UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
CLÁUDIA BONA CIOTTI
A DEPRESSÃO COMO “MAL-ESTAR” CONTEMPORÂNEO
Ijuí, RS 2019
CLÁUDIA BONA CIOTTI
A DEPRESSÃO COMO “MAL-ESTAR” CONTEMPORÂNEO
Artigo apresentado ao curso de graduação lato sensu em Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), requisito parcial para aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso.
Orientadora: Lála Catarina Lenzi Nodari
Ijuí, RS 2019
A DEPRESSÃO COMO “MAL-ESTAR” CONTEMPORÂNEO1
DEPRESSION AS A CONTEMPORARY “WELLNESS” CIOTTI, Cláudia Bona2
Graduanda em Psicologia – Unijuí
NODARI, Lála Catarina Lenzi3
Orientadora e docente do curso de Psicologia – Unijuí
RESUMO
A depressão tornou-se um mal-estar contemporâneo. Neste sentido, para melhor compreensão do significado desse mal que vem assolando a sociedade, busca-se aprofundar o tema partindo do pressuposto do que é a felicidade. Atualmente, parece que qualquer sofrimento é oposto à felicidade. O intuito deste artigo é justamente compreender e resgatar a definição do termo “depressão” a partir da evolução da sociedade, e verificar seus sintomas a fim de melhor compreender o seu diagnóstico. Alguns profissionais podem não ter entendimento e qualificação na área e acabam medicalizando sintomas semelhantes como se fossem depressão ou até mesmo receitam medicamentos incompatíveis com o tipo e nível de depressão apresentado pelo paciente.
Palavras-chave: Depressão. Felicidade. Medicalização.
ABSTRACT
Depression has become a contemporary malaise. In this sense, to better understand the meaning of this evil that is plaguing society today, we seek to deepen this research starting from the assumption of what is happiness. These days, it seems that any suffering is the opposite of happiness. The purpose of this article is precisely to understand and rescue the definition of the term "depression" from the evolution of society, and to verify its symptoms in order to have a better understanding of its diagnosis. Some professionals may lack understanding and qualifications in the area and end up medicalizing similar symptoms such as depression or even prescribing medications that are incompatible with the type and level of depression the patient experiences.
Key words: Depression. Happiness. Medicalization
1
Artigo apresentado ao curso de graduação lato sensu em Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), requisito parcial para aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso. Dez./2019.
2
Bacharelanda em Psicologia pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). E-mail: [email protected].
3
Orientadora, docente do curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). E-mail: [email protected].
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Cada período da História possui características peculiares que, por sua vez, determinam as condições específicas do seu tempo. Em outras palavras, a cada época o homem produz alguns sistemas de valores, ou seja, diversas regras sociais, definindo padrões de comportamento e de conduta tanto de forma individual como coletiva. Diante das novas configurações socioculturais, cada pessoa exerce um estilo de vida em consonância com a sociedade, procurando se adequar ao que ela preceitua ser o correto e, dessa forma, se satisfaz, criando, muitas vezes, uma falsa ilusão de felicidade.
A sociedade contemporânea tem como máxima estar sempre em busca da felicidade, isto é, buscar a todo momento a realização pessoal, partindo da liberdade individual. A globalização transformou a vida de toda a sociedade e, hoje, o sucesso e a felicidade estão ligados diretamente às mídias sociais. Dessa forma, o indivíduo se satisfaz difundindo a sua imagem e buscando a todo momento divulgar uma ideia de satisfação completa, tudo em nome de uma boa aparência. Vive-se, assim, um momento em que o “ser” e o “ter” tornaram-se mais importantes do que o “viver”.
A sociedade atual vive em um sistema capitalista, onde há necessidade e dependência dos bens materiais. Trata-se de um fundamento norteador para a realização do ser humano, que acaba confundindo algumas sensações. Dessa forma, direitos fundamentais e valores coletivos acabam sendo ignorados e deixados em segundo plano. Este consumo exacerbado tem sido visto pelo ser humano como a principal forma de felicidade e, assim, a felicidade está vinculada à aquisição de bens materiais e, também, com a conquista de um bom aspecto físico.
As demandas sociais que se colocam para o sujeito partem de alguns focos, como: a busca da felicidade, a questão do consumo e a sociedade do espetáculo. Entende-se que este espetáculo se apresenta ao mesmo tempo como a própria sociedade, ou pelo menos, uma parte dela. Trata-se da afirmação da aparência, em que o sujeito busca viver sempre de acordo com o que o outro pensa, o que faz com que não se reconheça em si mesmo, pois se vê representado no outro a partir de imagens que, muitas vezes, são irreais. E, para encontrar a sua felicidade acaba seguindo este mesmo caminho.
Em seus estudos, Sigmund Freud (2010, p. 14) assim se manifesta em relação ao assunto:
É difícil escapar à impressão de que em geral as pessoas usam medidas falsas, de que buscam poder, sucesso e riqueza para si mesmas e admiram aqueles que os têm, subestimando os autênticos valores da vida. E, no entanto, corremos o risco, num julgamento assim genérico, de esquecer a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica.
A cultura capitalista contemporânea preza incessantemente pela beleza, a inteligência e a eficiência. O indivíduo tem pressa e quer que tudo seja realizado o mais rápido possível para, assim, não ser ultrapassado e acompanhar o ritmo da sociedade, pois tudo envolve dinheiro e consumo. Nesse sentido, possui o passaporte para a felicidade, que se constitui num discurso capitalista. E, para seguir nesse ritmo acelerado, acaba abrindo mão de algumas coisas, como o lazer, o tempo em família e a própria subjetividade em troca da possibilidade de encontrar a felicidade.
1 O HOMEM EM BUSCA DA FELICIDADE
O homem moderno procurou realizar os seus sonhos acreditando que conseguiria fazer parte de uma comunidade que fosse livre, fraterna, bem como de uma sociedade autônoma e igualitária. O que se estabeleceu nesta cultura, todavia, foi a “cultura do consumismo”. Neste sentido, existe uma constatação do controle social, ou seja, existe um agente regulador das condutas socias que é o mercado e, consequentemente, o consumo. O mercado promete à sociedade imagens de felicidade, e é em busca dessa promessa que o indivíduo adquire tais produtos.
A publicidade, em regra, trabalha sobre essas imagens, buscando dar sentido a todos os produtos e mercadorias. Assim, por meio de suas propagandas, demonstra que para a sociedade alcançar a sua realização mais íntima, deve adquirir tais produtos e encontrar a felicidade, a sua realização e o seu sucesso.
Jean Baudrillard (1995, pp. 11-12) observa nesse sentido que:
Os objetos deixam totalmente de estar em conexão com qualquer função ou necessidade definida, precisamente porque respondem a outra coisa diferente, seja ela a lógica social, seja ela a lógica do desejo, às quais servem de campo móvel e inconsciente de significação.
Essa busca incessante de riquezas materiais, de objetos de consumo, prestígio, reconhecimento, está atrelada à felicidade. Todos os seres humanos buscam, culturalmente, um reconhecimento social pela posse de objetos e, assim, estarem de bem consigo mesmos, ou com a sensação de uma “falsa felicidade”. Deste modo, pode-se afirmar sem receio que se vive um período marcado pelo consumo, o qual se torna irresistível. Tudo isso, segundo Arnaldo Toni Souza das Chagas (2001, p. 39), para buscar o “bem-estar pessoal, do sucesso, da felicidade e da realização pessoal” que, consequentemente, produzirá um estilo de vida que direciona as pessoas à aquisição de bens e de riquezas materiais, dando uma ideia de poder, autonomia e liberdade.
Assim sendo, pode-se observar que as pessoas buscam, a todo custo, a realização pessoal, ou seja, a felicidade. Neste sentido, é necessário compreender o que realmente é a felicidade, pois todos a buscam constantemente sem, no entanto, descobrirem onde ela de fato se encontra. É justamente nesta linha que Freud (2016, p. 63) faz a seguinte observação.
Passaremos a uma pergunta mais modesta: o que os próprios seres humanos, através de seu comportamento, revelam ser a finalidade e o propósito de suas vidas? O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? É difícil errar a resposta: eles aspiram à felicidade, querem se tornar felizes e assim permanecer.
Toda a pessoa busca estar constantemente feliz e assim permanecer por toda a vida. Este é um propósito da vida humana, e é o que o homem tem demonstrado até hoje. Neste sentido, todos querem evitar qualquer tipo de desprazer e sofrimento, o que acaba sendo impossível, pois a qualquer momento podem ter o seu propósito de vida frustrado. Freud (1974), na sua obra Mal-Estar na Civilização, aponta que a própria realidade se apresenta como a única e grande inimiga, sendo a fonte causadora de todo sofrimento.
Para Chagas (2001), esse sofrimento é comum na sociedade, pois se trata de uma realidade comum dos dias atuais. Para evitar essas frustrações se deveria “construir” um novo mundo, sem sofrimentos, derrotas ou problemas, e onde apenas os desejos prevalecem.
Com a realidade é impossível viver, de maneira que, se quisermos ser, de algum modo felizes, temos de romper todas as relações com ela. Assim, pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir
outro mundo, no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos. (CHAGAS, 2001, p. 93).
Esse sentimento de felicidade é encontrado em vários tipos de prazeres, mas ao longo da vida é interrompido, pois as ilusões fazem parte do cotidiano das pessoas, o que é necessário para o seu crescimento pessoal. Não se trata, portanto, de algo errado, ou que está sempre em desacordo com a realidade, mas sim algo necessário na vida dos sujeitos.
Assim, para corroborar, Chagas (2001, p. 86) dispõe que:
[...] o sentimento de felicidade, mediante o prazer que o homem sente em alguns momentos da vida, encontra nas ilusões um “lugar importante de satisfação”; ou ainda, nas ilusões, o homem busca evitar o sofrimento ou o desprazer que é imposto pela natureza e, nelas, procura encontrar um refúgio do mundo como se transcendesse a ele.
Segundo o entendimento de Freud (2016), essa busca pela felicidade possui duas linhas: uma positiva e a outra negativa. O que se pode compreender a respeito de cada uma delas é que na negativa encontra-se a ausência de dor e de desprazer, enquanto na positiva encontram-se os sentimentos de prazer. Assim sendo, em um âmbito mais liberal pode-se afirmar que a felicidade está mais ligada à linha positiva. A busca constante pelo prazer e pelo bem-estar, portanto, significa estar em busca da felicidade.
Toda a sensação de felicidade depende da noção do desprazer, isto é, o sentimento de dor e de sofrimento serve como parâmetro para medir a sensação de felicidade do indivíduo. Possivelmente, o homem não saberia o que é felicidade, prazer, se não houvesse experimentado os sentimentos antagônicos de desprazer e sofrimento.
O ser humano está sempre criando novas necessidades e, portanto, busca supri-las constantemente. É por este motivo que a busca pelo prazer sempre prevalece no sentido da sua vida. Ser feliz não é uma tarefa simples, todavia, é impossível que o homem deixe de buscar a felicidade, visto que se trata da condição da sua existência, sendo algo imposto pela própria natureza psíquica.
O programa que o princípio do prazer nos impõe, o de sermos felizes, não é realizável, mas não nos é permitido – ou melhor, não
nos é possível – renunciar aos esforços de tentar realizá-lo de alguma forma. Para tanto, pode-se escolher caminhos muito diversos, colocando em primeiro lugar o conteúdo positivo da meta, o ganho de prazer, ou o negativo, o de evitar o desprazer. Em nenhum desses caminhos podemos alcançar o que queremos. Nesse sentido moderado em que é reconhecida como possível, a felicidade é um problema da economia libidinal do indivíduo. Não há um conselho que sirva para todos; cada um precisa experimentar por si próprio a maneira particular pela qual pode se tornar feliz. (FREUD, 2016, p. 77).
A sociedade criou pessoas perturbadas e infelizes, que não são capazes de suportar as próprias frustrações que a sociedade impôs a serviço dos seus ideais. A Ciência, com seus medicamentos, parece ser o principal caminho utilizado para tentar amenizar tais frustrações. Pode-se perceber, contudo, que a Ciência acabou industrializando o mundo, o que quer dizer que o homem se volta para as necessidades materiais a fim de se satisfazer e, consequentemente, estar feliz. Freud (2016) observa que o ser humano já conseguiu perceber que, mesmo que insista, a Ciência e tudo o que ela criou não o deixa plenamente feliz. Ao contrário, o ser humano cada vez fica mais dependente e insatisfeito, pois nunca irá se satisfazer com o que tem, apenas se mover na direção de uma ilusória tentativa de ser feliz.
Ao longo das últimas gerações, os homens fizeram progressos extraordinários nas ciências naturais e nas suas aplicações técnicas, consolidando o domínio sobre a natureza de uma maneira impensável no passado. Os detalhes desses progressos são de conhecimento geral, e não é necessário enumerá-los. Os seres humanos têm orgulho dessas conquistas e têm o direito a tanto. Mas eles acreditam ter percebido que essa recém-adquirida disposição sobre o espaço e o tempo, essa sujeição das forças naturais, a realização de um anseio milenar, não elevou o grau de satisfação prazerosa que esperam da vida, que essa disposição sobre o espaço e o tempo não os tornou, segundo suas impressões, mais felizes. (FREUD, 2016, p. 84).
Neste sentido, percebe-se que esse tal “prazer” descrito por Freud, nada mais é do que algo momentâneo e passageiro. O ser humano tem sempre a sensação de que algo está lhe faltando, que cada vez mais as pessoas se deparam com este tipo de sensação e, assim, começa a haver um “peso” por saber que a felicidade é inatingível.
Todos os seres humanos acabam se tornando prisioneiros das próprias descobertas que realizam em busca da felicidade. Neste sentido, estão sempre buscando novas sensações a partir dos bens que criam e, por sua vez, vivem produzindo novas invenções, como se fosse um remédio para apaziguar esse mal-estar e os próprios desprazeres que eles próprios criaram.
Zygmunt Bauman (2008), em sua obra Vida para Consumo, procura entender como o homem chegou neste estágio em que busca apenas obter prazer passageiro, isto é, prazeres momentâneos que trazem a sensação de bem-estar e base para a felicidade. Os seres humanos passaram de consumidores para consumistas – condição fundamental para saciar seus anseios e prazeres. O consumo é algo humano, porém o consumismo se tornou social. Ao se relacionar, o homem se tornou consumista, e acabou tendo desejos, vontade de experimentar novas sensações, emoções e novas experiências. Assim, a expectativa de satisfação com a aquisição de um novo objeto pode se transformar em frustração ao perceber que ele pode se tornar um mal-estar, ou seja, quanto maior a expectativa para adquirir um objeto, maior será o sentimento de frustração.
Esse consumo exacerbado dos seres humanos é retrato da atual sociedade e uma consequência das novas necessidades criadas pelo homem com o intuito de satisfazer as necessidades antigas. Tais necessidades, segundo Bauman (2008), não são finitas pelo fato de que o homem nunca irá se saciar totalmente. Neste contexto, entende-se que o consumo é um motivo de felicidade para os seres humanos. É difícil, portanto, uma definição que represente a felicidade, tendo em vista que as suas razões podem ser inúmeras para cada sujeito.
Exibir o bem adquirido publicamente é uma das maiores sensações de prazer e, consequentemente, de felicidade. Essa busca constante pela felicidade faz com que os bens necessariamente possam suprir as infinitas necessidades de prazer e, posterior a isto, deverão ser substituídos constantemente. Esta insaciabilidade faz com que o ser humano busque novos produtos para se satisfazer, criando um ciclo onde os novos produtos irão originar novas necessidades e, assim, sucessivamente.
Percebe-se, portanto, que a felicidade, atualmente, possui uma definição complicada, visto que ela varia de pessoa para pessoa, ou seja, ela é muito subjetiva. E, embora o ser humano seja movido pela busca da felicidade, ela nunca é a mesma coisa para todas as pessoas, pois está vinculada estritamente a fatores externos, ou seja, é algo pessoal, individual e que não pode ser transferida.
A sociedade atual convive com a cultura da pressa e do imediatismo. Assim sendo, os prazeres também se tornam imediatos e, após gerar essa sensação de prazer e bem-estar, passam a ser obsoletos, fazendo com que a sensação de prazer seja passageira, o que torna a felicidade passageira também. Em outras palavras, tudo é descartável após cumprir a sua função, o que acaba tornando a felicidade e o bem-estar descartáveis também.
2 A DEPRESSÃO COMO SINTOMA SOCIAL
O atual contexto social tem sido visto como possível “criador” de efeitos psíquicos no sujeito. Autores como Charles Melman (apud PERES, 2003) apresentam a ideia de que esses efeitos seriam sintomas sociais e, dentre eles, destaca a depressão – assunto pertinente à atualidade. Apesar de ser um tema recente, a depressão pode ser encontrada com outra denominação há centenas de anos, o que leva a acreditar que ela seja tão antiga quanto a humanidade, isto é, a tristeza acompanha o ser humano desde a sua origem.
Todos os seres humanos, pelo menos em algum momento de sua vida, já tiveram um sentimento de tristeza, de solidão e de amargura. Neste sentido, faz-se necessário compreender a história da depressão, isto é, quando ela foi descoberta e, assim, entender o ser humano e os seus comportamentos.
Urania Tourinho Peres (2003, p. 13) se manifesta, afirmando que:
Se remontarmos aos mitos de origem, vamos nos defrontar com a constatação de que a depressão é tão antiga quanto a humanidade, ou melhor, que a tristeza é companheira do homem desde sua origem. Que Eva tenha sido criada para afastar de Adão a sua solidão, e que o casal tenha submergido, pelas vias do pecado original, na culpa e no remorso tão presentes entre os melancólicos, é hipótese frequente evocada. Fato é que a depressão, podemos afirmar, faz parte da própria estrutura humana. O homem não caminha sem a sua tristeza, condição não dissociada da própria consciência da morte.
É inegável a presença do sintoma de depressão, pois como se pode perceber, trata-se de um problema milenar, isto é, existe há centenas de anos. Com a Modernidade, ela ganhou mais visibilidade, porém, ainda se tem pouco conhecimento a seu respeito. Reforça-se, assim, a ideia de que as características do
mundo atual, já tratadas na parte inicial deste artigo, têm contribuído para que a depressão se faça presente em muitas pessoas.
Na Antiguidade (500 a.C. a 100 d.C.), embora não fosse chamada de depressão, seus sintomas já estavam presentes em meio às pessoas. Neste sentido, os gregos acreditavam que,
o comportamento era influenciado pelo desequilíbrio de quatro líquidos presentes no corpo: bílis negra, bílis amarela, fleuma e sangue. Afirmava que o elevado nível de bílis negra levaria à melancolia, o aumento de bílis amarela seria responsável pela ansiedade, assim como o excesso de fleuma estaria associado ao temperamento preguiçoso e o de sangue às oscilações rápidas de humor. Com esse entendimento, no intuito de eliminar o excesso de bílis negra, o tratamento do paciente melancólico era feito com sangria, laxativos e vomitórios, o que levava muitos pacientes à morte por desidratação. (TEODORO, 2009, p. 32).
Os gregos entendiam que as doenças relacionadas à mente humana são conexas à disfunção do corpo e, para tal, seu tratamento exigia procedimentos não convencionais que, muitas vezes, levava o indivíduo a óbito.
No século V a.C., Hipócrates já conhecia a depressão e a denominava como “melancolia”, sendo “uma afecção sem febre, na qual o espírito triste permanece, sem razão, fixado em uma mesma ideia, constantemente abatido”. (CUCHE; GERARD, 1994). Seus sintomas eram a “perda de sono, falta de apetite, desejo de morte, falta de entusiasmo, etc.” (CUCHE; GERARD, 1994). É notório, a partir dessa definição, que a melancolia é muito semelhante à depressão conhecida nos dias atuais, inclusive os próprios sintomas.
Para realizar algum tipo de tratamento naquele período era necessário, segundo Hipócrates, que o sujeito realizasse algumas mudanças no estilo de vida, como, por exemplo, a realização de exercícios físicos, mudança na alimentação e passasse a utilizar ervas medicinais. A conversa também era vista como algo fundamental para a realização do tratamento, além do fato de que as pessoas que apresentavam estes sintomas ficavam sob vigia, ou seja, estavam sempre acompanhadas, evitando ao máximo que ficassem sozinhas (CUCHE; GERARD, 1994).
Na Idade Média (450 a 1400), período marcado pela ascensão do Cristianismo, houve grande mudança na forma como as doenças eram vistas. As coisas sobrenaturais e a superstição ganharam grande evidência, o que acabou
dando lugar a já tradicional medicina, isto é, o que era utilizado no tratamento dos melancólicos passou a estar em desconformidade com o posicionamento da Igreja, a qual tinha força política e religiosa do Estado. Para corroborar com o exposto, Wagner Luiz Garcia Teodoro (2009, p. 33) dispõe que:
[...] a forte influência religiosa na Europa fez com que as abordagens naturalistas fossem abandonadas e ressurgissem antigas crenças sobre a possessão demoníaca e o uso de tratamentos exorcistas para os transtornos mentais.
Por volta do século XIII, a Igreja católica passa a considerar a melancolia como um pecado, revelando uma fraqueza moral diante das vicissitudes da vida.
Embora tenha havido diversas mudanças significativas, a depressão ainda era denominada como melancolia e tratada como algo nocivo, causadora de danos na pessoa, isto é, era algo que prejudicava a vida humana. No período da Inquisição (século XIII), a melancolia estava relacionada às pessoas que não possuíam fé, que estavam afastadas das coisas sagradas, bem como distantes de Deus. Muitos desses, por sua vez, acabavam sendo multados e até mesmo aprisionados por serem portadores deste “mal da alma”. Essas pessoas eram colocadas a realizar trabalhos manuais e, com isso, acabavam sendo esquecidas e abandonadas, ficavam em lugares isolados distantes das outras pessoas que não eram melancólicas (GONÇALES; MACHADO, 2007, [s.p.]).
No período da Idade Moderna (séculos XV a XIX), marcado pelo Renascimento, Iluminismo e também pelo Romantismo, o conhecimento sobre a melancolia teve um grande avanço. Foi possível, assim, observar a presença do filósofo italiano Marsílio Ficino, que teve grande atuação sobre esta patologia, pois suponha que a melancolia estava presente em toda a sociedade, tanto homens como mulheres, e significava uma manifestação do anseio humano pelo eterno. Seu posicionamento ganhou força no fim XVI e em todo século posterior, e dizia que todo gênio se tratava de alguém melancólico, isto é, onde existiam os “homens dotados de gênio que sofriam de fato, mas também outros que simulavam sofrimento no afã de serem tomados por homens brilhantes.” (AMARAL, 2006).
Nesse mesmo período, Shakespeare demonstra em umas das suas peças o sentimento de humor melancólico:
O pensamento assim nos acovarda, e assim é que se cobre a tez normal da decisão. Com o tom pálido e enfermo da melancolia; e desde que nos prendam tais cogitações, empresas de alto escopo e que bem alto planam, desviam-se de rumo e cessam até mesmo de se chamar ação. (SHAKESPEARE, 2019).
É notório que neste período da Idade moderna, a melancolia foi libertada do estigma de “doença da razão”, desvinculando-se da aura do pecado e se transformou em uma doença da imaginação. Nesta cena, Shakespeare quer mostrar por meio do personagem Hamlet, que a melancolia é fundamental para a sabedoria, sendo então, uma base para a loucura.
Já no século XVII, a palavra “depressão” passou a ser empregada na literatura inglesa. Neste período, o filosofo René Descartes teve um grande destaque, pois fez do sujeito do conhecimento um fundamento para toda a verdade, isto é, houve uma cisão entre o corpo e a mente, sendo que depois da morte o corpo é apenas uma matéria. Isso confrontava com o pensamento da Igreja, que considerava o corpo algo sagrado, pois era a “casa” da alma. Para melhor esclarecer, Teodoro (2009, p. 33) afirma:
No século XVII, época em que a palavra “depressão” passa a ser utilizada pela literatura inglesa, o filósofo francês René Descartes (1596-1659) reiterou a ideia da cisão entre a mente (alma, espírito) e o corpo, já lançada pelo filósofo Platão (427-347 a.C.). Descartes afirmava que após a morte do corpo, este se torna apenas uma máquina. Apesar da primeira dissecação humana ter sido registrada pelo filósofo grego Herófilo e pelo anatomista Erasístratro, considerado pai da fisiologia, aproximadamente 250 anos antes da era cristã, a afirmação de Descartes favoreceu a ampliação dos estudos sobre anatomia humana, escassos nos séculos anteriores, uma vez que a Igreja considerava o corpo como algo sagrado por ser a sede da alma. Desta maneira, a tese de Galeno foi sendo substituída pela compreensão de que o cérebro seria o responsável pelas perturbações do humor.
Diante dessas considerações fica clara a evolução a respeito da melancolia, isto é, já se começou a falar em depressão e, nesse contexto, a Ciência começa a avançar, apesar da grande resistência por parte de muitos na sociedade. Conforme Andrew Solomon (2002, p. 250), “o melancólico seria agora não uma figura demoníaca, mas uma figura autoindulgente, recusando a autodisciplina disponível da saúde mental.” O autor continua pontuando no sentido de que “com exceção dos tempos da Inquisição, o século XVIII foi provavelmente a pior época para sofrer de
uma grave disfunção mental”, isso porque diversas pessoas acreditavam que a melancolia era algo que não tinha cura, que perturbava a ordem social e moral e, portanto, precisava ser corrigida. Essa correção se dava por meio de abusos como, por exemplo, das dores físicas, pois acreditavam que dessa forma poderiam distrair a mente. Assim, eram feitos afogamentos ou, então, o sujeito era colocado para trabalho braçal. Isso ainda pode ser observado atualmente quando muito se referem às pessoas com depressão como: “isso é falta de ter o que fazer”, ou então “tem que arrumar um trabalho que passa”.
Para melhor esclarecimento, Solomon (2002, p. 250) mostra que:
A sociedade passava por cima da noção de que aqueles com graves doenças psicológicas poderiam se recuperar delas; uma vez que alguém parecesse esquisito, entrava no hospital mental e lá ficava, pois a probabilidade de que emergisse para a razão humana era igual à de um rinoceronte cativo.
Esse foi um período de grandes discussões em que houve preocupação por parte dos estudiosos para classificar essas doenças. Consequentemente, começaram a separar em grupos os que possuíam problemas mentais. Wilhelm Griesinger voltou seu pensamento a Hipócrates e declarou que todas as doenças mentais são do próprio cérebro. Embora não conseguisse verificar a sua origem, ele incessantemente defendia que as doenças mentais deveriam ser tratadas, tanto de forma preventiva como curativa e, neste sentido, a depressão passou a ser medicalizada (SOLOMON, 2002).
Na Idade Contemporânea (século XX até os dias atuais) constatou-se que a depressão apresentava um significativo avanço, assim como havia a consolidação da Psiquiatria. Da mesma forma houve o surgimento de movimentos comunitários e sociais com o intuito de modificar os entendimentos que havia até então sobre este transtorno, bem como modificar o seu atendimento e a assistência à pessoa portadora deste transtorno.
No ano de 1917, Sigmund Freud escreveu a obra Luto e Melancolia, com o intuito de contribuir para o entendimento da depressão. Assim, ele afirma em seu texto que a melancolia se trata de uma forma de luto que, por sua vez, surge a partir da sensação da perda da libido, isto é, o ego acaba se tornando pobre e vazio (SOLOMON, 2002).
Já no início da década de 50 surgiram os antidepressivos que marcaram um grande avanço no tratamento da depressão. Neste sentido, Solomon (2002, p. 269) destaca que:
A versão mais encantadora da história é que um grupo de pacientes tuberculosos em quarentena foi tratado com iproniazida, um novo combinado que supostamente ajudava os pulmões, e ficou curiosamente exultante. Pouco tempo depois, a substância estava sendo usada por pacientes não tuberculosos (quase não teve eficácia contra a tuberculose), e assim sua descoberta precedeu a descoberta de seu modo de ação.
Foi a partir desse momento que surgiram as pesquisas em busca de novos medicamentos, entendimentos e descobertas, bem como novos mecanismos foram criados com a finalidade de ajudar no tratamento e na prevenção de pessoas depressivas.
Nos anos 90 observou-se um período denominado como a “década do cérebro”, em que vários investimentos foram feitos para que as pessoas pudessem compreender que a doença mental é como as demais doenças. Até então a depressão era vista como algo sem solução, um “tratamento sem fim” e a vinda dos medicamentos revolucionou estes pensamentos. A Organização Mundial da Saúde no ano de 1948, também impulsionou a tentativa de classificar a depressão.
Porter (apud SOLOMON, 2002, p. 300) observa que muitas pessoas “costumavam ver a doença mental como um poço sem fundo que sugava dinheiro, exigindo tratamento psiquiátrico interminável, o taxímetro sempre correndo, o progresso duvidoso. Os novos medicamentos mudaram tudo isso.”
O século XXI é riquíssimo no que diz respeito à nova maneira de pensar a doença mental, a qual recebeu abordagens científicas como, por exemplo, médica, psicanalítica e cognitiva. Ainda existe, porém, uma grande preocupação no que se refere ao seu diagnóstico, pois conforme se pode observar, dezenas de pessoas que chegam ao Sistema Único de Saúde saem sem um tratamento e diagnóstico correto (GONÇALES; MACHADO, 2007).
Neste sentido, Maria Rita Kehl (2009, p. 31) afirma que:
Analisar o aumento significativo das depressões como sintoma do mal-estar social no século XXI significa dizer que o sofrimento dos depressivos funciona como sinal de alarme contra aquilo que faz água na grande nau da sociedade maníaca em que vivemos. Que
muitas vezes as simples manifestações de tristeza sejam entendidas (e medicadas) como depressões graves só faz confirmar essa ideia. A tristeza, os desânimos, as simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado
É visível o crescente índice de depressão que acomete a sociedade atualmente, tornando-se a doença que mais ganhou espaço nos últimos anos. Existe, inclusive, um grande número de suicídios que vêm ocorrendo, sendo a depressão a sua principal responsável. Assim sendo, pode-se afirmar que a depressão assumiu um caráter epidêmico, passando a ser uma doença que afeta todas as classes sociais.
Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão teve um acréscimo assustador nos últimos 10 anos, e a previsão é que até o ano de 2020 seja a doença que mais causará impactos no mundo. Atualmente, a depressão já é uma das principais causas de afastamento do trabalho, pois pode incapacitar o sujeito de realizar as suas atividades profissionais devido ao isolamento e à introspecção (R7, 2019).
O Portal de Notícias R7 (2019) traz a seguinte estatística sobre a depressão: Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) mostram que 5,8% dos brasileiros (cerca de 12 milhões de pessoas) sofrem de depressão. É a maior taxa da América Latina e a segunda maior das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.
Estima-se que entre 20% e 25% da população teve, tem ou terá depressão, sendo essa a doença psiquiátrica com maior prevalência no Brasil.
Em seguida, aparece a ansiedade, que afeta 9,3% dos brasileiros (cerca de 19,4 milhões), e faz com que o Brasil ocupe o primeiro lugar da lista de países mais ansiosos do mundo.
Os transtornos ansiosos incluem fobia, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático e ataque de pânico.
O suicídio é a terceira principal causa externa de mortes no Brasil (atrás de acidentes e agressões), com 12,5 mil casos em 2017, segundo o Ministério da Saúde. Em relação ao ano anterior, o aumento foi de 16,8%.
Esta exacerbada valorização da imagem, bem como as imposições colocadas pela mídia, trazem inúmeras consequências como, por exemplo, a produção de “pseudovalores” e “pseudonecessidades” que, por sua vez, aceleram a vida e a rotina das pessoas, desencadeando um sentimento de impotência, pois elas nunca conseguem atingir seus reais objetivos, levando a um sentimento de frustração.
3 A DEPRESSÃO: SINTOMAS, DIAGNÓSTICOS E TRATAMENTO
Antes de conceituar a depressão, é necessário entender os seus sintomas, pois se trata de uma síndrome constituída pela somatória de diversos sintomas, como de vida vegetativa, cognitiva, comportamental, com fortes indícios físicos ou somáticos. Conforme entendimento de Carlos Reche (2004, p. 37), “não há necessidade de identificar todos esses sintomas para afirmar que alguém está com depressão. Cada conjunto de alguns deles forma um tipo de depressão.”
Primeiramente, os sintomas de vida vegetativa referem-se ao apetite, o qual costuma ser fortemente reduzido nas pessoas que sofrem de depressão. Eventualmente, porém, são encontrados casos em que há um aumento do apetite, e o sujeito acaba comendo em excesso – chamado de compulsão por comer. Quanto ao peso corporal, tudo depende do hábito alimentar, podendo haver aumento em função do excesso da alimentação, como também redução diante do baixo consumo de alimentos.
No que se refere ao sono, observa-se, com frequência, insônia terminal, em que a pessoa dorme, mas acaba acordando e pensando nos seus problemas. Com isso, não consegue mais dormir, mesmo que esteja com muito sono. Para muitos, a manhã é considerada o pior momento do dia, pois não conseguiram descansar à noite. E, por último, sofrem com a diminuição da libido, do desejo sexual, que pode ser um dos primeiros sintomas que ocorrem nos depressivos (RECHE, 2004).
Outro sintoma refere-se à cognição, e o primeiro deles é a atenção, pois há uma desatenção nos atos corriqueiros do dia a dia, como, por exemplo, esquecer de algo e não se dar por conta e depois ficar procurando o objeto até encontrá-lo de forma desesperada. Existe, também, o abandono de algumas atividades por não haver mais concentração, como a leitura, em que o sujeito pode ler um livro e ao final não entender nada porque não conseguiu prestar atenção. Outro sentido atingido é a memória, pois a atenção e o interesse são os filtros de toda memória, e no depressivo costuma haver diminuição do interesse de forma global, isto é, ele não presta atenção em quase nada, o que afeta a sua memória, pois as informações não ficarão arquivadas para lembrar posteriormente.
No aprendizado há uma queda nos rendimentos escolares, por exemplo, pois como já se viu anteriormente, existe a falta de atenção que, culminada com o desinteresse oriundo da depressão, acaba influenciando diretamente na forma do
aprendizado, fazendo com que o sujeito não consiga compreender conteúdos e obtenha resultados insatisfatórios. Quanto ao pensamento, esse é de pessimismo e de ruída, pois o deprimido está constantemente se sentindo desmotivado, e não acredita que as coisas possam dar certo. Para ele, tudo dá errado e, por isso, se identifica sempre com o pior ou então com a culpa (RECHE, 2004).
O terceiro sintoma refere-se ao estado comportamental, que revela o interesse, o prazer e a motivação do indivíduo. Desse modo, pode-se observar que uma das principais causas da depressão é a perda da motivação por atividades que até então lhe causavam prazer. Como exemplo, pode-se citar o fato de que o indivíduo gostava de passear, de ir a festas e, por falta de vontade, acaba se acomodando, não querendo mais sair. Nesse caso, há uma diminuição do prazer, o que acarreta, consequentemente, uma queda no interesse, ou seja, o indivíduo apenas se interessa por aquilo que lhe traz algum tipo de prazer. É importante lembrar que a motivação está intimamente ligada ao prazer, assim, se houver a perda do prazer, consequentemente a pessoa está desmotivada (RECHE, 2004).
Outro sintoma comportamental refere-se ao controle de impulsos, ou seja, o indivíduo depressivo tem, assim como os demais, o processo neuroquímico para a tomada de decisões. No caso de depressão, porém, a decisão entre o pensamento e a ação encontra-se comprometido, podendo haver demora na tomada de decisões. Este item se subdivide em outros dois pontos, que são: o suicídio e o abuso de drogas e álcool. No primeiro item há um sintoma que requer muita atenção, pois como se sabe, é um índice que cresce a cada ano. Desse modo, este sintoma ocorre quando a pessoa está com descontrole nos seus impulsos, despertando um pensamento de extermínio.
Também se percebe casos em que o depressivo está com grande lentidão na tomada de decisões e, com o uso de medicamentos, passa a apresentar alguma melhora, mas o pensamento de se autoexterminar ainda persiste. A administração do medicamento costuma proporcionar uma melhora, fazendo com que o indivíduo se sinta forte o suficiente para prosseguir com a ideia de cometer suicídio (RECHE, 2004).
Já no caso do uso abusivo de álcool e drogas constatam-se diversos casos em que as pessoas acreditam, por exemplo, que ingerindo bebida alcoólica o seu problema irá passar e, assim, acabam usando a bebida como se fosse um medicamento. Tal atitude, porém, pode trazer severas consequências, pois embora
o álcool dê um estímulo leve e passageiro, ao acabar a euforia, o sujeito retornará ao estágio em que se encontrava anteriormente, podendo, inclusive, ter uma piora no seu estado emocional.
No que diz respeito à utilização de drogas ilícitas, constatam-se as mesmas situações, pois o sujeito depressivo, na tentativa de ter um estímulo, acaba consumindo a droga que, além de não lhe dar alívio esperado, ainda o vicia, fazendo com que passe a utilizá-la cada vez em doses maiores.
O terceiro sintoma refere-se à autoestima, que nada mais é do que o amor próprio, sentimento que o ser humano sente em relação ao próprio corpo, aceitando todos os seus defeitos e qualidades. A autoestima ajuda o sujeito a encarar todos os desafios da vida, isto é, a ter confiança de superar os obstáculos, acreditando que tudo vai dar certo. Isso, porém, não ocorre com o sujeito em estado depressivo, que não possui amor pelo próprio corpo, está desnorteado, não acredita na sua capacidade de superação, na sua autoestima e, portanto, fica retraído, acreditando que a sua vida não tem valor.
Por fim, pode-se citar os sintomas físicos que são os mais comuns, isto é, quando o indivíduo possui depressão os sintomas mais comuns são dores de cabeça, nos músculos, no estômago, havendo, inclusive, dificuldade de digerir alimentos. Todos estes sintomas físicos são um tipo de resposta que o corpo dá para avisar que algo está errado, é como um sinal de alerta. Tais sintomas variam conforme a pessoa, sendo que alguns vão apresentar apenas dores de cabeça, outras dores musculares. Enfim, são sintomas que acabam prejudicando o estado físico do deprimido, acarretando mais nervosismo e piora do seu quadro psíquico.
Diante de todas essas considerações faz-se necessário compreender o que realmente é a depressão, como ela é entendida e conceituada atualmente. A palavra “depressão”, conforme Maria Josefina Sota Fuentes (2000, p. 160), tem origem no latim “de” (baixar) e “premere” (pressionar), isto é, “deprimere” que, literalmente, significa “pressão baixa”. Trata-se de um desânimo profundo, em que há renúncia dos interesses pelo mundo, como amar, realizar todo e qualquer tipo de atividade, sobrepondo-se a tudo uma tristeza profunda (TEIXEIRA, 2005).
Segundo o entendimento de Teodoro (2009, p. 20), a depressão “é um transtorno mental, causado por uma complexa interação entre fatores orgânicos, psicológicos, ambientais e espirituais, caracterizado por angústia, rebaixamento do humor e pela perda de interesse, prazer e energia diante da vida.”
Trata-se de uma grave doença que surge de repente e sem uma causa que a justifique. A sua origem é encontrada na inibição de alguns neurotransmissores no cérebro, os quais afetam o funcionamento normal dos neurônios ou, então, devido à alteração dos níveis de hormônio cortisol, que têm grande influência no metabolismo humano (RUFINO, 2012).
Para Solomon (2002, p. 15), a depressão pode ser considerada uma
[...] imperfeição no amor. Para poder amar, temos que ser capazes de nos desesperarmos ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar ou receber afeição. Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar em paz consigo mesmo. Embora não previna contra a depressão, o amor é o que tranquiliza a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam. Quando estão bem, certas pessoas amam a si mesmas, algumas amam a outros, há quem ame o trabalho e quem ame Deus: qualquer uma dessas paixões pode oferecer o sentido vital de propósito, que é o oposto da depressão. O amor nos abandona de tempos em tempos, e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância.
Neste sentido, observa-se que a depressão é um processo enlutado de vida, isto é, existe uma aflição por alguma perda impossível de ser identificada, mas que deixou marcas de sua existência, representadas numa dor moral e psíquica (RIBEIRO, 2007). Observa-se, assim, que todos os depressivos têm modificação de humor e de comportamento, que é a marca deixada pela depressão. Nesse sentido, ela não é apenas um mal deste século, mas sim de todos os séculos. A diferença está apenas quanto ao diagnóstico, pois atualmente pode-se ter um melhor diagnóstico do que em anos anteriores.
É fundamental, portanto, que o sujeito depressivo tenha um diagnóstico correto e preciso, pois hoje muitos médicos – como ginecologistas, clínicos gerais e urologistas – prescrevem medicação para combater a depressão, o que pode causar um tratamento impreciso. Em consequência, muitas pessoas que possuem depressão não são diagnosticadas corretamente, enquanto outras, devido apresentarem sintomas semelhantes, acabam recebendo diagnóstico incorreto, tomando antidepressivos sem necessidade.
Esses diagnósticos, muitas vezes equivocados, são retratos de uma sociedade que preza a perfeição da imagem, e que por essa razão acaba adoecendo. Para combater a frustração e o mal-estar são utilizados medicamentos que causam sensação de alívio, o que permite concluir que sofrer, atualmente, é sinônimo de vergonha e que os medicamentos servem para calar esse “problema”.
Neste sentido, Joel Birman (2001, p. 247) aponta que:
Os psicofármacos, pelo enorme efeito antidepressivo e tranquilizante, visam transformar esses miseráveis sofredores em seres efetivos da sociedade do espetáculo. Com isso, silenciam-se as cavilações pesadas e as ruminações “excessivamente” interiorizadas dos deprimidos, e eles são transformados em seres “legais” do universo espetacular.
É por meio da medicação irrestrita que se visa, inúmeras vezes, silenciar um sofrimento. A sociedade busca ter o controle dos indivíduos para que estejam de acordo com aquilo que entende ser correto. Medicalizar, neste momento, significa remediar os sintomas visíveis desconsiderando as dimensões simbólicas e subjetivas das formas de mal-estar.
Atualmente, a depressão é banalizada, o que implica em diagnósticos superficiais e apressados. Nesse sentido, profissionais alheios ao campo da Psicologia e sem qualquer especialidade formulam e prescrevem diagnósticos aos seus pacientes como sendo a única cura para o problema.
Maria Silva de Mesquita Bolguese (2004, pp. 18-19) dispõe nesse sentido:
A tendência que explica a depressão orgânica e fisiologicamente confere à dimensão individual a culpa pelo adoecimento e, ao mesmo tempo, retira do homem a possibilidade de se responsabilizar e se apropriar subjetivamente dos movimentos que poderiam levá-lo a alterar este estado de coisas. Da melancolia, como traço constitutivo da subjetividade burguesa, à depressão, doença orgânica a ser medicada através de remédios específicos, desvela-se um eixo ideológico que visa à apropriação e ao controle dos fenômenos individuais. Exacerba-se a dimensão individual, ampliando as possibilidades de a ordem coletiva exercer controle. É visível, portanto, que a medicação exacerbada acabe resultando numa apropriação indevida por parte da sociedade. A cultura brasileira tem como característica principal a incapacidade de sofrer e, portanto, demanda e almeja que sejam realizadas soluções rápidas para evitar que isso ocorra. O fato pode acarretar
problemas mais sérios, pois se a medicação não for correta e precisa poderá causar sentimentos de “mal-estar” ao invés de resolvê-los, como explica Bolguese (2004, pp. 81-82):
Em relação aos ansiolíticos e antidepressivos, as pessoas que sofriam de distúrbios neuróticos extremamente limitantes, tiveram a oportunidade de se sentir melhor. Porém, a partir do alargamento da utilização dessas drogas, os sujeitos foram sendo gradativamente condenados a uma nova forma de alienação, pois se busca curar o sujeito de sua condição humana, prometendo o fim do sofrimento psíquico através de pílulas, que apenas fazem suspender os sintomas para reorganizá-los de outro modo em seguida (do mesmo modo que observara Freud, em 1895, quando do emprego das técnicas hipnóticas no tratamento das pacientes histéricas).
Deve-se ter a consciência de que a medicação usada de forma incorreta ou em larga escala como a única e exclusiva forma de solucionar os problemas da vida humana pode gerar consequências. Paulo Amarante (2007, p. 95) assim se posiciona a respeito da medicalização:
[...] o termo está relacionado à possibilidade de fazer com que as pessoas sintam que os seus problemas são problemas de saúde e não próprios da vida humana. Por exemplo, uma grande tristeza após a perda de um familiar que, ao ser “medicalizada”, torna-se “depressão”; e a pessoa, um “paciente deprimido”.
O medicamento é fundamental e se faz necessário em grande parte dos tratamentos. É por meio dele que muitos depressivos encontram uma “luz” para as suas vidas, entretanto, é preciso cuidado porque nem tudo é depressão, e nem toda a depressão necessita da utilização de medicamentos.
CONSIDERAÇOES FINAIS
Observa-se, na atualidade, uma grande semelhança entre as características de sintoma e de tratamento da depressão (ou melancolia) com o entendimento que havia no passado, ao menos no sentido genérico.
Destarte, é visível que o termo “depressão” vem sendo empregado atualmente com bastante facilidade sempre que alguém está se sentindo triste. Muitas vezes, o simples fato de uma pessoa apresentar um sintoma passageiro de melancolia acaba por rotulá-la como depressiva. Em consequência, o termo
“depressão” tornou-se tão popular que serve para identificar as mais variadas formas de “mal-estar” que existem na atualidade.
A busca incansável das pessoas pela felicidade e satisfação de seus desejos a qualquer preço foi a “chave” que desencadeou a depressão, assim como as mais variadas formas de mal-estar contemporâneo. Os indivíduos não toleram mais o humor deprimido e, portanto, buscam de forma incessante a felicidade em todas as coisas. Consequentemente, acabam se frustrando quando as coisas não ocorrem da maneira desejada. Esse pensamento retrata a cultura da sociedade, que busca alcançar a felicidade a todo custo, quando, na verdade, ela só acontece se for esquecida.
É preciso ter muito cuidado para não generalizar a depressão. Essa forma indiscriminada de tentar banir o sofrimento humano por meio do uso de medicamentos resulta numa tendência social que visivelmente carece de recursos para lidar com a dor e o sofrimento.
A sociedade atual manifesta forte presença da cultura da medicalização, em que tudo pode ser resolvido com medicamentos. Não se tolera o sofrimento e tudo precisa acontecer de maneira imediata. Consequentemente, os medicamentos estão sendo utilizados cada vez com mais frequência e, infelizmente, muitas vezes de forma totalmente errada e equivocada.
Cabe ao indivíduo se desvincular dessas amarras sociais de querer agradar a todos para ser aprovado pela sociedade, pois ele só vivencia os prazeres da vida quando for espontâneo. É preciso, portanto, recuperar esta espontaneidade que está bloqueada por uma sociedade que busca a perfeição e que vive incessantemente sob pressão. Caso contrário, ele será cada vez mais doente e dependente de medicamentos.
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