LA CABEZA DE GOLIAT:
MICROSCOPIA DE UM CORPO BIOPOLÍTICO
Tese submetida ao Programa de Pós-graduação em Literatura, do Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina, para obtenção do Grau de Doutor em Literatura.
Orientadora: Dra. Liliana Rosa Reales.
Florianópolis 2018
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao CNPq por proporcionar as condições financeiras para a realização das atividades de estudo e pesquisa. Agradeço à CAPES pela bolsa de doutorado sanduíche, concedida através de Programa CAPES/CAPG Brasil-Argentina, que me permitiu realizar importantes pesquisas de campo no país vizinho e acompanhar as atividades acadêmicas na Universidad de Cuyo, onde fui recebido pelo coordenador argentino do Programa, Prof. Dr. Claudio Maíz a quem agradeço a sua recepção.
Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, aos funcionários da secretaria e aos professores, com quem pude manter relações de convívio e aprendizado. Agradeço também aos colegas de turma nas disciplinas cursadas, em especial, à Camila Bylaardt, Tiago Pissolati, e Rafael Alonso, com quem compartilhei momentos de estudo e amizade. Agradeço igualmente aos membros do Núcleo Juan Carlos Onetti de Estudos Literários Latino-americanos pelo companheirismo e pela aprendizagem obtida durante a realização das diversas atividades acadêmicas ali desenvolvidas. Agradeço especialmente à minha orientadora, professora Liliana Reales, pelos ensinamentos relacionados à teoria literária e à literatura latino-americana, bem como, aos relacionados à vida acadêmica e profissional.
Não posso deixar de agradecer aos profissionais que me auxiliaram durante a minha pesquisa de campo na Argentina, sobretudo, à Carina Rosa Cortez, bibliotecária da Hemeroteca da Facultad de Filosofía y Letras da Universidad Nacional de Cuyo, em Mendoza, e à Marta Suzana Ramirez, responsável pelo atendimento ao acervo da Fundación Ezequiel Martínez Estrada, em Bahía Blanca.
Agradeço aos meus pais, Marilene Schmitt Rodriguez e Ernesto Oswaldo Rodriguez Camacho, por sempre me apoiarem e possibilitarem as condições para que eu pudesse traçar esse percurso, me perdendo e me encontrando nos livros. Por fim, agradeço à minha namorada de tantos anos, Daiane Martins Freitas, sempre incentivadora.
Empezáis a estudiar y lo terrible es que no acabaréis nunca.
RESUMO
Esta tese toma como objeto central de investigação a obra do escritor argentino Ezequiel Martínez Estrada intitulada La cabeza de Goliat: microscopia de Buenos Aires, publicada em 1940 e a lê a partir das noções acerca da biopolítica trabalhadas por, e a partir de, Michel Foucault. Ao mesmo tempo, propõe a hipótese de que o desdobramento de tais noções manteria um vínculo com a crítica nietzschiana à metafísica do ocidente, esta compreendida como programa próprio do niilismo. Busca-se, portanto, abrir uma fenda que procure interpretar o texto estradiano como um testemunho que põe em evidência as consequências daquilo que o próprio autor argentino chamou de “vida artificiosamente regulada”. Dessa forma, a reflexão se mostrará atenta àquela política que se revela cada dia mais evidente, desde que passamos a nos dar conta de que a preocupação com a vida, que se estabeleceu como imperativo a partir das primeiras décadas do século XX, também promove um aniquilamento das forças poéticas do viver e do pensar.
Esta tesis toma como objeto central de investigación la obra del escritor argentino Ezequiel Martínez Estrada titulada La cabeza de Goliat: microscopia de Buenos Aires, publicada en 1940 y la lee a partir de las nociones acerca de la biopolítica trabajadas por, y a partir de Michel Foucault. Al mismo tiempo, sugiere la hipótesis de que el desdoblamiento de tales nociones mantendría un vínculo con la crítica nietzscheana a la metafísica del occidente, ésta comprendida como programa propio del nihilismo. Se busca, pues, abrir una brecha que intente interpretar el texto estradiano como un testigo que pone en evidencia las consecuencias de lo que el propio autor argentino llamó "vida artificiosamente regulada". De esta manera, la reflexión se mostrará atenta a aquella política que se revela cada día más evidente, desde que pasamos a darnos cuenta de que la preocupación por la vida, que se estableció como imperativo a partir de las primeras décadas del siglo XX, también promueve un aniquilamiento de las fuerzas poéticas del vivir y del pensar.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
MARTÍNEZ ESTRADA, UMA VOZ PROFÉTICA NA CIDADE . 29 CAPÍTULO I: ACEFALIA ... 41
1.1 Golias decapitado ... 41
1.2 - A cidade hospitalar ... 51
1.3 - Cidade mercantil (ou não?) ... 65
1.4 - Percalços de uma fundação... 74
1.5 - Uma máquina de lâmina fria ... 85
1.6 - A máquina da justiça, a justiça como máquina ... 91
1.7 – Acefalia e decapitação no discurso de emancipação... 97
CAPÍTULO II: CAMPO ... 104
2.1 – Platão, a cidade, e a cabeça de Golias de Martínez Estrada .... 104
2.2 – Cidade: espaço a ser desvelado como campo ... 116
2.3 – O caráter policialesco das disposições da cidade: o cão da polícia e o cachorro errante ... 124
2.4 – A cidade e a jaula ... 137
2.5 – Os homens e os pássaros ... 145
2.6 – Controle biopolítico: psiquiatria e civilização ... 154
CAPÍTULO III: EXPERIÊNCIA ESTÉTICA ... 163
3.1 – Os sentidos do citadino de La cabeza de Goliat ... 163
3.2 – Configurações da escrita e do pensamento ... 171
3.3 – Montagem como abertura ... 183
3.4 – Infância, criação poética e pedagogia ... 189
3.5 – Natureza, cidade e linguagem ... 197
3.6 – Estados de arrebatamento ... 206
3.7 – Pensamento, vida e escrita ... 214
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 226
O biopolítico desvelado por meio da consideração anacrônica e paradoxal... 226
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 237
ANEXOS ... 254
Anexo 1 - Visión nocturna de barrio pobre ... 254
Anexo 2 - La madre enferma duerme ... 255
Anexo 3 - Nietzsche, filósofo dionisíaco ... 256
Anexo 4 - Ciudad de dios, Ciudad de Dite ... 261
Anexo 5 - MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Martínez Estrada. El hombre que soslaya la muerte ... 272
Anexo 6 - Apostilla para la Relectura de Nietzche ... 284
Anexo 10 - NOGAL, Santiago Yole. Martínez Estrada. Carta de leitor ... 310 Anexo 11 - CORTÁZAR, Julio. Recordación de Don Ezequiel. .... 312 Anexo 12 - Derechos del hombre ... 314
INTRODUÇÃO
Em Maria com Marcel: Duchamp nos trópicos, ao comentar os distúrbios sócio-políticos do evento conhecido como “Semana Trágica de Buenos Aires”1, Raúl Antelo destaca o trecho de uma carta do artista
francês, hóspede da capital argentina naquele ano de 1919, onde se lê:
“Les soldats ici sont habillés à Allemande, de sorte qu´une des mes premières impressions ici a été de me croire prisonnier de guerre (...)” [Os soldados aqui vestem-se à maneira alemã de sorte que uma das minhas primeiras impressões aqui foi sentir-me prisioneiro de guerra (...)]. (DUCHAMP apud ANTELO, 2010, p. 35)
Por aquela época, Ezequiel Martínez Estrada havia publicado, na mesma cidade, o seu primeiro poemário, intitulado Oro y piedra2. No dia 30 de
junho de 1917, na revista Caras y Caretas3, assinava o soneto “Visión
nocturna de barrio pobre:”
Todo en esta calleja, donde se aúna el pavor de la sombra con el misterio, adquiere, por las noches, bajo la luna, aspecto de avenida de cementerio. Caserones antiguos, puertas cerradas que apenas se recuerda cuando se abrieron; quietud que atemoriza, y encrucijadas donde hablan los vecinos que se murieron;
1 Na semana do dia 07 de janeiro de 1919 ocorreu uma série de conflitos entre
trabalhadores e setores nacionalistas ligados ao governo do então presidente argentino Hipólito Yrigoyen. Nas palavras de Raúl Antelo: “um episódio inaugural do século XX e sua biopolítica de extermínio” (ANTELO, 2010, p. 35). Um estudo recente e detalhado sobre o tema é apresentado em: SILVA, Horacio Ricardo. Días rojos, verano negro: enero de 1919, la semana trágica de Buenos
Aires. Buenos Aires: Libros de Anarres, 2011.
2 MARTÍNEZ ESTRADA, Ezequiel. Oro y piedra. Buenos Aires: Nosotros,
1918.
3 A coleção da revista pode ser consultada no sítio da Hemeroteca digital da
Biblioteca Nacional de España:
http://hemerotecadigital.bne.es/results.vm?a=4080157&t=%2Bcreation&l=600 &l=700&s=0&lang=es – acessado em 10/05/2015.
esa humedad de musgo que el aire lleva; ese presentimiento de mala nueva que fluye de las cosas, y de las conjuras
de la sombra y de los árboles, y aquella extraña silueta femenina, de la guadaña,
que va tentando todas las cerraduras… (MARTÍNEZ ESTRADA, 1917a, p. 28)
Duas semanas antes, no dia 16 de junho, Caras y Caretas já havia publicado um outro poema de Martínez Estrada, o primeiro do jovem poeta a aparecer na revista, que se intitulava “La madre enferma duerme...”:
Ronda un búho remoto nuestro temor, hermano. Bate sus alas fúnebres un pájaro lejano.
-- Es un ascua de fiebre la rosa de su mano. Temamos esta noche, cuya quietud augura una gran soledad y una eterna amargura. -- Velemos esta noche, silenciosa y oscura. Aumentemos la luz, que adquiere tonos rojos. El espanto circuye mi corazón de abrojos. -- ¡Oh!, silencio: parece que entreabriera los ojos. Vaga en la habitación como un vaho funeral; Como la despedida de algún amor cordial. -- Toma un relieve trágico su rostro escultural. Siento temor de todo, siento temor, hermano, Esta noche. Me angustia una obsesión de insano. -- Calma es pulso y la fiebre disminuye en su mano. Ha tornado a dormirse, dulcemente. Quizás De ese sueño tranquilo no despierte jamás! -- Callemos. Ignoremos. ¡Nunca sepamos más! 4
4 Os dois poemas referidos, “Visión nocturna de un barrio pobre” e “La madre
enferma duerme”, não se encontram publicados em nenhum dos livros de Martínez Estrada, razão pela qual incluímos na secção Anexos as páginas digitalizadas da revista onde encontram-se os textos. Conforme: Anexo 1 e 2, respectivamente.
(MARTÍNEZ ESTRADA, 1917b, p. 50)
Desde os seus primeiros textos publicados, como podemos observar então, o polêmico autor que ocuparia o cargo de presidente da Sociedad Argentina de Escritores em duas ocasiões5 pintava com cores soturnas
aquilo que observava em seu entorno. Uma visão noturna de um bairro pobre onde uma estreita rua adquire aspecto de avenida de cemitério e uma agonia sentida pelos filhos na hora da despedida definitiva da mãe colocam o leitor naquela atmosfera sombria onde Duchamp sentia-se prisioneiro de guerra. No primeiro poema,a morte se anuncia, batendo às portas; no segundo, temos a descrição do temor pela perda, a angústia e a amargura.
Mais de vinte anos depois, Martínez Estrada escreve em La cabeza de Goliat:
Desde muy alto, una ciudad no difiere de un cementerio. El cementerio es una ciudad dentro de otra donde se hace simétricamente todo lo contrario. Pero la casa es una tumba, si la ciudad es un cementerio, y a la casa de los muertos corresponde la tumba de los vivos. Tumba-cárcel-ciudad: tal ha sido la filogenia de toda ciudad antigua. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 183)
5 Fundada em 1928, Martínez Estrada presidiu a associação num primeiro
mandato em 1933/1934, e em uma segunda ocasião ocupou o cargo entre os anos de 1942 a 1946. Conforme Christian Ferrer: “Leopoldo Lugones, un hombre ya consagrado, fue el primer presidente de la SADE, entre 1928 y 1932, con vicejefatura a cargo de Horacio Quiroga, fungiendo Espinoza de secretario de la entidad y Manuel Gálvez de tesorero. Luego estuvo a su frente, sólo por un año, el prolífico ex juez Arturo Capdevila, tres veces Premio Nacional de Literatura. El presidente subsiguiente fue Ezequiel Martínez Estrada, por espacio de doce meses, hasta marzo de 1934. Tenía por entonces treinta y ocho años y el puesto, una suerte de primus inter pares electivo, no era cosa nimia. La siguiente presidencia de la SADE, entre 1934 y 1938, le tocó al crítico literario Roberto Giusti, que en otros tiempos había fogoneado el nombre de Martínez Estrada en su revista Nosotros, distanciándose luego. Lo continuaron el poeta Enrique Banchs, entre 1938 y 1940, y el novelista Eduardo Mallea, de 1940 a 1942, y a este último lo sucedió Martínez Estrada, electo por segunda vez presidente de la entidad y eso por dos períodos seguidos. De modo que Martínez Estrada estuvo sentado en la silla presidencial hasta 1946.” (FERRER, 2014, p. 360, 361).
Cidade e cemitério, casa e tumba, vida e morte: temos aí instalado um problema que parece exigir uma reflexão atenta à bio(tanato)política. Ou seja, uma reflexão atenta àquela política que se revela cada dia mais evidente desde que passamos a nos dar conta de que a preocupação com a vida, que se estabeleceu como imperativo a partir das primeiras décadas do século XX, justifica também uma prática de extermínio.
Em Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I, na esteira das reflexões desenvolvidas por Michel Foucault acerca da biopolítica, Giorgio Agamben enfatizou o fato de que o desenvolvimento das tecnologias de disciplinamento dos corpos e regulação da vida tem na experiência dos campos de concentração o extremo de sua aplicabilidade. O mais importante para o filósofo italiano, portanto, foi perceber a estrutura jurídico-política do “campo” e assim examinar a matriz da política que, para além das ideologias e programas partidários, organiza nossas vidas. Por isso, enfatizou:
[...] o campo, como puro, absoluto e insuperado espaço biopolítico [...] surgirá como o paradigma oculto do espaço político da modernidade, do qual deveremos aprender a reconhecer as metamorfoses e os travestimentos. (AGAMBEN, 2010, p. 119)
Martínez Estrada construiu o seu conjunto de ensaios críticos sobre a ostentosa Buenos Aires da primeira metade do século XX percebendo, muito precisamente, o valor alto que o desenvolvimento da civilização cobra à cultura. A ideia de que a cidade guarda relações de filogenia com a tumba e a prisão nos faz pensar que o elogio exacerbado da liberdade pelos entusiastas do progresso pode ser, ao final, o ardil para uma aniquilação da verdadeira expressão de vida, se esta for entendida enquanto força poética alheia aos imperativos da pura práxis.
As reflexões em torno da biopolítica levantadas por Agamben revelam, justamente, que o “campo” não foi um trágico acidente de percurso no desenvolvimento da política moderna, mas que se constitui como o “nomos do espaço político em que ainda vivemos” (AGAMBEN, 2010, p. 162). Tendo em vista que Ezequiel Martínez Estrada publicou sua microscopía de Buenos Aires quase quatro décadas antes que Michel Foucault começasse a tratar do tema da biopolítica nos seus cursos no Collège de France, parece ser oportuno abrir uma fenda que procure interpretar o texto estradiano como um testemunho que põe em evidência as consequências daquilo que o próprio autor argentino chamou de “vida artificiosamente regulada” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 140).
La cabeza de Goliat é o segundo dos livros ensaísticos de Martínez Estrada. Publicado originalmente em 1940, encontra-se entre Radiografía de la pampa (1933) e Muerte y transfiguración de Martín Fierro (1948). Em comparação a estes outros dois importantes livros de ensaios, talvez, foi o que despertou menor interesse da crítica até o momento. Beatriz Sarlo, por exemplo, no seu renomadolivro Modernidad periférica6, tece
comentários sobre Radiografía de la pampa enquanto ignora a microscopia de Buenos Aires.
Acredito, entretanto, que o interesse pelo livro não deva ser justificado unicamente pelo fato de ter sido uma “obra esquecida”, que recebeu pouco prestígio da crítica. A motivação maior deve ser o fato de que se pode perceber ali a construção de uma reflexão crítica sobre a modernidade que exige ser lida em consonância com uma eminente perspectiva de análise das condições de existência de nossa contemporaneidade; perspectiva esta que parece ser imprescindível para a invenção de uma política que supere aquele quadro que predominou em todo o século XX e que ainda predomina; aquele quadro que entende a política exclusivamente como um campo de atividades administrativas, gerenciais, econômicas.
Nos dois poemas anteriormente citados vislumbra-se já a sensibilidade do poeta para o obscuro, ainda que talvez seja mais importante observar como mais do que uma descrição temática o que os textos parecem apresentar é uma sorte de resposta a uma invocação. Parece ser como se a linguagem poética fosse a expressão de um clamor das coisas mesmas: “esa humedad de musgo que el aire lleva; / ese presentimiento de mala nueva / que fluye de las cosas...”, assim como, “Temamos esta noche, cuya quietud augura / una gran soledad y una eterna amargura”. Esse procedimento, acredito, se mantémna construção dos ensaios da microscopía de Buenos Aires.
Se David Viñas pôde referir-se ao conjunto de ensaios de La cabeza de Goliat como sendo uma espécie de “colección de ‘instantáneas’” (VIÑAS, 1996, p. 153) temos de entender que essas instantâneas não são o resultado de uma simples operação técnica de registo da ordem da pura representação. As imagens construídas no conjunto de ensaios parecem, melhor, ser o resultado de uma paciente meditação. Como diz o próprio Martínez Estrada, no prólogo do livro, não foi outra a intenção do autor senão aquela de “traducir en el estilo de
6 SARLO, Beatriz. Una modernidad periférica: Buenos Aires 1920 y 1930.
pensar y decir [...] aquello que ha visto en la ciudad donde vive, pero en la que no nació ni quiere morir” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 12). Em uma entrevista sobre Radiografía de la pampa, ao comentar como se deu a ideia do livro, o ensaísta demonstra, uma vez mais, essa sensibilidade de quem está atento na escuta do que o seu entorno está a lhe dizer:
A indicación de Enrique Espinoza (Samuel Glusberg) a cuya invitación debo haber escrito la obra, estaba yo preparando un estudio sobre Sarmiento, del que La vida literaria, que dirigíamos juntos, publicó el artículo “Sarmiento a los ciento veinte años”. Cumpliríase en febrero de 1931 el aniversario de su natalicio. Releía, pues, el
Facundo, con asombro de lo que hallaba en él de
viviente y actual, no advertido antes, cuando acaeció la asonada del 6 de septiembre de 1930. Espinoza y yo anduvimos recorriendo las calles del centro, presenciando lo que yo vi como inundación de aguas turbias y agitadas. Tenía recuerdo aún fresco de las fiestas del Centenario, y de súbito tuve la impresión de que me encontraba retrotraído a veinte años atrás, como si ni yo ni lo que nos rodeaba hubiesen cambiado. El tiempo era un sueño. Este shock o trauma, me reveló una clave de interpretación, válida para la relectura del Facundo y para el texto en relieve y para el tacto, sistema Braille, que estaba presenciando. Mi impresión fue la de que recibía una revelación, como dicen los místicos, y que se me mostraba iluminado un pasado cubierto de una mortaja pero no muerto ni sepultado. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1969, p. 131)
Como se percebe, temos nesta confissão uma revelação que expõe de manifesto esse sentir poético construído na releitura incessante seja dos livros, seja das coisas em entorno(em última análise, também textos), que clamam por uma escuta quase sempre esquecida. Percebe-se, do mesmo modo, uma compreensão acerca do passado como sendo não uma história, mas um fantasma: “cubierto de una mortaja pero no muerto ni sepultado”. Martínez Estrada demonstra, portanto, que mesmo seus escritos ensaísticos se produzem como manifestação de uma expressão poética que se situa muito além de uma mera exposição de dados sobre
uma realidade particular. Seus ensaios são, antes, um exercício, uma experiência com a linguagem, nunca representações simbólicas.
No discurso fúnebre pela morte de Horacio Quiroga, destacava “el hermano menor”: “Él [Quiroga] nos ha enseñado que la sangre es la mejor tinta” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1937, p. 108); o que não pode nos remeter senão àquela sentença de Zaratustra na reflexão acerca “Del leer y escribir”: “Quien escribe con sangre y con sentencias, no quiere que le lean, sino que le aprendan de memoria.” (NIETZSCHE, 2009a, p. 52). Escrever com sangue, bem entendido neste caso, é escrever com pathos, sentindo efetivamente no corpo (que já é alma) as palavras que se imprimem.
Em consequência, o leitor que lê tais palavras sente, também, que está diante não de um relatório que pretende dar conta de uma realidade a priori das coisas-em-si, mas de um discurso que já é todo ele uma realidade e que põe em suspenso as estruturas que até então garantiam uma naturalidade das coisas. As sentenças surgem como flechas ao coração. Com relação aos sentidos, por exemplo, temos na microscopia de Buenos Aires: “El olor de Buenos Aires es como una droga anestésica” ou “la vista pierde su cualidad óptica para reducirse a una función compleja de espuela, rienda y freno”; e ainda, “el ruido es el cadáver del sonido”; (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 78, 73, 74).
Assim como a “inundación de aguas turbias y agitadas” (que Martínez Estrada diz ter visto nas ruas de Buenos Aires quando “acaeció la asonada del 6 de septiembre de 1930”) tais sentenças, como podemos notar então, estão construídas cheias de imaginação. Ainda assim, vale destacar, nesses últimos casos, que mais importante do que perceber o uso apurado dos recursos estilísticos, talvez, seja observar a direção paradoxal que as sentenças parecem apontar; pois que em realidade temos uma sonoridade que se configura como a morte do som, um olhar que antes de ser uma possiblidade de visão do desconhecido é um mecanismo de defesa limitador que enxerga somente o já conhecido, e, por fim, um perfume que ao invés de despertar e potencializar os sentidos os anestesia. A força de expressão das sentenças se comprova quando tentamos elucidá-las e não podemos senão empobrecê-las, tirar-lhes o brilho.
Martínez Estrada foi autor de poesias, contos e ensaios. Como já se sabe, o motivo maior para o estudo de sua obra, nesta pesquisa que ora se apresenta, é o livro ensaístico La cabeza de Goliat, que bem pode ser concebido como um conjunto de ensaios poéticos, pois que os textos, ali, estão mais carregados de pathos do que de logos. De tal maneira que, pode-se dizer, uma lógica do pathos atua sobre o poeta e se sobrepõe à
lógica dialética que comumente afeta e disciplina o saber. Nesse sentido, vale acompanhar as palavras que o ensaísta e poeta dedica a Nietzsche em um texto publicado no jornal La Nación no dia 15 de outubro de 1944, por ocasião do centenário de nascimento do filósofo dionisíaco:
Es la sabiduría de los silenos que vivían, sentían y razonaban en contacto pavoroso y orgiástico con la naturaleza y las divinidades desconocidas de la vida. Sin duda, merced a la aventura inaudita de Nietzsche estamos hoy mucho más cerca de la concepción trágica de Esquilo y de Eurípedes, con respecto a la estructura de un cosmos espiritual, que de la concepción no menos ingenua pero ya sin “pathos” de Aristóteles. Al silogismo que fríamente deduce de sus convencionales premisas un orden cerrado de explicaciones satisfactorias, opone Nietzsche la pasión, la ebriedad, el espanto y la alegría que recogieron los mitos y las leyendas. Considerada la cultura como un drama vivo del hombre histórico, Nietzsche le transfunde su “pathos” pánico o dionisíaco, y así la siente como parte inherente del destino del hombre y no como elaboración académica de un capítulo de la historia de la civilización7. (MARTÍNEZ ESTRADA,
1944, s/p)
Então, como se vê, o ensaísta parece compreender muito bem que guarda mais força imaginar que não estamos em contato com uma realidade que existisse de antemão; e que, portanto, para emergir qualquer realidade efetivamente luminosa, é necessário deixar-se ser arrebatado, entendendo a própria existência enquanto tragédia e paradoxo e não
7 O texto, consultado na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, se encontra no
suplemento de Artes-Letras. Intitula-se “Nietzsche, filósofo dionisíaco” e divide a página com outros dois textos que também dizem respeito à efeméride: “Nietzsche a lo lejos” de Francisco Romero e “El proposito de ‘Zarathustra’ de Jorge Luis Borges. Em 1947 Martínez Estrada publica pela editora Emecé
Nietzsche e em 1958 o reedita em Heraldos de la verdad: Montaigne-Balzac-Nietzsche pela editora Nova. Em 2005 a editora Caja Negra publicou novamente
o ensaio com o título Nietzsche, filosofo dionisíaco, e com prólogo de Christian Ferrer. Ainda assim, como nunca se publicou esse texto que é o embrião do ensaio maior publicado nas edições aqui citadas, pensei oportuno fazer a transcrição do mesmo e disponibilizá-lo na secção Anexos. Conforme: Anexo 3.
enquanto história e ortodoxia. Ou seja, entendendo que o saber se dá pelo confronto e que não é nunca uma linha reta a ser percorrida. Como todo parto, sempre que algo vem à luz, vem com pathos, pois que todo canto de liberdade é também um canto de dor.
Em uma de suas Coplas de ciego, escreve Martínez Estrada: “Existen: la fantasia, / la pasión y la belleza / El resto es mitología.” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1968, p. 12). E já em 1918, no primeiro livro publicado, se podia ler no poema “Agilidad espiritual” a recomendação aos “Laboriosos del pensamiento”:
¡Tended los alambres al viento, danzad como Nietzsche quería, bajo el gran sol padre del día, acróbatas del firmamento!
(MARTÍNEZ ESTRADA, 1947a, p. 11)
A experiência do pensamento é, portanto, uma experiência com a poesia; é uma oscilação; é um labor, mas não um trabalho, no sentido de execução de tarefas demandadas. Pode-se sugerir, então, que a experiência do pensamento é um exercício, um manter-se ocupado; não a negação do ócio, mas a dança que preenche por seus movimentos o lugar, fazendo emergir aquilo que logo reconheceremos como real.
No século XIX, antes da publicação dos Pequenos poemas em prosa de Charles Bauldelaire (1869), Edgar Poe já havia dado a conhecer Eureka: um poema em prosa (1848). No prefácio dedicava a obra aos “que confiam nos sonhos como as únicas realidades” e o apresentava como “um produto da Arte apenas: como um Romance, digamos; ou, se não for muita pretensão”, dizia, “como um Poema” (POE, 1986, p. 19). Além de atentar contra as limitações correntes que separam estruturalmente os gêneros da poesia e da prosa, entretanto, o que parece ter sido mais decisivo para o autor foi a ruptura da distinção tradicional entre discurso de ficção e discurso de realidade, posto que também subintitulou seu Eureka de um ensaio sobre o universo material e espiritual. Considerava sua composição um poema e ao mesmo tempo um “livro de Verdades”. Em efeito o autor se propõe a “falar do Universo Físico, Metafísico e Matemático; do Universo Material e Espiritual; de sua Essência, sua Origem, sua Criação; de sua Condição Presente e de seu Destino” (POE, 1986, p. 21). E de fato o texto exibe e discute complexas teorias astronômicas de Newton, Laplace e Kepler. Ao mesmo tempo, todavia, logo no início do ensaio apresenta-se ao leitor “um ou dois trechos de uma carta bastante notável que parece ter sido encontrada
dentro de uma garrafa, a boiar no Mar Tenebrarum [e que - continua o autor do ensaio -] parece que foi escrita no ano dois mil, oitocentos e quarenta e oito” (POE, 1986, p. 24). Os trechos trazem uma crítica à tradição do pensamento do ocidente, fazendo alusões por meio de metáforas à Aristóteles e Francis Bacon. Começa a transcrição da referida carta com as seguintes palavras:
“Você sabia, meu caro amigo”, diz o autor, dirigindo-se, sem dúvida, a um contemporâneo. “Você sabia que foi somente há oitocentos ou novecentos anos que os metafísicos consentiram em libertar as pessoas da singular fantasia de que existem apenas dois caminhos para se chegar à
Verdade? (POE, 1986, p. 24)
Serão criticados, então, os métodos dedutivo e indutivo, mas não apenas pela debilidade e falta de consistência de suas proposições senão por suas consequências e tendências ao fanatismo, à intolerância e à tirania. Lê-se logo após ser apresentada a crítica:
Se discuto com esses antigos – continua o autor da carta -, não é tanto por causa da transparente frivolidade de sua lógica – a qual, falando com franqueza, carecia de base, de valor e era absolutamente fantástica -, é por causa de sua pomposa e presunçosa proscrição de qualquer
outro caminho à Verdade que não fosse uma das
duas trilhas estreitas e tortuosas: a do arrastar-se e a outra, do rastejar, às quais, em sua perversidade ignorante, ousaram confinar a Alma, que nada ama tanto quanto voar por aquelas regiões de ilimitável intuição, onde absolutamente não se atenta às
trilhas. (POE, 1986, p. 31, 32)
O que essas fantasiosas verdades pareciam apontar era para a necessidade de se dar início ao combate contra o mundo de pragmatismo que imperava naquele então. Possivelmente a sentença mais conhecida do ensaio seja aquela que diz: “O Universo é uma trama de Deus” (POE, 1986, p. 124). Uma trama de Deus (a plot of God) é para o autor a perfeição da trama: onde o arranjo dos incidentes não permite “determinar, sobre qualquer um deles, se depende do outro ou se o sustenta” (POE, 1986, p. 124).
Entender o Universo como uma ficção movida fora da lógica da causalidade é algo que, parece, ocorreu também ao pensamento de
Nietzsche. Heidegger, ampliando o conceito de arte e de obra de arte “a todo poder-produzir e a tudo o que é essencialmente produzido”, destacou a sentença nietzschiana do livro póstumo A vontade de potência que definia: “O mundo como uma obra de arte que gera a si mesma” (HEIDEGGER, 2010, p. 65, 66). Para Duchamp, ao que tudo indica, o tema igualmente se fazia presente, posto que em 1913, apontou numa nota a questão retórica que indagava “¿Se pueden hacer obras que no sean de ‘arte’?” (DUCHAMP, 1978, p. 89). Vamos nos encaminhando para aquele campo de entendimento onde tudo torna-se desde sempre artifício e onde já não existem fatos, mas tão somente interpretações. Perguntas como “onde estão as provas?” e “quais são os métodos?” adquirem pouca importância frente àforça que pode emanar da combinação dos arranjos. Os dois poemas de Martínez Estrada que copiamos no início desta Introdução já nos faziam lembrar do autor de O corvo pela obscuridade, pela incerteza e, ao mesmo tempo, por um certo presságio que se anuncia. Em Humoresca, seu quinto livro de poesias, publicado em 1929, Martínez Estrada dedicava dois breves poemas a quem disse, então, considerar “... maestro / de nombre al par siniestro, / misterioso y celeste” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1947b, p 290)8. Em um ensaio posterior, já na década, de
1950 dirá: “Poe razona sus visiones porque las vive, las tiene ante sí como imágenes reales de un mundo que el comercio no ha podido transformar en mercancías”9 (MARTÍNEZ ESTRADA, 1957a, p. 24).
Para Martínez Estrada, veremos, as visões de seu raciocínio são também imagens reais que ele as vive, porque, como o autor do ensaio sobre o universo material e espiritual, ele as intuía. Ou seja, Martínez Estrada não constata uma realidade por meio de deduções lógicas, ele não estava disposto a deixar-se cegar pelo antolho que o mundo tecnificado deseja impor a todo momento; ele buscava, melhor, considerar, criar
8 Os versos fazem parte de um conjunto de poemas intitulado Tres estrellas de la
Osa Menor: Ralph Waldo Emerson. Edgar Allan Poe. Walt Whitman. Apareceu
originalmente em La Nación, Buenos Aires, 11 de maio de 1924. Ver: ADAM, Carlos. Bibliografía y documentos de Ezequiel Martínez Estrada. La Plata: Universidad Nacional de La Plata, 1968. p. 40.
9 O ensaio referido intitula-se Balzac, Poe y Dostoiewski. Apareceu no número 7
da Revista do Livro no mês de setembro de 1957. A Revista do Livro foi uma publicação do Instituto Nacional do Livro, órgão que então fazia parte do
Ministério da Educação e Cultura do Brasil. O texto foi consultado no acervo de
periódicos do Núcleo de Estudos Literários e Culturais da UFSC. Registro aqui o meu agradecimento; sobretudo, ao colega José Virgílio, quem me atendeu de forma muito solícita.
constelações. Por isso seus ensaios são poéticos e por isso, somente por isso, pode ser chamado de profeta. Não se trata de prever acontecimentos futuros por meio de projeções baseadas em dados e estatísticas, mas de abrir campos de possibilidades fazendo estremecer as estruturas do presente. A esse respeito, bem fala Blanchot:
Cuando la palabra se hace profética, no se da el porvenir sino que se retira el presente así como cualquier posibilidad de presencia firme, estable y duradera. Incluso la Ciudad eterna y el Templo inderrocable de repente se ven – increíblemente – destruidos. (BLANCHOT, 1992, p. 91)
Nesse sentido, as palavras de Martínez Estrada são também escandalosas, ofendem, são um ataque, ainda que, muitas vezes, sendo tão simplesmente pedras no meio do caminho. As imagens da narrativa bíblica de David contra Golias não aparecem sem razão: o poeta e ensaísta faz da sua literatura sua máquina de guerra, porque sente que se encontra sempre em batalha. Assim, as palavras de Deleuze quando procurou dar conta da irônica e impostora questão “Para que serve a filosofia?”, bem poderiam ser utilizadas para pensarmos o propósito dos amargos ensaios de Martínez Estrada:
serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas [...] Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e tolice que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos autores. Fazer enfim do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. (DELEUZE, 1976, p. 87)
Efetivamente, o pensamento poético de Martínez Estrada, seja expresso em forma de poesia ou prosa, tem a qualidade de dirigir-se ao contemporâneo, por isso busca ser intempestivo, mas não atemporal. É um pensamento político porque poético. E, paradoxalmente, de forma inapropriada seus textos fazem-se oportunos; não só para pensar os problemas da Argentina, mas também os nossos, os daqueles que se sentem ao mesmo tempo desterrados e cativos.
Se aquela voz do poema borgeano diz com assombro “A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: / La juzgo tan eterna como el agua
y el aire” (BORGES, 1974, p. 81), a voz do autor de La cabeza de Goliat ecoará sempre na direção contrária, tal qual um canto de desastre sobre a eternidade, para aquele que atento conseguir vislumbrar as imagens deslumbrantes e aterradoras sugeridas nos textos. No ano de 1927, dois anos antes de Borges publicar em Cuaderno San Martín a sua Fundación mítica de Buenos Aires, Martínez Estrada dá a conhecer em Argentina a sua Buenos Aires, antecipando muitas imagens da microscopia. Apresenta, então, uma variedade de cenas composta pelos elementos que alcança ver na delirante cidade, tais como: os corretores de Bolsa e empregados urgentes que passam precipitados; os letreiros luminosos, em azul e vermelho, no céu, estampando o pregão; o cemitério, a necrópole, onde se pode reconhecer a cidade em miniatura com suas tumbas fechadas; além de muitos outros que dão os contornos dessa forma informe que é a metrópole.
Na última seção do poema, a voz dos versos parece querer sugerir a ideia de que numa obra do escultor Pedro Zonza Briano encontra-se esculpida a própria desdita de Buenos Aires10:
Te cuajó para siempre Zonza Briano, en un bronce que grita,
repartido en la frente y en la mano justamente entre el dios y el troglodita. Gesto cabal el gesto
de macho y de toruno
que está ofreciendo ciento contra uno y todavía el resto.
10 Pedro Zonza Briano (1886 – 1941) foi um destacado escultor argentino que
desde muito jovem expôs suas obras em importantes galerias da França e da Itália. Aos 27 anos foi nomeado membro da Societé National de Beaux-Arts. Entre suas importantes obras encontram-se Cristo redentor, exposto no cemitério da Recoleta, o monumento à Leandro N. Alem, exposto no bairro de Retiro, além de
Creced y multiplicaos, talvez sua obra mais comentada. Infelizmente, até o
momento, não pude identificar a qual obra se refere o poema. Ideas y Figuras:
revista semanal de crítica y arte dedicou em 19 de setembro de 1913 um número
inteiro ao artista. A publicação pode ser consultada de forma digitalizada no
seguinte endereço eletrônico:
http://www.federacionlibertaria.org/BAEL/Archivo/retocadas/Images/Digitaliza ciones/Ideas%20y%20Figuras/Ideas%20y%20Figuras%20n%C2%BA%2097fla .pdf – acessado em 09 de julho de 2015
Un excesivo resplandor te ciega y en tu actitud de brío extraordinario eres, entero, el contendor que pega y simultáneamente el adversario.
(MARTÍNEZ ESTRADA, 1947c, p. 198, 199)
Podemos notar que essa Buenos Aires é híbrida, é heterodoxa; de eterno parece ter tão somente a insanidade insaciável de opulência a todo custo. O poeta das palavras parece perceber no poema em forma de pedra de Zonza Briano aquilo que o pensamento domesticado pela lógica da não contradição se nega a pensar: a possibilidade de que um mesmo corpo desgraçado desfira e receba os golpes ansiosos pela conquista. Em certa medida, os versos de Martínez Estrada não estão, com efeito, apontados contra aquela baixeza de pensamento de que nos advertia Deleuze, aquele pensamento “que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos autores”? Pois, se hoje Buenos Aires é metrópole, não foi ontem colônia? A que custo se levantam os monumentos à civilização? Quem os paga?
O tema de Buenos Aires aparece na poesia, na narrativa e nos ensaios de Martínez Estrada. E aparece também em carta, em carta ao general Pedro Eugenio Aramburu, que havia sido um dos articuladores para a queda de Perón e propulsor da autodenominada Revolución Libertadora. Em 1956 Aramburu era o então presidente da República, e Martínez Estrada escreve-lhe para pedir que “remedie el más crónico y grave mal que aqueja a la República” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956a, p. 95). Passados dezesseis anos da publicação de La cabeza de Goliat, seu autor segue acreditando que Buenos Aires não é só um problema para o país senão um tumor que pode e precisa ser extraído; expõe, então, com argumentos diversos a necessidade de se trasladar a capital do país.
É nesse sentido, que se percebe como os campos da ficção e da realidade já não guardam fronteiras para esse autor que parece conceber a história como uma sorte de fantasmagoria. Se Buenos Aires nem sempre existiu pode, então, deixar de existir um dia. Martínez Estrada, como leitor de Nietzsche, quer também “razonar con la piqueta de demoler” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956a, p. 96) e aconselha ao presidente da República a realizar nada mais nada menos do que o desmantelamento da cidade: “Desmantelar quiere significar asimismo que hay que recomponer al gigante decapitado” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956a, 99, 100).
Bem se pode notar, portanto, que Martínez Estrada concebe suas imagens com tamanho esplendor porque, ao final, também as vive. Não é verdade, então, que suas palavras buscam estremecer estruturas que, a
princípio, pareceriam inabaláveis? Não quer o seu pensamento, como assinalou Blanchot, fazer perceber a possiblidade de que inclusive a Cidade eterna e o Templo inderrocável podem ser colocados em questão? Em que medida não podemos pensar que essa cidade que é posta em causa na microscopía de Buenos Aires não é parte do resultado de uma catástrofe maior? E que por isso não manifesta somente um mal-estar argentino?
A hipótese que se levanta nesta tese é, justamente, a de que como pensamento poético a reflexão de Martínez Estrada é uma reflexão política que fala diretamente sobre o que talvez seja o mais importante para pensarmos o contemporâneo. Ou seja, em La cabeza de Goliat se expõe um problema que atravessa o desenvolvimento da política no ocidente desde quando esta passa a ser entendida como simples meio para a administração e regulamentação dos recursos que promovem e conservam a vida, a pura vida biológica das populações. Espera-se, portanto, haver estado atento na investigação para saber perceber os elementos que contribuíram na construção de uma reflexão tão aguda que, em certa medida, antecipa aquele quadro crítico exposto na segunda metade do século no diagnóstico de pensadores como Foucault, Agamben, Esposito e Sloterdijk. Ao mesmo tempo, espera-se refletir sobre a singularidade de Buenos Aires nesse contexto.
A presente tese consta de três capítulos. Os capítulos são compostos por um conjunto de textos breves que giram em torno de um tema comum. Por sua vez, os temas giram em torno de La cabeza de Goliat que serve de mote e sugestiona a reflexão do trabalho como um todo. A condição acefálica é o tema do primeiro capítulo; o campo como paradigma biopolítico, como nos fala Agamben, o tema do segundo; e, finalmente, a linguagem poética, como experiência que resiste e torna possível o pensamento além dos marcos impostos por aquela política que tudo transforma em mercadoria, encerra o percurso da tese.
No primeiro capítulo discorre-se, sob vários prismas, acerca da condição paradoxal de acefalia no mundo moderno e contemporâneo. Desde La cabeza de Goliat vai-se deixando com que a linguagem e o pensamento invadam outros campos que, de uma ou outra maneira, se mostram pertinentes para compreender até que ponto a reflexão de Martínez Estrada é atual e dispara uma série de problemáticas que dizem respeito não somente ao drama histórico-político argentino. A microscopía de Buenos Aires vai revelando, nas constelações que permite construir, o dilaceramento de um corpo que a biopolítica quer fingir não ver; o dilaceramento de um corpo que, sob o pretexto da conservação e
promoção da vida, encontra-se, em verdade, carente de força de expressão, e já é quase uma não-vida.
No segundo capítulo desenvolve-se uma reflexão que contempla o tema do campo, paradigma oculto do espaço político na modernidade como nos diz Agamben, a partir da profusão de imagens relacionadas que nosso ensaísta instiga a pensar em sua microscopía. Como tivemos a oportunidade de perceber já nesta introdução o tema aparece, por exemplo, na consideração sobre a necrópole como reflexo invertido e em escala reduzida da própria metrópole. Mas, sobretudo, veremos o tema desenvolver-se dentro daquela perspectiva que Duchamp alertara quando declarou sentir-se prisioneiro de guerra. Martínez Estrada insiste em diversos momentos sobre a questão do encarceramento, pois que estava convencido de que “toda la ciudad es una cárcel con presos tan dóciles que no necesitan del encierro individual, bastándoles saber, para quedarse conformes, que millones de otros están como ellos” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 119).
Por fim, no terceiro capítulo, tentamos perceber na própria linguagem poética que se manifesta na reflexão do ensaísta a força que, além de ser capaz de reconhecer o drama que nos acomete, é capaz de traçar linhas de fugas e estimular um combate que não caia nas armadilhas de um pensamento ainda refém das categorias que insistem em operar por meio das dicotomias.
Espera-se fazer de La cabeza de Goliat um dispositivo, uma máquina disparadora de motivos para a reflexão, uma sorte de platô para o pensamento. Como advertiu Georges Bataille em 1936, no primeiro número da revista Acéphale: “El pensamiento que no tiene por objeto un fragmento muerto existe interiormente de la misma manera que las llamas” (BATAILLE, 2010, p. 23). Essas chamas, acredito, é o que devemos buscar alimentar no exercício do pensamento, tendo em mente aquele fragmento de Heráclito que, apontando sempre para o devir das coisas, fala: “Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida” (HERÁCLITO, 1977, p. 38).
MARTÍNEZ ESTRADA, UMA VOZ PROFÉTICA NA CIDADE Ezequiel, no Antigo Testamento, é um dos profetas que levanta a voz invocando a Deus para maldizer e profetizar as catástrofes que acometerão às cidades que vivem pela prática do pecado e das abominações. Tanto Jerusalém quanto as cidades das nações vizinhas, inimigas do povo de Israel, estariam condenadas; a respeito da capital dos judeus, anuncia Ezequiel (5: 5-8):
5. Assim diz o Senhor Deus: Esta é Jerusalém; coloquei-a no meio das nações, estando os países ao seu redor;
6. ela, porém, se rebelou perversamente contra os meus juízos, mais do que as nações, e os meus estatutos mais do que os países que estão ao redor dela; porque rejeitaram as minhas ordenanças e não andaram nos meus preceitos.
7. Portanto, assim diz o Senhor Deus: porque sois mais turbulentos que as nações que estão ao redor de vós, e não tendes andado nos meus estatutos, nem guardado os meus juízos, e tendes procedido segundo as ordenanças das nações que estão ao redor de vós;
8. por isso assim, assim diz o Senhor Deus: eis que eu, sim, eu estou contra ti; e executarei juízos no meio de ti aos olhos das nações. (BÍBLIA SAGRADA, 2001, p. 773)
O ensaísta argentino, homônimo do profeta bíblico, é quem me faz lembrar dessa fúria que os profetas do Antigo Testamento desferiam às cidades. Faz lembrar pelo tom fatídico e irascível que seus ensaios também carregavam, e faz lembrar textualmente quando, em um artigo publicado no jornal “La Prensa” em agosto de 1956, advertia que existe uma lei própria dos profetas e uma lei própria das cidades; e apontava, dessa maneira, a encruzilhada: “Se cree en los profetas o se cree en las ciudades” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956b, p. 3). Naquela ocasião, destacou entre os profetas Isaías, Jeremias, Oséias, Amós, Jonas, Naum, e Sofonias, a figura daquele que leva em seu nome, conforme a etimologia, “a força de Deus”:
En esta prosopopeya [na tradição de discursos que maldiziam as cidades adjetivando-as como se
fossem pessoas] sobresale Ezequiel, quien descarga contra la ciudad las injurias que sólo pueden aplicarse a la gente perdida en profesiones infamantes, propias de la urbanidad o de la promiscuidad11. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956b,
p. 3)
Ezequiel Martínez Estrada nasceu em 14 de setembro de 1895, foi o primogênito do matrimônio entre Manuela Estrada, natural da Andaluzia, e Ezequiel Martínez, nascido na cidade de Pamplona. Seus outros dois irmãos se chamaram Carlos e Emílio. Os pais eram imigrantes vindos da Espanha naquele período da segunda metade do século XIX onde ocorre um aumento significativo da população argentina devido à imigração europeia; imigração, esta, motivada pela máxima de Juan Bautista Alberdi, autor intelectual da constituição de 1853, que dizia: “gobernar es poblar”.
Martínez Estrada não nasce na capital argentina, e sim em um pequeno município da província de Santa Fé, chamado San José de la Esquina, que se localiza a pouco menos de 400 quilômetros de Buenos Aires, ao noroeste. Tampouco faleceu, Martínez Estrada, na cidade que sugestivamente chamava de “la cabeza de Goliat”. No prefácio ao livro sobre a capital, em 1940, afirmava viver em Buenos Aires, mas confessava não haver nascido ali, bem como dizia não desejar ali morrer (MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 12). Veio a falecer em 1964 em Bahía Blanca, onde passou a residir desde o começo da década de 50. Na sua investida contra Buenos Aires, via, Martínez Estrada, uma esperança de melhorias com a transferência da capital para a cidade litorânea de Bahía Blanca. Numa entrevista publicada em seu livro Cuadrante del pampero, declarava:
Desde la asunción del peronismo, me retiré a vivir en Bahía Blanca. Ciudad de mucha fuerza y gran espíritu. He pedido al Gobierno Provisional que resuelva de una vez por todas el viejo pleito de Buenos Aires contra la República, federalizando a Bahía Blanca. Si obtenemos esta victoria, será una linda segunda parte de “La cabeza de Goliat”. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956c, p. 161, 162)
11 Conforme: Anexo 4.
Nunca veio a ocorrer o desejo de Martínez Estrada, ainda que não tenha cansado de advertir sobre os males que causavam a permanência de Buenos Aires como capital do país. Passados poucos meses do golpe de Estado que destitui Perón da presidência, em dezembro de 1955, escreve em carta aberta ao então presidente general Pedro Eugenio Aramburu: “Cuando una ciudad se convierte en boca que succiona la sangre de toda la nación, no sólo hay que pensar en desmantelarla sino en hacerla volar con dinamita” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956a, p. 99).
Aquela ira que se percebe no Livro de Ezequiel, o profeta, também aparece no ensaísta argentino. Pareceria que Martínez Estrada busca mesmo encarnar o personagem bíblico, ao fazer o diagnóstico e profetizar:
Trasladar al interior del país la sede federal y su séquito no significa ni mucho menos crear allende un nuevo pólipo urbano; peligro muy remoto si se trata de una zona de vida autónoma y aislada del influjo de atracción que toda metrópoli ejerce sobre la campaña. Tampoco significa que Buenos Aires pasara a ser en plazo más o menos breve lo que Pompeya y Herculano son. (Las ciudades pagan sus pecados como las personas.) Este proyecto tiende, en consecuencia, a salvar a Buenos Aires de su propia ruina, la cual es inminente y, por añadidura, prevista por nuestros profetas desde hace un siglo. Inminente e irremisible, porque según observación exactísima de un especialista en cultura de las ciudades, después de la etapa en que la metrópoli se convierte en Tiranópolis conviértese en Necrópolis (Pompeya, Nínive, Babilonia, Tel Halaf, al’Ubaid y ciento más). Hace apenas tres meses finalizó la etapa Buenos Aires – Tiranópolis. ¡Salvémosla de sí misma! (MARTÍNEZ ESTRADA, 1956a, p. 95, 96)
Os profetas a que alude o ensaísta são os intelectuais argentinos do século XIX, como Sarmiento, Mitre e Alberdi, que se posicionavam contra o poder excessivo que se outorgava a Buenos Aires nas tomadas de decisões que envolviam todo um país. Sarmiento chegou a imaginar a criação de uma cidade de nome Argirópolis - que se localizaria onde se encontra a Isla Martín Garcia, no rio da Prata, ao norte de Buenos Aires – para ser a capital de um novo país com o nome de Estados Confederados del Río de
la Plata, unindo a Confederação Argentina, o Paraguai e o Uruguai. A proposta buscava assegurar o progresso da região e pacificar o país argentino assolado pelos constantes conflitos entre os grupos políticos que se definiam como “unitários” e “federales”, e que divergiam justamente sobre o papel e a importância política de Buenos Aires na estrutura administrativa do país. O especialista da cultura das cidades a que Martínez Estrada faz referência é o historiador e sociólogo norte-americano Lewis Mumford. Com efeito, em seu livro La cultura de las ciudades (publicado originalmente em 1938, a versão em espanhol foi lançada em 1945 pela editora Emece, de Buenos Aires), Mumford expõe um ciclo de crescimento e decadência que tradicionalmente acompanham a história das cidades. Após o surgimento das comunidades organizadas em aldeias (Eópolis), da constituição de centros que aglomeravam essas pequenas aldeias (Pólis), e da formação de cidades que atraem uma maior concentração de negócios pelas vantagens do acúmulo de riquezas (Metrópolis), inicia-se um período de decadência que passa da fase “Megalópolis” à fase da “Tiranópolis”, e finalmente à “Necrópolis”. Sem dúvida, Martínez Estrada tinha em conta essa perspectiva quando pensou e desenvolveu a sua crítica à metrópole portenha.
De forma breve, vejamos algumas observações de Mumford sobre as três últimas fases que compreendem o período de declínio e decadência da vida social, política, econômica, e cultural das cidades. Sobre a “Megalópolis”, anotava o autor:
“Standardización”, sobre todo en términos pecuniarios, de los productos culturales en el dominio del arte, la literatura, la arquictetura y el idioma. La reproducción mecánica suplanta el arte original; la magnitud suplanta a la forma; el volumen suplanta al significado. Triunfo de la mecanización en todos los órdenes; pasividad; impotencia manual; burocratismo; fracaso de la acción directa. (MUMFORD, 1945, p. 117, 118)
Sobre a fase “Tiranópolis”, observava a seguinte situação:
Extensión del parasitismo por toda la escena económica y social: la función de gastos paraliza las actividades más altas de la cultura y ningún acto de la misma se justifica cuando no implica exhibición y gasto. La política se convierte en una competencia entre varios grupos para explotar el
tesoro municipal y el del estado. Se extirpan todos los órganos comunales de la vida cívica, excepto los del “estado”. […] Pérdida general del carácter. Tentativa para crear un orden mediante la acción militar externa: aparición de los
dictadores-gangsters (Hitler, Mussolini) con el consenso de la
burguesía: terrorismo sistemático ejercido por la guardia pretoriana. (MUMFORD, 1945, p. 119, 120, 121)
Por fim, na sexta e última fase, a cidade torna-se uma “Necrópolis”:
Las ciudades se convierten en simples revestiduras. Los que quedan en ellas no pueden costear los antiguos servicios municipales o mantener la antigua vida cívica: lo que queda de la vida es, en el mejor de los casos, una torpe caricatura. Los nombres persisten, pero la realidad se desvanece. Los monumentos y los libros ya no aportan significado alguno; la antigua rutina de la vida implica demasiado esfuerzo para que se pueda seguir viviendo como antes […] Las formas vivientes de la antigua ciudad se convierten en una tumba: la arena cubre las ruinas; así sucedió con Babilonia, Nínive y Roma. En pocas palabras, necrópolis es la ciudad de los muertos: la carne se convierte en cenizas y la vida en una columna de sal sin sentido. (MUMFORD, 1945, p. 122, 123)
Essas três caracterizações referentes ao período de declínio da vida nas cidades estão, de uma ou outra maneira, presentes nas reflexões do ensaísta argentino. Existe, portanto, na elaboração do pensamento de Martínez Estrada, uma confluência que faz coincidir os discursos místicos da fé com o saber que é resultado da reflexão e das pesquisas apuradas nos campos da história e da sociologia. Em La cabeza de Goliat, no ensaio sobre os “Estadios”, em que Martínez Estrada analisa o fenômeno dos espetáculos de massa desencadeados pela promoção dos jogos esportivos que se realizam em apresentações públicas, Mumford aparece citado: “El estadio, donde se reúnen las grandes multitudes para presenciar esos espectáculos es, lo mismo que la fuerza de la policía, uno de los estigmas característicos del régimen metropolitano” (MUMFORD apud MARTÍNEZ ESTRADA, 1970, p. 201). Espetáculo e policiamento, dois estigmas que marcam a vida nas metrópoles. Mumford parece ter sido
certeiro, pois adverte a qualidade de exposição que a metrópole configura, tema central em Guy Debord, bem como destaca a questão do controle social por meio da força policial no processo de organização das cidades, questão cara ao pensamento de Michel Foucault quando pensa a constituição da política moderna. Com efeito, em La cultura de las ciudades, no capítulo sobre “La formación y la decadencia de la Megalópolis”, Mumford trazia duas assertivas sobre a questão: “Puede describirse a la metrópoli como una Exposición Mundial permanente” e “Quizás por algo la palabra griega que designa a un policía significa ciudadano” (MUMFORD, 1945, p. 78, 83). Encontra-se aqui uma forma de compreender como o ensaísta argentino pôde ter uma compreensão tão aguda sobre o que então se insinuava e hoje se conhece como (bio)política, antecipando a contemponeidade.
Quando Martínez Estrada faz a crítica à metrópole, quando critica a forma de vida que ali se realiza, é a política que organiza essa forma de vida que se está pondo em questão. Portanto, o alvo que se ataca é o poder político que domestica e subjuga a força da vida que se coloca fora dos limites da norma institucionalizada. A cidade enquanto ponto de concentração máxima do poder político se apresenta como símbolo desse mesmo poder. Martínez Estrada critica a cidade, a pólis, porque ao final tem como grande alvo o poder político que reduz sua preocupação à administração dos recursos econômicos da sociedade. Por isso, vociferava, porque não podia aceitar que o país fosse “contemplado como una granja inmensa, de cultura extensiva”, e assim parecia ser aos olhos dos que tomavam as decisões políticas (MARTÍNEZ ESTRADA, 1983, p. 31). Isso Martínez Estrada expressa em um dos textos de Las 40. Em outro dos ensaios desse mesmo livro, publicado em 1957, evidenciava a tendência de se subjugar os aspectos da cultura aos interesses de mercado, o que mais uma vez conforma a ideia de que a política desencadeada pelos organismos estatais faz parecer natural que os únicos interesses devam ser os interesses de ordem econômica, material:
Del propósito de hacer fortuna y de aumentarla como único bien honorable – lo demás es cultivar las flores del mal – hemos caído en una sobrevaloración de la pitanza y en una infravaloración de la cultura. Peor: la valoramos por el provecho que de ello se extrae y ponemos en circulación una superestructura de la superestructura. Justicia, bienestar, saber, gobierno, respeto, todo se rige por los reglamentos
de las estancias, por el Manual del Estanciero. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1983, p. 22, 23)
Mais adiante temos de forma evidente a indignação do ensaísta com relação ao estado de coisas, ao mesmo tempo em que também se pode perceber o caráter anárquico e sua tendência ao autodidatismo:
Profesores y legisladores, decía, procuran el mejoramiento de la nacionalidad por los procedimientos de la zootecnia y la agrología. Patas cortas y caja robusta. Yo he tenido que abandonar las aulas estabulares donde se enseñaba la tecnología del porcino, pero no sociología, ni filosofía, ni pedagogía, ni ninguna de las “materias superfluas”, y ganar la calle para respirar. Aquí estoy. (MARTÍNEZ ESTRADA, 1983, p. 23)
Sem dúvida o discurso está construído por meio de metáforas, mas fica evidente, ainda assim, a crítica desferida ao fato de que os aspectos morais de uma nação são tratados com as mesmas técnicas que se utilizam para o aprimoramento das potencialidades dos animais domésticos e dos gêneros agrícolas. Percebe-se que tudo se encaminha para uma compreensão que condiciona os assuntos de ordem espiritual conformando-os à lógica própria do desenvolvimento da vida puramente biológica. A vida dos homens em comunidade é, dessa maneira, apreendida por uma compreensão da vida que remete às condições do fluxo vital dos animais e das plantas. Para poder sentir o esplendor da vida fora desses limites faz-se necessário abandonar os espaços institucionais que procuram a todo custo a domesticação.
Um depoimento dado pelo autor em uma entrevista poucos meses antes do seu falecimento aponta para o caráter de rebeldia frente ao domínio institucional, bem como, indica sua tendência para o autodidatismo e a aptidão para abrir caminhos; características dos espíritos livres, conforme a expressão que Nietzsche gostava de usar para contrapor sua postura em relação aos livres pensadores. Em poucas palavras: de um lado estariam os que procuram superar o homem, almejando, portanto, o além-homem, e de outro lado os que buscam aprimorar as condições de vida domesticada. O testemunho de Martínez Estrada é uma lembrança dos tempos da escola, uma má recordação marcada por um desentendimento entre o aluno e o seu professor. Tinha quatorze anos:
y era un aluno brillante. Pero no soportaba las Matemáticas. Las palabras ofensivas de aquel hombre me conmocionaron. Volví a casa y le dije a mi padre que ya no estudiaría nunca más. Fue una escena espantosa. Mi padre se indignó, amenazó con encerrarme en el Ejército o en alguno otro cuerpo disciplinario. Ese día me marché de casa, ese día abominé de las enseñanzas que tuviesen algún fin utilitario. Pero creo que después llegué a ser un buen profesor. (MARTÍNEZ ESTRADA apud MARTÍNEZ, 1964, p. 36)12
Desde pequeno, portanto, teve uma aversão pelo utilitarismo em questões de ensino e aprendizagem. Não podia suportar a ideia de que esse campo da condição humana fosse posto em conformidade com a lógica do pragmatismo, numa esfera de rendas e benefícios.
Martínez Estrada trabalhou no “Correo Central de Buenos Aires” de 1914 até 1946. E de 1924 até 1945 também exerceu a função de professor de Literatura no “Colegio Nacional de La Plata”. É seguramente a partir dessa experiência em La Plata que pôde dizer acreditar ter chegado a ser um bom professor. Nesse sentido, é interessante acompanhar algumas palavras que o ensaísta expõe em um dos textos de Exortaciones (1957) chamado precisamente “Consejo a los estudiantes”:
Sólo cuando os sintáis cautivos de una divinidad casi infernal, exigente, acuciosa, estaréis en disposición de ascender y de ir lejos. Si no os invade y señorea ese daimon, estáis perdidos, aunque estudiéis.
A mi juicio, estudiante es el que sufre o adolece de una especie de mal sagrado o fatalidad infortunada que consiste en no estar satisfecho con las razones que recibe de cualquier fuente de información y explicación, el que en sí mismo encuentra dificultades para interpretar y asir los enigmas que lo rodean y que por lo tanto no se satisface con sofismas circunloquios. Especie de ser sediento,
12 A entrevista foi publicada na Revista Primera Plana de Buenos Aires sob a
forma de uma matéria jornalística assinada pelo redator Tomás Eloy Martínez. Como se trata de um texto não publicado em livro, disponibiliza-se agora ao final da Tese, na secção Anexo: Conforme: Anexo 5.
ese estudiante, hidrópico, insaciable, voraz, omnívoro, canibalesco. El que padece una pasión en ocasiones furiosa por saber, por comprender, por leer, por mirar, por escuchar, más insaciable y molesto que los niños que preguntan siempre. Pasión tan despótica e irreflexiva – estuve por escribir irracional – que priva a la víctima de apetito, de sueño, de solaz. Es peor, si puede serlo, que estar enamorado. No se vive sino para ese dios, para ese afán, llámesele cultura o ideal; para ese afán que se convierte en una necesidad y una costumbre como toda enfermedad verdadera. Quien siente esa desazón que puede acometer de pronto e inesperadamente, por ella abandona padres y hogar. (MARTÍNEZ ESTRADA, 2007, p. 136)
A atividade própria dos estudantes adentraria, assim, o campo do divino. De maneira que o labor intelectual se retira daquelas condições de interesse da vida prática. Para o crítico da cidade, e do poder estatal, o pensamento participa de uma esfera que rompe com a lógica logocêntrica que permeia a estrutura das condições do poder das instituições do Estado. Por isso, indagava: “Sin ese fuego sagrado, sin esa pasión, sin esa locura, ¿qué se puede aprender y saber?” (MARTÍNEZ ESTRADA, 2007, p. 137). Todo o esforço do ensaísta é, então, carregado dessa torrente de alucinação criadora que quer fazer desmoronar os imperativos de submissão e as artimanhas para a domesticação da vida.
A ênfase em um estilo discursivo próprio dos profetas – diversos ensaios do autor carregam já no título a marca dos textos bíblicos, por exemplo, “Nueva epístola a los romanos”, “Sermón en el desierto” e “Segunda epístola a los romanos”, todos do livro Exhortaciones (1957) – se explica pela compreensão singular que o autor tinha a respeito do cristianismo. É num ensaio publicado na revista Sur, sob o título “Apostilla para la relectura de Nietzsche”, que essa compreensão se faz notar e se esclarece o inusitado de Martínez Estrada ao conjugar o estilo nietzschiano de filosofar a marteladas e o tom religioso de suas admoestações. Ao comentar a interpretação nietzschiana acerca da moral de escravos que recairia sobre o cristianismo, Martínez Estrada fazia lembrar:
Lo que Nietzsche denuncia en Cristo como a un Sócrates encubierto bajo la túnica sacerdotal es
exacto, pero no es toda la verdad sino su parte más deleznable y adscrita. Había en el cristianismo, frente al elemento apolíneo helenístico, un fermento semítico que proviene directamente de la Biblia y no de los Diálogos: el cristianismo profético, con su moral salvaje y su visión demoníaca del mundo y de la historia. […] Porque hay un cristianismo popular, herético hoy, antisocrático, el de Kierkegaard y Dostoiewsky, que es prolongación anacrónica de la antigua fuerza dionisíaca, creadora de ebriedad orgiástica en la mente y de música en el cuerpo, tal como Nietzsche la concibe en El Origen de la Tragedia […] En ese sentido el cristianismo no ha contribuido a racionalizar el mundo que vivimos, a establecer el imperio de las ciencias físicas y naturales, a someter al hombre a las potestades infernales de las grandes urbes industriales, sino que infiltró en la organización civil romana una levadura, un fermento caótico extraído directamente de la doctrina profética. Así lo debilitó; y el resto fue el proceso de reconstrucción del Imperio Político Romano como Iglesia13.
(MARTÍNEZ ESTRADA, 1950, p. 73).
Lidas com atenção essas observações revelam um entendimento bastante peculiar que acaba por demonstrar qual o alvo que Martínez Estrada buscava combater e quais os artifícios para esse combate. Não quer o ensaísta argentino desmerecer a análise nietzschiana, mas ratificá-la, ainda que por meio de uma retificação. Tal retificação traz à evidência o caráter dionisíaco que o cristianismo guardaria, “fermento caótico extraído diretamente de la doctrina profética”. A Igreja católica, enquanto instituição, guardaria relação estreita com o poder descendente do Império Romano, mas não o ensinamento mesmo das Escrituras. Na mesma entrevista antes mencionada, onde recordava o episódio trágico vivido na adolescência quando foi repreendido pelo professor escolar e pelo pai, Martínez Estrada diz ser “un cristiano fuera de la Iglesia” (MARTÍNEZ ESTRADA, 1964, p. 38).
Esse movimento que conjuga Nietzsche e o cristianismo também foi posto em evidência por Peter Sloterdijk, já num outro contexto, no final do século XX. Todavia esse contexto traz à tona também a crítica ao