INSTITUTO FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO LICENCIATURA EM LETRAS-PORTUGUÊS
ARTHUR KALKE SANT’ANNA
A ANGÚSTIA DE UM LUÍS DA SILVA QUALQUER E SUA LIBERDADE DELETÉRIA
Vitória 2020
ARTHUR KALKE SANT’ANNA
A ANGÚSTIA DE UM LUÍS DA SILVA QUALQUER E SUA LIBERDADE DELETÉRIA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenadoria da Licenciatura em Letras-Português do Instituto Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em Letras-Português.
Orientadora: Prof. Dra. Karina Bersan Rocha
Vitória 2020
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Biblioteca Nilo Peçanha do Instituto Federal do Espírito Santo)
S232a Sant’anna, Arthur Kalke.
A angústia de um Luís da Silva qualquer e sua liberdade deletéria. / Arthur Kalke Sant’anna. – 2020.
58 f.: il.; 30 cm.
Orientadora: Karina Bersan Rocha.
Monografia (graduação) – Instituto Federal do Espírito Santo, Coordenadoria do Curso Superior de Licenciatura em Letras - Português. Vitória, 2020.
1. Ramos, Graciliano, 1892-1953. 2. Ficção brasileira. 3. Sartre,
Jean-Paul, 1905-1980. 4. Angústia (Psicologia). 5. Kierkegaard, Soren, 1813-1855. 6. Língua portuguesa – Estudo e ensino. I. Rocha, Karina Bersan. II. Instituto Federal do Espírito Santo. III. Título.
CDD 21 – 869.3
ARTHUR KALKE SANT’ANNA
A ANGÚSTIA DE UM LUÍS DA SILVA QUALQUER E SUA LIBERDADE DELETÉRIA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenadoria da Licenciatura em Letras-Português do Instituto Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciado em Letras-Português.
Aprovado em 02 de setembro de 2020.
COMISSÃO EXAMINADORA
Prof. Dra. Karina Bersan Rocha Ifes/Campus Vitória
Orientadora
Prof. Me. Elaine Cristina Borges Doutoranda PPGEL/Ufes
Prof. Dr. Lucas dos Passos e Silva Ifes/Campus Vitória
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à minha orientadora, Prof. Dra. Karina Bersan Rocha, por todo suporte e tranquilidade que teve ao longo de todo esse tempo de pesquisa. Agradeço à minha amiga, Prof. Me. Elaine Cristina Borges, por toda ajuda paralela com minhas inúmeras dúvidas, tanto nas questões estruturais do trabalho quanto nas questões filosóficas mais específicas.
Agradeço aos meus pais e minha namorada pela eterna paciência.
E agradeço, por fim, ao Graciliano Ramos pela escrita dessa obra magnífica que serviu de base para minha pesquisa.
“Entro no quarto, procuro um refúgio no passado. Mas não me posso esconder inteiramente nele. Não sou o que era naquele tempo. Falta-me tranquilidade,
falta-me inocência, estou feito um
molambo que a cidade puiu demais e sujou”.
RESUMO
O objetivo deste trabalho é analisar a angústia da personagem Luís da Silva, protagonista do romance Angústia (1936), de autoria de Graciliano Ramos. A história de vida do autor e as condições de publicação da obra são descritas no início da pesquisa e se revelam como parte importante do resultado obtido por Graciliano. Para justificar a relevância do tema, foi realizado um levantamento das abordagens feitas sobre a questão da angústia ao longo da história, passando por produções literárias até teses filosóficas e psicanalíticas. Alguns filósofos foram selecionados para servir de base à análise do problema da personagem em questão. Um que muito contribuiu foi o dinamarquês Sören Kierkegaard, mas, além dele, a produção filosófica de Jean-Paul Sartre foi fundamental, mais especificamente suas concepções a respeito do problema da liberdade e da responsabilidade pelas escolhas feitas ao longo da vida. As conclusões foram obtidas a partir de várias análises de pontos específicos da personalidade problemática de Luís da Silva que encontram paralelos muito bem definidos com a filosofia sartreana e também kierkegaardiana. A imensa angústia da personagem é efeito de sua incontrolável liberdade.
ABSTRACT
The objective of this work is to analyze the angst of the character Luís da Silva, protagonist of the novel Angústia (1936), written by Graciliano Ramos. The author's life story and the publishing conditions of the book are described at the beginning of the research and themselves as an important part of the result obtained by Graciliano. To justify the relevance of the subject, a survey was carried out on the ways in which this issue was treated throughout history, going through literary productions to the philosophical and psychoanalytic thesis. Some philosophers was selected to serve as a basis for analyzing the problem of the character in question. One who contributed a lot was the Danish Sören Kierkegaard, but, besides him, the philosophical production of Jean-Paul Sartre was fundamental, more specifically his conceptions about the problem of freedom and the responsibility for the choices made throughout life. The conclusions were obtained from several analyzes of specific points of the problematic personality of Luís da Silva, that find very well-defined parallels with Sartrean and also Kierkegaardian philosophy. The character's endless angst is direct effect of his uncontrollable freedom.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 10
2 A VIDA DE UM GRACILIANO RAMOS QUALQUER ... 13
2.1 CONDIÇÕES DE PUBLICAÇÃO DA OBRA ANGÚSTIA ... 15
2.2 RECEPÇÃO DA OBRA ... 19
2.3 SINOPSE DE ANGÚSTIA ... 24
3 A ANGÚSTIA NA LITERATURA ... 27
4 A ANGÚSTIA NA PSICANÁLISE E NA FILOSOFIA ... 33
5 ANÁLISE DA OBRA ... 37
1 INTRODUÇÃO
A presente pesquisa tem como objeto de estudo Luís da Silva, protagonista de
Angústia, terceiro romance de Graciliano Ramos, publicado em 1936. Busca-se, aqui,
analisar os padrões questionáveis de conduta que movem essa personagem e as razões para seu eterno sofrimento. Nesse sentido, a análise tem, como tema central, o que o próprio título da obra sugere, a angústia da personagem. No decorrer da leitura do livro e, mais ainda, após as observações aqui apresentadas, é notável observar como o autor foi preciso na correlação entre o título escolhido e o resultado literário alcançado.
Com a universalidade e atemporalidade da questão da angústia humana, é claro que Graciliano não seria um entre poucos a se debruçar sobre o tema ao longo da história, como também fica evidente que a forma como desenvolve o assunto em seu livro encontra paralelo com conceitos explorados por outros autores. Mesmo porque angústia não é um conceito definido em si mesmo. Por essa razão, a presente pesquisa lança mão de um referencial teórico diversificado, de produções literárias a conceitos psicanalíticos e filosóficos, para evidenciar a abrangência e importância do tema. Direcionando-se ao objetivo central, são traçados aspectos de intercessão entre os vários conceitos e, por fim, uma vertente filosófica é selecionada para servir de base à análise literária do problema em questão, a angústia de Luís da Silva.
Antes, porém, de todos esses conceitos e da análise da obra em si, a pesquisa traz um contexto geral para o entendimento de onde, quando e de que maneira Angústia veio ao mundo. Num primeiro momento, é apresentado um breve panorama da vida do autor, desde sua infância até a prodigiosa vida adulta, e do momento literário no qual estava inserido. A literatura de Graciliano e sua estrondosa repercussão dentro do movimento modernista são colocadas em pauta, evidenciando a distinção que sua personalidade literária representava já para seus contemporâneos.
Seguindo nesse sentido, a pesquisa apresenta as conturbadas condições de publicação da obra. É interessante observar, nesse ponto, como o próprio Graciliano Ramos, em sua vida pessoal, acabou tendo que lidar com graves angústias e horrores, durante e após a composição de seu texto. A escrita de Angústia e, principalmente, o que se sucedeu após sua conclusão, já são uma trama à parte. Percorre-se uma
breve linha temporal, desde os contratempos do autor durante a produção da obra, passando por uma inesperada e arbitrária prisão política, até a publicação do livro sem os devidos acabamentos por parte de Graciliano, o que o fez tecer enormes ponderações e lamentações sobre o resultado.
Na sequência, a pesquisa trata da recepção da obra por parte da crítica. O reconhecimento do sucesso de Angústia é tão expressivo que foi publicada uma edição comemorativa de 75 anos do livro, na qual há a presença de um compilado considerável da fortuna crítica da obra ao longo da história. Utilizando essa fortuna crítica e pesquisas paralelas, o presente trabalho expõe por que motivos, desde o ano de sua publicação, Angústia reúne opiniões majoritariamente positivas.
Para finalizar esse capítulo descritivo acerca da vida e obra de Graciliano Ramos, uma breve sinopse de Angústia é apresentada. Faz-se pertinente sua presença nesse momento da pesquisa para que o leitor passe para o próximo capítulo já com essa perspectiva de angústia em mente. Isso porque o próximo capítulo começa a versar, como mencionado anteriormente, sobre os vários conceitos existentes acerca do tema.
Angústia é, em primeiro lugar, uma condição humana que, antes de ser retratada por Graciliano Ramos, já havia sido interpretada de diversas maneiras diferentes. No decorrer da pesquisa, ainda antes da análise literária do livro em questão, é exposto um apanhado de várias concepções a respeito do tema ao longo da história. Essa exposição é dividida em dois subcapítulos, apenas por critério de delimitação temática. O primeiro é destinado a abordagens no âmbito puramente literário, e o segundo, a conceitos filosóficos e psicanalíticos. Nomes como Fiódor Dostoiévski, Albert Camus, Sigmund Freud, Epicteto, Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre foram relacionados para dar uma compreensão da profundidade da questão, e para mostrar como Graciliano Ramos esteve tão próximo de algumas ideias e questões filosóficas, mesmo que não tenha necessariamente sofrido direta influência delas em sua escrita. Por fim, já tendo o leitor se familiarizado com os eventos que permearam o surgimento de Angústia, com a trama em que se insere Luís da Silva, e com a profusão de interpretações que o tema oferece, a pesquisa se volta para a análise da obra propriamente dita. Para tal, duas abordagens se fazem muito relevantes para a presente pesquisa. Primeiro é a contribuição da filosofia de Søren Kierkegaard, que
aparece como suporte para muitas situações analisadas. E junto a ele, segue-se uma abordagem teórica ainda mais específica, selecionada em função de sua grande proximidade conceitual com o problema enfrentado por Luís. A abordagem em questão é a filosofia de Jean-Paul Sartre, mais especificamente seu tratado filosófico
O Ser e o Nada, somado de alguns outros apontamentos.
O filósofo encontra Luís da Silva ao levantar o problema da liberdade, que é, para sua filosofia, o cerne de toda a angústia humana. Quando observado por esse prisma, Luís da Silva se torna um verdadeiro quebra-cabeça. A análise da obra propõe desmembrar cada aspecto de sua vida que se apresenta problemático e que contribui para sua angústia. A filosofia de Jean-Paul Sartre é utilizada como pano de fundo para fundamentar as tomadas de decisão do protagonista e entender suas consequências ao longo de sua vida. Escolhas ruins, vícios, problemas de relacionamento, apego ao passado, inveja, vingança e delírio, tudo fica mais evidente e compreensível quando se desnuda a miséria interior da personagem de Graciliano Ramos. Compreender a angústia de Luís da Silva provoca no leitor a identificação com uma condição humana à qual todos estamos sujeitos.
2 A VIDA DE UM GRACILIANO RAMOS QUALQUER
Graciliano Ramos (1892–1953) é um nome de extrema relevância na literatura nacional, que marcou a história como um dos grandes expoentes do Modernismo da década de 30. Nascido em 27 de outubro de 1892 no sertão nordestino, na cidade de Quebrangulo, Alagoas, Graciliano foi o primeiro filho de Sebastião Ramos de Oliveira, um comerciante de classe média que deu a Graciliano quinze irmãos.
Aquele que viria a ser um dos principais nomes da literatura em língua portuguesa viveu em diversas cidades ao longo de sua vida, inclusive no Rio de Janeiro, onde, quando jovem, trabalhou como jornalista, para onde foi levado preso em 1936, e onde terminou sua vida no dia 20 de março de 1953, aos 60 anos. Mas foi no nordeste, de volta de sua primeira experiência no Rio de Janeiro, que encontrou as condições de que necessitava para tomar a iniciativa de publicar seu primeiro romance.
Trabalhando como prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas, cargo que assumiu em 1927 e ao qual renunciou em 1930, Graciliano chamou atenção do editor carioca Augusto Frederico Schmidt com os relatórios que havia escrito para a prefeitura. Augusto incentivou e publicou Caetés, o primeiro romance do alagoano, que viria a público alguns anos mais tarde, em 1933.
Entretanto, Caetés foi o primeiro romance de Graciliano, mas não sua primeira obra. Antes disso, em 1904, quando tinha apenas doze anos de idade, um conto seu foi publicado. Com interesse e talento desde muito jovem, o pequeno Graciliano escreveu O Pequeno Pedinte, conto publicado em um jornal (O Dilúculo) criado pelo próprio Graciliano e por seu primo Cícero de Vasconcelos, no internato em que estudavam. É interessante notar como desde muito cedo o autor já possuía uma visão artística e analítica que antecipava parte de uma identidade literária que tanto o consagrou posteriormente. No pequeno conto é possível identificar a linguagem direta e carregada de sentimento, totalmente voltada para o apontamento das mazelas humanas.
Aos 41 anos de idade, Graciliano surge como escritor de romances, com a publicação de Caetés, seguida por São Bernardo e Angústia. Mas é por Vidas Secas (1938) que Graciliano é lembrado até os dias atuais como um dos principais nomes do
Modernismo brasileiro. Ao lado de escritores como Raquel de Queiroz, Jorge Amado e José Lins do Rego, Graciliano é considerado uma das grandes figuras do romance regionalista da segunda fase do Modernismo, a geração de 30. Nesse período, entre 1930 e 1945, muitos escritores, especialmente os nordestinos, trataram de expor em suas obras de forma bastante veemente a realidade do sertão, mais especificamente do homem sertanejo.
Desde a Semana da Arte Moderna de 1922, a tendência revolucionária iniciada na literatura brasileira vinha forçando, de maneira bastante passional, uma mudança no estilo artístico da época (tanto na literatura, quanto nas artes plásticas e na música). O objetivo era uma ruptura total com as estruturas do passado, buscando o moderno e o original, em contraposição à literatura simbolista considerada por eles demasiadamente refinada.
Uma das principais características desse movimento inicial, e que veio lançar frutos diretos na literatura regionalista alguns anos depois, foi a retomada daquilo que era nacional. Desde a primeira geração modernista, os autores voltaram os olhos para o Brasil em um nacionalismo que procurava representar tanto o índio quanto a terra, muitas vezes buscando expressar uma visão crítica da realidade.
Um dos artifícios utilizados nessa busca por representar o povo era aplicado à linguagem utilizada pelos autores. Como a ideia era quebrar amarras e promover cada vez mais a liberdade formal, sem regras de estilo, uma das características dos modernistas desde a primeira geração foi a adoção de uma linguagem mais próxima à fala, incluindo gírias expressões regionais.
A geração de 30, de que Graciliano Ramos fez parte, adotou princípios da primeira geração de forma natural, até mesmo por não ter havido uma ruptura definitiva entre ambas. Ideias de liberdade temática e linguística permitiram aos autores da segunda geração se aprofundar em questões de ordem filosófica, política e religiosa, e expandir a análise crítica da realidade brasileira daquele período.
Foi uma geração que teve mais espaço para apontar problemas sociais como a vida dos retirantes, o coronelismo e a escravidão, que havia acabado, mas não sem deixar vestígios. Ou uma obra apontava essas mazelas de forma contundente e expositiva, ou as desenhava como pano de fundo na vida das personagens. Exemplos dessa
presença em níveis diferentes são os livros Vidas Secas e Angústia, ambos de Graciliano Ramos. Na primeira acompanhamos diretamente a vida de uma família de retirantes, e na segunda apenas a vida de um funcionário público, mas em cujas lembranças de infância podemos perceber a influência de uma família tipicamente coronelista.
Graciliano definitivamente figura entre os grandes de sua geração e apresenta todas as características daquele regionalismo em sua escrita. Em suas obras expôs a realidade sertaneja, apresentou críticas ao sistema político vigente, à repressão em plena era Vargas e analisou a mente humana à luz da angustiante vida na cidade. Mas há uma característica literária que o destaca de seus contemporâneos. Apesar de Modernista, Graciliano Ramos se diferencia de grande parte dos autores da época por conta do seu caráter extremamente perfeccionista, principalmente no que diz respeito ao primor linguístico.
A tendência no momento era desenvolver uma literatura sob a luz das conquistas daquela primeira geração modernista, contestadora e antiacademicista, que conscientemente desrespeitou certas regras tradicionais de linguagem em prol de uma nova arte literária. Graciliano, em contrapartida, é conhecido por seu extremo esmero com a palavra, tendo desaprovado duramente alguns de seus próprios escritos, por conta de sua natureza demasiadamente autocrítica. Por desprezar os solecismos habituais de seus contemporâneos, o crítico literário Wilson Martins chegou a classificá-lo como “Modernista de má vontade” (MARTINS, 1991, p. 108).
2.1 CONDIÇÕES DE PUBLICAÇÃO DA OBRA ANGÚSTIA
Alagoano com uma extensa biografia, Graciliano Ramos cumpriu sua vida exercendo diversas funções. Além de prefeito, foi diretor da Imprensa Oficial do Estado, jornalista, professor, lojista, entre outras. Entretanto, seu renome veio a partir de sua arte, que precisou encontrar espaço em meio a rotinas intensas e permeadas por muitos percalços. Quando trabalhava como Diretor da Instituição Pública de Alagoas (o que hoje corresponde à Secretaria de Estado da Educação) em 1936, Graciliano finalizou os escritos de Angústia (1936), sua terceira obra, na qual nos aprofundaremos.
Desde o ano de sua publicação até os dias atuais, o romance foi notado por grandes nomes, como Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Ferreira Gullar, que figuram entre os elogiosos ao êxito literário de Angústia. Nessa obra Graciliano faz uso de artifícios narrativos não convencionais em relação ao seu próprio estilo literário, e que no final acabaram funcionando muito bem e contribuindo para seu destaque. Mas o que a torna ainda mais singular, e que pode justificar algumas dessas escolhas incomuns por parte do autor, são suas condições de publicação.
1936 foi um ano conturbado no cenário nacional, e especialmente conturbado na vida de Graciliano Ramos. O Brasil passava por um fortalecimento da perseguição política por parte do governo de Getúlio Vargas contra membros de grupos organizados sob ideais socialistas, ex-militares e simpatizantes da causa, principalmente após o fracasso do levante de Natal de 1935, que ficou conhecido como Intentona Comunista. A grande questão é que boa parte da elite intelectual da época estava ligada indiretamente ou era membro ativo desses grupos, que se encontravam, naquele momento, em estado de ilegalidade. O escritor alagoano não fugia à regra. Ainda não era filiado a partido algum naquele período, mas flertava abertamente com ideais considerados proibidos. Foi nesse cenário que Angústia nasceu.
Em meio a perseguições de todo tipo, Graciliano, que naquele ano trabalhava como Diretor da Instituição Pública de Alagoas, dava vida a seu romance em seu pequeno gabinete. Escrevia quando sobrava algum tempo para se dedicar à sua literatura, e idealizava um futuro em que pudesse se sustentar exclusivamente como escritor.
Angústia cumpria o papel de refúgio naquele momento agitado de sua vida. Em meio
a “razoável gasto de café e aguardente” (RAMOS, 2008, p. 21), e condições das mais adversas, falta de sossego para escrever, ansiedade, dificuldade financeira, intrigas e incertezas, o escritor ficava em seu escritório, por vezes, até tarde da noite.
Mas não foi em seu gabinete que terminou o livro, pois foi afastado do cargo público que ocupava sem justificativas concretas, apesar de Graciliano saber se tratar de uma manobra política dado a seu flerte com as ideias proibidas naquele governo. Também sem justificativa declarada, às dezenove horas do dia 3 de março de 1936, foi levado preso de sua casa. Curiosamente, justo naquele dia ele havia entregado os manuscritos de Angústia à datilografia, o que salvou a obra de ser confiscada e jamais publicada.
A partir desse dia, durante os próximos dez meses, Graciliano esteve sob o poder do Estado, que o levou preso para Recife e posteriormente para o Rio de Janeiro. Não foi sequer acusado formalmente, não houve processo legal e Graciliano não foi ouvido pelas autoridades. O autor relata os detalhes desses acontecimentos em outro livro, lançado postumamente em 1953, Memórias do Cárcere. Nele, além de descrever sua passagem pela cadeia, o escritor aborda questões relacionadas à escrita e à publicação de Angústia, que veio a público no período em que se encontrava encarcerado, mais precisamente em agosto de 1936.
Cinco meses após a publicação de Angústia, em janeiro de 1937, Graciliano Ramos é liberado. Mas a liberdade não pôs fim à sua angústia como autor. O contratempo prisional na entrega do manuscrito, e os transtornos durante a escrita, criaram uma situação que fugia muito ao que Graciliano Ramos objetivava para seu livro. Ainda em
Memórias do Cárcere ele revela que esperava encontrar na prisão o sossego e as
horas necessárias para revisar em silêncio os papeis datilografados de seu texto. A realidade, no entanto, foi bem diferente e não poderia frustrá-lo mais, pois a publicação de Angústia aconteceu sem sua supervisão, e o resultado o deixou bastante desgostoso.
O autor, de um caráter extremamente criterioso em toda sua bibliografia, teve que se contentar com a publicação de uma primeira versão de seu texto, com lacunas preenchidas por terceiros no momento da revisão final. Não teve condições de lapidar seu próprio texto, que a depender dele teria vindo ao mundo de uma forma completamente diferente.
Apesar da crítica externa majoritariamente positiva, Graciliano foi o maior crítico de si mesmo. Abordou, em passagens de Memórias do Cárcere e em uma série de cartas destinadas a amigos posteriormente, seu descontentamento com o resultado de
Angústia. Queixava-se de excessos, repetições, redundâncias e desconexões,
detalhes provocados pelo contexto da escrita e perseverados pela inviabilidade de revisão.
Em uma carta enviada a Antonio Candido, datada do dia 12 de novembro de 1945, o autor demonstra e justifica claramente os problemas que o incomodavam:
E aqui vem a informação a que me referi. Forjei o livro em tempo de perturbações, mudanças, encrencas de todo o gênero, abandonando-o com
ódio, retomando-o sem entusiasmo. Matei Julião Tavares em vinte e sete dias; o último capítulo, um delírio enorme, foi arranjado numa noite. Naturalmente seria indispensável recompor tudo, suprimir excrescências, cortar pelo menos a quarta parte da narrativa. A cadeia impediu-me essa operação (RAMOS apud CANDIDO, 1999, p. 11).
Como grande crítico de si mesmo, Graciliano Ramos colocava sua obra em um patamar muito inferior ao que realmente estaria para a crítica e para as gerações futuras. E esse comportamento excessivamente cuidadoso não era exclusivo com
Angústia. Caetés também foi alvo de muito desgosto por parte do escritor. Em O velho Graça, biografia escrita por Dênis de Moraes, nos é apresentado um apanhado
das reclamações que Graciliano enviou a seus críticos na época:
A Moacir Werneck de Castro: “Moacir, esta coisa horrível foi reproduzida por necessidade”.
A Raul Lima: “Meu velho Raul: aqui lhe trago de novo esta literatura de Palmeira dos Índios, uma desgraça, é claro”.
A Nelson Werneck Sodré: “Nelson, vai aí esta porcaria”.
A Cassiano Nunes: “Peço-lhe que não leia esta droga. É pavorosa”.
A Antonio Candido: “A culpa não é apenas minha: é também sua. Se não existisse aquele seu rodapé [resenha de Candido elogiando Caetés], talvez não se reeditasse isto” (MORAES, 2012, p. 96).
Entretanto, apesar das duras críticas pessoais e do quase total descrédito direcionado a seus escritos em Angústia, o autor chegou a tecer, afinal, algumas ponderações positivas acerca do resultado narrativo da obra. É o que escreve em uma carta endereçada ao pesquisador Cassiano Nunes, em 20 de junho de 1945:
Acho em Angústia numerosos defeitos, repetições excessivas, minúcias talvez desnecessárias. E tudo mal escrito. Mas se, apesar disso, der ao leitor uma impressão razoável, devo concordar com v. É possível até que as falhas tenham concorrido para levar na história aparência de realidade. E alguns capítulos não me parecem ruins (In: GIMENEZ, 2012, p. 212).
Curiosamente, apesar dessa queixa inicial fervorosa sobre o resultado de seu trabalho, e da lamúria por não ter tido a oportunidade de revisá-lo, as edições seguintes de Angústia, já com sua aprovação, permaneceram praticamente inalteradas em relação à narrativa. O autor tratou de retirar algumas palavras repetidas e fazer pequenos ajustes, mas a essência do texto foi mantida, não foram suprimidas as gorduras e excessos tão rigorosamente criticados anteriormente. Podemos atribuir a essa postura um tardio amadurecimento da percepção de Graciliano sobre a própria literatura, isso é, a aceitação daquilo que o leitor já conclui
naturalmente: Angústia é um livro fiel a seu título, seu texto reflete com precisão o sufocamento e a perturbação que a história nos oferece.
2.2 RECEPÇÃO DA OBRA
Angústia1 é um fenômeno ímpar na literatura brasileira, e ímpar também dentro da
própria bibliografia do romancista alagoano. Se a compararmos com sua obra mais conhecida, Vidas Secas, Angústia segue um caminho próprio e não se volta àquele regionalismo latente e àquela escrita mais seca que são tão característicos dos trabalhos de Graciliano. Aqui é apresentada uma trama mais comum, com problemas urbanos e universais, mas que carrega uma carga dramática e uma narrativa tão densas, que eleva o grau de complexidade do texto e consegue projetar no leitor todo aquele sentimento de angústia narrado.
A publicação do romance surpreendeu não somente por se diferenciar das demais obras do autor, tampouco por sua notável qualidade, pois as obras anteriores foram também muito bem recebidas pelo público. Angústia sobressaiu-se pela excepcionalidade literária em sua época, evidenciando-se entre o que estava sendo produzido por seus contemporâneos.
Sua notoriedade pode ser confirmada pela fortuna crítica da obra, que é extensa e majoritariamente muito positiva. Muitos críticos, como veremos a seguir, consideram-na uma das maiores obras de Graciliano Ramos, ainda que haja discordâncias pontuais sobre aspectos estruturais, como quanto à falta de concisão narrativa e ao caráter altamente descritivista adotado, detalhes que, como vimos, não foram exatamente intencionais.
Em 2011, foi lançada pela Editora Record uma edição comemorativa dos 75 anos da publicação de Angústia. Para celebrar tal marco, Elizabeth Ramos, neta de Graciliano Ramos e estudiosa a respeito de sua vida e obra, assina como organizadora da
1 RAMOS, Graciliano. Angústia (75 anos). 2ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2013. Todas as citações
da obra neste trabalho serão referenciadas por Angústia, seguidas da indicação da página, como também as primeiras críticas, contidas no volume.
edição, tendo-se encarregado de realizar um levantamento extensivo sobre todos os textos críticos que já haviam sido escritos formalmente a respeito do romance.
A edição citada traz consigo um apanhado de quase toda a crítica publicada desde 1936 até 2011, em ordem cronológica, excetuando-se aquelas que, por limitação jurídica, não puderam ser adicionadas. Ao todo são vinte e cinco textos que haviam sido veiculados nas revistas e jornais de suas respectivas épocas. Grande parte desse material reunido por Elizabeth foi pesquisado no Arquivo Graciliano Ramos, que fica no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).
Além da fortuna crítica, Elizabeth escreveu também o prefácio do livro, no qual apresenta com grande riqueza de detalhes uma parte da vida do autor e suas dificuldades com Angústia. Com esse trabalho de análise e descrição, Elizabeth fornece informações valiosas a respeito da obra e da vida de Graciliano. Como se não fosse suficientemente notável a reunião e organização de todo esse material de pesquisa, a edição ainda conta com dois posfácios de edições anteriores (de Otto Maria Carpeaux e de Silviano Santiago, respectivamente), uma cronologia da vida de Graciliano, e um apanhado da bibliografia a respeito do autor.
Além de Elizabeth, outra figura foi também muito importante na preservação e disseminação da memória de Graciliano Ramos até os dias de hoje. Trata-se do crítico literário Antonio Candido. É sabido que Candido mantinha uma relação de amizade bem distinta com Graciliano, tendo ambos demonstrado grande consideração um pelo outro. E essa relação foi enriquecedora não somente para os dois, mas principalmente para o público, pois a partir dela surgiram conteúdos que ajudariam a revelar um pouco mais do autor e das excentricidades de Angústia.
Em 1945, Candido havia publicado no jornal Diário Popular (que viria a se chamar Diário de São Paulo) uma série de cinco artigos, cada um relacionado a um dos romances do autor publicados até então. Graciliano respondeu a esses artigos em uma carta endereçada a Candido no mesmo ano. Nessa carta o escritor revela questões pessoais acerca de Angústia, o que acabou por servir como valioso objeto de estudo para pesquisadores da obra.
A carta pode ser encontrada anexada no prefácio do livro Ficção e Confissão (1999), de Antonio Candido. Esse livro originou-se do desejo manifesto de Graciliano de que
Candido fosse o responsável pela introdução da próxima publicação de suas obras. Sendo assim, o crítico e amigo de Graciliano organizou um compilado daqueles cinco artigos publicado anteriormente, com alguns complementos, e o resultado disso foi o ensaio Ficção e Confissão, que estampou introduções de obras de Graciliano de 1955 a 1974, quando saiu de circulação, e que mais tarde viria a ser publicado como livro. Lendo as análises de Candido, podemos tirar algumas conclusões em relação a
Angústia e ao peso de sua publicação na época. Ele começa a análise sobre a obra
afirmando o seguinte: “Dos livros de Graciliano Ramos, Angústia é provavelmente o mais lido e citado, pois a maioria da crítica e dos leitores o considera a sua obra-prima” (CANDIDO, 1999, p. 47) Essa afirmação pode ter perdido certa precisão ao longo dos anos, dado às novas publicações do próprio autor e aos demais acontecimentos no meio literário brasileiro, ainda assim era o retrato de uma época.
Quem também confirma esse cenário é Jorge Amado, escritor contemporâneo de Graciliano. Em resenha publicada em novembro de 1936, ano de publicação de
Angústia, o escritor afirma:
O romancista subiu mais, o romance brasileiro subiu mais. Hoje o ponto mais alto do nosso romance (que apesar da raiva dos senhores da nossa literatura vai muito bem, felizmente) é Angústia, não mais São Bernardo, como era até o ano passado (AMADO, 1936. In: Angústia, p. 252).
Entretanto, mesmo Angústia tendo o prestigio que tinha em sua época, Antonio Candido não deixou de apresentar suas ponderações e ir de encontro à maior parte da crítica quanto ao título de obra-prima atribuído.
Obra-prima não será, mas é sem dúvida o mais ambicioso e espetacular de quantos escreveu. Romance excessivo, contrasta com a discrição, o despojamento dos outros, e talvez por isso mesmo seja mais apreciado, apesar das partes gordurosas e corruptíveis (ausentes de São Bernardo ou Vidas secas) que o tornam mais facilmente transitório (CANDIDO, 1999, p. 47).
Com isso Graciliano concordou, como já vimos no capítulo anterior. Na carta que enviou a Candido, após ler sua análise, o autor assumiu pesarosamente os excessos que havia cometido, e que haviam tornado a obra tão singular na opinião de grande parte da crítica. Vimos também como, posteriormente, o próprio autor acabou por aceitar esses excessos como sendo um traço representativo daquela narrativa, afirmando, na carta endereçada a Cassiano Nunes, que: “É possível até que as falhas
tenham concorrido para levar na história aparência de realidade" (GIMENEZ, 2012, p. 212).
É interessante contrastar algumas críticas e observar como um mesmo aspecto estrutural do texto de Graciliano consegue provocar julgamentos tão opostos. Podemos usar como exemplo as análises do historiador e crítico brasileiro Nelson Werneck Sodré e do crítico Paulo Cavalcanti. O primeiro defende os excessos como parte acurada do espírito da obra, enquanto o segundo, de forma veementemente contrária, entende os contratempos que prejudicaram a escrita, mas não deixa de apontar os problemas que os excessos trouxeram à narrativa.
Há, talvez, um prolongamento demasiado da angústia de Luís da Silva. Mas a segurança do autor faz com que essa abundância não chegue a cansar o leitor, a sobrecarregar a obra com alguma coisa de supérfluo. Não. Tudo nela está no seu lugar e o desenvolvimento da ação é lento, mas seguro, sem decaídas, sem desfalecimentos (SODRÉ, 1936. In: Angústia. p. 249).
Nota-se, perfeitamente, que o escritor atravessa todo o livro em busca de um assunto mais atraente, de um trecho mais interessante. E quando o consegue, absorve-se, entrega-se de corpo e alma à narrativa, sem perceber que o excesso de minúcias pode prejudicar, como prejudica, a descrição (CAVALCANTI, 1937. In: Angústia, p. 267).
Para Graciliano Ramos, Antonio Candido e os críticos mais atentos que arriscavam ir além das análises puramente elogiosas, esta é a grande questão com Angústia: uma narrativa não convencional. “Partes gordurosas e corruptíveis” que de alguma maneira funcionam, é esse o grande mistério e singularidade que coloca Angústia em um ponto de destaque e que conserva uma crítica majoritariamente positiva.
Mas outro elemento faz-se ainda mais recorrente na fortuna crítica da obra. Trata-se do rompimento com o compromisso regionalista que Graciliano havia assumido em suas publicações anteriores, e que voltaria a assumir posteriormente. Angústia, como já vimos, é um ponto fora da curva na bibliografia de um autor que escreveu obras como São Bernardo e Vidas Secas. Muitos críticos perceberam isso com bastante entusiasmo e descreveram a novidade que veio com a nova obra, o olhar voltado ao interior do homem e não mais aos problemas do meio que o cerca. É como escrevem Adonias Filho e Reinaldo Moura em suas análises, respectivamente:
Se o Sr. Graciliano Ramos em São Bernardo apresentava-se – como Antonio Salles – observador interessante da vida diária das nossas cidadezinhas, já em Angústia ele desconsidera o "meio" para considerar a vida em seu sentido amplo de universidade e sofrimento. Não é mais o romancista do Brasil. É o
romancista que interpreta a "vida" em sua rigorosa significação de sentido humano. É o romancista que exibe o "humano" que existe na "vida" do homem e todos os lugares. É o romancista que se liga pela intensidade grandemente desumana aos grandes romancistas da Terra (AGUIAR FILHO, 1936. In: Angústia, p. 243).
Angústia, como exemplo do presente, é o romance brasileiro desses últimos tempos, porque, sem fazer regionalismo, Graciliano Ramos consegue uma paisagem espiritual perfeita do homem trágico que anda pelas cidades do litoral e pelas vilas modorrentas do sertão (MOURA, 1936. In: Angústia, p. 258).
Nelson Werneck Sodré ilustra bem esse cenário humano e introspectivo que a obra carrega e que é tão aclamada pelos críticos:
Livro sem paisagem, adstrito a um quintal solitário, onde uma rede balança, ao nome duma rua, a um ou outro detalhe sem importância, livro todo passado no espírito dum maníaco de cujas murmurações percebemos a sua história, desde a desalentada infância, até a maturidade amarga e medíocre, arrastada e sem descanso, sem pausa e sem cor, vida que escorria como água, sem fazer ruído, quase num marulho baixinho e triste (SODRÉ,1936. In: Angústia, p. 248).
É esse o cenário melancólico e angustiante em que Luís da Silva está inserido. Ele é tanto o personagem quanto o meio em que se desenvolve a trama. Quando Sodré refere-se a um “espírito dum maníaco”, e Reinaldo Moura a uma “paisagem espiritual perfeita do homem trágico”, os críticos estão buscando definir, de forma mais palpável, a abstração quase metafísica que é o teor psicológico engendrado no protagonista do romance.
Quando tira um pouco o foco do caráter regionalista e explora a mente do homem de forma mais intimista, Graciliano dá vida a uma história que pode conversar mais pessoalmente com uma gama maior de leitores. Adonias Filho, na mesma crítica referenciada anteriormente, afirma haver em Angústia um caráter psicológico ainda mais arraigado do que definiram os outros críticos citados:
Porque Angústia é um romance de sentido introspectivo moderno. E porque assim o é, aproxima-se mais dos médicos que dos grandes mestres do romance. Parecerá absurdo, mas a verdade é esta: Angústia é um romance que se deixou influenciar grandemente pelos médicos. E justamente porque sofreu tal influência é que se entrosa entre os bons romances do momento. Isto explica-se pela necessidade que tem o romance de exteriorizar traços psicológicos do ser humano (AGUIAR FILHO, 1936. In: Angústia, p. 243).
Seja pela influência dos médicos, pelos excessos acidentais e convenientes, ou pela própria genialidade de Graciliano Ramos, o fato é que Angústia entrou para a história
da literatura brasileira como uma experiência literária e psicológica única. Tal é a força que o romance teve desde sua publicação, que os críticos puderam valer-se de muitas referências e deduzir influências que Angústia parecia ter.
Muito se compara, por exemplo, o romance de Graciliano com Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski. Ao compararmos as duas obras ficam claras as semelhanças de enredo e até mesmo de narrativa. Mas deve-se considerar, afinal, que o tema de Angústia é propriamente a condição humana de angústia, e essa condição passa longe de ter uma definição encerrada. O que ocorre aqui é uma correlação de formas de interpretação semelhantes pra um sentimento tão íntimo e ao mesmo tempo universal.
Nesse sentido, muitos artistas buscam ilustrar esse sentimento em suas obras, e o resultado jamais poderia ser redundante, pois, por mais que o tema seja largamente explorado, cada nova representação desenvolve uma perspectiva totalmente individual. E é justamente por isso que Angústia se faz tão necessário. Ainda segundo as palavras de Adonias Filho:
Necessidade de retratar tal desespero - individual ou coletivo - confirmando existir no homem uma desorientação mental: eis o que deve fazer o romance moderno de sentido introspectivo. Eis o que Angústia faz de um modo impressionante (AGUIAR FILHO. In: Angústia, p. 244).
2.3 SINOPSE DE ANGÚSTIA
Graciliano Ramos nos insere no perturbador cenário da vida de Luís da Silva. E a problemática do personagem vai começando a ser-nos apresentada a partir daí, do seu nome. Ao longo da história conhecemos os nomes de sua linhagem: seu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva; seu pai, Camilo Pereira da Silva; e o pobre Luís da Silva, apenas Luís da Silva. Simplicidade que é revelada com um gosto amargo pelo personagem.
A perturbação em sua mente se estende à forma como são apresentados os fatos, sem uma sequência cronológica bem definida. O encadeamento de episódios traumáticos e decisões ruins de Luís da Silva é o que constrói a progressão narrativa caótica tão característica de Angústia. A narrativa, que no início parece bem linear,
sofre quebras de linearidade. Como o relato se dá em um fluxo de consciência do protagonista, seu passado é revelado aos poucos, por meio de flashbacks nostálgicos no desenrolar da trama, que entendemos depois ser resultado da infância do personagem e progressivamente explicam a degradação em que se encontra a vida de Luís.
Também a solidão de Luís da Silva, em Angústia, coloca-se à vida de um pequeno funcionário, de veleidades literárias, mas condenado a esgueirar-se na mornidão poenta das pensõezinhas de província e a repetir até à náusea os contatos com um meio onde o que não é recalque é safadeza (BOSI, 2013, p.430).
Luís é um homem que veio de uma primeira infância tranquila e dotada de certo luxo. Fruto de uma família coronelista, só passar a tomar consciência de si quando seu pai, viúvo e endividado, morre, e Luís se vê sozinho e sem bens. Muda-se para a cidade e, munido de pouca educação, consegue emprego como funcionário público em um jornal ligado ao governo. Mas sua condição financeira não progride. Vive enterrado em uma pensão modesta, sem luxo algum e com o dinheiro contado.
Em dado momento, Luís conhece uma jovem, muito mais jovem que ele, chamada Marina, sua vizinha na pensão. Em meio a flertes e indiscrições no quintal compartilhado, Luís se vê apaixonado pela menina. E, por conhecer seus pais e compreender a tradição, sabe que precisará se casar para poder levar adiante aquele relacionamento.
E se pretende casar-se, precisa arcar com os custos. Luís entrega, então, a Marina, toda sua pequena e suada economia, além de contrair dívidas com empréstimos, para que a menina compre o enxoval. Mas as escolhas da noiva jovem e fútil acabam não saindo como o esperado por Luís, que vê seu dinheiro sendo desperdiçado em peças luxuosas e desnecessárias.
Como se não bastasse esse conflito, Luís se depara com a situação que o afetaria por definitivo. Descobre que Marina está trocando gracejos com outro homem. Mas não um homem qualquer, trata-se de Julião Tavares, um rapaz que trabalha no mesmo jornal que Luís, mas que ocupa um alto cargo na empresa. O indivíduo tem estudo, traquejo social, é um verdadeiro burguês, e ainda carrega a fama de mulherengo. Julião sintetiza toda a desgraça do mundo na mente de Luís, pois se sente ele próprio superior a seu adversário, mas incapaz de realmente ser.
A auto depreciação e a revolta consigo mesmo e com a sociedade, por saber que poderia ser melhor e não era, que antes permeavam a mente de Luís, agora se intensificam. Ele encerra seu noivado, corta suas relações com Marina e volta à sua vida anterior, agora mais pobre e ainda mais perturbado. Mas ao invés de seguir em frente, Luís acaba obcecado pela perda. Passa a observar Marina e Julião com pensamentos cada vez mais descontrolados, o que se reflete na forma como essa narrativa é apresentada ao leitor, progressivamente desordenada.
Movido, então, pelo extremo de sua cólera, Luís perde o controle e dá fim à vida de seu inimigo. Mas o crime não põe fim ao seu tormento, muito pelo contrário. A parte final da história, após o incidente, é um fluxo de pensamento caótico, sem foco e sem parágrafos, bem diferente do estilo narrativo do início do livro, deixando transparecer todo o desatino de uma mente mais confusa do que nunca. E assim Graciliano encerra sua história, em meio à angústia de um completo delírio, para Luís da Silva e para o leitor de Angústia.
3 A ANGÚSTIA NA LITERATURA
O fenômeno da angústia como condição humana, que aflige a mente e dita a vida do homem angustiado, é um tema bastante analisado por estudiosos do campo da psicanálise e da filosofia. Na literatura, o assunto assume uma liberdade ainda maior, e pode ser explorado como representação artística daquilo que muitos homens vivenciam em suas realidades. Portanto, faz-se significativo compreendermos um panorama geral do que foi pensado a respeito da angústia humana ao longo da história, antes de analisarmos detidamente a obra em questão. Ainda assim, é interessante notar como em muitos exemplos, que veremos a seguir, podemos prontamente identificar aproximações circunstanciais com Angústia de Graciliano Ramos.
Por se tratar de uma condição essencialmente humana, podemos perceber a universalidade e atemporalidade da questão da angústia. Trata-se de um problema que, guardadas as especificidades culturais, desde sempre acometeu o homem, independentemente de sua origem. E como a arte dá vazão às questões mais herméticas que o artista possui, o tema foi largamente explorado ao longo dos séculos pela literatura, sob os mais diversos pontos de vista e abordagens.
Na literatura nacional, Angústia é, sem dúvidas, um dos melhores exemplos que temos dessa condição. Contudo, o livro não está sozinho no mundo, e sua concepção não esteve alheia a influências. Como dissemos, a obra Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski, é um exemplo de comparações recorrentes com a obra de Graciliano. Tanto é verdade, que tal comparação não fugiu ao conhecimento do autor brasileiro. Este, por sua vez, contestou com veemência e desesperada humildade em carta:
Onde as nossas opiniões coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios concedidos a este livro, e alguns, verdadeiros disparates, me exasperaram, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com outros gigantes. O que eu sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano completo se a seca houvesse destruído minha gente, como V. muito bem reconhece (RAMOS apud CANDIDO, 1999, p. 10).
Tal comparação é motivada por diversos aspectos em comum, a começar pela narrativa. A já mencionada não revisão de Angústia, devido a contratempos de publicação, proporcionou o surgimento de uma narrativa crua e espontânea. Essa
característica da obra pode não ter sido intencional, mas serviu para que a obra se aproximasse muito da narrativa do escritor russo. Não apenas em Crime e Castigo, Dostoiévski possui um ritmo narrativo cadenciado, permeado por repetições, divagações e desconexões, que se adequam perfeitamente às histórias narradas. Mikhail Bakhtin dá uma grande contribuição para o estudo acerca do escritor russo ao introduzir o conceito de polifonia na literatura.
Consideramos Dostoiévski um dos maiores inovadores no campo da forma artística. Estamos convencidos de que ele criou um tipo inteiramente novo de pensamento artístico, a que chamamos convencionalmente de tipo polifônico (BAKHTIN, 2010, p.1).
Bakhtin desenvolve uma linha de análise acerca da complexidade narrativa e de personagens presente nas obras de Doistoiévski. Para ele, o romancista tinha a peculiar capacidade de desenvolver uma multiplicidade de vozes e consciências independentes, que conversam entre si num dialogismo muito bem trabalhado. Inclusive o próprio protagonista de Crime e Castigo, Raskólnikov (nome que deriva do termo raskolnik, que significa cisão), possui tal dialogismo fortemente encarnado em si. Dentro de sua mente perturbada, o eu da personagem não reconhece a si mesmo, entrando em uma série de embates e discussões literariamente riquíssimos, que dão vida a sua angústia tão emblemática.
É uma análise narrativa que evidencia muito claramente a forma como a angústia é traduzida no papel. Graciliano Ramos consegue um resultado bastante similar dentro da mente de Luís da Silva. Aliás, os embates de Luís consigo mesmo, que veremos logo mais, e a forma como isso é exposto, são as principais características da narrativa de Angústia. Mas Dostoiévski ilustra uma angústia bem própria de sua personagem. Enquanto Luís da Silva é um eterno resignado com sua condição subordinada, Raskólnikov lida com ela de forma reativa.
O personagem russo defende a tese de que o mundo é dividido em pessoas comuns e pessoas extraordinárias. Estas, por estarem acima do lugar-comum, são responsáveis por expandir os horizontes da sociedade e, por essa razão, não podem estar submetidas às normas e convenções sociais. Comete um assassinato movido por esse ideal, e acaba por desencadear um quadro de angústia e insanidade progressivamente sufocante, muito maior do que a angústia que o atormentava anteriormente.
Alguns anos após a morte de Dostoiévski, surge uma nova figura que viria marcar seu nome na literatura mundial com sua estética do absurdo. O escritor e filósofo franco-argelino, Albert Camus, é muitas vezes reconhecido como um dos grandes nomes de uma tendência existencialista surgida no pós-guerra. Contrário a esse ou qualquer outro título que lhe atribuíssem, esse autor, inclinado à incredulidade em relação à vida, defendia que o homem deveria guiar sua existência, concedendo-lhe significado próprio.
A contribuição intelectual de Camus conta com ensaios filosóficos de grande relevância, como O Mito de Sísifo, mas não se restringe a eles. No mesmo ano de publicação deste, em 1942, também foi publicado seu primeiro e mais conhecido romance, O Estrangeiro. Na obra, o autor nos apresenta uma forma peculiar de angústia, ou ausência total dela, em uma vida sem propósito. Camus nos mostra a vida de Meursault, um homem incapaz de sentir emoções, compaixão ou culpa. A personagem começa a história recebendo a notícia do falecimento de sua mãe:
Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: "Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem (CAMUS, 2010).
O autor desenvolve a apatia, ou anomia (conceito desenvolvido por Émile Durkheim no livro O Suicídio) de seu personagem em um nível de quase superação da condição humana. Meursault perde a mãe, é incapaz de estabelecer vínculos afetivos, e chega a cometer um assassinato sem ter sequer plena consciência de suas ações. Quando confrontado em tribunal, o homem justificou o assassinato dizendo, de forma indiferente, que não teve a intenção de cometê-lo, mas o fez por causa do sol. E de fato a personagem nos parece simplesmente acima da condição moral, sendo inclusive imune a angústias, preocupações e arrependimentos. Justamente por essa razão é condenado à morte. Em seus momentos finais, porém, entendemos como sua indiferença é sua aliada contra a angústia. Meursault viveu uma vida solitária, à margem da sociedade, mas encara a morte como uma redenção esperançosa.
Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpado do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo (CAMUS, 2010, pg. 85).
Talvez seja muita conjectura afirmar que as obras e ideias de Camus tenham exercido alguma influência mais incisiva nos escritos de Graciliano Ramos. Mas além do fato de os dois terem produzido na mesma época, o próprio Graciliano, em 1950, realizou um trabalho de tradução do romance A Peste, de Camus, o que evidencia ao menos um contato bem próximo do brasileiro com a produção de seu contemporâneo.
Outro cenário desse mesmo período que se aproxima, em certa medida, com Graciliano, mais especificamente com Angústia, é o movimento surrealista, que viria a ser incorporado como uma das grandes vanguardas assimiladas pelo modernismo brasileiro. Apesar dessa aproximação com Angústia, são nomes como Murilo Mendes e Jorge de Lima que figuram entre os expoentes do estilo em solo nacional. O Surrealismo não se trata simplesmente de um movimento cujas obras carregam a angústia como um tema, mas sim de uma estética literária e artística ampla, que coloca o inconsciente humano como tela em branco, dispensando muitas das amarras técnicas que limitariam a mente do escritor.
Surgido em meados da década de 1920 em Paris, o movimento surrealista foi internacionalizado na década de 1930, depois que seu segundo manifesto foi publicado. Neste o escritor francês e principal nome do surrealismo, André Breton, define que o real e o imaginário são elementos que devem deixar de ser observados como contraditórios. A representação surrealista deveria estar voltada a qualquer circunstância da vida, não ser restrita ao fazer puramente artístico. Para se aprofundar definitivamente no inconsciente humano, o surrealismo rejeita tanto o fantástico absoluto, quanto o puro e simples realismo, que se atém ao problema comum e ao inteiramente factual.
A grande máxima da estética surrealista é a ruptura do compromisso com a coerência do mundo empírico. Oposta aos ideais modernistas de representação da realidade, no surrealismo a subjetividade do autor obtém mais espaço para aflorar e dar vida a narrativas menos lineares e enredos menos coerentes. Pode-se atribuir isso à influência freudiana no movimento, que apresentou ideias que não se encaixavam tanto ao mundo empírico, mas que podiam ser muito razoáveis sob a perspectiva do inconsciente humano. Mas essa questão psicanalítica será mais explorada logo à frente.
O resultado dessa estética, com essa influência, são romances como o próprio
Angústia, que, diferentemente das demais obras de Graciliano, guarda forte relação
com essa estética. Utilizemos, então, Angústia como exemplo para identificar alguns pontos da estética surrealista que favorecem a representação da angústia na literatura.
Podemos destacar a ótica afetada de Luís da Silva como grande regente do que nos é contado da história. É a partir de seus olhos que vemos o mundo, e a consequência disso são relatos complexos e muitas vezes específicos demais. Identificamos claramente o resultado onírico de descrições que se confundem entre fantasia e realidade. Tomemos como exemplo dois desses momentos: no primeiro trecho Luís observa com repulsa uma gestante caminhando na rua, e no segundo trecho descreve as alucinações de seus momentos finais na obra, quando sua noção de realidade já está gravemente comprometida pela culpa e pelo álcool.
Na calçada um ventre extraordinário ia inchando, ventre que tomava proporções fantásticas. Os transeuntes atravessavam aquela barriga transparente, às vezes paravam dentro dela, e isto era absurdo, dava-me a ideia de gestações extravagantes (Angústia, p.136).
[...] O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos, acariciava-me, e eu diminuía, embalado nos lençóis, que se transformavam numa rede. Minha mãe me embalava cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga morria e se avivara. Uma criancinha dormindo um sono curto, cheio de estremecimentos. Em alguns minutos a criancinha crescia, ganhava cabelos brancos e rugas. Não era minha mãe a cantar: era uma vitrola distante, tão distante que eu tinha a ilusão de que sobre o disco passeavam pernas de aranha. Um disco a rodar sem interrupção a noite inteira. Não. Estávamos na segunda parede, e eu subia a parede, acompanhava a réstia como uma lagartixa. Marasmo de muitas horas, solução de continuidade que se ia repetir. Cairia da parede, como uma lagartixa desprecatada, ficaria no chão, moído da queda. [...] (Angústia, p. 222).
Essas e outras descrições, pouco coerentes e muito exageradas, servem a Luís da Silva como instrumento para a expressão de sua angústia frente ao asco que sente, a todo o momento, para com tudo e todos a sua volta. A utilização de elementos escatológicos e as zoomorfizações são recursos também muito utilizados para manifestar seu estado de espírito soberbo e irritadiço. Aliás, tais descrições incomodaram alguns críticos da época, como Octavio Tarquinio de Souza, que chegou a afirmar que esses detalhes ultrapassam o limite do bom gosto, “descendo a descrições ignóbeis, de coisas repugnantes, que só por afetação de moda literária podem figurar num livro” (SOUZA, 1936. In: Angústia, p. 239).
O surrealismo, aliado à liberdade de representação do inconsciente humano, rompe também com padrões narrativos, o que também é entendido como um dos grandes diferenciais de Angústia na construção da personalidade do protagonista. O fluxo de consciência tão característico da obra mantém estrita relação com o que propõem os surrealistas, os quais defenderam, em determinado momento, a escrita automática como a forma de expressão mais pura. Em Angústia a descrição de flashbacks e devaneios em meio a situações corriqueiras promove uma quebra expectativa no leitor, o que se mostra estratégico em traduzir a exata confusão que se passa na mente de Luís da Silva.
Essa consequência catártica também é objetivada na arte surrealista e é consequência de uma influência ainda mais profunda que apenas a própria arte em si. Os surrealistas declaradamente sofreram forte influência psicanalítica, mais especificamente da figura de Sigmund Freud. As teorias desenvolvidas pelo médico criador da psicanálise serviram de base não só para o desenvolvimento do pensamento surrealista, mas de muitas outras correntes que levavam em consideração a questão ética, moral ou cultural. Isso porque Freud propõe um sistema organizado de compreensão da consciência humana em sua complexidade. E nesse momento, afastar-nos-emos momentaneamente do âmbito literário para identificar algumas maneiras como a angústia é analisada em outras áreas do conhecimento.
4 A ANGÚSTIA NA PSICANÁLISE E NA FILOSOFIA
O tema da angústia perpassa diferentes áreas do conhecimento humano e é explorado nas mais diversas perspectivas. No que diz respeito ao estudo psicanalítico, Sigmund Freud é um autor que muito colaborou com o que conhecemos hoje a respeito da mente humana. Freud fraciona a mente em três componentes da personalidade: id, ego e superego.
Simplificadamente, podemos dizer que o Id refere-se ao princípio do prazer, ao nosso inconsciente. É o nosso comportamento instintivo pela busca da satisfação das nossas necessidades e prazeres, como o sexo e a fome. Se não damos à nossa mente tal satisfação, inicia-se um processo de ansiedade e tensão. O ego é o nosso princípio de realidade, que controla nossos impulsos e nos torna aptos a conviver em sociedade. Já o superego é o parâmetro usado pelo ego para convivermos em sociedade, é o nosso princípio de moralidade, nossa consciência do que é certo e errado. Obedecer ao superego nos causa sensação de orgulho e realização. Negligenciá-lo nos causa remorso e culpa.
É a interação entre esses três componentes dentro da consciência humana que nos guia em nossas ações. Uma personalidade ideal é aquela que consegue equilibrar esses três componentes. E é a concorrência entre essas formas tão contrárias que torna tão complexas e difíceis nossas escolhas. Para isso, o ego cria mecanismos de defesa, “para arcar com as exigências conflitantes do id, do superego, e da realidade externa, e com a ansiedade que esses conflitos produzem” (COSTIN, s/d, p.42). Esses mecanismos de defesa nos fazem distorcer a realidade em algum aspecto, para que sejamos capazes de lidar com situações conflituosas ou incertas. Portanto, a angústia seria um desses mecanismos, pois “atende ao propósito de autopreservação, constituindo-se como um sinal da presença de um novo perigo” (CUNHA, 1958, p.12). Ainda na concepção freudiana, a angústia é um
Sentimento de forte apreensão a uma ameaça vaga e tida como inevitável de uma força interior (opondo-se portanto ao medo e à ansiedade, que aprecem diante de um objeto concreto e exterior). A causa da angústia pode referir-se a perigos futuros, e em geral não é percebida claramente (LIMA, 1972, p.30).
Assim se resume rapidamente a visão psicanalítica freudiana sobre o tema. Mas, se Freud explica a angústia desde o século XIX, muito antes disso a filosofia já buscava suas respostas. Um tema assim tão estudado pela psicanálise e extensamente representado na literatura não poderia fugir à atenção do pensamento filosófico. Sempre que se coloca em destaque a questão da condição humana e tudo que a cerca, como a busca pela felicidade ou a morte, esbarra-se na angústia. Sobre isso o homem vem se debruçando desde os primórdios da filosofia, remontando aos idos da Antiguidade Grega e Romana.
O sistema de pensamento conhecido como Estoicismo, que contava com nomes como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, compreendeu o tema da angústia de uma forma bem característica. Para os estoicos, a natureza cósmica das coisas, ou seja, o mundo material que nos cerca, do qual nós próprios fazemos parte, segue sua própria ordem. Não se trata de princípio metafísico, mas simplesmente da ordem natural do universo. As coisas acontecem independentes da nossa vontade.
A angústia e a plenitude do homem estão diretamente ligadas a essa noção. De acordo com o Estoicismo, todas as nossas angústias se dão pelo fato de tentarmos, a todo o momento, controlar o incontrolável. Para se viver uma vida plena é preciso compreender e se render às fatalidades da vida. Isso inclui as desgraças, que inevitavelmente acontecem, e a própria morte, que seria apenas um processo natural, e por isso não deveria ser motivo de medo.
Mas, eu lhe peço, não chame de mau presságio o acontecimento de algo natural: - como chamar de mau presságio a colheita do milho; pois nesse caso trata-se da destruição das espigas, não do mundo! – assim como se diz que a queda das folhas é mau presságio; que o figo seco deveria substituir o figo verde; que as passas deveriam ser feitas das uvas. Tudo isso são mudanças de um estado anterior para outro; não destruição, mas uma economia ordenada, uma administração fixa (EPICTETO, 2015, p.109, tradução nossa)2.
Muitos anos mais tarde, já entre os séculos XIX e XX, foi o momento de outra perspectiva tornar-se fundamental no questionamento sobre a existência humana, o
2 No original, “But do not, I pray thee, call of evil omen a word that is significant of any natural thing:—
as well call of evil omen the reaping of the corn; for that means the destruction of the ears, though not of the World!—as well say that the fall of the leaf is of evil omen; that the dried fig should take the place of the green; that raisins should be made from grapes. All these are changes from a former state into another; not destruction, but an ordered economy, a fixed administration”.
existencialismo. Com momentos, abordagens e linhas de pensamento bem distintos, a corrente existencialista é estendida desde Søren Kierkegaard, nascido em 1813, até autores pós Segunda Guerra Mundial, como o já citado Albert Camus, de 1913. Foi um movimento muito fértil tanto para a filosofia quanto para a literatura. Além de Camus, que ajudou a popularizar o movimento na arte literária, Fiódor Dostoiévski foi uma das figuras que serviram de base para o desenvolvimento do pensamento existencialista anos antes, ao lado de filósofos como Kierkegaard, Friedrich Nietzsche e Martin Heidegger.
O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard é tido como pai do existencialismo, e preconiza algumas das perspectivas sobre a condição humana que seriam revisitadas mais tarde por outros pensadores. Em sua obra filosófica O Conceito de Angústia (1844), Kierkegaard apresenta a ideia de angústia (ou ansiedade) como resultado do que denomina “vertigem da liberdade”, ou seja, a total liberdade do homem, a todo o momento em sua vida, é a causa principal de sua eterna angústia.
Outro grande nome da filosofia existencialista que se dedicou a desenvolver, anos mais tarde, essa correlação entre liberdade e angústia, foi o filósofo francês Jean-Paul Sartre, que figurou entre aqueles existencialistas expoentes do pós-guerra. Analisaremos sua filosofia mais detidamente na sequência, mas é importante observarmos, inicialmente, que, por mais que duas filosofias compartilhem de uma mesma concepção básica, como acontece entre Sartre e Kierkegaard, as divergências são cruciais para a identidade de cada uma. O ponto, talvez, mais importante de divergência entre os dois está na concepção religiosa, pois enquanto Sartre foi um filósofo assumidamente ateu, Kierkegaard era teólogo, e sua percepção teológica naturalmente refletiu-se em sua produção filosófica.
Para Kierkegaard, o homem vive a partir de três estágios da existência humana: o estágio estético, quando está em uma relação egoísta e hedonista com o mundo; o estágio ético, quando compreende e vive racionalmente os preceitos morais da sociedade; e o estágio religioso, quando está em estado de graça divina. Em todos esses estágios, porém, o homem lida com a angústia de não se sentir completo. Ainda no último estágio, que seria superior, pode-se frustrar, pois buscar na religião, ou em qualquer outro elemento externo, um subterfúgio para a supressão de angústias, é a fórmula para a frustração.
É importante compreender que a angústia é parte constitutiva e indissociável da condição humana. Não é algo que pode ser evitado ou que deve ser suprimido. Ela deve ser encarada como o caminho que nos faz confrontar a nós mesmos. É um estado de tão profundo mal-estar que nos obriga a ignorar o que é externo a nós, ou seja, o que não está dentro do nosso alcance, ou as expectativas dos outros, e nos faz analisar nossas reais possibilidades e necessidades diante do mundo e das situações em que nos encontramos.
É um conceito que Kierkegaard analisou segundo sua visão teológica, mas que se estendeu a perspectivas distintas. Sartre aproxima-se de Kierkegaard em determinados momentos, mas desenvolve sua filosofia acerca da angústia sob um ponto de vista mais cético e, alguns diriam, mais trágico. Uma das principais máximas de Sartre, que o afasta de um existencialismo teológico, é a de que “a existência precede a essência”. A princípio o homem é nada, surge no mundo e passa a vida a fazer escolhas e colher seus resultados, sendo ele próprio uma eterna indeterminação e angustiando-se durante todo o processo. Mas essa máxima vai ser explorada ao lado de Angústia logo na sequência.
Finalmente, após um apanhado de alguns dos principais exemplos da angústia na cultura ao longo dos séculos, é a partir de tal perspectiva, segundo a correlação entre liberdade e angústia para Sartre, que analisaremos a vida de Luís da Silva. Buscaremos compreender o resultado literário da obra mais existencialista de Graciliano Ramos, investigando de que forma essa personagem tão complexa e perturbada revela suas concepções e define suas escolhas ao longo da trama.