Jornal de Estudos Espíritas 1, 010202 (2013) - (13pgs.) Volume 1 – 2013
Reflexões sobre a Ciência Espírita
A. Xavier
1,2,a1eradoespirito.blogspot.com
- Campinas, SP 2
Editor JEE- https://sites.google.com/site/jeespiritas/
e-mail:a[email protected]
(Recebido em 10 Abril de 2013, publicado em 15 de Maio 2013)
RESUMO
Argumenta-se que a ciência espírita deve ser compreendida dentro de noções modernas de ciência, com abandono completo de ideias indutivistas (que pregam a ciência começa com uma observação) ou de método infalível de geração de conhecimento científico. Expõe-se uma discussão sobre o objeto da ciência espírita, que não deve ser confundido com o objeto das ciências comuns e do escopo dessa nova ciência. Usando conceitos mais recentes sobre a importância dos paradigmas e teorias no desenvolvimento científico, argumenta-se que apenas quando os princípios espíritas forem aceitos em sua totalidade é que desenvolvimento dessa nova ciência poderá ser plena-mente facultado. Um exemplo é dado de desenvolvimento em ciência espírita. Discute-se o objeto, o escopo e os obstáculos ao desenvolvimento da ciência.
Palavras-Chave: ciência espírita, epistemologia da ciência, paradigmas, mediunidade, teorias epistemológicas.
I
INTRODUÇÃO
Segundo Kardec, “o Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal” (Kardec,
2008). Essa colocação identifica como objeto dessa nova ciência o Espírito, entendido com “uma das forças da Natureza”, questão #87 de (Kardec, 1994) e que pode ser analisado empiricamente por meio dos efeitos de sua atuação no chamado “mundo corporal” ou “universo ma-terial”. Nessa definição simples e concisa de ciência es-pírita (Chibeni, 1991, 1988a,b), a existência do espírito como elemento organizador é admitida como princípio, embora a inexistência de evidências diretas desse novo elemento, por causa de sua natureza essencialmente di-ferente da natureza material. Essa enorme “diferença de densidade” e “independência causal” entre o espírito e as coisas do mundo material são a razão porque Kardec afirmou que “a ciência propriamente dita é incompetente para se pronunciar a respeito de questões do Espiritismo” (ver Introdução, Parte VII deKardec(1994)). Ao afirmar isso, Kardec estava várias décadas à frente das concepções epistêmicas de seus contemporâneos (Chibeni, 1988a,b) que se agarravam a noções meramente indutivistas da ciência e que acreditavam que qualquer fenômeno obser-vado poderia ser reduzido a interações mecânicas entre átomos ou princípios materiais elementares. Portanto, só tem sentido falar em ciência espírita se as direções preli-minares dadas por Kardec forem seguidas, o que implica em ter consciência da natureza peculiar do novo objeto de estudo proposto, para o qual metodologias importa-das diretamente importa-das ciências ordinárias jamais levariam ao progresso científico sobre tais questões.
Neste texto, nosso objetivo é esclarecer detalhes sobre o novo método de pesquisa proposto por Kardec, a fim de que o conhecimento espírita possa ser usado de forma eficiente na busca de novos fenômenos da Natureza, pro-movendo, assim, o progresso de conhecimento e não a sua estagnação. Para isso, é importante ressaltar que o Espiritismo dispõe de um conjunto de princípios avan-çados que podem ser utilizados na explicação de grande quantidade de fenômenos ainda considerados anômalos. Para adquirir essa competência é necessário seriamente assumir a teoria kardequiana, como é praxe no desen-volvimento de qualquer ciência, e não considera-la como “mera hipótese” ou pior, distanciar-se dela, a partir de um processo autorreferente de “revisão”. “Começar de novo” ou “rever” os princípios espíritas é equivalente a “andar de marcha ré” na pesquisa científica dos fenôme-nos espíritas e essa conclusão vale para qualquer tipo de conhecimento científico heuristicamente fértil.
II
DEFINIÇÕES
DE CIÊNCIA: O PAPELDAS TEORIAS E O MITO DO
“MÉTODO
CIENTÍFICO”A ciência conhecida modernamente1 é uma constru-ção social e epistêmica complexa para a qual poucas con-clusões pretensamente absolutas podem ser sustentadas com êxito. Há um grande debate entre acadêmicos sobre a natureza e fundamentação da ciência, debate que ainda avança e cujos ecos passados no caso das ciências naturais podem ser conhecidos ao se analisar com rigor a grande quantidade de trabalhos em epistemologia de filósofos como Karl Popper (Popper, 2002), Imre Lakatos ( Wor-rall & Currie,1989), Thomas Kuhn (Kuhn,1970) e mui-1Quando falamos em “Ciência”, referimo-nos largamente as doutrinas científicas que buscam explicações para os fenômenos da Natureza. A fenomenologia mediúnica parece indicar claramente que o aspecto científico do Espiritismo seria mais bem apreciado ao se compará-lo com propostas teóricas para as ciências da Natureza.
tos outros (Losee, 1993; Chalmers, 1999). No que se-gue, trataremos de forma resumida algumas conclusões desse debate que foi antevisto por Kardec na época da codificação.
Uma das motivações para trabalhos em epistemologia da Ciência sempre foi a ideia de que seria possível dispor de um método infalível a partir do qual conhecimento ob-jetivo, genuíno e verdadeiro seria extraído da Natureza. Esse é o “método científico”, sobre o qual muito se fala nos meios populares e laicos(Pinto,2012), que acreditam que a experiência é a origem e até mesmo o objeto do conhecimento científico (Haak, 2012). Essa concepção popular também descreve o trabalho científico com su-postamente “objetivo e metódico”, apenas se identificado com aquilo que poderia ser observável e isento de qual-quer interferência em sua gênese. Tal “concepção induti-vista”, ver Capítulo 4 em (Chalmers, 1999), está ligada a ideias arcaicas da ciência, quando seu objeto de estudo se limitava a coisas apreendidas pela observação direta dos sentidos. Assim, muitas vezes, essa “objetividade” é confundida com “evidência direta” ou “evidência dos sen-tidos”, ver Capítulo 1 de (Chalmers,1999). Além disso, hoje é consenso entre especialistas que é difícil defender a existência de um método científico, e que nem se con-siga eliminar do labor científico a influência de fatores subjetivos como preferências pessoais, gostos, culturas e até mesmo inclinações religiosas (Chalmers,1999). Tais conclusões nascem de uma análise rigorosa de fatos his-tóricos e da postura dos cientistas ao longo da história.
Por outro lado, é fato que tais influências não são obstáculo para a produção de conhecimento científico. Pode-se argumentar o contrário, que é justamente pela influência de fatores considerados “irracionais” (experi-ência de vida, interpretações pessoais, tradição científica, memórias, etc., ver (Tatón, 1957)) que os responsáveis por gerar o conhecimento científico conseguem um ne-cessário nível de criatividade para garantir o pleno de-senvolvimento da Ciência. Afinal, a Ciência é construída por cientistas que são, eles mesmos, seres sociais em cons-tante interação e modificação com o tempo. Propostas de explicações radicais e em total confronto com as con-cepções estabelecidas sempre estiveram presente nas re-voluções científicas.
Hoje, há também consenso entre especialistas da área de que a ciência não começa com um experimento, mas com uma teoria2 (Chalmers, 1999; Kuhn,1970). São as
teorias que orientam explicitamente as propostas expe-rimentais que permitem que se projetem equipamentos para observação indireta de fenômenos (sem os quais não haveria a observação) e que determinam o limite das pró-prias observações. Quando fatos novos são observados, é
necessário que uma teoria apareça para orientar a pes-quisa de forma satisfatória. Como e porque meios essa teoria aparecerá é algo que não pode ser enquadrado em nenhum discurso metodológico, pois não há um método de se “gerar” teorias. Porém, falta da teoria é razão suficiente para condenar um novo objeto ao esquecimento ou à sua marginalização3. Na falta de uma teoria,
qual-quer resultado experimental mal feito poderá ser inter-pretado de forma incorreta. Por isso, é incorreto susten-tar que o experimento é base do conhecimento científico, mas que o alvo da ciência é o estudo de um objeto através de teorias que devem obedecer a um conjunto de caracte-rísticas, a adequações empírica sendo apenas uma delas. Essa “adequação empírica”, porém, depende do objeto em apreço, variando de objeto a objeto. Um exemplo simples seria defender a adequação empírica para a exis-tência de átomos que não está sujeito, por exemplo, as mesmas regras com que observamos fenômenos na super-fície de outros planetas.
A diversidade e variedade de objetos de estudo na Na-tureza é tão grande que é impossível generalizar quanto ao grau com que se fará tal “adequação”. Assim, por exemplo, enquanto inexistem quaisquer evidências em-píricas sobre vida em outros planetas, a comunidade científica crê na existência dessa vida e está seriamente empenhada em desenvolver teorias e métodos experimen-tais4 para sua investigação (Kitchin,2012). Seria
estra-nho que apenas quando essa vida fosse efetivamente ob-servada é que essa comunidade se interessasse em abrir uma nova linha investigativa, mas essa é a conclusão na-tural da ideia popular de que a ciência começa com a observação de um fato (relacionada por exigência de um equivocado conceito de “objetividade”) ou das vozes que pregam uma restrita adequação empírica, sem se obser-var inúmeros outros detalhes importantes.
Por outro lado, a teoria epistemológica em (Kuhn,
1970), por exemplo, demonstrou com sucesso que a ati-vidade de pesquisa consolidada se dá por meio de um paradigma5 que pode ser entendido como o conjunto de
teorias (ou a teoria) bem estruturada capaz de congre-gar gerações de cientistas em torno de um tema. Um paradigma forma um tipo de “passaporte confiável” para solução de determinados problemas. Ele permite escolher - de uma ampla gama de fenômenos e aparentes proble-mas científicos - quais devem ser estudados daqueles que devem ser desprezados. Na existência de um paradigma, a atividade científica se aproxima de uma “solução de quebra-cabeças”, quando se tem certeza que uma solução será alcançada. O preço óbvio pago por essas vantagens é a restrição de escopo: cientistas não precisam (e nem devem) se interessar por qualquer tipo de problema, mas 2De forma resumida, uma teoria é um conjunto de princípios harmonizados em uma linguagem própria que tem como objetivo fornecer explicações para fenômenos direta ou indiretamente “observados”. O leitor atento também notará a diferença entre o conceito de “hipótese” e “teoria”. Uma teoria não é simplesmente uma coleção de hipóteses, embora se possa usar de uma hipótese como primeira tentativa de explicação de um fenômeno, principalmente quando ele é descoberto de forma fortuita e inesperada.
3Assim, fenômenos “anômalos” podem ser sumariamente varridos para debaixo do tapete por sugerirem explicações que desafiem o que é considerado conhecimento cientificamente aceito (que é o do paradigma vigente).
4Esse desenvolvimento avançado gera conhecimento científico genuíno mesmo quando seu objeto ainda não teve chance de se mostrar! 5Do grego “parade´ıgma” (paradeigma), “modelo, exemplo, amostra”, do verbo “parade´ıknumi” (paradeiknumi), “exibir, representar, expor” e de “par´a” (para), “além” + “de´ıknumi” (deiknumi), “mostrar, apontar”.
apenas por aqueles garantidamente tratáveis pelos para-digmas a que eles aderem. A atividade científica torna-se uma tarefa monótona (frequentemente envolve a busca ou aperfeiçoamento de soluções para problemas já resol-vidos) e são raríssimas as ocasiões em que “soluções para problemas fundamentais” são sequer procuradas. Como ressaltado por Kuhn, para que a ciência dê resultados, não é possível se dedicar a qualquer tema ou problema que apareça, mas apenas aqueles para os quais exista um paradigma ou teoria bem estruturada que permita que a pesquisa seja organizada de forma eficiente. Isso envolve não só a escolha de uma teoria favorita, mas de uma am-pla gama de conceitos chave na forma de uma linguagem própria. O paradigma propicia o progresso, evitando que sempre se tenha que começar “do zero”, quando surge a necessidade de dar solução a um novo problema perten-cente ao tema de escopo do paradigma.
A noção de que ciência não se estabelece tão só pelo conhecimento empírico foi sentida por Poincaré (1854-1912) ao proferir que os cientistas “fazem ciência com os fatos, assim como uma casa é feita de tijolos; mas uma acumulação de fatos não é ciência, assim como um con-junto de tijolos não é uma casa” (Poincaré, 1908). Isso porque é a teoria ou paradigma que confere status de ci-ência a um conjunto de fatos observados, é o paradigma que estipula as regras e procedimentos que devem ser se-guidos para se montar experimentos, propor instâncias de observação etc. E, conforme a teoria, tal é a visão que se tem dos fatos. Na grande maioria dos empreendimen-tos científicos, foi a assunção preliminar de hipóteses e a tentativa de elaboração de teorias que permitiram a cons-trução de novos equipamentos e métodos de investigação. Um exemplo clássico foi o desenvolvimento da teoria atô-mica na quíatô-mica, não obstante os blocos constituintes da matéria - os átomos - (que são hoje os ingredientes funda-mentais de qualquer descrição química da Natureza), não tivessem sido “observados” experimentalmente até a dé-cada de 1930. A doutrina do atomismo (Whyte,1961), desenvolvida a partir de noções elementares de antigos filósofos gregos, tornou-se crença científica nos séculos que se seguiram ao renascimento na Europa. Reações químicas eram vistas como evidência indireta da natu-reza fragmentada da matéria a partir de elementos que se combinavam microscopicamente6, embora provas
dire-tas dos átomos jamais existissem.
Do ponto de vista operacional, muito das publica-ções em pesquisa moderna é orientado por um processo conhecido como “avaliação por pares” que consiste na verificação da adequação dos resultados de uma pes-quisa ao paradigma vigente por pessoas supostamente qualificadas7 na área de que trata a pesquisa. Seria talvez possível argumentar que esse processo conferiria
“objetividade” à prática científica. Porém, esse processo não está isento de subjetividade, uma vez que são co-nhecidos inúmeros exemplos em história da ciência em que trabalhos com conclusões perfeitamente corretas fo-ram rejeitados, enquanto que trabalhos com conclusões incorretas foram aceitos (Barber,1961;Löwy,2002; Tow-nes, 2002). O processo de avaliação por pares é assim um meio aproximado de garantir a qualidade do conheci-mento científico8 gerado e não um método infalível. Sua
existência está ligada à questão da qualidade de publi-cação de resultados e relatórios científicos e não direta-mente ao processo de gênese científica.
A compreensão do labor científico como organizado e dirigido por teorias e paradigmas permite compreen-der diversos outros aspectos associados à gênese, escopo, abrangência, evolução e ceticismo na Ciência. Em parti-cular no que tange à evolução, ela não é uma construção “linear” ou “assintótica” como sugerido por (Pinto,2012) e imaginado ordinariamente, onde o conhecimento é acu-mulado gradativamente de um estado de não ciência para ciência total. Essa ideia é falsa e está ligada à concep-ção popular de ciência, fruto da crença de que a ciência se dá por um processo objetivo, gradual e absolutamente isento de falhas. A história da ciência fala de épocas de estagnação no conhecimento científico seguida por surtos de desenvolvimento admirável9 que são difíceis de serem explicados se a ciência for entendida como um processo li-near. Ao contrário, ao se compreender a importância das teorias é que entendemos que apenas aqueles que dispõem da teoria tem competência para fazer a ciência avançar. Como a gênese das teorias, em última análise, é um pro-cesso subjetivo (sujeito a inúmeros fatores de coincidên-cia, contexto e motivação), sua evolução jamais será um processo linear.
III
DO OBJETO DA CIÊNCIA ESPÍRITA
Allan Kardec compilou e estabeleceu uma grande quantidade de princípios e leis secundárias que fornece-ram a base para a doutrina espírita. Essa doutrina tem três aspectos fundamentais10: o aspecto científico (repre-sentado pela sua proposta de ciência espírita), o aspecto filosófico (que diz respeito às questões morais e outras de caráter filosófico) e o aspecto religioso.
Kardec compreendeu de forma admirável para o seu tempo que o escopo dessa nova ciência não se identificava em nada como aquele das ciências de sua época. Por isso, escreveu este famoso parágrafo:
“As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livre-mente; os fenômenos espíritas repousam na ação de
inteligências dotadas de vontade própria e que nos 6Lembramos no número de Avogadro (1776 - 1856) que contém a quantidade dessas partículas em um mol de uma determinada subs-tância.
7Seriam indivíduos que tem conhecimento do paradigma. Inúmeros problemas surgem quando essa condição não acontece na prática. 8O melhor que se pode dispor, não obstante o fato de que muitas injustiças podem ser cometidas no processo.
9É o caso da óptica na Física, que sofreu com as preferências pessoais de Isaac Newton ao acreditar que luz era formada por corpúsculos. É o caso também do desenvolvimento da mecânica quântica. Os princípios quânticos não são “frações de conhecimento” que se adicionaram à física clássica.
provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem,
por-tanto, ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer
submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem. A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pro-nunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.” (Kardec
(1994), Introdução, VII, grifos nossos).
Dizendo isso, não rompeu com nenhuma tradição científica existente. Ao contrário, ao propor que os fenô-menos psíquicos poderiam ser explicados com bases em uma nova teoria com suporte experimental, ele fez com que fatos até então considerados como pertencentes ao reino do sobrenatural e da religião pudessem ser trata-dos como fatos científicos legítimos por razões que vere-mos abaixo. A nova ciência espírita já nascia em con-sonância com ideias modernas de ciência que concluíram pela inutilidade de conceitos de “método científico”, “in-dutivismo ingênuo”, e uma equivocada “objetividade”, conceitos que seriam demonstrados como obsoletos por uma plêiade de epistemologistas no século XX (Chalmers,
1999). A justificativa dada por Kardec na citação acima é suficientemente concisa e clara, dispensando maiores detalhamentos.
E, ainda hoje, se muitas pessoas pensam que o co-nhecimento científico é superior a outros tipos de conhe-cimento ou práticas (tais como a arte, a filosofia etc) é porque ainda trazem concepções ultrapassadas de ci-ência, justamente aquelas que acreditam que o conheci-mento científico é mais “objetivo”, “quantificável”, “in-dependente de qualquer referência a interpretações sub-jetivas” como sugere (Pinto, 2012) e, portanto, mais “certo” do que qualquer outro, o que seria suficiente para caracterizá-lo como “superior” diante de outros tipos de conhecimento (Haak,2012). Ao criar uma ciência já em conformidade com as noções epistemológicas recentes, Kardec estabeleceu também um justo valor a esse conhe-cimento, o que implica na certeza da existência de limites para ele. Esses limites são definidos dentro do paradigma espírita (Chibeni, 1988a,b, 1994) que, como qualquer paradigma, estabelece restrições severas ao que pode ser pesquisado. A proposta de ciência feita por Kardec tam-bém não fere nenhuma premissa do labor científico, uma vez que seu objeto de estudo não guarda relação com aqueles que são estudados pelas ciências ordinárias.
Antes, porém, de discutir essa questão, convém que detalhemos um pouco mais a questão do “objeto” de pes-quisa. Em princípio, seríamos levados a pensar que o ob-jeto de uma ciência qualquer diz respeito aos fenômenos tangíveis ou replicáveis que essa ciência pode experimen-tar no laboratório. A ideia que em geral se faz do “ob-jeto de estudo” de uma certa ciência está fortemente
li-gada à concepção de ciência que se tem. Assim, para um indutivista extremado (que acredita que conhecimento científico pode ser gerado por um método e começa com uma observação), o objeto de estudo se identifica ple-namente com os fenômenos. Se esses não puderem ser diretamente acessados, reproduzidos à vontade ou mani-pulados em laboratório, haverá compreensão equivocada do status científico de qualquer disciplina que se propo-nha a estudar algo que não seja diretamente observável, replicável diretamente ou que não se dobre a requisitos de laboratório11.
Para as teorias modernas do conhecimento, em que uma teoria ou paradigma têm papel fundamental, não se pode falar no objeto de estudo sem referência as constru-ções teóricas, o que implica perda de referência absoluta com os fenômenos. Há uma simbiose entre teoria e ex-perimento, não tem sentido falar de um aspecto sem o outro. Citemos um exemplo: qual seria o objeto de es-tudo da física quântica? Uma vez que essa ciência postula a existência de partículas e átomos ou entidades micros-cópicas não acessíveis à observação direta, distanciamo-nos naturalmente da definição meramente fenomenoló-gica na compreensão desse objeto. Assim, a física quân-tica tem como objeto de estudo entidades postuladas em um mundo microscópico que causam indiretamente deter-minados fenômenos. A física quântica objetiva estudar as regras e leis que regem o comportamento dessas entidades microscópicas com base nas consequências fenomenológi-cas observadas seja diretamente12, indiretamente ou por
meio de equipamentos especiais. O mesmo se pode dizer da genética, que postulou a existência de entidades mi-croscópicas, os genes, e que espera inferir um conjunto de previsões de observação para aspectos apreensíveis de seres vivos (objetos macroscópicos) com base na combi-nação desses genes e regras ou leis específicas que regula-mentam essas combinações. Assim, é plenamente possí-vel que o “objeto de pesquisa” de uma ciência, por causa de sua inacessibilidade direta, tenha que ser inicialmente postulado ou inferido por via indireta onde a teoria tem um papel fundamental. Essa inferência indireta é mais a regra do que a exceção. E nem é necessário que o objeto seja muito pequeno ou intangível. Consideremos, mais uma vez, a questão da existência de vida em outros pla-netas. O fato de não se dispor de uma evidência direta ou observação sobre essa vida não impede que cientistas postulem sua existência e desenvolvam teorias e méto-dos (Kitchin,2012) para sua futura investigação13.
Essa constatação da importância da teoria fez com que se abandonassem radicalmente as descrições de ciên-cia que desprezam ou não consideram o papel das teorias ou paradigmas. Portanto, não se pode falar jamais que o objeto de estudo de uma ciência seja simplesmente o seu fenômeno. Tendo em vista essa nova concepção, po-demos compreender com novas luzes o fato de Kardec 11Como é o caso de inúmeras ciências de observação (astronomia, cosmologia, meteorologia etc).
12A observação do hélio superfluido, por exemplo, é uma observação acessível diretamente (pode ser vista com os olhos) que revela um aspecto inacessível do mundo microscópico (Dugan,2007).
13De fato, métodos empíricos estão sendo desenvolvidos para, por exemplo, detectar a existência de certos gases na luz refletida pela atmosfera de planetas encontrados em outras estrelas e, assim, por via indireta, inferir uma provável ação biológica.
ter identificado no espírito o objeto de estudo da ciência espírita.
Detalhamos aqui um pouco mais essa identificação. Do ponto de vista dos tipos de manifestação dos objetos a nossa volta, podemos dividir em duas grandes classes fenomenológicas (Chibeni,2010):
1. Fenômenos materiais ordinários (causa subjacente: constituintes da matéria) • Cores; • Sons; • Formas; • Movimentos; • Calor ou frio; • Odores e sabores;
2. Fenômenos inteligentes (causa subjacente: espírito) • Pensamentos;
• Vontade; • Sentimentos;
Essa divisão é geral. Não estamos aqui falando de ma-nifestações mediúnicas (que abordaremos mais a frente), mas sim de efeitos quaisquer que estão publicamente dis-poníveis a um observador. Para um subconjunto de fenô-menos materiais14, as manifestações exigem que
lance-mos mão de causas materiais que serão específicas ao tipo e a classe. Átomos, moléculas e partículas estão na natu-reza íntima de muitas manifestações materiais, enquanto que o espírito está ligado às manifestações inteligentes. Assim, embora os efeitos estejam publicamente disponí-veis, as causas subjacentes ou origens fenomenológicas não estão. Não temos acesso direto a átomos, partículas reais, moléculas, processo de degustação, processos ínti-mos de registro de imagem dentro do cérebro, vias neurais de conexão, radiações eletromagnéticas específicas, cam-pos elétricos, camcam-pos magnéticos, partículas virtuais etc; temos apenas as apreensões que são conectadas a essas causas intangíveis por meio de teorias que permitem ela-borar métodos experimentais (equipamentos) de registro. Da mesma forma, embora possamos identificar um efeito inteligente (sei que minha mãe me liga quando ouço a sua voz ao telefone ou quando recebo uma mensagem dela por e-mail), não temos acesso direto a sua causa íntima. Se me encontro com ela, os sinais de seu corpo e aparên-cia física não me dão nenhum direito de duvidar que não seja ela, embora saiba, fenomenologicamente falando, que estou apenas diante de seu corpo que emite determina-dos sinais etc. Dentro do arcabouço filosófico em que se
insere a ciência espírita, convém que essa causa inteli-gente seja identificada e separada das causas materiais, da mesma forma como separamos diversos tipos de partí-culas ou átomos nas descrições físicas da Natureza ou da mesma forma como separamos fenômenos autônomos da Natureza daqueles provocados pelos seres humanos15. Do
ponto de vista filosófico, pode-se argumentar (Chibeni,
2010) que a questão da separação entre “substâncias” não pode ser decidida por meio de argumentos lógicos ou evi-dências experimentais16, o que não significa que essa
di-ferença não exista e que não se possa, pragmaticamente, separar essas causas, principalmente quando considera-mos fenômenos de ordem diferente como os fenômenos espíritas.
Assim, quando se toma como ponto de partida a exis-tência do espírito com causa fenomenológica indepen-dente dos constituintes materiais e não diretamente aces-sível, estamos em consonância com a prática de muitas ciências modernas que são obrigadas a postular a exis-tência de entidades não diretamente observáveis também e independentes entre si a fim de que leis e regras se-jam descobertas e tornem possível a explicação de muitos fenômenos. Veja que essa inferência indireta não pode ser confundida com falta de “objetividade”, o que é acessível são os fenômenos e não as causas subjacentes. Logo, a adequação empírica se dará por meio de regras específicas que dirão como os fenômenos devem estar conectados às causas inacessíveis. Boa parte, portanto, do trabalho na ciência espírita deverá elucidar em detalhes essas regras, um trabalho que será inútil se seu objeto de estudo não for sustentado como causa suficiente para uma classe de fenômenos e antes que se consiga uma “prova” direta de sua existência. Justificamos, assim, nossa afirmativa an-terior de que Kardec estava adiantado na sua época ao ter postulado o espírito como objeto de estudo da ciência espírita.
No que tange às manifestações espíritas, Kardec separou-as em duas classes:
• Manifestações físicas (espíritas): movimento de ob-jetos, produção de sons, luzes, odores etc;
• Manifestações inteligentes: produção de mensagens de conteúdo inteligente.
Ambos os tipos de manifestações guardam algo em comum: o fato de estarem relacionadas a uma causa in-visível, mas inteligente. Pois, é fato notório que todas as manifestações espíritas sempre se caracterizaram como fenômenos de comunicação “por excelência”:
“Se os fenômenos com que nos estamos ocupando hou-vessem ficado restritos ao movimento dos objetos, te-riam permanecido, como dissemos, no domínio das
14Compreende-se que há fenômenos materiais com causa inteligente. Por exemplo, ao receber um telefonema de alguém, meu ouvido capta, no telefone, um som (fenômeno acústico), cuja origem primária é um emissor de mensagem inteligente do outro lado da linha.
15Quando um indivíduo morre, a parte material (corpo) se decompõe e vai fazer parte de outros elementos. Sabemos, entretanto, que sua contraparte espiritual permanece integra e consciente. Portanto, faz muito sentido separar esses dois princípios fundamentais que são independentes entre si. Chamar tudo de “matéria” simplesmente não acrescenta nada além da perda de precisão necessária ao se empregar termos científicos.
ciências físicas. Assim, entretanto, não sucedeu: estava-lhes reservado colocar-nos na pista de fatos de ordem singular. Acreditaram haver descoberto, não sabemos pela iniciativa de quem, que a impulsão dada aos objetos não era apenas o resultado de uma força mecânica cega; que havia nesse movimento a interven-ção de uma causa inteligente.” (Kardec, “O Livro dos
Espíritos” Introdução ao estudo da doutrina espírita,
VII, 1oparágrafo, grifo nosso).
O fato que chamou a atenção de Kardec foi que, nas manifestações espíritas, sempre se poderia identificar um agente e um receptor, um meio e uma mensagem, o que é suficiente para caracterizar tais ocorrências como um processo de comunicação17. Dessa forma, Kardec jamais
contrariou a ciência da sua época ao explicar as mani-festações físicas como tendo origem íntima no espírito. Pois, ao identificar a voz (fenômeno acústico tangível) de minha mãe do outro lado de uma ligação telefônica, terei poucas chances de refutar a explicação de que se trata de minha mãe de fato (e, portanto, o fenômeno tem origem final em seu Espírito) do outro lado da linha. Se isso ocorre quando sei que minha mãe vive, porque não pode-ria ter a mesma certeza ao constatar sua manifestação, mesmo sabendo que ela é falecida? Assim, nas mani-festações de efeitos físicos, embora os fenômenos sejam tangíveis, eles se devem a causas inteligentes e devem ser associados, por lógica, à causa “espírito”, que é, por isso mesmo, o objeto de estudo da ciência espírita.
Ao contrário, a falha em se aceitar essa verdadeira causa fenomenológica é razão suficiente para entender-mos uma enorme quantidade de aspectos das manifes-tações espíritas que não são aceitos pelos antagonistas18 e pelo estado lamentável em que se encontram discipli-nas19 que foram criadas para dar explicação para esses fenômenos. Em primeiro lugar, temos a questão da não reprodutibilidade e o caráter esporádico dos fenômenos. É muito claro, a partir da causa postulada, que os re-quisitos fundamentais para a reprodução dos fenômenos não estão disponíveis publicamente, de forma que é im-possível reproduzi-los à vontade. Por isso, um fenômeno tão generalizado como o das manifestações físicas da se-gunda metade do século 19 (que deu inicio ao Espiritu-alismo nos Estados Unidos e ao Espiritismo) não pode ser observado ostensivamente hoje em dia: a raridade do fenômeno é uma consequência de seu caráter inteligente e incontrolável.
Mas, suponhamos que alguém não aceite a ideia do espírito como objeto de estudo. Que tipo de objeto po-deria substituí-lo? As opções no momento caem de uma forma ou de outra no materialismo. Isso porque, se consi-derarmos todos os fenômenos como tendo origem última
em um mesmo elemento, não haveria razões para não cre-ditarmos essa origem aos constituintes da matéria. Mas, se são causas materiais, porque elas são irreplicáveis? As respostas levam a um emaranhado de hipóteses e teses que parece não explicarem todos os aspectos da fenome-nologia psíquica. E nem poderíamos resolver o problema ao redefinir esse elemento como sendo os próprios fenô-menos espíritas. Isso já foi feito no passado pela Metapsí-quica20(Richet,1922), um campo de estudos que morreu
com seu fundador. A Metapsíquica é um exemplo de livro texto do que se deve fazer com uma nova disciplina para transformá-la em um campo estéril e inativo em pouco tempo. Não importa se ela conseguiu alguns resultados momentâneos porque ela não conseguiu criar tradição de pesquisa. Não é difícil ver a razão para esse fracasso: seria o mesmo que dizer que à Química cabe apenas a tarefa de estudar reações químicas. Nesse exercício de pensamento, o destino dessa disciplina seria igualmente o esquecimento: ela se tornaria um campo estéril, que talvez criasse um vocabulário próprio e excêntrico para descrever as reações químicas que ela seria incapaz de prever e explicar corretamente, por rejeitar abertamente a necessidade de entidades teóricas inacessíveis direta-mente (os átomos) como responsáveis pelos fenômenos químicos. Definitivamente, foi pela postulação de novas causas e a descoberta das leis que regulam as interações entre essas causas ocultas que o progresso na Química foi feito.
IV
DA ORIGEM DO CONHECIMENTO
ESPÍ-RITA.
Tendo reconhecido a importância das teorias como orientadoras e guias de qualquer disciplina que pretenda ser uma ciência, podemos reduzir grandemente a impor-tância de muitas querelas ou discussões em torno da ori-gem do conhecimento espírita que qualificariam ou não esse conhecimento. Nenhum cientista sério está interes-sado em saber se uma dada explicação para um fenômeno natural teve como origem um sonho, uma intuição, uma sugestão de algum amigo durante uma conversa ou um acalorado debate entre especialistas (Tatón,1957). A ori-gem pouco importa, o que realmente conta é o seu con-teúdo e sua capacidade de explicação, o que é garantido pela sua adequação empírica e acomodação a uma teoria eficiente que é o paradigma estabelecido. Assim, apenas quando não se compreende a importância e o papel de uma teoria como orientadora do trabalho de investigação científica, é que se levantam dúvidas quanto à validade de uma hipótese ou princípio, por “herdar” esse uma carac-terística supostamente “irracional” de sua origem. Dessa 17Enquanto isso, a imensa maioria dos outros pesquisadores (Ferreira,2004) tratavam os fenômenos como se estivessem diante de um gabinete de física ou laboratório de química, onde se pode experimentar à vontade. Por essa razão, Kardec foi um dos poucos pioneiros que conseguiram tratar o problema de forma correta no século 19.
18Onde se incluem, materialistas, ateus, pseudocéticos e, obviamente, antiespíritas. 19Como é o caso da parapsicologia (Xavier,2013).
20Fundada na França por C. Richet (1850-1935). Pretendeu dar explicação “científica” (lê-se, que agradasse a cientistas da época) aos fenômenos psíquicos eliminando a necessidade do princípio espiritual (sobrevivência) e acreditando piamente que poderia “provar” a veracidade ou não deles pelo uso autorreferente de vocabulário excêntrico especial (o que se transformava essa “ciência” em um exercício de retórica). A metodologia de Richet usava amplamente a hipótese da fraude para desqualificar fenômenos que não se enquadrassem na sua visão particular dos fenômenos.
forma podemos entender porque foram aceitos os argu-mentos oníricos de F. Kekulé (1829-1896) para o anel da molécula de Benzeno, uma estrutura que foi “sonhada” por esse cientista (Rocke,2010). Para os que sustentam uma visão simplória e indutivista da ciência, essas suges-tões são inadmissíveis, pois elas não nasceriam de uma aplicação rigorosa de um método supostamente objetivo e isento de “interferências subjetivas”, métodos que exi-giriam uma “ampla comprovação” por inúmeros outros. Como não existe tal método, não importa muito como o conhecimento é gerado21.
Assim, o fato de Kardec ter usado uma, duas ou qual-quer número de médiuns (Kardec, 1944b) é irrelevante em nossa opinião e não pode ser usado para invalidar as consequências do trabalho final contido em “O Livro dos Espíritos”. De fato, mesmo se considerássemos que seu conteúdo veio da cabeça de Kardec22(o que seria um erro
grave), ainda assim essa questão seria pouco relevante hoje em dia. Por quê? A razão encontra-se na própria maneira como os princípios espíritas (que formam os fun-damentos da teoria espírita) estão estruturados. Como dissemos, o que realmente importa é seu conteúdo e sua capacidade de explicação. Essa “capacidade de expli-cação” é produto de uma consistência interna entre os princípios (eles não se contradizem reciprocamente, mas se complementam, ou seja, cada princípio adere de forma harmônica ao paradigma a que pertence) e sua habilidade de generalização. Os princípios espíritas tem fertilidade heurística, uma característica positiva que permite não só explicar, mas prever a ocorrência de certos fenôme-nos. Essas características positivas tornam atraente o campo de investigação sob orientação direta dos princí-pios dessa nova ciência que constituiriam um novo para-digma. E isso basta para justificar o valor científico de seu conteúdo.
Veja que, do fato da origem do conhecimento ser em um sentido irrelevante (diante, depois e em relação a um paradigma plenamente estabelecido), essa questão foi tratada de forma diferente por Kardec no momento da codificação:
Se a Doutrina Espírita fosse de concepção puramente humana, não ofereceria por penhor senão as luzes da-quele que a houvesse concebido. Ora, ninguém, neste mundo, poderia alimentar fundadamente a pretensão de possuir, com exclusividade, a verdade absoluta. (Kardec (1944a), Introducão, “Autoridade da Dou-trina Espírita”).
ou, mais a frente:
Nessa universalidade do ensino dos Espíritos reside a força do Espiritismo e, também, a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto a palavra de um só homem, mesmo com o concurso da imprensa, levaria séculos para chegar ao conhecimento de todos,
milha-res de vozes se fazem ouvir simultaneamente em todos os recantos do planeta, proclamando os mesmos prin-cípios e transmitindo-os aos mais ignorantes, como aos mais doutos, a fim de que não haja deserdados.
É uma vantagem de que não gozara ainda nenhuma das doutrinas surgidas até hoje. Se o Espiritismo, portanto, é uma verdade, não teme o malquerer dos homens, nem as revoluções morais, nem as subver-sões físicas do globo, porque nada disso pode atingir os Espíritos. (Grifos meus).
Naquele momento, ele estava diante de um conjunto de princípios que acabavam de nascer e, embora tivesse empreendido uma obra admirável, Kardec não poderia absolutamente fazer ideia de todas as consequências ad-versas ou não que esse conhecimento teria no futuro. As-sim, nesse sentido, a constatação da origem do conheci-mento nos próprios Espíritos foi uma importante fonte de afirmação inicial do conhecimento espírita, diante das “milhares de vozes que se faziam ouvir simultaneamente” em todos os lugares. Se, pela aplicação dos princípios es-píritas na forma de paradigma vemos hoje sua excelência metodológica, isso não contraria a importância da fonte desse conhecimento. Como a fonte, de fato, reflete a ex-celência dos ensinos, tanto melhor será se ela se encontra identificada como nos próprios Espíritos porque, como Kardec afirma, os homens poderiam perecer e, ainda as-sim, os ensinos continuariam.
Por outro lado, sabemos que Kardec se preocupou em evitar a desintegração dos princípios de sua teo-ria - porque sabia que muitos deles não seteo-riam aceitos em sua totalidade - e propôs23 um método especial de “confirmação” para esses princípios: o critério da con-cordância universal. A fonte clássica que descreve esse critério é:
Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíri-tos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. (Kardec(1944a), Introducão, “Auto-ridade da Doutrina Espírita”, 11oParágrafo).
Entretanto, cumpre relembrar sempre o escopo desse cri-tério, que é explicitado imediatamente no parágrafo se-guinte:
Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que res-peita aos princípios mesmos da doutrina. Prova a experiência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diver-sos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao fundo. (Grifos meus).
Portanto, o critério da concordância foi uma proposta metodológica de Kardec diante do problema da autentici-dade das mensagens dos Espíritos no que diz respeito aos 21É evidente que motivadores subjetivos são importantes para se atingir plena criatividade na atividade científica e de inovação de uma forma geral. De novo, a aderência do novo conhecimento a um paradigma torna irrelevantes os detalhes sobre como esse conhecimento foi gerado.
22Ou, de outra forma, pouco importa também se foi Kardec o principal responsável pela sanção dos fundamentos ou ideias principais no momento da codificação.
fundamentos doutrinários, ou seja, ao núcleo dos ensina-mentos24. Ele não pode ser usado para validar qualquer
tipo de conhecimento, principalmente se tangencial a tais princípios.
Um exemplo recente de má compreensão desse escopo especial do critério (Aleixo, 2012) são as discussões em torno da existência ou não de um planeta orbitando o sistema de Capela como proposto por Emmanuel em “A Caminho da Luz” (Xavier, 1990) e que se presume seja resolvido com a aplicação do critério da concordância uni-versal. Ora, a afirmação “existe um planeta que abrigou ou abriga vida no sistema de Alfa Aurigae” não é uma afirmação que pertença ao escopo da doutrina espírita. Quando muito, poderíamos dizer que se trata de uma questão de “astronomia planetária” ou “astrobiologia” para o qual um método exótico de se pedir opinião aos Espíritos poderia ser usado além de inúmeros outros. E, assim, encontramos quem invoque o critério da concor-dância universal para validação de qualquer questão, seja a da existência de vida em outros planetas, da validade ou não de teses sobre a origem da vida, das afirmações de um Espírito sobre episódios históricos25, etc. O que se vê, assim, é uma dogmatização irracional em torno de trechos de textos de Kardec propostos em um momento específico do trabalho de codificação, dogmatização que nada tem a ver com a “lógica rigorosa” ou o “bom senso”. No que diz respeito às revelações secundárias26,
adi-antamos aqui observação à luz dos princípios que discuti-mos: como afirmamos, a “validação de novos conceitos” não pode vir exclusivamente com base em uma origem supostamente isenta, por causa da aderência a um mé-todo considerado ideal. Não é porque um novo conheci-mento teve origem em um consenso é que ele seja “mais verdadeiro”. Um indivíduo ou um Espírito sozinho pode fazer uma descoberta genuína ou essa descoberta pode ser fruto de um trabalho coletivo. A razão para isso é que a noção de “verdade” de um fato não está ligado ao método através do qual esse fato é descoberto. Ou, de ou-tra forma: a única condição necessária e suficiente para que uma afirmação corresponda a um fato é que haja cor-respondência entre esse fato e a afirmação27. Embora o
truísmo dessa frase, ela é não pode ser desprezada quando se considera a validade de uma determinada revelação. Portanto, uma nova ideia deve ser ponderada também em relação à sua aderência ao paradigma, ao seu poder explicativo, capacidade heurística e outras características que somente o conhecimento aprofundado do paradigma em questão poderá facultar.
V
DO ESCOPO DA CIÊNCIA ESPÍRITA
Definido um objeto e uma teoria somos capazes de também avaliar o escopo de uma ciência. Por “escopo” entendemos um conjunto de tópicos, temas ou contextos de investigação que podem ser tratados por uma deter-minada disciplina científica. Por exemplo, no caso da física quântica, seu objeto de estudo são os constituin-tes últimos que formam a matéria. A teoria estabelecida para facultar esse estudo é a mecânica quântica ( Grif-fiths,2005). O escopo da física quântica é a elaboração de previsões e explicações para um conjunto de fenômenos físicos. Note que podemos não identificar o escopo, nova-mente, com os fenômenos. Esses são peças importantes do “quebra-cabeças” (Kuhn,1970) cujo objetivo último é formar uma imagem consistente de como as causas (par-tículas, átomos etc) se relacionam com os fenômenos.
Uma vez que na nova ciência espírita temos um objeto (o espírito) e uma teoria (a teoria espírita), podemos nos perguntar sobre qual seria seu escopo. Isso é algo muito importante, pois o escopo definirá quais fenômenos de-vem ser levados em consideração e quais não dede-vem. Por outro lado, essa definição possibilita separar que tipos de estudo pertencem genuinamente à ciência espírita daque-les que não pertencem. Para que possamos compreender a questão do escopo, é preciso antes novamente lançar mão de concepções mais modernas de ciência.
Entendendo assim o conjunto dos princípios que forma a teoria espírita como um candidato natural a um paradigma futuro (que seria o paradigma espírita), a ci-ência orientada por ele define e restringe fortemente o escopo de aplicação. Portanto, não é tarefa dessa nova ciência dar explicação a tudo que escapa às ciências da matéria. Por quê? Novamente, isso se dá porque a exis-tência de um paradigma restringe fortemente o escopo de uma ciência. Não são todos ou quaisquer problemas que devem ser resolvidos na ciência espírita, mas apenas aqueles que têm relação direta com seu objeto de estudo. Mas, como se sabe quais tem e quais não tem essa re-lação? Nas ciências já estabelecidas, isso ocorre por conta de uma tradição de pesquisa28 que é valorizada,
ampla-mente aceita e divulgada e que é aprendida por estudan-tes ao longo de anos e anos de estudo (a “doutrinação” a que nos referimos anteriormente). O paradigma estabele-cido se reforça e tentativas de “revisão” de seus princípios não só são desprezadas como fortemente desencorajadas. Durante esse aprendizado, o aluno tem oportunidade de resolver uma grande quantidade de problemas para os quais as respostas são bem conhecidas e que exercitam o 24“Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina.” (Kardec(1944a), Introdução, Autoridade da Doutrina Espírita, 12oparagrafo).
25Imagine submeter ao critério da concordância universal os mínimos detalhes de obras como “Paulo e Estevão” (Xavier,2010) ou “Há 2000 anos” (Xavier,1939). Pelo contrário afirmamos que a pesquisa histórica pode se beneficiar do testemunho dos Espíritos, mas isso não é gerar conhecimento espírita, mas fazer história...O critério da concordância não se aplicaria nunca nesse caso, anda mais porque os “testemunhos” de tais eventos não foram todos os Espíritos. (Ver também a seção Do escopo da ciência espírita adiante).
26Preferimos considerar apenas o que exploramos aqui para as revelações secundárias, pois as principais já gozam de excelência garantida pela sua aderência ao paradigma principal. O grau de “verdade” ou não de uma dada revelação não depende obviamente do caráter principal ou secundário dela.
27O que corresponde ao critério de “verdade por correspondência”. Há outros critérios de verdade em temas mais difíceis como no caso das ciências que é o da adequação de um fato ou conhecimento a um corpo teórico ou paradigma.
28Alimentada por verbas ou recursos financeiros especiais. Pode-se viver de pesquisa acadêmica, o que é, talvez, o mais importante elemento de estímulo à continuação da Ciência.
senso crítico e a noção de aderência de um determinado tema ao paradigma da sua ciência. O processo pedagó-gico de aprendizado científico faz largamente, assim, uso do método de “resolução de problemas”, quando as no-ções e princípios do paradigma são inculcados na cabeça do aluno de tal forma que, após certo tempo, ele adquire uma visão intuitiva de como proceder para dar solução a um novo problema que não pertence à sua lista de exer-cícios. Não só isso, essa intuição permite ao candidato a cientista desprezar aqueles que não devem ser trata-dos dentro do paradigma ou que, necessitam de “ajuda externa29” para que uma solução seja tentada.
Não parece haver conflito em se assumir que esse co-nhecimento também deveria advir de um processo de aprendizado contínuo e eficiente, não só nos conceitos da ciência espírita, mas, principalmente, na solução de pro-blemas paradigmáticos que apenas esse nova teoria con-segue explicar eficientemente. Mas, onde estão os que a defendem e que realmente a utilizam como potencial linguagem científica para uma nova classe de fenômenos naturais? O que vemos é o eterno levantar de dúvidas, o requerimento incessante de “provas” da existência do Es-pírito, de “evidências” da sobrevivência, da constatação inequívoca de seu objeto que não está diretamente aces-sível à observação direta, da mesma forma como uma sé-rie de outros objetos (átomos, moléculas, vida em outros planetas) também não estão. O que se vê são tentati-vas de criação de vocabulário exótico sob a justificativa de uma suposta necessidade de “não contaminação” com “ideias preconcebidas” dos preceitos espíritas. Nesse qua-dro desolador de contestações eternas dos princípios, de desmonte de uma linguagem por puro preconceito, como a ciência espírita poderá evoluir? Não apenas a nova ciência, mas qualquer outra ciência material jamais po-deria progredir se a “atividade científica” se limitasse a contestação incessante dos princípios que a estabelecem. Por outro lado, para se determinar a adequação de um tema dentro do escopo da ciência espírita é preciso, antes, considerar a relação do novo conceito com o corpo principal de ensinamentos espíritas. Assim, devemos nos perguntar se o conhecimento obrigatoriamente deve ser validado por um processo mediúnico. Já discutimos ante-riormente que o Critério da Concordância Universal não pode ser invocado para sancionar esse tipo de conheci-mento. Vale a pena reconsiderar os exemplos já citados no contexto do escopo da nova ciência:
• Revelações sobre a existência de mundos específicos
em outros planetas. Estariam esses informes
exclu-sivamente adstritos a abordagem mediúnica? Não seria a revelação de maior interesse ao conheci-mento geral (astronomia planetária, exobiologia) e, portanto, fora do escopo da ciência espírita? O argumento de se usar “médiuns abalizados de dife-rentes centros ou locais” não pode ser usado aqui, pois não se trata de tema relacionado aos funda-mentos. No máximo, processos mediúnicos pode-riam ser encarados como “métodos não ortodoxos” de acesso à informação;
• Revelações sobre episódios históricos. Da mesma forma, perguntamos: estariam esses informes ex-clusivamente adstritos à abordagem mediúnica? Não seria a revelação de maior interesse ao conhe-cimento geral (história, antropologia etc) e, por-tanto, fora do escopo da ciência espírita? Porpor-tanto, processos mediúnicos são métodos futuros auxilia-res das ciências históricas e criminalísticas e não métodos exclusivos de validação dentro do escopo da nova ciência;
• Revelações sobre novas leis da física, astronomia,
química, biologia, matemática etc. Pelas mesmas
razões gerais que expusemos anteriormente, não é difícil ver que não cabe a nova ciência cuidar de problemas que não tocam diretamente ao seu ob-jeto. No máximo, procedimentos mediúnicos se-riam meios indiretos e incontroláveis de se aces-sar a opinião dos Espíritos sobre questões que não pertence ao escopo da ciência espírita. A opinião deles, enquanto Espíritos, é difícil de ser avaliada, uma vez que, muito provavelmente, farão em uma linguagem diferente e adaptada na descrição do que testemunham de forma limitada conforme o grau de conhecimento que eles têm e adicionalmente filtrado, em maior ou menor grau, pelo médium.
Do fato de afirmarmos que tal tema não faz parte do es-copo da nova ciência não significa que não possa haver relações interdisciplinares entre ela e as outras ciências. Em determinados casos, podemos argumentar que a falta de reconhecimento explícito de uma disciplina pelos prin-cípios espíritas pode ser responsável pela estagnação ou multiplicidade de hipóteses que se vê nessa mesma dis-ciplina. Um exemplo que nos vem à mente é o caso da psicologia e psiquiatria. É fato inconteste a abundân-cia de fenômenos anômalos, evidênabundân-cias de vidas anteri-ores (Stevenson, 1960a,b), todos explicáveis pelos fun-damentos dos princípios espíritas que poderiam trazer novas luzes ao desenvolvimento dessas disciplinas. Esses são temas genuínos dessa nova ciência.
VI
DOS OBSTÁCULOS AO
DESENVOLVI-MENTO DA CIÊNCIA ESPÍRITA
Já tivemos a oportunidade de discutir alguns em-pecilhos ao desenvolvimento dessa nova ciência (Xavier,
2012). Por completeza, reproduzimos abaixo esses obstá-culos apontados em nosso estudo virtual para completar com outro comentário adicional:
1. Considerar a questão metafísica ou
“sobrenatu-ral”: Esse problema surge por dificuldade em se
compreender a viabilidade de estudo científico da questão (espíritas). Frequentemente, ou se considera o assunto como além do que seria o normal ou verificável (e, portanto, pertencente ao domínio da metafísica), ou, diante de uma visão mística dos fatos, toda a questão é to-mada como pertencente ao “reino do sobrena-tural”. Assim sendo, considera-se o assunto de forma alienada à realidade;
29Essa “ajuda externa” pode ser através da consulta a um especialista de outro paradigma, da busca por soluções inovadoras ou pelo uso de aproximações grosseiras que procurem explicar porque uma solução dentro de um paradigma não é possível.
2. Considerar que o assunto já foi analisado e a
conclusão foi negativa: esse é o erro mais
co-mum entre os céticos. É coco-mum também entre os que se satisfazem com uma visão superficial baseada em supostas pesquisas que não aten-tam para o rigor e o detalhe que o assunto exige. A respeito disso, vale um comentário de Kar-dec apresentado abaixo (“O ceticismo, no to-cante à doutrina espírita, quando não resulta de uma oposição sistemática por interesse, origina-se quaorigina-se origina-sempre do conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede que alguns dêem a questão por encerrada, como se a conhecessem a fundo.” (Introdução,Kardec(1994)); 3. Considerar que o que há de importante sobre
o espírito já é investigado pela psicologia etc, dentro de um referencial materialista: isso é
uma variante algo mais sofisticada do empe-cilho anterior. Como uma teoria determina em último grau quais os fatos e ocorrências devem ser considerados, então ao se assumir o materi-alismo como arcabouço teórico de investigação, está se restringindo severamente o universo de fatos. A “prova” obtida a favor de determinado ponto de vista não é válida;
4. Considerar que esse referencial materialista
foi “provado” pela ciência: Ciência entendida
como “conhecimento” nada tem a dizer sobre a questão da sobrevivência. Outra coisa bem diferente é a opinião dos cientistas. Mas essa opinião não constitui ciência, principalmente se ela versa sobre assunto que não diretamente re-lacionado a suas pesquisas de fato;
5. Tentar “detectar” o espírito por meios diretos: há uma quantidade enorme de pessoas que acre-ditam que manifestações físicas (efeitos físicos) são “manifestações espirituais”. Outros dizem que, se o Espírito existe, ele necessariamente deve deixar rastros mensuráveis. Aqui, a fa-lha é na compreensão do objeto de estudo: a matéria se deixa apreender por determinados tipos de sinais (cores, sons, formas, gostos etc). O Espírito tem pensamento, vontade e senti-mentos, todos atributos inacessíveis do ponto de vista sensorial (Chibeni, 2010). Não é di-fícil perceber que a questão não pode também ser decidida apelando-se para uma amplificação no nível de acuidade ou “precisão” do equipa-mento;
6. Tentar “mensurar” o espírito: uma variante do erro anterior;
7. Só considerar válida a evidência “reprodutível”: aqui temos um ponto para muitas discussões. Mas a essência é muito simples: como os fenô-menos dependem de inteligências que são inde-pendentes, insistir na reprodutibilidade é con-denar o estudo do assunto desde o princípio. A fonte dos fenômenos espirituais necessaria-mente não pode ser controlada, pois é indepen-dente, logo não está sujeita a reprodução;
8. Tratar o assunto de forma puramente
expe-rimental, sem preocupação com o desenvolvi-mento de uma teoria que explique os fatos:
Esse é um empecilho típico da parapsicolo-gia (Xavier, 2013). Em toda a história da ci-ência, jamais se fez ciência de verdade sem teo-rias. Entretanto, alguns pesquisadores das "ci-ências psi"pretendem resolver a questão tão só apelando-se para o experimento. Para esses pesquisadores, invocar “explicações” tiraria a “neutralidade” e o “rigor” que o tema de pes-quisa exige. Entretanto, isso está errado, pois "rigor"nada tem a ver com “neutralidade” e o desenvolvimento científico normal exige que se proponham experimentos baseados em hipóte-ses ou teorias;
9. Trabalhar com fragmentos teóricos (hipóteses
isoladas): Por outro lado, quando explicações
são dadas, elas são produzidas uma para cada fenômeno e não conseguem dar conta de to-dos os fatos. Não se procura correlacionar um fenômeno com outro. Fatos psíquicos diferen-tes, que se manifestam fenomenologicamente de forma diversa, são explicados por hipóteses di-ferentes ou mesmo totalmente antagônicas en-tre si;
10. Adotar enfoque dogmático ou preconceituoso: dogmatismo e preconceito são regras no portamento humano e não exceções. A com-preensível “neutralidade” não deve ser anulada até o ponto em que se adote uma visão clara-mente radical da questão. Há que se reconhecer que ninguém é dono da verdade;
11. Misturar ou conivir com o misticismo: de novo, isso ocorre por falha na compreensão do cará-ter científico do assunto a ser estudado. Para o misticismo, não há necessidade de se envolver a Ciência, pois ele se considera uma fonte in-dependente de conhecimento. Trata-se de um obstáculo, pois o misticismo oblitera ou impede essa compreensão científica;
12. Descuidar do rigor: quando se fala na aplicação de um método (não necessariamente extraído ou importado das ciências ordinárias) há que se tratar do rigor sem o que é impossível che-gar a conclusões válidas.
Muitos desses obstáculos estão inter-relacionados de alguma forma. É fácil ver que a falta de rigor possibi-lita a pesquisa orientada por “fragmentos teóricos”, assim como as abordagens puramente experimentais implicam em tentativas de se “mensurar” o Espírito, quando, de fato, se reconhece sua existência como causa fenomeno-lógica irredutível. Por isso, a eliminação desses doze obs-táculos somente será conseguida se pesquisadores da ciên-cia espírita assumirem definitivamente o escopo e objeto de estudo dessa ciência tal qual eles se apresentam, se-gundo os métodos e processo modernos apontados por te-orias epistemológicas maduras, em suma, sem equívocos e ideias preconcebidas como aquelas descritas em (Pinto,
VII
EM SUMA:
DA IMPOSSIBILIDADE DE UMA CIÊNCIA ESPÍRITAsem
KARDEC
A ciência espírita proposta por Kardec já possui um objeto e um método adequado de investigação que ainda não brilha em sua plenitude em parte por causa da visão de mundo presente, que é manifestadamente contrária a visão espiritualista do ser. Porém, ela detém todos os requisitos iniciais de um campo investigativo futuro pro-missor, em que pese as pouquíssimas instâncias em que ela foi, de fato, aplicada no passado. Isso acontece porque não há “massa crítica” de pesquisadores que a levem a sério com o comprometimento e a dedicação que qualquer atividade (seja científica ou não) necessita. Ao contrário, a imensa maioria dos trabalhos pretensamente científicos feitos na área dos fenômenos psíquicos ou aplicam hipó-teses de fraude para invalidar os fenômenos ou propõem explicações bastante elaboradas para desconstruir a tese espírita da sobrevivência. Para qualquer dessas alter-nativas, nunca houve preocupação por uma construção teórica sólida, uma teoria, que não só justificasse meia dúzia de fenômenos, mas que conseguisse explicá-los to-dos por meio de princípios simples e abrangente. Por essa razão, não se pode falar ainda em termos práticos na exis-tência de um “paradigma espírita” plenamente operante em nossos dias. Para tanto, seria necessário que a teo-ria fosse largamente utilizada na orientação de trabalhos de investigação, constituindo-se em uma nova tradição de pesquisa. Por isso, também, seja possível afirmar que a ciência espírita, tal como antevista por Kardec, seja o maior caso de prematuridade científica já ocorrido e ainda não totalmente compreendido (Hook,2002).
Devemos reconhecer que as noções de fraude sempre estiveram fortemente arraigadas na mente da maioria dos pesquisadores das ciências psíquicas, por causa do vácuo teórico existente. Como não se acredita na explicação correta para a questão (a próprio princípio subjacente à teoria), a ideia da fraude será sempre a hipótese mais fácil. Seria como se, na ocorrência de um crime e da impossibilidade de se acusar o verdadeiro assassino, a investigação permanecesse no pesadelo eterno de se acu-mular fatos e provas e desenvolver explicações elabora-das que nunca chegarão à conclusão verdadeira. Assim, diante do caráter extraordinário de um fenômeno, a pri-meira explicação “de prateleira” disponível é considera-lo como fraude. Usando de uma comparação, vemos que vá-rios grupos modernos se empenham em demonstrar, por exemplo, que a descida do homem na lua (pelo caráter extraordinário e ocorrência única na história) tratou-se também de uma farsa. Aqui estão envolvidas as mes-mas forças psicológicas e limitações internas que levam a negar a fenomenologia psíquica passada. Por que não dançam novamente as mesas como elas fizeram no século 19? Por que o homem nunca mais voltou à Lua depois da década de 1970? A explicação mais fácil sempre será: porque foi tudo uma farsa . . .
É preciso considerar a propriedade e excelência do objeto proposto: o espírito. Tanto quanto nas ciências ordinárias considera-se a ocorrência de fenômenos obser-váveis como produto de causas inacessíveis, o espírito é a grande causa subjacente nos fenômenos onde ocorre manifestação de inteligência, sejam eles espíritas ou não. Assim, por meio de investigação acurada assumindo por princípio sua existência, a ciência espírita consegue fa-zer falar esse princípio, que é percebido nas entrelinhas das manifestações, no conteúdo de mensagem transpor-tado, na diversidade e quantidade de informações, nas peculiaridades ocultas que passam despercebidas e que permitem entender porque o fenômeno ocorreu desta e não daquela forma.
Jamais será possível desenvolver qualquer tipo de ci-ência limitando o seu objeto de estudo ao que é “palpá-vel” ou a sua parte fenomenológica. Dessa forma, qual-quer tentativa de reduzir o objeto de estudo proposto por Kardec à fenomenologia mediúnica está fadada ao fracasso, como atestam provas históricas bem conheci-das30. Por outro lado, o espírito tem grande afinidade
com outras áreas de investigação como a psicologia e a psiquiatria, a antropologia e a sociologia, além do im-portante ramo das ciências da comunicação (linguística, análise de conteúdo etc). De fato, a ciência espírita po-derá se beneficiar de um intercâmbio entre métodos de investigação, por exemplo, com as áreas de comunicação, aplicando processos bem estabelecidos de análise de texto e conteúdo às manifestações inteligentes (Berelson,1971). Até mesmo métodos da criminalística (Mena,2003) pode-rão ser futuramente usados na investigação espírita, uma vez que, quando se trata da elucidação de um crime, a “causa inteligente” frequentemente está oculta e se mani-festa através de inúmeras pistas espalhadas ao acaso, em quantidade limitada, que não se pode escolher ou repro-duzir à vontade. Seria ridículo duvidar da existência do assassino nesses casos, só porque ele não é diretamente acessível . . .
VIII
DISCUSSÃO FINAL
Imagine que fosse possível propor uma revisão radical no conteúdo de qualquer ciência estabelecida, em extir-par princípios e fundamentos com base em dúvidas su-postamente embasadas em nome de uma necessária “atu-alização” dessas disciplinas. Imagine atualizar trabalhos de cientistas como Newton, Einstein na Física, Lavoisier e Berzelius na Química, ou revisar totalmente obras de filósofos famosos de outrora como Platão, Aristóteles, To-mas de Aquino e muitos outros. Qualquer tentativa de se interpolar ou modificar trabalhos no passado sob a ban-deira de uma suposta atualização seria vista como um ato ridículo pela comunidade acadêmica, que não poupa-ria esforços para sua marginalização.
Em vão os pretensos revisores acusariam os acadê-micos de “dogmáticos”, pois a história da ciência está 30Como foi, de novo, o caso da Metapsíquica deRichet(1922). É bem verdade que a França ainda guarda um centro com nome fóssil daquela época, o Institut Métapsychique International, porém a pesquisa psíquica presente praticados nele se fundamenta largamente na Parapsicologia e não nas teorias de Richet. Ver:http://www.metapsychique.org/