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Academic year: 2023

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Expediente

Editores:

José Santana da Silva

Roseli Martins Tristão Maciel

Coordenadora de projetos e publicações da UEG:

Elisabete Tomomi Kowata Designer Gráfico:

Arnaldo Salustiano de Moura Consultora de arte:

Lígia Maria de Carvalho Conselho editorial:

Ademir Luiz da Silva (UEG) – História Adriana Carvalho Pinto Vieira (Unesc)

Carlos Rodrigues Brandão (UNICAMP) – Antropologia Divina Aparecida Leonel Lunas Lima (UEG) – Economia Dulce Portilho Maciel (UEG) – História

Eliézer Cardoso de Oliveira (UEG) – História Giuliana Muniz Vila Verde (UEG) – Farmácia

Haroldo Reimer (UEG/PUC Goiás/CNPq) – Produtividade CNPq – Teologia Horacio Gutiérrez (USP) – História

Ivoni Richter Reimer (PUC Goiás) – produtividade CNPq – Teologia Janes Socorro da Luz (UEG) – Geografia

José Augusto Drummond (CDS/UnB) – Produtividade CNPq

José Luiz Andrade Franco (CDS/UnB) – Produtividade CNPq – História José Santana da Silva (UEG) – História e Ciências Sociais

Luiz Henrique Dreher – UFJF – Pesquisador CNPq Marcelo de Mello (UEG) – Geografia

Marcos Antônio de Menezes (UFG/Jataí) – História Maria de Fátima Oliveira (UEG) – História

Maria Idelma Vieira D‟Abadia (UEG) – Geografia

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Revista PLURAIS – Virtual – v.4, n.2 – 2014 – ISSN: 2238-3751

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Milena d‟Ayala Valva (UEG) – Arquitetura e Urbanismo Nildo Viana (UFG) – Sociologia

Poliene Soares dos Santos Bicalho (UEG) – História Rita de Cássia Ariza Cruz (USP)

Robson Mendonça Pereira (UEG) – História Ronaldo Angelini (UFRN / CNPq) – Biologia Sandro Dutra e Silva (UEG) – História Solemar Silva Oliveira (UEG) – Física Veralúcia Pinheiro (UEG) – Sociologia

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APRESENTAÇÃO

Eis que entregamos aos leitores mais uma edição desta Plurais Virtual. Agradecemos aos autores que contribuíram com seus textos. A demora em trazer à tela este número nos faz devedores de uma explicação. O atraso na publicação deste nº 2 de 2014 se deveu à transição entre a equipe editorial anterior e a atual, além da pesada carga de trabalho. Fica aqui o nosso compromisso de garantir a regularidade das próximas edições.

A partir deste número, os leitores constatarão que a pluralidade que é uma característica central deste periódico se ampliou. Ao estabelecermos a estratégia de fluxo contínuo para a submissão de novos textos, renunciamos também à política de publicações na forma de dossiês. Entendemos que uma coisa leva à outra. Por isso, desta edição em diante, serão encontrados trabalhos sobre as mais variadas temáticas. Além de tornar a Revista mais acessível a uma quantidade maior de autores, essa abertura facilita a captação de textos, o que poderá viabilizar a publicação de mais de duas edições por ano. Se isto é bom para os leitores, para os autores e para a própria Revista, por que não fazê-lo? Esperamos ter fôlego para tanto.

Para melhor orientar os leitores e agilizar suas buscas por textos sobre temáticas do seu interesse, apresentamos algumas informações sucintas sobre o conteúdo dos trabalhos que compõem esta edição. Além de uma entrevista com a historiadora Ana Carolina Eiras Coelho Soares – doutora em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professora da Universidade Federal de Goiás –, realizada pelo professor Ademir Luiz, há uma resenha da obra A cultura no mundo líquido moderno, do sociólogo Zygmunt Bauman, produzida por Matheus de Mesquita e Pontes. A professora Ana Carolina Eiras Soares é pesquisadora da temática gênero e sua entrevista gira em torno da condição e da situação da mulher na sociedade.

Sobre a temática educação encontram-se dois artigos. No primeiro, “Remuneração e carreira docente nos municípios goianos, após implantação do FUNDEB”, Renato Ribeiro Leite, doutor em Políticas Públicas pela UFRJ, analisa a implementação de estatutos do magistério e planos de carreira e vencimentos dos professores da educação básica em onze municípios do estado de Goiás e seus efeitos na valorização da remuneração da categoria docente. Trata-se de resultado de uma pesquisa fundamentada na legislação pertinente e em dados empíricos fornecidos pelas secretarias de educação dos referidos municípios. No

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segundo – “Sociologia no ensino médio nas escolas da rede estadual de educação de Goiânia:

análises e perspectivas” – Maria de Lourdes Alves aborda o ensino de Sociologia na rede estadual de educação na cidade de Goiânia (Goiás), tendo como referência empírica as escolas da referida rede. A análise dos dados, especialmente das respostas obtidas dos professores por meio de entrevistas, permitiu à autora chegar a conclusões positivas em relação ao ensino da disciplina no nível médio.

No terceiro artigo desta edição, Roberta do Carmo Ribeiro se propôs a pensar o cineasta norte-americano Woody Allen como “cineasta historiador”, sendo este o fio condutor da sua pesquisa. Sua análise está centrada na “escrita” filmográfica da história da América no período entre guerras produzida por Allen, a partir de elementos advindos de sua formação enquanto judeu americano e artista preocupado com a questão da identidade judaica. Além da linguagem irônica e satírica do cineasta, a autora inclui em seu trabalho um mapeamento da construção da sua biografia oficial, assim como a construção de sua imagem pública.

A transformação das entidades sindicais de trabalhadores rurais em organizações burocráticas é o tema do artigo de José Santana da Silva, “A burocratização do sindicalismo rural no Brasil”. O autor parte da definição das relações burocráticas e da burocracia, rlacionando-as com o desenvolvimento das relações sociais capitalistas. Demonstra que a burocratização da organização sindical em geral se iniciou ainda no século 19, em países europeus. No Brasil, aprofundou-se a partir de 1931, culminando com o Estatuto do Trablahador Rural de 1963. O Estado desempenhou papel central nesse processo, contando com a legitimação dos partidos ditos de esquerda e dos agentes da Igreja Católica.

Tendo como objeto e fonte de pesquisa um jornal impresso – Folha de São Paulo – a economista e professora Joana D‟Arc Bardella Castro realiza uma análise dos debates sobre a adoção de sacolas biodegradáveis como embalagens, tendo como propósito verificar a contribuição das informações veiculadas nesse meio de comunicação de massa na formação de uma nova forma de comportamento inserida nos contextos político, econômico e ambiental. Para tanto, a autora utilizou o método de “análise de conteúdo”. Dessa perspectiva, posiciona-se sobre a atuação dos veículos de comunicação.

Finalmente, a professora e pesquisadora na área de turismo Tereza Caroline Lôbo e seus bolsistas realizaram uma interpretação dos dados resultantes de um levantamento das características econômicas, sociais e culturais dos turistas que visitam a cidade de Pirenópolis (Goiás), assim como seus interesses, gostos, grau de satisfação com os serviços e tempo de permanência na referida cidade, tendo como objetivos ampliar, atualizar e sistematizar a base

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de dados sobre o perfil da demanda turística e seu potencial, com a finalidade de contribuir com o desenvolvimento dos empreendimentos no setor.

Ao encerrar esta apresentação, informamos que esta Revista Plurais Virtual continua vinculada aos Programas de Pós-Graduação (Mestrados Interdisciplinares) Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (TECCER) e Educação, Linguagens e Tecnologias (MIELT), da Universidade Estadual de Goiás.

Uma boa e proveitosa leitura crítica a todos. Nossos agradecimentos aos autores que nos confiaram a publicação dos seus textos nesta Revista Plurais.

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SUMÁRIO Entrevistas

Entrevista com Ana Carolina Eiras Coelho Soares Entrevistador: Ademir Luiz

Resenha

Zygmunt Bauman e a cultura na modernidade líquida Pontes Mesquita Mesquita

Artigos

Remuneração e carreira docente nos municípios goianos após a implantação do FUNDEB

Renato Ribeiro Leite

Sociologia no ensino médio nas escolas da rede estadual de educação de Goiânia:

análises e perspectivas Maria de Lourdes Alves

Woody Allen: O intelectual judeu entre a construção biográfica e a figura pública Roberta do Carmo Ribeiro

A burocratização do sindicalismo rural no Brasil José Santana da Silva

Sacolas biodegradáveis: uma análise do assunto em jornais impressos Joana D´arc Bardella Castro

Perfil do turista que frequenta Pirenópolis

Tereza Caroline Lôbo, Ana Maria Centeno da Silva, Ronypeterson Morais Miranda, Luiz Evandro Trier e Samara Benedita Lôbo

Aviso: A responsabilidade pela revisão dos artigos, entrevistas, resenhas, traduções etc., publicadas na Revista Plurais Virtual são de responsabilidade compartilhada entre os autores creditados e a equipe editorial.

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É PRECISO FALAR DE MULHERES, SOBRE MULHERES, COM AS MULHERES, PELAS MULHERES

Entrevista com Ana Carolina Eiras Coelho Soares Por Ademir Luiz

Ana Carolina Eiras Coelho Soares é doutora em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2009) e professora da Universidade Federal de Goiás. Realiza pesquisas sobre a imprensa, o código civil brasileiro, Gênero, História das Mulheres e sobre a literatura de José de Alencar. É autora de diversos artigos e livros, entre eles “Moça Educada, Mulher Civilizada, Esposa Feliz: Relações de gênero e história em José de Alencar” (2012), lançado pela EDUSC, e “Toda Menina pode ser Mulher” (2008), pela Editora Oficina do Rio de Janeiro. Em tempos de sucesso do filme “50 tons de cinza”, debates sobre fantasias femininas e violência contra a mulher estão em voga. Nesta entrevista, Ana Carolina Eiras Coelho Soares aborda essas temáticas, mas também trata de José de Alencar, Bruna Surfistinha, estudos de Gênero, pornografia, fantasias femininas, repressão, preconceito e diversos outros temas. Sempre falando sobre a mulher.

ADEMIR LUIZ: A gênese de “50 tons de cinza” foi como uma fan fic (textos escritos por fãs sobre personagens conhecidos) de “Crepúsculo”. Nos dois casos a virgindade é um tema central, sendo que a protagonista de “Crepúsculo” é uma adolescente, enquanto a de “50 tons de cinza” é uma jovem adulta. Como interpretar isso?

ANA CAROLINA: A virgindade é fascinante porque a ideia de ser o primeiro a lidar com o sexo da mulher faz parte de nosso imaginário patriarcal. Aquele que toma posse do corpo feminino é seu dono. É exatamente essa a maneira que o personagem Christian Grey assume quando sabe que a Anastasia é virgem, e é com a mesma surpresa e deferência que o vampiro Edward trata a Bella em “Crepúsculo”, insistindo que ela deveria ter experiências normais antes de se tornar vampira, pois ele teme machucá-la se perder o controle. O controle masculino do seu corpo e o controle por se excitar demais porque ela é virgem e, portanto,

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perfeita. Esse, aliás, é um adjetivo usado por ambos os heróis para designarem suas

“escolhidas”. E elas são perfeitas, pois são imaculadas do uso de seus corpos com outros homens. É um sinal de pureza, a castidade. O fato da personagem ser mais velha em Grey demonstra como é difícil pensar em uma relação igualitária entre os sexos durante o sexo.

Mesmo que o Grey não fosse declaradamente um BDSM, ele seria controlador, como vários homens ainda são. Principalmente aqui no Brasil. É como diz um velho ditado machista, para os homens “lavou, está novo”, mas mulher tem divisão: “aquelas que são para casar e aquelas que são para diversão”. Infelizmente, o corpo feminino está longe de pertencer às suas donas em nossa sociedade

ADEMIR LUIZ: “50 tons de cinza” é um livro abertamente vendido como literatura erótica. Com exceção de medalhões reconhecidos pela crítica, como Anais Nïn e Georges Bataille, de modo geral trata-se de um gênero tido como marginal, sujo, lido na clandestinidade. Independentemente do mérito literário ou do evidente machismo, como a senhora vê as pessoas não se acanharem em andar a luz do dia com “50 tons de cinza”

debaixo do braço?

ANA CAROLINA: “50 tons de cinza” é vendido como literatura erótica chick-lit. Nesse sentido, são como os romances “Sabrina”, amplamente consumidos na década de 80, que as mulheres liam para satisfazer e apimentar a relação. Além disso, houve uma grande jogada de marketing em torno do livro que o alçou a uma literatura não apenas possível, mas como desejada para a mulher moderna do século XXI. Ele foi comercializado amplamente nos EUA e super anunciado e incensado pela mídia aqui no Brasil. Dizia-se que ele apimentaria a relação da mulher casada e deleitaria de desejo a mulher solteira. É uma propaganda deliciosa de consumo. Um pouco de dor e muito prazer!

ADEMIR LUIZ: Aparentemente, as mulheres são de fato as principais consumidoras de

“50 tons de cinza”. O que elas buscam nesse livro? E, o que é mais importante, o que elas encontram nesse livro?

ANA CAROLINA: Buscam prazer e a fantasia de que a dor das práticas sadomasoquistas, que o personagem Grey propõe, é apenas imaginária. Grey seria um romântico, como diz a

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própria personagem Anastasia. Ele é o Príncipe Encantado que precisa ser consertado por uma mulher especial. Essa ainda é uma das fantasias das mulheres no século XXI. O homem incompleto que se torna perfeito porque a mulher o transforma. Elas buscam a aventura da relação sem limites, mas com o limite claro de um homem bem-sucedido e com uma fortuna invejável. As mulheres buscam o sonho de serem princesas e putas.

ADEMIR LUIZ: No filme “O Declínio do Império Americano” (1986), do canadense Denys Arcand, um dos personagens ironiza que a fantasia sexual básica das mulheres consiste em um jantar romântico, seguido de sexo delicado. O sucesso de “50 tons de cinza” confirma a ironia ou é uma deturpação do verdadeiro imaginário feminino?

ANA CAROLINA: Não acho que exista o tal “verdadeiro imaginário feminino” e muito menos que ele seja único, singular e universal. Acho que a camada mais alta da sociedade – a elite em algum termo – gosta de se ver como representação do todo. Existem muitas maneiras de se fazer sexo, e muitas maneiras de ser romântico e nem todas elas estão ligadas ao chavão aburguesado flores, jantar e sexo de sobremesa. Existem homens que são a própria sobremesa e mulheres que são o banquete todo!

ADEMIR LUIZ: Os praticantes de BDSM (acrônimo para "Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo") reclamam que “50 tons de cinza”

demoniza práticas que eles realizam apenas entre adultos e do modo consensual, condenando-as como abominações sexuais que só podem ter sido motivadas por traumas de infância e que devem ser “consertadas”, “reprimidas”. Qual a opinião da senhora sobre isso?

ANA CAROLINA: Acho positivo que um Best-seller traga à baila questões sobre grupos sexuais que são relegados ao esquecimento, mas que vivem intensamente no imaginário social. O sexo amarrado, com pequenas palmadas, com excitadores em gel são amplamente comercializados nas sex shops. Falar disso é muito positivo. Mas “o quarto vermelho da dor”

realmente foi uma escrita confusa do que realmente acontece nos meios BDSM. Essa história de que a dor está na sua mente também é outra balela. Ou você curte isso, ou o sexo será horrível. Nesse sentido, acho que trazer a discussão para o grande público é muito

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interessante, mas a maneira que foi feita muito controversa. Não sou especialista em BDSM, mas sei que não é exatamente daquele jeito doentio e psicopático que funciona. O grande problema é que o Grey não é um dominador. Ele é um cara com fortes tendências psicopatas e dominador.

ADEMIR LUIZ: Na Europa e nos EUA as atrizes pornográficas que se destacam possuem fãs clubes e ganham prêmios da indústria de entretenimento adulto. No Brasil, a cantora Gretchen justificou sua presença em um filme pornográfico alegando que se tratava de um filme para família, uma vez que atuou apenas com seu marido na época.

A ex-atriz global Leila Lopes, que depois suicidou, afirmou que seu filme pornô era, na verdade, uma obra de arte, tendo sido baseado em Nelson Rodrigues. Muitas musas televisivas, depois que posam nuas, ficam na defensiva alegando que fizeram nu artístico, não pornografia. Por que no Brasil, mesmo para as profissionais, ainda é um tabu usar o corpo para ganhar dinheiro? Por que é diferente na Europa e nos EUA?

ANA CAROLINA: O Brasil é um país de herança católica apostólica romana. Até 120 anos atrás, não éramos um país laico. Há ainda um ranço altamente puritano para falar de sexo.

Tenho certeza que muita gente achará essa entrevista instigante, mas incômoda. E vários acharão que estamos a falar de “putaria”. Há uma imensa dificuldade de assumir que o sexo é parte de nossas vidas, que ele é algo saudável, a partir de determinada idade, e que o faremos – se possível – até o final de nossos dias. A indústria do sexo existe, pois há quem a consuma.

Lembro-me de uma vez ver em um site de sex shop escrito bem grande que as pessoas não se preocupassem, pois os produtos seriam mandados em caixas sem identificação e no cartão de crédito não apareceria o nome da loja, mas um nome fantasia. É de uma hipocrisia terrível viver em um país assim! A vergonha cristã do olhe, mas não toque; lamba, mas não sinta o gosto, ainda é uma das maiores falácias de nosso país.

ADEMIR LUIZ: “O Doce Veneno do Escorpião”, de Bruna Surfistinha, fez muito sucesso no Brasil há alguns anos em função de sua narrativa ser, basicamente, as confissões inconfessáveis de uma garota de programa. Paradoxalmente, a autora vendia a imagem de ser uma libertina recuperada. Esforçava-se para deixar claro que tudo o que viveu era passado e que encontrou seu “final feliz” no casamento e na moral

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burguesa. É possível traçar um paralelo entre essa persona pública de Bruna Surfistinha e a personagem Lucíola, de José de Alencar?

ANA CAROLINA: Não. A Bruna Surfistinha é uma mulher que viveu plenamente sua sexualidade e fez porque quis, porque dava dinheiro e porque ela gostava. Lucíola, ao contrário, foi obrigada, devido às contingências da época de doenças e da família passando necessidades. Ela nunca se orgulhou do que fazia e, assim que pôde, parou com a prostituição.

E a Lucíola não tem um final feliz. Ela sente que seu coração estava sujo de seu passado e morre. A Bruna casa com um ex-cliente seu e ainda lança um livro. Mundos modernos, mundos contemporâneos.

ADEMIR LUIZ: Alguns grupos feministas utilizam a nudez para chamar atenção e chocar durante seus atos de protesto. Numa sociedade onde a nudez está banalizada, é uma tática eficiente? Não se corre o risco de transformar o protesto em mais um circo da mídia?

ANA CAROLINA: Acho que é uma tática eficiente em certa medida, ao tomarmos como ponto de partida que os corpos das mulheres não lhes pertencem. Eles são expostos e objetificados pela mídia. O corpo natural não aparece, somente o perfeito, aquele que se quer vender. Existem mulheres gordas, magras, altas, baixas, idosas, com estrias, celulites e gravidezes marcando suas histórias na carne. Mas a carne que se coloca a venda é apenas um tipo. Por isso, uma mulher “normal” sem qualquer glamour nua na rua é um ato político válido. A mídia sempre tentará fazer disso um circo, mas acho que as pessoas têm inteligência para perceber essas nuances e entender que aquelas mulheres não estão ali para vender cerveja ou carros, e sim para defender o direito de não serem expostas desse jeito justamente na mídia.

ADEMIR LUIZ: A senhora é especialista na obra de José de Alencar. Destacadamente na relação entre gênero e história em seus livros. De modo geral, como Alencar caracterizava suas personagens femininas?

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ANA CAROLINA: De maneira romântica e idealizada. Alencar sonhava com a prostituta ideal, a que não gostava do que fazia e largava seu ofício, com a dama ideal da Corte, educada, civilizada e feliz em seus atributos de mãe e esposa, seus lugares na sociedade.

ADEMIR LUIZ: O que as mulheres de Alencar podem ensinar para as mulheres contemporâneas?

ANA CAROLINA: Muito, mas não da forma como Alencar gostaria. Sou uma grande admiradora do “José escritor”, mas, infelizmente, é a verdade. Elas são versões idealizadas de mulheres que deveriam saber como se comportar, agir e pensar para serem apenas esposas, mães e mulheres felizes nesses papéis. Temos que aprender a não sermos só isso e não almejarmos só isso para nossas vidas e de nossas filhas. Dizemos que queremos trabalhar, mas ocultamente desejamos um homem para pagar nossas contas e ser o nosso “Príncipe Vampírico” ou dominador. É uma anulação de todas as conquistas feministas e de toda uma luta de avanços e direitos. Eu trabalho principalmente porque isso é parte constitutiva do meu sujeito no mundo. Eu, mulher trabalhadora, sou profundamente feliz com o que faço. E em todas as minhas faces identitárias não trabalhar me tornaria menor e mais infeliz.

ADEMIR LUIZ: Parte considerável dos acadêmicos que estuda gênero é também militante da causa. Existe risco de perder a objetividade científica?

ANA CAROLINA: Que objetividade científica? Isso existe? Ainda falam nisso? Para quê?

Nenhum trabalho é neutro ou objetivo cientificamente, pelo menos não desde as discussões sobre isso na década de 1980. É preciso desconstruir de vez essa noção.

ADEMIR LUIZ: A famosa sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) tornou-se posteriormente LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis) e depois ainda LGBTTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). Possivelmente podem ocorrer acréscimos. Parece-me que essas siglas foram cunhadas pelos pesquisadores militantes a partir de suas pesquisas e, na sequência, difundidas no meio. Existe o risco de que a incorporação, consciente ou inconsciente, dessas categorias tão bem definidas

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gere o efeito colateral de engessar identidades sexuais ao invés de promover a liberdade de escolha e prática sexual?

ANA CAROLINA: Não acredito. São parte mais de uma tentativa de encontrar a pluralidade de possibilidades do que o engessamento. O mundo pós-moderno é plural, mas saber lidar com isso sempre foi uma questão. Se você precisa de rótulos, precisa achar um nome para se entender. Por isso, tantos nomes e tantas siglas. Na realidade, são pessoas. Sonho com o dia que nos chamaremos apenas de seres humanos. Ou X-Men, o que também seria o máximo.

ADEMIR LUIZ: O cartunista Laerte, que tornou-se “cross dressing” (pessoas que se vestem usando as formas usuais de se vestir do sexo oposto sem necessariamente ser homossexual ou bissexual), está em uma cruzada pessoal para adquirir o direito legal de usar o banheiro feminino em lugares públicos. Essa busca por um direito não pode gerar jurisprudência que favoreça a ação de criminosos sexuais (estupradores, pedófilos, etc.) que se travestem para atacar suas vítimas? Vale a pena correr o risco?

ANA CAROLINA: Esse é o tipo de pensamento que faz com que algumas escolas não contratem pedagogos homens. Esse pavor generalizado de que todo homem é uma ameaça precisa ser pensado com muita clareza. As masculinidades também sofrem no processo de uma sociedade machista e patriarcal. Acho que é um exagero total esse tipo de colocação.

ADEMIR LUIZ: Vejo diversos trabalhos acadêmicos sobre mulheres vanguardistas, em situação de exceção ou praticantes de modalidades sexuais tidas como não normativas.

Para nosso leitor compreender, refiro-me a trabalhos sobre lésbicas, prostitutas, mulheres envolvidas em crimes, mulheres vítimas de crimes etc. Parece-me consideravelmente menor o número de pesquisas sobre, vamos chamar assim, as

“mulheres comuns”, aquelas que levam vidas relativamente tranquilas, que trabalham em atividades corriqueiras, que assistem a novelas, praticam religiões institucionalizadas (católicas ou protestantes), criam seus filhos de forma tradicional, etc. É apenas uma impressão ou o foco das pesquisas não são mesmo essas mulheres?

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ANA CAROLINA: Essas mulheres “comuns” são as vanguardistas, as lésbicas, as prostitutas, as criminosas, as vítimas de crime. Elas somos nós. Nós somos mães, esposas, filhas, amantes, e lavamos louça, colocamos criança na escola, fazemos comida, vemos novela e tudo o mais. Nosso trabalho é sempre múltiplo, mas, como diria Michelle Perrot, há um processo de esquecimento da existência das mulheres na História. Por isso, é preciso recuperá-las nesse passado. Falar de mulheres. Falar sobre mulheres. Com as mulheres. Pelas mulheres. Por isso, será sempre um trabalho de militância, um trabalho sem neutralidade, e um dos muitos trabalhos que nós mulheres fazemos e estamos produzindo cientificamente no Brasil.

Março de 2015

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ZYGMUNT BAUMAN E A CULTURA NA MODERNIDADE LÍQUIDA1 Zygmunt Bauman and Culture at Liquid Modernity

Matheus de Mesquita e Pontes 2

Nos últimos anos, a Editora Zahar, que detém os direitos autorais do sociólogo Zygmunt Bauman no Brasil, lançou um conjunto de publicações do autor sobre o tema cultura. Em 2012, para a surpresa de seus leitores brasileiros, foi editada a obra Ensaios sobre o conceito de cultura, escrita e publicada originalmente em 1973 com o título Culture as praxis, quando Bauman vivia seus primeiros anos em território inglês, depois de uma temporada de migração entre nações de língua anglo-saxônica após seu exílio “voluntário” da Polônia – sua terra natal – nos tempos do dito “socialismo real”. O livro revela um sociólogo influenciado pelos debates da antropologia e dos estudos da semiótica, produzidos principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, sendo que o marxismo é sua principal base de formulação propositiva para uma cultura inovadora e criativa que vá em oposição à alienação e aos acirramentos socioculturais existentes no mundo e, em especial, na Europa.

Uma obra densa teoricamente, que certamente se voltava a um diálogo entre intelectuais da época, distinta, assim, de seus ensaios contemporâneos, nos quais o autor se dirige a um vasto número de leitores no mundo ocidental.

No ano subsequente, em 2013, com o intuito de dar continuidade à reflexão do tema cultura nos escritos de Bauman – além das comparações entre suas reflexões no passado e no presente –, foram lançados no Brasil os livros Sobre educação e juventude e A cultura no mundo líquido moderno, nos quais o autor utiliza o conceito de “modernidade líquida” – termo que ainda não estava “desenvolvido” em Culture as praxis –, nascente na sociedade de consumo, para compreender a dinâmica cultural da sociedade contemporânea. Nossa intenção com este texto é de realizar uma descrição e reflexão sobre os ensaios da última obra citada.

A cultura no mundo líquido moderno é uma obra composta por seis ensaios que abordam as transformações do conceito de cultura, a relação moda e cultura, as questões culturais frente à construção das nacionalidades e do atual mundo globalizado, a cultura e a questão das diásporas contemporâneas, a cultura perante o processo de construção da União

1 Resenha da obra: BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. 108 p.

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Europeia e as relações da cultura com o Estado e o mercado. No primeiro ensaio,

“Apontamentos sobre as peregrinações históricas do conceito de „cultura‟”, Bauman coloca que, durante a época moderna industrial, a hierarquia cultural servia para distinguir uma elite letrada do restante da população, porém, no projeto iluminista voltado à construção do Estado-nação, a cultura das elites deveria ser levada ao “populacho”, sendo que cabia à nascente e valorizada intelectualidade operacionalizar a ação por meio do processo educacional, ao colocar cultura a serviço do status quo, garantindo, assim, estabilidade e manutenção do equilíbrio do sistema. Para os Estados europeus, após a consolidação interna da cultura nacional, era necessário levar a salvação aos selvagens – povos não europeus – que viviam em estado de barbárie, colonizando-os e garantindo a evolução cultural da humanidade – como também assegurando o controle social e o crescimento econômico da Europa.

Apropriando-se das reflexões de Pierre Bourdieu, observa-se que no transcorrer do século XX a produção artística era endereçada a determinada classe social específica, fechada em si por seus interesses e sinalizando a rejeição de possíveis conciliações. Diferente da estabilidade impulsionada pelo Estado ou pelos interesses das classes sociais no interior da sociedade, o mundo globalizado, para Bauman, fez a cultura sair do sua condição “sólida”

para “líquida”, tornando-se a ação do indivíduo preponderante frente ao coletivo. Na contemporaneidade da “modernidade líquida”, a cultura consiste em ofertas/estímulos para uma sociedade de consumo, orientada pela flexibilidade de padrões e em constante rotatividade. A cultura de hoje não está direcionada para educar o “populacho” ou para afirmar interesses de classe, mas sim para estimular fantasias de clientes que nunca serão plenamente saciados para garantir a constante vitalidade do consumo.

“Sobre moda, identidade líquida e utopia nos dias atuais: algumas tendências culturais no século XXI”, seu segundo ensaio apresentado no livro, aponta que a moda historicamente esteve ligada à regulamentação e à estabilidade do grupo social no qual foi desenvolvida, sendo que na sociedade de consumo ela tende a multiplicar as tendências e as distinções de acordo com as possíveis demandas de mercado, fatores que só aumentam os graus de desigualdades, discriminação e deficiência nas relações humanas. Para Bauman, a moda exerce hoje desejos contraditórios: em determinado instante estimula sentimentos de pertencimento a um grupo ou aglomerações e em outro abre possibilidades de os indivíduos se distinguirem das massas. Independentemente das contradições, os desejos são breves para impulsionar o descarte e consequentemente um novo consumo pela nova moda emergente.

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Nessa lógica do rápido desapego estimulado pelo mercado, o sociólogo diagnostica que a cultura ficou subjugada à mesma lógica da moda. No campo das utopias, se a felicidade na era moderna sólida seria encontrada em uma sociedade que pudesse ofertar segurança e constante estabilidade nos prazeres, na modernidade líquida não existe fim a ser alcançado, mas uma constante busca por saciar os desejos no consumo; a felicidade como anseio utópico sempre está para ser renovada, assim como a moda.

No terceiro ensaio, “Cultura: da construção da nação ao mundo globalizado”, e no quarto, “A cultura num mundo de diásporas”, Bauman centra sua análise na ação dos intelectuais. No modelo de Estado moderno influenciado pelos impactos da Revolução Francesa, utopicamente se pretendia a garantia de oportunidades iguais a todos os seus cidadãos e que, através da educação pensada/cultivada pela intelectualidade, todos poderiam se enquadrar na nova ordem com seus direitos e deveres. Com o novo modelo, acreditava-se na educação de massas, na eliminação das diferenças regionais e das velhas tradições de origem feudal, como também no comprometimento e engajamento mútuo do Estado e de seus administrados rumo à construção da nação e da felicidade coletiva. Tal momento histórico, do final do século XVIII às últimas décadas do século XX, seria a era da “modernidade sólida”, período de força do Estado e de seus intelectuais.

Com o impulso da globalização chega o findar das ilusões com a soberania territorial e, consequentemente, o enfraquecimento do Estado e sua (im)posição de cultura nacional. Com o declínio dos modelos educadores para garantir a estabilidade estatal, aliado ao avanço das novas mídias e do consumo incessante, emerge um excesso de liberdade de escolhas. Agora o direito de ser diferente entra em moda, assim como o direito de ser indiferente à diferença. Segundo Bauman, trata-se de um modelo “multicomunitarista” que é denominado pela intelectualidade contemporânea como “multiculturalismo”, um sistema em que as comunidades culturais estão próximas, mas raras vezes constroem o diálogo entre si. É uma estrutura na qual prevalece a desconfiança, o temor e as incertezas e nela dificilmente se obterão benefícios e prazeres com a coexistência do outro. Bauman critica o não engajamento da atual intelectualidade que, segundo ele, preocupa-se mais com o status, o carreirismo acadêmico e a possibilidade de ser midiática do que em assumir, como educadores e opositores, as segregações e as constantes diásporas degradantes. Além disso, o novo culturalismo, agraciado pela intelectualidade, “busca minar a consciência moral e aceitar a desigualdade humana encarando-a como um fato que ultrapassa nossa capacidade de

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intervenção” (2013, p. 47). Para Bauman, os intelectuais deveriam estimular o sentimento de segurança e o diálogo entre as culturas por meio da construção de intercâmbios.

No quinto ensaio, “A cultura numa Europa em processo de unificação”, Bauman relembra que na formação do nacionalismo moderno europeu, dentro das fronteiras de um Estado, deveria-se ter apenas espaço para uma língua, uma cultura, uma memória histórica e a lealdade aos novos símbolos erguidos. Esse estímulo às paixões nacionalistas tinha como função legitimar a soberania estatal e garantir a disciplina civil. Minorias étnicas tinham apenas duas opções frente à (im)posição do Estado: assimilar-se ou perecer. Qualquer sinal de questionamento ou resistência à cultura criada era posta como traição à nação e ao Estado, um ato de rebeldia passível de rejeição, indiferença e repressão. Para Bauman, tal cerceamento só estimulava os laços comunitários, as indiferenças e incertezas frente ao

“outro”.

Com a globalização, o Estado está abrindo mão da integração social interna e da administração da ordem do sistema, fato que vem garantindo maior oferta das liberdades para a transição global dos capitais, das informações e para as inter-relações. Apesar do clima de satisfação transitória, ainda não existe o pleno sentimento de segurança. Nesse sentido, Bauman observa com bons olhos a formação da União Europeia, acreditando que ela não fere a identidade dos países aderentes ao estimular garantias de segurança e solidariedade ao povo europeu. “A União Europeia é a nossa chance de realizar essa fusão. É, afinal, nosso laboratório comum, no qual conscientemente ou não, de boa vontade ou não, nós fundimos os horizontes dos grupos, engrandecendo a todos nesse processo” (2013, p. 81). Na lógica das trocas e “fusão dos horizontes”, o autor chega a propor a formação de uma “Biblioteca da Cultura Europeia”, levando em consideração todas as culturas e línguas no território europeu.

O “bloco” é apresentado como um exemplo para contrapor-se ao fundamentalismo e às diferenças e indiferenças impulsionadas pelo “multiculturalismo” pró-comunitário. Porém, Bauman não cita os altos índices de desemprego, a insatisfação popular e o crescente endividamento e empobrecimento dos países periféricos da União Europeia, assim como a exclusão de várias nações europeias mais pobres da região leste/oriental no “bloco”3.

3 No livro Sobre educação e juventude, Bauman já aborda as manifestações na Europa, oriundas da crise econômica e social, e como a mixofobia e a xenofobia renascem com apoio do Estado sob o lema de defender direitos e o padrão de vida local contra a ameaça do “outro”. Nesta obra, a União Europeia não é posta como uma proposição positiva para a “fusão de horizontes” ou estímulos a diálogos entre culturas.

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No último ensaio, “A cultura entre o Estado e o mercado”, Bauman acentua que o Estado na era moderna “sólida” sempre limitou a atuação artística a seus interesses.

Usando a França como exemplo, o autor lembra que mesmo no governo de Charles de Gaulle (1959-1969), no qual o pluralismo cultural e a criatividade foram estimulados, os atritos existiam. Na modernidade “líquida”, a cultura fica refém do consumo, do iminente lucro e da satisfação do cliente, limitando também a criação do artista ao mercado. Para estimular a autonomia das artes e da cultura, Bauman propõe que o Estado promova o encontro entre artistas e o público, incentivando atividades artísticas locais e garantindo subsídios à criatividade cultural.

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REMUNERAÇÃO E CARREIRA DOCENTE NOS MUNICÍPIOS GOIANOS APÓS IMPLANTAÇÃO DO FUNDEB

Renato Ribeiro Leite4 Resumo: A busca por melhores salários e efetivação de Planos de Carreira dos Profissionais do Magistério da Educação Básica, nas últimas décadas, foi objeto de lutas constantes por parte dos professores das redes públicas em todo país. Desde a Constituição Federal de 1988 (CF/88) até a criação do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN), em 2009, um longo caminho de idas e vindas vem sendo trilhado na valorização do magistério público da educação básica brasileira. O presente artigo busca verificar se a remuneração dos professores e a implantação de estatutos e planos de carreira de fato se tornaram efetivos aos professores das redes municipais públicas do Estado de Goiás.

Palavras-chave: Valorização do magistério, Plano de carreira, Fundeb.

Abstract: The search for better wages and the effectuation of Career Plans of Teaching Professionals of basic education in recent decades has been the subject of constant struggles by teachers of public networks throughout the country. Since the Constitution of 1988 (CF / 88) to the creation of the National Professional Wage Floor (PSPN) in 2009, a long way of comings and goings has been trodden in the appreciation of the Brazilian public teaching of basic education. This article seeks to verify if the remuneration of teachers and the implementation of statutes and fact of career paths have become effective teachers of public municipal networks of the State of Goias.

Keywords: Enhancement of teaching, Career Path, Fundeb.

1. Introdução

A questão da valorização dos profissionais do ensino está prevista no Art. 206, inciso V da Constituição Federal de 1988 (CF/88). Esse inciso determina, como princípio educacional, a garantia na forma da lei de planos de carreira para o magistério público e piso salarial profissional, além de ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, que são importantes desdobramentos para educação nacional.

A Lei nº 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes bases da educação nacional (LDB/96), reforça tal dispositivo. No Art. 67, determina que os sistemas

4 Doutor em Políticas Públicas – Professor de Políticas Educacionais na Universidade Estadual de Goiás (UEG) [email protected]

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de ensino promovam a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes, inclusive, nos termos dos estatutos e dos planos de carreira:

I – ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos;

II – aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com licenciamento periódico remunerado para esse fim;

III – piso salarial profissional;

IV – progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho;

V – período reservado a estudos, planejamento e avaliação incluído na carga de trabalho;

VI – condições adequadas de trabalho.

Essa lei contempla ainda, no Art. 70, a remuneração dos profissionais da educação como despesa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE).

A Emenda Constitucional nº. 14, de 02 de setembro de 1996, que criou o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) determinou que no mínimo 60% dos recursos financeiros do fundo deveriam ser utilizados para o pagamento dos vencimentos dos professores do ensino fundamental em efetivo exercício do magistério. A Lei n.º 9.424, de 24 de dezembro de 1996, que regulamentou o Fundo, também determinou, no Art. 9°, o estabelecimento de plano de carreira e remuneração do magistério que assegurasse: I – a remuneração condigna dos professores do ensino fundamental público em efetivo exercício no magistério; II – o estímulo ao trabalho em sala de aula; e III – a melhoria da qualidade do ensino.

Com a substituição do Fundef pelo Fundeb, a questão da valorização profissional do magistério continuou central. Por isso, a Lei n. 11.494/07, de 20 de junho de 2007, que regulamentou o Fundeb, passou a especificar as responsabilidades de Estados e municípios com a política de valorização dos profissionais da educação da seguinte forma:

Art. 40. Os Estados, o Distrito Federal e os municípios deverão implantar Planos de Carreira e remuneração dos profissionais da educação básica, de modo a assegurar:

I – a remuneração condigna dos profissionais da educação básica da rede pública;

II – integração entre o trabalho individual e a proposta pedagógica da escola;

III – a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem.

Parágrafo único – Os Planos de Carreira deverão contemplar capacitação profissional especialmente voltada à formação continuada com vistas na melhoria da qualidade do ensino (BRASIL, 1997).

A referida lei também determinou, no Art. 41, o dia 31 de agosto de 2007 como prazo final para o poder público fixar o PSPN para os profissionais do magistério público da educação básica.

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A Lei n. 11.738/08, que criou o piso salarial profissional nacional (PSPN), foi sancionada pelo Presidente da República em 16 de julho de 2008 da seguinte forma:

Art. 1o Esta Lei regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica a que se refere a alínea ?e?

do inciso III do caput do art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

Art. 2o O piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica será de R$ 950,00 (novecentos e cinquenta reais) mensais, para a formação em nível médio, na modalidade Normal, prevista no art.

62 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional (BRASIL, 2008).

Em 2009, o Conselho Nacional de Educação (CNE), por meio da Câmara de Educação Básica (CEB), editou a Resolução nº 2, de 28 de maio de 2009 que fixa as diretrizes para elaboração dos Planos de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Magistério da Educação Básica. Essa resolução se fez necessária para dar conformidade à lei nº 11.738/08, que criou o PSPN. Dentre as 22 diretrizes emanadas pela Resolução se destacam as seguintes:

I – assegurar a aplicação integral dos recursos constitucionalmente vinculados à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, além de outros eventualmente destinados por lei à educação;

II – fazer constar nos Planos de carreira a natureza dos respectivos cargos e funções dos profissionais da educação à luz do artigo 2º desta Resolução;

III – determinar a realização de concurso público de provas e títulos para provimento qualificado de todos os cargos ou empregos públicos ocupados pelos profissionais do magistério, na rede de ensino público, sempre que a vacância no quadro permanente alcançar percentual que possa provocar a descaracterização do projeto político-pedagógico da rede de ensino, nos termos do Parecer CNE/CEB nº 9/2009, assegurando-se o que determina o artigo 85 da Lei nº 9.394/96, o qual dispõe que qualquer cidadão habilitado com a titulação própria poderá exigir a abertura de concurso público de provas e títulos para cargo de docente de instituição pública de ensino que estiver sendo ocupado por professor não concursado, por mais de seis anos;

IV – fixar vencimento ou salário inicial para as carreiras profissionais da educação, de acordo com a jornada de trabalho definida nos respectivos Planos de carreira, devendo os valores, no caso dos profissionais do magistério, nunca ser inferiores ao do Piso Salarial Profissional Nacional, diferenciados pelos níveis das habilitações a que se refere o artigo 62 da Lei nº 9.394/96, vedada qualquer diferenciação em virtude da etapa ou modalidade de atuação do profissional;

V – diferenciar os vencimentos ou salários iniciais da carreira dos profissionais da educação escolar básica por titulação, entre os habilitados em nível médio e os habilitados em nível superior e pós-graduação lato sensu, e percentual compatível entre estes últimos e os detentores de cursos de mestrado e doutorado;

VI – assegurar revisão salarial anual dos vencimentos ou salários iniciais e das remunerações da carreira, de modo a preservar o poder aquisitivo dos educadores, nos termos do inciso X do artigo 37 da Constituição Federal (BRASIL, 2009).

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Um dos objetivos explícitos do Fundef e do Fundeb é a valorização dos trabalhadores em educação, incluindo uma remuneração condigna e o estabelecimento do piso salarial para os profissionais do magistério público da educação básica.

Em 2009, o PSPN foi estipulado em R$ 950,00 para os professores do magistério público com formação em nível médio na modalidade normal. Após cinco anos de vigência do piso, em 2013, o seu valor foi estipulado em R$ 1.567,00. Nesse período, o piso foi reajustado em mais de 60%. Descontada a inflação do período, a valorização do piso foi de quase 40%5.

Na análise que se segue, será abordada a valorização salarial do magistério público municipal em onze municípios6 goianos por meio da apreciação da evolução dos vencimentos durante cinco anos (2007-2011) dos professores com formação em nível médio (magistério) e com formação superior (licenciatura). Também serão analisados os estatutos do magistério e os seus respectivos planos de carreira.

A escolha dos municípios analisados foi feita em função da própria dinâmica de repartição dos recursos financeiros do Fundeb. Nessa perspectiva, optou-se pelos dois extremos porque os impactos nas finanças desses municípios são consideráveis. Enquanto os municípios maiores tiveram impacto positivo, por meio de recebimento de recursos novos para aplicarem em educação, os municípios menores tiveram perdas financeiras.

2. Valorização salarial

Os vencimentos dos professores não é o único fator preponderante na valorização do magistério, mas é o que mais expressa a valorização perante a sociedade. Para Monlevade (2000, p. 269), “o salário não é determinante da valorização do professor. Mas ele expressa, simboliza, manifesta como que um grau de valorização. E o sustenta materialmente [...]”.

5 A Lei 11.738 de 16 de julho de 2008, que regulamentou o PSPN, em seu Art. 5o determina que o piso salarial profissional nacional do magistério público da educação básica será atualizado, anualmente, no mês de janeiro, a partir do ano de 2009. Também determina que a atualização de que trata o caput deste artigo será calculada utilizando-se o mesmo percentual de crescimento do valor anual mínimo por aluno referente aos anos iniciais do ensino fundamental urbano, definido nacionalmente, nos termos da Lei no 11.494, de 20 de junho de 2007.

6 Foram enviadas correspondências para as vinte Secretarias de Educação Municipal solicitando as legislações pertinentes ao magistério e as tabelas dos vencimentos do magistério. Também no final do ano de 2012 foram visitados todos os municípios em busca de dados sobre o magistério público, mas somente onze municípios

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Nessa perspectiva, se buscou analisar a valorização do magistério a partir dos salários dos professores.

Em 2011, os professores com formação em nível médio (normal) das redes municipais de ensino de Marzagão e Anápolis tiveram maiores aumentos de salários na comparação com o ano de 2007. Os professores do município de Marzagão tiveram aumento de 106% em seus salários e os professores anapolinos, que atuam na rede municipal, tiveram 50,1% de acréscimo em seus vencimentos. No entanto, deve-se observar que esses dois municípios figuravam em 2007 entre os que pagavam os menores salários aos seus professores (Cf. Tabela 1).

Tabela 1: Evolução dos vencimentos (base) do Magistério Público Municipal de 2007 a 2011 com jornada de 40 horas semanais (valores em R$, a preços de dezembro de 2011, corrigidos pelo IPCA).

Municípios Formação 2007 2008 2009 2010 2011

Águas Lindas Normal Médio 990,96 1.063,10 1.187,67 1.217,06 1.222,73 Licenciatura 1.366,11 1.465,55 1.637,30 1.677,82 1.685,64 Anápolis Normal Médio 791,43 809,33 1.012,48 1.004,75 1.187,97 Licenciatura 1.073,63 1.098,76 1.234,20 1.404,56 1.645,23 Anhanguera* Normal Médio 719,69 805,78 817,58 807,40 803,51

Licenciatura 1.007,57 1.128,10 1.144,62 1.130,37 1.124,92 Formosa Normal Médio 770,32 826,60 1.031,25 973,72 973,42

Licenciatura 1.001,41 1.074,58 1.340,62 1.265,82 1.265,43 Goiânia Normal Médio 1.124,55 1.110,20 1.115,99 1.170,61 1.273,31 Licenciatura 1.398,19 1.380,34 1.387,55 1.455,07 1.582,73 Luziânia Normal Médio 975,12 1.040,77 1.117,16 1.128,67 1.157,00 Licenciatura 1.290,60 1.377,08 1.478,58 1.493,81 1.472,73

Marzagão Normal Médio 497,17 492,42 495,66 727,74 1.024,95 Licenciatura 548,10 542,91 546,49 764,13 1.076,20 Nova

Aurora*

Normal Médio 548,10 542,91 546,49 818,48 934,77 Licenciatura 658,81 656,12 758,54 1.023,09 1.168,46 Planaltina Normal Médio - 933,83 1.032,11 1.125,49 1.230,68 Licenciatura - 1.231,26 1.335,72 1.456,61 1.592,75 Rio Verde Normal Médio - 1.072,36 1.094,35 1.113,81 1.272,60 Licenciatura - 1.578,88 1.610,73 1.639,40 1.885,80

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Valparaíso Normal Médio 880,43 868,42 881,65 1.091,31 1.187,00 Licenciatura 1.375,54 1.356,78 1.377,46 1.356,69 1.349,12 Fonte: Tabela elaborada pelo autor com base nos dados fornecidos pelas secretarias municipais de educação.

*Carga horária: 30 horas semanais.

Os municípios de Anhanguera e Goiânia foram os que menos aumentaram os vencimentos dos seus professores com formação em nível médio. Em 2011, os professores da rede municipal da capital do Estado tiveram aumento de somente 13,2%, e os professores das escolas municipais de Anhanguera obtiveram 11,6% de acréscimo em seus salários. Mas deve-se ressaltar que os professores da rede municipal de Goiânia, em 2007 e 2011, recebiam as melhores remunerações entre os municípios analisados.

Em 2009, quando foi instituído o PSPN, somente quatro municípios pesquisados (Goiânia, Rio Verde, Águas Lindas e Anhanguera) pagavam o valor estipulado aos seus professores, ou seja, R$ 950,00 para professores formados em nível médio na modalidade magistério com jornada de 40 horas semanais. Em 2011, subiu para sete o número de municípios que remuneravam os seus professores de acordo com PSPN.

Praticamente todos os municípios mantiveram, com exceção do município de Valparaíso, os percentuais de acréscimos para os professores com formação superior (licenciatura), se comparados aos salários pagos aos professores de nível médio. Em 2011, os professores licenciados da rede municipal de Valparaíso tiveram uma pequena redução nos seus vencimentos na comparação com o ano de 2007 (Cf. Tabela 1). Os professores com formação média obtiveram 34,8% de aumento real em seus vencimentos no mesmo ano.

O aumento dos vencimentos, acima da inflação do período, dos professores das redes municipais de ensino dos municípios analisados nos últimos anos, principalmente a partir de 2009, não teria acontecido sem a criação do PSPN, pois os salários reais praticados no ano de 2008 (Cf. Tabela 1), em quatro municípios, foram inferiores ao ano de 2007; nos demais municípios, os aumentos salariais não ultrapassaram 10%.

Uma comparação entre os vencimentos iniciais dos professores das redes públicas municipais analisadas e o salário mínimo praticado no país mostra que houve uma melhora nos rendimentos dos professores. Em 2007, os professores do município de Anápolis, com formação em ensino médio (normal) e no início da carreira, recebiam 1,67 salários mínimos e passaram a receber 2,18 salários em 2011. Os professores da capital praticamente receberam

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2,3 salários mínimos). No geral, os professores recebiam em média 1,53 salários mínimos em 2007, e passaram a receber 2,10 salários mínimos para uma jornada de 40 horas semanais de trabalho em 2011 (Cf. Gráfico 1).

A maioria dos professores com formação acadêmica superior em licenciatura plena das redes municipais públicas teve melhoria em seus vencimentos na comparação com o salário mínimo. Os professores do município de Marzagão tiveram o maior acréscimo. Em 2007, os professores recebiam 1,16 salários mínimos por uma jornada de 40 horas semanais;

em 2011, passaram a ganhar 1,97 salários. Mesmo assim, essa é a pior remuneração entre os 11 municípios investigados.

Em 2011, os professores da rede municipal de Rio Verde tiveram os melhores vencimentos iniciais por uma jornada de 40 horas semanais; receberam 3,46 salários mínimos.

Os professores da capital do Estado tiveram uma pequena redução em seus salários na comparação com o salário mínimo. No ano de 2007, os professores receberam 2,95 salários;

em 2009, houve redução (2,64); em 2011, os vencimentos iniciais tiveram uma pequena elevação (2,90).

Gráfico 1: Evolução dos vencimentos (médios) do magistério público municipal com jornada de 40 horas semanais em relação ao salário mínimo de 2007 a 2011 (valores em R$, a preços de dezembro de 2011, corrigidos pelo IPCA)

Fonte: tabela elaborada pelo autor com base nos dados fornecidos pelas secretarias municipais de educação.

Em 2009, a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio de grupo de professores, realizou um survey de pesquisa sobre o trabalho docente na educação básica em Goiás. A pesquisa foi realizada em cinco municípios goianos. A investigação traz informações a respeito dos sujeitos docentes da educação básica que atuam em escolas públicas no Estado. Entre a diversidade dos resultados apresentados, nota-se o

0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600

2007 2008 2009 2010 2011

Vencimento inicial dos professores com ensino médio

Vencimento inicial dos professores com formação em licenciatura Salário Mínimo

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quanto ainda é baixa a remuneração dos docentes do Estado em comparação a outros Estados da federação.

Os docentes do estado de Goiás, em sua maioria, informaram uma remuneração abaixo de três salários mínimos (65,6%), acompanhando a tendência dos demais estados. Todavia, apresentaram média salarial abaixo de todos os demais estados, R$

1.032,16, cerca de R$ 200,00 a menos que a média do conjunto dos sete Estados.

Além disso, a renda familiar informada é uma das menores entre os sete Estados (R$

2.428,89), maior apenas que o rendimento familiar dos docentes do Rio Grande do Norte (R$ 2.303,40) (OLIVEIRA, VIEIRA, 2012, p. 18).

A pesquisa ainda revela a insatisfação dos professores com os salários recebidos.

Em relação ao salário, 84% dos docentes sentem-se insatisfeitos ou muito insatisfeitos por se tratar de remuneração (injusta) com a sua dedicação ao trabalho e insuficiente para manter um padrão de vida digno. Esse dado torna-se contundente ao ser comparado com a questão referente aos Planos de cargos e Salários, dos quais os docentes têm limitadas informações e reduzido potencial de mobilização política para alteração de suas diretrizes [...] (SILVA, 2012, p. 111).

Apesar da melhora salarial do período em análise, em razão da implantação do PSPN, a remuneração dos professores das redes municipais de ensino dos 11 municípios analisados ainda não é suficiente para o desenvolvimento e dedicação que a profissão exige, e também para que possa proporcionar uma vida com mais dignidade.

Mesmo após a valorização, nos últimos anos, nos vencimentos dos professores das redes municipais investigadas, a remuneração dos professores com ensino superior está muito aquém dos salários pagos a outros profissionais com o mesmo grau de formação.

Tomando como referência a remuneração mensal média de um professor de 5ª a 8ª série (R$ 1.088), que deve possuir curso superior para exercer a profissão, constata- se que o policial civil (cuja exigência é de formação em nível médio) possui remuneração 50% superior; o economista recebe 3,3 vezes mais; o advogado, 2,6 vezes; o delegado, 5,4 vezes; o médico, 4,4 vezes; e o juiz, o topo da lista, 11,8 vezes. É evidente que o médico ou o juiz, para ingressar na carreira, possui maior número de anos de formação do que o necessário para a atividade docente, mas, evidentemente, nada justifica a distância salarial entre essas profissões (PINTO, 2009, p. 54).

Segundo Pinto (2009), não existe outra forma de valorização dos professores que não seja primeiramente melhorar remuneração dos docentes. Os professores com formação superior que lecionam no ensino médio recebem salários aquém de uma grande parcela de profissões de nível técnico ou da área de vendas. Os carteiros, mecânicos, motoristas de transporte coletivos e vigilantes recebem remuneração superior aos professores com formação em nível médio na modalidade normal.

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Muito além de melhorar a formação inicial ou continuada dos professores, é preciso dar à profissão o prestígio que, em geral, ela nunca teve no Brasil, salvo em alguns casos isolados (rede federal ou escolas privadas de elite, por exemplo). E o melhor indicador de prestígio de uma profissão é o salário pago àqueles que a abraçam como fonte de vida e sustento (PINTO, 2009, p. 60).

Igualmente, para Martins (2011), o ponto inicial para valorização dos professores seria proporcionar um aumento salarial expressivo nos vencimentos dos docentes da educação básica. Além da valorização salarial, seria necessária, segundo o autor, uma conjugação de esforços para tornar a carreira docente atrativa, tais como: a formação dos professores, as condições de trabalho, a carreira profissional e, por último, determinação da escola pública como instituição primordial no processo de melhoria da qualidade de vida população brasileira.

[...] Contudo, acredita-se que o passo inicial seja a definição de um plano de carreira que, efetivamente, apresente um horizonte profissional digno e, incontestavelmente, uma remuneração adequada aos professores, como uma demonstração verdadeira das autoridades governamentais e parlamentares no processo de melhoria da educação brasileira (MARTINS, 2011, p. 1770).

No documento da UNESCO Professores do Brasil: impasses e desafios, Gatti e Barreto (2009) fizeram uma análise detalhada da formação dos professores da educação básica. Na discussão sobre salários e carreira docente as autoras concluíram que:

salários pouco atraentes, e planos de carreira estruturados de modo a não oferecer horizontes claros, promissores e compensadores no exercício da docência interferem nas escolhas profissionais dos jovens e na representação e valorização social da profissão de professor (GATTI;BARRETO, 2009, p. 256).

3. Estatuto do Magistério e Planos de Carreira e Remuneração dos Profissionais do Magistério Público da Educação Básica

Todos os 11 municípios possuem Estatutos do Magistério e Planos de Carreira. A maioria das administrações municipais implantou ou reelaborou seus Estatutos e Planos após a criação do Fundeb (2007). De maneira geral, os municípios analisados seguiram ou já contemplavam, em seus respectivos Estatutos e Planos de Carreira, as principais diretrizes contidas na Resolução nº 2 do CNE/CEB.

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