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Academic year: 2021

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Aspectos da visitação turística na comunidade paulistana

Paraisópolis.

Aspects of tourist visits in the community of Paraisópolis.

Adalberto Reis Borges de Jesus adalbertorbj@hotmail.com

Orientador: Leandro Rodrigues Gonzalez Fernandez

RESUMO: Esse artigo aborda o surgimento do turismo na favela Paraisópolis, localizada na zona sul de São Paulo, tendo como objetivo apresentar os principais pontos turísticos do local e, principalmente, analisar o roteiro desenvolvido nestes atrativos. A atividade ainda não está consolidada, mas já ocorrem visitas esporádicas e que acontecem graças a dois artistas locais e agentes externos que, juntos, são os principais atores envolvidos no desenvolvimento desta atividade. Através de pesquisas e observações feitas em campo foi possível descrever brevemente o local e fazer considerações acerca da atividade que vem sendo intermediada, conduzida e desenvolvida por agentes externos.

Palavras-chave: Paraisópolis; turismo; favela; São Paulo.

ABSTRACT: This article discusses the emergence of tourism in the Paraisópolis slum, located in the south of São Paulo, aiming to present the main sights of the place and especially to analyze the script developed in these attractions. An activity that is not yet consolidated, but sporadic visits already occur they happen because of two local artists and external agents who together are the main actors involved in the development of this activity. Through research and field observations, it was possible to describe briefly the location and make considerations about the activity that has been brokered, developed and conducted by external agents.

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1 Introdução

Este trabalho busca apresentar o surgimento da atividade turística na favela de Paraisópolis, apontando os principais pontos turísticos do local e, principalmente, analisar o roteiro desenvolvido nesta localidade.

O autor é morador de outra comunidade favelada da cidade de São Paulo, a Heliópolis e como estudante de turismo interessou-se por abordar o tema, visando desmistificar a imagem da favela como espaço apenas de conflitos. Pretendeu demonstrar a importância do assunto, contribuindo para os estudos do turismo praticado em favelas, a partir da comunidade de Paraisópolis. Busca-se com isso trazer uma contribuição ao meio acadêmico, já que são escassos os trabalhos que abordam a relação entre turismo e favela em São Paulo.

Este trabalho abordará um assunto novo para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, que permitirá ao mesmo avançar no processo de conhecimento da realidade das favelas paulistanas.

Os procedimentos metodológicos desenvolvidos neste trabalho foram: pesquisa na internet sobre notícias do surgimento do turismo em Paraisópolis, depois disso foi feito uma visita in loco para verificar realmente se e como as visitas aconteciam, logo após este processo foram realizadas duas visitas monitoradas concedidas pela guia Flavia Liz para fim de análise. Além de pesquisa de campo e leitura de texto na internet para observar o contexto social e histórico da favela. Além disso, foram usados como material bibliográfico, livros, artigos e dissertação de mestrado acerca dos assuntos turismo e favela.

Este trabalho primeiramente abordará o surgimento da atividade turística em favelas no Brasil, em seguida será feita apresentação dos principais atores envolvidos no surgimento da atividade turística em Paraisópolis, um breve histórico da favela, seu contexto social, estrutura, apresentação do roteiro, como ele é feito, conduzido e uma análise do mesmo, finalizando com algumas considerações acerca do tema.

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2 Turismo em Favelas

O surgimento da atividade turística em favelas no Brasil de forma organizada e intermediada por operadoras de turismo teve seu inicio em 1992, com a Eco-921, na favela da Rocinha2, situada na cidade do Rio de Janeiro (SERSON, 2008).

Esta atividade faz parte de uma nova modalidade do turismo mundial, o chamado “Reality Tour”.

Segundo a agência AFP3 (2006) esta atividade cresce a cada ano que passa, tem como característica peculiar levar os turistas a visitarem diversos destinos espalhados pelo mundo proporcionando-lhes vivenciar experiências autênticas, relacionadas à tragédia, pobreza, violência, etc.

Dentre esses destinos estão os campos radioativos de Chernobyl, o marco zero, em Nova York e favelas no Rio de Janeiro dentre outros.

Segundo Medeiros (2007) ao analisar os reality tours, a autora os divide em dois tipos ideais: “tours sociais” e “tours sombrios”.

Os “tours sociais” consistem na busca pela autenticidade e participação com os lugares visitados. A ONG Global Exchange4 foi a pioneira na comercialização dos reality tours. Em seu site a ONG aponta o tour como:

Reality Tours are meant to educate people about how we, individually and collectively, contribute to global problems, and, then, to suggest ways in which we can contribute to positive change locally and internationally.

Reality Tours offer participants an opportunity to journey to other countries to examine a situation first-hand, to see beyond what is communicated by the mass media. By joining us on one of these delegations, participants have the chance to learn about unfamiliar cultures, meet with people from all walks of life, and establish meaningful relationships with people from other countries. (www.globalexchange.org).

1

Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, na cidade do Rio de Janeiro com o intuito de debater os problemas ambientais.

2

A favela da Rocinha se localiza na zona sul da cidade do Rio de Janeiro próximo aos bairros Gávea e São Conrado.

3

AFP Agence France Press é uma agência de notícias francesa.

4

A ONG Global Exchange é uma Organização Não Governamental sediada na Califórnia, Estados Unidos da América.

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Esses reality tours realizados pela ONG Global Exchange têem como foco promover um turismo mais responsável e consciente, levando as pessoas a refletirem sobre os problemas globais, portanto pode ser considerado um tour social.

Já os “tours sombrios” apresentam atrações que envolvem visitas a locais onde ocorreram tragédias, mortes, atrocidades. Os campos radioativos de Chernobyl é um dos exemplos desse tipo de tour.

Sendo assim Freire Medeiros classifica o turismo na favela como uma mistura desses dois tipos de tour:

Argumento que a favela comercializada como atração turística condensa as premissas dos dois tipos de tours de realidade: ao mesmo tempo em que permite engajamento altruísta e politicamente correto, motiva sentimentos de aventura e deslumbramento. É a experiência do autêntico e do exótico, do risco e do trágico em um único lugar (Freire-Medeiros, 2007).

Mas ainda conforme estudo de Freire-Medeiros, observa-se que a atração pela pobreza não se trata de um fenômeno novo. A autora salienta que segundo o historiador Seth Koven (2004), a curiosidade pela pobreza se dava pela prática de Slumming. Uma atividade que esteve na moda nos bairros periféricos de Londres há dois séculos. “Em 1884, o Dicionário Oxford definiu o termo como a tendência a visitar as áreas mais pobres de diferentes cidades, seja com o propósito de fazer filantropia seja apenas por curiosidade” (FREIRE-MEDEIROS, 2009, p. 29).

Entretanto, a atividade turística em favela é muito polêmica devido seu caráter motivacional ligado a pobreza/miséria alheia. Há um debate que divide opiniões a favor e contra esta prática. Para seus defensores os argumentos utilizados estão relacionados ao desenvolvimento econômico da região, a desmistificação da imagem da favela como espaço apenas de conflitos e auto-estima dos moradores locais. Dentre esses defensores encontramos o projeto de lei, da vereadora Lilian Sá sancionado em 2006 que inclui a Rocinha entre os pontos turísticos da cidade do Rio de Janeiro:

A lei n. 4405/06 vai aumentar a integração social entre a cidade e a comunidade, já que vai ajudar a desmistificar a visão de que a Rocinha é um lugar exclusivamente de violência, e assim possibilitar maiores investimentos tanto do setor público quanto privado (Freire-Medeiros, 2009, p. 49).

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Os que vão contra argumentam o fato da atividade ser antiética por explorar a pobreza, uma prática voyeurista e que a distribuição de lucros é meramente insignificante para populações receptoras (WEINER, 2008 apud PREZZI, 2009). Na fala de um dos líderes comunitários na Rocinha é possível perceber o descontentamento com a distribuição de lucros: “Eles sobem no Cristo, pagam. Sobem no Pão de Açúcar, pagam. Sobem aqui, levam” (Freire-Medeiros, 2010). Esta fala mostra a indignação em relação como as agências exploram a atividade turística na Rocinha.

Passadas quase duas décadas depois de seu inicio, a atividade ainda causa muitas divergências conforme destacado no exemplo acima. O fato é que o turismo praticado na favela da Rocinha se tornou uma atividade consolidada e rentável, atualmente oito agências e guias particulares atuam e disputam este mercado que atrai em torno de 3.000 a 3.500 turistas por mês dispostos a pagar em torno de US$ 35 por um passeio que dura entre três e quatro horas. Segundo Freire–Medeiros (2007), os passeios são cada vez mais diversificados, dependendo da agência escolhida, os visitantes podem realizar o percurso a pé, moto, jipe ou van, com refeição incluída ou não, de dia ou à noite, durante o passeio os turistas tem contato com o comércio local tendo a possibilidade de adquirir produtos “by Rocinha”: camisetas, quadros, esculturas entre outros, visitas a creches em que os mesmos podem fazer doações, aluguel de lajes utilizado como mirantes para apreciar o mar de casa a seus pés.

Com base nesse sucesso da Rocinha, várias outras favelas estão buscando inspiração para desenvolver o turismo, como é o caso da favela paulistana Paraísopolis, assunto do próximo item.

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3 Favela de Paraisópolis

Atualmente a atividade turística praticada em Paraisópolis está sendo intermediada e organizada pela Personal Guide5 Flavia Liz e pela agência de turismo receptivo Around

SP. Em 2009, Flavia Liz lançou o site (www.uniqueinsp.com), onde é possível obter todos os detalhes sobre seus tours, um turismo cultural personalizado que abrange arte contemporânea, arquitetura, moda, design, observação de aves, arte de rua e favelas da cidade. Segundo Flavia Liz, ela é a precursora do turismo realizado em favela na cidade de São Paulo. O roteiro realizado em Paraisópolis pela guia é chamado Especial Paraisópolis, que no seu site recebe a seguinte definição:

EspecialParaisópolis

Na favela de Paraisópolis mora Estevão na sua Casa de Pedra. Conhecido como o “Gaudi brasileiro”, ele é um artista singular que tem o poder de expandir a visão do visitante sobre o uso de objetos do dia a dia. Outro artista de Paraisópolis é Seu Berbela que transforma magicamente elementos da sua oficina de carros em esculturas de surpreendente delicadeza e movimento (www.uniqueinsp.com).

Já agência de turismo receptivo Around SP promove esse tour há menos de um ano, todos os detalhes do passeio promovido pela agência podem ser encontrados no site, que descreve o roteiro como:

Visitar uma favela é uma oportunidade única para aprender algo mais profundo sobre a realidade brasileira, sua cultura e seus problemas. Favelas são lugares complexos, onde a alegria de pessoas criativas que anseiam por uma vida melhor convive com a falta de adequados cuidados de saúde, habitação e educação.

Nosso passeio tem lugar em Paraisópolis, uma favela central, em São Paulo, próximo ao bairro rico do Morumbi. Visitaremos o Rock House, casa do artista Estevão, conhecido como o brasileiro Gaudi. Estevão tem vindo a construir sua casa há mais de 25 anos e já ganhou inúmeros prêmios por sua arte. Ele é citado por especialistas como semelhante ao arquiteto Gaudi em Barcelona.

Também vamos encontrar o Sr. Berbela, um mecânico de profissão, que em seu tempo livre cria esculturas feitas de materiais de lixo e reciclado. Sr.Berbela se recusa a vender seus objetos e prefere dar suas esculturas para amigos e parentes.

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O termo Personal Guide é uma definição adotada por Flavia Liz, que na tradução livre significa guia pessoal.

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7 Na Favela de turismo também vamos andar pelas ruas de Paraisópolis e entrar em contato com seu povo, tradições, costumes e modo de vida (www.aroundsp.com).

Em ambos anúncios percebe-se que o roteiro se desenvolve em torno de dois artistas locais que através de sua arte contribuem para o desenvolvimento do turismo em Paraisópolis. Mas o primeiro anúncio foca mais a questão dos artistas de Paraisópolis, já o segundo enfatiza que visitar uma favela seria uma oportunidade única de entender melhor a realidade social brasileira.

Os dois agentes envolvidos com atividades turísticas em Paraisópolis trabalham em carro próprio, os tours têm duração de três horas, um serviço porta a porta onde o cliente é apanhado e devolvido no local indicado. O tour também pode ser agregado a outras atrações da cidade.

Antes de começar a discorrer e analisar o roteiro realizado em Paraisópolis será necessário fazer uma breve apresentação da comunidade.

3.1 A Comunidade de Paraisópolis, breve histórico

A Comunidade de Paraisópolis, pertencente ao distrito de Vila Andrade, localizada na zona sul da capital paulista, em conjunto com os núcleos Jardim Colombo e Porto Seguro formam o Complexo Paraisópolis.

Segundo a prefeitura de São Paulo (2005) o complexo Paraisópolis é considerado a segunda maior favela da cidade de São Paulo, com uma área de aproximadamente um milhão de metros quadrados, 55. 590 habitantes e 20.832 imóveis.

Toda essa área em que hoje está situada a favela fazia parte da Fazenda do Morumbi, que foi dividida em 2.200 lotes no ano de 1921. A partir da década de 1950 começou a ocupação irregular caracterizada principalmente por famílias japonesas que a transformaram em pequenas chácaras. Nas décadas seguintes com a construção de casas de alto padrão, implantação do bairro Morumbi e abertura de vias de acesso como a Avenida Giovanni Gronchi, fizeram com que a região recebesse um grande fluxo migratório de trabalhadores atraídos pela crescente demanda de mão de obra para a construção civil, intensificando o processo de ocupação. (SÃO PAULO, 2010)

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Todas essas áreas foram ocupadas desordenadamente ao longo dos anos, ainda que sejam propriedade privada, causando o problema do comprometimento da regularização fundiária.

Diante deste contexto a Prefeitura publicou dois decretos6 no ano de 2006, o primeiro incentiva os donos originais dos terrenos em Paraisópolis a trocar dívidas com o governo pelas terras invadidas, o segundo regulamenta a doação de terrenos sem dívidas à Prefeitura em troca da certidão de potencial construtivo transferível.

Com essa iniciativa da Prefeitura, Paraisópolis está passando pelo processo de urbanização, realização de obras de infraestrutura que visam à pavimentação de ruas, implantação de rede de esgoto entre outros, com objetivo de melhorar as condições de vida dos moradores. Essas iniciativas contribuem para a prática de turismo na favela, já que a atividade turística necessita também de infraestrutura para seu desenvolvimento.

3.2 Dados

Analisando especificamente o espaço físico e contexto social da favela de Paraisópolis, a mesma se encontra dividida em cinco setores conforme a figura 1. São eles:

 Antonico Brejo Centro Grotão Grotinho 6

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9 Figura 1 – Mapa do Complexo Paraisópolis

Fonte: Paraisópolis.org

Estima- se que hoje Paraisópolis possua uma área de 800.000 metros quadrados e entre 80.000 a 100.000 habitantes. Destes, cerca de 12.000 são analfabetos, abriga duas unidades básica de saúde (UBS), quatro escolas estaduais e cinco escolas municipais7.

Segundo a associação de moradores de Paraisópolis existem 8.000 estabelecimentos comerciais, dentre os quais predominam botecos, mercadinhos, lojinhas de roupas e de produtos eletrônicos e materiais de construção, lan house, etc. Entre estes pontos comerciais, destaque para uma loja da Casas Bahia inaugurada em novembro de 2008. Há também duas agências bancárias Bradesco e Banco do Brasil, casa lotérica e uma franquia da clínica odontológica Sorridents. As empresas de telefonia TIM, Claro e Vivo e a fabricante de cosméticos O Boticário já manifestaram interesse em abrir unidades em Paraisópolis.

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Além desses investimentos privados, existem redes de instituições civis que desenvolvem projetos e trabalho social.

3.3 O Roteiro

O autor deste artigo teve a oportunidade de realizar dois passeios concedidos pela

personal guide Flavia Liz, o que permitiu uma melhor análise sobre o roteiro proposto

no local. No primeiro passeio realizado, estavam presentes uma turista italiana que está escrevendo um guia turístico de São Paulo, Leonel Ramos e Vitor Miranda da produtora independente Sant'anna Miranda Filmes que farão um curta documentário sobre o tour que Flavia Liz realiza, Andréa Borges, estudante que está fazendo uma pesquisa de mestrado sobre Paraisópolis e o autor deste artigo.

Iniciamos nosso tour a partir das 10h da manhã; o ponto de partida foi a frente do prédio em que a guia mora, localizado no bairro de Pinheiros. O trajeto percorrido até a comunidade de Paraisópolis foi feito em dois carros, em um dos carros foram Flavia Liz, a turista italiana, Leonel Ramos e o autor deste artigo, no outro carro foram Vitor Miranda e Andréa Borges. Durante o percurso até Paraisópolis Flavia Liz alterna-se entre os idiomas português e italiano foi narrando a história da cidade de São Paulo e do bairro do Morumbi.

Chegando a Paraisópolis, a guia chama atenção de todos para o contraste social que há entre as casas e prédios luxuosos no entorno da favela e aponta a diversidade do comércio que existe dentro dela. Apesar da guia enfatizar o comércio, ela não explora como um atrativo.

A primeira parada foi na oficina do seu Berbela (foto anexo 1), um mecânico que utiliza material reciclado, principalmente peças de carro e moto, transformando-as em esculturas surpreendentes.

Assim que todos descem dos carros a guia apresenta Berbela e junto com ele conduz a visita. Ela pede que Berbela conte como tudo começou, a primeira peça feita, de onde vem a inspiração para criação das suas esculturas, o que cada peça representa etc.

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Abaixo segue foto de uma escultura que, segundo Berbela, representa um formigueiro. O material utilizado para o desenvolvimento desta escultura foi diversas velas de moto transformadas em formigas sobre uma chapa de ferro.

Foto 1 – Escultura de Berbela Fonte: o autor

Mas em alguns momentos a guia faz interferência e ela mesma faz apresentações das esculturas alegando que o tempo é curto e que é preciso levar a turista italiana aos outros atrativos.

Logo após a visita a oficina do seu Berbela o grupo dirigiu-se a “Casa de Pedra” do senhor Estevão.

Estevão que vem construindo sua casa há 25 anos com milhares de pedrinhas, vasos, azulejos, relógios, etc, é conhecido como o “Gaudi brasileiro” segundo reportagem do portal G1. A fama do morador de Paraisópolis ultrapassou a favela depois que passou a ter sua casa comparada com a obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí8.

Todos os materiais foram doados ao artista ou comprados por ele próprio.

8 Antoni Gaudí arquiteto espanhol nasceu em Reus, Catalunha, Espanha, em 25 de Junho de

1852; morreu em Barcelona, em 10 de Junho de 1926. Arquiteto cujo estilo distinto se caracteriza pela liberdade de forma, cor e texturas voluptuosas e na unidade orgânica.

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Abaixo segue a foto do hall de entrada da casa de seu Estevão, no centro está localizada uma escultura toda criada com pequenas xícaras e pratos.

Foto 2 – Senhor Estevão Fonte: o autor

Ao final do passeio ao despedir-se a turista italiana arriscou em português um agradecimento afirmando ter ficado “encantada” com os trabalhos artísticos desenvolvidos pelos senhores Berbela e Estevão. O roteiro realizado em Paraisópolis durou cerca de três horas, mas o tour ainda não tinha acabado, pois estava agregado a outro tour que Flavia Liz promove o de arte de rua no bairro da Vila Madalena. Mas devido a outro compromisso o autor deste artigo não pôde acompanhar o grupo que se dirigiu até o bairro para o fim do passeio.

No segundo passeio realizado, houve um número maior de turistas, 20 no total, todos executivos. Segundo Flavia Liz só um turista responsável pelo grupo sabia o local em que todos eles estavam indo visitar. O tour inicia-se em frente ao hotel Golden

TulipPaulista Plaza, localizado na Alameda Santos 85, em que os mesmos estavam hospedados.

A saída se deu em um ônibus em direção a Paraisópolis, mas primeiro foi realizado um

city tour pela cidade passando por alguns bairros, entre eles Liberdade, Centro e

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O tour dessa vez foi realizado todo em inglês devido a diferentes nacionalidades do grupo de turistas presentes.

Ao chegar a Paraisópolis, antes de entrarem na oficina do seu Berbela, alguns dos turistas tiraram o relógio do pulso e deixaram dentro do ônibus. Talvez essa reação se deva ao fato da favela ser associada pela mídia como um lugar marginal e violento. Mas logo esse medo foi superado ao avistarem as esculturas do seu Berbela, onde os mesmos observavam e tiravam fotos das esculturas (Ver anexos 2 e 3). Em seguida o grupo se dirigiu a pé até a casa do Estevão, tendo a possibilidade de ver o cotidiano, o modo de vida dos moradores de Paraisópolis (Ver anexo 4). Durante este trajeto o contato com a população foi meramente visual, nenhuma pessoa do grupo arriscou um contato maior com os moradores, coube aos mesmos o papel de ficarem só observando a movimentação do grupo pelas ruas das favelas.

Krippendorf (2001) ao analisar o encontro de turistas e autóctones, que pertence à cultura diferente e classe social distinta considera: “O que deveria ser um encontro, sucumbe à “síndrome do zoológico”: uns e outros se observam.” (KRIPPENDORF, 2001, p. 86).

Ao visitar a “Casa de Pedra”, os turistas puderam observar as transformações

realizadas pelo senhor Estevão há mais de 25 anos (Ver anexos 5,6 e 7). Logo depois da visita a “Casa de Pedra” caminharam mais alguns minutos pelas ruas

de Paraisópolis, tirando fotos das casas, ruas e moradores, comentavam sobre o contraste entre a favela e o entorno rodeado de casas e prédios de luxo.

O tour durou cerca de quatro horas, e não foi possível uma maior interação entre turistas e os artistas e moradores de Paraisópolis, devido à barreira da língua. O momento de interação ocorreu unicamente através das lentes das câmeras fotográficas. Diante deste fato Menezes (2007, p.25) aponta:

E o contato entre os estrangeiros e a população nativa acaba acontecendo, quase exclusivamente, através das lentes das câmeras fotográficas. O ato de fotografar, na maioria dos casos, se torna um dos poucos momentos nos quais turistas e moradores interagem de alguma forma.

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Conforme Menezes apontou, abaixo fotos em que foram os únicos momentos em que houve maior interação com os turistas.

Foto 3 – Berbela e os Turistas Fonte: o autor

Foto 4 – Estevão e os Turistas Fonte: o autor

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Foto 5 – Mulher e filho do senhor Estevão e Turista Fonte: o autor

O roteiro realizado pela guia Flavia Liz tem um foco artístico, sua base está nos dois artistas locais que são a principal atração de Paraisopolis. Segundo a guia as visitas não são cobradas, a única exigência dela é que todos os turistas devem pagar dez reais aos artistas visitados. Em uma entrevista ela justifica porque não cobra pela visita:

Eu não cobro pela visita à favela, quando um turista entra em contato comigo querendo fazer o passeio somente à favela, eu converso, proponho que escolha um outro tour no meu site, e aí depois eu o levo até os artistas; a pessoa me paga pelo outro passeio, não por esse especificamente. Antes que eu feche com um turista eu converso bastante, troco emails, não é uma negociação rápida, eu tenho que conhecer meu cliente pra saber que ele quer o que ele faz e assim poder fazer uma coisa mesmo exclusiva, direcionada (BORGES, 2012, p. 68).

Neste caso o valor do tour em Paraisópolis estaria embutido junto com outro passeio agregado. Conforme apresentado no primeiro passeio exposto acima, a guia levou o grupo para visitar o tour de arte de rua no bairro da Vila Madalena e no segundo passeio fez um city tour antes pela cidade.

Já a agência Around SP que promove o tour há cerca de um ano cobra os seguintes valores:

Lista de Preços

Preço

1 Passageiro (s) 2 Passageiro (s) 3 Passageiro (s ) 4 Passageiro (s)

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16 * Os preços são por pessoa e são mostrados em Reais, a moeda brasileira locais * Temos preços especiais para grupos com mais de 05 passageiros

Fonte: http://www.aroundsp.com/pt/favela+tour++3+horas-55.aspx. Acesso 05/04/2012.

O pesquisador não teve a oportunidade de realizar um passeio com a agência para uma melhor análise. Mas o mesmo realizou diversas visitas in loco a fim de obter mais informações sobre o tour. Numa conversa informal o autor soube que o único ganho que os artistas têm com o tour realizado pela agência é o equivalente a dez reais cobrados aos turistas ou quando são vendidas algumas de suas peças. Valores irrisórios comparados às receitas obtidas pela agência.

Conforme destacado na primeira parte deste artigo, uma das questões que dividiam opiniões sobre ser a favor ou contra a atividade turística realizada em favela estava relacionada aos ganhos econômicos obtidos com a atividade. Percebe- se aqui que o turismo trouxe um benefício econômico, como no caso dos 20 executivos levados pela guia que gerou uma renda de R$ 200,00 reais a cada artista visitado, mas em compensação o valor cobrado pela agência mostra que a distribuição de lucros é desproporcional para populações receptoras.

4 Considerações finais

Este presente artigo é o resultado de um estudo de caso que buscou apresentar o surgimento da atividade turística dentro da favela de Paraisópolis, uma atividade que ainda não está consolidada, mas que já ocorrem visitas esporádicas e acontece graças a dois artistas locais e agentes externos que juntos são os principais atores envolvidos no desenvolvimento desta atividade.

Este estudo ainda permitiu adquirir conhecimento a respeito da favela de Paraisópolis, seu histórico, espaço físico e social, além do roteiro realizado na mesma. Roteiro este intermediado, conduzido e desenvolvido por agentes externos.

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Durante a pesquisa foi possível observar que é necessário uma parceria juntos aos órgãos públicos para promoção e divulgação, o que a médio e longo prazo poderia possibilitar mais visibilidade a atividade que vem sendo desenvolvida.

O grande problema em relação a incentivar a prática de turismo em favela é a forma como ele é conduzido ou explorado. No caso da favela de Paraisópolis o roteiro desenvolvido tem um foco cultural e artístico, o que se pode dizer relevante. Porém, um problema detectado está na distribuição de lucros. É preciso uma participação maior dos artistas em relação aos ganhos obtidos pelos agentes externos ou que parte da renda gerada com esta atividade seja destinada a projetos sociais na favela, trazendo assim mais benefícios econômicos e sociais ao local.

Este trabalho se tornou um estudo importante, pois ao longo do seu desenvolvimento a visão do autor em relação à ideia de turismo realizado em favela foi tomando outra direção o que de início se tratava de uma ideia muita vezes reproduzida pelo senso comum, como desumano, desrespeitoso, entre outro, passou a ser visto como algo peculiar, que é preciso analisar e buscar entender todo processo que envolve esta atividade.

Desta forma espera-se que este trabalho possa colaborar de alguma forma no processo de conhecimento acerca da relação entre turismo e favela.

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ANEXOS

Foto 1, senhor Berbela

Foto 2, turistas observam as esculturas.

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Foto 4, Turistas caminhando pelas ruas de Paraisópolis.

Foto 5, chegada a “Casa de Pedra”.

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