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(1)UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE EDUCAÇÃO, FILOSOFIA E TEOLOGIA Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Nathan Ferreira França. OS FUTUROS CONTINGENTES DE ARISTÓTELES COMO PROPOSIÇÃO FILOSÓFICA E A INTERPRETAÇÃO DE BOÉCIO. São Paulo 2019.

(2) 1. NATHAN FERREIRA FRANÇA. OS FUTUROS CONTINGENTES DE ARISTÓTELES COMO PROPOSIÇÃO FILOSÓFICA E A INTERPRETAÇÃO DE BOÉCIO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, do Centro de Educação, Filosofia e Teologia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre.. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun. São Paulo 2019.

(3) F814f França, Nathan Ferreira Os futuros contingentes de Aristóteles como proposição filosófica e a interpretação de Boécio / Nathan Ferreira França – 2019. 83 f.; 30 cm Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun Bibliografia: f. 80-82 1. Futuros contingentes 2. Onisciência divina 3. Consolação da filosofia I. Bitun, Ricardo, orientador II. Boécio III. Título LC B659 Bibliotecário Responsável: Eliezer Lírio dos Santos – CRB/8 6779.

(4) 2. NATHAN FERREIRA FRANÇA. OS FUTUROS CONTINGENTES DE ARISTÓTELES COMO PROPOSIÇÃO FILOSÓFICA E A INTERPRETAÇÃO DE BOÉCIO. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, do Centro de Educação, Filosofia e Teologia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre.. Aprovada em ____/____/____. BANCA EXAMINADORA. ____________________________________________ Prof. Dr.. ____________________________________________ Prof. Dr.. ____________________________________________ Prof. Dr..

(5) 3. Dedico este trabalho aos meus pais, que são também meus amigos e irmãos pela fé em Cristo: Nelson e Elizana..

(6) 4. Pobres dos mortais! Por que falsos caminhos Vos leva a vossa ignorância! Com efeito, não buscais ouro sobre a verdejante árvore Nem pedras preciosas numa vinha; Vós não estendeis vossas redes no cimo das montanhas Para ter peixes em vossa refeição; E se quisésseis caçar um cabrito montês Não exploraríeis os fossos abissais do Tirreno. Os homens conhecem os pélagos marinhos Dissimulados pelas vagas, Sabem onde pescar pérolas transparentes E onde encontrar a brilhante púrpura, Que litoral fornece os melhores peixes, E mais frescos, e o espinhoso ouriço do mar, Mas onde se encontra o bem que eles cobiçam mais [a felicidade], Pouco lhes importa ignorá-lo; Ao invés de procurar para além do céu estrelado Eles o procurar mergulhados na Terra. Que insulto já que seja da mesma medida? Que seja! Busquem eles riquezas e honras. Quando reconhecerem a vacuidade de tudo isso, Aí aprenderão a distinguir os verdadeiros bens. BOÉCIO A Consolação da Filosofia, Livro III.1.

(7) 5. AGRADECIMENTOS Ao Deus Criador a mais profunda gratidão do meu coração pela redenção em Cristo Jesus, pela vida, pelo sustento diário, pela família e pela capacitação sem a qual nada poderia ter sido realizado até aqui. Agradeço também à minha esposa Mara e nossas filhas Rebeca e Lívia, especialmente pela paciência que tiveram e ainda tem tido comigo, nas muitas aventuras e desafios que assumo. Espero que todo esforço e dedicação nas muitas atividades acadêmicas e ministeriais não minimizem a percepção delas quanto ao meu amor. Agradeço de modo muito especial aos meus pais, Nelson e Elizana. O tempo e os recursos despendidos para a minha formação espiritual e intelectual são impagáveis; jamais poderei recompensá-los por tudo. Vejo neles, depois de Cristo, a maior expressão do amor de Deus por mim. Agradeço ainda à amada Congregação Presbiteriana Ocian e à Igreja Presbiteriana de Praia Grande por desimpedirem a realização desse curso. Por fim, agradeço à querida Igreja Presbiteriana do Brasil e ao Instituto Presbiteriano Mackenzie por propiciar essa formação acadêmica, e também a cada um dos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, do CEFT, mormente ao Dr. Jorge Luis Rodriguez Gutiérrez e ao Dr. Gerson Leite de Moraes..

(8) 6. RESUMO A questão sobre se é possível determinar hoje algo que vai acontecer amanhã. ainda. impulsiona. longos. debates. filosóficos. e. teológicos. contemporâneos. A proposição filosófica a respeito dos futuros contingentes posto inicialmente por Aristóteles chega à Idade Média com conotação teológica especialmente pela influência de Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius (Boécio). A questão que se coloca é como Boécio trata o problema filosófico dos futuros contingentes de Aristóteles? A pesquisa tem um caráter qualitativo de cunho bibliográfico. Os aspectos a serem considerados são a contingência da vida e a onisciência de Deus. Dessa forma, a pesquisa pretende verificar primeiramente a tratativa filosófica de Aristóteles a respeito dos futuros contingentes, para seguidamente analisar como Boécio interpreta a questão a partir de uma base teológica-cristã. Assim, sendo que Aristóteles afirma a contingência do futuro pelo viés lógico-filosófico, Boécio oferece uma interpretação teológica ao tratar da questão a partir do entendimento a respeito do ser de Deus e de seus atributos. Palavras-chave: Futuros contingentes; Onisciência divina; Boécio; A Consolação da Filosofia..

(9) 7. ABSTRACT The question of whether it is possible to determine today what will happen tomorrow still drives long-standing philosophical and theological debates today. The philosophical proposition regarding the future contingents initially posed by Aristotle reaches the Middle Ages with theological connotation especially by the influence of Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius. The question that arises is how does Boethius treat the philosophical problem of the future contingents of Aristotle? The research will have a qualitative bibliographic character. The aspects to be considered are the contingency of life and the omniscience of God. In this way, the research intends to verify first the philosophical dealings of Aristotle with respect to future contingents, in order to analyze how Boethius interprets the question from a theological-Christian basis. Thus, since Aristotle affirms the contingency of the future by the logicalphilosophical bias, Boethius offers a theological interpretation in dealing with the question from the understanding of the being of God and his attributes. Keywords: Future contingents; Divine Omniscience; Boethius; The Consolation of Philosophy..

(10) 8. SUMÁRIO. Introdução .......................................................................................................... 9 Capítulo 1: O futuro no pensamento grego: da mitologia a Platão ............ 15 1.1.. Mitologia grega..................................................................................... 15. 1.2.. Pré-socráticos ...................................................................................... 19. 1.3.. Platão ................................................................................................... 24. Capítulo 2: Os futuros contingentes no pensamento de Aristóteles ......... 33 2.1.. A vida de Aristóteles ............................................................................ 34. 2.2.. A obra de Aristóteles ............................................................................ 38. 2.3.. Os futuros contingentes no pensamento de Aristóteles....................... 43. Capítulo 3: Os futuros contingentes na Consolação de Boécio ................ 56 3.1.. Vida e obra de Boécio .......................................................................... 56. 3.2.. A Consolação da Filosofia ................................................................... 58. 3.3.. Os futuros contingentes no pensamento de Boécio ............................ 67. Considerações finais ...................................................................................... 77 Referências ...................................................................................................... 79.

(11) 9. INTRODUÇÃO Inquietações acerca do futuro estiveram presentes na vida humana desde os primórdios de sua existência. A imprevisibilidade do futuro é um problema existencial, que causou e causa todo tipo de sensações, e com o qual todos tiveram e ainda tem que lidar. A fim de minimizar o temor e o senso de impotência diante do que o futuro reserva, as mais diversas teorias têm sido formuladas pela humanidade; muitas delas ligadas diretamente à religiosidade. Diante dessa realidade, parece-nos evidente que as disposições humanas de racionalizar o problema e produzir soluções é muito anterior a Aristóteles – quem primeiro lidou com a contingência do futuro de maneira lógico-filosófica. Afirmar que o futuro é contingente significa basicamente dizer que o futuro não pode ser determinado. De um lado está a tese determinista que propõe que os eventos futuros ocorrerão ou não ocorrerão necessariamente, não por acaso. De outro lado está a tese dos futuros contingentes que defende que os eventos futuros não podem ocorrer por nenhuma necessidade imposta. É fato que os eventos passados e presentes podem tornar potencialmente possíveis ou impossíveis os eventos futuros. Contudo, a experiência confirma a realidade de que por mais que possamos planejar e agir deliberadamente, absolutamente nada garante que os eventos futuros serão de uma ou de outra forma. Aristóteles foi o primeiro a lidar com o problema em tela com linguagem lógico-filosófica. Mas sua obra não teria sido levada adiante senão pela influência direta de Boécio, em razão de que a tradução da obra completa de Aristóteles para o latim se deu somente no século XIII. Boécio foi o grande transmissor do conhecimento aristotélico e platônico para a Idade Média. Por isso, o que os filósofos medievais sabiam e discutiam a respeito da lógica aristotélica foi por intermédio de Boécio. Porém, a transmissão desse conhecimento não passou pelo crivo da neutralidade. A visão cristã de Boécio não deixou de ser percebida e de influenciar radicalmente o pensamento medieval..

(12) 10. A tratativa de Aristóteles ao problema dos futuros contingentes ficou circunscrita ao campo da lógica e da filosofia, conforme descrita no capítulo 9 de seu tratado De Interpretatione, doravante denominado Interpretação. Porém, em Boécio o tema ganhou conotação teológica. Esse tema aristotélico foi tratado por vários autores. A Consolação da Filosofia, doravante denominada Consolação, a última obra de Boécio, teve um papel muito importante no debate medieval de diversos assuntos. Um dos temas que emerge nela é a respeito dos futuros contingentes de Aristóteles. A pergunta central que esta dissertação pretende responder é como Boécio trata a proposição lógico-filosófica dos futuros contingentes de Aristóteles? À guisa de prognóstico, pode ser dito que no capítulo 9 da Interpretação, Aristóteles expressa-se lógica e filosoficamente acerca do futuro como algo contingente, isto é, não necessário, de modo que não se pode lidar com o futuro da mesma maneira com a qual se lida com o passado ou o presente, aos quais cabe a determinação dos critérios de verdade. Na Consolação, porém, Boécio trata da questão da contingência do futuro apontando para a onisciência divina, admitindo que Deus possui conhecimento do passado, do presente e do futuro, de modo que tudo está patente perante ele, ao mesmo tempo em que não podemos dizer quanto aos acontecimentos futuros que são necessários. A presente pesquisa ficará circunscrita a essa temática ao analisar a tratativa de Boécio ao tema específico dos futuros contingentes, tratativa essa que, ao que tudo indica, afetou radicalmente o debate medieval e ainda se mostra relevante para a discussão contemporânea. A pesquisa a respeito de como Boécio trata o tema dos futuros contingentes tratado em termos lógico-filosóficos por Aristóteles é relevante por diversas razões, as quais passo a apresentar..

(13) 11. Em primeiro lugar, a pesquisa é relevante porque Boécio se distingue de seus predecessores em virtude de seu extenso e profundo conhecimento do pensamento e da cultura grega, os quais são revelados de forma inequívoca especialmente nas poesias da Consolação. Em segundo lugar, a pesquisa é relevante porque a obra de Boécio serviu de base e orientação para o tratamento medieval do tema dos futuros contingentes. A Idade Média não só conheceu o pensamento aristotélico via Boécio como também obteve dele os recursos lógicos para elaboração de seus próprios desenvolvimentos a respeito do tema em tela. Exemplo disso é a vasta utilização de termos criados por Boécio no vocabulário filosófico medieval. Palavras como: definite […]; os eventos minime […]; simpliciter […]; e uma longa série de outros conceitos que Boécio vai criando ou vertendo de forma mais explícita a fim de tornar o texto aristotélico mais compreensível. Essa livre criação invade não só as outras obras de Boécio, o que fica evidente para quem visita o C. Maior [Comentário Maior de Boécio ao De Interpretatione] e a Consolação em sua língua original, mas também se torna parte importante do vocabulário filosófico da Alta e Baixa Idade Média (PIAUÍ, 2008, p. 212).. Em terceiro lugar, a pesquisa é relevante em razão de que o pensamento de Boécio exerceu influência para além da filosofia medieval. Parte da filosofia moderna se valeu também da obra de Boécio, em especial a Consolação, para a formulação de conceituações a respeito dos eventos futuros. Em quarto lugar, a pesquisa se justifica em razão da escassez de estudos a respeito da interpretação de Boécio à descrição aristotélica dos futuros contingentes. No intuito de comprovar a originalidade do tema desta pesquisa, segue o levantamento de estudos dos últimos 30 anos, aproximadamente, que apenas se aproximam do problema de pesquisa deste projeto, sem trata-lo especificamente. Uma busca foi realizada no mês de junho de 2018 na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade Presbiteriana Mackenzie com as palavras-chave: Futuros Contingentes, Onisciência divina, Boécio e Consolação da Filosofia. A busca não retornou nenhum resultado..

(14) 12. Outra busca foi realizada na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, com as mesmas palavras-chave. A partir desta busca foram entradas 34 dissertações e teses. Destas, foram selecionadas 7 afins ao tema deste projeto de pesquisa: ANO DE DEFESA. AUTOR. TEMA. TIPO. ÁREA. 1991. Fernando Pio de Almeira Fleck. O problema dos futuros contingentes. Dissertação. Filosofia. Tese. Filosofia. Dissertação. Filosofia. Tese. Filosofia. Dissertação. Filosofia. Tese. Filosofia. Dissertação. Filosofia. 2006. Carlos Eduardo de Oliveira. 2009. Ana Rieger Schmidt. 2009. Cleber Duarte Coelho. 2009. Paulo Fernando Tadeu Ferreira. 2015. Fernanda Lobo Affonso Fernandes. 2016. Lauro Cristiano Marculino. A realidade e seus signos: as proposições sobre o futuro contingente e a predestinação divina na lógica de Guilherme de Ockham Contradição e determinismo: um estudo sobre o problema dos futuros contingentes em Tomás de Aquino A antropologia como itinerário para a felicidade no De Consolatione Philosophiae de Boécio Enunciado asseverativo e contingência em Aristóteles: A batalha naval amanhã em De Interpretatione 9 Restrição ou Qualificação? Uma investigação estrutural sobre as interpretações da resposta de Aristóteles ao problema dos futuros contingentes Das ideias constituintes da noção de felicidade no de consolatione philosophiae. Tabela 1 – Teses e Dissertações selecionadas do BDTD No mesmo período, foi realizada uma busca nas bases de dados da EBSCO, a saber, ATLA Religion Database with ATLASerials e Religion and Philosophy Collection, com mesmos critérios. A busca retornou 37 resultados, dos quais descatam-se os seguintes:.

(15) 13. ANO DE DEFESA. AUTOR. 1959. Miguel LluchBaixauli. 1990. Alberto Viciano. 1991. Trevijano Etcheverría, Ramon M. Source. 1992. Bernard Dupuy. 1994. Robert Wielockx. 1995. P. T. Stella. 2002. Manuel Correia M.. 2015. Gonzalo Tejerina Arias. TEMA La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. La teologia de Boecio em la transición del mundo clásico ao mundo medieval. Libertad humana y presciencia divina em Boecio La Consolatio de Severino Boecio: Consuelo y Esperanza Teologal por la Belleza. TIPO. ÁREA. Livro. Filosofia. Resenha. Filosofia. Resenha. Filosofia. Resenha. Filosofia. Resenha. Filosofia. Resenha. Filosofia. Artigo. Filosofia. Artigo. Filosofia. Tabela 2 – Textos selecionados das bases de dados da EBSCO Por fim, a quinta razão, não menos significativa, é a contribuição que esta pesquisa poderá trazer à toda comunidade de filósofos, teólogos e religiosos contemporâneos interessados na discussão a respeito do paradoxo existente entre a onisciência divina e a contingência da vida. A pesquisa fundamenta-se nos seguintes conceitos: Futuros contingentes – diz respeito à não-necessidade dos eventos futuros. Trata-se de um problema lógico-filosófico levantado por Aristóteles; Onisciência divina – diz respeito à capacidade de Deus em conhecer todas as coisas, desde toda a eternidade. Trata-se de uma proposição oriunda da Bíblia, tida pelos cristãos como revelação especial de Deus para a humanidade. Aparentemente, a onisciência divina constitui uma contradição em relação à contingência da vida. No entanto, para Boécio, ambos os termos estão longe de anularem-se mutuamente. Para ele, é possível conciliar ambos. Determinismo – diz respeito ao entendimento de que se Deus conhece todos os eventos desde toda a eternidade, então tudo já.

(16) 14. está determinado e não há contingência na vida. Em contraposição ao determinismo está o conceito de liberdade, que por sua vez parece anular toda e qualquer determinação divina. A pesquisa tem cunho bibliográfico, baseado na leitura exploratória e analítica das obras Interpretação, capítulo 9, de Aristóteles, e Consolação, Livro V, de Boécio. O primeiro capítulo tratará a respeito de como o futuro foi compreendido no pensamento grego no período da mitologia até Platão, onde se verifica a importância dos deuses mitológicos e do mundo das ideias como formas de compreender o futuro. No segundo capítulo focalizaremos na tratativa de Aristóteles aos eventos futuros no capítulo 9 da Interpretação, não sem antes verificar as razões pelas quais seu pensamento distinguiu-se dos seus antecessores. Por fim, no terceiro capítulo, trataremos especificamente da intepretação de Boécio do problema dos futuros contingentes de Aristóteles no Livro V da Consolação, sem deixar de situa-lo em seu próprio contexto biográfico e literário..

(17) 15. CAPÍTULO 1 O FUTURO NO PENSAMENTO GREGO: DA MITOLOGIA A PLATÃO Embora o objetivo geral desta pesquisa seja compreender como Boécio interpreta o problema dos futuros contingentes descrito por Aristóteles, convém demonstrar inicialmente como esse tema foi compreendido e tratado por pensadores ainda mais antigos. Faremos neste primeiro capítulo uma análise das concepções de futuro no pensamento mitológico grego, na filosofia dos présocráticos e na filosofia de Platão. Pensadores antigos, bem antes de Aristóteles, lidaram com o problema da contingência do futuro. Adivinhos, oráculos, agouros e magias possuem grande representação nas sociedades antigas, o que demonstra a inquietação e busca do homem por conhecer e controlar o futuro. Não é nosso objetivo esgotar o que se pode dizer acerca de como os antigos lidaram com o tema. Por isso, para o propósito deste estudo, decidimos focalizar nossa atenção na presença de conceituações relacionadas ao futuro especificamente no pensamento do homem grego, no período que começa com Homero, por volta do século IX a. C., até Platão, no século IV a. C., com quem Aristóteles estudou na Academia.. 1.1. MITOLOGIA GREGA O estudo dos mitos antigos é imprescindível para a compreensão do pensamento e do comportamento do homem grego por volta dos séculos IX a VII a. C., aproximadamente. Para Brandão (1986, p. 14), “sendo uma fala, um sistema de comunicação, uma mensagem, o mito é uma como que metalinguagem, já que é uma segunda língua na qual se fala da primeira”. Existem diversas teorias a respeito da origem da mitologia, se tais histórias possuem algum fundamento na realidade, ou se representam apenas o imaginário do homem grego. Bulfinch (2002, pp. 352-355) apresenta sinteticamente quatro teorias a respeito da origem dos mitos: a teoria bíblica, de.

(18) 16. acordo com a qual os mitos se originaram nas narrativas das Escrituras; a teoria histórica, a qual preconiza que as histórias são baseadas em personagens históricos reais, que receberam acréscimo e embelezamento posterior; a teoria alegórica, segundo a qual todos os mitos eram alegóricos e simbólicos, que continham alguma verdade moral, religiosa ou filosófica; e a teoria física, que defende que os elementos físicos como o ar, o fogo e a água foram objetos de adoração religiosa e, por isso, as principais divindades apresentadas nos mitos eram personificações das forças da natureza. Em sua conclusão a esse respeito, Bulfinch (2002, p. 355) defende uma combinação de fatores: Todas as teorias acima mencionadas são verdadeiras até certo ponto. Seria, portanto, mais correto dizer-se que a mitologia de uma nação vem de todas aquelas fontes combinadas, e não de uma só em particular. Podemos acrescentar, também, que há muitos mitos originados pelo desejo do homem de explicar fenômenos naturais que ele não pode compreender e que não poucos surgiram do desejo semelhante de explicar a origem de nomes de lugares e pessoas.. Destaco do parágrafo acima a seguinte frase de Bulfinch: “há muitos mitos originados pelo desejo do homem de explicar fenômenos naturais que ele não pode compreender”. Dentre as incontáveis experiências do homem antigo que escapavam de sua capacidade de compreensão, certamente a percepção de impotência em relação ao futuro estava presente e produzia inquietações. Não é nosso objetivo fazer um estudo exaustivo da presença das inquietações acerca do futuro na mitologia antiga. Faremos apenas uma breve explanação acerca da presença de divindades que de alguma forma se relacionam com a percepção do futuro na mitologia grega, especificamente. Antes, porém, convém salientar que as divindades presentes na mitologia grega de alguma forma representam também aspirações humanas. Nunes (p. 3) afirma que “os deuses gregos eram retratados como semelhantes aos humanos, porém imunes ao tempo, a doenças e a feridas” (grifo nosso), o que denota o temor humano em relação ao futuro. A fim de demonstrar a presença das inquietações acerca do futuro no pensamento do homem grego nos primeiros séculos da antiguidade clássica, tomaremos como exemplo as seguintes divindades mitológicas:.

(19) 17. Destaca-se, primeiramente, Chronos. Esse deus era também chamado de aeon, cuja tradução literal é “eternidade”. Ele era, na mitologia grega, a personificação do tempo eterno e imortal que detinha o poder de determinar o destino dos deuses imortais. Em segundo lugar, destaca-se Proteu, filho de Netuno, uma divindade marinha. Na mitologia grega, Proteu é considerado “sábio do mar por sua sabedoria e conhecimento dos acontecimentos futuros” (BULFICH, 2002, p. 213). Conta-se que os homens eram atraídos a ele a fim de conhecer o destino, porém, por ele não gostar de revelar os acontecimentos futuros, quando um homem se aproximava ele fugia ou se transformava num monstro; apenas aos homens corajosos que passavam por esse teste, Proteu anunciava a verdade acerca do futuro. Ao fazer alusão ao mito de Aristeu, Bulfinch (2002, p. 229) refere-se a uma fala de sua mãe Cirene: Há um velho profeta chamado Proteu, que mora no mar e é favorito de Netuno, cujo rebanho de focas apascenta. Nós, as ninfas, dedicamos-lhe grande respeito, pois ele é um sábio, que conhece todas as coisas, passadas, presentes e futuras. Ele pode dizer-te, meu filho, a causa da mortalidade de todas as abelhas e o meio de remediá-la. Não o fará, porém, voluntariamente, por mais que lhe implores. Deves obrigá-lo a falar pela força. Se te apoderares dele e o acorrentares, ele responderá às tuas perguntas a fim de ser posto em liberdade, pois, apesar de todas as suas artes, não conseguirá escapar, se o prenderes em cadeias apertadas.. Em terceiro lugar, destacam-se Melâmpus e seu neto Ídmon com dom de adivinhação (KURY, 2008, pp. 11, 56). Segundo Bulfinch (2002, p. 234), conforme a mitologia grega, Melâmpus foi o primeiro mortal dotado de poderes proféticos, depois de uma experiência de ser lambido nos ouvidos pelas serpentes que havia alimentado cuidadosamente desde que eram filhotes. Destaca-se, ainda, a divindade mitológica grega chamada Tique. Tique era reconhecida como deusa da fortuna e da prosperidade; atribuía-se a ela o poder de determinar o destino e a sorte. Tique ocupava lugar importante na adoração e no modo grego de compreender o mundo em razão dos infortúnios destituídos de significado e da percepção da instabilidade na vida humana..

(20) 18. Segundo Ménard (1991, p. 113), a presença de Tique na mitologia grega não se deu por meio de uma fábula em particular, mas sim por meio da arte, onde ora aparece segurando um leme, representando seu governo sobre o destino do mundo, e ora aparece segurando uma cornucópia, representando prosperidade. Tique é mencionada como “deusa da Fortuna” nas Escrituras. A menção foi feita num oráculo do profeta Isaías (65.11), que corresponde a um período próximo à segunda metade do século VIII a. C. Na referida passagem, a deusa Fortuna é adorada por hebreus negligentes na adoração a Yahweh1 (HILL e WALTON, 2007, p. 459). Por fim, destacam-se as divindades da mitologia grega mais emblemáticas a respeito da manipulação do destino: as Moiras. O destino dos deuses e dos homens era determinado, na mitologia grega, por três irmãs: Cloto, Láquesis e Átropos. Referindo-se a elas, Bulfinch (2002, p. 15) afirma: “Sua ocupação consistia em tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortavam-no, quando muito bem entendiam”. Nos textos mitológicos ocorre também a palavra Moira, no singular, como designativo do destino. Brandão (1986, p. 141) esclarece que, em tese, o destino, isto é, a Moira, “é fixo, imutável, não podendo ser alterado nem pelos próprios deuses”. Contudo, acrescenta que em alguns textos parece existir certa identificação da Moira com Zeus. Nesse sentido, Zeus poderia, se quisesse, alterar a Moira. Um estudo específico acerca das inquietações relacionadas ao futuro no pensamento grego representadas nos textos mitológicos seria certamente uma contribuição significativa aos estudos contemporâneos do início da antiguidade clássica. A mitologia grega nos fornece subsídios para o conhecimento do pensamento do homem grego através dos séculos IX, VIII e VII a. C., aproximadamente. Por evidente, não temos ainda nesse período uma filosofia grega. 1. propriamente. dita.. Somente. no. início. do. século. VI. a.. Esse nome […] é o nome pessoal do Deus de Israel. […] Trata-se distintivamente do nome do Deus vivo da revelação bíblica. (DOUGLAS (Org.), 1981, p. 405). C.,.

(21) 19. aproximadamente, a filosofia grega começa a se desenvolver com os présocráticos. A seguir, faremos uma breve introdução a respeito dos filósofos présocráticos e daremos especial atenção ao pensamento de Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia.. 1.2. PRÉ-SOCRÁTICOS Os pré-socráticos são tradicionalmente reconhecidos como os primeiros filósofos gregos. Eles romperam com a visão mítica da realidade e procuraram compreender a origem e o funcionamento do mundo natural. São, por isso, tradicionalmente reconhecidos como filósofos naturalistas e fisiólogos. Enquanto a mitologia consistiu num conhecimento relativamente fixo, sem possibilidade de construção intelectual e progresso científico, com os pré-socráticos, e mais especificamente com Tales de Mileto, inaugura-se um período propício a grandes descobertas e desenvolvimento do conhecimento: Um dos aspectos fundamentais da mentalidade científicofilosófica inaugurada por Tales consistia na possibilidade de reformulação e correção das teses propostas. A estabilidade dos mitos arcaicos e à estagnação das esparsas e assistemáticas conquistas da ciência oriental, os gregos, a partir de Tales, propõem uma nova visão de mundo cuja base racional fica evidenciada na medida mesma em que ela é capaz de progredir, ser repensada e substituída (SOUZA (Org.), 2000, p. 19).. Tales de Mileto foi um dos principais filósofos da escola Jônica, juntamente com Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de Mileto e Heráclito de Éfeso. Na escola Jônica, destacava-se a busca por um primeiro princípio natural que explicasse a origem de todas as coisas, bem como pela causa das mudanças. percebidas. no. mundo.. Essa. preocupação. essencialmente. cosmológica constituiu a força motriz para o desenvolvimento intelectual. Os filósofos da escola Jônica chegaram a conclusões diferentes a respeito do elemento primeiro que principiou todas as coisas, mas tinham em comum a concepção do mundo como algo em movimento. Dentre os filósofos da escola jônica e, pode-se dizer, dentre os pré-socráticos, destaca-se Heráclito de Éfeso (JAPIASSÚ e MARCODES, 2001, p. 91)..

(22) 20. 1.2.1. Heráclito de Éfeso Heráclito nasceu em Éfeso, uma cidade da Ásia Menor, na atual Turquia, por volta do ano 535 a. C., cerca de 150 anos antes de Aristóteles. Pensadores anteriores a Heráclito, como Anaximandro e Anaxímenes, haviam percebido que na natureza as coisas não permanecem inalteradas, isto é, tudo coexiste em uma unidade dentro de um processo de mudanças que ocorrem em um dinamismo constante. Porém, Heráclito é o primeiro a lidar com essa constatação de modo abstrato ao propor uma resposta filosófica. A noção de unidade fundamental, subjacente à multiplicidade aparente, já estava expressa pelo menos desde Anaximandro de Mileto. A novidade trazida por Heráclito — e que lhe permite julgar tão duramente seus antecessores e contemporâneos — está, na verdade, em considerar aquela unidade como uma unidade de tensões opostas (SOUZA (Org.), 2000, p. 30).. À luz dos fragmentos do seu pensamento, citados por filósofos posteriores como Platão e Aristóteles, podemos dizer que Heráclito compreendeu o universo a partir de uma visão dialética, no sentido de que tudo na natureza ocorre a partir da tensão entre forças contrárias. O movimento, segundo seu pensamento, causado pelo conflito entre opostos, é o que deve constituir a base de compreensão da realidade. Dessa forma, o equilíbrio e a harmoniosa transformação das coisas são resultados do movimento dos opostos. Para Heráclito, a realidade, incluindo obviamente os acontecimentos futuros, é resultado da interação de forças opostas (MARCONDES, 2000, pp. 11-17). Heráclito ficou conhecido como filósofo do “devir”. Mora (1978, p. 69) atribui o seguinte significado ao “devir”: Este termo significa o processo do ser ou, se se quiser, o ser como processo. Por isso se contrapõe habitualmente o devir ao ser. Designa todas as formas do chegar a ser, do ir sendo, do mudar-se, do acontecer, do passar, do mover-se, etc.. No pensamento de Heráclito, nada é, mas tudo virá a ser. A perspectiva de futuro em seu pensamento está sempre presente; não propriamente o futuro como um evento imóvel, fixo e determinado, mas como um fluir em movimento.

(23) 21. eterno que não pode ser previsto nem determinado. Esse conceito está especialmente presente em pelo menos dois dos fragmentos preservados por pensadores posteriores, os fragmentos 18 e 52. O fragmento 18 foi citado por Clemente de Alexandria (150 – 215 d. C.) em sua obra Tapeçarias (Stromata) (II, 17). Conforme a tradução de Souza, o fragmento versa o seguinte: “Se não esperar o inesperado não se descobrirá, sendo indescobrível e inacessível”2. O mesmo fragmento aparece na compilação de Marcondes (2000, p. 15) com a seguinte tradução menos literalista, portanto, mais compreensível: “Quem não espera, não encontrará o inesperado, que é inexplorável e inacessível”. Nota-se neste fragmento que Heráclito preconizava a necessidade do homem “esperar” para que pudesse encontrar ou descobrir algo. Certamente há aqui uma referência ao futuro. Se isto estiver correto, no pensamento de Heráclito, o futuro é algo “inesperado”, “inexplorável” e “inacessível”. O futuro é considerado “inesperado” porque traz surpresas, ao qual é impossível se preparar, dada a sua imprevisibilidade, e também é impossível de se determinar; é também “inexplorável” e “inacessível” porque não existem recursos que ofereçam a possibilidade de conhece-lo. O fragmento 52 foi citado por Hipóclito de Roma (170 – 236 d. C.) em sua obra Refutação (IX, 9). Conforme a tradução de Souza, o fragmento versa o seguinte: “Tempo é criança brincando, jogando; de criança o reinado”3. O mesmo fragmento aparece na compilação de Marcondes (2000, p. 16) com a seguinte tradução menos literalista, portanto, mais compreensível: “O tempo é uma criança que brinca jogando dados: governo de criança”. Nota-se no fragmento 52 que Heráclito considerava o tempo como algo imprevisível, fortuito e contingente, que não pode ser dominado ou determinado pelo homem. Destaca-se, em primeiro lugar, o uso da palavra tempo (aion). 2 HERÁCLITO. Fragmentos (Sobre a Natureza). Trad. de José Cavalcante de Souza. Disponível em <https://www.dropbox.com/sh/jxfjnz5bipxbbpj/AACFzr0sYZB5bYS0k2AWU46Ea?dl=0>. Acesso em: 06 agosto 2018. 3 Idem..

(24) 22. Tempo neste fragmento não significa exatamente futuro. Certamente, o significado de aion está relacionado ao “movimento constante e irreversível através do qual o presente se torna passado, e o futuro, presente” (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2001). Em segundo lugar, destaca-se a concepção disso que Heráclito chama de tempo como um jogo de criança. A tradução de Marcondes fornece a ideia de um jogo de dados, associando o futuro a um acaso absolutamente impossível de ser conhecido previamente e de ser determinado antecipadamente. Em terceiro lugar, destaca-se a expressão “de criança o reinado” ou “governo de criança”. Aqui, amplia-se a ideia, atribuindo aos eventos temporais um aspecto de infantilidade, ou seja, as coisas acontecem de maneira ilógica e incongruente, sem necessariamente apresentar nexo com os eventos precedentes. Em oposição à concepção da escola Jônica a respeito das mudanças, e mormente à de Heráclito em relação ao eterno “devir”, esteve a escola présocrática Eleática, cujo precursor, Xenófanes, teve suas ideias sustentadas e expandidas por Parmênides.. 1.2.2. Parmênides de Eleia Parmênides nasceu em Eleia, cerca de duas décadas depois de Heráclito; viveu no final do século VI a. C. e início do século V a. C. Juntamente com Heráclito, Parmênides representa um segundo momento da filosofia pré-socrática, em que o pensamento já é menos naturalista e começa a tender para a abstração conceitual que se desenvolverá em seguida, no período clássico, com Sócrates, Platão e Aristóteles (MARCONDES, 2000, p. 11).. Tudo o que se pode conhecer acerca do pensamento de Parmênides é apreendido do seu poema Sobre a Natureza e de fragmentos citados por filósofos posteriores. O referido poema versa basicamente a respeito do caminho da verdade e do caminho da opinião (MARCONDES, 2000, p. 12)..

(25) 23. O princípio do movimento foi por Parmênides rejeitado como mera ilusão. Em sua concepção, os sentidos não são capazes de fornecer o conhecimento do Ser, isto é, daquilo que de fato é. Para ele, apenas o pensamento racional é a via segura para o verdadeiro conhecimento, em contraste com a opinião. Dessa forma, Parmênides criou uma teoria lógico-ontológica, sustentando que ao seguir pela via da razão é possível compreender que o que é, é, e não pode deixar de ser, e que o não-ser não é; ao passo que pela via dos sentidos, não se pode chegar ao conhecimento da verdade e à certeza (SOUZA (Org.), 2000, p. 26). Segue abaixo o trecho do poema Sobre a Natureza, no qual Parmênides expõe sua concepção acerca do duplo caminho de obtenção de conhecimento, e da diferença entre ambos: A deusa acolheu-me afável, tomou-me a direita em sua mão e dirigiu-me a palavra nestes termos: Oh, jovem, a ti, acompanhado por aurigas4 imortais, a ti, conduzido por estes cavalos à nossa morada, eu saúdo. Não foi um mau destino que te colocou sobre este caminho (longe das sendas mortais), mas a justiça e o direito. Pois deves saber tudo, tanto o coração inabalável da verdade bem redonda, como as opiniões dos mortais, em que não há certeza. Contudo, também isto aprenderás: como a diversidade das aparências deve revelar uma presença que merece ser recebida, penetrando tudo totalmente. E agora vou falar; e tu, escuta as minhas palavras e guarda-as bem, pois vou dizer-te dos únicos caminhos de investigação concebíveis. O primeiro [diz] que [o ser] é e que o não-ser não é; este é o caminho da convicção, pois conduz à verdade. O segundo, que não é, é, e que o não-ser é necessário; esta via, digo-te é imperscrutável; pois não podes conhecer aquilo que não é – isto é impossível –, nem expressá-lo em palavra (MARCONDES, 2000, pp. 12-13).. Na concepção de Parmênides, a mudança percebida pelos sentidos é apenas aparente, pois o que é, não deixa de ser, é imutável, imperecível, inabalável e eterno. Ele compreende que o Ser “jamais foi nem será, pois é, no instante presente, todo inteiro, uno, contínuo” (MARCONDES, 2000, p. 13). Dessa forma, não se pode associar categorias temporais como passado ou futuro ao Ser. O Ser não tem passado, pois passado seria aquilo que não existe 4. indivíduo que guiava os carros de corrida nos jogos antigos..

(26) 24. mais, nem futuro, pois futuro seria o que ainda não existe. O Ser é presente, eterno – sem início e sem fim –, todo igual, completo e perfeito. Nessa perspectiva, os eventos não consistem em mudanças ou movimentos, mas consequências de uma ordem própria do mundo, ou seja, os eventos são submissos à necessidade, ao destino e à justiça, conforme esclarece Spinelli (2012, p. 253). Parmênides sustenta, por exemplo, que tudo está submisso à necessidade (anágké), ao destino (moira) e à justiça (dikê) e, portanto, defende um princípio de ordem própria do mundo; esse princípio se confunde com a própria necessidade, com o destino (ou a lei) e com a justiça (ou o direito). A afirmação, do mesmo modo, de que “o universo é um e eterno”, já era um princípio muito difundido e amplamente aceito no interior da Filosofia PréSocrática.. Parece razoável concluir que, na concepção de Parmênides, o futuro não é algo que virá a ser, antes, é o ser enquanto ser, regido pela necessidade, pelo destino e pela justiça. Dessa forma, a única certeza é que o que é continuará a ser a “realidade única, subjacente à pluralidade dos fenômenos” (MARCONDES, 2000, p. 11), sendo toda e qualquer mudança mera aparência. Seguindo nosso objetivo de investigar as concepções gregas que se relacionam ao conceito de futuro entre os filósofos anteriores a Aristóteles, tendo já visto o modo mitológico e pré-socrático de observar o tema, analisaremos agora o pensamento de Platão.. 1.3. PLATÃO Platão nasceu em Atenas e viveu entre 428 a. C. e 348 a. C., aproximadamente. Russell (2002, p. 109) afirma que, em comparação com Aristóteles, “foi Platão o que teve maior influência sobre as épocas posteriores”. Como forma de respaldar sua afirmação, Russel aponta duas razões. A primeira é que “o próprio Aristóteles é um produto de Platão”; e a segunda é que “a teologia e a filosofia cristãs, ao menos até o século XIII, foram muito mais platônicas do que aristotélicas”..

(27) 25. Com o propósito de identificar no pensamento platônico bases que possam indicar conceituações relacionadas ao futuro, consideramos pertinente apontar quais influências filosóficas contribuíram na formação do pensamento platônico, e analisar uma das últimas obras platônicas, Timeu, onde está descrita sua concepção cosmológica.. 1.3.1. Influências Quatro fontes exerceram grande influência na filosofia de Platão, são elas: Sócrates, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eleia e Pitágoras (RUSSELL, 2002, p. 109). Cada uma dessas fontes liga-se a períodos específicos de sua vida, embora não haja consenso na definição das fases do pensamento de Platão (MARCONDES, 2000, p. 19). Na juventude, Platão foi discípulo de Sócrates (470-399 a. C.), a respeito do qual refere-se como “o mais sábio e o mais justo dos homens” (SOUZA (Org.), 2000, p. X). Ainda na juventude, Platão teve contato com as ideias de Heráclito, por meio de um homem chamado Crátilo. No parágrafo abaixo podemos observar que, apesar desse contato, Platão não absorveu o conceito como sustentado por Crátilo, passando a inclinar-se para o que defendia Parmênides: Segundo o depoimento de Aristóteles, Platão, na juventude, teria conhecido Crátilo, que, adotando as idéias de Heráclito de Éfeso sobre a mudança permanente de todas as coisas – e certamente interpretando de forma parcial e empobrecida a tese hereclítica –, afirmava a impossibilidade de qualquer conhecimento estável. Os dados dos sentidos teriam validade instantânea e fugaz, o que tornava inútil e ilegítima qualquer afirmativa sobre a realidade: quando se tentava exprimir algo, este já deixara de ser o que parecia no momento anterior. Na versão apresentada por Crátilo, o incessante movimento das coisas tornava-se um empecilho à ciência e à ação, que não podiam dispensar bases estáveis. Buscando justamente estabelecer esses fundamentos seguros para o conhecimento e para a ação, Platão desenvolverá, na fase inicial de sua filosofia, teses que tendem a sustentar a realidade no intemporal e no estático (CIVITA (Ed.), 1983, p. X)..

(28) 26. Após a morte de Sócrates, Platão sai de Atenas e passa por lugares onde recebe outras influências, especialmente dos pitagóricos: Depois da morte de Sócrates, disperso o núcleo que se congregara em torno do mestre, Platão viaja. Visita Megara, onde Euclides, que também pertencera ao grupo socrático, fundara uma escola filosófica, vinculando socratismo e eleatismo. Vai ao sul da Itália (Magna Grécia), onde convive com Arquitas de Tarento. O famoso matemático e político pitagórico dá-lhe um exemplo vivo de sábio-governante, que ele depois apontará, na República, como solução ideal para os problemas políticos. Na Sicília, em Siracusa, conquista a amizade e a inteira confiança de Dion, cunhado do tirano Dionísio. Essa ligação com Dion – talvez o mais forte laço afetivo da vida de Platão – representa também o início de reiteradas tentativas para interferir na vida política de Siracusa. Platão visita ainda o norte da África, mas de sua ida ao Egito quase nada se sabe com segurança. Certo é que, em Cirene, inteirou-se das pesquisas matemáticas desenvolvidas por Teodoro (CIVITA (Ed.), 1983, p. XI).. Nesse período, que durou certa de uma década, Platão deu voz a seu mestre Sócrates, por meio de diálogos, chamados “diálogos socráticos”. Essa pode ser considerada a primeira fase do pensamento platônico, onde seu pensamento se confunde com o pensamento de Sócrates (CIVITA (Ed.), 1983, p. XI). Ao retornar a Atenas, por volta de 387 a. C., Platão funda a Academia, “sua própria escola de investigação científica e filosófica” (CIVITA (Ed.), 1983, p. XII). Uma segunda fase é inaugurada nesse período, pois Platão começa a se afastar da filosofia de seu mestre Sócrates e desenvolve sua própria filosofia, de certa forma conciliando os antagonismos dos pensadores pré-socráticos. Marcondes (2000, p. 19) resume bem as fontes de onde Platão absorveu conceitos para formação de sua própria filosofia. Além do pensamento de Sócrates, Platão foi também fortemente marcado pela filosofia de Heráclito e de Parmênides, procurando conciliar a oposição entre ambos, bem como pelos pitagóricos, escola com a qual entrou em contato em sua primeira viagem à Sicília, logo após a morte de Sócrates..

(29) 27. Os “diálogos de transição”, chamados assim por representarem um segundo momento no pensamento filosófico de Platão, apresentam a doutrina das ideias ou doutrina das formas, que seria ainda mais bem desenvolvida posteriormente.. Basicamente,. as. ideias. são. “formas. incorpóreas. e. transcendentes que seriam os modelos dos objetos sensíveis” (CIVITA (Ed.), 1983, p. XII). O pensamento de Platão não ficou circunscrito ao “mundo das ideias”; ao longo de toda a sua vida teve grande preocupação com respeito à política. Sua preocupação política não só foi manifesta em seus escritos, mas também nas tentativas de aplicar suas teorias em Siracusa; tentativas não bemsucedidas. Mesmo depois de grandes frustrações no campo da política, o “mundo de ideias” continuou presente no pensamento platônico (CIVITA (Ed.), 1983, p. XIV). A terceira fase no pensamento platônico apresenta-se em suas últimas obras. “Manifestando uma vida espiritual inquieta, em reelaboração permanente, as últimas obras de Platão levantam novos problemas ou reexaminam os antigos sob outros ângulos” (CIVITA (Ed.), 1983, p. XIV). Uma das obras dessa última fase do pensamento platônico é Timeu, na qual evidencia-se claramente as diversas influências recebidas de seus antecessores, e onde é descrita a sua concepção acerca da formação do tempo.. 1.3.2. Timeu Timeu é uma das últimas obras escritas por Platão. A obra começa com um diálogo entre Sócrates e Timeu, que inclui também Crítias e Hermócrates, mas logo torna-se um discurso, onde Timeu fala sobre a origem do cosmos e a natureza do homem. Não se faz necessário para o fim deste estudo um arrazoado pormenorizado da referida obra. Busca-se nela, especificamente, conceituações que possam esclarecer o pensamento platônico acerca dos eventos futuros. Para isso, sem necessariamente arrazoar sobre a obra de modo sequencial, trataremos inicialmente das diversas influências pré-socráticas no pensamento cosmológico platônico; depois, analisaremos a descrição acerca da.

(30) 28. formação do tempo; e, por fim, faremos alguns apontamentos com respeito às entidades Intelecto e Necessidade, incluídas no discurso. Comecemos por notar as diversas influências pré-socráticas no pensamento platônico. Rodolfo Lopes, na introdução de sua tradução da obra Timeu, afirma que: o Timeu surge como resposta ou proposta de substituição das abordagens naturalistas a que, segundo Platão, se tinham dedicado os pré-socráticos. Inscreve-se, pois, nessa tradição como um ponto de viragem e jamais como um marco de continuidade (PLATÃO, 2011, p. 24).. Lopes compreende que o Timeu não foi escrito por Platão com o objetivo de colocar-se como sucessor dos pré-socráticos. Antes, como uma superação ao que seus antepassados propuseram quanto à origem do universo e sua ordem. Todavia, não é difícil perceber a presença de conceituações parmenidianas, heraclíticas e pitagóricas na obra. Sobre isto, Lopes esclarece que A relação de Platão com esta tradição [pré-socrática] é quase sempre ambígua: se, por um lado, a tenta superar muitas das vezes condenando abertamente alguns dos seus representantes; por outro, importa dela vários elementos cuja autoria propositadamente silencia (PLATÃO, 2011, p. 23).. Aquilo que já expusemos em tópicos anteriores acerca da teoria do Ser de Parmênides e da teoria do “devir” de Heráclito de Éfeso aparecem notoriamente no pensamento platônico descrito no Timeu. No preambulo de seu discurso, Timeu pontua: Na minha opinião, temos primeiro que distinguir o seguinte: o que é aquilo que é sempre e não devém, e o que é aquilo que devém, sem nunca ser? Um pode ser apreendido pelo pensamento com o auxílio da razão, pois é imutável. Ao invés, o segundo é objecto da opinião acompanhada da irracionalidade dos sentidos e, porque devém e se corrompe, não pode ser nunca (PLATÃO, 2011, pp. 93-94).. Toda a teoria cosmológica de Platão descrita no Timeu, como pode ser visto no parágrafo acima, parte da combinação da filosofia parmenidiana e.

(31) 29. heraclítica. O Ser de Parmênides relaciona-se com o mundo das ideias de Platão. Na cosmologia do Timeu, o demiurgo baseia-se num arquétipo imutável, perfeito e eterno (o mundo das ideias) para criar, a partir da matéria caótica, o universo. Este universo, criado imperfeito e mutável, é um reflexo do arquétipo perfeito, por isso apresenta bondade e beleza. O mundo “deveniente” de Platão, criado por demiurgo, relaciona-se com a filosofia do devir de Heráclito de Éfeso, na qual a realidade é conhecida a partir da compreensão das mudanças e dos movimentos. Até esse ponto, a cosmologia de Platão revela, de fato, uma espécie de via média entre dois extremos filosóficos das escolas eleática e jônica. Contudo, além das duas fontes, nota-se também a influência pitagórica. Os quatro elementos materiais a partir dos quais demiurgo criou o mundo, a saber, fogo, água, terra e ar, foram devidamente organizados sob princípios matemáticos de proporção. Tais princípios não só estiveram presentes na criação, como também permaneceram vigentes no funcionamento do mundo. Timeu empreende longa argumentação acerca das dimensões matemáticas presentes na criação do demiurgo (PLATÃO, 2011, pp. 140ss). Evidentemente, isso se deve à influência pitagórica que Platão recebeu. Até mesmo ao período de vida do homem, Platão associa conceitos geométricos: É que a constituição dos seres-vivos, em todo o conjunto das espécies, tem uma duração de vida pré-definida e cada ser-vivo nasce com a existência que lhe foi destinada, à parte as impressões produzidas pela Necessidade; pois desde a origem de cada um, os triângulos conseguem guardar a propriedade que possuem de se manterem constituídos até um determinado tempo, altura além da qual a vida não pode de modo algum prolongar-se (PLATÃO, 2011, p. 205).. Seguindo adiante em nosso propósito, a fim de compreender o pensamento platônico acerca dos eventos futuros, não podemos deixar de pontuar também a concepção de duas entidades em operação na geração do cosmos. Na cosmologia platônica, demiurgo descobriu que o mundo seria mais belo se tivesse um Intelecto. Para isso, criou o mundo com uma alma inteligente: Reflectindo, descobriu que, a partir do que é visível por natureza, de forma alguma faria um todo privado de intelecto que fosse mais belo do que um todo com intelecto, e que seria impossível.

(32) 30. que o intelecto se gerasse em algum lugar fora da alma. Por meio deste raciocínio, fabricou o mundo, estabelecendo o intelecto na alma e a alma no corpo, realizando deste modo a mais bela e excelente obra por natureza. Assim, de acordo com um discurso verosímil, é necessário dizer que este mundo, que é, na verdade, um ser dotado de alma e de intelecto, foi gerado pela providência do deus (PLATÃO, 2011, p. 98).. Ademais, Platão inclui também a Necessidade em sua teoria cosmológica, que, combinada com o Intelecto, gerou o mundo: O que acabámos de passar em revista, à excepção de pequenos aspectos, ilustra o que foi fabricado pelo Intelecto. É necessário que justaponhamos ao discurso aquilo que foi gerado pela Necessidade. De facto, a geração deste mundo resulta de uma mistura engendrada por uma combinação de Necessidade e Intelecto. Mas, como o Intelecto dominava a Necessidade, persuadindo-a a orientar para o melhor a maioria das coisas devenientes, foi deste modo (através da cedência da Necessidade a uma persuasão racional) que o universo foi constituído desde a sua origem. Portanto, se alguém quiser dizer como foi realmente gerado, de acordo com estes pressupostos, terá que incluir também a espécie da causa errante, tanto quanto a sua natureza o admita (PLATÃO, 2011, p. 129).. Lopes reconhece um modelo dualista na distinção entre as entidades Intelecto e Necessidade. Para ele, “o Intelecto representa a vertente teleológica e inteligente”, e “a Necessidade corresponde à corpórea e irracional”, as quais “determinam as duas faces do devir” (PLATÃO, 2011, p. 37). Nessa perspectiva, os eventos não só criativos, mas também cotidianos no mundo criado obedecem tanto a uma causa intelectiva, que denota propósito e que segue uma lógica, como também uma causa errante, que denota não só imprevisibilidade, mas também irracionalidade e intemperança. Por fim, tomando por base as três influências primordiais (parmenidiana, heraclítica e pitagórica) na cosmologia platônica retratada no Timeu, e o conceito de Intelecto e Necessidade, passemos agora a analisar a descrição da formação do tempo. Essa análise certamente nos aproximará ainda mais do pensamento platônico acerca dos eventos futuros. A certa altura do seu discurso, Timeu narra a satisfação do demiurgo na criação do mundo após ter conferido a ele uma alma dotada de inteligência. A.

(33) 31. criação, naquele momento, já era “uma representação dos deuses eternos, animada e dotada de movimento”. Essa satisfação por sua realização, no entanto, não levou demiurgo a considerar concluída a obra. Tão logo pensou num meio de tornar sua obra ainda mais semelhante ao arquétipo, ou mundo das ideias, em que se baseara. Demiurgo não poderia criar algo que fosse eterno, imutável e inalterável como o arquétipo, pois dessa forma criaria o próprio arquétipo. Por isso, “pensou em construir uma imagem móvel da eternidade”. O mundo criado por demiurgo, diferentemente do arquétipo eterno e imutável, é um mundo que muda, mas não de qualquer modo. “Quando ordenou o céu, construiu, a partir da eternidade que permanece uma unidade, uma imagem eterna que avança de acordo com o número; é aquilo a que chamamos tempo”. À mudança do mundo, demiurgo ordenou uma lógica matemática. O resultado dessa imitação móvel da eternidade foi a criação do tempo. Tempo, nessa concepção, é o movimento, a mudança do mundo. Na cosmologia platônica, o tempo existe porque as coisas mudam. A lógica matemática que rege o movimento do céu é também originadora da divisão temporal: “Os dias, as noites, os meses e os anos não existiam antes de o céu ter sido gerado, pois ele preparou a geração daqueles ao mesmo tempo que este era constituído” (PLATÃO, 2011, p. 109). Timeu, refletindo o pensamento platônico, admite que ““o que era” e “o que será” são modalidades devenientes do tempo que aplicamos de forma incorrecta ao ser eterno por via da nossa ignorância” (PLATÃO, 2011, p. 110). Dessa forma, a concepção de passado e futuro é produto da ignorância humana, pois não reflete a realidade do ser eterno. Esse conceito é ampliado nesses termos: Dizemos que “é”, que “foi” e que “será”, mas “é” é a única palavra que lhe é própria de acordo com a verdade, ao passo que “era” e “será” são adequadas para referir aquilo que devém ao longo do tempo – pois ambos são movimentos. No entanto, aquilo que é sempre imutável e imóvel não é passível de se tornar mais velho nem mais novo pelo passar do tempo nem tornar-se de todo (nem no que é agora nem no que será no futuro), bem como em nada daquilo que o devir atribui às coisas que os sentidos trazem, já que elas são modalidades devenientes do tempo que imita a eternidade e circulam de acordo com o número. Além.

(34) 32. destas, há ainda as seguintes: o que aconteceu “é” o que aconteceu, o que está a acontecer “é” o que está a acontecer, o que acontecerá “é” o que acontecerá, e o que não é “é” o que não é; sendo que nenhuma destas afirmações é exacta (PLATÃO, 2011, p. 110).. Podemos concluir a partir do exposto que uma conceituação do pensamento platônico acerca dos eventos futuros deve conter a realidade do mundo das ideias, a deveniência do mundo, a noção de regência de uma alma inteligente em concomitância com um princípio de irracionalidade, ao mesmo tempo em que deve se admitir que qualquer afirmação acerca do futuro não é verdadeira, mas sim apenas uma adequação para referir-se a algo que é apenas uma aproximação imperfeita do real. Dito isto, parece correta a seguinte proposição de Japiassú e Marcondes (2001, p. 151): Toda a doutrina de Platão pode ser interpretada como uma crítica em relação ao dado sensível, social ou político, e com uma exortação a transformá-lo se inspirando nas idéias, cuja ação (cognitiva, moral e política) deve reproduzir, o mais fielmente possível, a ordem perfeita no mundo do futuro..

(35) 33. CAPÍTULO 2 OS FUTUROS CONTINGENTES NO PENSAMENTO DE ARISTÓTELES Após a análise introdutória acerca de como o futuro foi tratado antes de Aristóteles, vamos, agora, em primeiro lugar, recuperar aspectos importantes de sua vida que o distinguem dos pensadores precedentes e que, de certa forma, justificam o seu interesse pelo assunto e também esclarecem a razão pela qual o tema foi compreendido e tratado da forma como ele fez. Em segundo lugar, vamos analisar brevemente a obra de Aristóteles, o Corpus aristotelicum, para que possamos perceber com maior profundidade como seu pensamento com respeito aos futuros contingentes foi construído. Daremos atenção maior à análise da obra Sobre a Interpretação. Nesta obra, Aristóteles trata de como os pensamentos são expressos em proposições faladas e escritas, o que levará, naturalmente, do ponto de vista aristotélico, à expressão falada e escrita de pensamentos acerca do futuro e sua lógica. Nessa obra, portanto, é onde está localizada a descrição e a tratativa filosófica de Aristóteles a respeito dos futuros contingentes. Por fim, focaremos na análise do capítulo 9 da obra Sobre a Interpretação, capítulo este que trata especificamente do tema em tela. Será nosso propósito expor o tema tratado filosoficamente por Aristóteles, para depois avaliarmos a interpretação de Boécio ao tema. Com base no exposto no primeiro capítulo, podemos concluir que Aristóteles não é inovador ao tratar acerca do futuro. De uma forma ou de outra, na mitologia grega, na filosofia pré-socrática e na filosofia platônica encontramos tentativas de explicar a origem e o funcionamento do cosmos, onde se inclui o aspecto temporal, e mais especificamente conceituações acerca do futuro. De fato, entre os pensadores gregos anteriores a Aristóteles, a imprevisibilidade e contingência do futuro foi um problema; a solução mitológica foi atribuir aos deuses o poder de determina-lo; os pré-socráticos resolveram-no ou.

(36) 34. concebendo as mudanças no mundo como um movimento constante absolutamente indeterminado, ou concebendo a realidade como um Ser eterno regido pela necessidade, pelo destino e pela justiça; e, Platão o resolveu concebendo o tempo como o movimento do mundo, regido pelo Intelecto e pela Necessidade, que reflete de modo imperfeito a eternidade e a perfeição do mundo das ideias. Como vimos, Aristóteles não foi o primeiro a propor uma solução ao problema do futuro; foi sim o primeiro a tratar do futuro com uma abordagem estritamente lógica-filosófica. Tendo em vista que nenhum pensamento passa a existir num vácuo histórico, precisaremos, antes de tudo, resgatar pontos específicos da vida e da obra de Aristóteles, para que possamos definir, pelo menos com o mínimo de precisão, o problema em tela. Os objetivos específicos, portanto, são três: apontar informações da vida de Aristóteles e de eventos históricos periféricos que influenciaram seu pensamento e contribuíram em alguma medida com a sua obra; descrever em linhas gerais o Corpus aristotelicum – especificamente o Sobre a Interpretação, a segunda obra do Organon; e, por fim, analisar em profundidade a descrição e a solução de Aristóteles ao problema dos futuros contingentes constantes no capítulo 9 da Interpretação.. 2.1. A VIDA DE ARISTÓTELES Vejamos, em primeiro lugar, aspectos pertinentes da vida de Aristóteles em sua relação com alguns eventos históricos periféricos que influenciaram seu pensamento e contribuíram em alguma medida para a formação de sua obra. Aristóteles nasceu em 384 a. C., em uma cidade chamada Estagira, na região de Calcídia. Apesar de ter sido localizada à distância de Atenas e de estar sob a regência da Macedônia, Estagira era uma cidade grega, cujo idioma oficial era o grego. A vida e a obra de Aristóteles apresentarão em alguma medida sua vinculação à cultura helênica e à política da Macedônia. O interesse de.

(37) 35. Aristóteles por pesquisas no campo na biologia foi formado em sua base familiar. “A família de Aristóteles estava tradicionalmente ligada à medicina”, por isso, “Ao ingressar na Academia platônica […], Aristóteles trazia como herança de seus antepassados, acentuado interesse pelas pesquisas biológicas” (CIVITA (Ed.), 1972, pp. 66-67). Em sua juventude, por volta do ano 366 a. C., Aristóteles saiu da Macedônia e se dirigiu a Atenas, o centro intelectual e artístico da Grécia naquele período. A cultura da cidade representava oportunidades de ascensão por meio dos estudos para os jovens. Havia na Grécia, no século IV a. C., duas instituições de ensino para as quais se dirigiam os jovens. No parágrafo a seguir, são indicadas a escola de Isócrates e a escola de Platão, chamada Academia, e suas características principais: Naquela época duas grandes instituições educacionais disputavam em Atenas a preferência dos jovens que, através de estudos superiores, pretendiam se preparar para exercer com êxito suas prerrogativas de cidadãos e ascender na vida pública. De um lado, Isócrates, seguindo a trilha dos sofistas, propunhase a desenvolver no educando a aretê política – ou seja, a “virtude” ou capacitação para lidar com os assuntos relativos à polis – transmitindo-lhe a arte de “emitir opiniões prováveis sobre coisas “úteis”. […] Ao contrário de Isócrates, Platão ensinava que a base para ação política – como aliás para qualquer ação – deveria ser a investigação científica, de índole matemática. Na Academia, que fundara em 387 a. C., mostrava a seus discípulos que a atividade humana, desde que pretendesse ser correta e responsável, não poderia ser norteada por valores instáveis, formulados segundo o relativismo e a diversidade das opiniões; requeria uma ciência (episteme) dos fundamentos da realidade na qual aquela ação está inserida (CIVITA (Ed.), 1972, pp. 6667).. A Academia foi escolhida por Aristóteles sem hesitação. Porém, seu encontro com Platão não foi imediato. Naquele ano, Platão havia se ausentado de Atenas por razões políticas, em virtude da morte de Dionísio I. Por esse motivo, em 367 a. C, Aristóteles inicia seus estudos na Academia, sob a direção de Eudoxo de Cnido, matemático e astrônomo. O encontro de Aristóteles com Platão aconteceu cerca de um ano depois de seu ingresso na Academia, onde.

Referências

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