combate.
2.3.1. Previsão constitucional de proteção ao Meio Ambiente Brasileiro
A Constituição Federal de 1988, promulgada em 05 de outubro de 1988
representou um significativo progresso no processo democrático brasileiro,
consagrando, em um de seus artigos, a temática ambiental. As constituições nacionais
anteriores16 à de 1988, pouco abordaram a proteção ao meio ambiente, não se
preocuparam com a defesa dos recursos naturais brasileiros de forma singular e
absoluta.
A atual Constituição Federal da República expressa em seu art. 225, o
interesse da preservação dos recursos naturais brasileiros, entendendo que é um bem a
ser juridicamente protegido, como se pode constar ao lê-lo na íntegra:
Art. 225: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preimpondo-servá- lo para as presentes e futuras gerações.
16 O Brasil possuiu sete constituições oficiais ao longo de sua História: A Constituição de 1824, de 1891,
No dispositivo referenciado, percebe-se alguns princípios norteadores do
ordenamento jurídico brasileiro, indispensáveis à política de preservação da natureza,
implementada com afinco na Carta Magna. Estes conduzem as diretrizes que a
legislação deve seguir. Identificam-se os princípios do desenvolvimento sustentável e o
princípio da preservação no último trecho do artigo, no qual há a preocupação do
legislador na conservação das riquezas naturais para às gerações futuras, revelando o
entendimento de possuir a consciência que há recursos naturais findáveis e que serão
necessários às futuras gerações, essa preocupação é onde se centra o objetivo de defesa
do Meio Ambiente.
Busca empregar o pensamento de utilização responsável dos bens naturais,
manejando-os com zelo e responsabilidade, para que possa haver o uso destes por
àqueles que virão, através do desenvolvimento econômico e o bem estar social.
2.3.2. Lei nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998
A Lei nº 9.605/98 ou “Lei de Crimes Ambientais”, como é mais conhecida, veio preencher lacunas existentes na legislação, dispondo sobre a tipificação das
condutas infratoras, aquelas que venham a causar algum dano ao meio ambiente.
Antes da Lei de Crimes Ambientes não existia qualquer norma para o
enquadramento de condutas lesivas à biodiversidade nacional no Direito Brasileiro.
Dispôs-se, então, sobre punições penais e administrativas àqueles que violarem a
manutenção e preservação dos bens naturais.
A Lei objetiva disciplinar a relação homem e meio ambiente. No entanto,
em sua formulação, o legislador enfatizou certos pontos que se apresentam irrelevantes
no âmbito jurídico e social por suas condutas tipificadas não fazerem diferença quando,
de fato, aplicadas, é o caso do artigo 49, o qual pune o indivíduo que destrói, danifica,
lesa ou maltrata, por qualquer modo ou meio, plantas de ornamentação de logradouros
públicos ou em propriedade privada alheia. Neste artigo há previsão do dano culposo,
fato este que até então não havia no ordenamento jurídico, e ainda estabelece, caso haja
dolo na conduta, a aplicação de penalidades desproporcionais com o nível da gravidade
do crime.
No mais, a Lei nº 9.605/98 não se define sobre a competência para o
o Superior Tribunal de Justiça (STJ) viu a necessidade de interferir, entendendo, desde
2000, que a competência para processar e julgar os crimes previstos na Lei de Crimes
Ambientais cabe à Justiça Estadual, apenas correspondendo a competência para
julgamento da matéria à Justiça Federal quando a conduta também afetar bem federal.
Com relação à biopirataria, a Lei não trouxe explicitamente nenhum
artigo que aborde e qualifique essa conduta como uma prática ilegal, com sanções adequadas à gravidade do crime cometido. O artigo 29 dispõe: “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a
devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida; pena: detenção de seis meses a um ano, e multa.”, ao dar-lhe uma interpretação mais extensiva, analisando as entrelinhas do dispositivo, este pode tratar,
em casos isolados, acerca da prática da biopirataria, ou seja, dependerá da interpretação
individual do julgador.
O artigo 55 da Lei nº 9.605/98 também pode ser taxado como crime de
biopirataria, entretanto, a depender da interpretação da conduta pelo julgador, como no caso acima discutido: “executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem a competente autorização, permissão, concessão ou licença, ou em desacordo com a obtida”, sendo atribuída a penalidade de “pena- detenção de seis meses a um ano, e multa”.
A Lei nº 9.605/98 segue um dos princípios norteadores na defesa da
natureza, o Princípio do Poluidor-Pagador, o qual foi instituído constitucionalmente no artigo 225º, § 3º da Carta Magna: “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”, defendendo a reparação dos danos ambientais gerados de alguma forma, que pode ser
por meio do pagamento de multas, com valores que podem chegar a 50 milhões de
reais.
Ressalta-se que este valor máximo das multas ambientais, no caso da
biopirataria, mostra-se irrisório quando comparado ao lucro bilionário que algumas
empresas faturam em produtos desenvolvidos a partir de matéria-prima nativa, que,
inclusive, são patenteados por terceiros, acabando por não coibir tal prática.
Apesar de haver incompletudes e omissões, a Lei nº 9.605/98 almeja punir
administrativas e penais, o que configurou uma inovação na legislação de defesa ao
meio ambiente, bem como ao aplicar também a Teoria da Dupla Imputação, a qual
dispõe que as penalidades definidas na Lei de Crimes Ambientais serão aplicadas tanto
a pessoas físicas, quanto a pessoas jurídicas, que venha a praticar agressão ao bem
ambiental juridicamente protegido.
2.3.3. Medida Provisória nº 2.186-16 de 23 de agosto de 2001
A criação de medida provisória possui como pressuposto urgência e
relevância, de acordo com o caput do artigo 62 da Constituição Federal de 198817, apresentando-se com a finalidade de sanar as lacunas nos dispositivos do direito
brasileiro, quando estes não expressarem um sentido completo e suficiente para a
aplicação da norma. A medida provisória possui força de lei, entretanto, por não ter
passado por um processo legislativo, não se pode nomeá-la como uma lei propriamente
dita. Ela possui eficácia durante seu período de vigência que pode chegar até 120 dias,
tempo este para o Congresso Nacional votar na sua possível conversão em lei.
A Medida Provisória nº 2.186-16/2006 detém como meta principal a defesa,
a conservação e a preservação do patrimônio genético brasileiro18, buscando a proteção
do meio ambiente. Essa MP pretende assegurar, inclusive, a repartição de lucros
angariados por multinacionais, através do manuseio e aproveitamento do patrimônio
genético proveniente do Brasil.
A mencionada medida provisória mostrou-se como sendo de grande
relevância, tendo em vista que através desta que se propiciou uma maior proteção ao
meio ambiente, pois incluiu artigos destinados ao combate à biopirataria. Esta
apresentou a relevância efetiva e indispensável de uma legislação no direito nacional
que tratasse sobre o patrimônio genético ambiental do Brasil, especialmente.
É claramente perceptível progresso nas normas ambientais, com destaque
para o artigo 1º da MP nº 2.186-16/2006, o qual dispõe sobre os bens, os direitos e as
17
Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 32, de 2001).
18 De acordo com a MP nº 2.186-16/2006 Art. 3o: Esta Medida Provisória não se aplica ao patrimônio
obrigações19. Esta medida provisória ainda dispõe sobre sanções com valores
consideráveis, na busca de coibir as práticas lesivas ao patrimônio natural.
Estranha-se o fato de o Brasil possuir uma das maiores variedade biológica
do planeta e pouco desenvolvimento em sede legislativa para resguardar suas riquezas
naturais. Pode-se identifica, inclusive, um atraso na criação de legislação específica,
com o intuito de inibir a prática da biopirataria em território nacional, o que revela a
desvalorização por parte da própria sociedade com a biodiversidade do País e falta de
senso de preservação com esta.
A Medida Provisória nº 2.186-16/2006 não sana todos os impasses
referentes à legislação ambiental brasileira, pois estas omissões decorrem de décadas de
retardamento normativo e de desinteresse social. Algumas questões não foram
solucionadas por tal medida, pois esta não determina, explicitamente, a biopirataria
como um crime ambiental, consequentemente, não atribuindo, a tal fato, sanções
específicas. Ainda emprega a União como o ente responsável por conceder autorização
concernente ao manuseio e à exploração do patrimônio genético, o que restringe o
acesso de cientistas brasileiros a esses recursos, devido ao aumento da burocracia.
2.3.4. Lei nº 11.105 de 24 de março de 2005
A Lei nº 11.105/05, mais conhecida como “Lei da Biossegurança”,
estabelece normas regulamentadoras e procedimentos fiscalizatórios às práticas que
utilizem organismos geneticamente modificados, abordando, então, temas como o
cultivo de gêneros alimentícios transgênico e as pesquisas com células-troncos
embrionárias. Essa Lei aborda temas recentes, invenções que até pouco tempo eram
19
Art. 1º: Esta Medida Provisória dispõe sobre os bens, os direitos e as obrigações relativos: I - ao acesso a componente do patrimônio genético existente no território nacional, na plataforma continental e na zona econômica exclusiva para fins de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção; II - ao acesso ao conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético, relevante à conservação da diversidade biológica, à integridade do patrimônio genético do País e à utilização de seus componentes; III - à repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da exploração de componente do patrimônio genético e do conhecimento tradicional associado; e IV - ao acesso à tecnologia e transferência de tecnologia para a conservação e a utilização da diversidade biológica.
§ 1º. O acesso a componente do patrimônio genético para fins de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção far-se-á na forma desta Medida Provisória, sem prejuízo dos direitos de propriedade material ou imaterial que incidam sobre o componente do patrimônio genético acessado ou sobre o local de sua ocorrência.
surreais, no entanto, atualmente, fazem parte da realidade humana e, portanto, exigem
legislação própria para discipliná-las.
Lei de Biossegurança revogou a Lei nº 8.974, de 05 de janeiro de 1995, a
qual versava a respeito da biotecnologia, tratando sobre áreas importantes, como a
engenharia genética e ramos derivados destes. A atual Lei dispõe como tema central: organismos geneticamente modificados (OGM‟s), popularmente conhecidos como
transgênicos, e à pesquisa científica com células–tronco. Diferente da Lei nº 8.974/95,
Lei nº 11.105/05 criou, inclusive, o Concelho Nacional de Biossegurança e uma
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança para disciplinar e monitorar o
desenvolvimento de procedimentos científicos, apresentando finalidade terapêutica e de
pesquisa.
Ao considerar o artigo 1º da mencionada lei, verifica-se, de forma clara e
objetiva, uma das propostas defendidas pela Lei de Biossegurança com relação aos
produtos transgênicos ou organismos geneticamente modificados:
Art. 1º: Esta Lei estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização sobre a construção, o cultivo, a produção, a manipulação, o transporte, a transferência, a importação, a exportação, o armazenamento, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a liberação no meio ambiente e o descarte de organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, tendo como diretrizes o estímulo ao avanço científico na área de biossegurança e biotecnologia, a proteção à vida e à saúde humana, animal e vegetal, e a observância do princípio da precaução para a proteção do meio ambiente.
Os assuntos presentes na Lei de Biossegurança são polêmicos, geram pontos
de vista controvertidos na sociedade. As opiniões chocam-se quando questionados
acerca do apóio à fabricação e ao consumo de alimentos transgênicos.
No mais, faz-se essencial a necessidade de muita cautela ao tratar sobre a
pesquisa com células-tronco, pois é uma temática que se relaciona com o direito à vida.
Com essa Lei, o Poder Legislativo atualizá-se no que diz respeito às novas temáticas
tratadas no meio jurídico.
Para alguns juristas, a vasta quantidade de temas discutidos na Lei podem
ser objetos de longas e abrangentes discurssões, em razão disso, tais juristas defendem o
enquadramento de determinados pontos em leis específicas, as quais tratarão apenas
2.4. Protocolo de Nagoya
O Protocolo de Nagoya foi criado em outubro de 2010, na cidade de Nagoya
(Japão), em meio à 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade
Biológica das Nações Unidas (COP-10). O Brasil assinou o acordo em fevereiro de
2011, na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, porém, em 2014, o
País não o ratificou20.
Esse acordo internacional trata acerca do acesso aos recursos genéticos e à
repartição justa e equitativa dos benefícios resultantes de sua utilização, buscando, na
verdade, resguardar os direitos inerentes aos países que detém biodiversidade nativa e
que sofrem com os efeitos da biopirataria.
O referido acordo representa um ganho, em proporções internacionais, na
proteção da diversidade biológica pertencente a cada Estado. O Protocolo de Nagoya
trouxe avanços, os países-membros comprometeram-se a elaborar normas e, com isso,
possibilitar, sem entraves político-econômicos, o desenvolvimento de pesquisas, acesso
e repartição de benefícios provenientes do manejo da biodiversidade, sanando antigos
desejos de governos, multinacionais, entre outros.
Possui como objetivos determinados, reprimir a pirataria dos recursos
genéticos e a utilização ilícita dos conhecimentos tradicionais associados à
biodiversidade, buscando um ambiente estável e protegido para que o estudo de
produtos e técnicas provenientes do aproveitamento das riquezas biológicas e do
conhecimento a estas associadas resulte em ganhos pertencentes a todos os envolvidos
no processo.
O Brasil apesar de ser um dos signatários do acordo, não o ratificou. Tal
atitude reflete a influência do agronegócio nas decisões governamentais acerca da
temática ambiental, pois esse setor possui receios com relação ao acordo, pela
possibilidade deste gerar alguma ameaça aos seus interesses comerciais, sobretudo em
20
relação a soja, cana e gado21, receios estes infundados, tendo em vista que o acordo não
teria efeito retroativo e não influenciaria no comércio de commodities. O Congresso
Nacional foi pressionado e cedeu àqueles que comandam o agronegócio no País,
inclusive com representantes no Congresso Nacional, o que resultou no veto à
ratificação do Protocolo22.
Afirma Vanesa Carlisa A. Pereira, uma vez em vigor, o Protocolo de
Nagoya estabelecerá bases para um regime internacional eficaz para o acesso e
repartição dos benefícios do uso da biodiversidade, bem como dos conhecimentos
tradicionais a ele associados23.
O Protocolo representa um passo importante na manutenção da diversidade
biológica no âmbito mundial, bem como é uma importante ferramenta no combate à
biopirataria com reflexo direto na patenteação de produtos.
A não ratificação do acordo por parte do Brasil apresenta-se como uma
chance perdida de fazer respeitar a sua vasta biodiversidade em meio a tantos outros
Estados, e ainda obter benefícios financeiros, com a realização de parcerias empresarias
com indústrias que possuem evidente interesse em fazer uso dos recursos naturais para
desenvolver medicamentos, alimentos, cosméticos, entre outros produtos.
Esse tipo de recusa apenas incentiva a prática desse ato, deixando o
interesse de certos grupos econômicos conduzir a política de proteção ambiental
nacional conforme seus receios e suas vontades.
21 Fonte: WWF (World Wide Fund For Nature). Disponível em: < http://www.wwf.org.br/?41762>.
Acesso em 01 de abril de 2015.
22
WELLE, Deutsche. Protocolo de Nagoya vai entrar em vigor sem o Brasil. Revista Carta Capital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/acordo-sobre-biodiversidade-vai-entrar-em-vigor-sem-o-brasil-8932.html>. Acesso em 01 de abril de 2015.
23
PEREIRA, Vanesa Carlisa Andrade. O acesso à biodiversidade brasileira: as principais medidas no
combate à biopirataria Pós-Nagoya. Monografia (graduação) – Universidade Federal do Ceará,
3 PROPRIEDADE INTELECTUAL NO BRASIL
O termo propriedade intelectual24 possui uma vasta abrangência. A
Convenção de Estocolmo de 1967, além de instituir a Organização Mundial da
Propriedade Intelectual (OMPI) 25, definiu-o em seu art. 2º:
A expressão Propriedade Intelectual abrange os direitos relativos às invenções em todos os campos da atividade humana, às descobertas científicas, aos desenhos e modelos industriais, às marcas industriais, de comércio e de serviço, aos nomes e denominações comerciais, à proteção contra a concorrência desleal, às obras literárias, artísticas e científicas, às interpretações dos artistas intérpretes, às execuções dos artistas executantes, aos fonogramas e às emissões de radiodifusão, bem como os demais direitos relativos à atividade intelectual no campo industrial, científico, literário e artístico.
José Carlos Almeida Filho afirma que “a Propriedade Intelectual é gênero, seguindo-se a Propriedade Industrial – esta mais afeita às marcas, patentes etc., (...) – como espécie” 26
.
Consegue-se constatar a afirmação acima em um simples caso concreto: ao
tratar-se dos recursos genéticos, estaremos nos referindo à patente de invenção (espécie), que “consiste na concessão de direito temporário a um titular de excluir outros do uso da invenção nova e útil” 27
, o que se apresenta como um desdobramento
mais especificado da Propriedade Intelectual (gênero).
3.1. Definição do Sistema de Patentes
O sistema de patentes consiste no meio de garantir, temporariamente, a
propriedade de um instrumento pelo qual se desenvolverá um meio capaz de trazer
24 A propriedade intelectual presenta três áreas de abrangência: (a) Propriedade Industrial (patentes,
marcas, desenho industrial, indicações geográficas e proteção de cultivares), (b) Direito Autoral (obras literárias e artísticas, programas de computador, domínios na Internet e cultura imaterial) e (c) Conhecimentos Tradicionais, estes ainda não definidos de forma precisa, em razão de não haver um entendimento unificado entre os juristas, quanto ao objeto exato dessa área.
25 Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Disponível em: <
http://www.wipo.int/about-ip/es/>. Acesso em: 01 de março de 2015.
26
FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. Introdução ao Estudo do Direito da Propriedade Industrial. Disponível em: < http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/27800-27810-1-PB.htm>. Acesso em 01 de março de 2015.
27 SHERWOOD, Robert. Propriedade intelectual e desenvolvimento econômico. São Paulo: Edusp,
benefícios, em especial o econômico, ao seu titular, fato este que o torna seu detentor,
em contrapartida, esse objeto passa a ser passível de apropriação privada e alienação28.
A patente nada mais é que um monopólio de objetos advindos da
propriedade intelectual que visa, prioritariamente, os benefícios econômicos, busca
garantir o acesso exclusivo, limitado àqueles que detêm seu domínio, podendo ser
utilizado em conhecimento e/ou tecnologias, bem como na fabricação de produtos, e
impedindo de outros apropriarem-se destes indevidamente.
A concretização desse direito exclusivo de um indivíduo sobre algo
patenteado materializa-se por meio de um documento (conhecido por Carta-Patente),
concedido por um país ou grupo de países (quando estes são signatários de acordos
internacionais). Esse registro deve seguir estritamente o conjunto de normas criadas
pelo Estado ou países-membros, a fim de regularizar o seu sistema de patentes.
Essas disposições legais, em sua maioria, seguem em conformidade com
acordos internacionais realizados para tratar sobre patentes, onde define regras de
condutas, as quais os países-membros comprometeram-se a adotar. Com isso, buscam
prevenir terceiros de copiarem seus objetos de patentes, preservando o seu caráter
exclusivo e, consequentemente, assegurando o lucro que pode advir destes, com
repercussão direta no meio industrial e no mercado internacional.
Em razão dessa busca pelo desenvolvimento, criação, invenção de produtos,
que trazem grandes somas monetárias para quem os dominam, é que as riquezas
naturais são cada vez mais valorizadas, tornando-se um dos diferenciais no próprio
cenário mundial, pois são fontes de matérias-primas para o desenvolvimento desses
instrumentos, e quem os detém, não possui a intenção de dividir seus lucros, fazendo
com que o sistema de patentes ganhe cada vez mais relevância, pois se apresenta como
um meio de controle e restrição sobre os produtos confeccionados a partir dessas fontes
naturais.
3.2. Um breve apanhado histórico sobre a legislação de patentes no Brasil
O primeiro conjunto de normas nacionais, que tratou acerca do sistema de
patentes, foi instituído em 1809, por D. João VI, após um ano da chegada da família real
28 DEL NERO, Patrícia Aurélia. Propriedade intelectual: a tutela jurídica da biotecnologia. São
portuguesa ao Brasil. Com abertura dos portos brasileiros às nações amigas em 28 de
janeiro de 1808, pôs-se fim ao monopólio português na comercialização dos produtos
brasileiros, buscando, com isso, o crescimento econômico e desenvolvimento para o
País29, fato este que atraiu muitos investidores e comerciantes estrangeiros.
Percebeu-se com esse novo panorama político-econômico a necessidade de
normas para regê-lo, diante disso, em 1830, promulgou-se a Lei de Concessão dos
Privilégios Industriais e seus Direitos decorrentes, começando a ensaiar um sistema de
proteção àquilo que viria a ser patenteado, nada muito robusto ou complexo, até porque
nesse período não havia a consciência de preservação da biodiversidade brasileira e não
se enxergava a necessidade de garantir o domínio nacional sobre seus bens naturais.
Em 1945, visando, especificamente, a propriedade intelectual, criou-se um
conjunto de leis acerca desse tema, que viria a ser conhecido como o Código da
Propriedade Industrial, que foi promulgado por meio do Decreto-Lei nº 7.903.
Posteriormente, objetivando aprimorar o conjunto de garantias e concessões
relacionadas à propriedade intelectual, com o intuito de buscar evitar a existência de
cláusulas abusivas nos contratos entre empresas, instaurou-se o Instituto Nacional de
Propriedade Industrial (INPI) com a Lei 5.648/70, competindo a este gerir e aperfeiçoar
o próprio sistema nacional de patentes.
O Brasil enxergou a necessidade de acompanhar os ditames internacionais
sobre patentes, os quais foram impostos em convenções, acordos e tratados, nesse
sentido, em 1971 criou-se o Novo Código de Propriedade Industrial (Lei nº 5.772/71).
Com esse novo código, houve o intuito de dar maior proteção ao desenvolvimento
brasileiro, impondo restrições a certos setores, como o alimentício. Ainda instituiu o
prazo de 15 (quinze) anos de exclusividade para invenções patenteadas, havendo o
adequado depósito do pedido junto ao INPI.
Com uma característica mais protecionista quando comparada às legislações
brasileiras anteriores, o Novo Código de Propriedade Intelectual não agradou países que
investiam no mercado tecnológico. Assim, o País sofreu pressões de grandes Estados,
como os Estados Unidos, para adequar sua legislação aos ditames internacionais e, com
isso, voltar a beneficiar esses Estados.
29
Neste sentido afirma Jean-Marie Lambert30:
As nações inteligentes dão o mencionado passo [proteção às patentes] quando em consciência contábil, constatam que têm mais a vender que a comprar,
percebendo, portanto, uma relação „custo X benefício‟ favorável ao
reconhecimento mútuo de direitos patentários. (...) Os países desenvolvidos mostram invariavelmente uma cautela extrema, aderindo paulatinamente às políticas de reconhecimento de privilégios, depois de consolidar suas próprias indústrias e de dominar as tecnologias sensíveis.
Atendendo às pressões internacionais, foi instituída a Lei nº 9.279 de 1996,
que revogou a antiga lei brasileira que tratava de patentes (Lei nº 5.772 de 1971), a qual
vigorou até maio de 1997. Essa lei favoreceu, principalmente, àqueles que já possuem
uma tecnologia desenvolvida, pois a Lei nº 9.279/96 propicia um engessamento acerca
das possibilidades de iniciativa nacional autônoma, restringindo a circulação e
transferência tecnológica, o que atinge diretamente a capacidade de negociação
comercial do Brasil.
3.3. O desenvolvimento do sistema de patentes no cenário internacional com
reflexos no sistema brasileiro
Historicamente, o Homem realizou descobertas, desenvolveu manufaturas,
criou e recriou ideias, e continua a desenvolver instrumentos úteis à sua vida, que
colaboraram para sanar as necessidades intrínsecas ao indivíduo.
Com isso, o ser humano desenvolveu o sentimento de querer assegurar o
que foi criado por ele, de forma individualizada, seja por vaidade ou por querer
resguardar benefícios econômicos obtidos por meio de suas criações. Então, passou-se
a haver disputas por esses meios, diante da necessidade de cada país.
3.3.1. Convenção de Paris
O perfil internacional alterou-se e os países integralizaram-se ao longo do
tempo, logo se enxergou a indispensabilidade de reunir os Estados e definir normas
sobre a propriedade intelectual, para evitar conflitos e desvantagens comerciais entre os
30
países. Foi quando se realizou a Convenção de Paris, em 1883, para discutir e definir
regras de condutas acerca de um tema comum aos participantes: o sistema de patentes.
Acerca do tema, Del Nero31 afirma:
A aquisição e a fruição da propriedade intelectual são condicionadas pelas várias formas de regulamentação postas pelo Estado e por organismos supra-estatais (tratados e convenções internacionais), sendo que estes fixam os princípios básicos, que devem ser seguidos e praticados apelo países que os reconhecem, aderindo a suas celebrações. Cada Estado signatário deve compatibilizar sua legislação interna quanto à propriedade intelectual, na medida em que adere a um novo tratado internacional.
O Brasil, apesar de ser um país em desenvolvimento, participou como
membro originário das primeiras convenções que trataram acerca da propriedade
industrial, como foi o caso da Convenção de Paris, realizada em 1883, que constituiu
um marco no estabelecimento de normas internacionais sobre propriedade industrial, na
qual o Brasil revelou-se como um dos seus primeiros países signatários.
Com a Convenção de Paris, buscava-se garantir a proteção das criações
desenvolvidas pelos países signatários, almejando com isso, colaborar e incentivar o
desenvolvimento dos estados-membros. No art.1,1, da Convenção, delimita-se
claramente o seu objetivo que consiste em reunir os países participantes da Convenção,
com o intuito de protegerem a propriedade industrial, bem como no número 2, do
mesmo artigo, apresenta o seu objeto32:
Art. 1º, 2: A proteção da propriedade industrial tem por objeto as patentes de invenção. Os modelos de utilidade, os desenhos ou modelos industriais, as marcas de fábrica ou de comércio, as marcas de serviço, o nome comercial e as indicações de proveniência ou denominações de origem, bem como a repressão da concorrência desleal.
O acordo feito entre os participantes consistia no princípio da assimilação
do estrangeiro ao nacional (art. 2º, I, da Convenção de Paris de 1883), o que significa
que os países integrantes estenderiam sua legislação interna aos demais membros do
acordo, os quais poderiam desfrutar dos direitos internos concedidos. Esse princípio até
hoje existe e possui aplicabilidade, inclusive na atual Lei Brasileira de Patentes (Lei n.
31
DEL NERO, Patrícia Aurélia. Propriedade intelectual: a tutela jurídica da biotecnologia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 43.
32
9.279/96), em seus artigos 230 ao 232, definindo o que atualmente é chamado de “Pipeline”.
Pretendia-se com esse acordo internacional, pactuado na Convenção de
Paris e administrado, atualmente, pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual
(OMPI) 33, atribuir liberdade e autonomia ao Brasil e aos seus demais integrantes, para
assentar os pontos considerados fundamentais a serem protegidos por essa lei,
buscando, inclusive, evitar a competição comercial internacional de forma desleal.
Ainda determinou-se na Convenção, um prazo de 12 (doze) meses para aquele seu
integrante que solicitou uma patente, requerê-la em outro país signatário, isto porque a
patente da matéria valeria apenas no local onde ela foi registrada, as patentes realizadas
em diferentes países sendo autônomas entre si34.
Houve países participantes da Convenção que discordaram dos termos
impostos pelo acordo, como foi o caso dos Estados Unidos e Japão, alegando que as
regras estabelecidas iriam limitar seu desenvolvimento, e sob esse argumento não
ratificaram o acordo. Apenas, posteriormente, quando suas indústrias alcançaram certo
nível industrial, que estes países como os EUA, passaram a integrar o acordo da
Convenção.
Dessa forma, países, como o Brasil, acabaram fazendo uso dos avanços
industriais obtidos pelos Estados pioneiros no sistema de patentes, tornando essas
descobertas de domínio público, fato este que desagradou aqueles que as criaram.
Tal atitude se apresentou como o ônus destes países desenvolvidos terem
subjugado os Estados mais pobres, com relação a investimentos no seu progresso
industrial e como possíveis depósitos de patentes. Isso também trouxe consequências
indesejadas para os países em desenvolvimento, pois o aproveitamento do progresso
tecnológico de terceiros pelos países mais atrasados resultou na ocorrência de danos ao
desenvolvimento da tecnologia brasileira, inclusive, uma vez que a manufatura nacional
não recebeu incentivos para o seu crescimento e ainda teve que lidar com uma
concorrência desleal.
33
OMPI é uma organização intergovernamental, integrante das Organizações das Nações Unidas (ONU), com matriz em Genebra (Suíça), onde acontece o fórum global para serviços de propriedade intelectual, política, informação e cooperação.
3.3.2. Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
Com o fim da 2ª Guerra Mundial, houve mudanças relevantes na conjuntura
internacional, fundou-se a Organização das Nações Unidas (ONU) em 14 de outubro de
1945, com o objetivo de garantir o respeito aos direitos fundamentais do homem, à
dignidade da pessoa humana, à igualdade, à liberdade, bem como à justiça e o
cumprimento às obrigações decorrentes de tratados e demais acordos internacionais
entre os países35. Em 1967, na Convenção de Estocolmo, essa Organização criou a
Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
A OMPI foi criada com o objetivo de disciplinar o sistema de patentes no
âmbito internacional, a partir da exigência de grandes potências, como os EUA, que
estavam insatisfeitos com a forma utilizada para a concessão de patentes. A discussão
sobre a matéria moveu-se para o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), onde os
países passaram a debater sobre a relevância da propriedade industrial no mercado
mundial. O GATT futuramente seria substituído pela Organização Mundial de
Comércio (OMC), a qual estabeleceria diretrizes para evitar uma competição desleal no
mercado internacional.
3.3.3. Organização Mundial do Comércio (OMC) e o acordo acerca dos Aspectos
Relacionados ao Comércio dos Direitos de Propriedade Intelectual (sigla TRIPS)
Discussões e negociações foram realizadas com o intuito de chegar a um
consenso, objetivando a resolução do impasse sobre os moldes que determinariam as
regras sobre a propriedade intelectual, pretendendo, com isso, reduzir as disparidades
nas disposições normativas acerca desse tema no cenário mundial, com o intuito de
realizar uma espécie de unificação normativa. Focada nesse sentido, na Rodada
Uruguai, a OMC cria o TRIPS (Trade-Related Aspects of Intelectual Property Rights)36,
acordo que buscou estabelecer proteção e garantias, de forma equitativa, à propriedade
intelectual, entre os membros da OMC, estabelecendo regras para trazer benefícios à
35
Organizações das Nações Unidas. Disponível em: < http://www.onu.org.br/>. Acesso em 12 de março de 2015.
36 Organização Mundial do Comércio. Acordo sobre Aspectos Relacionados ao Comércio dos Direitos
de Propriedade Intelectual (sigla TRIPS). Disponível em: