' í.-"
Vi
/>'
jni
Á>yÁ
t
\'PlifKa dI^iVj|
u^^
i*i'^
^^HSIHLil m ^ í*l
i
mi
kT *k^^B
P-'
ÍuAfíTX i
%ÍS»'
^-'7'
Í\V
y,
l£il
^^7m"^
^^kH^fl
CT
^H^^^^^^^\g^sy Ph
1^ %j[
/
os ASSASSINOS DA BEIRA
NOVOS APONTAMENTOS
PARA A
HISTOIUA CONTEMPimANEA
POR
JOAQUIM MARTINS DE CARVALHO
Redactor do Conimbricense
-i^<l>.^>-
COIMBRA
IMPhKNSA
DA
UNIVKRSIPADE i89()PREAMBULO
Ha
vinte e doisannos que publicámos
osApontamentos para a
historia contcmpm^anea.Nesse
nosso primeiro livrodissemos
o se^aiinle:«Ante
a historia tudo é claro,mas
muito claro; e
no systema
liberal a publicidade vale tudo, toda a luz é [)oucaque
alumie e esclareça os espíritos.»O
que
então api)licámos ao nosso veílio trabalho repetimol-o á frente d'este livro novo,que
étambém
de historia, e tam-bém de
apontamentos.A
historia das atrocidades practicadasna Beiraem
seguidaás guerras civis é
uma
liçãoque deve
aproveitar a todos.São
ellas consequência funesta de causas ainda mais funes- tas.A desordem
arrastacomsigo um
cortejode
desgraçasque
se multiplicam eextendem
por largo espaçode tempo.
Abrem-se
erasgam-se
as feridas; e aindaque
securem, conservam demorados
vestígios, vestigiosque
muitas vezesgretam
e gottejam sangue. Ensarilharam-se asarmas em
i834; mas
ásombra
da paz a violência desenvolveu-seem
assassinatos e roubos, resultado da fraqueza das leis. Estas,
como
se sabe, sópodem dominar com
a traníiiiillidade pu-blica, unida estreitamente
com
o completo restabelecimento daordem.
VI
Uma
\\u±\ sangrenta do ódios políticos degerieroii na vin- dicta [)articiilar e nodesonfreamcnto do
crime. Eis oque
mostra esto livro.SiistíMitámos soinpro
como
lihoraes o (lendâo da causa democrática, symholisada entãoem
I).Pedro
iv;mas.se estygmatisámos
ocondemnámos
os desacertos e malfeitoriasdo
partido mignelista,desenrolamos com
amesma
imparcia- lidade a pagina negra (pio enlutou asduas
Beiras nos pri-meiros
annos do regimen
liberal. D. Miguelentendeu que
poderia sustenlar-secom
a repressão pormeio
dos suppli- cios; o liberalismo julgou útil viciar osystema
eleitoralcom
a corrupção e cumplicidade dos bandidos.
Ambos erraram
eambos amargaram
os seus erros.Esta publicação foi-nos sollicitadaeaconselhada por muitos amigos, a cujos pedidos
cedemos. E
dum
d'estestomamos
por cópia alguns paragraphos da sua carta,que
explicamcom
clareza, justo critério e erudição os intuitosdo
nossolivro.
«... tenho seguido
no
seu popularissimo jornal os ar- tigos acerca dos assassinos e ladroes,que
noscomeços do
nosso governo representativoacompanharam
a causa liberal.Elles
têm-me
impressionado vivamente.«... amigos,
que
por vezesconversam
acercade
taes acontecimentos, osacham
extraordinários pordesconhecerem
o lodoque
adubou,como
os esterquiliniosdonde vêm
as flores, o desabrochardo governo
constitucional.De
resto omesmo
succediaem
França,quando Napoleão
i fez o18
brii-maire.
E
já naquelle paiz, nos finsdo
século xvin, a par dos actos heróicos corria a chronica dos crimes tenebrosos,VII
onde não
raro,sendo
oquadro
maior,eram
demerecer
e conquistar sympatliias os grandes aventureiros.«D'alguns
guardaram
os írancezes seusnomes
na his- toria;de
outros,que
corriam pareliiascom
seushomens
illustres, puhlicaianios processos e
romancearam-lhes
a vida,que
por noites velhas ainda ao preserUe nos encantam.aEntre nós os attentados contra a vida e fortuna dos ci-
dadãos sobrelevam em
183() a poncto deque
JúlioGomes
e outros
deputados
pediram, nacamará
popular, serias pro- videncias contra os roubosarmados
e malfeitoriasque punham
o sobresalto nas [irovincias
do Minho
e Traz-os-Montes.«Aqui tenho o processo
dum
d'esses crimes; e confesso- Ihe—
é maiscoinmovente que um drama
imaginosode
auctor festejado da eschola romântica.»Com
tão dignas e amigáveis i)onderaçõesfechamos
esla nossa advertência preambular.CAPITULO I
Immoralidadc
govcruatívaOs
diíTerentesgovernos
e partidos políticos tiverammais ou menos
culpa nos crimes practicados na província da Beira pela protecçãoque davam
aos assassinos. Setembristas,cabra- listas e regeneradoresnâo duvidaram
apoiar-se nos sicáriosde
Midijcs para conseguir os seusfins, princii)almentequando
se ti'actava de luctas eieitoraes.
Tendo-se dosharmonisado
os assassinosBrandões,uns
fize-ram-se
setembristas eoutros cabralistas.A
moralidade delles era,porém,
perfeitamente eguai.A
essa protecção por causas eieitoraes accresceuno anno de 1853 um
acontecimento,que motivou um
acto escanda-loso
do governo
d'essa epoclia.O
celebremajor
GbristianoAugusto
da Fonseca,do
Erve-dal,
que
se achava presoem
Lisboa,no
castello de S. Jorge, pelo horrorosocrime de haver envenenado
a sua família,conseguiu evadir-se
da
prisão.A
opposição histórica,que
fazia guerrasem
tréguas aogoverno
regenerador,umas
vezescom fundamento,
e outrassem
elle e só por motivos políticos, accusou fortemente o ministériode
haver favorecido a fugade
Ghristiano.Eram
principalmente accusados o ministro da guerra, du-que
de Saldanha, e o ministrodo
reino,Rodrigo
daFonseca
1
Miignlliãcs; e estes, por isso, i)rururavam a lodo o custo
jusliíicar-S(;.
Todas
as (Jilií5a'ncias liaviain sido inúteis para capturar omajor
Clnisliaiio, (jik; andava iM-lní^Mado na Heira.N'estas circunislancias o ministro
du
reino, Uodrigoda Fonseca
Ma<,Mlljães,em
carta particular,com
datade 9 de
julhode
ÍSlili, dirigida ao seuamigo
João Correia Godi- nho, lho dizia:— «K
imlubitavel que omajor
Christiano e Ferreiroandam
poi' esses districtos, e que, porvergonha
nossa,homens
tâo atrozes sâo protegidos e ajudados.—
Dize daminha
[)arte ao JoãoBrandão
rjue omaior
serviço queelle pôde prestar
d
sua pairia,d humanidade
eá
rainha, éfazer
com
que essesmalvados
sejam presos; seamm
o fizerhonra-se, desmente os seus e
meus
inimigos, edá-me a maior prova da sua
dignidade.— Não
tornes isloem pouco momento;
é
para mim
negocio de fazer omaior
esforço peloamigo
queme ajudar
nesta empreza.—
Dize aoBrandão
que eu e elleestamos chegados
a
desmentir as calumnias dos jornaes, e que espero d\ileuma prova
superior de uome.mde
bem.—
Adeus,toma
estenegociocomo
omais
importantepara mim. — Haverá
força e auxilio
para
o que se quizer.»Exigiu para isso o assassino João
Brandão amplos poderes
sobre as auctoridades militares e administrativas; e essa auctorisaçãonão
se fez esperar.Em
portariade 10
desetembro de
1853, assignada pelo ministro da guerra,duque de
Saldanha, e pelo ministrodo
reino,
Rodrigo
daFonseca
Magalhães, se determinava ás auctoridades militares e administrativas dos districtosde Coimbra, Yizeu
e Guarda,a quem
o capitão do extincto bata- lhão nacional de Midões, João Victorda
SilvaBrandão,
apre- sentassea
referida portaria, lhe prestassem o auxilio quepor
elle fosse exigido
para
a execução deuma ordem
do seiriço nacional e real. Esta auctorisação durariapor
espado de trêsmezes
da
datada
portaria, depois do qual praso,para
ter validade, deveria ser renovada.3
Por
esta forma, para capturarum ou
dois assassinos, os ministrosiam
entregar a força publica ao chefe dos assas- sinos d'esta provincia, collocando até ignobilmentena
sua dependência as auctoridades militares e administrativas! IEra
a continuaçãodo
censuiavel pi'ocediinentodo mesmo
du(|ue de Saldanha,
que
depoisdo
desastre das forças po- pulai'esem
Torres Vedras,em 2á de dezembro
de 1810,liavia
nomeado
omesmo
assassino JoãoBrandão
capitãodo
batalhão cabralistade
S. João de Areias.(Juando os ministros,
dmiue de
Saldanha e Rodrigoda Fonseca
Magalhães,concederam
a João liiandão aquella in-dignissima auctorisação,
em iO de setembro de
i8rj:}, eragovernador
civil deCoimbra
o sr. conselheiro António Luizde Sousa
Ilenriípies Secco.É
escusado dizer que, apezar de o sr.Henriques Secco
serempregado de
confiançado
governo,não pôde
JoãoBrandão
darno
districtode Coimbra
execução á portariado
governo, eque
até contra ella aijuellereclamou
ao mi- nistrodo
reino.Se alguma
cousa fez JoãoBrandão em
exe- cução da portaria, foi nos districtos de Vizeii e da Guarda.O procedimento do governo em
18^)3 era a continuação da protecção escandalosa aogrande
assassino JoãoBrandão
pelos diíTerentes governos.Por exemplo: em
janeiro de 1850, durante ogoverno
cabralista, assassinou João Brandão, cobarde e infamemente, por motivos
de
familia, a Estanislau Xavierde
Pina, da Vár- zeade Meruge, com
o falsíssimo pretextode commandar uma
guerrilha miguelista; e as auctoridades,em
vezde
faze-rem
punir o assassino,procederam como
se vai ver.O governador
civil deCoimbra, Thomaz
d'Aquino Martins da Cruz, practicou a indignidade de dirigir a JoãoBrandão
um
otlicio,com
data de 15de
janeirode
1850,em
(jue declarava ter muita saiisfamode
o louvar por ter balidoum bando de homens (bando
que aliásnão
tinha existido) ede
haver morto o seu chefe!67
tomavam
as providencias paraque
odestacamento
alli fi-casse
permanente. Assim
se fizera, e odestacamento
con- tinuara apermanecer em
Arganil,como provavam
os docu- mentos.Por
partedo
ministério da guerramostrara
se que, at- lenta a diminuta forçado
exercito,não
era possível conser-varem-se
tantosdestacamentos como
setinham conservado nos annos
anteriores;devendo
ser escolhidos doisou
três pontosmais
impoitantes,onde
se concentrasse a força edonde
fosse possível auxiliar as outras localidades.Haviam
sidoouvidos os juizes dasquatrocomarcas
circum- visinhas, e ellestinham combinado que
era indispensável apermanência
da força nacomarca de
Arganil eem
Oliveirado
Hospital.Pelos
documentos
se via oííicialmenteque nâo
constavaque desde setembro
e outubrodo anno
antecedentede i859
deixassede
estar forçaarmada permanentemente em
Ar- ganil;mas
o juizde
direito diziaque
a forçanão
existiaalli, e sob este falso presupposto lançava sobre o
governo
arguiçõescompletamente
calumniosas,porque não
era pos- sivelque
as estações publicas faltassem áverdade com
ogoverno
nas participaçõesque
lhe faziam. Entretanto este facto tinha de ser especialmente averiguado.Km
seguida o sr. Vicente Ferrerpretendeu
justificar o juizde
direitode
Arganil; e o sr. Alves Martins extranhouque
o ministro da justiça tivessechamado calumniador
aomesmo
juiz.Respondeu
o ministro dajustiçaque chamava
calumniosas as expressõesdo
juiz,porque
ellaseram
contra os docu-mentos
oíTiciaesque mandava
para amesa. E chamava
calumniosas aquellas expressões, dizendo aomesmo tempo que
haviamandado
proceder contra o juiz, cujo procedi-mento
decertoninguém
acharia regular,chegando
ao ponto de tornar ogoverno
connivente cora os criminosos.O
sr.Henriques
Secco,mostrando
desejode que
este as-08
siiiiiplo SC Ir.ulasso (ór.i
du
c.unpo politico,novamente
suslcnlou a necessidade demandar um destacamento
i)ara Arganil; (; [)edin aogoverno
(pienão
sustentasseno
iogarde
administradorum homem que
podia suppòr-seque
dava i)rotec(;ão aos criminosos pelas relaçõesde
parentescoque com
elles tinha.O
sr. Francisco Coelhodo Amaral
pediu paraque
na Beirahouvesse mais
tropa, a fimde
serdominada
a in- fluencia dos Brandões.O
ministro dajustiça leu alguns oíTicios paramostrar que
pelo ministérioda
guerra se tinhaordenado
ao generalcommandante
da 2.^ divisãoque mandasse
para as locali-dades
de Arganil eGóes
a força necessária para auxiliar as auctoridades namanutenção
daordem
e segurança pu- blica; eegualmente
leu os oíTiciosdo
referido general,dando
conta deque
sehaviam passado
essasordens^
e declarandoque
a força estava ásordens
das auctoridades superiores de administração ede
justiça n'aquellacomarca, sendo uma
o juizde
direito.O
sr. D.Rodrigo
deMenezes
elogiou o governo,por
termandado
metterem
processo o juizde
direitode
Arganil.Disse
que
se cobriria delama
todo ogoverno que
tolerasseque uma
auctoridade escrevesse oque
se diziano
oííicio d'aquelle juiz.Deram
aindaalgumas
explicações os srs. Ferrer, Alves Martins, ministro da justiça, Ávila eLopes Branco;
epor
fim foiapprovado
por quasiunanimidade
oprocedimento do
ministro da justiça.»
#
* *
Tinha finalmente
chegado
a occasiâo,por
JoãoBrandão
julgada opportuna para se apresentarna
cadeia de Arganil;e
dizemos
opportunaporque assim
a classificou este sicárioG9
D uma
cartaque
por essetempo
llie publicouum
periódicode
Coimbra.Elle
bem
sabia os motivos d essaopportumdade:
e a sua escandalosissima absolvição veiumostrar que nâo
se enga- nava.Em Sarzedo houve grande
reunião dos protectores dos assassinoscom
o próprio JoãoBnmdão,
e ahi tudo secom-
binou.
No
dia 19 de agostode 1860
apresentou-se JoãoBrandão
ao juiz de direito de Arganil,Joaquim
José da Motta, e dois dias depois seapresentaram
os assassinos Joséde
Mattos e José Tavaresde
Britu;sendo
este ultimo omesmo que
se evadiramuito
á sua vontade, ecom
a connivencia da guarda,do
hospital da Universidade,em
a noite de 1 para 2de
fevereirodo anno
antecedentede
1859.João
Brandão
entraraem
Arganilcom grande
comitiva;e o juiz
de
direito permitliu a este assassino e aos seus dois sóciosque
serecolhessem
á sala livre,onde eram
visi- tadospor
muita gente e» muitos cavalheiros^havendo
allidiariamente grandes jantares, a
que
assistiam muitos dosapaniguados de
João Brandão.Era uma
verdadeira orgia.Mostrava-se
grande
desejode
fazer correr o processo a vapor, e assim era necessário para os réuspoderem
ser jul-gados no mez
de outubroou no
principiode novembro.
Appareceu
nos autosum
despacho,mandando
intimar o delegado— que
era o bacharelSeraphim Nunes
da Gosta, o qual tinha sido transferidode Taboa
para Arganil—
parair
immediatamente com
o libello accusatorio, dentrode
oito dias, a[)ezar de n'essedespacho
se reconhecerque um
dos réus devia ter culpasem Coimbra,
e se indicarem ao minis- tério publico para as requisitar1O
delegado offereceu contra os réus o libello,em que
expoz o crimecom
todas as circumstancias aggravantes, edeu em
rol todas astestemunhas do summario, requerendo
cinco precatórias,sendo
luna delias paraLoanda,
por ter70
p.ira alli ido
cm
cxcrciciodo
seuemprego uma
d'essas tes- teiuiiiilias.Os
réus e os seusamigos
nâo coritavinncom
este inci-denle, (jiie liies transtornava na(ju<ílla occasiâo os planos;
l)()r(jiic os sicários,
sondo
julgados peio jury de Arganil,eram, como
os factos posteriormentevieram
a jirovar, in- lallivelmcnte absolvidos.Em
Arganil, nas circumstanciascm
que
estava a comarca,não
iiaviaum
só juradoque
desse o crime por pi^ovado, ainda quecem
testemunhas cievistafossem depor ao tribunal.O
juizde
direitoJoaquim
José da Motta, contrariando o delegado e favorecendo os réus,marcou
apenasmetade
dotempo
por elle requerido para a inquirição datestemunha de Loanda;
peloque
o delegadoaggravou
para a relaçãodo
Porto.Estando
a causa n^estes termos,como
o juizde
direito e o delegadotinham
licença,foram
gozar d'ella nas ferias.O
juizde
direito deixouem
seu logar o substituto JoséJoaquim
Jorge,de quem
os réus^nadapodiam
recear, vista a escandalosadespronúnciaque
elle anteriormente linhadado
a dois grandes criminosos; e ficou substituindo o delegado o
advogado
José Mariade Almeida
Silva e Mello.Pela sua parte, este delegado interino, logo
que
entrouno
exerciciodo
cargo, paraconsummar
a obra a favor dos assassinos, prescindiuda testemunha de
Angola!la-se, portanto,
preparando
ogrande
escândalo da absol- vição dos assassinos.Desde que
os sicários sehaviam
apresentadona
cadeiade
Arganil, aproveitando a opportunidadeque
se lhes offe- recia para ojulgamento
e absolvição,não cessávamos com
os nossos enérgicos artigos
no
Conimbricense^prevenindo
ogoverno
e o paizdo
attentadoque
ia practicar-se n'aquella comarca.Em
vista dos escândalosque
seestavam
practicandoem
Arganil, e dos
mais que
sepreparavam,
exigimos dama-
71
neira
mais
positiva a transferencia dos assassinos para a cadeiade Coimbra
até á occasiãodo
seu julgamento.De
accordocom
as nossas reclamações e as ordens supe- riores, ogovernador
civildeterminou
a transferencia dos sicá- rios para esta cidade, ecom
esse fimmarchou
para Arganiluma
força de cavallaria e outrade
infaiiteria.No
Conimbricensede 2á de
setembi'o, depoisde darmos
conta de
que
João Brarrt!ão viviaem
Arganil namaior
inti-midade com
alguns oíliciaes;que
estava nas salasda
cadeiacomo um
generalque
tivesseguarda de honra
ás suas or- dens; e qiiii tudo lhe obedecia,chegando
o delegado interino a oíficiar para ogovernador
civil dizendo— «que
os presosse
recusavam
a sahir da cadeia, por ser ocommandante
da escoltade
cavallariamuito
novo!»—
concluiamos dizendo:Sr. ministro do reino: V. ex.", que já fui governador civil do dis- triclo de Coimbra; v. ex.% que sabe,
como
nós, o jugoem
que vive esta desditosa piovincia, acuda quanto antescom
providencias enér- gicas e eííicazes.A
estas horas deve v. ex.' achar-se informado de todos os acontecimentos que tem tido logar; cumpracom
o seu de- ver, se ainda se preza de lionesto, e acabe poruma
vezcom
o poder do trabuco e do punhal.Sr.ministro dajustiça: V. ex.% queé
um
caracter probo e integro;
V. ex.", que mostra desejosde castigar ocrime, ordenando a remoção
d'aquellesmalvados paraa cadeia deCoimbra; v. ex.", que vô a mais desaforada corrupção nos magistrados de[)endentes do seu ministé- rio, não hesite
em
dar prompto remédio á desmoralisação crescente que lavra pelo paiz.Não receie qu3 lhe falte o apoio dos homens de bem. Nós somos opposição; opposição que não treme
nem
recua deante das ameaças do poder ou do bacamarte dos assassinos;mas
não negaremos ap- provação a qualquer actocom
que v. ex." entenda poder cortar o mal pela raiz.Em
quanto é tempo, sr. Alberto de Moraes Carvalho;em
(juanto ó tempo a[)resse-se v. ex.' a limp^ir a sua toga de magis- trado illibadissimo d'estanódoa de sangue, que lhe pretendem lançar os assassinos e os seus poderosos protectores.Sr. ministio da guerra: V. ex." tem dt\inte de si
uma
força que lhe não obedece;um
destacamento que está ás ordens do assassino João Brandão.Ou
se deniitta, se não tem força para castigar os cul-n
pados, ou d<i
um
exemplo, (jue ílípio memorável, e prove a Cíisa de- g(íii(;nida porrào do exercito i)orliiguí;z í|ue a sua missào é proteger as vidas n propriíMladr dos cidadãos, e não viver e mancominunar-secom
scelcírados.Desgraçado paizl Deplorável epoclia!
em
que só o crime ea cor- rupção triumphamIOs
assassinostinham altos protectores;mas no meio
(l'issoachavam
[)ela írenle o nosso ConinKÊicense,qne não
deixavade
verberar os escândalosque
se practicavam.CAPITULO XV
TraiisfeiTiiria de
Joào
llraiulào paraím\\m\
c rojjresso para Arj^aiiil.—
Audiência de jiiJ,!iameiilo e adiameiílo delia.— Absohicão
escandalosissima dos sceleradosNa
terça feira,25 de setembro de
1860,chegou
aCoim-
bra, vindo de Arganil,
uma
forçade
cavallaria,commandada
pelo tenente José Vicente
Taborda, conduzindo
os sicários Joséde
Mattos e José Tavares de Brito.O
outro sicário JoséRamos Anginho
já hamuito
se achava na cadeia de Santa Cruz, d'esta cidade.Tinha,
porém,
JoãoBrandão zombado
dospoderes
públi- cos,conseguindo
obterum
attestadode
doença, passado porum
facultativodo
concelhode
Arganil, a fimde
se evadir aocumprimento
daordem de
transferencia.Gonti'a isso reclamava logo o Conimbricense
de 25 de
se-tembro, dizendo:
Detcrminou-se, e
com
justiça, que seja transferido para Coimbra o assassino; façam-se todos os esforços para se cumprir esta deter- minação. Nào se consinta que elle zombe, por qualquer modo, do mandatodaauctoridade. lia toda apresumpção de (jue a doençaalle-gada é
um
pretexto;—
mande-se inspeccionaro preso por dois cirur- giões militares ou civis, de absoluta confiança, que felizmente ainda os haem
(|uem .«e possa confiar, e, verilicado ijue o sicário nào está doente, remova-se da cadeia de Arganil, e puna-se o vendilhão que trahiu a consciência e oíTendeu a moralidade publica.74
È
precisa osla Víjrific.açào, até para o caso de ser verdadeiro o alteslado apresonlado.O
facullalivo que o passou eslá hoje codsí- d(M'a(lo na opinião piihlica corno vendido ao« ag^^assínos ecomo
fal- sario. Para se jusiilicaF- (Testas afciisaçòíís, se preza o senbom
cre- dito, deve elle ser o primeiro interessadoem
que se proceda á in- 8pec\*ào no estado de saúde do assassino.Veremos o (jiie fazem as auctoridades. Nós havemos de continuar a bradar d'esla tribuna contraoscriminosos, contra os seusprotecto- res, de qual(|iier cat(!goria que sejam, e contra o governo, se este nào acudir prompta e immedialamente
com
providencias acertadas, para d'uma vez para sempre exterminar os males que tem soíTrido a desditosa província da Beira.Com
eíTeito,em
virtude das nossas reclamações, partiuno
sabbado,29 de
setembro, deCoimbra
para Arganil,uma
força
commandada
pelo capitão, addido aogoverno
militar, Francisco José Vieirade
Carvalho. Constavade
doze sol-dados
de
cavallaria,commandados
pelo tenente Taborda, ede
vintede
infanteria,commandados
pelo alferes Seixas.Acompanhavam
esta força os dois facultativos, dr.Lou-
renço deAlmeida
eAzevedo,
lentede
medicina, e bacharel Carlos MariaGomes Machado,
professorde
geometriano
lyceu.
Chegados
a Arganil, resolveram todas as diiTiculdades, fazendo acabar a burlade
João Brandão,que
dalli foi trans- ferido paraCoimbra, dando
entrada na cadeiade
SantaCruz no
dia 2de
outubro.N'essa cadeia se
conservaram
os quatro assassinos até ás audiências geraesde
Arganil,no
seguintemez de novembro.
Em
sexta feira,23
d'essemez de novembro, marcharam
os assassinos para Arganil,
acompanhados por uma
forçade
infanteria 14.Nos
dias 27,28
e29
effectuou-se o julgamento dos sicá- rios.Tudo
tinha sidopreviamente preparado
paraque
as teste-munhas nada depozessem
contra os accusados.Os
própriosdonos
da casaonde
fora assassinado o João75
Nunes
Ferreiro,na
Bemfeita,negaram com
amaior
des- façatez o crime alli practicado.Os
dois barbeirosque tinham
sidochamados
para enca-narem
o braçodo
Ferreiro,um
dosquaes
era voz geralque ganhara
quatro hbras para ir denunciar o ferido a João Brandão, deixando a chave debaixo da porta para ir assas- sinar o Ferreiro n^aijuelhi noite,negaram
tudo!Disseram
que,chegando
allium homem que não
conhe-ceram, foram chamados
pelodono
da casaonde
elle se re- colhera para lhe irem curarum
braço,que
trazia consumido, emuito
inchado,com uma
rosinha,cm
virtudedo que
lhe applicaramum chumaço com
aguardente.Essa
rosinha era o buracoque
havia feito a balaque quebrou
o braçodo
Ferreirona
Catraia da Fonte Espinho.Sendo
instados para explicarem oque entendiam
por braço consumido,responderam que
o braço tinhauma
pe-quena
ferida na pelle, eíTeitode uma
queda, eque
estava muito inchado.E
n"este acto, sendo-lhes lido odepoimento que haviam
feitono summario,
para lhesmostrarem
ascontradicções
em que haviam
cabido,responderam que não haviam
feito tal juramento,porque
o braçoque
se dizia fra-cturado
de
certo onão
estava.Outras testemunhas, a
maior
parte da Bemfeita,disseram que
aindanão tinham
ouvido falar namorte do
Ferreirode
Várzea! Outras diziamque
nãosabiam onde
tinha sidomorto! E
outras diziamque tinham
sidoameaçadas
e presas pelo delegadoSousa
Secco parajurarem
contra os réus!Todas
estas miseiiascausavam
nojo;mas nada
revoltou tantocomo
odepoimento de um
talpadie
Manuel,que
na epochado crime
residia na Bemfeita,sendo
posteriormente capellão das freiras de VillaPouca
da Beira. Este padre, esquecidode que
nosummario
jinara ter ouvido os tirosno
Ferreiro, dizia agora na audiencin,que amando
a soli-dão, por isso (pie
lha
aconselhava a boa moral, fugiade
perguntar por qualipier acontecimento (pie se desse na sua7(i
fiogiiozia. Qiic o (jstroiido (juí; ouvira n"a(iiiella noite lhe parecera, não
um
tiio,mas sim uma
cousaque
os rapazesque vinham de
Lisboacostumavam
trazer, e aque chama- vam
ijombas!E
continuou n'este bello gosto a metler os pés pelasmãos.
Outro
clérigo,que
se lhe seguiu, fez quasi omesmo
in-decente papel.
Tudo
isto e muilomais succedeu no
primeiro diada
au- diência.No segundo
dia fez o delegado,Seraphim Nunes
da Costa,um
requerimento, protestando contra dez nullidadesque
continha o processo,pedindo que fossem mencionadas na
acta; e para provar
uma
d'ellas junctouuma
certidão, da qual se viaque
o juryque
estava funccionando era illegal,por
haver sido sorteadode uma
pauta incompetente.Na
terceira audiênciado
dia29 mandou
o juiz .Joaquim Joséda
Motta fazer os autos conclusos, e annullou o pro- cessodesde
a entrega da pauta dos jurados aos réus.Assim
ficou d'esta vezpor
concluir ojulgamento
e o es- cândalo; tendo os assassinosde
voltar paraCoimbra.
#
Era,
porém, chegado
otermo
de tantos escândalos, pra- cticando-se omaior de
todos elles: a torpissimaabsohiçâo
dos assassinos.No
Conimbricensede 9 de
abrilde 1861 annunciavamos
opróximo julgamento
dos sicários, dizendo:«fulg^ameiító — No
dia 17 do corrente ha de lerlogarem
Ar- ganil o julgamento de João Brandão e seus sócios. Todas as noticias são conformesem
asseverar que o resultado do julgamento nãoserá mais do que oremate dosimmensos escândalos que ha muito a Beira tem presenceado.144
Corria a
demanda,
e amâe, nâo querendo
fazer declara- ções,que
deprompto
resolviam o litigio, abafavaem
seu peito tão cruciantes dores; o único confortoque
procurava para as suasmagnas
era ode
abraçar-se á lúgubre figueirasempre que
ia ao Ribeiro da Vide, e alli, achando-se só,exclamava como
louca:—
Ai figos coroados! figos coroados!Em uma destas
suas tristes e solitáriasexpansões
foi ellasurprehendida pelos
malvados
filhos, íjue, suspeitandoque
suamâe
sabiado
horroroso facto,formaram desde
logo o projectode
a matar.Com
eíTeito, estandoAnna
Gonçalves,no
dia14 de
ou-tubro
de
184G, a lavaruns nabos
á beirade um
poço, ap- proxima-se d'ellaum
dos filhos, desapercebidamente, eem-
purra-a para dentro, practicando assim ocrime
horroroso dematar
sua própriamâel
Uma
filha deAnna
Gonçalves, pornome
Maria, ficou se- nhorado
segredo,que
veiu acommunicar
aos filhos.E
estes, por desintclligcnciascom
o tio Manuel,um
dos dois assas- sinos,descobriram
tudo ás auctoridadesjudiciaes de Oliveirado
Hospitalno
fimdo mez de março de
18G1.Para digno
complemento
d'estes espantosos crimes, o juiz ordináriode
Oliveirado
Hospital, sob o pretextode
haver prescripçâo, abafou o processo^não duvidando
ficar expostod mais
grave accusação que sepode
dirigira um
funccionario publico!O
código penal,no
art. 125.°, determina:Nenhuma
pre-scripçâo corre,
emquanto
o criminoso relem qualquer objectopor
effeito do crime.Exactamente
n'estas circumstanciasestavam
os crimino- sos, pela herança (juepossuíam em
resultado damorte que haviam dado
a seu irmão, o vigáriodo
Ervedal, e posterior-mente
a suamãe.
\\^
E
ó por issoque no
Conimhrkertscde
41jde
abril de1801
chanuiuios todaa
(illmçáo do juiz ordinário de Olivnra doJlospital
para
o referido arl. 125.^ do código, indicando-lliea appUcarão
(pie linha nwpiellc cano orcorrenle.Pois tudo foi inulill
Tudo
foi díísprezadolAssim,
por toda esta serie de circurnstancias e actos cul- páveisvieram
a ficar im[)unes os auctoresde
tâomedonhos
crimesde
fratricidio,de
/tomicidio ede
malricidio!É
horrível tudo istolCAPITULO XXIII
Morle (lo
abkade
deGuardão
Quando
o bispode
Vizeii, D. FranciscoAlexandre
Lobo, se ausentou da sua diocese para o estrangeiroem
abril de 1834,em
seguida á guerra civil, deixouencarregado
de administrar a diocese o seu provisor.O governo
liberalnâo reconbeceu
talnomeação, sendo por
isso expedidos os seguintes decreto e portaria:
Atteiidendo ao merecimento e mais partes, que concorrem
em
o bacharel AntónioManuelLopesVieira de Castro, abbade daparochial cgrejadeS.ClementedeBasto,e suas annexas: heiporbem
nomeal-o,em nome
da rainha, governador temporal do bispado de Vizeu, para que,em
conformidadecom
as leis, haja de visitar ereger as egrejas do clero secular e regular, e providenciar a todas as cousas a seu cargo,como
cumpre ao serviço de Deus e da rainha, à utilidade ebem
estar dos povos; dando parte pela secretaria de estado dos ne- gócios ecclesiasticos e dejustiça, de tudo quanto fizer, e adiar que cumpre serordenado, para preencher os justos e importantes finsda commissão, que sou servido encarregar-lhe.O
ministro e secretario de estado dos negócios da fazenda, encarregado interinamente da pasta dos negóciosecclesiasticos edejustiça, assim o tenha entendido e faça executar. Paço das Necessidades,em
17 de abril de 1834.—
D. Pedro, duque de bragança.
—
José da Silva Carvalho.—
Está con- forme, Rodrigo da Fonseca Magalhães.Secretaria de estado dos negócios ecclesiasticos e de justiça.
—
Repartição dos ecclesiasticos.
—
Havendo sua magestade imperial o144
(liKluc! (1(! nraí,'an(;a, rcgcnlfí lmii
nome
darainha, sidoservidonomear para ^'ovcinador Icriiporal do liispado d<; Vizeii ao bacliarel AntónioManii(!Í l.opusViiíira do í^aslro, abbadí; daparocfiial egreja doS. Cle-
mente de liasto, e suas annexas, como consta do decreto quejoncto vai por copia, assignado pelo onícial maior d'esta secretaria de estado, Rodrigo daFonstíca Magalhães: é muito do agrado do
mesmo
augusto senhor (pie o cahido da Sé de Vizcu nomeie logo o mencio- nado governador temporal, vigário capitular do bispado, Iransmit- tind(»-Ihe a jurisdiceão espiritual, que, no impedimento do bispo, reside no
mesmo
cabido. Sua magestade imperial espera queocabido assim o execute, dando parte i)or esta secretaria de estado dos ne- gócios ecclesiasticos edejustiçade haverfeitoanomeaçãode vigário capitular na pessoa designada. Paço do Ramalhão,em
2o de abril de 1834.—
Joaquim António d*Aguiar.
Posteriormente teve a diocese de
Yizeu
outros governa- doresdo
bispado.Tanto
na
diocesede
Vizeu,como
nade Coimbra, Évora
e outras, estabeleceu-seum grande
scisma religioso.Em Coimbra
exercia aecretamenle ogoverno do
bispado ocónego
iVIiguel Ribeiro de Vasconcellos, peloque
foi presoem 1837
eseguidamente
processado.Os
padres miguelistasnão queriam obedecer
aos gover-nadores
dos bispados,nomeados
pelo governo, osquaes
classificavam de intrusos,obedecendo
só às auctoridadesque
occultamentegovernavam
as dioceses pornomeação
dos prelados ausentes.De
tudo isto resultaram graves discórdias nas familias, e luctas dos parochos miguelistascom
as auctoridades ec- clesiasticas,que nâo
reconheciam.Entre
outras providenciasdo
governo, contra os pro-motores
e sectáriosdo
scisma, diiigiu o ministrodo
reino, JúlioGomes
da Silva Sanches, a seguinte circular aos ad- ministradores geraes:
Ministério do
reino—
4.^ repartição—
Circular—
Chegando aoco-nhecimento de sua magestade a rainha que as medidas adoptadas pelas auctoridades ecclesiasticas não têm sido bastantes para obstar ao scismareligioso, que ultimamente sehadesenvolvido
em
diversos145
pontos do reino, e que os propugnadorcs de tio erróneas doutrinas, abusando da credulidade dosfieis, einvocando opoderoso auxilio da
religião, tentam por essemeiodesvairarospovos e conduzil-os ásua tentativarevolucionaria
em
favor dausurpação: ha amesma
augusta senhora porbem
ordenar que osadministradores geraes dedistrictoprocedamenergicamente contra semelhantesfanáticos, auxiliando as auctoridades eeclesiasticas e judiciarias, na execução das providen- cias que derem, para elles serem legalmente castigados
como
per- turbadores da ordem publica, e fazendo capturar desde logoaquelles ecclesiasticos, que, achando-se suspensos do exercício de todas as ordens, forem comtudo encontradosem
flagrante delicto de celebra-rem
algum acto do ministério ecclesiastico; e assim omanda
parti- ciparpelasecretariade estado dos negóciosdoreino ao administrador geral de. . . para sua intelligencia e execução.Palácio das Necessidades, 20 dejaneiro de
1838—
-/m/ío Gomesda Silva Sajiches.O abbade de Guardão,
Franciscode Azevedo Sousa
Cou- tinho, erapronunciado
miguelista, eirmão do
celebre mi- guelista, omajor Manuel de Azevedo Sousa
Coutinho.N'essa
conformidade
oabbade de Guardâo
era partidário declaradodo
scisma religioso,desobedecendo por
isso aogovernador do
bispado,nomeado
pelo governo, o qual nosannos
de1838
a1839
era opadre
António MartinsMenezes.
Essa resistência e os ódiospoliticos,
além do cumprimento
das ordensdo
governo,provocaram
da partedo
adminis- tradordo
concelhode
Tondella,Joaquim
Fragoso, aordem
de prisão contra o
abbade em junho de
1840.Foram
encarregadosda
prisão alguns oíTiciaesde
dili-gencias, a
que
sejunctaram
outros indivíduos, que,além
dos motivos politicos,levavam em
vistaroubar
emesmo
matar
o abbade.Chegados
os oíTiciaesde
diligencias á residênciado
ab-bade
deGuardão,
este recusou-se positivamente a entre- gar-se á prisão, dizendoque
sò se deixaria conduzir pelo administradordo
concelho, enão
pelos indivíduosque
alli se llie apresentavam,que eram
seus declarados inimigos,na mão
dos quaes perigava a sua vida.10
\\{Kii
O ahhade
acliava-sc na sua casa í3 quinta particularde
(]asal Dasco, írcguezia
de
S. Tliiago de IJesteiros, confinante da ÍVegueziade
íjuanlãu. Feciíou as portas; ecomo
valenteque
era, e tendo muitasarmas,
resolveu-se a resistir aosque
oqueriam
prender.N'estas circumstancias
um
dos da diligencia, Antóniodo
Valle,
de
Tondolla, Iractoude arrombar
a porta da entradacom um machado.
Logo que
eile tinha parte da portaarrombada,
oabbade
dirigiu, pela abertura
do arrombamento,
ao assaltante,um
tiro á
queima
roupa,que
instantaneamente omatou.
Obrigou
isto os assaltantes a retirarem-se paraum povo
vizinho; e o abbade,podendo
n'essa occasiâo evadir-se,nâo
o quiz fazer, e conservou-sena
sua casa, resolvido a con- tinuar a resistir.Voltaram
osda
diligencia e fizeram fogo para a casado abbade
até á tarde d'esse dia,que
era23 de junho
de 1840.O abbade
respondiasempre
fazendo fogo, e feriu grave-mente em um
braço aum mais
atrevido,que
subira auma
cerejeira, fronteira ás janellas, para disparar
um
tiro.Foi então
que
os aggressores trazendogrande
porçãode
lenha, e lançando-lhe o fogo, incendiaram a casa.Quando
o fogo era já geralem
toda a casa, quiz oabbade
lançar-se deuma
dasjanellas. Practicaram,porém,
os assal- tantes n'essa occasiâo o actocobarde
e altamentecondemna-
vel
de
lhedarem uma
descarga, peloque
oabbade
cahiuno
incêndiodo
interior da casa,morrendo
ahiqueimado
IOs encarregados da
diligencianão
se occultavamem
dizer que, se
levassem
preso oabbade de Guardão,
oma-
tariam antes dechegar
a Tondella. Practicariamcom
issouma
infâmia, porque, se oabbade
era criminoso perante as ordensdo governo na
questãodo
scisma religioso, devia ser julgado econdemnado
legalmente, enão
sermorto
poruma
suciade
malvados.CAPITULO XXIV
Moiie do juiz
k
(lireilo deMidõcs.— Uma
fera nopovoado
Os
roubosque pracUcavam
osBrandões
e a sua quadrilhanão
era só pormeio
de assaltos ás casas.As
suas extorsõeseram
eíTectuadastambém
por outros e diversosmodos.
Os
juizes de direito dacomarca de Midôes estavam
inteira-mente
ássuas ordens.Nâo davam
sentença,nem
practicavam actoalgum em que podessem
interessar aquelles scelerados,sem que
primeiro estes lhesdeterminassem
a sua vontade.Decisões relativas a heranças, litigios acerca
de
dividas, tudo era resolvido pela imposição dos sicários.Até os
casamentos estavam dependentes
d'elles.A
acção criminal achava-seegualmente
namão
dos scele- rados.Em
plena audiência geral era frequente ver entrarno
tribunal osHrandões
e declararem
voz alta aos jurados:—
Esse accusado deve ser livre;ou
—
Esse accusado deve sei'
condemnado, E
n'essa contbimidade o accusado era livreou condemnado conforme
aordem
recebidaIO
juiz, o delegado, os jurados e os escrivãesobedeciam
cegamente,porque sabiam
que, |)rocedendode forma
diversa,eram
infallivelmente assassinados.N'esta situaçãoo
governo mandou
para acomarca de Midões
um
juizde
direito digmissimo sob todos os respeitos, qual era o bacharel Nicolau Baptistade
FigueiredoPacheco
Telles.i48
Austero c
honrado
liberal, linhaemigrado
durante o go- verno tyrannicode
I). Miguel; equando
voltou á sua terra natal, a Aguieira, concelhode Águeda, não
tirou vingançaalguma
de seus inimigos,sendo
tolerante paracom
todos.De
reconhecida energiae probidade exemplar, reunia todas as condições para odesempenho de um
cargo lâo dJCQcil,como
era o de juiz de direitode
Midões.Chegado
áíiuella comarca, tudomudou
logo de face.Os
sicários já
nâo davam
as leisno
tribunal; e as sentençasnão eram
dictadas por elles,mas
unicamente,conforme
a consciênciado
juiz.Imagine-se
que
tal seria a irritação dos ladroes e assas- sinos,vendo
desprezado o seu império! Foi, porisso, resol- vida pelos sicários amorte do
respeitável e integerrimo magistrado.Com
elTeito,em
a noitede 28 de
agostode
1842,quando
Nicolau Baptista sabia da casado
viscondede Midôes
para voltar á sua residência, foi assassinado.Este
crime encheu de
espanto e horror todo o reino, porque, apezar dosnumerosíssimos
attentadosque
atéentão sehaviam
practicado n'esta e nas outras províncias, era a primeira vezque
se assassinavaum
juizde
direito!
Por
estemodo
ficava opoder
judicialsem
forçanem
auctoridade; e todos os juizes
viam
arriscada a sua exis- tência^desde que
senão prestassem
a proferir as sentençasconforme
as determinações dos facínoras.Na
sessãoda camará
dosdeputados de
2de setembro immediato,
odeputado Mio Gomes da
SilvaSanches
inter- pellou ogoverno
acerca d'este gravíssimo acontecimento e dasmedidas que
estava resolvido atomar em
caso tão excepcional. Dissepor
fimque não
podia deixarde pronun-
ciar dentro
da camará
o mais explicitotestemunho de
louvor149
e acatameiítu á
momuria
d'aquello juiz virtuoso, victiniada
sua iiectidão.Foram
geraes os applausos da camará.O
ministrodo
reino, AntónioBernardo
da Costa Cabral,respondeu que também
deviapagar um
tributo ámemoria
d'esse digno e rectissimo magistrado,
que além
d'isso era seu particular amigo.Asseverou que
odeputado
interpel- lanle podia ficar certo deque
ogoverno
havia deempregar
Ioda a energia para o descobrimento e punição dosculpados.
Accrescentou
que
acomarca
deMidões
era amais
tur- bulentado
reino.Tinham-se empregado
lodos osmeios
para a pacificar, occupando-a atécom
força;mas
a desgraçada experiência liaviamostrado que
istonâo
bastava.Se
depoisdo conhecimento do
recentecrime
ogoverno
entendesseque eram
necessáriasmedidas
extraordinárias elle as pro- poria, 6 contavacom
a coadjuvaçãodo
corpo legislativo.O deputado Rodrigo
daFonseca Magalhães
disseque um
ministro da Inglaterra pedira ás
duas
casasdo
parlamentoque
se vestissemde
lucto,porque um
juiz tinha prevaricado;mas
n'aquelle dia pedia elleque
se cobrissem osdeputados de dó
porum
motivoque honrava
a nossa magistratura.Não
podianegar um
votode admiração
ede
elogio ao magistradoque
fora victima da recta administração da jus- tiça. Este facto pareciade
sobejo para justificar o governo, 6 incital-o a pedirmedidas
extraordinárias para o pimir severamente.Falando
novamente,
o ministrodo
reino Gosta Cabral disseque não
podia deixarde
recordar à camará,com
certo remorso, que, sequando
fora assassinado o administradordo
concelliode Gouveia
sehouvessem tomado
outras pro- videncias, talvez o recente casonâo
acontecesse.Disse
que
era necessário punir delictos tão atrozes, re- primircom
a severidade das leis peio castigo, pelomedo
a audácia dos criminosos.
Não
receiava ogoverno que
lhe faltasse n'esteassumpto
o concursodo
corpo legislativo, e estava certode que em
tal negocionão
haveria opposição.Vá)
Na
sessão s(3{^uinl(í (Jc 'A dosetembro
falou ikjniesmo
sentido o ministro da justira, Antóniode Azevedo
Mello e Garvallio, e leu o oílicioem que
se lhe participara o assas- sinatodo
juizde
direitode
Midoes.Disse
que
ogoverno
tinhatomado em
tão importante objecto as medidas,que
podia, na esphera das attribuicões ordinárias e legaes. Elle ministro olhciara ao procurador régio e presidente da relaçãodo
Forto, aos ministrosda
guerra e reino,provocando
a sua acção e a puniçãode
tão atroz attentado.
Entendia
que
taesmedidas não bastavam
para reprimir tão horrorosos crimes,nem
punil-os,quando
desgraçada-mente
se repetissem, e julgava necessáriasmedidas
extra- ordinárias,que
conciliassem a justiça, o respeito e a se- gurançaque
aboa ordem imperiosamente
reclamava.Falaram
sobre omesmo assumpto
osdeputados
JoséBernardo
da Silva Cabral e JoséAlexandre
deCampos.
Na
sessãode
12de setembro
odeputado
SilvaSanches
disseque não haviam acabado
os crimescom
amorte do
juizde direito
de
Midões. Já posteriormente tinha havido outro assassinato.As
auctoridadesprocediam com
desleixoou
connivencia.O destacamento que
foramandado
paraMidôes nada
tinha feito,havendo
irregularidadesno
seu aboletamento, insul- tando os soldados as famíliasem
casade quem haviam
sido aquartelados.Os
criminosospasseiavam no meio
da tropacom
inteiraimpunidade,
e só osnão
conheciaquem
osnão
quizesse conhecer.O
ministro da justiçarespondeu que
podia asseverarque
sehaviam
passado as ordensmais
positivas e terminantes,porque
oempenho do governo
eraque
a administraçãoda
justiça
não
fosse vilipendiada.Por
decretode
7de setembro
foinomeado
juiz de direitoda comarca de Midões
o bacharel José António Monteiroda
Guerra
Bordallo.CAPITULO XXXIII
A
repuhlioa doCarmo em Coimbra
Desde
oanno de 1837 andavam
os estudantes da universi-dade
insubordinados,nâo
respeitando as auctoridadesnem
os lentes e praclicando toda a (lualidade
de
attentados (^ontraos habitantes de
Coimbra.
Á
noitenenhum
cidadão i)odia sahir á ruasem
correr riscoimminente de
sergravemente
maltractado por aqueilas esperançasda
palria.Eiam
frequentes aspunhaladas
e as cacetadas, ainda nas pessoasmais
pacificas.Ao
anoitecer todos os habitantes sefechavam em
suas ca- sas, e, anão
ser por motivo grave,ninguém
sahia á rua.Além
dos estudantes díscolos,que
viviamem
diíTerentes ruas da cidade, haviaum
grui)0de
malévolosque
residiam110 collegio
do Carmo,
na rua da Sophia, osquaes
se torna-vam
salientes pela sua perversidade. Ellesmesmo
se in- titulavam a—
Republica doCarmo.
Todos tremiam
delles, ])orque para essa suciade
estu- dantes-sicariosnada
haviaque
os contivesse.Quando
[)nssavam p<'Io quartel da Graça,onde
eslavauma
íoira
de
caçadores 3, e a sentinella lhes peigunlava:— Quem vem
hí?— respondiam com
lodo o descaianienlo:—
A
re- publica doCarmo! E
a sentinella deixa va-os passar,porque
elles faziam
impunemente
tudo oque
queriam!2i6
Clicgavíim á audácia
de andar
publicamentecom
os pii- nlia(;s ao i)eito, atéde
dia,sem
(jue as auctoridades líio proliibissem!Alii vai, |)ara amostra,
uma
das façanhas dos estudanles- sicnrios.No
largode Samsâo,
hoje praça8
de Maio, á esíiuina, aocimo
da ruade
Tinge-rodilhas, havia o boleípiimde
An- tónio Joaíjuimde
Figueiredo Serra,onde
agora estão as casasdo
sr. JoséFernandes
Ferreira, o qual eramuito
fre-quentado pela classe popular.
Em uma
noite,próxima do
Nalalde
1838, achava-se ahi o nosso amigo, o sr.Augusto
Pinto Tavares, a conversar auma
dasmesas com
algimsde
seus amigos.N'esta occasião apparece, vindo de jogar o bilhar
em
lunaoutra casa
do mesmo
botequim,um
dos estudantes-sicarios, Francisco MariaGaspar
Martins, o qual,vendo
o sr. Pinto Tavares, dirige-se a elle e desafia-o,como querendo
tiraruma
desforrade
certa pendência anterior.O
sr. Pinto Tavares, cidadão essencialmente pacifico, ficou surprehendido,porque nada
tinha tidocom
o aggressor;mas
o talGaspar
Martins arrancade um punhal
e dirige-se a elle para o apunhalar.N'esta crise sáe