• Nenhum resultado encontrado

O processo de não elaboração do luto e suas possíveis consequências

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "O processo de não elaboração do luto e suas possíveis consequências"

Copied!
43
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

GUSTAVO SCHUBERT

O PROCESSO DE NÃO ELABORAÇÃO DO LUTO E SUAS

POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

SANTA ROSA, DEZEMBRO DE 2017

(2)

GUSTAVO SCHUBERT

O PROCESSO DE NÃO ELABORAÇÃO DO LUTO E SUAS

POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí, para obtenção do título de Bacharel em Psicologia. DHE – Departamento de Humanidades e Educação.

Orientadora: Flávia Flach

SANTA ROSA DEZ DE 2017

(3)

“ É assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem

o trem que chega é o mesmo trem da partida

a hora do encontro é também da despedida”

Encontros e despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant)

(4)

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho de conclusão de curso a todos os meus familiares, e amigos que compreenderam quando precisei abdicar de momentos em que poderíamos estar juntos. A minha orientadora Flávia Flach, pelas suas ideias e sugestões, a qual foi fundamental para a construção deste TCC. E a todos aqueles que contribuíram para que este trabalho se tornasse possível.

(5)

Agradecimentos

Gostaria de agradecer a todas as pessoas, que de alguma forma ou outra, contribuíram no meu percurso acadêmico para que eu pudesse chegar até aqui.

Agradeço inúmeros ensinamentos que me foram passados pelos professores e colegas através de momentos compartilhados em sala de aula e/ou supervisão.

(6)

RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso tem por objetivo situar sobre as consequências psíquicas de um luto não elaborado. O processo de luto se caracteriza por um momento de parada que restabelece as possibilidades do sujeito de criar novos vínculos. Uma vez que o objeto é perdido o sujeito reage profundamente através do luto, no qual procura reorganizar os investimentos libidinais, trabalhando psiquicamente. Ocorre assim uma limitação desse sujeito, uma vez que normalmente é difícil se desligar do objeto perdido e reinvestir num outro. Este trabalho tem como foco principal de estudo os fatores que podem interferir na não elaboração do luto e suas consequências psíquicas para o sujeito, pois existem situações em que esse não segue a evolução esperada, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer uma fixação numa das etapas do luto. Nesses casos observa-se uma dificuldade extrema em aceitar a perda. Este luto não resolvido pode interferir no estado emocional da pessoa, impactando significativamente na vida da mesma. Porém, a ideia de luto não se limita apenas a morte, mas ao enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas que ocorrem durante o desenvolvimento humano, os quais vão permitir que ao chegar na vida adulta, a pessoa possa lidar melhor com as suas frustrações. O luto, portanto, é um movimento que o sujeito realiza psiquicamente para superar momentos de perdas tanto reais quanto simbólicas. Ao perder algo que implica um investimento, é necessário reorganizar e reinvestir. Este trabalho psíquico então é denominado de luto. Quando este não for elaborado por sua vez, poderá trazer inúmeras consequências psíquicas para o sujeito, entre elas a depressão.

(7)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...7

1.

OLUTOPELOOLHARDAPSICANÁLISE ...9

2.

OPROCESSODOLUTO ...20

2.1.OVIVEROLUTO ...20

2.2ANÃOELABORAÇÃOOLUTOESUASCONSEQUÊNCIASPSÍQUICAS ... ...26

CONSIDERAÇÕESFINAIS ... ...39

(8)

INTRODUÇÃO

Desde o nascimento até o final da vida enfrentamos situações de vínculos e separações, que podem estar relacionados à morte de alguém significativo. A ideia de morte vem, normalmente, acompanhada de pesar, medo e angústia, que dificultam encará-la como um processo natural da condição humana. Para, além disso, a sociedade contemporânea de certa forma impõe, que todos tenhamos uma vida longa e saudável, ignorando o fim inevitável.

No decorrer do percurso acadêmico, os assuntos que se relacionavam à morte e/ou processo de luto despertavam interesse o que levou a escolha deste tema para o trabalho final de conclusão de curso. .

Como dissemos, falar em morte na nossa cultura pode ser considerado um tabu, pois o homem contemporâneo não sabe o que fazer exatamente com esta, uma das saídas possíveis é ignorá-la ou não falar dela. Quando o processo de luto é decorrente de uma morte, esta não é somente uma experiência dura e profunda de perda, mas também a evocação de nossa condição mortal.

Durante esse trabalho veremos que cada indivíduo reage de forma diferente perante a uma perda, dependendo da sua estrutura emocional. Para tanto é fundamental falarmos aqui da importância de viver o processo de luto até que ele seja superado, para que a dor da perda não fique reprimida e se manifeste posteriormente num sintoma.

O objetivo então deste trabalho de conclusão de curso é para além de trabalhar sobre a importância da elaboração do luto, abordar sobre as consequências psíquicas de um luto não elaborado.

Para tanto, o primeiro capítulo trabalhará com o conceito de luto através do olhar da psicanálise, e demais conceitos importantes para o entendimento deste processo.

Já o segundo capítulo, abordará sobre a importância de viver o processo de luto e os fatores que podem interferir na não elaboração deste e suas consequências psíquicas, na visão de vários autores.

Este trabalho de conclusão de curso contará com uma pesquisa bibliográfica através de livros, artigos e monografias que abordam acerca desse tema. Assim, com base, pretendo elucidar de forma breve e clara o que seria um processo de luto

(9)

“normal” e os fatores que podem interferir na não elaboração deste e suas consequências psíquicas.

(10)

1. O LUTO PELO OLHAR DA PSICANÁLISE

O processo de luto está inevitavelmente presente na existência humana, entre a vida e a morte. Para compreender tal princípio busca-se, neste capítulo, explorar as concepções de luto e seu processo, a partir da teoria psicanalítica.

Para começar a conceituá-lo, primeiramente aborda-se o desenvolvimento do indivíduo que passa por constantes perdas, entre elas, do “seio materno”.Para Freud (1923),o próprio ato de nascer é o primeiro grande estado de ansiedade, que ocorre por ocasião da separação da mãe, diante de um perigo de desamparo psíquico.O qual se torna assim a fonte e o protótipo do estado de ansiedade na infância. Com isso, de acordo com o seu desenvolvimento, a criança tende a ir trabalhando psiquicamente suas fantasias.

Para Freud (1926) são as primeiras experiências traumáticas que constituem o protótipo dos estados afetivos incorporados na mente e quando ocorrem em uma situação semelhante eles são revividos como símbolos mnêmicos. Ou seja, estes são experiências traumáticas vividas na infância. Inicialmente, a imagem mnêmica que a criança tem da pessoa pela qual ela sente anseio é intensamente investida pela mãe, em seu estado ainda pouco desenvolvido. Essa imagem mnêmica é provavelmente de forma alucinatória e a criança não sabendo como lidar com suas fantasias, origina uma ansiedade.

Considerando o desenvolvimento freudiano acerca do aparelho psíquico, que é pensado a partir das instâncias do id, eu e do supereu, as quais são apontadas como parte integrante do sujeito. Entende-se entre a dimensão do eu enquanto aquela que organiza o sujeito. O Id possui tudo aquilo que nos faz pensar nas suas ligações com o passado, desde o nascimento do indivíduo. Ademais, nos permite pensar nas influências do mundo em que o homem está inserido, levando em conta questões internas e externas a que todos estão submetidos. Vale lembrar, que muitas experiências que são vividas pelo sujeito estão recalcadas formando o reservatório das pulsões.

Em A Lógica da Castração: os três tempos do Édipo (1957-1958, p. 197-198), Lacan assevera que num primeiro momento a criança se encontra numa relação de indistinção com a figura materna, ao sair do Estádio do Espelho a criança ainda está numa relação imediata com o desejo da mãe (ou com quem exerça a função materna). No primeiro tempo do Édipo a criança se põe no lugar do objeto que ela

(11)

acredita faltar a mãe, ocupando então o lugar do falo1. Para o autor, ser o falo da mãe, é o que a criança busca. Nesse momento do Édipo ela está presa na dialética ser ou não ser o falo e alienada no desejo da mãe.

De acordo com Chemama (1995, p.58) a fase do espelho é o aparecimento do narcisismo primário, narcisismo no sentido pleno, pois indica a morte, ligada à insuficiência de vida em que surge o narcisismo primário. De fato é uma fase da constituição do ser humano, situada entre o sexto e décimo oitavo mês, período caracterizado pela imaturidade do sistema nervoso. Esta prematuridade específica do nascimento, no homem, é comprovada pelas fantasias de corpo fragmentado, encontradas nos tratamentos psicanalíticos.Então deve-se compreender a fase do espelho como uma identificação, isto é, a transformação produzida em um sujeito, quando ele assume uma imagem.

No segundo tempo do Édipo quando intervém a palavra paterna na relação mãe-filho, a criança é inserida na dialética da castração. A mediação paterna surge sob a forma de privação. O significante Nome-do-Pai2 revela à mãe que ela não pode reter o seu produto, e ao filho que ele não pode ser reintegrado à própria mãe. O pai aparece como representante fálico, como o rival que vai promover o deslizamento do filho com relação ao lugar fálico frente ao desejo materno. Diante da função paterna há um deslocamento à representação do objeto fálico. A criança percebe que o pai significa a Lei, e que a mãe também está submetida a essa Lei; o desejo da mãe, assim, está contido na lei do desejo do Outro. Ou seja, o desejo da mãe é dependente de um Outro, que detém o objeto de seu desejo: surge o pai como possuidor do falo e da palavra do pai (LACAN, 1957-1958 , p. 198-199).

O terceiro tempo do conflito edípico é o momento do declínio do Complexo de Édipo que traz o fim da rivalidade fálica com o pai em torno da mãe; nessa fase ocorre a simbolização da Lei, a mãe e a criança inscrevem-se na dialética de ter. A mãe não possuindo o falo pode ir à busca de quem o tem, e sabe onde procurar, no lado do pai. O filho vai renunciar a ser o falo e irá à busca de vir a possuí-lo, para isso vai trilhar o caminho da identificação com o pai. A menina por sua vez, renuncia

11

[...] Em psicanálise, o uso desse termo sublinha a função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetividade, enquanto o termo “pênis” é sobretudo reservado para designar o órgão na sua realidade anatômica. (LAPLANHE; PONTALIS, 2001, p.166).

2

De acordo com Lacan (1999) pai como função em uma operação está articulado aos três registros que Lacan formula: real, simbólico e imaginário. A dimensão simbólica se realiza pela escrita da metáfora do Nome-do-Pai, a substituição do Desejo da mãe pelo significante do nome-do-pai.

(12)

a ser o objeto de desejo da mãe, posicionando-se na dialética de ter. Ela está do lado da falta, ela não tem o falo por isso se identifica com a mãe, e assim como a mãe sabe onde ir buscá-lo, no lado do pai. (LACAN, 1999, p. 200).

O movimento em direção ao Nome-do-pai é correspondente ao recalque originário, pois, pelo acesso à linguagem a criança produz um afastamento com relação à sua própria vivência, substituindo o registro de ser o falo pelo registro do ter um desejo mesmo que limitado. A castração imposta pelo pai resulta no recalque do desejo incestuoso pela mãe. A partir da linguagem, o desejo é nomeado e simbolizado, o Nome-do-pai produz ao mesmo tempo a clivagem da subjetividade infantil em consciente e inconsciente. A castração (simbólica) incide, pois, sobre um objeto imaginário, o falo. A criança deixa de ser o falo e a mãe deixa de ser a lei (Garcia-Roza, 2001, p.222).

De fato o Complexo de Édipo assume toda a sua dimensão de conceito fundador quando, Freud (1927) o articula com o complexo de castração; este ao provocar a interiorização da interdição oposta aos dois desejos edipianos (incesto materno e assassinato do pai) abre o acesso à cultura pela submissão e a identificação com o pai portador da lei que regula o jogo de desejo.

O complexo de castração compõe-se de duas representações psíquicas. Por um lado o reconhecimento, que implicaria a superação da negação, inicialmente observada da diferença anatômica entre os sexos. Por outro, como consequência dessa constatação, a rememoração ou atualização da ameaça de castração, no caso do menino, ameaça esta que é ouvida ou fantasiada, particularmente por ocasiões de atividades masturbatórias e que assim vem se manifestar a posteriori. Para Freud (1927) o pai (ou a autoridade paterna) é o agente direto ou indireto dessa ameaça. Na menina a castração é atribuída à mãe, sob forma de uma privação do pênis como dito anteriormente.

A experiência da castração está presente na vida cotidiana, como a separação das fezes do próprio corpo, por exemplo. Porém, a experiência da morte representa a "castração por excelência", pois é irreversível e incapaz de ser compensada através de substitutos. O eu permanece absolutamente vulnerável perante a morte. Com isso percebe-se que o indivíduo é indefeso perante a morte, e tem-se a certeza, de que todo o ser vivo, um dia vai morrer, mas o ser humano burla essa lei, pensando que a morte nunca vai chegar até ele.

(13)

Por isso toma-se aqui o conceito do narcisismo que conforme Freud (1914) é definido a partir de duas maneiras particulares. O narcisismo primário e o secundário. Quanto ao narcisismo primário este é o investimento depositado num amor por si mesmo, um auto-erotismo. Já o narcisismo secundário refere-se a um investimento do sujeito em um ideal. O narcisismo, desse modo resulta em um investimento centralizado na relação entre a criança e seus pais. Assim, num primeiro contato social a criança constrói sua percepção do mundo exterior, se inserindo na cultura e na dinâmica familiar. Trata-se de um momento de formação do sujeito, o qual se define pela relação edipiana, que movimenta as escolhas objetais, como já falado anteriormente.

Todos esses elementos abordados até então, contribuem para perceber o desenrolar do funcionamento psíquico de um sujeito. Com isso é possível compreender como se dá o investimento objetal e as futuras relações que influenciarão para a compreensão do luto.

Freud (1917) desenvolveu algumas considerações significativas sobre o luto e melancolia. Este teórico refere que o luto se relaciona a um momento de manifestação dolorosa frente a uma perda significativa para um sujeito. Segundo o autor o valor psíquico que o sujeito investe sobre o objeto perdido é uma reação perante a circunstância de uma perda. A existência psíquica do objeto caracteriza-se pelo afeto, ou seja, quando você possui algum vínculo com uma pessoa. Então, nesse sentido, em situações de perda, o sujeito precisa investir libidinalmente num novo objeto.

De acordo com a teoria psicanalítica o conceito de libido pode ser vista como uma energia, esta aproveitável para os instintos de vida. Segundo Freud, ela não é algo apenas interno, algo que está ligado a desejos sexuais. Em sua teoria, ela está estritamente relacionada aos fenômenos psicossociais. Também as alterações, as características ou as modificações libidinais estão atreladas aos mesmos fenômenos, isto é, o seu aumento ou a sua diminuição, a sua produção, a sua distribuição, o seu deslocamento, tudo estaria relacionado ao mesmo processo.

Uma das principais características da libido está ligada ao seu deslocamento ou mobilidade. O deslocamento da libido está diretamente unido a esse desenvolvimento, que se passa durante a infância. Essa mobilidade está vinculada à alternação do desejo sexual de uma área para outra do próprio corpo humano. Sua atenção se volta para essa área, conforme a criança se desenvolve, como se ela

(14)

estivesse se descobrindo. E, aos poucos, descobrindo as diferenças entre o masculino e o feminino, como já citado anteriormente no complexo de Édipo. Porém, a libido não está relacionada apenas nos aspectos físicos ou fisiológicos, ela também se vincula a aspectos psicológicos e emocionais.

Voltando ao conceito de luto segundo Aberastury e Knobel (1981), este pode ser compreendido como um processo fundamental na constituição psíquica do sujeito, atrelado ao fato de que é pelo processo do luto que se possibilita a elaboração de fracassos desde a infância e principalmente na adolescência, os quais vão permitir, que ao chegar a vida adulta, o sujeito possa lidar com as suas frustrações,

Entrar no mundo dos adultos - desejado e temido - significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento. As mudanças psicológicas que se produzem neste período, e que são a cor relação de mudanças corporais, levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. Isto só é possível quando se elabora, lenta e dolorosamente, o luto pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância. (Aberastury&Knobel, 1981, p. 08).

Retomando as considerações de Freud (1917) o autor revela que o luto é um processo doloroso. Já com relação a dor Freud (1926) apresenta que a dor, na dimensão mental, também é a reação real à perda do objeto.Quando há uma dor física, ocorre um alto grau do que pode ser denominado de catexia narcísica da parte do corpo que se sente a dor. Na dimensão mental, diante de uma situação dolorosa, esse investimento está concentrado no objeto do qual se sente falta ou que está perdido, por não poder ser apaziguada, essa catexia tende a aumentar. A dor na dimensão mental produz a mesma condição econômica que é criada diante de uma dor física. A transição da dor física para a mental corresponde a uma mudança de investimento narcísico (investida na parte danificada do corpo) para a catexia do objeto (objeto perdido do qual se sente falta).

No processo de luto, qualquer atividade que não esteja ligada ao objeto perdido causará inibição e a perda de interesse no mundo externo o mundo fica pobre e vazio, para o enlutado nada tem mais graça. Para Freud (1915), essa inibição é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção esta, que nada deixa a outros propósitos ou interesses.

(15)

Freud (1926), fala sobre a inibição, que não apresenta necessariamente uma implicação patológica, sendo uma restrição da função do ego imposta como medida de precaução ou acarretada como resultado de um empobrecimento de energia. O ego, no estado do luto, se vê envolvido e absorvido em uma tarefa psíquica particularmente difícil, perdendo uma grande quantidade de energia à sua disposição, tendo que reduzir o consumo dessa energia em muitos pontos ao mesmo tempo.

O sujeito diante a uma perda, sente falta do objeto, afinal ele não existe mais e suportar essa realidade traz sofrimento. Portanto, a realidade da perda atua para a preservação do ego, solicitando um adiamento da satisfação. O ego está absorvido neste processo por meio das lembranças vinculadas ao objeto, deste modo, obtém uma satisfação imediata, na qual conserva e prolonga-se psiquicamente, nesse meio-tempo, o sujeito crê na permanência da existência do objeto perdido. Segundo Freud (1915), esta oposição ocasiona um desvio da realidade e um apego ao objeto perdido.

Cada uma das lembranças e expectativas isoladas por meio das quais a libido está vinculada ao objeto é invocada e a realidade da perda exige que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Desta forma, o trabalho do luto é concluído quando a realidade prevalece,atingindo certo grau de investimento, a libido é desligada e o ego se vê livre e desinibido outra vez.

Mucida (2004) entende que quando o sujeito consegue metaforizar, encontrar diferentes significados para um fato, mais efetivo é o trabalho do luto. Segundo a autora, quanto mais possibilidades um sujeito tiver de se haver com a realidade de que algo não se inscreverá jamais, suportando portando, a castração (um limite a que estão submetidos) mais o trabalho do luto tratará de abrir outras inscrições e reinscrições, a partir do que se preservou no eu do objeto amado, que se perdeu.

Dessa forma, Freud (1915) em Pulsões e suas Vicissitudes pensa a idéia de morte como uma impossibilidade de ser representada pelos sujeitos, que inconscientemente, acreditam-se imortais. Assinalando a conjunção estreita entre a vida e morte, o autor assegura que todos os homens se opõem à idéia de que a vida pulsional sirva para ocasionar a morte, que o circuito pulsional sirva para garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho em direção a uma morte mais natural possível. Entretanto Freud (1920) levanta a hipótese de que a pulsão é uma tentativa inerente à vida orgânica de retornar a um estado de plenitude. Assim, a

(16)

pulsão teria um caráter conservador, tentando conservar o organismo em um estado de tensão permanente o mais reduzido possível.

De acordo com Freud (1920) a teoria das pulsões pode ser dividida em dois momentos distintos. Num primeiro momento, Freud estabelece o conflito entre as pulsões sexuais e pulsões de auto-conservação. Em um segundo momento, o conflito passa a ser entre pulsões de vida e pulsões de morte. Cita que a pulsão é a medida do trabalho imposto ao aparelho psíquico em razão da sua dependência com o corpo.

Em 1905, no texto “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” Freud fala de um mundo interno totalmente novo e com representações próprias onde trabalha a possibilidade do prazer no olhar. Neste texto ainda tem-se fragmentos daquilo que o autor toma como sendo o conceito de pulsão. Deste modo, para o autor:

Por “pulsão” podemos entender, a princípio, apenas o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente, para diferenciá-lo do “estímulo”, que é produzido por excitações isoladas vindas de fora. Pulsão, portanto é um dos conceitos da delimitação entre o anímico e o físico. A hipótese mais simples e mais indicada sobre a natureza da pulsão seria que, em si mesma, ela não possui qualidade alguma, devendo apenas ser considerada como uma medida da exigência de trabalho feita à vida anímica. (FREUD, 1905, p. 159).

Freud (1915) entende pulsão como um conceito situado à fronteira do somático e do mental. Teria a pulsão acesso ao psiquismo apenas por meio de representações que operam na busca de estímulos originados ao organismo e posteriormente seria o aparelho psíquico incumbido do trabalho. Desta forma, é alcançada a conjectura sobre como a pulsão articula corpo e aparelho psíquico; sobre isso o autor escreve:

Um instinto, por outro lado jamais, atua como força que imprime um impacto momentâneo, mas sempre como um impacto constante. Além disso, visto que ele incide não a partir de fora, mas para dentro do organismo, não há como fugir dele. O melhor termo para caracterizar um estímulo seria necessidade. O que elimina uma necessidade é a satisfação. (FREUD, 1915,p.139).

Portanto, a fonte da pulsão seria de natureza somática. Representaria o corpo no psiquismo uma vez que é abordada pela psicanálise por via da ligação pulsional a um determinado tipo de objeto.

(17)

Através do conceito de pulsão de morte, Freud (1920) introduz a ideia de que todo ser vivo aspira à sua própria morte como um modo de por fim à tensão interna provocada pela pulsão sexual, que está sempre elevando o nível energético de estado de plenitude ou de nirvana.O estado de Nirvana é a descarga completa de tensão interna do sujeito até um nível zero de energia, que corresponderia à morte. O desprazer surge devido ao aumento desta tensão.

Na teoria freudiana a pulsão de morte é inerente ao homem: é uma luta obstinada, contínua e inexorável que o leva a procurar paz e repouso não importa por qual meio, sob qualquer forma, e não simplesmente uma força que visaria transformar o animado em inanimado. A pulsão de morte é o nome do paradigma relativo ao funcionamento psíquico. Deste ponto de vista a pulsão de morte procura eliminar ou reduzir a tensão energética, decorrente da não-ligação ao seu princípio de nirvana. A principal direção desta luta psíquica está centrada num estado de paz. De acordo Rechardt (1988, pg 49) assim a pulsão de morte só pode expressar de maneira indireta, ou seja, não se satisfaz nem com um objeto e nem com um ato particular, mas com um estado que só pode ser definido negativamente, um estado onde nenhuma perturbação intervém. Um "estado de paz" trata-se apenas de uma palavra positiva descrevendo aproximativamente um estado que só pode definir negativamente como uma tendência ao afastamento de algo.

Oliveira (2001) se dedica a escrever sobre o luto e também sobre a melancolia, os quais seriam processos semelhantes, porém diferenciados por alguns aspectos. Portanto, o luto como dito anteriormente, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar deste que perdeu, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém e assim por diante. A melancolia seria a reação frente as mesmas situações, em consequência de uma disposição patológica, relacionada com uma identificação narcisista com o objeto e com ambivalência, em que prevalecem aspectos hostis ao objeto,.

O processo psíquico do luto, que foi descrito como um trabalho de elaboração consiste em o enlutado retirar os investimentos do objeto porque a realidade impôs o seu veredicto. O objeto está morto. No entanto, ocorre ao enlutado uma resistência a abandonar essa posição, o que pode levar a uma alucinação do objeto. Porém, a realidade é respeitada; cada pensamento e cada lembrança são hiper-investidos, e o desligamento da libido vai-se realizando aos poucos. A perda do objeto é consciente por parte do enlutado: ele sabe quem foi perdido, e o mundo fica vazio. Quando o luto termina, o ego está livre para ocupar-se de outro objeto, e o consolo do que traz consigo traduz-se em “meu objeto amado não se foi,

(18)

porque agora trago-o dentro de mim e nunca mais poderei perdê-lo”. (OLIVEIRA, 2001, p.96).

No luto, o objeto amado não existe mais, fazendo com que toda a libido seja retirada dele, também não existe nada de inconsciente sobre a perda, pois o objeto perdido está presente no nosso consciente. Já a melancolia refere-se a uma perda do próprio eu, esta de nível simbólico. Quer dizer, o melancólico pode saber quem ele perdeu, porém não sabe o que de fato perdeu, pois se trata de uma perda do ego, sendo esta de valor narcísico. Conforme Freud:

[...] mesmo que o paciente esteja consciente da perda que deu origem a sua melancolia, mas apenas no sentido de que sabe quem ele perdeu, mas não o que ele perdeu nesse alguém. Isso sugeria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, na qual não existe de inconsciente a respeito da perda (1917, p. 251).

O melancólico debate-se em seu sofrimento, com um outro a quem ama, amou ou deveria amar, e sua autocensura é, na verdade, uma acusação dirigida ao objeto, ou seja todas as recriminações que o sujeito faz a si mesmo, suas queixas, sua auto- acusação são na verdade, punições dirigidas ao objeto perdido que se agora encontra incorporado.

Uma importante distinção entre o quadro clínico da melancolia e o luto é que, no primeiro, observa-se um empobrecimento do ego, fato que não se observa no luto. Enquanto que no luto o mundo se tornou pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego que empobreceu.

Freud (1917) afirma ainda que na melancolia haveria certo bloqueio na passagem dos traços mnêmicos do inconsciente ao consciente, produzindo então um tipo de regressão narcísica, no sentido da organização do eu, levando o melancólico a retirar-se do mundo externo e a se desprender de todo objeto de investimento como dito anteriormente.

Oliveira (2001, p. 81) situa que o trabalho do luto consiste numa perda de objeto, porém com o passar do tempo o eu acaba por reinvestir em si mesmo, e sequencialmente, em outros objetos. Freud (1917) pontuou a resistência encontrada no funcionamento psíquico, quer em relação às zonas erógenas investidas libidinalmente, quer quanto à modalidade de relações de objeto, pois isso implica em

(19)

um trabalho mental para vencer a tendência à fixação, à inércia e à ausência de excitação cujo modelo é a vida intrauterina.

Segundo Oliveira (2001), a partir de uma perspectiva não linear de se pensar o desenvolvimento e/ou a constituição e funcionamento do psiquismo, a passagem de uma nova etapa exige o abandono da anterior, para que se dê conta das novas demandas internas e externas impostas ao sujeito. Isto ocorre desde o nascimento até a morte (p.79-80). A autora ainda coloca o fato da palavra morte estar ligada ao pesar, o luto, a finitude, dor e desespero. Portanto, o sofrimento é consequência da morte. A autora afirma ainda, de forma irrefutável, que não há mudança sem sofrimento.

Não há como sairmos ilesos de experiências dolorosas, pois a experiência é uma professora severa porque é transformadora. (...) O fortalecimento interno do indivíduo é propiciado pelo resgate do amor, da tolerância, e da criatividade, após o reconhecimento da destrutividade, da inveja e do ciúme – manifestações da pulsão de morte dentro de si. (OLIVEIRA, 2001, p.80).

No decorrer da vida tem-se várias perdas simbólicas que são inerentes ao próprio desenvolvimento, pois a compreensão da constituição e funcionamento do psiquismo abre uma nova perspectiva de relação com a morte e assim, ela pode ser representada como própria da nossa existência por nós sermos seres mortais (Oliveira, 2001, p.81).

De acordo com Allouch (2004) o processo de luto implica em um enfrentamento doloroso e de intenso sacrifício, uma vez que o objeto perdido leva para a morte uma parte do sujeito enlutado, que o autor define como "um pedaço de si". A aproximação com a morte leva o sujeito a elaborar o luto. Nesta perspectiva, podemos pensar no enlutado diante da morte efetuando a sua perda. Assim, entendemos que o luto é extremamente importante de ser vivido, pois é um pedaço de si que o sujeito está perdendo.

O enlutado nele efetua sua perda, suplementando-a com o que chamamos um "pedaço de si" eis propriamente falando, o objeto deste sacrifício de luto, esse pequeno pedaço nem de ti nem de mim, de si e portanto de ti e de mim, mas na medida em que tu e eu permanecem, em si distintos. (ALLOUCH,2004, p.12).

Nesta perspectiva, o sujeito perde algo de si junto com o objeto amado marcando o seu valor fálico, respondendo a falta do objeto perdido. As

(20)

representações capazes de responder ausência permitem para a criança o encontro com seu desejo, simbolizando a falta. Quando perdido, o objeto carrega um pedaço do sujeito e isso se perde junto com o objeto, envolvendo assim um forte sacrifício de elaboração.

Logo, conforme Allouch (2004) o que é oferecido ao luto é exatamente este pedaço de si que é pertinente ao valor fálico, de grande valia para o sujeito. Sendo uma parte integrante do próprio eu, a versão do luto vem caracterizar todo o trabalho do enlutado, estando intimamente ligada com a perda de maneira simbólica e interligada ao objeto perdido. Na verdade a morte invoca a impotência do sujeito, colocando as cobranças da vida sobre o que não foi realizado, trata-se de uma cobrança do próprio sujeito perante a perda. É necessário que seja realizado o julgamento da verdade para que o sujeito possa compreender os fatos no real e assim, introduzir as possibilidades de trabalhar com a perda, implicando-se frente à morte, pois todos somos seres mortais.

Para o mesmo autor, neste sentido, o luto coloca o enlutado entre a realidade e a verdade. A seu tempo predominará a verdade, pois o enlutado pensa encontrar em outro lugar o que perdeu. Isso ocasiona uma negação fazendo o sujeito crer fielmente que o objeto perdido está presente. Trata-se do julgamento que o sujeito faz frente a situações de perda, e quando se dá conta da perda ele passa a acredita que a morte do objeto é verdadeira, ou seja, ocorre a aceitação.

No entanto, Allouch (2004) afirma que todo o sacrifício do luto se expõe perante a fragilidade do enlutado frente à perda existente. Diante da morte, a própria presença/ausência do objeto determina que haja ou não fechamento do luto, de maneira a mediar graciosamente do sacrifício deste. Portanto, o que está perdido, ou desaparecido, adquire o estatuto de inexistente, assim o sujeito cessa as possibilidades de relação com o objeto, levando consigo um pedaço de si, com um valor fálico.

Sendo assim, neste primeiro capítulo buscou-se falar sobre o luto e a sua elaboração na visão da psicanálise, porém nem sempre o sujeito consegue realizar o processo de luto. Pensando nessa perspectiva no segundo capítulo serão abordadas as consequências psíquicas de um luto não elaborado e quais os fatores que podem provocar essa não elaboração.

(21)

2. O PROCESSO DO LUTO

Como foi dito no capítulo anterior, luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo. O luto é um processo essencial para que se possa reconstruir e se reorganizar, diante de uma perda. É um desafio emocional, psíquico e cognitivo com o qual todos nós temos que vivenciar quando sofremos alguma perda significativa.

Portanto, nesse capítulo aborda-se as consequências de um luto não elaborado, pois existem situações em que esse processo não segue a evolução esperada, ou seja, o indivíduo não consegue se reestruturar, podendo ocorrer uma fixação numa das etapas do luto. Nesses casos observa-se uma dificuldade extrema em aceitar a perda. Este luto não resolvido pode interferir no estado emocional da pessoa, impactando significativamente a sua vida.

Apesar de o luto ser um processo universal, cada sujeito o vivencia de uma forma diferente. Este processo varia de acordo com a faixa etária em que o indivíduo se encontra e com o tipo de vinculação com o objeto perdido. Varia também de acordo com a própria estrutura emocional do sujeito e a capacidade para lidar com as perdas.

Worden (1998), relata a importância do processo de enlutamento, que este seja vivenciado até ser elaborado, para que a dor da perda não fique reprimida. Tal processo se dá de forma lenta e gradual, com duração variável para cada pessoa como já dito anteriormente.

2.1 VIVER O LUTO

No intuito de trabalhar as consequências de um luto não elaborado abordaremos inicialmente, o que seria uma passagem de um luto “normal”. A maioria das pessoas pensa o luto como algo experenciado apenas na morte de um ente querido. Mas não, o processo de luto pode desenvolver-se por diversas razões seja a perda de um objeto, de um emprego ou o fim de um relacionamento. Na verdade até mesmo os desastres naturais ou ataques terroristas, podem impulsionar um processo de luto, pois há uma perda do senso de segurança e proteção.

(22)

De acordo com Parkes (1998) sempre que há uma perda significativa, desenrola-se no sujeito um processo de luto necessário e fundamental que permita o ajustamento de uma nova realidade, ou seja, a realidade da perda. Porém este exige que o sujeito passe por muitas adaptações, e transformações, pelas quais o enlutado tem que lidar para se reestruturar racionalmente e emocionalmente. Nos seus estudos o autor, refere que o processo de luto pode ser acompanhado pelas seguintes reações consideradas “normais”.

Fase de Entorpecimento: consiste em um período em que a pessoa poderá sentir como se estivesse desligada da realidade, atordoada, desamparada, imobilizada ou perdida. Nesta fase acontece a negação da perda que poderá surgir como uma forma de defesa do ego contra um evento de difícil assimilação. A pessoa vive e não registra o que aconteceu. Nada mais tem graça.

Fase de Anseio e Protesto: caracterizada por um período de emoções fortes, sofrimento psicológico e agitação física. Nesta fase sentimentos de raiva são dirigidos tanto a si, como a pessoas significativas. Mesmo tendo conhecimento da morte, o enlutado ainda assim, irá procurar pela pessoa que morreu, chegando a procurar a pessoa morta em locais onde esta pudesse estar.

Fase de Desespero: a compreensão de que a morte é real, e gradual, ou seja, acontece aos poucos. Uma fase igualmente associada a momentos de apatia e depressão. Por vezes verifica-se um afastamento das pessoas e atividades, falta de interesse, assim como dificuldades de concentração na execução de tarefas rotineiras. Os sintomas somáticos, tais como, insônias, perda de peso e de apetite, são recorrentes. A sensação de que será impossível seguir a vida é alternada com a sensação de que é necessário que esta seja reconstruída.

Fase da Recuperação e Restituição: nesta fase o sujeito abandona a ideia de recuperar a pessoa que morreu e adaptar-se ao significado que essa perda tem na sua vida. Aceitando assim a realidade da perda.

Já na concepção de Kübler-Ross (1998) a primeira fase do luto é a negação. Quando a pessoa tem conhecimento de que um ente querido faleceu, a primeira reação, geralmente, é não acreditar na mesma. A segunda fase é a raiva, que pode ser direcionada para qualquer coisa ou pessoa. Como para a equipe de saúde que falhou no trabalho para salvar aquele que morreu, ou ao próprio enlutado, por não conseguir fazer nada para salvar o ente querido, assim como para Deus, que não o protegeu.

(23)

Para a autora, a terceira fase é a barganha, a qual vem acompanhada pela culpa, pois o sujeito tem certeza que poderia ter feito algo para impedir a morte da pessoa amada. Nesta fase o sujeito faz súplicas a Deus prometendo que não fará mais as coisas como antes, de que tudo será diferente. A quarta fase é a depressão, que não deve ser vista como um estado patológico, que necessite a intervenção de medicamentos. A quinta e última fase é a aceitação, caracterizada pela aceitação por parte do enlutado da realidade. Ele passa a concordar com a perda daquele que morreu, mesmo assim, a anuência não significa que tudo está resolvido. Porém, ela oferece ao sujeito a possibilidade de enfrentar sua nova realidade e ressignificá-la.

Segundo Parkes (1998), a aceitação da perda só se dá a partir de um longo processo de elaboração como já referido acima, não significa esquecer do objeto perdido, mas sim de o sujeito restaurar novos laços sociais, recuperando vínculos antigos e estabelecendo novas relações. Ele retoma a capacidade de se envolver em atividades cotidianas. A literatura do luto afirma, que não há um tempo exato para cada fase, e que elas não são consecutivas. Como já foi referido neste trabalho, o luto é um sentimento individual, onde cada um vai vivenciá-lo de forma diferente.

Worden (1998) argumenta que no momento em que as tarefas do luto são completas, pode-se dizer que o luto está terminado. Outros indicadores mostram que quando o sujeito consegue pensar no objeto que perdeu sem dor ou sofrimento o luto esta elaborado. Com isto a pessoa pode reinvestir suas emoções e afeto num outro objeto.

Pode-se afirmar que ao elaborar uma perda, o sujeito reorganiza seu investimento. Com isso, o eu torna-se livre das inibições que a perda instituiu. No entanto, Freud (1917) afirma que este sofrimento é determinado por um período que será superado no tempo do sujeito, diferenciando-se assim, em cada ser humano. Portanto, o luto é o movimento que o sujeito realiza psiquicamente para superar momentos de perdas, tanto reais quanto simbólicas.

Conforme Melo (2004), o luto é um processo inevitável e atinge todos os indivíduos que cercam o enlutado, inclusive aqueles que não conheciam a pessoa falecida. Mas, especialmente os membros da família que passam pelo mesmo processo, mas sempre de forma distinta.

(24)

Luto convencional: se manifesta por um estado de choro, sentimento de

entorpecimento e de atordoamento. Inicialmente ocorre incompreensão do que aconteceu para posteriormente dar lugar a expressão de sofrimento e desespero. Efeitos físicos são expressos por meio de dificuldades para concentrar-se, fraqueza, falta de apetite, perda de peso, dificuldades para respirar, problemas em dormir tendo, sonhos que envolvem o ente querido.

O luto normal: caracterizado por reações e comportamentos condizentes

com a perda, pessoas que passam por seus estágios raramente necessitam de ajuda médica ou psicológica.

Luto patológico: acontece quando algumas pessoas não tem uma resposta

adequada ao processo do luto. Nesse caso as pessoas podem apresentar tristeza intensa, depressão maior, sintomas psicóticos ou ideação suicida. A perda súbita ou trágica aumenta a possibilidade reforça o risco para que ocorra o luto patológico, como as circunstâncias de sentimento de culpa pela morte do outro (real ou imaginário), histórico de perdas traumáticas, forte dependência daquele que se foi.

Identificação excessiva ou psicose do luto: Nesta forma de luto a tristeza

acontece de modo distinto do luto normal. A pessoa enlutada pode se identificar com aquele que se foi de maneira a assumir atributos admirados e ainda crer firmemente que é o falecido ou ainda achar que está falecendo da mesma forma. Há muitos casos de pessoas que afirmam escutar inclusive a voz do falecido, ou vê a sua imagem. Nesta forma de luto, a pessoa tem certeza da volta do falecido, o que transforma a sua aflição em convicção delirante. Além disso, a pessoa também pode acreditar que o falecido ainda está vivo.

Luto adiado, inibido, ou negado: a notícia da morte de um ente querido

acende sentimentos de tristeza. Contudo, esta forma de luto é caracterizada pela ausência de expressão. Algumas pessoas conseguem adiar a tristeza até que um dia não conseguem mais evitar o sentir. As influências familiares e culturais podem afetar o comportamento do enlutado, por exemplo, quando os homens são estimulados a não chorar ou conter o choro. Além disso, as pessoas enlutadas são incentivadas por amigos e familiares enlutados, a abandonar a experiência do luto. Comum observar uma das pessoas da família vivendo seu processo de luto isoladamente abandonando-o antes de tê-lo completado, assim caminha-se para a repressão emocional. A tristeza negada ou inibida impede que a realidade da perda seja vivida, assim, o enlutado pode deslocar o que está sentindo de forma

(25)

inconsciente para outros setores da vida. Sendo comum observar essas pessoas vivenciando sintomas físicos iguais da pessoa que morreu.

Luto antecipatório: este tipo de luto refere-se à tristeza diante de uma perda

inevitável. Essa forma de luto acaba quando a perda ocorre de fato. Se no luto normal a tristeza se abranda conforme o tempo avança, nesta forma de luto a tristeza antecipatória aumenta na medida em que a perda torna-se mais presente com a morte do ente querido.

Luto dos pais: a reação dos pais à morte de um filho muitas vezes é acompanhada por sentimentos de culpa e abandono. Quando os pais depositam nos filhos esperanças, desejos de conquistas, a dor poderá ser ainda maior, fazendo com que os pais sintam por toda a vida as manifestações da perda desse filho. No caso de pais com filhos portadores de doença, o enlutamento pode ter início a partir da comunicação do diagnóstico, pela perda do filho esperado e idealizado.

Luto em crianças: O luto de uma criança é semelhante ao do adulto quando

ela é capaz de compreender o significado da morte. A criança sente desejo de estar com a pessoa que faleceu desejando sua volta, quando se dá conta que isto não acontecerá poderá torna-se retraída. Posteriormente, passa por uma fase de distanciamento, onde começa a desinvestir o afeto àquele que se foi e passa a preocupar-se por outras coisas. A criança no início poderá sentir obrigação de encontrar alguém que substitua a pessoa que morreu, e esse sentimento poderá ser transferido para outros adultos. Isso é importante para a criança, e deve ser respeitado para o equilíbrio psicológico, principalmente quando a pessoa que partiu se refere a um de seus pais.

Oliveira (2001) aborda sobre a questão do luto em condições calamitosas, que no trabalho do luto, quando ocorrem mortes trágicas, como por exemplo a queda de um avião, um naufrágio ou no caso de pessoas que por algum motivo desaparecem, o processo do luto é um dos mais difíceis de serem elaborados, pois não tem o corpo físico para "comprovar" a morte daquele que desapareceu. Os sentimentos e as fantasias presentes na morte são vivenciados intensamente e de forma incessante pelos membros da família do desaparecido. A não certificação de que a pessoa está viva ou morta, favorece a esperança e sustenta a cada dia a fantasia de que seu retorno ainda acontecerá.

(26)

O desaparecimento caracteriza-se como um rompimento sem aviso, sem explicação, sem conclusão. Assim, diferentemente dos casos de morte, nestes casos não há uma comprovação acerca do que de fato tenha acontecido com o ente querido. Portanto, o objeto de amor não está presente, mas não se sabe se algum dia voltará (OLIVEIRA, 2001).

De acordo com Oliveira (2001) as reações de luto são propensas a serem mais intensas e podem levar a um quadro denominado de luto ambíguo:

“a perda é desconcertante e as pessoas se veem desorientadas e paralisadas. Não sabem como se portar nessa situação. Não podem solucionar o problema porque não sabem se este (o desaparecimento) é definitivo ou temporário [...] a incerteza impede que as pessoas se adaptem à ambiguidade de sua perda, reorganizando os papéis e as normas de suas relações com os outros queridos [...] se agarram à esperança de que as coisas voltem a ser como eram antes [...] lhes são privados os rituais que geralmente dão suporte a uma perda clara, tais como funerais depois de uma morte na família.” (OLIVEIRA, 2001,p. 20).

Desta forma, o autor afirma que o luto nos casos de desaparecimentos, pode emergir como uma reação normal à circunstância dada a sua complexidade, visto que a solução para a perda depende fundamentalmente de fatores externos daqueles que a vivenciam. Além disso, a desorganização diante do desaparecimento de um ente querido abrange várias esferas da vida dos enlutados,

“Ao contrário da morte, uma perda ambígua pode nunca permitir que a pessoa que sofre alcance o desapego necessário para encerrar adequadamente seu luto (...) é sentida como uma perda, mas não é de fato. As pessoas intercalam esperança e desespero, depois retomam esperança e assim sucessivamente.” (OLIVEIRA 2001, p.23).

Portanto nos casos de desaparecimentos o trabalho do luto às vezes não ocorre de forma "esperada," pois, a dor vivenciada pelos enlutados convive corriqueiramente com a fé e a esperança do reencontro. Para os familiares de uma pessoa desaparecida, as emoções alternam-se entre a esperança e o desespero achando que essa pessoa um dia vai voltar (OLIVEIRA, 2001).

Deste modo, cabe ressaltar que a diferença entre a morte de fato "comprovada" e um desaparecimento, reside no corpo que permite propagar a materialidade de uma vida que acabou independente de qual foi o motivo. Já em um desaparecimento, a materialidade do sujeito se constitui por meio de fotografias, de suas roupas deixadas, em objetos de uso pessoal, em seu quarto, enfim de todas as

(27)

lembranças que a família persiste em manter viva até que o contrário torne-se verdadeiro (OLIVEIRA 2001).

2.2 A NÃO ELABORAÇÃO DO LUTO E SUAS CONSEQUÊNCIAS PSÍQUICAS

Para entender porque tem pessoas que não desenvolvem o trabalho do luto, torna-se fundamental considerar os fatores que podem influenciar na sua elaboração estes sociais, culturais, físicos e subjetivos.

Considerando a estrutura psíquica do sujeito existem vários fatores que podem interferir na não elaboração do luto, como pessoas que não toleram estresse emocional, que não se permitem vivenciar sentimentos ou até mesmo uma posição narcísica3 de fato não aceitar que perdeu o objeto.

Segundo Worden (1998). há pessoas que não conseguem tolerar extremos de sofrimento emocional, e assim se afastam, como mecanismo de defesa do próprio sujeito com a finalidade de se defender de sentimentos tão fortes. Devido a esta incapacidade de tolerar a angústia emocional o sujeito desenvolve às vezes uma reação de não viver o processo de luto, pois este exige que o sujeito sofra perante o objeto que foi perdido.

Na concepção freudiana sobre os mecanismos de defesa do ego diz-se que são processos inconscientes desenvolvidos pela personalidade, os quais possibilita a mente desenvolver uma solução para conflitos, ansiedades, hostilidades, impulsos agressivos e ressentimentos e frustrações não solucionadas a nível da consciência.

Outro fator que pode dificultar o processo de luto é quando a família elege uma pessoa como sendo “a mais forte”, (em muitos casos o homem da família) porém essa pessoa precisa de alguma forma responder a esse lugar no qual é colocado e mostrar que está tudo bem. Que a pessoa não está em sofrimento. Muitas vezes esses sujeitos guardam esses sentimentos para si e no decorrer da sua vida, essa não vivência de luto pode vir desencadear algum sintoma. Que será desenvolvido na decorrência deste trabalho.

Mais um mediador que pode influenciar no luto não elaborado são os fatores sociais, que referem às situações em que a perda não é falada, como o que

3[...] Em psicanálise narcisismo significa amor que o sujeito atribui a um objeto muito particular: a si mesmo.

(28)

acontece muitas vezes em casos de morte por suicídio. Quando alguém morre dessa forma trágica, ninguém quer falar ou comentar sobre o que aconteceu. De acordo Worden (1998), o autor comenta que a morte por suicídio faz com que os familiares ou amigos sintam vergonha, já que ele é visto em nossa sociedade como um estigma. Considerando a ideia do autor, o luto é uma vivência esperada pela perda de alguém querido e pode se tornar mais sofrido quando a morte for por suicídio. Geralmente, quando a morte acontece dessa forma as circunstâncias são ambíguas, assim há uma tendência dos familiares e amigos de não falarem sobre a morte. Por consequência, esse silêncio pode interferir na elaboração do luto.

Segundo Martins e Leão (2010), geralmente quando a morte ocorre por circunstâncias trágicas, a vivência do luto e o enfrentamento da realidade são difíceis de serem elaborados. Seja por vergonha, seja pela restrição social devido a representação negativa que o suicídio representa. Os familiares demonstram um sentimento de culpa, por não terem conseguido evitar o acontecimento, assim estes apresentam ansiedade e angústia por não compreenderem o que levou o sujeito a fazer aquele ato. A sensação de desamparo ou ainda de revolta em não admitir a perda é muito grande. O mesmo se aplica em casos de morte violenta, como será exposto a seguir.

Mortes trágicas e violentas, como homicídio, suicídio ou morte ao contexto de terrorismo, tem muito mais possibilidade de desenvolver transtorno de estresse pós traumático (TEPT) nos familiares sobreviventes, do que às mortes naturais. Em tais circunstâncias, os temas de violência, vitimização ou quando o falecido opta pela morte sobrepujando a vida, como no caso de suicídio são interligados a outros aspectos de luto, gerando um sofrimento traumático marcado por medo, horror, vulnerabilidade. Conforme os seguintes autores:

Descrença, desespero, sintomas de ansiedade, preocupação com o falecido e com as circunstâncias da morte, retraimento, hiperexcitação e disforia são mais intensos e prolongados do que em outras circunstancias não traumáticas, e pode existir um risco aumentado para outras complicações. Embora estudos sobre o tratamento de sobreviventes de morte repentina sejam poucos e dispersos, a maioria dos especialistas concorda que a atenção inicial deve ser focada no sofrimento traumático, na noção de que existe m papel para a farmacoterapia e a psicoterapia e que grupos de apoio e mútua ajuda podem ser extremamente benéficos. (SADOCK; SADOCK; RUIZ, 1997, 1357).

(29)

Outro fator social que dificulta o processo de elaboração do luto é quando a perda é socialmente negada; por outras palavras quando a pessoa e os que estão em sua volta agem como se nada tivesse acontecido. Diz respeito ao sofrimento imputado ao sujeito pela negação da dor. E, nesse eixo, Fortes (2004) pontua que o sujeito nega a dor, não só na relação que mantém com o seu próprio sofrimento, mas também em relação à interação com o sofrimento do outro. Em suas palavras:

Na contemporaneidade, portanto há uma mudança nas formas de subjetivar-se sendo algumas modificações observadas no modo como o sujeito se relaciona com a dor (algo a ser evitado) e na diminuição do espaço oferecido para interação com a alteridade. Esses dois aspectos caminham juntos, já que a alteridade não deixa de provocar uma certa dose de dor para o sujeito: outro oferece intensidades e diferentes que trazem um estranhamento a estabilidade narcísica do eu. (FORTES, 2004, p. 69).

O sujeito enlutado perante o social, esta proibido de mostrar o seu sofrimento, “sofrer é feio e gera mal estar”, pois estamos vivendo em um ideal que impõe que é preciso ser feliz a qualquer preço, reforçando a tese de que aquilo que se encontra em jogo, é justamente evitar sofrimento. Ou seja, não apenas tem o dever de ser feliz, como tem o dever de não sofrer.

Conforme Freud (1929) desde os primórdios da existência os homens esforçam-se para obter a felicidade; querem ser felizes. Para isso visam, por um lado, a ausência de sofrimento e de desprazer, e por outro, a experiência de intensos sentimentos de prazer. Contudo, há impedimentos a esta intenção, tanto existenciais – felicidade, amor, liberdade e morte – quanto sociais.

Os imperativos sociais „comprimem‟ a subjetividade humana, exigindo respostas que estão longe de ser otimistas. Elas refletem a inaptidão humana à felicidade, além de revelar a condição de homem-objeto diante destas exigências. Uma delas é o uso de psicofármacos como cura para o mal estar. O homem encontra no remédio a solução para sua angústia e alívio para seu sofrimento.

De acordo com Birman (1997), quando um excesso não encontra o caminho da descarga, o efeito vai se dar através do corpo, manifestando-se por situações de estresse, pânico e outras perturbações psicossomáticas. Importante frisar que o excesso é entendido aqui como tudo que excede a capacidade de metabolização do sujeito, extrapolando sua capacidade psíquica.

O apelo ao prazer imediato impera na sociedade contemporânea como a única possibilidade de alcançar a tão almejada felicidade. Cresce, a cada dia, a

(30)

tentativa incessante de corresponder às exigências de um modelo ideal imposto pela sociedade do espetáculo. A cultura da imagem valoriza o ideal instantâneo, ou seja, não há tempo a perder ou sofrer temos que entrar na corrida desenfreada sucesso profissional, do consumo exagerado. E, neste contexto, a mídia articula, de forma exaustiva, felicidade e consumo, as pessoas que são mais felizes são as que mais consomem.

A felicidade se tornou um bem e está ali à espera de quem estiver disposto e/ou tiver condições de comprá-la. Baudrillard apud Fortes (2009) retoma o pensamento de que em nossa sociedade adquirir objetos traduz-se pela ilusão de que a demanda de felicidade pode ser preenchida pelo consumo se o sujeito esta sofrendo basta comprar alguma coisa, que o sofrimento acaba. E, nesta lógica, conforto e bem-estar podem ser entendidos como sinônimos de felicidade.

Ao apostar na felicidade, o sujeito não tem levado em conta o percurso a trilhar para atingir seu objetivo, o foco é predominantemente na fuga do sofrimento. E, nessa luta, evita-se, a todo custo, qualquer situação de desprazer. Peres (2010) ressalta que estamos vivendo a democratização da tristeza em sua dimensão mais aguda. Não é mais uma forma de situar-se no mundo, porém uma característica do homem da atualidade.

No processo de luto, quanto maior for o investimento afetivo objetal, maior será a dificuldade de fazer a sua elaboração. Porém um dos lutos considerados pelos autores como mais complicados de serem elaborados é a morte de um filho. A morte de um filho, na maioria dos casos, é inesperada e nos remete à velha ordem natural que seria, os pais morrerem primeiro, o que infelizmente nem sempre acontece. Podemos dizer que a morte de um filho é uma perda irreparável.

A morte de um filho pode representar a impotência do amor dos pais para com este, podendo colocar em dúvida a qualidade desse amor, como se esse tivesse fracassado. Eles podem sentir-se culpados por sobreviverem e o filho não. Esta culpa pode acarretar um luto não elaborado.

Segundo Laplanche e Pontalis, (2001) quando se tem uma morte abrupta, ocorre uma ruptura brusca no investimento objetal, emergindo a pulsão de morte, que é uma categoria fundamental das pulsões que se contrapõem à de vida, tendendo à autodestruição. Esta pode ser ainda maior quando a morte for violenta. Para as pessoas enlutadas fica um forte sentimento de culpa, fracasso e impotência.

(31)

De acordo com Parkes (1998) não é raro ocorrer em pais que perderam um filho a reação de aniversário, ou seja, a data da morte ou do aniversário do falecido faz com que estes vivam momentos de sofrimento psíquico ou mesmo somático. Nos estudos de Casellato (2004), a perda de um filho implica num trabalho de luto bem difícil, pois solicita adaptações tanto de aspectos individuais dos pais, no enfrentamento desta situação, como adaptações na relação com o cônjuge, no sistema familiar e na sociedade.

Seguindo a ideia do autor é comum os pais atribuírem qualidades ao filho morto como o “favorito”, o “melhor” o que pode interferir na elaboração do luto. É muito comum nesse período acontecer comparações entre os filhos vivos e o filho idealizado que morreu. Os pais costumam viver sentimentos ambivalentes em relação aos filhos que “sobreviveram”, pois sentem medo de investir afetivamente, ou por outro lado passam a superproteger, com medo de perdê-los.

Freud (1915) nos lembra que embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui uma atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como uma condição patológica e submetê-lo a tratamento medicamentoso.

Sob essa visão, atualmente na nossa sociedade, é notória a intolerância à frustração, recusa do sofrimento. O remédio então aqui se coloca como uma busca de soluções rápidas para qualquer problema que se apresente na vida do sujeito,ocorrendo risco de ter problemas na elaboração do luto. Por consequência podem desencadear um prolongamento da vivência do luto, ou seja, um luto prolongado.

Intervenções medicamentosas passaram a „calar‟ os pacientes não levando em conta a singularidade de sua experiência, o contexto do adoecimento ou qualquer outra consideração a respeito de seu sofrimento. O que importa é a prescrição de um fármaco. O homem de fala „comprimida‟ assume o estatuto de “Homem-Comprimido”. Se não pode falar, torna-se objeto, tanto de um saber que vem „do Outro‟ quanto de intervenções químicas.

Os medicamentos são úteis num tratamento psicanalítico não pela „cura‟ dos sintomas, mas na medida em que possibilitam ao sujeito poder falar. Essa sim, a fala, é a matéria com a qual o analista trabalha. É por meio dela que o “Homem Comprimido” poderá sair da compressão imposta por diagnósticos, por rótulos, e pelos determinismos biológicos que compõem o saber clínico atual.

(32)

Os psicofármacos respondem aos novos modos de apresentação da psicopatologia atual lançando mão de comprimidos que aliviam, apaziguam e até mesmo lhe dão prazer diante do mal-estar provocado por alguma perda. Os indivíduos consomem remédios, muitas vezes sem nem saber o que estão tomando. Lançam mão destas drogas lícitas que além de efetuar soluções diante do mal-estar, atestam sua „subjetividade comprimida‟.

A medicalização pode perturbar a consciência e provocar confusão e inibir o progresso de recuperação da dor. Porém a medicação pode ser necessária em caso de depressão ou ansiedades extremas. De acordo com Soares e Mautoni (2013) o uso de medicamentos só é recomendado quando o enlutado sofre de uma patologia que ameace sua vida, como doença cardíaca e hipertensão, ou tenha um distúrbio psiquiátrico, como depressão e transtornos de ansiedade. Medicar o enlutado para que ele não sofra adia o processo de luto.

Sobre o medicamento este comparece na cena para mediar o sofrimento psíquico que perpassa as bordas corporais e sinaliza a impossibilidade de suportar a angústia.

Segundo Simonetti (2011) o medicamento exerce uma ação química sobre o organismo do sujeito na dimensão real, mas não esgota nisso, pois além de substâncias químicas é também signo que porta muitos significados, dimensão simbólica e sua assimilação pelo organismo do paciente, é influenciada pelas fantasias do sujeito, do médico e da cultura dimensão do imaginário. Aqui sujeito ocupa a boca apenas com medicações e não com palavras.

Para a farmacologia, inúmeros são os medicamentos utilizados sucessivamente, pressupondo ações e efeitos massificantes. Em contraponto, o saber que ele porta para aliviar a dor é da ordem do simbólico e acreditar nos seus efeitos é da ordem do imaginário. Essas relações ocorrem por via oral, e muitas vezes o excesso na medicalização se dá como recurso em contraposição à fala como método terapêutico de elaboração.

Sobre o imaginário um aspecto importante é a oralidade. A imensa maioria dos medicamentos é ministrada via oral, e isso não pode passar despercebido quando estamos falando de seres cuja primeira zona erógena localiza-se exatamente ali. De alguma forma o medicamento é uma gratificação oral. Assim pensando-o um seio, podemos dizer que é quase uma mãe. (Simonetti, 2011, p.191).

(33)

Heidemann (2010) nos esclarece “a entrada do medicamento como aquele que faz função materna está associado a todo um contexto que não permite ao sujeito sentir-se mal, função que as mães exercem com seus filhos” (p.293). Diante da angústia inerente a falta constitutiva, repete-se a necessidade de poções medicamentosas, pois felicidade e bem estar são ideais almejados, porém odiados quando não se tem.

Segundo e mesmo autor relata que “medicamento porta em si a capacidade de funcionar tanto como remédio ou como veneno; como fator de cura ou como agente do esquecimento: tudo depende da palavra que acompanha a prescrição” (p. 304)

Para além da medicalização está o consumo de drogas ilícitas, sendo que, esta pode interferir na não elaboração do luto, pois o uso de drogas se impõe para o toxicômano como uma necessidade a ser satisfeita. Quando isto não ocorre produz dor corporal. O enlutado quando começa a usar a droga este usufrui de todos os efeitos prazerosos que a droga lhe oferece, a medida que avança a habituação, mesmo sob o efeito da droga, ele acentua-se a dor. Aqui a droga vem como amenizar o sofrimento, o toxicômano fica impedido de reinvestir a sua libido em outros objetos. O prazer que a droga lhe oferece faz com que o sujeito crie um circuito pseudo-pulsional, que realiza a atividade de ligação e causa um empobrecimento do ego4 levando para resto da vida psíquica.

O reencontro com o objeto perdido é impossível, no entanto o toxicômano nos diz que a droga é ou foi por muito tempo um objeto vital. Expressa, assim, a negação da perda, remetendo-se uma negação precoce e fundamental, como consequência de um acontecimento traumático inicial, registrado como um perda, não deixando lugar ao fantasma. Aqui Melman afirma nesses casos a importância de fazer análise, “este acontecimento traumático não pode ser interpretado senão retroativamente, é justamente por isso que as construções na análise tem sua importância” (1992, p. 27-28).

A construção, portanto, é uma intervenção especialmente priorizada visando proporcionar que, o que foi registrado a posteriori como trauma em relação a uma perda, possa ser vivido como uma experiência que tenha valor na história do sujeito.

4[...] Na teoria freudiana ego ou eu é definido com uma instância em movimento, em constante

reelaboção, mas também é passivo e atuando por forças impossíveis de dominar, fazendo com que seja enganado pelo isso. (Chemama; 1995, p. 65).

Referências

Documentos relacionados