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O ciberativismo (in)tolerante e (ant)agonístico em grupos de Facebook: um olhar interdisciplinar sobre o debate liberal e conservador quanto ao programa “Escola Sem Partido”.

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Academic year: 2021

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INSTITUTO DE FILOSOFIA, SOCIOLOGIA E POLÍTICA – IFISP

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA – PPGS

Dissertação de Mestrado

O CIBERATIVISMO (IN)TOLERANTE E (ANT)AGONÍSTICO EM GRUPOS DE FACEBOOK:

UM OLHAR INTERDISCIPLINAR SOBRE O DEBATE LIBERAL E CONSERVADOR QUANTO AO PROGRAMA “ESCOLA SEM PARTIDO”

Murilo Paiotti Dias

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O CIBERATIVISMO (IN)TOLERANTE E (ANT)AGONÍSTICO EM GRUPOS DE FACEBOOK:

UM OLHAR INTERDISCIPLINAR SOBRE O DEBATE LIBERAL E CONSERVADOR QUANTO AO PROGRAMA “ESCOLA SEM PARTIDO”

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia – PPGS, do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política – IFISP, da Universidade Federal de Pelotas – UFPEL para a obtenção do título de Mestre em Sociologia.

Orientador: Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

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AGRADECIMENTOS

Agradeço, em primeiro lugar, aos meus pais, Marcelo de Paula Dias e Nelma Aparecida Paiotti Dias, que, mesmo de longe, ajudaram-me com muito apoio e carinho nesses seis anos que passei em Pelotas – RS.

Agradeço aos professores do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política por terem me inserido no conhecimento sociológico e, de forma geral, em Ciências Sociais. Também agradeço à CAPES por ter me proporcionado uma bolsa de Mestrado que auxiliou para que tais estudos fossem realizados.

Agradeço à Sociedade Científica Sigmund Freud por ter me dado a chance de estudar com psicanalistas e psicólogos temas que me proporcionaram o embasamento do que hoje entendo por Psicanálise.

Agradeço à minha família. Ao meu irmão, tios(as) e primos(as), pessoas que me fizeram sentir seis anos de saudades. Agradeço meus avós Alberto Paiotti e Marcília Dias, que se foram enquanto eu não estava em minha cidade natal. Serão mais alguns anos de saudades.

Agradeço ao meu Prof. Orientador, Dr. Léo Peixoto Rodrigues, por ter sido o colega profissional e amigo que me auxiliou e acompanhou tanto na academia como em minha vida pessoal.

Agradeço aos amigos e colegas de mestrado Julio Marinho, Tales Fonseca, Eduardo Ribeiro, Helena Peres e Carolina Monteiro, por terem sido as pessoas próximas que passaram simultaneamente pelo mesmo processo acadêmico que o meu, e que, portanto, puderam me compreender melhor do que meus demais amigos nos assuntos concernentes ao Mestrado.

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RESUMO

DIAS, Murilo Paiotti. O ciberativismo (in)tolerante e (ant)agonístico em grupos de Facebook: um olhar interdisciplinar sobre o debate liberal e conservador quanto ao

programa “Escola Sem Partido”. 2018. Dissertação de Mestrado. Programa de

Pós-Graduação em Sociologia. Universidade Federal de Pelotas.

A presente Dissertação propõe pensar, refletir e analisar o modus operandi do ciberativismo de direita em grupos liberais e conservadores internos ao Facebook, mais especificamente na relação desses com a questão do programa “Escola Sem Partido”. Para tanto, desenvolveu-se aqui aspectos teóricos que perpassam áreas como as da Sociologia, Ciência e Filosofia Política, Psicanálise, Teoria do Discurso. Como metodologia de investigação adotou-se centralmente a Análise do Discurso francesa e elementos netnográficos. Foram analisadas as postagens dos seis (6) maiores grupos online nacionais, conservadores e liberais, consideradas mais relevantes para o trabalho para reconhecer se tal ciberativismo pode ser pensado como democrático e agonístico ou intolerante e antagonístico.

Palavras-chave: Sociologia digital. Agonismo. Intolerância. Direita. “Escola Sem

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ABSTRACT

DIAS, Murilo Paiotti. O ciberativismo (in)tolerante e (ant)agonístico em grupos de Facebook: um olhar interdisciplinar sobre o debate liberal e conservador quanto ao

programa “Escola Sem Partido”. 2018. Dissertação de Mestrado. Programa de

Pós-Graduação em Sociologia. Universidade Federal de Pelotas.

This thesis proposes to think, reflect and analyze a right wing cyberativism of liberals and conservative groups on Facebook, specifically the relations of those groups with the “Escola Sem Partido” program. So, it has developed a theoretical background that pass through areas like Sociology, Political Science and Philosophy, Psychoanalysis, Discours Theory. The methodology adopted for this work was embased fundamentally embased in french Discours Analysis and netnograpohics elements. So, it has analyzed posts of the six (6) larger nationals groups online, conservatives and liberals, which were considered more relevants for this work to recognize if that cyberativism can be considered as democratic and agonistic, or intolerante and antagonistic.

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Lista de quadros

Quadro nº 1 – Nome fictício dos grupos e número de membros ... 97 Quadro nº 2 – Corpo discursivo democrático/tolerante (unidade de análise) ... 102 Quadro nº 3 – Corpo discursivo antagônico/intolerante (unidade de análise) ... 102

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Lista de siglas

ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação

CONJUVE – Conselho Nacional de Juventude

ENIAC – Electronic Numerical Integrator and Computer

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

FIES – Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior

GCA – Grupo Conservador A

GCB – Grupo Conservador B

GCC – Grupo Conservador C

GLA – Grupo Liberal A

GLB – Grupo Liberal B

GLC – Grupo Liberal C

LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros

MBL – Movimento Brasil Livre.

OAB – Ordem dos Advogados do Brasil

PCdoB – Partido Comunista do Brasil

PEC – Proposta de Emenda à Constituição.

PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

PR – Partido da República

PROUNI – Programa Universidade para Todos

PSOL – Partido Socialismo e Liberdade

PT – Partido dos Trabalhadores

TIC – Tecnologia de Informação e Comunicação

TRF-4 – Tribunal Federal da 4ª Região

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Figura 1 - Máquina de Turing... 20

Figura 2 – Eniac... 21

Figura 3 - Steve Jobs, Steve Wozniak e a Blue Box………... 22

Figura 4 - Exemplo de interconectividade entre mídia televisa e mídia pós-massiva... 28

Figura 5 - Netizens utilizando o hipertexto na construção de uma inteligência coletiva... 31

Figura 6 - Adaptação hipertextual do conteúdo de um jornal no ciberespaço... 33

Figura 7 - Cena de repressão policial registrada por um internauta... 39

Figura 8 - Consulta pública realizada pelo Senado acerca do Projeto de Lei 193/2016... 41

Figura 9 - Disputa entre um netizen liberal e um partido que se classifica como liberal... 42

Figura 10 - Imagem de uma manifestação impulsionada pelo movimento Passe Livre, em junho de 2013... 43

Figura 11 - Foto da manifestação em São Paulo promovida pelo MBL em março de 2015... 44

Figura 12 - Netizen de grupo conservador demonstrando pouca confiança e credibilidade em mídia de esquerda que procura difamar seu candidato à Presidência da República... 46

Figura 13 - Debate ideológico entre dois netizens... 48

Figura 14 - Foto da “capa” do grupo Conservador C... 64

Figura 15 - Demandas de um reacionário estranho ao amor... 65

Figura 16 - Alunos ovacionando Jair Messias Bolsonaro... 69

Figura 17 - Professor a favor do Programa Escola Sem Partido... 70

Figura 18 - Exemplo de comunidade virtual que possui suas próprias regras para discussão política... 85

Figura 19 - Consulta pública feita pelo Senado Feral sobre a proposta que visa tornar inafiançáveis crimes de discriminação ou preconceito de procedência regional ou identidade cultural... 88

Figura 20 - Comentários publicados em um grupo conversador nacionalista... 92

Figura 21 - Exemplo de elementos de um post... 98

Figura 22 - Imagens que acusam doutrinação autoritária no ensino brasileiro... 103

Figura 23 - Professor discursa em escola pública do Ensino Médio... 104

Figura 24 - Deputado Estadual Marcel Van Hatten afirma ofensa pessoal e se retira de entrevista... 107

Figura 25 - Explicação vaga do projeto “Escola Sem Partido”... 109

Figura 26 - Coordenadas para uma militância pró “Escola Sem Partido”, pelo próprio “Escola Sem Partido”... 111

Figura 27 - A “lavagem cerebral” da “extrema-esquerda”... 112

(11)

Figura 30 - Entrevista com Miguel Nagib realizada por Danilo Gentili... 116

Figura 31 - Um netizen intolerante invadido... 118

Figura 32 - Van Hattem panfleta... 120

Figura 33 - Mais problemas de doutrinação... 121

Figura 34 - Militância em sala de aula... 123

Figura 35 - A política comunista na escola... 125

Figura 36 - Enquete sobre “Escola Sem Partido”... 126

Figura 37 - Leandro Karnal entre os liberais... 127

Figura 38 - É possível separar o problema da solução... 128

Figura 39 – Um petista tem mais é que... ... 129

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO

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1. DESENVOLVIMENTO DO CIBERESPAÇO EM ÁGORAS VIRTUAIS

DE NETIZENS... 19

1.1 INTRODUÇÃO... 19

1.2 ESBOÇO DE UMA TRAJETÓRIA INFORMÁTICA E DIGITAL... 1.2.1 A GRANDE MÍDIA E AS MÍDIAS DIGITAIS PÓS-MASSIVAS ONLINE... 19 22 1.3 A IMPORTÂNCIA DA INSTÂNCIA CIBERESPACIAL E HIPERDOCUMENTAL PARA A PESQUISA SOCIAL... 28

1.4 OS NETIZENS... 34

1.5 ASPECTOS DO CIBERATIVISMO... 37

1.6 CONSIDERAÇÕES... 49

2. O LIBERALISMO, O CONSERVADORISMO E O PROGRAMA “ESCOLA SEM PARTIDO”... 50

2.1 INTRODUÇÃO... 50

2.2 ASPECTOS DO LIBERALISMO... 50

2.3 ASPECTOS DO LIBERALISMO CLÁSSICO... 52

2.4 ASPECTOS DA RECEPÇÃO SOCIOLÓGICA DO LIBERALISMO... 57

2.5 ASPECTOS DO NEOLIBERALISMO... 58

2.6 A PRÉ-DISPOSIÇÃO CONSERVADORA... 60

2.7 O CONSERVADORISMO COMO IDEOLOGIA POSICIONAL... 62

2.8 O PROGRAMA ESCOLA SEM PARTIDO COMO MEDIDA IDEOLÓGICA REACIONÁRIA... 68

2.9 CONSIDERAÇÕES... 72

3. DISCURSO, CONFLITO E INTOLERÂNCIA EM CANAIS AGONÍSTICOS/ANTAGONÍSTICOS DE CIBERATIVISMO... 74

3.1 INTRODUÇÃO... 74

3.2 ASPECTOS SOBRE A TEORIA DO DISCURSO... 75

3.3 CONTRIBUIÇÕES E PREMISSAS PSICANALÍTICAS ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS... 78

3.4 O “PLURALISMO AGONÍSTICO” DE CHANTAL MOUFFE E UM DIÁLOGO DA AUTORA COM A PSICANÁLISE... 81

3.5 CANAIS AGONÍSTICOS ONLINE... 84

3.6 INTOLERÂNCIA EM CANAIS ANTAGONÍSTICOS ONLINE... 87

3.7 CONSIDERAÇÕES... 94

4. DIMENSÃO METODOLÓGICA DA PESQUISA: ANÁLISE DOS POSTS DOS GRUPOS DE FACEBOOK LIBERAIS E CONSERVADORES 95 4.1 INTRODUÇÃO... 95

4.2 O EMPÍRICO DA PESQUISA: CIBERESPAÇO, FACEBOOK, GRUPOS LIBERAIS E CONSERVADORES... 95

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4.3.2 ANÁLISE DO DISCURSO... 100

4.4 CONSIDERAÇÕES... 130

CONCLUSÃO... 132

(14)

INTRODUÇÃO

Esta Dissertação busca conhecer aspectos da política nacional contemporânea e do avigoramento de ativismos ideológicos da direita liberal e conservadora. Ela versa sobre o ciberativismo político (um ativismo online) em rede de cidadãos que se identificam com identidades coletivas e discursivas de direita. Portanto, a Dissertação tem como dimensão empírica para a obtenção de dados e conhecimento de seu objeto, a

Internet, o ciberespaço, considerando as novas mídias infocomunicacionais, como as

redes sociais online. Estas têm se tornado um espaço digital útil ao exercício de tais militâncias, como, para citar o exemplo estudado aqui, grupos liberais e conservadores internos à rede social Facebook.

Escândalos recentes da política nacional foram significativos para uma impopularidade dos partidos políticos que se autodenominam de esquerda, atingindo principalmente o PT (Partido dos Trabalhadores). São exemplos de tais escândalos: as descobertas da chamada operação “Lava Jato”, que revelou o desvio de recursos do cofre da Petrobras; e as “pedaladas fiscais” (operações orçamentárias, não previstas em lei, realizadas pelo Tesouro da União) que serviram, no governo de Dilma Rousseff, para “maquiar” dívidas públicas e apresentar melhores indicadores ao mercado financeiro. Tais operações orçamentárias foram o motivo “Jurídico” no processo de Impeachment sofrido pela presidente, iniciado em dezembro de 2015 e finalizado em agosto de 2016. As consequências, em função dos escândalos citados, acarretaram a derrota do PT nas votações das prefeituras de três cidades (capitais) de Estados, que o partido mantinha até então, durante as eleições municipais de 2016, mantendo-se apenas na capital do Acre, Rio Branco. Também houve um decréscimo no número de prefeituras, em todo o país, governadas pelo PT, que, antes de tais eleições, erade 638. Após as eleições este número decresceu para 254, portanto um percentual de 39,81%.

As manifestações ocorridas no dia 13/3/2016 (em nível nacional) podem ser interpretadas como sinais de uma “guinada” liberal conservadora de parte considerável da população brasileira. Isso se deve pelas manifestações terem sido palco, em sua maior parte, de protestos de oposição ao governo de Dilma Rousseff. O próprio juiz federal, Sergio Moro, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF - 4), que tem conduzido o processo legal de casos da operação “Lava Jato” e tem levado à prisão políticos que formavam parte da ala aliada à antiga base do governo petista (estabelecida anterior ao

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Impeachment), sugeriu o apoio da opinião pública para seguir com os processos jurídicos

da operação “Lava Jato”.

Uma das medidas mais polêmicas do ativismo de uma possível guinada à direita na política brasileira é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 193/2016, referente à “Escola Sem Partido”. No site da “Escola Sem Partido” é definido que: “A

EscolasemPartido.org é uma iniciativa conjunta com estudantes e pais preocupados com

o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”1. O historiador Fernando Penna (2016) disse, em entrevista

para a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), que: “[O movimento ‘Escola Sem Partido’] ganha força justamente neste contexto das ofensivas conservadoras”. Em uma entrevista à Folha de São Paulo, quando perguntado ao cientista político norte-americano Barry Ames (2016) se ele acreditava que com a atual desmoralização da esquerda brasileira haveria espaço no cenário político nacional para uma “direita ideológica”, Ames disse que sim, pois “as condições políticas e econômicas no Brasil favorecem a formação de uma ‘direita ideológica’”.

A PEC 193/2016, referente à “Escola Sem Partido”, é de autoria do senador e pastor evangélico Magno Malta, do Partido da República (PR). O senador insiste em uma justificativa para a PEC com base na opinião de que os jovens são incapazes de formarem-se politicamente. O projeto “Escola Sem Partido” acusa uma prática doutrinária de ideologia de esquerda nas escolas de ensino básico a superior, e, por isso, propõe proibir que professores militem politicamente em salas de aula, desconsiderando o problema da neutralidade e da isenção nas ciências humanas.

Tem-se assim, como problema de pesquisa, se há coerência por parte de um ciberativismo de direita em rede, interno aos seis (6) maiores grupos nacionais liberais e conservadores de Facebook, na forma de demandar um projeto que se diz contra modelos autoritários e à favor de um pluralismo de ideias e posicionamento políticos cabíveis no modelo democrático. Ou seja, tal ciberativismo é tolerante com adversários políticos?

A militância online liberal e conservadora, nos grupos de Facebook, apoia – segundo uma hipótese desta Dissertação – em grande parte, a iniciativa do projeto “Escola Sem Partido” e a PEC 193/2016. Parte considerável dessa militância se expressa intolerante com demandas discursivas adversárias, principalmente a parcela conservadora. Se uma análise do corpo discursivo interno aos grupos e referente ao

(16)

projeto “Escola Sem Partido” concluir que há uma parcela alta de intolerâncias e antagonismos que não condizem às demandas do projeto, será possível concluir uma ilegitimidade de tal militância que aparece no recorte empírico desta pesquisa. Outras hipóteses de pesquisa são as de que a guinada à direita não apoia integralmente um programa como o “Escola Sem Partido” e que os ciberativistas liberais são menos à favor do programa que os conservadores, e, também, mais tolerantes e democráticos em suas demandas discursivas.

Assim, objetiva-se, em primeiro lugar, realizar uma análise dos discursos das três (3) postagens mais repercutidas em cada um dos seis maiores grupos de Facebook nacionais liberais e conservadores para concluir se o modus operandi do ciberativismo em questão mostra-se tolerante e democrático como supostamente são as pretensões do programa “Escola Sem Partido”.

Também será importante, para esta Dissertação, tratar da relevância da Internet como meio de militância política, em especial a liberal e conservadora dos brasileiros. Assim, o corpo discursivo – e a pluralidade discursiva deste – interno aos grupos e referente à questão e o debate do programa “Escola Sem Partido”, será analisado na forma de hiperdocumentos – como “comentários”, “curtidas” ou conteúdos nucleares das postagens – para interpretá-lo politicamente e psicanaliticamente se tolerante e democrático em sua maioria, ou não. Os dados a serem analisados serão explorados na forma de vídeos, hiperlinks, imagens e hipertexto.

Esta pesquisa parte de três pressupostos básicos: a) há no cenário político brasileiro uma guinada à direita que ganha influência principalmente com a crise nos partidos políticos brasileiros mais à esquerda do espectro político, manifestando-se em uma militância virtual na Internet; b) o corpo discursivo recortado, na forma de registro

online dos grupos de Facebook, é relevante para compreender parte característica da

dimensão que tal guinada tem; c) a perspectiva de que discursos democráticos agonísticos, entre adversários políticos, não objetivam uma humilhação intolerante que segregue outra identidade coletiva e discursiva agônica através da qual outros cidadãos estão engajados para participarem do processo democrático.

Ao se introduzir o recorte empírico a ser trabalhado na pesquisa, é preciso salientar antes a importância das comunidades online (em rede) para o ativismo e o exercício cidadão (PESSONI; GISSOLDI, 2015). O recorte empírico que propõe esta Dissertação, portanto, dar-se-á no âmbito virtual específico que compreende o que foi apontado aqui como a “guinada à direita” – seja em debates ou em votações de consulta pública online,

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como as em sites oficiais do Governo. O Facebook é a rede social escolhida para se trabalhar os grupos liberais e conservadores. Isto se deve pelo fato de ser a rede social mais utilizada pelos brasileiros. Segundo um levantamento de dados, da própria rede social, realizado no último trimestre de 2014, 45% da população brasileira (92 milhões de brasileiros) acessa o Facebook mensalmente (FACEBOOK, 2015). Assim, a coleta de dados será realizada a partir dessa rede social e dos usuários que a utilizam para exercerem debates sócio-políticos.

Adverte-se aqui que não será possível abordar as postagens de todos os grupos liberais e conservadores de Facebook, pois seria inviável para o procedimento metodológico de ordem qualitativa. Uma pesquisa prévia, através do “mecanismo de busca” disponibilizado pela própria rede social, foi feita para que se encontrassem os seis maiores grupos liberais e conservadores.

Os grupos foram privilegiados como páginas para serem abordadas no Facebook, pois o número de grupos liberais e conservadores é menor que o de páginas de instituições, partidos, personalidades públicas – o que facilita a praticidade da pesquisa qualitativa. Outro motivo, é o de que a interação, o vínculo, que os usuários da rede tem nos grupos é mais próxima de uma lógica “todos-todos” (LÉVY, 1999), pois, nos grupos, a comunicação entre os usuários ocorre em menor proporção e maior “reciprocidade comunicacional” – o que torna rica a pesquisa qualitativa ao considerar o discurso dos

netizens mais do que o de instituições, embora isso não signifique que um estudo das

instituições seja menos importante.

As três postagens de cada um dos seis maiores grupos liberais e conservadores, que tiverem mais destaque no número de curtidas ou no rico envolvimento político dos usuários, serão as que fornecerão o corpo discursivo a ser analisado aqui. Devido à ética da pesquisa netnográfica, a metodologia pretende realizar uma camuflagem média dos dados encontrados nos grupos, para disfarçar o que pudesse comprometer os membros e administradores do mesmo, como os dados pessoais dos usuários.

Os nomes verdadeiros dos grupos não serão informados, e os grupos serão nomeados ficticiamente através dos termos “liberal” ou “conservador”. Para diferenciá-los entre si, serão, também, ordenados em ordem alfabética e de número de membros, assim o “Liberal A”, por exemplo, será o grupo liberal com maior número de usuários, já o “Conservador A”, será o grupo conservador com maior número de membros. Há três grupos de identidade discursiva liberal e três de identidade discursiva conservadora.

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Esta Dissertação está dividida em quatro capítulos. Três teóricos e um empírico, embora haja, ao logo dos capítulos teóricos, algumas reflexões (analíticas) às quais jugou-se importantes antecipá-las, posto que já jugou-se tinha elementos para fazê-lo.

O primeiro capítulo trabalha o desenvolvimento da informática e da Internet, e a importância que tal processo teve em esferas sócio-políticas. Assim, será feita uma consideração das primeiras experiências informáticas originadas da primeira metade do século XX, até as origens da NET 2.0. O primeiro capítulo também traz contribuições da sociologia e filosofia digital, como aquelas presentes em autores como Manuel Castells, Richard Miskolci e Pierre Lévy; para compreender o potencial que há na chamada Era da Informação.

O segundo capítulo desta Dissertação faz uma abordagem geral do que seria a ideologia liberal e a ideologia conservadora. O objetivo de tal capítulo é oferecer uma compreensão mais aguçada do que significaria uma identidade discursiva liberal ou conservadora, por mais que toda identidade discursiva seja aberta. Assim, autores que permeiam as áreas da filosofia, como John Locke, Edmund Burke, Roger Scruton, economia, como Murray Rothbard e Ludwig von Mises, sociologia, como José Guilherme Merquior e Max Weber, e teoria política, como João Pereira Coutinho e Norberto Bobbio, serão importantes (e contemplados, mesmo que por vezes brevemente) para a construção desse saber relacionado a tais ideologias.

O Terceiro capítulo propõe utilizar-se das contribuições da Teoria do Discurso, do agonismo de Chantal Mouffe, da psicanálise freudiana e do lacanismo político para desenvolver categorias teóricas que ajudem a pensar o que significa, no processo de democracia agonística, um ativismo que seja tolerante e democrático em contraposição com um ativismo que seja intolerante e antagônico.

O quarto capítulo, por fim, utiliza-se da netnografia, ainda que de forma ampla, da Análise do Discurso francesa, de categorias teóricas construídas a partir das contribuição dos três outros capítulos e de categorias empíricas pensadas tanto a partir de uma experiência ativa de campo no acompanhamento da dinâmica dos grupos estudados, para poder concluir se o ativismo dos grupos liberais ou dos grupos conservadores está, em primeiro lugar, sendo exercido de forma tolerante e democrática, e, em segundo lugar, se há uma clara divergência entre liberais e conservadores com relação ao apoio, ou não, ao projeto “Escola Sem Partido”.

(19)

O desenvolvimento desta Dissertação pretende contribuir com o debate em relação ao projeto “Escola Sem Partido” e ao modus operandi do ativismo de grupos que representam a guinada à direita contemporânea.

(20)

1. DESENVOLVIMENTO DO CIBERESPAÇO EM ÁGORAS VIRTUAIS DE

NETIZENS

1.1 INTRODUÇÃO

Este capítulo tem por finalidade apresentar, num primeiro momento e de forma sucinta, o desenvolvimento da Internet, como um espaço virtual (ciberespaço) em rede, que supera um modelo clássico de mídia de massa e inaugura um contexto de relações sócio-políticas em redes pós-massivas e de autocomunicação de massa que influenciam e são influenciadas pelo cotidiano off-line. Espaço esse, o qual vem abarcando indivíduos de todo o mundo, inclusive do Brasil, de forma cada vez mais crescente, principalmente através de novas interfaces digitais, como as redes sociais – o Facebook e o WhatsApp, por exemplo –, e também por meio de novas formas de agrupamento de usuários em diferentes contextos de relações interpessoais.

Num segundo momento, são apresentados – a partir do desenvolvimento esboçado das tecnologias infocomunicacionais e das formas de interação social dadas no ciberespaço, que diferem muito dos modos mais tradicionais de comunicação, como o telefone, o rádio, o telégrafo etc. – alguns aspectos da cidadania que começaram a se organizar no âmbito de uma arena digital da sociedade civil. Os novos cidadãos do ciberespaço passaram a ser reconhecidos como “cibercidadãos”, ou, como aponta a literatura de língua inglesa, netizens – combinação neologista das palavras citizen (cidadão) com net (rede).

Este capítulo é importante, no conjunto da dissertação, na medida em que procura problematizar a maneira como o ciberespaço vem se transformando num locus de conflitos democráticos e intolerantes entre os netizens, sobretudo em torno de temas mais polêmicos, como religião e política. Tais conflitos têm chamado a atenção de inúmeros pesquisadores sociais – antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, entre outros – os quais reconhecem o âmbito cada vez mais crescente da tecnologia infocomunicacional na vida das pessoas e nos contextos sociopolíticos em que os cidadãos vivem e influenciam.

1.2 ESBOÇO DE UMA TRAJETÓRIA INFORMÁTICA E DIGITAL

Os primeiros computadores surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos, nos anos 1940, no contexto da Segunda Guerra. Tratavam-se de calculadoras programáveis que serviam para armazenar programas (softwares), e que se restringiam apenas ao uso

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militar. É importante destacar, nesse sentido, que todo o desenvolvimento computacional e informático não seria possível sem a “Máquina de Turing”, o grande ponto de partida da história da informática. Esta máquina foi um invento do matemático Alan Turing, no início da década de 1940, para desvendar a cifra de outra máquina criptográfica, denominada “Enigma”, utilizada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (MACHIAVELO; REIS, 2012).

Figura 1 - Máquina de Turing

Fonte: imagem extraída do website TecMundo.2

O Eniac (sigla em inglês para Electronic Numerical Integrator and Computer3), o primeiro computador digital, iniciou seu desenvolvimento em 1943 e passou a funcionar a partir de 1946. Essa máquina pesava toneladas e era grande o suficiente para encher o andar de um prédio grande. Seu painel foi inspirado nos padrões telefônicos e para que

2 Link de acesso à página do website TecMundo com a figura 3:

https://www.tecmundo.com.br/tecnologia/19161-cientistas-que-mudaram-o-mundo-alan-turing.htm.

(22)

pudesse ser programado, era necessário que os circuitos fossem conectados diretamente, através de cabos eletrônicos. Não havia tela, a qual só viria a ser inventada nos anos de 1970 (LÉVY, 2010). O Eniac era um computador com funções restritamente numéricas e matemáticas.

Figura 2 - Eniac

Fonte: imagem extraída do website IQ.4

Os primeiros acessos civis ao computador só viriam a acontecer cerca de 15 anos depois, na década de 1960. Logo após a segunda metade do século XX, a informática passou a ser utilizada para cálculos estatísticos e científicos, por universidades, órgãos estatais e grandes empresas (LÉVY, 2011). Por sua vez, os microprocessadores, produzidos na década de 1970, tiveram um papel fundamental para a evolução da informática. Eles acarretaram uma disparada de processos econômicos e sociais muito mais relevantes do que os percebidos nas décadas anteriores. Esta década, com efeito, foi importante para o desenvolvimento da robótica, da automação industrial e dos setores terciários (LÉVY, 2011).

Ainda na década de 1970, novas possibilidades técnicas foram exploradas por um movimento social de “contracultura” surgido na Califórnia, mais especificamente, no Vale do Silício (Silicon Valley, em inglês), que viria a inventar o computador pessoal (os

PCs). Invento esse que só se desenvolveu através de uma série de etapas, sendo realizado

4 Link de acesso à página do website IQ com a figura 1:

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de forma independente, ou seja, por jovens que estavam à margem de instituições como o Estado e as grandes indústrias e seus fabricantes da área da informática. Tais jovens tornaram o computador um meio de massa, com uma linguagem acessível para que seus usuários pudessem ter as experiências de criação, comunicação e simulação (LÉVY, 2010).

1.2.1 A GRANDE MÍDIA E AS MÍDIAS DIGITAIS PÓS-MASSIVAS ONLINE

O estatuto da práxis objetiva da comunicação possibilita que esta adquira as formas: intrapessoal (de alguém consigo mesmo), interpessoal (de duas pessoas), grupal (entre uma pessoa e um grupo, ou vice-versa) e de massa. As duas últimas formas citadas são as que interessam ao capítulo, pois é através delas que serão pensadas as plataformas e comunidades virtuais possibilitadas pela Internet.

Como já mencionado, foi um grupo de jovens universitários californianos que estabeleceram as bases da informática e revolucionaram paradigmas da sociedade. O Vale do Silício foi o locus de um meio ativo que reunia indústrias eletrônicas e instituições científicas e universitárias interessadas na intelligentsia que ali se reunia. Steve Jobs, o fundador da Apple, e Steve Wozniak, co-fundador da empresa, fizeram parte de todo esse caldo intelectual-tecnológico. Juntos, os dois jovens chegaram a desenvolver, na década de 1970, o que ficou conhecido como Blue Box, um programa de auxílio à pirataria que fazia com que ligações telefônicas passassem a ser gratuitas. Tal programa só seria encerrado décadas mais tarde, após o interesse que a máfia passou a ter no invento dos dois jovens (LÉVY, 2010).

Figura 3 - Steve Jobs, Steve Wozniak e a Blue Box

Fonte: imagem extraída do website Tech Glimpse.5

5 Disponível em:

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O desenvolvimento do computador pessoal (personal computer), nos anos 70, possibilitou o manejo informático de textos, jogos e músicas por parte de uma fração populacional pequena e privilegiada de países desenvolvidos. Na década de 1980, a informática começou a fundir-se com as telecomunicações, editoração, cinema e televisão. Eram os primeiros passos de uma hibridização entre o sistema tecnológico da mídia de massa – que não deve ser confundido com uma cultura de massa – com as mídias pós-massivas6 (CASTELLS, 2015).

Hohlfeldt (2015) chama a atenção para uma passagem inicial importante nas teorias da comunicação. O autor aponta que Harold D. Lasswell, pioneiro nos estudos de comunicação de massa, montou seu modelo teórico sob a perspectiva de três instâncias de um processo comunicacional, são elas: emissor, mensagem e receptor. O modelo de Lasswell reduz a comunicação entre tais instâncias a um processo simplesmente informativo, pois o autor pensa que o receptor, ou seja, a audiência, não possui potencial interpretativo e crítico com a informação recebida através do emissor. Anos depois, Raymond Nixon e Wilbur Schramm revisam o modelo de Lasswell e fazem um contraponto a este a partir de uma perspectiva que acrescenta a relação entre os objetivos do emissor e as condições de recepção da mensagem por parte do receptor, em uma chave sistêmica que conta com uma |noção de retroalimentação.

A grande mídia, representada principalmente pelo rádio e pelo sistema televisivo, é uma variável importante, embora não independente, para a modelagem do comportamento humano e da linguagem societal de comunicação. A mídia de massa possui apenas “alguns emissores centralizados para uma audiência de milhões de receptores” (CASTELLS, 2016, p. 416). A audiência da grande mídia é criativa7 (e não impotente) e capaz de modificar os significados das mensagens provindas dos emissores mais centralizados. Sobre a comunicação de massa, escreve Hohlfeldt (2015, p. 62):

A comunicação de massa pressupõe a urbanização massiva, fenômenos que ocorre em especial ao longo do século XIX, graças à segunda Revolução Industrial, dificultando ou mesmo impedindo que as pessoas possam comunicar diretamente entre si ou atingir a todo e qualquer tipo de informação de maneira pessoal, passando a depender de intermediários para tal. Esses intermediários tanto implicam pessoas que desenvolvam ações de buscar a informação, tratá-la e veiculá-la – os jornalistas – quanto de tecnologias

6“As mídias de massa são mídias de informação. As novas mídias de função pós-massiva são mídias de

comunicação, de diálogo, de conversação” (LEMOS, 2009, p. 2).

7 Castells (2015, p. 186) define a audiência criativa como “a fonte da cultura da remixagem que caracteriza

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através das quais se distribuem essas informações. Todo esse conjunto constitui um complexo que recebe a denominação genérica de meios de

comunicação de massa ou media

As mídias pós-massivas, decorrentes dos avanços informáticos, se diferenciam das mídias de massa por representarem um processo real de comunicação, que só existe a partir da interação entre o emissor e a interpretação que o receptor faz da mensagem, ao invés de um processo de comunicação predominantemente homogêneo e unidirecional, próprio das mídias de massa (CASTELLS, 2015). Nas mídias pós-massivas, o processo de comunicação não ocorre em mão única, como no caso das grandes mídias. Assim, o sociólogo espanhol Manuel Castells aponta que por vivermos em um ambiente de mídia, no qual o paradigma atual tem a informação como matéria prima, e cuja maior parte dos nossos estímulos simbólicos provém dos meios de comunicação, é “importante para os diferentes tipos de efeitos sociais que haja o desenvolvimento de comunicação multimodal do tipo da Internet, em vez de um sistema multimídia centralmente distribuído” (CASTELLS, 2016, p. 457).

Nos anos 1990, um movimento sociocultural composto por jovens profissionais das grandes metrópoles e de campi americanos ganhou dimensão mundial ao fazer com que os microcomputadores se juntassem massivamente em uma rede. Esta rede, conhecida como Internet, cresceu de forma exponencial e formou a infraestrutura digital do ciberespaço8. Era o início de um mercado da informação, do conhecimento e de novas formas de interatividade, transação e organização, que passaram a existir no mundo virtual e resultaram em um processo comunicacional emancipador em relação aos meios de comunicação de massa (LÉVY 2011).

A comercialização da Internet iniciou-se em 1995, nos Estados Unidos, e em 1997, no Brasil. No início de 1995, o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, adotou como objetivo melhorar o sistema nacional de comunicação para fazer

8 Aqui não se irá problematizar a reflexão trazida por Richard Miskolci (2016), que é crítico da noção de

ciberespaço por esta propor uma oposição real/virtual. Miskolci aponta tal oposição como falsa. Para o sociólogo, tal concepção, que é mais apurada na filosofia inicialmente por Pierre Lévy (2011), mas também é trabalhada por sociólogos importantes, como, por exemplo, Castells (2016), que enxerga o mundo virtual como um espaço de fluxos que dominam e moldam uma sociedade em rede, é errônea por não focar no caráter real e autoinfluenciador no contínuo on-offline dos âmbitos real e virtual. Miskolci é influenciado pela leitura de Hine (2009), este pensa a Internet como um fenômeno cultural que serve de interesse para abordagens sociológicas e antropológicas. Tal percepção substitui a ideia de ciberespaço pelos “valores, códigos culturais, assim como características técnico-comunicacionais que criam e delimitam as redes nas quais nos inserimos” (MISKOLCI, 2016, p. 284). Assim, para Miskolci (2016, p. 277): “na sociedade digital passamos a viver em um contínuo on-offline, no qual – conectados em rede por meio de plataformas – consumimos, mas também criamos e compartilhamos conteúdos”.

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parte de uma “supervia global emergente” (CASTELLS, 2016, p. 447). Pessoas de alto nível de escolaridade e renda no Brasil, mais comumente da região do Centro-Sul, eram as mais conectadas no início desse universo virtual (MISKOLCI, 2012). Entre 1998 e 2000,

os países industrializados, com cerca de 15% da população do planeta, representavam 88% dos usuários da Internet. Embora só 2,4% da população mundial tivessem acesso à Internet, a porcentagem era de 28% na Finlândia (a sociedade mais voltada para a Internet no mundo na virada do século), 26,3% nos Estados Unidos e 6,9% nos países da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], excluindo-se os Estados Unidos. (...) No mundo inteiro, 30% dos usuários da Internet tinham diploma universitário, e a proporção aumentava para 55% na Rússia, 67% no México e 90% na China. Na América Latina, 90% dos usuários da Internet provinham de grupos de renda mais alta. Na China, só 7% dos usuários da Internet eram mulheres. A idade era um dos principais fatores de discriminação. A média etária dos usuários da Internet nos EUA era de 36 anos, e no Reino Unido e na China estava abaixo de 30. Na Rússia, só 15% dos usuários da Internet tinham mais de 45 anos de idade. Nos Estados Unidos, os lares com renda de US$75.000 ou mais tinham 20 vezes mais chances de ter acesso à Internet do que os dos níveis de mais baixa renda. O índice de uso por pessoas com diploma universitário era de 61,6%, ao passo que o índice para os que tinham educação de nível fundamental ou menos era de 6,6%. Mais homens tinham acesso à Internet do que mulheres, sendo a diferença de 3%. A probabilidade de acesso à Internet dos negros e dos hispânicos era de um terço da dos asiáticos, e de dois quintos da dos brancos. (...) A desigualdade espacial no acesso à Internet é um dos paradoxos mais impressionantes da era da informação, em razão da característica supostamente independente do espaço da tecnologia (CASTELLS, 2016, p. 432)

Cerca de duas décadas depois – conforme mostram informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), embasado em dados obtidos através do Suplemento de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) – 54,4% da população brasileira já acessava a

Internet ao menos uma vez a cada três meses, o que equivale a 95,4 milhões de pessoas

(acima de dez anos de idade). Em uma década, de 2004 a 2014, a quantidade de brasileiros com microcomputadores em casa subiu de 12,2% para 42,1%, um aumento percentual de 29,9% (SARAIVA, 2016). Em 2009, o número de usuários da Internet em todo o mundo chegou a 22% do total da população mundial (o que representa mais de 1,5 bilhão de pessoas conectadas à rede) (KOZINETS, 2014). Assim, a Internet é cada vez mais “habitada” tanto por brasileiros quanto por pessoas e cidadãos do mundo inteiro. Como destacam as palavras de Van Dijck (2016, p. 18):

Em dezembro de 2011, 1200 milhões de usuários do mundo – 82% da população mundial conectada à Internet maior de 15 anos – ingressou em uma

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mídia social, enquanto que em 2007 havia tão somente 6%. Isso supõe que em menos de uma década surgiu uma nova infraestrutura online para a interação social e criatividade, que penetrou nos recônditos da cultura contemporânea (VAN DIJCK, 2016, p. 18).

As transformações do uso da Internet nas últimas décadas não se restringiram apenas ao aumento massivo no número de usuários da World Wide Web. Houve ainda a criação da Web 2.0, termo inventado por O’Reilly. Segundo Primo (2007, p. 1):

A Web 2.0 é a segunda geração de serviços online e caracteriza-se por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo. A Web 2.0 refere-se não apenas a uma combinação de técnicas informáticas (serviços Web, linguagem Ajax, Web syndication, etc.), mas também a um determinado período tecnológico, a um conjunto de novas estratégias mercadológicas e a processos de comunicação mediados pelo computador.

A segunda geração da Web aperfeiçoou as formas de trabalho coletivo, construção de conhecimento e produção e circulação de informações. Segundo Silva (2009), com o advento da Web 2.0, a rede digital tornou-se uma plataforma aberta, não mais uma vitrine de conteúdo informacional, pois os usuários, como os netizens, passaram a ter uma participação ativa na produção de conteúdo online.

O novo sujeito da comunicação, presente de forma central na Internet – uma rede multidirecional compartilhada –, aparece como a figura do emissor/receptor de mensagens. Tal centralidade ganha ainda mais sentido depois dos adventos da Web 2.0. A comunicação grupal pós-massiva se faz presente em diferentes comunidades virtuais e seus nichos – como é o caso, por exemplo, dos grupos nacionais liberais e conservadores internos ao Facebook. É comum que internautas que participam de comunidades virtuais continuamente produzam e recebam mensagens, pois na rede multidirecional da Internet, todos os receptores são potenciais produtores e vice-versa – ainda que, por exemplo, a maior parte dos netizens de grupos nacionais liberais e conservadores não esteja engajada na contingência dos debates internos aos grupos (CASTELLS, 2015).

O social está cada vez mais presente na dimensão virtual do mundo. As plataformas virtuais influenciam as relações sociais, tanto em nível individual, como em nível grupal (VAN DIJCK, 2016). A Internet tornou-se muito relevante à sociologia nas últimas décadas, especialmente no que diz respeito ao entendimento das atividades e interações sociais.

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Para Castells (2016, p. 431-2), “A Internet, em suas diversas encarnações e manifestações evolutivas, já é o meio de comunicação interativo universal via computador da Era da Informação.” Esse novo meio de informação, segundo o autor, possui como características principais a “capacidade de inclusão e abrangência de todas as expressões cultuais” e, também, a possibilidade de expor a “diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão de conflitos sociais” (CASTELLS, 2016, p. 456-7). Castells (2015) enxerga o novo sistema de comunicação digital como um meio de autocomunicação de massa em rede. Tal sistema é embasado em “redes horizontais de comunicação multidirecional, interativa, na Internet” (CASTELLS, 2017, p. 190). Assim, é muito mais inclusivo e versátil do que a tradicional mídia de massa, pois permite com que seus usuários existam em um texto de comunicação compartilhado, multimodal e interativo.

É importante destacar, que não se deve pensar a relação entre mídias de função massiva e pós-massiva em um dualismo simplório, mas antes como uma reconfiguração sistêmica. Tanto na Internet, como na TV, há funções massivas e pós-massivas, o que explica o hibridismo que há internamente aos posts de “páginas categóricas” e grupos do

Facebook (LEMOS, 2010). A Figura 4, a seguir, apresenta um claro exemplo da

interconectividade entre as mídias televisivas e as pós-massivas configuradas em um grupo de Facebook:

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Figura 4 - Exemplo de interconectividade entre mídia televisa e mídia pós-massiva9

Fonte: Imagem extraída da página de Facebook do grupo “Liberal A”.

Tal interconectividade causa crises e impactos na configuração de novas relações sociais. Pela primeira vez na história, qualquer indivíduo pode produzir e publicar informação em tempo real, adicionando e colaborando em rede com outros (LEMOS, 2010). Na maioria das vezes, as mídias de função pós-massiva insistem em fluxos bi-direcionais (todos-todos), não unibi-direcionais (um-todos). Outra peculiaridade, é que elas não agem por hits10, como os mass media, mas por nichos (LEMOS, 2010). Tais nichos combinam a transmissão restrita (narrowcasting) com a transmissão ampla (broadcasting) (CASTELLS, 2015).

1.3 A IMPORTÂNCIA DA INSTÂNCIA CIBERESPACIAL E HIPERDOCUMENTAL PARA A PESQUISA SOCIAL

9 Publicação interna ao grupo “Liberal A”, que faz referência a um vídeo pertencente ao programa The

Noite, apresentado pelo comediante Danilo Gentilli e exibido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT).

10 Para Lemos (2010), hits são conteúdos que formam um sucesso de massa que resulta em mais verbas

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O filósofo Pierre Lévy (2011) destaca que “Ciberespaço” é um termo cunhado na obra litereária Neuromancer, escrita em 1991, por William Gibson. No campo das ciências humanas e sociais, tal noção pode ser entendida como “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores” (LÉVY, 2011, p. 94). Assim, o ciberespaço trata-se de um ambiente de comunicação que compreende um conjunto vasto e incomensurável de interações humanas realizadas nas mais diferentes esferas da vida social: a arte, a política, a educação, a religião. O ciberespaço é aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias destes, o que constrói uma inovadora e fantástica ferramenta de conhecimento, através tanto da ação individual, quanto da ação coletiva articulada cotidianamente (JUNGBLUT, 2004). Tem-se, agora, “um mundo permanentemente em rede em cada dimensão da experiência humana” (CASTELLS, 2017, p. 201) e que alterou profundamente os processos tanto da comunicação pública, como da comunicação privada (VAN DIJK, 2016) ao conectar “no centro de um mesmo tecido eletrônico o cinema, a radiotelevisão, o jornalismo, a edição, a música, as telecomunicações e a informática” (LÉVY, 2010, p. 103).

O ciberespaço é um modelo informático digital hipertextual, plástico, dinâmico e apreendido através do conhecimento por simulação. O modelo hipertextual do ciberespaço é lido de forma interativa, e não de forma linear como um texto clássico (LÉVY, 2011, 2010). No interior do ciberespaço, há comunidades virtuais – como grupos de Facebook – nas quais são partilhadas as mais diversas experiências da vida social. Cada comunidade possui características próprias que vinculam todos os seus membros. Grupos de Facebook, como instâncias do ciberespaço, encorajam uma contínua troca comunitária e recíproca de informações. No mundo virtual, as pessoas reúnem-se em comunidades virtuais de acordo com seus interesses comuns, o que faz desse espaço um fenômeno mais do que técnico, mas principalmente social. Sobre o termo “comunidades virtuais”, diz Lévy (2011, p. 132):

Uma comunidade virtual não é irreal, imaginária ou ilusória, trata-se simplesmente de um coletivo mais ou menos permanente que se organiza por meio do novo correio electrónico mundial. (...) as chamadas ‘comunidades virtuais’ cumprem de fato uma verdadeira atualização (no sentido em que põem em contato efetivo) grupos humanos que eram somente potenciais antes do advento do ciberespaço.

A instância da digitalização é o fator que Lévy (2011) considera fundamental para que o ciberespaço seja a principal tecnologia de comunicação e suporte de memória partilhada socialmente no século XXI. É a instância da digitalização que possibilita um

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caráter hipertextual plástico e fluido, em tempo real, desse espaço repleto de comunidades virtuais. A reserva digital de virtualidades informacionais do mundo virtual online do ciberespaço se atualiza nas interações sociais que percorrem coletivamente tal espaço tornando-o um meio de comunicação e um espaço de encontro entre os que participam de tal mundo.

A codificação digital, afirma Lévy (2010), como tendência principal do ciberespaço e um princípio de interface, atinge todas as técnicas de processamento de informações e de formas de comunicação. Magnabosco (2009) considera que os sentidos nas comunicações presentes no ciberespaço são construídos sempre em um contexto local, transitório e datado, no qual os usuários da Internet hierarquizam e selecionam conteúdos textuais e imagens que configuram o fundo sobre o qual o texto interno aos

posts é salientado.

Para Lévy (2011), os hiperdocumentos possuem um fluxo informacional em tempo real registrado, aberto e acessível online. Os usuários de redes sociais, como o

Facebook, contribuem na construção de um fluxo ininterrupto de hiperdocumentos que

são acessados pelos próprios usuários de tais redes. Essa configuração linear e não-sequencial afeta a maneira como as pessoas escrevem, minimizando as fronteiras entre o leitor e o escritor, os quais passam a fazer parte de um mesmo processo no ciberespaço. Isso possibilita uma maior facilidade de distribuição da inteligência coletiva11 e da cognição, justamente, por transpor a escrita de uma dimensão individual, para uma dimensão mais coletiva e colaborativa (MARCUSCHI; PERNAMBUCO, 2001). Assim, Lévy (2010, p. 40) destaca que

O hipertexto ou a multimídia interativa adequam-se particularmente aos usos educativos. (...) Quanto mais ativamente uma pessoa participar da aquisição de um conhecimento, mais ela irá integrar e reter aquilo que aprender. Ora, a multimídia interativa, graças à sua dimensão reticular e não linear, favorece uma atitude exploratória, ou mesmo lúdica, face ao material a ser assimilado. É, portanto, um instrumento bem adaptado a uma pedagogia ativa.

11 Para Lévy (2011), a inteligência coletiva é um saber mais bem compartilhado entre os usuários do

ciberespaço justamente por este ser um ambiente propício tanto para a propagação de conteúdos de destaque para contextos sócio-político quanto para a propagação do que Lévy denominou, em contraste ao termo “inteligência coletiva”, por “bobagem coletiva”. Este último termo faz referência a conteúdos como rumores e conformismo em rede. A veracidade das notícias e informações propagadas na Internet são importantes para a aprendizagem e avaliação que os netizens podem fazer das situações, assim, a "procura da verdade" é, para Patrocínio (2002), um exercício que os cibercidadãos precisam estar sempre colocando em prática para desenvolverem suas ações políticas de modo a evitar que se prejudique a credibilidade de uma dada militância.

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Figura 5 - Netizens utilizando o hipertexto na construção de uma inteligência coletiva

Fonte: imagem extraída do grupo “Liberal B”

Magnabosco (2009) aponta que a transformação da escrita em uma atividade coletiva e colaborativa é resultado da afluência entre a Internet, a mídia e o uso de tecnologias de realidade virtual e digital que tornaram possível o compartilhamento de dados de fonte aberta e descentralizada. Tais fatores de interoperacionalidade possibilitam aos usuários da Internet “a capacidade interior de recombinar e atribuir sentido dentro de nossas mentes a todos os componentes do hipertexto que estão distribuídos em diferentes esferas de expressão cultural” (CASTELLS, 2003, p. 166).

Segundo Cavalcante (2005), para uma perspectiva sócio-pragmática e funcionalista da língua, os textos virtuais, digitalizados em diferentes instâncias da tecnologia infocomunicacional das redes sociais, como os textos que compõem grupos conservadores e liberais no Facebook, apresentam-se como uma unidade de sentido que se estabelece na relação entre autores e leitores. Os hipertextos são esses textos que se modelam, se constroem e reconstroem a partir dos elementos das mensagens que são frutos de atores da comunicação (MAGNABOSCO, 2009). Assim, as mídias sociais,

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compostas como hipertextos, não são produtos acabados, mas objetos dinâmicos que são utilizados pelos seus usuários como forma de atender às suas necessidades e objetivos (VAN DIJK, 2016).

Cabe destacar, que o termo "hipertexto", cunhado por Theodor Holm Nelson, surge nos anos 1960, embora a ideia já estivesse em germe no artigo “As We May Think”, do físico e matemático Vannevar Bush, escrito em 1945 (LÉVY, 2010). Com esse termo, Nelson procurava expor um modelo textual informático não linear, que compreende um diálogo incessante e múltiplo. Lévy aponta que Nelson buscava “o sonho de uma imensa rede acessível em tempo real contendo todos os tesouros literários e científicos do mundo, uma espécie de Biblioteca de Alexandria de nossos dias” (LÉVY, 2010, p. 17). O hipertexto trata-se de um processo eletrônico de um novo espaço de escritura e leitura que é multilinearizado, multisequencializado e indeterminado, o que torna o leitor do documento hipertextual um coautor de um texto sempre muito fragmentado, que adquire características de uma hipermídia, cuja tecnologia amplifica as relações com o(s) usuário(s) coautor(es) do hipertexto (MAGNABOSCO, 2009). Lévy (2010, p. 20) define o hipertexto da seguinte forma:

Tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de medo reticular. Navegar em um hipertexto significa, portanto, desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira.

Segundo Cavalcante (2005), o hipertexto é constituído de nós. A conexão entre esses nós é estabelecida através de links, isto é, por meio de blocos informacionais. Magnabosco (2009) pensa o hipertexto como um constructo que se desenvolve como representação das redes de sentidos estabelecidas nas leituras dos textos pelos leitores coautores. Para Lévy (2010, p. 109), “a nova escrita hipertextual ou multimídia certamente estará mais próxima da montagem de um espetáculo do que da redação clássica, na qual o autor apenas se preocupava com a coerência de um texto linear e estático”.

É próprio do hipertexto, como uma nova rede veloz original de interfaces, a retomada e transformação de outras interfaces mais antigas da escrita. Assim, jornais e revistas, instâncias que compõem as mídias de massa, estão presentes online no ciberespaço, mas sob a configuração hipertextual e submetidos ao processo pós-massivo

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da comunicação, como já foi afirmado. A adaptação de um conteúdo jornalístico tradicional para a forma de um hipertexto virtual pode ser observada na Figura 6:

Figura 6 - Adaptação hipertextual do conteúdo de um jornal no ciberespaço

Fonte: imagem extraída do grupo “Liberal B”

Pierre Lévy (2010) estabelece seis princípios para pensar e caracterizar abstratamente o hipertexto como uma espécie de programa que organiza o conhecimento, dados e a própria comunicação. São eles: 1) o princípio de metamorfose, referente à desestabilidade que há na contingência da construção e renegociação interna à rede hipertextual; 2) o princípio de heterogeneidade, referente à heterogeneidade dos formatos de documentos (vídeos, imagens, áudios, palavras) e dos sentidos lógicos e afetivos atribuídos a eles que há nos nós e conexões internos às redes hipertextuais; 3) o princípio de multiplicidade e de encaixe das escalas, referente ao modo organizacional fractal do

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hipertexto, no qual qualquer nó pode ser composto por toda uma rede; 4) o princípio de exterioridade, referente ao exterior indeterminado fundamental para a construção e reconstrução permanente do hipertexto; 5) o princípio de topologia, que se refere ao ciberespaço como ambiente heterogêneo, por ser composto por nichos que aproximam-se entre si (como é o caso dos grupos nacionais liberais e conaproximam-servadores, de Facebook, que são compostos por netizens que muitas das vezes estão presentes ativamente nos debates de mais de um desses grupos); e, por último, 6) o princípio de mobilidade dos centros, referente aos múltiplos centros (e à ausência de um único centro no ciberespaço) que desenham virtualmente e hipertextualmente “a paisagem do sentido” (LÉVY, 2010, p. 26).

1.4 OS NETIZENS

Na Grécia Antiga, o conceito de cidadania estava ligado à vivência na polis. A origem etimológica de palavras como "cidadão", "cidadania", "civilidade", "civil" e "civismo", encontra-se no termo latino civitas, que significa "condição de cidadão" e "direito de cidade". Assim, o termo cidadania é associado ao exercício do poder, dos direitos e dos mecanismos de representação. A partir do advento do Estado-nação, a cidadania passou a ser indissociada das identidades nacionais (PATROCÍNIO, 2008).

É através da compreensão platônica da pólis, ligada à noção de governança, e da compreensão romana de civitas, referente à noção de religião e de acatamento e partilha das diferentes instituições, que o liberalismo e as democracias parlamentares são influenciados para reformularem a noção de cidadania mantendo as características comuns de participação e exercício do poder por parte do cidadão (PATROCÍNIO, 2008). Para Schnapper (1998), a sociedade moderna concebe o indivíduo de forma abstrata, desconsiderando suas determinações concretas, qualificações e questões identitárias para que, assim, todos os seres humanos sejam igualmente cidadãos e a cidadania passe a ser tanto um princípio de legitimidade política quanto a base dos vínculos sociais de um projeto político universal de inclusão. Esta é, para Schnapper, a "utopia criadora". Sobre esta, afirma o autor:

O princípio proclamado da igualdade civil e política e, até certo ponto, aplicado na vida política, no sentido restrito do termo, o que se traduz na fórmula 'um homem, um voto', continua a estar na base da legitimidade da ordem política e social (SCHNAPPER, 1998, p. 94).

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A vida dos cidadãos, porém, não se baseia somente à dimensão política; também é envolvida pelas relações interpessoais. Nas democracias liberais e parlamentares, a cidadania torna-se sinônimo de participação sócio-política ativa da vida pública. Assim, a vida pública é mais do que o exercício do direito de voto (PATROCÍNIO, 2008), e a “participação política é fundamental para a construção de uma cidadania plena e de uma cultura política democrática” (GROSSELLI; MEZZAROBA, 2011, p. 7128). Alguns sociólogos, como Castells (2017), afirmam que, devido à autonomia e consciência dos

netizens, há um empoderamento do cidadão frente às questões e crises políticas presentes

na maior parte do mundo, inclusive no Brasil.

Patrocínio (2008), por sua vez, enxerga a globalização como uma completa mudança da condição humana em um contexto de multiculturalidade que se apresenta através de uma sociedade tecnológica que incita a questionar as concepções de pessoa, cidadão e cultura. Assim, o autor vê como necessária uma percepção ontológica da cidadania que abranja toda a condição da natureza humana articulada com a pessoalidade. Tal percepção possibilita pensar a identidade em uma “chave” não essencializada, na qual os sentidos de pertença constroem-se em cada cidadão. O único apelo de uma interpretação ontológica da cidadania, para Patrocínio, é o de pressuposição da questão dos direitos e deveres perante o Estado e os outros cidadãos que devem ser respeitados entre si.

Patrocínio (2008) pensa a cidadania como uma condição do homem na sociedade, na qual o respeito interpessoal entre os cidadãos expõe a capacidade de um exercício de alteridade positivo e responsável com relação aos outros cidadãos. As netiquette, segundo Patrocínio, são regras de convivência em contextos online das redes digitais que garantem, ou não, o equilíbrio das paixões entre sujeitos políticos com interesses diferentes e (ou) opostos.

A sociedade civil, contemporaneamente, tem aumentado seu poder político, em um viés democrático, por conta da revolução da informação que, segundo autor, seria o suficiente para catalisar a difusão da democracia no mundo por aprimorar as coligações cidadãs globais em um mundo cada vez mais conectado através das redes digitais. Tal conectividade aprimoraria uma maior consciência dos cidadãos sobre tudo o que se passa no mundo, os envolvendo nas decisões sócio-políticas. Patrocínio (2008) ressalta ainda que o acesso à informação é uma condição crucial para o conhecimento e a participação cidadã, o que torna a Internet uma instância importante nas ações cidadãs de protestos de

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grandes dimensões, relacionadas a causas importantes para os cidadãos que as aderiram. Assim, Marcondes (2007, p. 4) afirma que há

uma tendência de discurso que considera que a rede pode expandir o campo de interação e que (...) é possível que isso gere uma renovação da democracia participativa, embora tais disposições demonstrem que nada disso acontecerá sem um comprometimento ativo dos cidadãos. Para a existência de uma esfera pública, muito além do corpo físico, são indispensáveis as ações, o verbo, as interações, as trocas de ideias e experiências. O ciberespaço é permeado por práticas sociais. Nele a materialidade e as relações humanas codificam-se na linguagem. A relevância do físico está nas interações e na sociabilidade, não na presença corpórea.

O termo netizen (cibercidadão), conforme explica Patrocínio (2008), designa o cidadão da sociedade tecnológica digital. O neologismo foi utilizado pela primeira vez por Michael Hauben, em 1992. Em 1995, em parceria com sua esposa, Ronda Hauben, o autor lançou o livro “Netizens: On the impact and History of Usenet and the Internet”. Apesar de Hauben12 ter considerado que os netizens são apenas os usuários da Internet que se engajam comunicativamente para acrescentar aspectos de trabalho cooperativo através de debates construtivos, sem pensar no lucro ou ganho individual, o autor reconhece que esta é uma definição pessoal que ele estabeleceu academicamente para um termo que emerge das comunidades online.

Patrocínio (2008) observa que há diferenças nas concepções do termo “netizen”. Poster, por exemplo, pensa o cibercidadão simplesmente como um sujeito político que se constitui – em um tempo não integral – no ciberespaço para construir um novo tipo de relação política que associa a ação política com a Internet, de forma a vencer – através das tecnologias infocomunicacionais que possibilitam o surgimento de comunidades virtuais no ciberespaço – as fronteiras criadas a partir do advento do Estado-nação. Tal definição é mais cabível para a perspectiva apresentada aqui. Assim, nas comunidades virtuais – como grupos liberais e conservadores presentes no Facebook – os netizens podem trocar conhecimento, idealizar ações políticas, praticar a retórica e, até mesmo, “guerrearem” entre si (PATROCÍNIO, 2008).

Sobre as comunidades virtuais e sua utilidade para os netizens, afirma Castells (2016, p. 443):

São comunidades, porém não são comunidades físicas, e não seguem os mesmos modelos de comunicação e interação das comunidades físicas. Porém não são “irreais”, funcionam em outro plano da realidade. São redes sociais interpessoais, em sua maioria baseadas em laços fracos, diversificadíssimas e especializadíssimas, também capazes de gerar reciprocidade e apoio por

12 (1996, apud PATROCÍNIO, 2008).

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intermédio da dinâmica da interação sustentada. (...) Combinam a rápida disseminação da comunicação de massa com a penetração da comunicação pessoal, e permitem afiliações múltiplas em comunidades parciais. (...) Reforçam a tendência de ‘privatização da sociabilidade’ ― isto é, a reconstrução das redes sociais ao redor do indivíduo, o desenvolvimento de comunidades pessoais, tanto fisicamente quanto online. Os vínculos cibernéticos oferecem a oportunidade de vínculos sociais para pessoas que, caso contrário, viveriam vidas sociais mais limitadas, pois seus vínculos estão cada vez mais espacialmente dispersos.

1.5 ASPECTOS DO CIBERATIVISMO

Segundo Castells (2017, p. 199), “É essencial enfatizar o papel basilar da comunicação na formação e na prática dos movimentos sociais”. A Internet revolucionou a forma de relação entre as pessoas por possibilitar maior acesso para elas estabelecerem contato umas com as outras através de grupos, instituições, movimentos. Nesse sentido, Amaral e Ferreira (2015) salientam que a Internet é uma fonte de democratização, pelo fato de uma grande massa produzir, responder e escolher o conteúdo que interessa. Ainda que os novos meios técnicos infocomunicacionais tenham ajudado a ampliar a informação, isso não significa, necessariamente, uma maior comunicação entre as pessoas. Com efeito, tratar as novas mídias, dentre elas a rede social Facebook, como a solução de todos os males e problemas é algo duvidoso (AMARAL; FERREIRA, 2015). “Há que se considerar a oposição entre a velocidade da informação e o vagar da comunicação, entre o desempenho técnico e as dificuldades da intercompreensão entre indivíduos e coletividades reais” (ALMEIDA, 2008, p. 15). Tais dificuldades podem ser fruto da própria divergência de interesses políticos dos netizens. O raciocínio trazido por Amaral e Ferreira e por Almeida é adequado para pensar instâncias do ciberespaço ocupadas por netizens que não se colocam abertos à experiência de se comunicarem com

netizens de identidades discursivas diferentes e, até mesmo, antagônicas.

Os netizens, como sujeitos comunicativos que fazem parte de uma audiência criativa, integram-se formando redes que produzem significado compartilhado. É o caso do esforço que netizens de grupos liberais e conservadores empenham para exporem suas demandas políticas. Assim, os netizens de tais grupos têm as tecnologias de autocomunicação de massa como um meio em potencial para afirmarem um exercício cidadão (CASTELLS, 2015).

A Internet, conforme aponta Castells (2015, p. 355), se configura em ágoras públicas que servem de “espaço de interação significativa da sociedade, onde ideia e valores são formados, transmitidos, apoiados e resistidos; espaço que, em última

Referências

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