Turismo e nostalgia: Um estudo sobre o projeto Expresso Turístico
da CPTM
Tourism and nostalgia: A study about CPTM touristic express project
Erick Vieira da Silva [email protected]
Orientador: Glauber Eduardo dos Santos
RESUMO: O presente artigo discorre sobre o projeto da CPTM intitulado Expresso Turístico, que tem como objetivo aproximar os moradores da cidade de São Paulo e cidades adjacentes de uma realidade não muito comum nos dias atuais no Brasil, um passeio a bordo de um trem turístico para cidades de Jundiaí, Mogi das Cruzes e mais recentemente Paranapiacaba. O trabalho trata do turismo e patrimônio ferroviário, motivação cultural, turismo ferroviário no Brasil e sobre o Expresso Turístico da CPTM em si.
Palavras-chave: turismo ferroviário, patrimônio histórico, São Paulo, produtos turísticos
ABSTRACT: This paper describes the CPTM Tourist Express, a project that aims to take residents of São Paulo closer to an unusual reality in Brasil, a sightseeing onboard of a tourist train that runs up to Jundiaí, Mogi das Cruzes and, more recently, Paranapiacaba. The study argues about tourism, railway heritage, cultural motivations, railway tourism in Brazil and about the Tourist Express itself.
1 Introdução
O turismo, como uma atividade multidisciplinar, envereda por vertentes distintas que passeiam pela sociologia e antropologia, passando pela história, geografia, biologia entre outros, o que, por conseguinte, aumenta o campo de estudo e pesquisa relacionada ao fenômeno turístico.
Boullón et al. (2004) entendem que o turismo é um fenômeno social ascendente, sobretudo, a partir do progresso tecnológico dos transportes e do significativo aumento do tempo livre, decorrentes da Revolução Industrial. Já Beni (2004) cita e classifica o turismo em segmentos distintos levando em consideração as atividades que o turista desenvolve.
Durante muitos anos afirmou-se que o turismo estava assentado no tripé agências, hotéis e transportadoras (BARRETO, 2003, p.13), conceito que precisa ser revisto. Porém não se pode negar a importância dos transportes para o turismo, cujos elementos em alguns casos, chegam a ser considerado o fator motivacional de algumas viagens.
A motivação é um elemento quase sempre subjetivo que não pode ser quantificado, porém está sempre presente nas opções de deslocamento por lazer. McCanell (1999) e Gastal (2003) (apud SANTOS, 2003, p.4) trabalham com os significados e experiências únicas que uma viagem pode trazer, enquanto Geertz (1978) (apud SANTOS, 2003, p.4) une esse pensamento ao comentar sobre os lugares turísticos e as experiências vividas pelo turista.
Apesar de se tratar de algo pouco palpável, como afirma Rodrigues (1997) (apud PEREIRA & BOEHN, 2006, p. 271) “o turismo vive das especificidades, uma vez que as pessoas se deslocam em busca do novo, do inusitado, da aventura, de um lugar”. Debenetti (2008, p. 127) defende que “o modo como se processou a experiência é determinante para o consumidor emitir uma opinião de mérito em relação em à experiência vivida. O consumidor poderá ter o desejo de realizar novamente a experiência, de recomendá-la para outras pessoas, como também o inverso”.
Unindo os conceitos de turismo, transporte e motivação turística, o presente trabalho optou por abordar o turismo ferroviário, como uma forma de lazer e ao mesmo tempo um regresso aos tempos áureos da ferrovia no Brasil.
O transporte ferroviário começou a ser utilizado para o turismo na metade do século XIX sendo ainda muito utilizado em todo mundo (PALHARES, 2003). Entretanto no Brasil, este tipo de transporte está muito aquém do que é encontrado em outras localidades do mundo, como nos países da Europa, no Japão e nos Estados Unidos. A decadência das ferrovias no Brasil ocorreu devido ao avanço do rodoviarismo no início de século XX, com o amplo apoio dos governos brasileiros, principalmente a partir do mandato do presidente Washington Luiz na década de 1930 (ROCHA apud ALLIS, 2002).
O transporte ferroviário foi praticamente abandonado e esquecido durante décadas, o que fez com que a maior parte da malha ferroviária ficasse sucateada e subutilizada, havendo raras exceções como o caso do trem do Corcovado no Rio de Janeiro e o trem que faz o percurso entre as cidades de Curitiba e Paranaguá no estado do Paraná (PALHARES, 2003).
Segundo o mesmo autor, o passeio de trem transformou-se em algo raro nos dias atuais, no contexto da realidade brasileira, sendo o trem por si só um motivo para que o turista se interesse por uma atividade ligada ao modal ferroviário, havendo ainda a possibilidade da contemplação do visual externo transformando essa viagem em cênica e/ou nostálgica.
Considerando que o passeio de trem pode ser um fator de atração turística por si só, optou-se em analisar o Expresso Turístico da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).
Este trem faz uso da malha ferroviária urbana da Grande São Paulo e adjacências utilizando uma locomotiva a diesel e dois carros de aço inoxidável da década de 1950 restaurados pela empresa, com intuito de discutir a história desta parte da ferrovia paulista (CPTM, 2010).
Este artigo será dividido em três partes. A primeira aborda o turismo e o patrimônio histórico em que o leitor será introduzido a temas como a motivação, a preservação do patrimônio ferroviário e um breve histórico sobre o turismo ferroviário no Brasil. Na segunda parte serão descritos os novos roteiros turísticos no entorno da capital paulista, o funcionamento do Expresso Turístico em si, seus roteiros complementares e as impressões sobre o passeio, por meio de pesquisa de satisfação, com análise da demanda. Por fim, serão tecidas considerações finais
como forma de arrematar o estudo do foco deste artigo que é o Expresso Turístico da CPTM.
2 Turismo e Patrimônio Ferroviário
2.1 Turismo Ferroviário como motivação cultural
Desde os primórdios os estudiosos do turismo, e matérias correlatas, buscam relacionar a atividade turística a algum tipo de motivação, uma vez que o turista busca ocupar seu tempo livre de diversas maneiras. Dumazedier (1973) enumera alguns desses motivos, que vão além do simples descanso, como por exemplo, o entretenimento, o lazer e as atividades de recreação.
Outros autores colocam também a cultura como motivação do turista. Beni (2004) trata o turismo cultural como uma forma benéfica para a atividade turística uma vez que pode servir de atrativo para regiões com potencial turístico fazendo com que as mesmas possam divulgar costumes, histórias, culinária típica entre outras formas de cultura regional.
A busca por novas experiências, novas histórias, novos lugares, por culturas diferentes do seu convívio no dia a dia faz com que as pessoas, neste caso turistas, tenham como fator motivacional o somatório desses desejos o que segundo o pensamento de Rodrigues (apud PEREIRA & BOEHN, 2006 p.271), faz com que cada turista seja diferente e único no seu contexto geral.
As viagens com apelo cultural atraem muito pelo seu valor agregado, ou seja, pelo grande leque de alternativas que se abre ao turista. Assim sendo, podemos citar como exemplo os passeios ferroviários, em que o trem em si é um atrativo, que somado a contemplação da paisagem durante o percurso em que ele trafega seu local de partida, suas paradas, seu ponto de destino, geralmente trazem algum interesse a mais, podendo ser este, cultural, histórico, natural entre outros.
As ferrovias exercem especial fascínio sobre os turistas, sendo o passeio de trem uma das formas mais exploradas quando nos referimos à utilização do material rodante, ou seja, as locomotivas como equipamento a serviço da atividade turística. Segundo Allis (2002, p.32) “… a ferrovia está no imaginário das pessoas mais velhas (…). A curiosidade e o tom de nostalgia são, portanto, os mais importantes fatores
de atração às chamadas ferrovias turísticas…”. Soma-se a afirmação acima citada, todo o patrimônio ferroviário existente, sendo ele maquinário, locomotivas, vilas ferroviárias como a de Paranapiacaba, distrito de Santo André no ABC Paulista entre outras espalhadas pelo Brasil.
2.2 Turismo ferroviário – Preservação e Conservação do patrimônio histórico cultural
Por sua enorme relevância, todo o trabalho de preservação do patrimônio cultural é fonte de diversos estudos acadêmicos, que buscam entender o porquê de se preservar o patrimônio cultural, sendo ele material ou imaterial, ou seja, não só o que pode ser visto, mas o que pode ser sentido também, segundo Barreto (2006) citado por Mamede, Vieira e Santos (2008 p. 82). Essa importância se deve a um novo contexto de turismo cultural que esta sendo utilizado por diversas localidades como forma de exploração da atividade turística, sendo o transporte ferroviário uma dessas formas, conforme o pensamento de Palhares (2002).
A história de um povo, uma civilização, de um local qualquer é contada por meio de resquícios que foram deixados por aqueles que utilizaram o espaço em diferentes épocas, podendo ser desde pequenos objetos a cidades inteiras, que foram deixadas por motivos de ordem natural ou pela modernização dos tempos.
Rodrigues (2002, p.16) nos mostra, de maneira bastante clara, a importância que foi dada ao patrimônio como um todo, como forma de buscar uma identidade única de um povo, passando a ser “(...) uma construção social de extrema importância política.”,e complementa, comentando também sobre a memória, de experiências que ampliam o sentimento de grupo, criando assim uma identidade coletiva.
O transporte ferroviário brasileiro remete a períodos relativamente próximos, da segunda metade do século XIX até o início dos anos 1930, quando o rodoviarismo começou a ser disseminado como forma de progresso, em detrimento do transporte ferroviário, pelo governo do então presidente Washington Luiz que utilizou o lema “governar é construir estradas”, tendência essa seguida pelos seus sucessores, chegando ao ápice no governo do Presidente Juscelino Kubitschek no final dos anos 1950 (ALLIS, 2002, p.31).
Com a decadência do transporte ferroviário e sucateamento de grande parte da infra-estrutura relacionada a ele, a partir, principalmente, do início dos anos 1960 (ALLIS, 2002 p.37), notou-se a preocupação em se manter todo um conjunto de construções e maquinários que, com o passar dos anos, acabou sendo colocado de lado e uma parte desse conjunto simplesmente desapareceu chamando a atenção dos movimentos de preservação ferroviária para evitar a perda total do acervo ferroviário ainda existente no nosso país.
As associações de preservação do patrimônio ferroviário fazem um trabalho de recuperação da memória ferroviária, por meio de atividades práticas, seminários, estudos e divulgação dos trens e passeios existentes em todo território nacional sendo uma dessas entidades a ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) citada por Mamede, Vieira e Santos (2008 p.89) como um exemplo das práticas e ações acima comentadas.
2.3 Breve histórico da atividade ferroviária
A evolução dos meios de produção a partir da Revolução Industrial no século XVIII, fez com que houvesse a necessidade de um meio de transporte mais rápido e eficiente para distribuição de todo esse excedente de produtos que saía das cidades produtoras em direção aos portos situados nas cidades litorâneas. Essa evolução nos transportes foi representada pelo advento das locomotivas a vapor que transportavam uma grande quantidade de material e em tempo menor do que os métodos utilizados a época, como o transporte a tração animal.
O progresso era o trem, no início como meio de transporte de carga e pouco tempo depois como meio de transporte de passageiros para longas distâncias, principalmente na Europa, que possuía, e ainda possui uma grande malha ferroviária (PALHARES, 2002).
No Brasil não haveria de ser diferente, a função primordial do trem, na época, era o transporte de carga, como foi o caso das ferrovias paulistas que tinham o intuito de escoar a produção de café do interior do estado para o litoral, mais precisamente para o porto de Santos, a partir das ultimas décadas do século XIX.
Contudo, a primeira ferrovia brasileira é datada do ano de 1854, fundada por iniciativa do Barão de Mauá, e que ligava a então côrte, na cidade do Rio de Janeiro, ao pé das serras fluminenses num trecho de aproximadamente 14 km (ABPF, 2009).
2.4 O Turismo Ferroviário no Brasil
A atividade turística relacionada aos trens pode ser dividida em dois ramos, segundo Palhares (2002, p.285): o que diz respeito aos trens especificamente turísticos que são os trens voltados para a paisagem, às viagens chamadas cênicas e trens com apelo cultural e nostálgico.
Podemos exemplificar esses ramos citando, no primeiro caso, o trem da Serra Verde Express, que faz o trecho entre Curitiba e Paranaguá, com uma parada na cidade de Morretes, no estado do Paraná percorrendo um trecho de 110 km, pela Serra da Graciosa e o trem do Corcovado, que faz a subida do morro de mesmo nome, em direção da estatua do Cristo Redentor, um dos pontos mais visitados por turistas que visitam o Rio de Janeiro.
No que diz respeito ao turismo, enquanto atividade cultural pode-se citar como exemplos os casos da Maria-fumaça São João Del Rei – Tiradentes, que faz um percurso entre cidades históricas de Minas Gerais, conhecidas pelas igrejas e por toda arquitetura Barroca e Rococó do século XVIII, e o Trem do Vinho que percorre as cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, grandes produtoras e detentoras de vinícolas no estado do Rio Grande do Sul.
Nota-se que nos exemplos citados existe uma sobreposição dos focos, uma vez que por mais que o foco seja a contemplação da paisagem, o passageiro (turista) adquire cultura por meio da experiência vivida, como também, no caso de uma viagem tida como cultural, a paisagem demonstra um pouco da cultura e dos costumes dos povos, o que pode ser confirmado pelo pensamento de Negrine e Bradacz (2006) citado por Debenetti (2008 p. 125) que indagam se existiria algum turismo que não seria considerado cultural no sentido mais amplo do termo.
A atividade turística é extremamente multifacetada, que em seu contexto adquire inúmeras formas de conhecimento, agregando ao turista, sensações que fazem de uma viagem de trem, assunto que está sendo abordado em nosso trabalho, não só algo nostálgico, haja vista que esse meio de transporte tornou-se
obsoleto em nosso país, mas uma forma de se adquirir cultura e conhecimento sobre a história dos locais por onde esse trem passa, bem como um posterior contato com os autóctones que fazem parte desta experiência, uma vez que as cidades dos roteiros podem tornar-se atrativos turísticos.
3 Os novos roteiros turísticos ferroviários no entorno da capital
paulista
3.1 O Expresso Turístico
Ainda nos anos 1980, tempo em que a antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) tinha a concessão de operação das linhas de subúrbio na grande São Paulo, houve o que podemos chamar de primeira tentativa de implantação de um trem turístico-cultural utilizando as linhas metropolitanas.
A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) operou um passeio entre a estação da Luz, na capital paulista e a Vila de Paranapiacaba, hoje subdistrito do município de Santo André, entre os anos de 1986 a 1989 (PROSPERI & GROSTEIN, 1999) (apud ALLIS, 2002).
Em maio de 1992, foi criada a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) que assumiu o sistema de trens da região metropolitana de São Paulo que, a época, era operado pela CBTU e pela FEPASA (Ferrovia Paulista S/A) com o intuito de melhorar as condições do transporte ferroviário de passageiros (CPTM, 2010).
Após quase vinte anos da criação da Companhia, no ano de 2009, a CPTM colocou em prática um projeto que tem como intuito reavivar, ainda que de forma bastante restrita, o transporte turístico-ferroviário partindo da capital em direção a municípios vizinhos da cidade de São Paulo.
Porém, nesta nova empreitada a ABPF não opera o passeio, como ocorreu anteriormente, fazendo apenas o empréstimo dos carros, que são de sua propriedade, para que a CPTM fizesse a adequação e modernização, ficando assim a cargo da CPTM a responsabilidade sobre a operação do Expresso Turístico. (ABPF, 2010)
Para isso, a Companhia faz uso, aos finais de semana, das linhas de transporte urbano de passageiros que pertencem a CPTM, sendo este intitulado de Expresso Turístico, que “(...). tem como objetivo integrar pontos de interesse turístico localizados em diversos pontos da malha férrea” (CPTM, 2010).
Partindo dessa premissa, a Companhia preparou alguns roteiros que tem como ponto de origem/partida a Estação da Luz, localizada no bairro de mesmo nome na região central da cidade de São Paulo.
Os destinos dos trens são cidades próximas a capital (nos roteiros existentes as distâncias não ultrapassam os 70 km) que são servidas pelos trilhos da CPTM.
São esses destinos as cidades de Jundiaí (60 km da capital) e Mogi das Cruzes (63 km da capital), além da Vila de Paranapiacaba (50 km da capital), na cidade de Santo André, sendo que este último está em fase de implantação.
No início de 2010 foi divulgado pela CPTM que o trecho Luz-Paranapiacaba (que foi prometido como o trecho inicial em 2009) estava com previsão de início de operação a partir de julho, o que coincidiria com o tradicional Festival de Inverno de Paranapiacaba, porém a data foi postergada mais uma vez.
A CPTM conseguiu em agosto de 2010 a autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para operar o sistema, autorização esta que foi publicada no Diário Oficial da União, porém ainda não há uma data estipulada para o início das operações. (ESTAÇÃO NOTÍCIA, 2010).
Buscando viabilizar a implantação do Expresso Turístico em Paranapiacaba a CPTM e a MRS Logística, empresa que trabalha com transporte de cargas via ferrovia (esta última, concessionária do trecho entre a cidade de Rio Grande da Serra, onde tem fim o trecho de transporte urbano de passageiros e a Vila de Paranapiacaba) estão trabalhando em conjunto para recuperar o trecho da via permanente (trilhos, dormentes e lastro) enquanto a prefeitura de Santo André fica com a implantação de uma estação temporária para o desembarque e embarque dos passageiros.
3.2 A viagem no Expresso Turístico
Tomamos como base para este tópico, informações colhidas na página da CPTM na internet, além de conhecimento empírico, uma vez que o autor fez a viagem a bordo do Expresso Turístico nos trechos Luz-Jundiaí e Luz-Mogi das Cruzes no mês de maio de 2010.
A estação da Luz é o ponto de partida de todos os roteiros e também o local onde ocorre a venda das passagens que dão direito a viagem. As partidas com destino a Jundiaí saem todos os sábados e para Mogi das Cruzes aos domingos sendo estas quinzenalmente.
Os preços variam conforme a quantidade de passagens adquiridas ao mesmo tempo. O valor da passagem para uma pessoa é de R$ 28,00, para duas pessoas R$ 42,00, três pessoas R$ 56,00 e quatro pessoas R$ 70,00, também existe a possibilidade de adquirir um vagão completo, no caso do Expresso Turístico Mogi das Cruzes (CPTM, 2010).
O trem é composto por uma locomotiva a diesel, de propriedade da CPTM, que traciona dois carros de aço inoxidável datados da década de 1950, cedidos pela ABPF e reformados para compor o material rodante do Expresso Turístico.
A partida do trem da estação da Luz ocorre pontualmente às 08h30min (no momento da compra é pedido para que se chegue com no mínimo 30 minutos de antecedência).
Na plataforma em que o trem está estacionado encontram-se alguns funcionários vestidos com roupas que remetem ao início do século passado entre eles um bilheteiro, também vestido a caráter, que confere as passagens deseja uma boa viagem aos passageiros.
Percebe-se com isso o intuito de remeter o turista/passageiro à sensação de viver o início do século 20, época em que o trem era, de fato, o principal meio de transporte e os costumes referentes a viagens ferroviárias da época eram diferentes dos atuais.
Debenetti (2008, p.131) em seu estudo confirma este pensamento ao escrever sobre os sentimentos referentes ao passeio de trem, citando a nostalgia como um deles.
A viagem de trem tem duração de aproximadamente uma hora e meia; durante o percurso nota-se o contraste da paisagem, que de início é urbana, com casas, fábricas e tráfego de carros nas avenidas paralelas ao leito da ferrovia.
Aos poucos, nota-se que esta mesma paisagem vai se modificando, ficando gradativamente menos urbana, mais interiorana, uma vez que as cidades de destino estão a uma distância na qual se percebe esta lenta transição para o meio rural.
Um ponto que diferencia este passeio é o choque que este contraste provoca em algumas pessoas, uma vez que alguns dos passageiros do Expresso Turístico utilizam ou já utilizaram o trem urbano que faz uso destes mesmos trilhos durante a semana.
A velocidade do trem turístico (em torno de 40 Km/h) faz com que a visão da paisagem seja vista de uma forma diferente e até com certa surpresa, como se fosse vista por estas pessoas acima citadas, pela primeira vez, causando uma reação sensitiva da paisagem (PIRES, 2003, p.236).
Durante a viagem são passadas via alto-falante informações sobre as estações que estão ao longo do percurso e um breve histórico do local, porém a composição não faz nenhuma parada nestas estações, apenas se ouve o apito da locomotiva e após esse sinal a informação é transmitida para os passageiros.
No momento da chegada à cidade de destino, assim que o trem para na plataforma de desembarque, é solicitado aos passageiros para que permaneçam em suas poltronas e aguardem as instruções da equipe de bordo.
Após a ordem para que os passageiros deixem a composição, funcionários da CPTM recepcionam os passageiros e os guias do receptivo (este ultimo a parte, não incluso no valor da passagem) indicam para as pessoas que desejam adquirir ou já compraram antecipadamente o passeio complementar qual o procedimento a ser seguido.
3.3 As cidades de destino e os roteiros que complementam a viagem no Expresso Turístico
O Expresso Turístico da CPTM, como já foi dito anteriormente, tem como destino as cidades de Mogi das Cruzes, Jundiaí e futuramente a Vila ferroviária de Paranapiacaba.
Como complemento à viagem, algumas agências de turismo das localidades visitadas resolveram aproveitar esse fluxo de pessoas que estão se dirigindo para elas em um trem turístico e passaram a oferecer pacotes temáticos com o intuito de mostrar os atrativos locais por intermédio de roteiros, intitulados de circuitos, que levam os turistas a diversos locais dentro da cidade e adjacências.
Descrevemos aqui esses roteiros de forma rápida como fonte de informação, uma vez que os mesmos são vendidos separadamente e não são o foco de estudo deste artigo
No caso de Jundiaí existe o roteiro rural Circuito das Frutas, em que pequenas propriedades produtoras são visitadas, havendo assim o contato com a vida rural de algumas famílias que vivem dessa atividade e que fazem da cidade e da região uma das maiores produtoras de frutas do estado.
Nesta região, que fica entre Jundiaí e Campinas, existe um conjunto de cidades que são intituladas como Circuito das Frutas, sendo elas as seguintes: Atibaia, Indaiatuba, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Jundiaí, Louveira, Morungaba, Valinhos e Vinhedo.
Além do roteiro acima, também são disponibilizados, a quem se interessar, as opções de roteiro ecológico na serra do Japi e seu entorno, em um trecho conservado de Mata Atlântica com trilhas de médio impacto, caminhadas e contemplação da paisagem natural.
É oferecido um roteiro cultural que faz um passeio a pé e de ônibus pela cidade de Jundiaí, mostrando um pouco de sua história com a visita a prédios antigos e importantes da cidade, como o solar do Barão, Museu da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e ao centro histórico da cidade.
Para os apreciadores de vinho existe um roteiro específico chamado de roteiro do Enoturismo (relacionado à enologia, estudo de tipos de vinhos) em que são visitadas adegas artesanais das cidades de Jundiaí e Vinhedo, somado a isso o conhecimentos desses produtores sobre os tipos de uva e do modo artesanal de produção do vinho.
A cidade de Mogi das Cruzes também conta com alguns roteiros, que foram desenvolvidos por uma agência de turismo local, focados em sua grande maioria
nos passageiros que desembarcam no município após a viagem no Expresso Turístico da CPTM.
Apesar dos nomes dos roteiros serem similares em ambas as cidades, cada uma tem suas particularidades e tem a intenção de mostrar as belezas e costumes típicos de cada cidade.
O roteiro ecológico tem como destino o Parque da Neblina que fica no Parque Estadual da Serra do Mar, entre os municípios de Mogi das Cruzes e Bertioga, sendo que suas saídas ocorrem no mesmo dia do último trem do mês e com no mínimo sete pessoas.
Há o roteiro rural relacionado ao circuito das flores, uma vez que a cidade é a maior produtora de orquídeas do Brasil, e o visitante conhece algumas propriedades localizadas no bairro do Itapety e tem a oportunidade de contemplar a paisagem florida, além da possibilidade de adquirir flores e produtos relacionados.
A parte cultural é contemplada por um roteiro que mostra ao visitante, pontos importantes e históricos da cidade, que tem 449 anos, e ainda mantém igrejas e algumas casas em estilo colonial, além da visita a uma feira de artesanato e ao Mercado Municipal.
O último dos roteiros oferecidos se intitula Ecocultural, que além dos passeios do roteiro cultural também engloba o Parque Centenário da Imigração Japonesa situado às margens do rio Tietê, e mostra um pouco da cultura do Japão, que é bastante presente em Mogi das Cruzes.
3.4 Pesquisa de satisfação com o turista/passageiro do Expresso Turístico da CPTM
A CPTM realizou uma pesquisa de satisfação que foi aplicada no início da operação do expresso turístico nos destinos Jundiaí e Mogi das Cruzes.
Nesta pesquisa foram aplicados questionários com os passageiros dos destinos Jundiaí (nos dias 30 de maio; 06 e 13 de junho de 2009) e Mogi das Cruzes (nos dias 23 de agosto; 06 e 20 de setembro de 2009).
A partir dos resultados, nota-se que a maioria dos passageiros, 84% na média entre ambos os destinos, residem na cidade de São Paulo e região metropolitana. A maioria em ambos os destinos, 91% Jundiaí e 86% Mogi das Cruzes, não são usuários dos trens metropolitanos, demonstrando que não há relação direta entre os passageiros do trem metropolitano e do Expresso Turístico.
Os passageiros tomaram conhecimento do Expresso Turístico principalmente por intermédio da imprensa e por indicação pessoal, 43,3% e 23% respectivamente em Jundiaí, e 31,5% e 30,7% em Mogi das Cruzes.
Outros meios, que não são especificados, ficam logo na seqüência com 21,6% e 22,3% respectivamente, demonstrando que uma boa ação de promoção, somado à satisfação do usuário, trazem um retorno de público bastante interessante para o Expresso.
Podemos também definir o perfil socioeconômico dos usuários do Expresso Turístico. Trata-se de uma maioria feminina, 62,6% no roteiro Jundiaí, e 66,4% no roteiro Mogi das Cruzes. Os dados também demonstram que a maioria dos passageiros tem idade superior a trinta e cinco anos de idade, com escolaridade relativamente elevada, com renda entre três e dez salários mínimos, conforme demonstram mais detalhadamente os gráficos a seguir:
Fonte: CPTM, 2009
Na pesquisa aplicada no destino Jundiaí existia a opção “não possui” e a opção “não declara” que chegou a 5,7% e 22,5% respectivamente chegando a 28,2% no total. No destino Mogi das Cruzes havia apenas a opção “não possui” que foi respondida por 16,0%. Sendo assim, nota-se que continua difícil se chegar a um valor mais próximo da realidade quando o assunto é renda pessoal.
Foi percebido também que o interesse por lazer, sendo este uma alternativa no questionário, é a opção mais destacada pelos passageiros, com 68% em ambos os roteiros. Porém, fica difícil a mensuração do que seria lazer, haja vista que tanto a viagem de trem quanto o roteiro rodoviário complementar se encaixam neste contexto, o que nos faz crer que o motivo pelo qual as pessoas fazem o passeio é por lazer.
A avaliação final da viagem de trem foi positiva: na viagem a Jundiaí 33,7% avaliou como ótima e 42,7% como boa; na viagem a Mogi das Cruzes 41,6% avaliaram como ótima e 40,5% como boa, apenas 2,7% e 1,7% respectivamente, avaliaram como ruim ou fraco, mostrando que o Expresso Turístico presta um serviço de boa qualidade.
4 Considerações Finais
Após uma análise do contexto do Expresso Turístico, por meio de embasamento teórico e de pesquisa de satisfação com os usuários, faz-se necessário alguns comentários como forma de complementar o que foi disposto neste artigo.
O projeto da CPTM intitulado Expresso Turístico traz algo que já foi tentado há vinte anos, por intermédio da ABPF, porém agora com o respaldo da Companhia.
A CPTM utilizou de sua própria estrutura (trilhos, estações, funcionários) para fazer com que um trem turístico acessasse as cidades próximas à capital paulista, incentivando a atividade deste tipo de turismo para os moradores da capital e das cidades visitadas.
Os roteiros complementares à viagem de trem também colaboram para o sucesso do Expresso Turístico, uma vez que ocupam o tempo dos passageiros na cidade destino, mostram os pontos turísticos e culturais, aumentando assim o comércio da
cidade ou cidades visitadas, ajudando na divulgação da história local e fazendo com que a economia local também seja favorecida.
O conjunto da viagem de trem mais o roteiro rodoviário, indiferente de qual seja, faz com que a experiência vivida seja mais intensa, pois esse conjunto engloba, além do aspecto cênico, também as sensações vividas pelos turistas, pelo contato com a natureza ou o conhecimento adquirido sobre a história do local visitado, complementando o sentido do passeio.
Em suma, notou-se que não é somente o passeio de trem o grande chamariz para o trajeto, mas que o conjunto montado em forma de roteiro, mesmo que vendido separadamente, faz com que o Expresso Turístico da CPTM obtenha números tão favoráveis e que mostram que esse caminho pode ser seguido e até ampliado, com parcerias entre entidades, fazendo com que haja um resgate, ainda que pequeno, do transporte ferroviário turístico em São Paulo.
Referências
ABPF. Associação Brasileira de Preservação Ferroviária. Regional São Paulo Disponível em: <http:// www.abpfsp.com.br>. Acesso em: mar. 2009.
ALLIS, Thiago. Ferrovia e turismo cultural: uma alternativa para o futuro da vila de Paranapiacaba. Turismo em análise, São Paulo, n. 13, v. 2, p.29-53, nov. 2002. BARRETO, Margarida. Manual de Iniciação ao estudo do turismo. São Paulo: Papirus, 2003.
BENI, Mario Carlos. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Senac, 1998. BOULLON, R.; MOLINA, S.; WOOD, M. R. Um novo tempo livre: três enfoques teórico-práticos. Bauru, SP: Edusc, 2004.
CPTM. Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Disponível em <http://www.cptm.sp.gov.br >. Acesso em março de 2010
DEBENETTI, Valdete Elza Spindler. Passeio de trem Maria-Fumaça: Um exemplo de turismo cultural e de lazer. Estudo das percepções dos turistas CULTUR Revista Cultura e Turismo. Disponível em <http://www.uesc.br/revistas/culturaeturismo.>. Acesso em agosto de 2008.
ESTAÇÃO NOTICIA. Disponível em:< http://www.estacaonoticia.com.br/site/noticia. php?id=3876>. Acesso em agosto de 2010
MAMEDE, Douglas M. J. A; VIEIRA, Guilherme Lima; SANTOS, Ana Paula Guimarães. Trens turísticos e patrimônio cultural: como o turismo ferroviário tem resgatado, preservado e valorizado o patrimônio cultural. CVT Caderno virtual de
turismo, vol. 08, n° 2, 2008. Disponível em
<www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/ojs/include/getdoc. php?id=875&article=311&mode>. Acesso em maio 2009.
PALHARES, Guilherme Lohmann. Transportes Turísticos. São Paulo: Aleph 2002. PEREIRA, Raquel Maria do Amaral; BOEHN Sarita Maria. Ferrovia das Bromélias: revitalização de um trecho da Estrada de Ferro Santa Catarina – resgate cultural e turismo. IN: RUSCHMANN, Dóris e SOLHA, Karina Toledo. (org.): Planejamento Turístico. São Paulo: Manole, 2006, v. 1, p. 270-297.
PIRES, Paulo dos Santos. Interfaces ambientais do turismo IN: TRIGO, Luiz Gonzaga Godói (org.). Turismo. Como aprender, como ensinar. São Paulo: Senac, 2003, v. 1, p. 251-278.
RODRIGUES, Marly. Preservar e consumir: o patrimônio histórico e o turismo IN: FUNARI, Pedro Paulo e PINSKY, Jaime (org.). Turismo e patrimônio cultural. São Paulo: Contexto, 2005.
SANTOS, Rafael José dos. Imagens do Turismo, culturas e lugares híbridos em Gramado e Canela, RS. Trabalho apresentado ao NP-19 – Comunicação, Turismo e Hospitalidade do 5º encontro dos núcleos de pesquisa da Intercom. Disponível em <www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0065-1.pdf.> Acesso em setembro de 2008