ESHC019-17 - História do Pensamento Econômico
Quadrimestre: 3º. 2017 - Carga Horária: 48h
Recomendação: Pensamento Econômico e
Introdução à Economia
Prof. Maurício Martinelli Luperi –
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Aula 6 – O Subjetivismo Racionalista: A Economia de Bentham, Say e Senior
- Após a Revolução industrial e durante o século XIX, a intenda concorrência pelos lucros era sentida, de modo geral, tinham pouco ou nenhum controle pessoal as forças da concorrência do mercado eram vistas como leis naturais e imutáveis, inteiramente semelhante à leis da natureza.
Origens Sociais da Premissas da Teoria da Utilidade - Teoria do valor-trabalho X Teoria do valor-utilidade
- Os fundamentos intelectuais da teoria da utilidade são:
i) a consciência de condições humanas especiais, provocadas pelo modo de produção capitalista e
ii) a projeção universal ou generalização dessas condições como características profundas, inalteráveis e naturais de todos os seres humanos em todas as sociedades.
- Discutiremos cinco características profundas importantes do capitalismo e como elas têm sido percebidas pelos que seguem a tradição da utilidade em teoria econômica.
1ª) a especialização do trabalho e o isolamento dos produtores levaram os indivíduos a considerar-se não como parte integrante de um todo socioeconômico interligado e independente, mas como unidades isoladas, atomizadas, cada qual preocupada com sua própria sobrevivência contra as forças impessoais e imutáveis do mercado. Os indivíduos sentiam-se isolados e alienados, em sua condição de seres humanos; os outros não eram vistos integralmente ligados, como companheiros que compartilhavam a mesma natureza humana, mas, tão-somente, como muitas facetas, aspectos ou manifestações das forças impessoais de mercado (pensamento egoísta e combatente natural de seu semelhante – Thomas Hobbes);
2ª) aceitando o comportamento competitivo e egoísta da natureza humana, como é que os pensadores que seguiam a tradição da utilidade concebiam a base ou fonte essencial da motivação humana? Passaram a achar que todos os motivos humanos eram causados pelo desejo de obter prazer e de evitar a dor. Essa crença se chama utilitarismo e é a base filosófica do valor-utilidade e da moderna economia neoclássica;
3º) a especialização econômica criava, necessariamente, uma dependência completa, tanto individual quanto social, do funcionamento, com êxito, do mercado. Os produtores especializados não poderiam viver se não conseguissem vender suas mercadorias em troca de moeda e comprar a variedade de mercadorias de seus produtores especializados, necessárias para eles se manterem. Portanto, um mercado que funcionasse com relativa liberdade era parte necessária do modo de produção capitalista. Os economistas utilitaristas aceitavam o capitalismo como natural e eterno, melhor com o mercado que sem ele, visto como instituição social universalmente benéfica aos trabalhadores e a toda sociedade, o que garantia a harmonia social.
4º) o pré-requisito mais importante da especialização produtiva era a criação e a acumulação de ferramentas, maquinaria e fábricas novas e mais complexas, quer dizer, a acumulação de capital. Em qualquer sociedade, os próprios meios de produção só podem ser produzidos e acumulados se uma parcela significativa da capacidade produtiva da sociedade for destinada à produção dessas ferramentas e máquinas, em vez de destinar à produção de alimentos, abrigo, vestuário e outros bens de consumo. Portanto, a acumulação de capital – ou industrialização – exige que se abra mão de alguns bens de consumo, de outra forma, seriam produzidos; esse é um custo social universalmente necessário da industrialização. Isso quer dizer que os lucros tendem a aumentar em relação aos salários, a fim de que os lucros sejam suficientes para financiar a industrialização. Em todo o período da industrialização inglesa, os salários reais diminuíram em relação aos lucros, provando que os custos sociais da industrialização foram pagos pela classe operária. Os teóricos da harmonia social sempre aceitaram como certa a distribuição de renda entre as classes.
5º) à medida que o sistema de mercado capitalista foi se desenvolvendo, foi aumentando a concorrência entre os capitalistas. Auferir lucros não era um fato casual. Cada capitalista tinha de enfrentar concorrentes que queriam vender a preços mais baixos que os seus, coloca-lo fora do mercado e destruí-lo economicamente. A estruturação por partidas dobradas, sistemas complexos de contabilidade, leis de uniformização e codificadas de propriedade privada, compromissos contratuais e leis comerciais surgiram, de modo geral, no período inicial do capitalismo e eram indispensáveis na busca, pelo capitalista, de controle dos processos de produção e de troca. Todos os atos humanos passaram a ser vistos como consequência de decisões calculadas, racionais, nas quais o indivíduo agia de modo muito como um contador, ponderando todos os lucros (prazeres) e deduzindo todos os custos (dor) a serem acusados por esse ato e, depois, escolhendo racionalmente o ato que maximizasse o excesso de prazer sobre a dor.
- Desse modo, nos modernos livros neoclássicos de teoria microeconômica, todo comportamento humano se reduz a tentativas racionais de maximizar lucros ou a utilidade; e a maximização dos lucros reduz-se, com frequência, meramente, a uma forma indireta de maximização da utilidade ( embora esta palavra seja evitada, utilizando-se “ordenamento de preferências”).
- Esses cinco aspectos – o individualismo atomista, o utilitarismo egoísta, a dependência dos mercados, o financiamento da industrialização com os lucros e o racionalismo calculista – tornaram-se a base intelectual da teoria neoclássica da utilidade e da harmonia social em fins do século XIX e início do século XX.
- Bentham, Say e Senior formularam todas as ideias que economistas posteriores usariam para dissociar conceitos de harmonia social e benefício social do mercado da perspectiva do valor-trabalho.
Jeremy Bentham e a Utilidade
- Inglês.
- Influenciou mais fortemente 1770-1832.
- 1780 - trabalho mais influente: “An Introduction to the Principles of Morals and Legislation”.
- Embora não se trate diretamente de teoria econômica, contém uma apresentação bem elaborada da filosofia social utilitarista, que deveria se tornara base filosófica da economia neoclássica nas últimas décadas do século XXIX.
- No início do Capítulo 1:
“A natureza colocou a humanidade sob o domínio de dois mestres soberanos, a dor e o prazer. Só eles podem mostrar o que devemos fazer, bem como determinar o que faremos... Eles nos governam em tudo o que fazemos, em tudo que dizemos, em tudo que pensamos... O princípio da utilidade reconhece essa sujeição e a aceita como o fundamento (de sua teoria social)”.
- Com essa introdução, ele começou por afirmar que toda motivação humana, em todas as épocas e lugares, pode ser reduzida a a um único princípio: o desejo de maximizar a utilidade. “Utilidade quer dizer a propriedade de qualquer objeto que tenda a produzir algum benefício, vantagem, prazer, bem ou felicidade (tudo isso, no caso, equivale à mesma coisa) a impedir danos, dor, mal ou infelicidadeà parte cujo interesse esteja sendo considerado”.
- Segundo Bentham, todas essas motivações eram meras manifestações do desejo de prazer e de evitar a dor..
- Como a dor era meramente o prazer negativo, o princípio da utilidade de Bentham podia ser expresso também como “toda atividade humana é derivada do desejo de maximizar o
- Reduzindo todos os motivos humanos a um único princípio, Bentham achava que tinha encontrado a chave da elaboração de uma ciência do bem-estar ou da felicidade humana que pudesse ser expressa matematicamente e que pudesse, um dia, ser elaborada com a mesma exatidão que a ciência Física.
“Os prazeres... e a fuga à dor são... fins” – argumentava ele – que podem ser quantificados de modo tal que possamos “entender seu valor”.
- Bentham não se limitava a conceber seres humanos como maximizadores calculistas do prazer, vendo-os também como fundamentalmente individualistas “em todo coração humano o interesse próprio predomina sobre todos os outros interesses em conjunto... A preferência por si mesmo tem lugar em toda parte”.
- Ele acreditava que as pessoas também fossem essencialmente preguiçosas. Qualquer tipo de trabalho era considerado penoso e, por isso, o trabalho nunca seria feito sem a promessa de grande prazer ou de evitar dor maior.
“Aversão é a emoção – a única emoção – que o trabalho, considerado em si mesmo, é capaz de gerar... Na medida em que o trabalho seja entendido em seu sentido apropriado, a expressão do amor ao trabalho implica uma condição de termos”.
- Bentham foi um importante proponente da teoria do valor-utilidade:
“Os termos riqueza e valor se explicam mutuamente. Um artigo só entra na composição de uma riqueza se possui algum valor. A riqueza se mede de acordo com os graus desse valor.
Todo valor se baseia na utilidade... Onde não há utilidade, não pode havr valor algum”.
- Smith, Ricardo e Marx concordaram que o valor de uso era uma condição necessária para o valor de troca. Quando Bentham afirmou que “a riqueza se mede pelo grau desse valor”, estava falando a partir da perspectiva da teoria da utilidade, na qual o aumento de utilidade aumenta o valor de uma mercadoria e, consequentemente, aumenta a riqueza de seu dono.
- Bentham crítica o exemplo do diamante e da água, de Smith, e, consequentemente, chegou muito perto da elaboração explícita do principio da utilidade marginal, que mais tarde, deveria tornar-se o pilar da economia clássica:
- "O valor de uso é a base do valor de troca... Essa distinção vem de Adam Smith, mas ele não associou a ela concepções claras...
- A água foi o exemplo por ele escolhido do tipo de bem que tem grande valor, mas que não tem qualquer valor de troca. Para perceber como é errada essa afirmativa, bastaria que ele consultasse, em Londres, a Nova Comissão dos Rios e que se lembrasse de que, em Paris, ele vira água sendo vendida a varejo pelos que a levavam para as casas.
- Ele deu os diamantes como exemplo do tipo de bem que tem grande valor de troca e nenhum valor de uso. Esse exemplo foi tão mal escolhido como o outro...
- O valor (de uso) dos diamantes... não é essencial ou invariável como o da água, mas isso não é razão para se duvidar de sua utilidade para dar prazer.
- A razão pela qual não se acha que a água tenha qualquer valor de troca é que ela também não tem qualquer valor de uso. Se se puder ter toda a quantidade de água de que se precisa, o excesso não tem valor algum. Seria a mesma coisa no caso do vinho, dos cereais e de tudo o mais. A águia por ser fornecida pela natureza sem qualquer esforço humano, tem mais probabilidades de ser encontrada em abundância, tornando-se, assim, supérflua, mas existem muitas circunstâncias em que ela tem valor de troca superior ao do vinho".
- Assim, Bentham não só formulou os fundamentos filosóficos da tradição dos economistas neoclássicos, como também chegou muito perto de elaborar uma teoria da relação entre utilidade marginal e preço. - O desenvolvimento das suas ideias também foi importante para uma cisão na abordagem ortodoxa da economia baseada na utilidade.
- Em fins do século XVIII, ele era porta-voz ardente de uma política de laissez-faire, acreditando que o livre-mercado alocaria recursos e mercadorias da maneira mais benéfica possível. Em seus últimos escritos alterou fundamentalmente sua posição.
- Muda de posição, pois passa a ver como Malthus, que existe uma diferença entre poupança e investimento. Problema de demanda devido a frugalidade.
- A segunda motivação para intervenção do Estado era diminuir as grandes desigualdades de riqueza e renda. Quanto mais dinheiro uma pessoa possuísse menor a capacidade de desfrutá-lo. Isso ficou sendo conhecido depois como utilidade marginal decrescente. Nesse sentido, uma medida governamental que redistribuísse o dinheiro dos ricos para os pobres aumentaria a utilidade total agregada da sociedade.
- Bentham não era um defensor da completa igualdade. Acreditava que deveria chegar a um ponto de redistribuição em que seus efeitos benéficos seriam mais do que superados os seus efeitos prejudiciais.
Jean-Baptiste Say e a Utilidade, a Produção e a Distribuição de Renda - 1767-1832
- Dizia-se Discipulo de Adam Smith e que estaria apenas sistematizando suas ideias e corrigindo uns pequenos erros por ele cometidos.
- A correção desses pequenos erros, porém, acabou levando ao abandono de algumas ideias mais importantes de Smith e ao estabelecimento de uma base para uma tradição bastante diferente de teoria econômica.
- Disse um historiador: "Say colocou em ordem a teoria de Smith, da mesma maneira que uma esposa cuidadosa arruma as calças do marido, quando as vira de cabeça para baixo e tira todo o dinheiro dos bolsos. É muito mais seguro, assim. Desse modo, Say 'purificou' Smith de 'pensamentos perigosos".
- Na introdução a sua obra intitulada Um Tratado de Economia Política, Say elogiou Smith por suas contribuições à Economia Política e, depois, concluiu com uma passagem que é a chave para a compreensão de quase todos os seus escritos:
"Depois de ter mostrado... o progresso que a ciência da Economia Política deve ao Dr. Smith, talvez não fosse inútil indicar... alguns pontos em que ele errou.
Ele atribui a capacidade de produzir valores apenas ao trabalho do homem. Isso é um erro".
- Say afirmava que o preço ou valor de troca de qualquer mercadoria dependia inteiramente de seu valor de uso ou utilidade: "o valor de troca ou preço, é um índice da utilidade reconhecida de certa mercadoria".
- Rejeitando a noção de que o trabalho era fonte do valor e insistindo que a utilidade criava valor, Say não só se desviou visivelmente das ideias de Smith e de Ricardo, como também inseriu a orientação da utilidade no contexto de uma abordagem metodológica e de uma filosofia social, que mostram ser ele, juntamente com Nassau Senior, os mais importantes precursores da tradição neoclássica que veio a dominar a economia em fins do século XIX e no século XX. Nos escritos de Smith e Ricardo, está claro que as rendas do trabalho são fundamentalmente diferentes das rendas baseadas na propriedade dos meios de produção.
- Reconhecendo a fonte dessa diferença, eles foram levados a concluir que o conflito de classes caracterizava o capitalismo. Vimos, porém, que, quando eles retornaram à abordagem da troca ou da utilidade da teoria econômica, foram levados a concluir que o capitalismo de livre mercado era, intrinsicamente, um sistema de harmonia social.
- Say resolveu esse dilema rejeitando completamente a perspectiva da produção ou a abordagem da teoria do valor-trabalho em teoria-econômica. Com base nesse arcabouço de utilidade, apagou totalmente a distinção entre renda das diferentes classes sociais.
- Em ver de ver o processo produtivo como uma série de trabalhos humanos visando à transformação de matérias-primas em bens usáveis, Say garantiu a existência de diferentes “agentes de produção”, que se combinavam para produzir as mercadorias.
- O que esses agentes de produção estavam produzindo era, em última análise, “utilidade”, e cada agente era igualmente responsável pela produção da utilidade. Eles incluíam “a capacidade humana, com a ajuda do capital e dos agentes naturais e das propriedades” e, juntos, criavam “todo tipo de utilidade, que é a fonte primária do valor”.
- Em outras palavras, não havia qualquer diferença qualitativa, na criação de utilidade, entre, de um lado, o esforço feito no trabalho humano e, de outro, a propriedade de capital, terra e outras propriedades.
- Say procurou defender a semelhança essencial entre o trabalho e a propriedade, argumentando que as mercadorias “tinham valor por causa da necessidade de dar alguma coisa em troca de sua obtenção”.
- Só se conseguiam objetos de riqueza com sacrifício humano. O sacrifício feito pelos trabalhadores que produziam mercadorias era óbvio.
- Say queria mostrar que os donos dos meios de produção recebiam suas rendassem troca de sacrifícios semelhantes. Afirmou que a frugalidade era a fonte da propriedade do capital, que exigia tanto sacrifício quanto o trabalho.
“O capital ou a produção acumulada são meros resultados da frugalidade humana e da desistência de exercer a faculdade de consumir que, se plenamente exercida, teria destruído os produtos, tão logo eles tivessem sido produzidos, não podendo nunca ser propriedade de alguém, por isso, ninguém, a não ser quem tenha praticado esta auto negação, pode reivindicar o resultado da produção com justiça. A frugalidade pode ser comparada à verdadeira produção de mercadorias, e isto torna a posse destes produtos totalmente in questionável”.
- Tendo, assim, argumentado que o trabalho e a posse do capital envolviam sacrifício semelhantes e que trabalhadores e capitalistas tinham justificativas morais semelhantes para auferir rendas.
- Say foi um precursor da teoria neoclássica da distribuição, revendo inteiramente a relação que Smith e Ricardo tinham percebido entre distribuição de renda e valor das mercadorias. - Enquanto Smith e Ricardo argumentavam que os preços das mercadorias refletiam o nível
de salários e a taxa de lucro e que os salários e a taxa de lucro eram determinados por outras condições sociais e técnicas (isto é, a subsistência dos trabalhadores e a produtividade total do trabalho), Say argumentava que os salários e a taxa de lucro eram determinados pelas contribuições relativas para criação de utilidade, dadas pelo trabalho e pelo capital.
“o valor dos produtos não se baseia no valor do agente de produção (quer dizer, não se baseia
no lucro e nos salários), visto que alguns autores erroneamente afirmaram... visto que o desejo de ter um objeto e, consequentemente, seu uso se originam da sua utilidade, é a capacidade de criar a utilidade... que confere valor a um agente de produção, valor este que é proporcional à importância de sua cooperação na produção”
- Essa teoria da distribuição da renda tinha a vantagem ideológica de mostrar que todos recebiam como renda uma quantia que era determinada tão-somente pela importância de seus sacrifícios na criação da utilidade, de que se beneficiava toda a sociedade.
- Não só os lucros e os salários eram recebidos por razões muito parecidas, como também havia um importante senso de justiça social, na noção de que cada pessoa recebia da sociedade uma quantia determinada apenas por sua própria contribuição (ou de seu capital) para o bem-estar da sociedade.
- Com essa abordagem de teoria do valor e da distribuição, todas as noções de conflito de classes desapareceram.
- Quando essas ideias forem entendidas por quase todos, “as pessoas, mais esclarecidas quanto aos seus verdadeiros interesses, perceberão que esses interesses não entram em conflito com os das outras pessoas”.
- As ideias de Say estavam baseadas na aceitação irrestrita das relações de propriedade capitalista. Ele afirmou que a propriedade era “sagrada e indisputável” e que a questão de se “o verdadeiro dono... ou a pessoa que tivesse a propriedade a conseguira por ocupação anterior, pela violência ou pela fraude não fazia diferença alguma em termos de produção e distribuição de seu produto ou receita”.
A Lei dos Mercados, de Say
- Say acreditava na harmonia social, na auto regulação do mercado e no seu equilíbrio de pleno emprego. Apesar de Adam Smith e Bentham pregarem isso, essa situação passou a ser conhecida como Lei de Say: “uma oferta cria uma demanda da mesma magnitude”. Ou seja a oferta teria de ser igual a oferta agregada.
“se houver excesso de estoques de muitos tipos de mercadorias, será porque outras mercadorias não foram produzidas em quantidade suficiente.
A (mercadoria) vendida por um preço acima de seu custo de produção induzirá uma parte dos produtores da outra mercadoria à produção da... (mercadoria de maior preço), até os serviços produtivos receberem a mesma remuneração por ambas”.
A Orientação Social de Nassau Senior
- Nassau Senior (1790-1864).
- Como Bentham e Say, foi um importante precursor da moderna economia neoclássica. - Era advogado com grande interesse em questões sociais, econômicas e políticas.
- 1825 – foi nomeado primeiro catedrático de Economia Política da Universidade de Oxford.
- Antes de 1830, Senior era um homem politicamente conservador, com uma grande compaixão e uma preocupação bem intencionada pela classe trabalhadora.
- 1826 – Introductory Lecture on Political Economy. - 1828 - Two Lectures on Population
- Até essa época, mostrava otimismo quanto à classe trabalhadora.
- Ao contrário de Malthus, acreditava que os ganhos de produtividade poderiam ser acompanhados por aperfeiçoamentos morais por parte dos trabalhadores como uma esperança para eliminação da pobreza.
- Entretanto, suas ideias se modificaram a partir de 1830. Entre 1829 e 1842, a Inglaterra enfrentou longa série de dificuldades trabalhistas. A industrialização tinha reduzido a classe operária inglesa a um nível quase subumano de exploração e degradação.
- Surgiram organizações em defesa dos trabalhadores que sofriam severa repressão. Houve greves generalizadas, tumultos e sabotagem industrial, tudo isso assustou profundamente Senior.
- Senior, convenceu-se que as leis para os pobrese desempregados eram as principais causas da pobreza e uma grande ameaça a própria existência do capitalismo inglês.
- 1830 Three Lectures on th Rate of Wages, escrito após o “terrível outono de 1830”. No prefácio, argumentava que os capitalistas deveriam ter “um fundo para a manutenção dos trabalhadores” (conhecida depois como doutrina do fundo dos salários).
- Afirmava que esse fundo era determinado apenas pela produtividade do trabalho. Portanto, para melhorar o padrão de vida dos operários, seria preciso um aumento de sua produtividade ou uma diminuição do número de operários pelos quais fosse o dividido o fundo dos salários. - Senior afirmava que havia duas maneiras de aumentar a produtividade do trabalho: primeiro,
pela remoção de todas as restrições ao livre-comércio e à acumulação de capital e, segundo, pela abolição das leis para os pobres, que tinham “transformado os salários não em questão de contrato entre patrão e operário, mas em um direito de um e em um imposto sobre o outro”.
- No prefácio, está claro que Senior não estava mais preocupado com a miséria causada pela pobreza, mas com “a ameaça de uma classe operária ousada recorrer a greves, violências e combinações (sindicatos), uma ameaça aos fundamentos não só da riqueza, como também da própria existência”. - O grande perigo, na opinião de Senior, era que os sindicatos lutassem para manter e ampliar a noção
de que os salários deveriam refletir as necessidades da família de cada operário e não o livre jogo das forças da oferta e demanda.
- As leis dos pobres eram baseadas num sistema de remuneração familiar para os desempregados e carentes. Essas leis, segundo Senior, diminuíam o incentivo dos empregados para o trabalho e provocavam atitude arrogante dos operários, achando que suas famílias tinham direito a existir, mesmo que eles não encontrassem ou não pudessem encontrar emprego. Isso criou uma relação “que não era natural” entre capitalistas e trabalhadores.
- Senior argumentava que a ira, a arrogância e o fanatismo dos pobres, se não fossem contidos, acabariam levando a uma situação na qual “a renda, os dízimos, os lucros e o capital seriam totalmente consumidos e a pobreza levaria ao que poderia ser chamado de seus ‘efeitos naturais’ – pois eram os efeitos que, se não fosse contidos, seriam obrigatoriamente produzidos por elea – a fome, a peste e a guerra civil”.
A Metodologia Teórica de Senior
-1836 – Na Outline of The Science of Political Economy
- Ele achava que não existia controvérsia nas teorias de Economia Política, porque os economias se preocupavam com o bem-estar social e não meramente com a análise da riqueza.
- Para ele, proposições éticas não estavam sujeitas à confirmação nem refutação científica. Portanto, enquanto elas continuassem fazendo parte da teoria econômica, o progresso científico nunca poderia levar os teóricos a um acordo.
- Para que a Economia Política se tornar-se uma ciência, era preciso, primeiro, dela eliminar todas as premissas não científicas e éticas.
- Após essa eliminação, sobrariam alguns princípios empíricos e claramente estabelecidos da vida econômica. Então, pela lógica dedutiva, os economistas poderiam explicar cientificamente todas as implicações teóricas e práticas desses princípios empiricamente comprovados.
- Entretanto, o que se julga importante para construção de uma teoria, o que, porém, constitui um problema ou uma questão é um julgamento baseado nos valores do teórico. - Desse modo, os valores estão presentes na própria base do processo de teorização.
As Quatro Proposições Gerais de Senior
1. Todo homem deseja conseguir mais riqueza com o mínimo sacrifício possível.
2. A população do mundo... é limitada apenas pelo mal moral ou físico ou pelo medo de uma falta de produtos que os hábitos dos indivíduos de cada classe de seus habitantes os levam a querer.
3. Os poderes do trabalho e dos outros instrumentos que produzem riqueza podem ser indefinidamente aumentados se seus produtos forem usados como meios de produzir mais.
4. Mantendo-se a capacidade agrícola, um trabalho adicional na terra de determinado distrito produz, em geral, um retorno menos do que proporcional, em outras palavras, embora a cada aumento de trabalho o retorno agregado aumente, este aumento não é proporcional ao aumento de trabalho.
- Foi com base nestas quatro proposições supostamente despidas de valores, que Senior achava óbvias e cientificamente válidas, que ele tentou construir a ciência da Política Econômica.
Maximização da Utilidade, Preços e Superprodução, Segundo Senior
- Acreditava que a introspecção provaria que todo comportamento econômico era calculista e racionalista e, como Bentham, via esse comportamento como podendo ser reduzido, em última análise, à maximização da utilidade. Falava em maximização de riqueza, mas escreveu: Das... qualidades que tornam qualquer coisa um artigo de riqueza ou, em outras palavras, que lhe dão valor, a mais impressionante é o poder, direto ou indireto, de dar prazer. A utilidade... vem logo depois(na expressão dessa qualidade)”
- Tanto a primeira proposição como a terceira equivalem a simples maximização da utilidade. - Entretanto, Senior discordava de Bentham, pois este acreditava que, com o aumento da
riqueza ou renda, a utilidade de cada incremento sucessivo ou marginal diminuía.
- A utilidade marginal decrescente da riqueza era a base do argumento de Bentham de que, se fosse tirada riqueza das pessoas mais ricas de uma sociedade para ser dada às pessoas mais pobres, a utilidade social total aumentaria.
- Por outro lado, Senior afirmou que, independente da desigualdade de distribuição da riqueza, ‘ninguém acha que todas as suas necessidades estão plenamente satisfeitas... todo mundo tem alguns desejos insatisfeitos, que julga poder satisfazer com mais riqueza”.
- Além disso, “a natureza e a urgência das necessidades de cada indivíduo são tão variadas quanto as diferenças de caráter”. Portanto, não podemos fazer comparações entre indivíduos quanto ao grau de utilidade que eles possam extrair ou deixar de extrair de um incremento ou de uma diminuição de riqueza.
- Os preços refletem as utilidades que cada individuo extrai do consumo das várias mercadorias e não o trabalho a elas incorporado.
- Senior dizia que não podia haver a superprodução afirmada por Malthus, pois achava que o desejo de riqueza fosse insaciável.
As Ideias de Senior sobre População e Bem-estar dos Trabalhadores
- A segunda proposição de Senior quase que repete as ideias de Malthus.
Como Malthus, Senior achava que se o caráter moral dos pobres não fosse melhorado, a miséria seria sua sorte inevitável. Antes de 1830, porém, ele achava que o caráter moral dos pobres estava melhorando.
- Entretanto, em sua apresentação da segunda proposição, Senior ressaltou que a única alternativa do “mal moral e físico” no controle da população era o “medo da escassez”. Senior achava absolutamente necessário manter a classe trabalhadora vivendo sob constante e extremo “medo da escassez” e que as antigas leis dos pobres tinham diminuído esse medo, dando aos trabalhadores um nível mínimo de segurança.
- Sua objeção a isso e sua crença na importância de manter o medo e a insegurança extremos viriam a tornar-se base da Lei dos Pobres, de 1834, Senior, como Malthus, achava que, para atingir o objetivo último da sociedade, quase sempre era preciso sofrimento (inevitavelmente, eles achavam que eram os pobres que tinha de sofrer).
Acumulação de Capital e Abstinência, Segundo Senior
- A terceira proposição de Senior era, superficialmente, uma negação de que haveria retornos decrescentes na indústria.
- À medida que aumentasse o trabalho empregado na indústria, a produção de bens industrializados poderia aumentar, pelo menos proporcionalmente, e não mais do que proporcionalmente, dependendo dos produtos do trabalho serem acumulados como acréscimos ao estoque de capital, aumentando, assim, a produtividade do trabalho.
- Senior concordava com Say que o capital era produtivo, da mesma forma que o trabalho. Muitas vezes, ele argumentou como se o capital fosse tão produtivo quanto o trabalho para criação de mercadorias.
- Justificava os lucros, merecidamente recebidos pelos donos do capital, por sua abstinência. Apesar de em sua metodologia recusar valores morais.
- Assim, o capitalista se abstém do uso improdutivo de seu capital, e essa é a contribuição que lhe dá direito a receber lucro. Senior, como Bentham, pensava que o trabalho fosse penoso e que, portanto, precisasse de um salário para induzir o operário a suportar essa dor.
- Então, os capitalistas, como os trabalhadores, tinham de ser pagos para suportar a dor e, portanto, tinham de receber lucros. Não havia, assim, diferenças realmente importantes na natureza ou na justificativa dos salários e dos lucros.
- Apenas protegendo cuidadosamente os direitos de propriedade privada – e, com isso, protegendo o capital e os lucros – é que o governo poderia ter certeza de que as pessoas fariam abstinência, acumulando, assim, capital.
- A última e mais importante conclusão da terceira proposição de Senior era que só a acumulação de capital poderia assegurar a um país que sua capacidade industrial cresceria pelo menos mais rapidamente do que sua população. Assim, a fonte mais importante de prosperidade de uma nação era, afinal, a abstinência de seus capitalistas.
A Renda e a Distribuição de Renda entre Classes, Segundo Senior
- A quarta e última proposição de Senior parecia a mera repetição de Ricardo de que a produção agrícola estava sujeita a rendimentos decrescentes. Entretanto, os interesses de Senior eram muito diferentes de Ricardo.
- Senior não estava interessado no que acontecia quando “s hsbilidade agrícola se mantinha inalterada”.
- Como Malthus, destacou que a melhoria da habilidade agrícola que, para ele, mais do que compensaria os rendimentos decrescentes da produtividade que ocorreriam sem essa melhoria. Acreditava que essa melhoria tinha, de fato, resultado em rendimentos crescentes na produção agrícola da Grã-Bretanha no século anterior.
- Mais uma vez, a Grã-Bretanha devia sua prosperidade e a ausência de espectro ricardiano do estado estacionário aos efeitos positivos da abstinência e da acumulação de capital no setor agrícola da economia.
- A modificação introduzida por Senior na noção de renda diferencial foi o segundo aspecto importante em que diferiu de Ricardo, na formulação de sua quarta proposição.
- A renda da terra era definida por Senior como “uma vantagem derivada do uso de um agente natural, que não seja universalmente acessível”. Era um retorno de qualquer propriedade que tivesse poder de monopólio, porque o objeto possuído não podia ser livremente produzido. Esta não podia ser justificada moralmente.
- A parte mais importante, porém, da discussão da renda da terra, de Senior, foi sua afirmativa de que grande parte do que era normalmente chamado de salário e lucro incluía um importante componente de renda da terra.
- Argumentava ele que variações de fertilidade da terra não eram, em princípio diferentes de variações da capacidade produtiva dos trabalhadores ou das máquinas. - Isso era importante porque o passo inicial de uma cadeia de raciocínio pelo qual
Senior eliminou a distinção entre as rendas das várias classes, tornando todos os tipos de renda quase idênticos.
- Se as fontes de todas as rendas fossem idênticas, as características distintivas de diferentes classes se tornariam economicamente sem importância – e, eventualmente, os pensadores influenciados por Senior acabaram achando que o capitalismo era, em essência, uma sociedade sem classes.
- Essa foi uma formulação central na tradição da teoria econômica baseada na harmonia social, porque, se as distinções de classe fossem sem importância ou inexistentes, o conflito de classes também passaria a ser sem importância ou inexistente. Citação p. 142
- Senior achava que a diferença de classes era ilusória. “No estado natural”, a relação entre um trabalhador “e seu patrão é uma espécie de associação voluntária. Seus interesse estavam em harmonia e eram melhor promovidos por um mercado livre de proteção e pela proteção à propriedade privada.
Harmonia Social Versus Economia Política do Pobre
- A ideia de que os trabalhadores poderiam prejudicar tanto os capitalistas quanto os proprietários de terra era defendida pelas classes que pregavam a Economia Política do Pobre.
- A doutrina correta, para Senior, era que todos os interesses estavam em harmonia e eram promovidos por um mercado livre e pela acumulação de capital.