Como Ser um Bom Terapeuta?
Uma Conversa Honesta Sobre a Prática Clínica
Pedro Martins
&
Marina Arantes
Como Ser um Bom Terapeuta?
Uma Conversa Honesta Sobre a Prática Clínica
Formato de e-book. Distribuição gratuita.
Disponível em:
www.intervencoesterapeuticas.com.br/ebook
Ilustrações de
Tayná Portilho
Uberlândia-MG
Brasil
2020
Sumário
Introdução...
6
Capítulo 1. Você é pago pela hora da conversa. Mas, seu foco está no processo terapêutico como um todo. ... 12 Capítulo 2. A relação terapêutica é o mais importante. Mas, a terapia é atravessada por muitas outras questões. ... 19 Capítulo 3. O seu conhecimento especializado é importante. Mas, esteja sempre disposto a ser corrigido. ... 25 Capítulo 4. Reconheça o que você sabe. Mas, saiba que você não sabe tudo... 32 Capítulo 5. Esteja comprometido com a transformação. Mas, não defina o sucesso da terapia só por isso. ... 38 Capítulo 6. A mudança é individual. Mas, também é social. ... 45 Capítulo 7. Você vai conseguir ajudar muitas pessoas. Mas, nem todo mundo... 52 Capítulo 8. O terapeuta é muito importante na vida do cliente. Mas, nem tanto... 58 Conclusão. Afinal, o que faz um bom terapeuta?... 65
The fundamental tension, in our experience, is between letting the other happen to me and holding my own ground. This tension characterizes dialogue in every context where we have experienced it. * A tensão fundamental, em nossa experiência, é entre deixar o outro acontecer para mim e me manter no meu próprio lugar. Essa tensão caracteriza o diálogo em todo contexto no qual já o experimentamos. * John Stewart & Karen Zediker
Introdução
Este livro é dedicado a terapeutas: profissionais que fazem de sua vida ajudar a vida dos outros. Que tarefa especial, não é mesmo? Mas, vamos ser sinceros? Que tarefa assustadora também! Lidar com as vidas das pessoas, cuidar de suas histórias, pensamentos e sentimentos, nos juntarmos a ela na construção de ações, recursos e saídas para seus problemas... Tudo isso é incrível e muito importante e, justamente pela mesma razão, pode muitas vezes, nos fazer sentir oprimidos, assustados e, até mesmo, incompetentes. Essa é uma realidade da vida cotidiana de todo terapeuta sobre a qual se fala muito pouco, você não acha? Foi pensando nessa dicotomia de nossa atividade prática do dia a dia que decidimos escrever este livro, como um convite para uma conversa honesta sobre o que significa ser terapeuta e como podemos fazer isso de uma forma adequada, justa, ética e reflexiva. Como ser um bom terapeuta? Vamos nos dedicar a responder esta pergunta ao longo das próximas páginas, mas, antes, queremos te contar um pouco sobre como surgiu a ideia de fazer isso em uma de nossas muitas conversas sobre a prática.
Era uma quinta-feira à noite. Nós nos encontramos em um bar para um happy hour após um dia cheio de atendimentos em nossas clínicas particulares. A ideia era celebrar o fim de semana que se aproximava e colocar o papo em dia. Não nos falávamos pessoalmente já há algumas semanas, queríamos nos atualizar das vidas um do outro. Porém (e isso, por alguma razão, sempre acontece), logo estávamos falando sobre nosso trabalho. Naquela noite, o assunto começou assim: Pedro abriu o celular enquanto Marina fazia seu pedido para o garçom. Ali, viu o post de uma colega, também psicóloga. Era uma frase montada
sobre uma figura do pôr do sol. A frase lia: “A sua felicidade é sua responsabilidade. Faça terapia”.
Pedro: Marina, olha isso aqui! Eu tenho ficado meio incomodado. Todos os dias, quando entro nas redes sociais, vejo nossos colegas de profissão falando sobre terapia. São posts muito apaixonados, dizendo da beleza da mudança e dos potenciais da terapia para a vida das pessoas... Essa parte, eu acho legal. Mas, tem horas, que passa do limite, você não acha? Esse pessoal não se cansa no trabalho? Eles não vivem situações desafiadoras? Não tem dias que eles querem desistir? Não é possível, deve ter uma coisa errada com a gente! Marina: Ai, Pedro, então... Eu sinto a mesma coisa! Eu amo o que faço, mas, nossa, que trabalhinho difícil esse que nós arrumamos! Tem dias que saio da clínica sentindo que um caminhão passou por cima de mim. Tem vezes que eu chego a questionar o meu próprio trabalho. Nesses dias, os posts dos amantes da terapia me deixam ainda pior, sabia? É como se tivesse alguma coisa errada comigo ali naquela hora. Afinal, esse pessoal todo está falando de terapia como se fosse mágica... Deve ter alguma coisa que eu não aprendi na faculdade!
Pedro: Estou rindo de nervoso aqui, porque me sinto do mesmo jeito! E é contraditório, porque ao mesmo tempo eu sei que nós somos bons terapeutas... Marina: Eu também! Nós estudamos muito, somos dedicados, fazemos supervisão... Você já pensou quanto tempo da nossa vida cotidiana dedicamos pensando sobre nossos pacientes? Aprendendo mais? Falando sobre trabalho em lugares que eram para ser só sobre diversão? Olha a gente aqui, no bar, falando de trabalho de novo! Pedro: Pois é! Isso me deixa pensando: tem uma parte dessa história que ninguém conta...
Marina: É... a coisa na vida real é bem mais complexa do que essas frases de efeito que a gente vê por aí. Pedro: O que você acha de a gente escrever sobre isso? Marina: Acho uma ótima. Por mim, fechou! Este livro surge como uma forma de continuidade escrita dessa conversa que, para nós, é tão importante em termos de formação profissional. Nosso objetivo é apresentar a terapia como uma atividade da vida real, cotidiana, feita por pessoas com histórias, corpos e formações específicas. Queremos refletir sobre a prática terapêutica a partir da vivência do próprio terapeuta. Convidamos você a uma reflexão sobre os potenciais e os limites que encontramos todos os dias quando nos vemos diante dos clientes (e também longe deles). A partir desta conversa, oferecemos também algumas dicas, conselhos e reflexões que, em nosso entender, oferecem recursos muito práticos que podem te ajudar a se sentir um terapeuta melhor.
Com isso, queremos nos afastar de duas noções muito divulgadas da terapia que circulam em nossa cultura e, a nosso ver, não oferecem caminhos suficientemente claros para os dilemas da prática cotidiana. A primeira noção, vai na linha do que já falamos, que diz sobre a terapia como uma atividade quase mágica e encantada, uma visão romantizada do trabalho. Essa visão frequentemente deixa de lado os limites, desafios e dificuldades enfrentados pelos terapeutas todos os dias. A segunda noção é a da terapia como uma técnica, uma receita de bolo, como se algum passo a passo pudesse nos ensinar o que fazer ao estar com os outros e obter resultados previsíveis, deixando de fora os aspectos sensíveis e imprevisíveis das interações.
Nosso título – como ser um bom terapeuta – é intencionalmente apelativo. Com ele, queremos brincar com essas duas ideias sobre a possibilidade de se construir um bom
terapeuta, seja de forma romantizada, seja de forma friamente técnica. Afinal de contas, o que constitui um bom terapeuta? É possível ensinar isso de maneira tão prática como se tem prometido por aí? Queremos questionar essas duas tradições que, em nosso ver, empobrecem o entendimento da “boa terapia”, da produção do conhecimento rigorosa e da prática ética e reflexiva.
Para isso, ofereceremos reflexões sobre a vida cotidiana do terapeuta que consideram não apenas os acertos, mas, também, os erros e frustrações da prática e toda sua complexidade vivida no dia a dia. A partir dessas reflexões, ofereceremos dicas e conselhos que, em nosso modo de entender, são úteis para nos tornarmos terapeutas competentes, atentos ao processo relacional, no nosso contexto real de trabalho. Reconhecemos que os critérios de avaliação sobre o que constitui a boa terapia e o bom terapeuta variam de acordo com cada teoria. Partimos aqui de um conjunto de ideias que podem ser organizadas em torno da noção do que Sheila McNamee e Kenneth Gergen chamaram de “terapia como construção social”1. Essa compreensão não está focada em um modelo de terapia específico. Ao invés disso, parte de uma conceituação da terapia como conversa ou diálogo e foca em como os terapeutas trazem diferentes conceitos e formas de
prática para este contexto. Nosso argumento geral é simples de dizer, mas, complexo de viver na prática: ser um bom terapeuta é ser capaz de construir e sustentar bons contextos
de diálogo. Todas as ideias contidas neste livro surgem de nossa imersão neste
conhecimento. Nossa intenção é uni-las aos nossos anos de prática, para oferecê-las a você da forma mais simples possível.
1 McNamee, S., & Gergen, K. J. (1992). Therapy as social construction (Inquiries in social construction series). Thousand Oaks: Sage.
Como você verá ao longo do texto, essas dicas e conselhos são suficientemente diretos para você conseguir visualizar como isso aconteceria na sua prática clínica e, ao mesmo tempo, amplos o suficiente para você poder adaptá-los da forma como achar coerente em seu próprio contexto. Queremos fomentar uma discussão sobre o terapeuta real, em contraste a algum suposto terapeuta ideal. Somos feitos de carne, osso e histórias. Todos os dias, em nossa prática, vivemos, sentimos e experimentamos nosso trabalho de muitas maneiras.
É a partir desse entendimento que falaremos, em cada capítulo, sobre alguma
polaridade que experimentamos na prática cotidiana. Cada uma delas diz respeito a dois
aspectos contraditórios entre si, mas que, na vida real, acontecem ao mesmo tempo e inseparavelmente. Essa é a complexidade da vida clínica à qual queremos dar visibilidade. O nome de cada capítulo fala de uma polaridade e está estruturado assim:
• Fazemos uma afirmação sobre algo que vivemos na prática clínica. • Mas,
• Fazemos outra afirmação que contradiz a primeira, e que também vivemos em nosso cotidiano de trabalho.
Para você se orientar desde já, apresentamos aqui todas as polaridades que exploraremos mais adiante:
1. Você é pago pela hora da conversa. Mas, seu foco está no processo terapêutico como um todo.
2. A relação terapêutica é o mais importante. Mas, a terapia é atravessada por muitas outras questões.
3. O seu conhecimento especializado é importante. Mas, esteja sempre disposto a ser corrigido.
4. Reconheça o que você sabe. Mas, saiba que você não sabe tudo. 5. Esteja comprometido com a transformação. Mas, não defina o sucesso da terapia só por isso. 6. A mudança é individual. Mas, também é social. 7. Você vai conseguir ajudar muitas pessoas. Mas, nem todo mundo. 8. O terapeuta é muito importante na vida do cliente. Mas, nem tanto. Dessa forma, no capítulo 1, por exemplo, exploraremos o fato de que somos pagos pela hora da conversa e o que podemos fazer a partir dessa compreensão. Em seguida, ainda no mesmo capítulo, explicaremos porque, ao mesmo tempo, temos nosso foco no processo terapêutico como um todo. Ofereceremos, então, formas de lidar com essa questão na prática. Em cada capítulo, contaremos uma história real que nos ajuda a ilustrar como compreendemos estes aspectos contraditórios da vida clínica, e que ações nos ajudam a superá-los.
Algumas dessas histórias são contadas por mim, Marina. Quando este for o caso, as linhas são escritas em azul. As outras histórias, escritas em verde, são contadas por mim, Pedro, e se referem à minha prática. No restante do texto, falamos em uma só voz, contando ideias que compartilhamos todos os dias a partir de nossa parceria profissional. Todas as histórias que contaremos foram negociadas com os clientes, que autorizaram sua publicação. Em cada uma delas, falamos apenas de informações suficientes para a compreensão do aspecto específico do caso em discussão. O foco está em nós, terapeutas, e em como vivemos a prática. A história do cliente funciona, aqui, para nos ajudar a pensar como nos posicionamos na relação terapêutica. De toda maneira, os nomes e algumas características dos clientes foram alterados para dificultar sua identificação.
Capítulo 1
Você é pago pela hora da conversa.
Mas, seu foco está no processo terapêutico
como um todo.
Capítulo 1
Você é pago pela hora da conversa.
Mas, seu foco está no processo terapêutico como um todo.
Comecei a atender Camila, uma mulher de 32 anos, no início do ano passado. Desde o início, percebi o seu jeito tímido e desconfiado, de quem dizia com frequência “eu fico com vergonha de te falar isso...”, e que parecia sempre tensa, tanto ao falar, quanto ao me ouvir. Essa tensão aparecia até no seu jeito de se sentar: braços e pernas cruzados, expressão séria e uma postura enrijecida. A sensação de que tudo que eu fizesse ou falasse poderia intimidar ou constranger Camila me atravessava em muitos momentos. Nossas conversas se construíam em torno de seu dilema sobre continuar ou não em um relacionamento e dos entendimentos que sustentavam sua escolha: “não consigo terminar, eu o amo muito, tenho baixa autoestima”... Essas eram, quase sempre, as conclusões das nossas sessões, independente do caminho que percorríamos ao longo daqueles 60 minutos de conversa. Em uma sessão, Camila me diz: “eu gosto de vir aqui, porque é como se eu conversasse comigo mesma e pudesse me ouvir em voz alta”. Minha conversa interna, ao ouvir essa frase, representa bem o que eu senti algumas vezes ao longo deste processo terapêutico: minhas perguntas e reflexões não eram boas o suficiente para ajudar Camila, e minha participação naquela história seria facilmente dispensável. A sensação de que repetíamos a mesma conversa (quase) toda semana fez com que eu me sentisse frustrada, pensando que aquele atendimento sem novidades não valeria o valor que eu cobrava por ele. Por isso, a pergunta “por que ela continua vindo aqui toda semana?”, volta e meia me ocupava.
Quando terminamos uma conversa terapêutica com a sensação de que não saímos do lugar, é comum questionarmos o quanto merecemos ser pagos por aquela sessão, que aparentemente não fez diferença nenhuma na vida do cliente. Parte deste desconforto é sustentado pela lógica dos honorários, já que somos pagos por cada hora de atendimento. Pensando nesta lógica, achamos muito útil estabelecer critérios orientadores que nos ajudam a medir a qualidade das nossas conversas para além de seus conteúdos específicos. São eles:
• Compartilhe com o cliente a responsabilidade pela construção de uma boa conversa2. Somos responsáveis pela condução de uma conversa terapêutica, mas, não devemos assumir esta tarefa sozinhos. A dedicação do cliente à terapia, propondo assuntos que sejam de seu interesse e/ou se debruçando sobre nossas perguntas e reflexões, é tão importante quanto nossas intervenções.
• Avalie o que você ofereceu ao cliente a cada sessão. Desconecte-se um pouco dos resultados imediatos da conversa e comece a avaliar o que você ofereceu ao cliente naquele encontro. É necessário que você reconheça qual a sua versão preferida como terapeuta e quais são os seus critérios para tal, por exemplo: a capacidade de estar radicalmente atento e presente ao que o cliente diz e como ele diz; a sua habilidade em ser criativo e responsivo na conversa; a sensibilidade em perceber as demandas do cliente em cada sessão; a clareza sobre quais são suas hipóteses e intenções a cada intervenção terapêutica utilizada; etc3.
2 McNamee, S., & Gergen, K. J. (1999). Relational Responsibility: Resources for sustainable dialogue. New York: Sage.
3 Anderson, H. (2019). Prática colaborativo-dialógica: uma orientação para maneiras de ser e vir a ser com outros convidando o potencial para generatividade e transformação. In M. Grandesso, Construcionismo Social e Práticas Colaborativo-Dialógicas: Contextos de Ações Transformadoras (pp.
• Pergunte. Sabe quando temos a sensação de que estamos, literalmente, jogando conversa fora? Quando isso acontece, uma boa estratégia é perguntar para o seu cliente “qual a sua esperança/expectativa nesta conversa”? A resposta dele tanto informa os seus movimentos seguintes na sessão, quanto dissolve a sua conversa interna, que até então está tomada pela dúvida do que vocês estão fazendo juntos. • Tenha paciência. Um último conselho, muito importante: às vezes, para chegarem
em uma conversa extraordinária, vocês passarão por algumas conversas ordinárias... e está tudo bem!
No entanto, sabemos que aquilo que oferecemos às pessoas em terapia não se encerra no tempo e no espaço de uma única sessão: passamos horas estudando e nos preparando para conduzir conversas que sejam terapêuticas (pense em quanto tempo você vai gastar lendo este e-book, por exemplo); dispendemos nosso tempo e energia para sustentar as relações com os clientes, mesmo em sua ausência (quem nunca se lembrou daquele cliente enquanto assistia à um filme no final de semana, ou até enquanto dormia, acordando inspirado para fazer aquela pergunta na sessão seguinte, não é mesmo?); temos gastos com a construção e a manutenção do nosso espaço de trabalho; investimos nosso dinheiro em cursos e especializações; etc. Assim, ao calcularmos o valor que cobramos por uma sessão de terapia, devemos considerar todos estes investimentos, sejam eles concretos ou subjetivos.
Para além da questão dos honorários, enquanto avaliamos a qualidade de um atendimento, estamos na verdade comprometidos com a análise do processo terapêutico como um todo. Ou seja, ao mesmo tempo que participamos de cada conversa como se ela fosse única e especial, nos dedicando ao máximo para que seja útil e transformadora para o cliente, avaliamos também os seus sentidos e efeitos sempre em relação ao que
construímos ao longo de toda a terapia. Lembre-se sempre: cada conversa deve ser pensada a favor da história do cliente em sua totalidade. Vamos voltar ao exemplo de Camila para explicar como este lembrete funciona na prática:
Apesar da minha sensação de que não estávamos caminhando, e do momento difícil que Camila passava financeiramente, ela continuava comprometida com a terapia: não faltava, não se atrasava, não desmarcava. Diante do seu comprometimento, comecei a pensar que talvez estivéssemos construindo em terapia algo que fosse importante para ela. Mas... o quê? Em uma das tentativas de responder a minha própria pergunta, passei a refletir sobre como Camila mudou ao longo do tempo em que estamos juntas. Nos últimos três meses, comecei a percebê-la mais tranquila e confortável no contexto terapêutico. Ela ainda anuncia sua vergonha, mas faz isso sorrindo com descontração; ela fala palavrão, dá risada e chora; se acomoda no sofá, e os braços e as pernas não se cruzam mais. Ao me dar conta de como eu e Camila transformamos nossa relação ao longo do tempo, começo a entender o processo terapêutico dela como um processo de construção de confiança – tanto em relação a mim, quanto em relação a ela mesma. Assim, passei a me ocupar de outras perguntas, diferentes daquela que eu me fazia no início. São elas: em que outros contextos e relações esta Camila, confiante em si mesma e confiando nos outros, aparece? A história da terapia como um processo de construção de confiança seria uma história inédita na vida de Camila?
A mudança de perspectiva que estas perguntas trazem em relação ao processo terapêutico mostram que diferença faz avaliar o trabalho a partir de uma conversa específica, ou considerá-la como parte de um processo mais amplo. Para que uma mudança como essa seja possível, alguns critérios orientadores podem ser úteis:
• Esteja atento à performance. Quando o conteúdo da conversa parece não ter novidade alguma, dedique sua atenção a “como” vocês têm conversado. É como se você observasse cada conversa com o botão MUTE ativado, prestando muita atenção nas expressões do cliente. A forma como ele se expressa pode inaugurar diferenças na conversa, mesmo que o conteúdo seja parecido com o de encontros anteriores. Não se esqueça que estamos sempre buscando por diferenças significativas para o cliente, e elas podem estar tanto no “quê” conversamos, quanto em “como” fazemos isso. • Tenha clareza das mudanças na relação de vocês ao longo do tempo. Mantenha-se consciente de como o cliente chegou na terapia e como foram as primeiras interações com ele. Ao compará-las com o momento atual da terapia, você pode perceber sinais significativos que contam sobre as mudanças que foram possíveis ao longo do processo.
• Saiba qual é o “pano de fundo” da terapia de cada cliente. Mesmo que vocês transitem por muitos assuntos diferentes, é importante que tanto você quanto o cliente tenham clareza sobre o que ele busca transformar em terapia. Isso é muito útil na construção de pontos de aproximação entre a conversa imediata e aquilo que vocês esperam alcançar. Para isso, dividimos nossa atenção entre os aspectos emergentes, específicos de cada sessão, e em como/o que aquilo que estamos ouvindo compõe a história mais ampla sobre o processo terapêutico.
A conversa com Camila desta semana, é um bom exemplo de como isso acontece em nosso cotidiano. Nela, ouvi Camila dizer que a reflexão que eu ofereci ao final da sessão fazia muito sentido para ela. Emocionada, ela me diz “vai parecer que eu estou te julgando, mas não é isso... Mas eu percebo você sempre faz comentários em cima do que eu tinha falado,
ou que ficavam umas reflexões soltas no final... Hoje não, hoje eu entendi o que você quis dizer e fez total sentido”! Ao ouvi-la, fiquei dividida: me senti feliz por saber que minha reflexão tinha sido útil, e ao mesmo tempo frustrada por confirmar algo que eu pensava desde o início da terapia, que não estávamos caminhando. No entanto, ao olhar para o processo terapêutico de Camila como um todo a frustração foi logo dissolvida. Eu entendi que, tão importante quanto a boa reflexão que construímos ao final da conversa, foi o fato de Camila conseguir me dizer com sinceridade suas percepções sobre a terapia. Esta fala foi muito significativa para o nosso processo de construção da confiança. Confiança dela em mim, ao ponto de fazer um comentário que poderia parecer um julgamento, e também em si mesma, ao falar em voz alta o que pensava sobre a terapia. Com isso, inaugurei uma nova pergunta: “com quantas conversas medianas se faz uma conversa excelente”? O fato é que precisei aprender muito sobre Camila, antes que pudesse ensinar algo a ela.
Capítulo 2
A relação terapêutica é o mais importante.
Mas, a terapia é atravessada por
muitas outras questões.
Capítulo 2
A relação terapêutica é o mais importante.
Mas, a terapia é atravessada por muitas outras questões.
Conheci Alice como minha aluna em um workshop de terapia familiar. Depois do curso, ela me escreveu, dizendo que gostaria de conversar comigo sobre uma possível tutoria ou supervisão em sua formação como terapeuta. Começamos a fazer isso através de uma plataforma digital, já que moramos em cidades diferentes. Este pedido inicial focado em uma demanda profissional logo se expandiu, de forma orgânica, tornando-se uma frutífera relação terapêutica. O pedido de tutoria profissional, descobrimos juntos, estava muito atrelado à revisão de Alice sobre sua própria vida pessoal, seus modos de estar no mundo e suas relações com muitas pessoas ao seu redor. Isso é bastante comum, afinal, a prática do terapeuta é atravessada por suas questões pessoais e olhar para elas faz parte de qualquer supervisão que se preze. Ao longo de 11 meses, tivemos conversas muito importantes sobre o que Alice chamava de “os lugares” que ela queria ocupar na vida. Sua formação como terapeuta familiar, o conhecimento adquirido e a entrada em uma nova comunidade de prática impactavam profundamente em como Alice se via. A terapia se construiu, assim, sobre as bases de nossa relação marcada por três lugares diferentes, para além daquele de terapeuta e cliente: por sermos professor e aluna; por sermos colegas em muitos cursos e workshops, já que participarmos de uma mesma comunidade de conhecimento; e por termos uma clara afinidade pessoal.
A relação terapêutica é a base da terapia. É por meio do encontro entre cliente e profissional, na construção de um espaço seguro para as pessoas poderem falar sobre si
mesmas, suas vidas e seus dilemas, que o potencial terapêutico se constrói. Aqui estão algumas reflexões importantes sobre esta relação:
• Oriente-se por uma fundamentação teórica sólida. Terapia é conversa. Mas, nem toda conversa é terapêutica. Cada teoria e comunidade de prática conceituam a relação terapêutica e o que conta como boa prática de sua própria maneira. Como profissional, esteja consciente de como sua própria base teórica compreende a relação terapêutica e quais são os elementos aos quais você deve estar atento ao participar dela.
• Seja humano e ético na relação. Apesar das diferenças de conceituação teórica acerca da relação terapêutica, lembre-se que você é um ser humano se encontrando com outros seres humanos em sua prática. Ofereça acolhimento. Escute muito. Faça perguntas interessadas. Não julgue o que está ouvindo. Lembre-se que você está conversando com uma pessoa e que a história que ela te conta é, possivelmente, a coisa mais significativa para ela naquele momento. Trate-a como tal. Cuide do sigilo profissional. Esteja atento à ética de sua prática, tanto conforme os manuais cabíveis, mas, tão importante quanto, atento ao desenvolvimento das relações.
• Dedique-se à construção do contexto de relação4. Para que a relação terapêutica possa se desenvolver de forma produtiva, é muito importante que ela se estabeleça sobre as bases de confiança mútua. Dedique tempo e atenção à negociação dos termos dessa relação5. Explique ao seu cliente o seu trabalho de maneira inteligível.
4 Martins, P. P. S. & Guanaes-Lorenzi. C. (2018). “Hoje, ele está dentro da história": Construindo espaços de participação em conversas com famílias. In M. Grandesso. (Org.). Colaboração e diálogo: Aportes teóricos e possibilidades práticas (pp. 341-359). Curitiba: Editora CRV..
5 Becker, C., Chasin, L., Chasin R., Herzig, M., & Roth, S. (1999). Do debate estagnado a uma nova conversação sobre questões controversas: um relato do projeto de conversação pública. In D. F Schnitman & S. Littlejohn (Orgs.), Novos paradigmas em mediação (pp. 259-273). Porto Alegre: ArtMed.
Pergunte sempre se o caminho que você está propondo faz sentido para a pessoa. Coloque-se verdadeiramente disposto a negociar e mudar esse caminho, caso o cliente não entenda como útil ou adequado. Mostre que está de fato interessado no que está ouvindo. Disponha-se a sempre parar para refletirem juntos sobre os rumos da relação terapêutica.
Alguns meses depois de termos iniciado, Alice me escreveu dizendo de uma notícia muito difícil que ela havia recebido sobre uma relação familiar, e que não estava se sentindo bem. Eu estava de férias neste dia, e só voltaria na semana seguinte. Conversamos um pouco por mensagem e perguntei se ela gostaria que eu falasse com ela em algum horário. Ela preferiu não interromper minhas férias, e disse que, se precisasse de ajuda, me avisaria. Quando retornei das férias, marcamos uma sessão on-line. Nela, Alice me contou que, por estar mal naqueles dias, optou por ligar para sua antiga terapeuta na cidade para ter apoio. Eu disse a ela que estava tudo bem e que entendia. Conversamos sobre sua questão familiar e pensamos alguns encaminhamentos possíveis. Na próxima semana, quando conversamos, chegamos à conclusão de que, naquele momento, talvez fosse melhor que Alice tivesse mesmo um atendimento terapêutico presencial.
Qualquer terapia se desenvolve em um espaço e tempo específicos. Assim, a relação terapêutica não acontece de forma abstrata, solta no ar. Ao contrário, todo encontro é marcado por muitos aspectos estruturais: local de atendimento, possibilidade de acesso geográfico e social para o cliente, valor cobrado, forma de pagamento, condições do espaço (como acessibilidade, conforto e estética, para citar apenas alguns exemplos). Além disso, questões sociais mais amplas também estão presentes nestes aspectos materiais da terapia: gênero, orientação sexual, raça e classe. Mais ainda, as redes de inserção de cliente e
terapeuta também fazem parte dessa equação6. Se têm pessoas em comum, se há possibilidade de se encontrarem ou não em outros contextos e como lidar com isso, quem esteve envolvido no encaminhamento e indicação... Enfim, existe uma infinidade de elementos que marcam a relação terapêutica – alguns mais fortemente, outros menos, dependendo de cada relação – mas, que não podem e nem devem ser ignorados pelo profissional.
• Reconheça os aspectos que atravessam a relação terapêutica7. Imaginar que a terapia é uma atividade descolada da realidade em que se produz é um erro. Reconheça que existem diferentes fatores que perpassam o relacionamento terapêutico e esteja atento a como eles o influenciam.
• Reconheça como esses aspectos ampliam as possibilidades da terapia. Existem questões que favorecerão o contexto e a conversa terapêutica. Pode ser que o cliente se identifique com você. Pode ser que ache sua poltrona confortável. Talvez ele goste da forma atenta como você o olhe. Talvez, seu humor seja compatível com o dele. Não há formula específica. Fique atento aos sinais, sejam eles verbais ou não, oferecidos pelo cliente. Observe como ele reage às suas colocações. Preste atenção à sua respiração, forma de falar, jeitos de se mexer na cadeira. Escute quando ele disser que algo fez sentido ou quando se entusiasmar com alguma colocação. Preste atenção aos detalhes.
• Reconheça como esses aspectos limitam as possibilidades da terapia. Esta dica funciona como a anterior, porém, com o conteúdo reverso. Muitos atravessamentos da terapia podem limitar sua possibilidade de atuação e produção. Talvez o cliente
6 Sluzki, C. E. (2002). A rede social na prática sistêmica. São Paulo: Casa do Psicólogo.
7 Lannamann, J. W. (1998). Social Construction and materiality: the limits of indeterminacy in therapeutic settings. Family Process, 37(4), 393-413.
tenha visto sua posição política diferente da dele na internet e se incomode com isso. Pode ser que ele não sinta que você compreenda sua experiência de exclusão por nunca ter vivido algo parecido. O preço de sua sessão pode ter ficado caro demais, diante da perda de um emprego. Não negligencie a importância de estar atento a esses aspectos. Converse abertamente sobre eles, quando possível, com o cliente. Utilize-os como uma forma de o processo terapêutico caminhar em direção ao que aquele limite diz ser importante para a pessoa. Pense em encaminhamentos, se for esse o caso diante do limite colocado.
Na relação com Alice, os diferentes lugares que marcavam nossa relação nunca se constituíram como um problema para a terapia, mas, sim, como um potencial. Tornou-se um hábito marcarmos de onde estávamos falando “estou pensando isso no meu self professor” ou “digo isso a partir de alguém que um dia já se formou terapeuta”. Diante dessas demandas, o fato de nossas conversas não serem presenciais nunca havia se constituído como um problema. Contudo, a partir do momento em que ela estava vivendo uma crise, isso se tornou um limite importante. O fato de eu estar de férias logo naquele momento também participou da construção deste limite. Como Alice e eu sempre tivemos uma relação terapêutica muito bem negociada, compreendemos juntos que esses limites, naquele dado momento, poderiam ser cuidados de forma mais adequada com outra profissional. Limites não precisam se tornar problemas, e nossa boa relação, que perdura em outros contextos até hoje, é um ótimo exemplo disso.
Capítulo 3
O seu conhecimento especializado é muito
importante.
Mas, esteja sempre disposto a ser corrigido.
Capítulo 3
O seu conhecimento especializado é importante.
Mas, esteja sempre disposto a ser corrigido.
Sou terapeuta de Rafaela há 2 anos e 10 meses, e os desafios enfrentados por ela na relação com sua mãe constituem um tema recorrente nos nossos encontros. Em uma das conversas que tivemos sobre o assunto, ao ouvi-la contar de suas tentativas frustradas em conversar com sua mãe, sugiro que elas participem de um encontro de Mediação de Conflitos, que consiste em uma conversa facilitada por um terceiro imparcial (o mediador). Fiz essa sugestão com base em minha experiência profissional, que informava o quanto o contexto e o formato em que as conversas acontecem, influenciam seus caminhos e desfechos. Em resposta à minha sugestão, ela disse que já tentou conversar com a mãe de muitos jeitos diferentes, e que não se tratava simplesmente de mudar o jeito de conversar. Segundo ela, “na frente do mediador a conversa vai fluir bem, mas, eu sei que quando chegar em casa vai voltar tudo ao normal”. Ao longo da sessão, continuei apostando na mediação como uma boa estratégia de mudança, enquanto Rafaela insistia em tentar me fazer entender que esse não seria um bom caminho. Terminamos a conversa de uma forma estranha. Pela sua expressão séria, suas respostas curtas e longas pausas, tive a impressão de que Rafaela estava chateada comigo. Por isso, descrevi o que estava percebendo de uma forma concreta, “me parece que você ficou chateada com o que eu disse, porque está com essa cara de brava, me respondendo com falas curtas e diretas...”, e em seguida lhe perguntei “... é isso mesmo que você está sentindo”? Ela respondeu que não, que só estava “reflexiva”.
Ao ler as histórias contadas neste livro, você vai perceber que os incômodos que sentimos no cotidiano são ótimos professores. Eles nos convidam a revisar o nosso trabalho reflexivamente, a partir de questionamentos como “o que nesta conversa me incomodou”?, e ainda, “o que eu poderia ter feito de diferente”? Quando nos fazemos estas perguntas, estamos comprometidos a transformar a nossa prática de acordo com o que nossos clientes nos ensinam a cada dia. Ou seja, a transformação em terapia é mútua: tanto o terapeuta, quanto o cliente devem deixam a sala de terapia diferentes do que entraram8. Esta não é uma tarefa fácil, afinal, vamos entendendo ao longo da nossa formação que quanto mais sabemos sobre alguma coisa, quanto mais especializados nos tornamos em determinado assunto, mais rápido conseguiremos sucesso na profissão. Sim, em muitos momentos esta consigna é verdadeira, e nossos saberes de especialista ajudam muitas pessoas. Ao mesmo tempo, quando apostamos todas as nossas fichas em um só caminho ou estratégia para lidar com os problemas de nossos clientes, nos desconectamos da conversa imediata em andamento e daquilo que eles estão tentando nos ensinar sobre as suas histórias. Assim, além de nos tornamos terapeutas menos curiosos, criativos e reflexivos, corremos o risco de anular a complexidade das histórias de nossos clientes, resumindo suas experiências a termos empobrecidos e estratégias reducionistas. No nosso dia a dia de trabalho, alguns recursos nos ajudam a estar nas conversas em uma postura mais colaborativa, e menos especializada9. São eles: 8 Katz, A. M., & Alegría, M. (2009). The clinical encounter as local moral world: Shifts of assumptions and transformation in relational context. Social Science & Medicine, 68(7), 1238-1246. 9 Anderson, H. & Gehart, D. (2007). Collaborative Therapy: relationships and conversations that make a difference. New York: Routledge.
• Esteja atento à fluidez da conversa10. Estamos o tempo todo sensíveis às respostas do cliente em relação ao que dizemos ou fazemos em sessão, afim de avaliarmos se a conversa continua caminhando ou se a sua fluidez está ameaçada. Alguns indicadores que usamos para medir tal fluidez são: as pausas reflexivas, as expressões de interesse do cliente, o engajamento deste diante das nossas perguntas e reflexões, e a construção de entendimentos inéditos ao longo da sessão. Essa avaliação é imprescindível para fazermos boas escolhas em direção a uma conversa que seja adequadamente diferente para o cliente.
• Lembre-se de checar as suas percepções com o cliente11. Esta é uma ferramenta valiosa que usamos o tempo todo na clínica. Quando ficamos em dúvida sobre os efeitos da nossa fala para o cliente, compartilhamos com ele a nossa conversa interna e em seguida fazemos uma pergunta de checagem. Mesmo que no dia da conversa com Rafaela sobre a mediação de conflitos ela tenha dito que não estava chateada, a sessão seguinte retomou este ponto... Rafaela abriu a conversa falando sobre o encontro passado. “Eu fiquei com raiva de você aquele dia... Porque não sinto que a terapia tem conseguido me ajudar nessa questão com a minha mãe. Tem hora que acho uma besteira essa história de que tudo é conversa... Porque não é só isso! Minha mãe tem muitas questões, ela é uma pessoa muito difícil de lidar... não acho que só mudar o jeito de conversar poderia ajudar. Eu já tentei muito falar com ela, de tudo quanto é jeito que você possa imaginar, e nunca funcionou”! Em um primeiro momento, eu me senti criticada por Rafaela. Afinal, como uma terapeuta
10 Shotter, J. (2007). Not to forget Tom Andersen’s way of being Tom Andersen: the importance of what ‘just happens’ to us. Human Systems, 18, 15-28.
11 McNamee, S. (2001). Reconstruindo a terapia num mundo pós-moderno: Recursos relacionais. In M. M. Gonçalves & O. F. Gonçalves (Orgs.) Psicoterapia, discurso e narrativa: A construção
especialista em diálogo, era difícil ouvir que, para ela, isso seria uma “besteira” que não ajudava em nada. Logo em seguida, comprometida em sustentar o andamento da conversa, abandonei intencionalmente a posição de “terapeuta criticada” – que parecia pouco promissora - e passei a ouvir com atenção o que ela tinha para me dizer, apesar da crítica. Ao exercitar uma escuta curiosa e interessada, percebi que a minha sugestão na sessão anterior (de que elas fossem para a mediação de conflitos) tinha mais a ver com aquilo que meu saber de especialista acreditava ser útil para Rafaela, do que com as demandas e expectativas que ela mesma tinha para a sessão. Pude ouvir que ela esperava se sentir acolhida pela terapia num momento de sofrimento e, mais do que isso, ser enfim reconhecida pelas tentativas de melhorar a relação com sua mãe. Neste encontro, entender que o meu silêncio e minha curiosidade genuína eram o que eu podia oferecer de mais valioso para Rafaela foi imprescindível para que a conversa continuasse caminhando.
Quando conversamos com o cliente a partir de uma postura especializada demais, ou seja, quando estamos certos, em um dado momento, de qual o melhor caminho para a vida daquela pessoa, precisamos ter cuidado como terapeutas: estamos de fato ouvindo a demanda do cliente, ou nos lançamos a uma tarefa diferente, qual seja, a de convencê-lo de algo que supostamente seria melhor para sua vida? Em momentos como esse, muitas vezes, é mais válido deixar de lado nosso entendimento especializado do que seria melhor para as pessoas e, em lugar disso, apostarmos em conversas exploratórias, nas quais possamos criar junto ao cliente outros caminhos e estratégias que lhe parecessem mais interessantes. Quando assumimos o compromisso de manter a conversa em andamento, entendemos que isso é feito artesanalmente, passo a passo, analisando cada movimento do cliente. Por isso não podemos, a priori, supor que aquilo que sabemos ou pensamos ser útil, servirá para
qualquer pessoa em qualquer circunstância12. Algumas orientações nos ajudam nesta confecção artesanal do diálogo terapêutico: • Seja curioso. Faça perguntas. Suas dúvidas e curiosidades sobre a história do cliente são ferramentas importantíssimas na construção de conversas que fazem diferença. Afinal, como inaugurar novidades se nos mantivermos apegados ao que já sabemos? Além de explorar caminhos até então inéditos nas histórias que lhe são contadas, ao se mostrar curioso você também convida seu cliente a olhar com curiosidade para suas próprias questões. O interesse e a curiosidade genuínos são contagiantes. • Tome cuidado para não colonizar a história do outro13. Não podemos fugir da
construção conjunta de significados enquanto conversamos. Toda e qualquer ação do terapeuta, inclusive o silêncio, influencia a narrativa do seu cliente. Ainda assim - ou melhor, justamente por isso - devemos cuidar para que não façamos da nossa influência um processo de dominação, em que subjugamos as palavras dos nossos clientes em favor das nossas. Temos uma pergunta específica que é bem útil nesta tarefa e que ofertamos ao final de muitas das nossas falas: “isso faz sentido pra você?”. Lembre-se, porém: não adianta fazer essa pergunta, se você não estiver disponível para ouvir a resposta... especialmente quando o cliente te disser que “não, não faz sentido”!
• Questione os efeitos das suas intervenções. Isso não faz de você um terapeuta inseguro. O mundo vai nos contando que é preciso ter certeza sobre muitas coisas se queremos ser bem-sucedidos. Porém, no campo da terapia não é bem assim. Muitas 12 Anderson, H., & Goolishian, H. (1992). The client is the expert: A not-knowing approach to therapy. In S. McNamee, & K. J. Gergen (Eds.), Therapy as social construction (pp. 25–39). London: Sage. 13 Rober. P. & Seltzer, M. (2010). Avoiding colonizing positions in the therapy room: some ideas about the challenges of dealing with the dialectic of misery and resources in families. Family Process, 49(1),
vezes, ter certezas demais pode nos atrapalhar a colaborar com os clientes na construção de soluções adequadas para seus problemas. Nesse sentido, avaliar a utilidade de suas intervenções e questionar os seus efeitos em cada conversa, a fim de construir soluções sob demanda para cada cliente, não significa que você está abrindo mão de toda a sua expertise e conhecimento. Significa, sim, que você está mais comprometido com a construção de entendimentos que façam a diferença na vida daquela pessoa, do que com o seu conhecimento especializado.
Na história de Rafaela eu estava, ao mesmo tempo, apostando e desprezando a potência do diálogo. A aposta estava na minha sugestão de que a conversa facilitada pelo mediador poderia ajudar ela e sua mãe a se entenderem. Contraditoriamente, ao fazer isso, eu estava me esquecendo de cuidar do diálogo que eu e Rafaela estávamos construindo em sessão. Ao me manter mais conectada à ideia da mediação do que às falas e expressões dela, me esqueci da condição primordial para que um diálogo transformador aconteça: é preciso abrir espaço na minha própria conversa interna, para que a conversa com o outro possa acontecer em mim. Desde então, nós seguimos conversando sobre este e outros assuntos, sempre atravessadas por mais perguntas do que respostas. Isso não significa que desistimos de encontrá-las, mas, sim, que estamos mais interessadas nos caminhos que percorremos até lá.
Capítulo 4
Reconheça o que você sabe.
Mas, saiba que você
não sabe tudo.
Capítulo 4
Reconheça o que você sabe.
Mas, saiba que você não sabe tudo.
Marcelo chegou até a terapia com a demanda de pensar suas relações no trabalho. Passamos alguns meses investindo na conversa com esse foco. Houve uma sessão em que eu propus ampliar o foco de nosso diálogo saindo apenas do trabalho, em direção aos valores que, para ele, eram importantes na vida. Com essa conversa, eu tinha a intenção de ajudá-lo a nomear quais eram as coisas importantes para ele, para então refletirmos sobre as maneiras como essas coisas estavam ou não presentes em sua vida laboral e, mais ainda, se era possível cuidar desses valores em outros contextos que não apenas do trabalho. Essa sessão trouxe para o foco um valor importante de Marcelo: os vínculos de sua vida. Por um lado, essa conversa nos ajudou muito a progredir com as reflexões sobre seu trabalho. Por outro lado, nomear esse valor nos levou a um novo terreno de exploração em terapia: Marcelo, um homem solteiro de quase quarenta anos, tem muita vontade de ter sua própria família, na qual possa compartilhar de um tipo de vínculo especial que conheceu em sua família de origem. Para ele, isso pode acontecer na forma de casamento, mas, principalmente, da paternidade. Aqui, adentramos uma conversa cujo conteúdo, como terapeuta, não me é teoricamente nada familiar: a adoção. Como posso ajudar Marcelo a caminhar nessa reflexão?
Cada perspectiva em Psicologia e decorrentes práticas terapêuticas conceituam indivíduo, problema e mudança de sua própria forma. Existem escolas de terapia que focam no tratamento de problemas específicos, como ansiedade ou depressão, por exemplo.
Contudo, em sua maioria, a formação do terapeuta costuma estar voltada para se pensar o ser humano e suas formas de estar no mundo. Dentro deste escopo, o foco está na postura terapêutica. Isso faz sentido, se pensarmos que não somos (ou não deveríamos) ser treinados para atender diagnósticos, mas sim, pessoas. É claro que existem profissionais com mais experiência e conhecimento em uma ou outra área. Mas, na prática terapêutica da vida real, tipicamente, não escolhemos nossos clientes pela demanda. Eles chegam até nós por redes de indicação que confiam em nosso trabalho. Como terapeuta, portanto, sua função é criar um ambiente seguro em que o cliente possa organizar suas próprias concepções, ouvir a si mesmo falar em voz alta e ampliar seus entendimentos a respeito das questões que lhe são importantes. Você não precisa ter todas as respostas, mas, precisa proporcionar um ambiente fértil para sua construção.
• Confie no processo. Mantenha sempre a conversa em andamento com perguntas curiosas. Escute atentamente. Pergunte sobre o que lhe parece mais interessante. Utilize seus recursos teóricos como forma de tornar entendimentos mais complexos, quando necessário. Busque recursos em outros lugares da vida cultural: poesia, cinema, teatro14.
• Faça apenas aquilo que tem confiança. Apesar de você não ter que saber tudo, lembre-se: você sabe muitas coisas. Algumas vezes, temos a tendência de naturalizar nosso conhecimento. É como se qualquer pessoa pudesse fazer aquilo. Lembre-se: não é bem assim. Se você chegou ao ponto de estar sentado de frente a um cliente que te procurou, isso provavelmente se baseia em um histórico de formação. Reconheça o que este histórico te permite fazer com confiança e aposte nisso.
A conversa de adoção com Marcelo despertou em mim um senso de responsabilidade importante, tanto pela magnitude de uma possível decisão que possa decorrer dessas reflexões, quanto pelo fato de não ser uma temática que eu tivesse estudado com qualquer profundidade. Quando me conecto com a conversa a partir deste enquadre, minha vontade é parar tudo e me matricular imediatamente em algum curso de especialização sobre adoção. Porém, Marcelo está ali, na minha frente, se conectando de forma sensível com algo tão importante para ele. Respiro fundo e converso comigo mesmo, em silêncio: “quais dos meus conhecimentos e repertórios culturais podem me auxiliar a estar aqui com Marcelo?” Penso em nosso vínculo, construído ao longo dos últimos meses, e em como é especial que ele volte a pensar sobre a paternidade a partir de uma conversa que tivemos. Conecto-me com minha formação como psicólogo e terapeuta de família. O que mais aprendi nesta trajetória foi a ouvir as pessoas, estar com elas, e fazer boas perguntas. Lembro-me de um livro sobre adoção que ganhei de uma amiga psicóloga, mas, nunca li. Penso também nessa amiga: posso ligar para ela e conversarmos um pouco... o que ela me orienta neste caso? Esse diálogo interno me reposiciona na conversa. Sei algumas coisas. Outras não. Posso seguir em diálogo com Marcelo a partir daí.
A não familiaridade com algum tema em terapia pode ser assustadora. Porém, se pensarmos com calma, perceberemos que possivelmente isso vai acontecer com mais frequência do que gostaríamos. Afinal, as vidas das pessoas são múltiplas. Não existe possibilidade de qualquer terapeuta ter domínio, em termos de conteúdo, da possivelmente infinita variedade de temáticas que atravessa as vidas das pessoas. Como proceder, então? Considere o seguinte enquadre: não conhecer sobre algo te oferece uma perspectiva única, na qual você pode estar inteiramente curioso em aprender com o cliente sobre aquele
mundo estrangeiro para você15. Suas perguntas podem funcionar como a de um explorador em um novo território, guiado por alguém nativo. Neste encontro, o nativo redescobre seu próprio lugar a partir de um olhar de fora, de quem se encanta como novidades por aquilo que, para o outro, já parecia conhecido e comum demais.
• Aprenda com o conhecimento do cliente. Toda pessoa sabe mais sobre sua própria vida do que você mesmo. Coloque-se disponível para aprender com ela sobre o que lhe é importante. Ouça suas dúvidas e angústias, mas, também, seus recursos e potencialidades. Ajude o cliente a dar nome – forma e contorno – para sua experiência. Mas, lembre-se: qualquer fala do terapeuta não deve ser encarada como uma verdade, mas, como um convite a fazer sentido de uma situação.
• Continue se formando. A formação de um bom terapeuta nunca está finalizada. Quanto mais você praticar, mais conhecerá novas questões de interesse. Novas oportunidades de revisitar o que você já sabe acontecerão todos os dias. Portanto, continue estudando. E muito! Faça supervisão. Esteja inserido em grupos de discussão de casos e de teoria.
• Saiba quando encaminhar. Algumas vezes, a demanda do cliente está para além do seu conhecimento. Outras, a conversa te toca como terapeuta de uma maneira improdutiva, que te paralisa. Seja qual for o motivo, você não precisa dar conta de todas as demandas. Saiba reconhecer quando atingiu seus limites e encaminhar para outros profissionais que poderão ajudar melhor a pessoa que te procurou. Isso não é um problema, mas, sim, uma grande virtude. Tenha bons parceiros – tanto em sua
própria profissão, quanto de outras especialidades – com quem possa contar para este tipo de encaminhamento.
Ligo para minha amiga. Ela me passa muitas informações valiosas sobre o processo legal de adoção e, principalmente, caminhos práticos pelos quais posso ajudar Marcelo a caminhar: grupos de apoio, serviço social, vara de família, etc. Ela me conta ainda sobre aspectos que, em sua experiência atendendo futuros pais e mães, parecem-lhe importantes: motivação para a adoção, e condições materiais e emocionais para a vida em família. Enquanto a ouço, tomo nota de todas essas informações, sabendo que serão muito úteis no processo com Marcelo. Ao fim de nossa conversa, contudo, ela me diz algo que acaba por ser, para mim, o mais útil de tudo: “Pedro, que bom que ele está aí com você pensando nessas coisas. Você é um bom companheiro de conversa. Tenho certeza de que poderá ajudá-lo muito nessa decisão importante16”.
Capítulo 5
Esteja comprometido com a
transformação.
Mas, não defina o sucesso da terapia só por isso.
Capítulo 5
Esteja comprometido com a transformação.
Mas, não defina o sucesso da terapia só por isso.
Gustavo, um garoto de 12 anos de idade, chegou em meu consultório acompanhado pelos pais. Eles tinham uma expectativa muito clara em relação à terapia: fazer com que a enurese noturna (xixi na cama) desaparecesse da vida de seu filho. Receber esta demanda foi um desafio e tanto, já que eu não trabalhava com técnicas e recursos específicos para alívio da enurese. Deixei isso claro para os pais desde a nossa primeira conversa. Também esclareci para eles que meu primeiro objetivo no processo terapêutico de Gustavo seria separar as histórias dele e da enurese noturna, que estavam misturadas desde o seu nascimento. Criamos, assim, uma personagem para representá-la – batizada por Gustavo com o nome de Companheiro. A partir daí só conversamos sobre ela nestes termos17. A maior parte das nossas sessões eram organizadas em torno do Companheiro, e nós dois nos empenhamos em entender melhor quais eram os efeitos dele na vida de Gustavo: suas vantagens e desvantagens, que outras pessoas o conheciam, em que contextos ele aparecia com mais ou menos frequência... Gustavo fez até um relatório de pesquisa bastante profissional, onde registrava em um diário o que acontecia em cada dia da semana, e se/como o Companheiro apareceu naquela noite. Nesta pesquisa, chegamos a algumas hipóteses sobre seu aparecimento: a quantidade de água que ele bebia à noite, como ele se sentiu durante o dia (descobrimos que a alegria, confiança e tranquilidade faziam o Companheiro sumir por um
17 Essa forma de interagir com Gustavo foi informada pelas conversas de “externalização do problema”, propostas nas práticas narrativas. White, M. (2012). Mapas da Prática Narrativa. Porto Alegre: Pacartes.
tempo), e quais eram suas expectativas para o dia seguinte. Construímos muitos entendimentos e estratégias inéditos ao longo dos nossos encontros. Mas, apesar disso, o Companheiro não deixou de aparecer.
Ao longo da nossa trajetória na clínica vamos nos encontrar com muitas pessoas que, assim como Gustavo e sua família, chegam até nós com expectativas claras em relação à resolução de seus problemas, estejam eles relacionados a sintomas fisiológicos ou não. Ansiedade, depressão, pânico, insônia, continuar ou não em um relacionamento, resolver a insatisfação com o trabalho... Independente da questão, nossos clientes nos apresentam a ela com a esperança de que vamos resolvê-la... E fazem isso com razão! Construímos a legitimidade da nossa profissão a partir da eficiência em transformar a relação das pessoas com os seus problemas. Por isso, ao reconhecermos que o trabalho do psicólogo clínico é sempre organizado em torno destes problemas, passamos a conduzir e a avaliar o processo terapêutico com base em sua resolução. • Deixe claro o que você tem a oferecer. Ao receber demandas muito específicas para a terapia, especialmente aquelas que envolvem o alívio de sintomas fisiológicos, tenha o compromisso ético de esclarecer para o cliente quais seriam suas propostas de intervenção diante dos pedidos que lhe foram feitos. Mesmo reconhecendo que estamos sempre sujeitos à frustrações e desencontros entre o que os clientes esperam da terapia e seus efeitos reais, saber desde o início qual o acordo entre vocês minimiza este risco.
• Lembre-se que o pedido pode mudar com o tempo. As conversas terapêuticas transformam não só a relação entre o cliente e o problema, mas também, aquilo que é reconhecido como tal. Os novos entendimentos sobre o que o problema é, inauguram também novas expectativas e planos de ação em direção à mudança. Por
isso, é importante que você esteja disposto a revisar e, se preciso, renegociar com seu cliente quais são seus pedidos e esperanças em relação à terapia.
Nos comprometermos com a solução do problema é parte importantíssima do nosso trabalho. Ao mesmo tempo, não podemos resumi-lo a isso. Em primeiro lugar, porque a complexidade da relação construída entre cliente e terapeuta extrapolam o foco simplista e objetivo que a resolução do problema sugere. Em segundo lugar, porque quando dedicamos toda a nossa atenção ao problema, deixamos de olhar para muitos outros aspectos da história do cliente que estão livres de sua influência. Cuidar ativamente para que o problema seja apenas um dos muitos elementos da narrativa das pessoas que nos procuram é um compromisso ético do terapeuta, já que, na maioria das vezes, o sofrimento é consequência do efeito empobrecedor e limitante que a história do problema exerce nas suas narrativas. Muitas vezes, um problema não pode ser resolvido, tanto quanto dissolvido, ou seja, perder influência sobre a vida da pessoa ao ponto de não mais ter o status de problema18.
O Companheiro foi o motivo que trouxe Gustavo ao meu consultório. Isso o tornou um organizador importante das nossas conversas. Ainda assim, eu estava a todo tempo me perguntando “o que estamos fazendo juntos, enquanto conversamos sobre ele?”. Essa pergunta foi inspirada pela lição de uma supervisora brilhante que tive a sorte de encontrar ao longo da minha formação19. Enquanto supervisora de um grupo de estagiários que trabalhavam em uma ONG que atendia crianças, ela era muito questionada, “para que eu fico indo lá pentear cabelo de menino!?”. Ao que ela respondia, “o que de extraordinário você está fazendo enquanto penteia aquele cabelo? Quais os sentidos e efeitos desse gesto na relação de vocês? Quem vocês se tornam ao fazer isso?”. Nunca vou me esquecer destas
18 Anderson, H., & Goolishian, H. A. (1988). Human systems as linguistic systems: Preliminary and evolving ideas about the implications for clinical theory. Family Process, 27(4), 371-393.
19 Agradeço à Profa. Dra. Marisa Japur, do Instituto ConversAções e da Universidade de São Paulo, em memória.
perguntas. Foram elas que ampliaram o meu olhar para o processo terapêutico de Gustavo. Conversar sobre o Companheiro com uma estranha (no caso, eu), já era por si só um movimento extraordinário na história dele, pois, muitas vezes, sua timidez o impedia de conversar com pessoas fora do contexto familiar, ainda mais sobre um assunto tão secreto e constrangedor quanto a enurese. Além da confiança que construímos ao longo da terapia, Gustavo também passou a ocupar uma posição ativa e engajada na sua relação com o Companheiro. Ao convidá-lo para o papel de “investigador” do mesmo, ele pôde experimentar esta relação a partir de uma outra perspectiva, mais curiosa e potente, muito diferente daquela de uma criança refém dos efeitos da enurese noturna. A ludicidade e o tom descontraído dos nossos encontros também foram valiosos neste processo, afinal, antes da terapia o Companheiro só aparecia em conversas de tons sóbrios e marcadas de preocupação. Confiança, engajamento, descontração, curiosidade e potência – essas palavras passaram a nomear os motivos pelos quais Gustavo estava em terapia, e que a história dominante sobre o Companheiro tentava esconder.
Estar atento ao processo como um todo, e não apenas à queixa, pode ser um aliado poderoso na construção de transformações importantes em terapia. Para isso, algumas dicas são muito úteis:
• Incentive a construção de narrativas inéditas. Devemos nos engajar na narrativa do cliente sobre o seu problema e, ao mesmo tempo, resistir para que esta seja sua única ou mais importante história. Fazemos isso quando estimulamos narrativas marginalizadas pela história dominante sobre o problema, dedicando a elas nossa atenção e curiosidade com o objetivo de adensá-las. Ao convidar o cliente para experimentar outras posições e perspectivas, em narrativas que não estão
condicionadas ao problema, estimulamos sua criatividade no desenvolvimento de estratégias mais úteis e sustentáveis para a dissolução de suas questões.
• Deixe o problema de lado. Muitas vezes, um problema é resolvido justamente quando não damos atenção a ele. Esta estratégia desafia uma lógica tradicional de resolução de problema que nos diz que precisamos, primeiro, esgotar todos os entendimentos possíveis sobre ele e, só depois, encontrar sua solução. Na prática, isso pode não funcionar, porque enquanto falamos sobre o problema estamos também reforçando sua centralidade e, consequentemente, a sua influência na vida da pessoa. Devemos nos perguntar “quem estamos nos tornando, e o que o problema se torna quando conversamos sobre ele deste jeito?”. Se a resposta se parece com “estamos nos tornando reféns do problema, dedicando a ele todo o nosso tempo e atenção”, devemos cuidar para que outras histórias, livres de sua influência, também possam participar do contexto terapêutico.
• Não limite a terapia ao que o cliente quer transformar. Aquilo que fazemos e quem nos tornamos enquanto tentamos resolver problemas são as maiores potências da terapia. É por isso que estamos sempre muito atentos ao processo terapêutico como um todo, e que qualquer mudança alcançada em terapia só pode fazer sentido a partir dele. A oferta de um espaço de acolhimento e escuta generosa, em uma relação construída a partir do respeito e do interesse profundo pela história do outro, pode ser revolucionária e transformadora na vida dos clientes. Logo, limitar a terapia somente ao alcance de resultados palpáveis e objetivos, é injusto diante da complexidade do encontro terapêutico.
As semanas passavam e falávamos cada vez menos sobre o Companheiro, que foi substituído por conversas sobre a escola, sobre o medo, sobre a timidez, sobre os desenhos
de avião, sobre o sonho de conhecer a Disney... À medida que as conversas foram se tornando mais complexas, o Companheiro foi deslocado do lugar de protagonista do processo terapêutico, e Gustavo foi convidado à ocupar novamente esta posição. Por mérito e por direito, a história de Gustavo foi devolvida a ele, assim como a autoridade para escolher como continuaria a escrevê-la. Coincidentemente (ou não), no ponto em que encerramos a terapia, o Companheiro havia diminuído significativamente suas visitas para Gustavo. Mas, este não foi o ponto final da história. Há 4 meses atrás, passados dois anos desde este encerramento, Gustavo voltou para a terapia, explicando: “estava me sentindo triste e ansioso com algumas coisas na escola”. As palavras escolhidas por ele para justificar seu retorno para a terapia são muito significativas. Isso porque o Companheiro ainda faz parte de sua vida – de um jeito mais sutil, quando comparado ao passado - mas, essa não é mais a coisa mais importante sobre ele. Hoje em dia, conversamos sobre muitas outras coisas, e ao Companheiro só cabe uma pergunta ao final de cada sessão: “e aí, como ele está?”. Quando libertamos a história de Gustavo da influência do Companheiro, nos libertamos também da ideia de que qualquer mudança significativa em sua vida só seria possível depois do desaparecimento da enurese. Assim, conseguimos construir uma narrativa na qual, apesar de ainda ser acompanhado pelo seu Companheiro, Gustavo poderia continuar caminhando pela vida sem que esteja refém dele.