MEME E DISCURSO: DA SINTAXE AOS EFEITOS DE SENTIDO DA FORMULAÇÃO “SAI (,) HETERO” EM REDE
Patrícia Aparecida Camargo de PAULA Orientador: Prof. Dr. Lauro José Siqueira Baldini
Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar o enunciado do meme “Sai hétero” a partir da análise discursiva do significante “hétero” em diferentes discursividades. Tomo como recorte seu uso contraditório, e equívoco, na rede social Facebook na qual o meme tem circulado atualmente, bem como os efeitos de sentido do enunciado enquanto meme. Utilizo os conceitos mobilizados pelo campo da Análise de Discurso Materialista, pensando o funcionamento sintático do enunciado, e também a circulação do meme, enquanto texto que possui uma singularidade relevante para a compreensão de seus efeitos de sentido, por se tratar de uma forma de textualização viral e encapsulada, que retrata não apenas um enunciado anterior, mas também se constitui em um jogo político de sentidos histórico e ideologicamente condicionados.
Palavras-chave: Análise do Discurso; Sintaxe; Meme; Sexualidade; Hétero.
“Um breve encontro lúdico de formas da língua, imagens e hashtags”
Mónica G. Zoppi Fontana “Argu(meme)ntando”
INTRODUÇÃO
Nos debates acerca da cientificidade dos estudos, há o senso comum de que alguns objetos de estudo são mais pertinentes que outros. Obviamente um meme (e neste caso, mais especificadamente, o meme “Sai (,) Hétero”) não se encontra no grupo daqueles que seriam tidos importantes o suficiente. Contudo a Análise de Discurso busca contestar tudo aquilo que parece ser óbvio demais. Nas palavras de Pêcheux:
Como, então, não ir até o fim e não reconhecer que a pretensão de analisar discursos coloca necessariamente em jogo aquilo que eu chamaria de tomar partido pela imbecilidade? Fazer o imbecil: isto é, decidir não saber nada do que se lê, permanecer estranho a sua própria leitura, acrescentá-la sistematicamente à fragmentação espontânea das sequências, para acabar de liberar a matéria verbal dos restos de sentido que ainda aderem aí…(Pêcheux, 2016).
Sendo assim, tomo partido por essa imbecilidade e decido não partir do princípio de que o meme “Sai (,) hétero” seria apenas uma resposta engraçada, ou que é só uma
resposta a atitudes preconceituosas1. Decido olhar para esse material, que é discurso2, e “Recortar, extrair, deslocar, reaproximar” (Pêcheux, 2016).
E começo por: o que caracteriza um meme? É importante que o objeto de análise não se torne um pré-construído3 e pareça ser uma unidade de sentido. Assim, o meme não pode ser tomado como uma unidade. O que caracteriza um texto em ser ou não meme é determinado por um conjunto de condições: forma, circulação, efeito de humor. Condições que determinam que um enunciado, uma frase ou imagem signifiquem de forma diferente. Analiso, portanto, o meme como um conjunto de processos de significação e não como um produto finito e unívoco, causando diferentes efeitos, notáveis pela circulação e pelos comentários que não só fazem da formulação um tema (uma problemática) como também compõem os processos de significação do meme enquanto forma discursiva.
Deste modo, ao analisar um meme como material levo em conta o fato de este significar por um meio de veiculação de práticas discursivas com um funcionamento próprio, atual e viral:
Esses textos são reproduzidos inúmeras vezes em tempo recorde (ou seja, “viralizam na rede”) e surgem, em geral, como réplica a uma enunciação anterior. Os memes se constituem nesse modo de funcionamento, ao articular imagem e escrita de maneira lúdica e replicante (Coelho, 2014). Em muitos casos, selfies e hashtags se somam aos memes e, na sua sobreposição complexa, produzem deslizamentos e transgressões de sentido que obrigam a um movimento de releitura/ reinterpretação do texto. (Zoppi, 2016)
1. É interessante ressaltar que esse é uma formulação que circula entre os internautas para definir o meme
em questão, e será discutida com mais refinamento ao longo do texto.
2. Torna-se relevante apontar que, neste trabalho, com base no arcabouço teórico-analitico sobre o qual
me filio, “discurso” enquanto conceito compreende pontos importantes para que não se confunda com o senso comum sobre o significante. Não se trata, no caso, da fala ou de discurso na esfera do “dizer de palanque”. O discurso na Analise de Discurso Materialista é a articulação entre os processos linguísticos, históricos e subjetivos. De modo que não se trata de um nível diferente, como poderia se supor (no qual o discurso seria um nível para além da sintaxe), mas de uma mudança de terreno. Pêcheux esclarece que: “É necessário, agora, dissipar um possível equívoco. Não se deve ver, na crítica q ue acaba de ser feita, a marca de uma espécie de integrismo linguístico, cuja palavra de ordem seria: ‘não há salvação para além da sintaxe’; as regiões que acabamos de evocar não estão destinadas, por sua natureza, a permanecer desconhecidas, mas seu conhecimento pressupõe, como indicávamos logo no início, uma mudança de terreno de cuja possibilidade e necessidade os pesquisadores se apercebem cada vez mais. Em seu princípio, esta mudança de terreno consiste em desvenciliar da problemática subjetivista centrada no indivíduo – fonte de gestos e de palavras, ponto de vista sobre os objetos e sobre o mundo – e compreender que o tipo de concreto com que lidamos e em relação ao qual é preciso pensar, é precisamente o que o materialismo histórico designa pela expressão relações sociais, que resulta de relações de classe características de uma formação social dada (através do modo de produção que a domina, a hierarquia das práticas de que este modo de produção necessita, os aparelhos através dos quais se realizam estas práticas, as posições que lhes correspondem, e as representações ideológico-teóricas e ideológico-políticas que delas dependem).
3. “o termo ‘pré-construído’ para designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre
independente, em oposição ao que é ‘construído’ pelo enunciado. Trata-se, em suma, do efeito discursivo ligado ao encaixe sintático”. (Pechêux, 1975, pg. 99).
Considerando tais características, nas quais os memes apresentam uma imbricação de imagem e escrita, me questiono: quais os efeitos de sentido que o significante hétero faz surgir? Qual é a linearidade sintática que se rompe com a formulação “sai (,) hétero”? Quais as discursividades que atravessam não só a formulação do meme, mas também os efeitos de sentido que ela produz? Cabe a este trabalho observar como o funcionamento discursivo do meme se apresenta, a partir de uma análise do enunciado que compõe e caracteriza o meme, bem como alguns comentários, observando como as relações entre intradiscurso e interdiscurso abalam a aparente linearidade da sintaxe, numa relação língua-discurso.
1. LÍNGUA E DISCURSO: EFEITO DE LINEARIDADE DA SENTENÇA A estrutura sintática da formulação é ambivalente: pode tanto ser analisada como (a) uma frase sujeito-verbo [SV4] (uso do substantivo hétero como sujeito posposto do verbo sair, com o verbo no imperativo[intransitivo]) e na outra como (b), uma frase sujeito-verbo-complemento [SVC]5 (uso do verbo sair [como verbo intransitivo] no imperativo, conjugado na forma da segunda pessoa do singular -tu, você- sem um sujeito fonético e com o complemento nominal: “hétero”).
a. [v.Sai [suj.pospos. Hétero]]
b. [suj. nulo [v.Sai [comp.nom. Hétero]]]6
Segundo a análise sintática gerativa, a diferença entre as sentenças declarativas e imperativas está em sua representação arbórea, ou seja, a declarativa se inicia em IP (inflectional phrase ou sintagma flexional), enquanto a imperativa inicia em CP (complementizer phrase ou sintagma complementizador) mesmo que não haja nenhum constituinte pronunciado nessa posição. Sendo assim, a oração “Sai Hétero” apresentaria as seguintes representações:
c. [IP Sai [DP7Hétero]]] - Como sentença declarativa d. [CP[IP Sai [DP8Hétero]]] - Como sentença Imperativa
4. Sujeito-verbo.
5. Sujeito-verbo-complemento.
6. Abreviações: suj.nulo (sujeito nulo), v. (verbo), compl.nom. (complemento nominal), suj.pospos
(sujeitos posposto).
7. DP: determiner frase (sintagma determinante). 8. DP: determiner frase (sintagma determinante).
Há a possibilidade, também, de analisarmos as construções como sentenças em que o sintagma nominal [hétero] é aposto e/ou vocativo.
e. [suj.nulo [v. Sai [, [ aposto hétero]]]]
f. [suj.nulo [v. Sai [, [vocativo hétero]]]]
2. PRÉ-CONTRUÍDO E EFEITO DE SUSTENTAÇÃO: AS RELATIVAS E SEU FUNCIONAMENTO DISCURSIVO
Diante do funcionamento do sintagma nominal [hétero] como vocativo ou como aposto, podemos derivar essa sequência discursiva por paráfrases9, chegando assim, em um funcionamento sintático de orações relativas:
Sd101: Sai, hétero Sd2: Sai daqui hétero
Sd3: Sai daqui você, que é hétero Sd4: Sai daqui você que é hétero
Na Sd2 vemos que a elipse existente entre as palavras sai e hétero pode ser preenchida com o dêitico daqui, possível pelo verbo sair possuir a característica de poder se referir a espaços (físicos) e ser transitivo indireto neste caso (necessitando, portanto, de preposição). Já se coloca aí, outras possibilidades de significação11.
Contudo, o que mais me chama atenção nesse movimento parafrástico, são as Sd3 e Sd4, nas quais há um funcionamento sintático de orações relativas explicativas e restritivas.
A questão acerca das orações relativas é uma velha conhecida da análise de discurso. Paul Henry em “Construções relativas, articulações discursivas” (1990) aponta que: “A
descrição do funcionamento das relativas nas gramáticas clássicas aparece como uma simples distinção classificatória; haveria relativas restritivas e relativas explicativas, como há terras e oceanos.” Ou seja, há um indicativo de que a proposta de uma análise
puramente linguística não funcione perfeitamente quando o caso é o de orações relativas12. 9. Aqui o conceito de paráfrase discursiva se torna relevante; para Paul Henry “as relações de paráfrase que
estão em jogo supõem a possibilidade de produzir outras superfícies que materializariam relações de paráfrases e que constituem o fundamento do ‘já-dito’ ou do dito de outro modo em que se desdobra a sequência”, ou seja as paráfrases discursivas apontam para as possibilidades de dizer dentro de uma discursividade dada.
10. Sequência Discursiva.
11. Essas outras possibilidades de significação não serão abordadas de forma detalhada, pois a proposta
desta análise em particular é outra.
A partir das análises apresentadas por Henry (1990), e articuladas às sequências discursivas aqui apresentadas, pude observar que:
Quando olhamos a Sd3, que funciona como uma relativa restritiva, parece existir uma função referencial (designativa) do antecedente, nesse caso a partícula você, na qual a ordem dada pelo verbo “sair” é interpretada por conta de uma característica de identificação prática13 atribuída ao antecedente pela restritiva que funciona aqui como uma predicação: “que é hétero”.
Em contrapartida, na Sd4 não há um funcionamento que caracteriza o antecedente numa identificação necessariamente atribuída pela relativa, ou seja, nesse caso a identificação ocorre independentemente.
Quanto a este ponto, em que a diferenciação entre o funcionamento das relativas restritivas e relativas não se sana pela sintaxe, mas sim por algo de outra ordem, Pêcheux (1990) afirma que:
O não-dito da sequência não é, assim, reconstruído sobre a base de operações lógicas internas, ele remete aqui a um já-dito, ao dito em outro lugar: assim, a noção de pré- construído deve ser distinta da noção lógica de pressuposição, da mesma forma que a noção discursiva de discurso transverso se distingue da noção lógica de implicação. (Pêcheux, 1990).
Assim, podemos perceber que nas duas Sds o que está em jogo não é um funcionamento puramente sintático, mas um funcionamento discursivo possível pela sintaxe. Desta forma, na Sd3 “hétero” funciona na sentença a partir de um efeito de
sustentação, ou seja, há a explicação ou, podemos chamar o “lembrete”, de que se trata
de um você específico determinado pela predicação, como: sai daqui você, porque você é hétero.
Enquanto na Sd4 “hétero” funciona como um pré-construído (já que o sintagma “hétero” funciona efetivamente como um pré-construído, ou seja, como um pressuposto existencial [como “Pedro” em “Pedro parou de fumar”]14 e como um “todo mundo sabe muito bem o que um hétero é”). A questão aqui é exatamente a evidência desse elemento que vem de algum lugar do interdiscurso para compor a evidência linear do enunciado.
Então, o que separa o funcionamento restritivo do funcionamento explicativo é a outra modalidade de pôr em relação duas sequências, a relação inter-sequêncis, que é apagada pela relação intra-sequência. Ao contrário, com o funciomaneto explicativo, a relação inter-sequência não é apagada. De forma resumida, diremos que o funcionamento restritivo da relativa apresenta uma relação inter-sequência como se se tratasse de uma relação intra-sequência.(Henry, 1990)
13. “Construções Relativas, articulações discursivas” Henry,1990.
14. A questão acerca do pressuposto é o cerne da teoria da pressuposição proposta por Oswald Ducrot, e
embora não seja uma questão discutida em detalhes neste trabalho, é de grande relevância dentro do arcabouço teórico da Análise de Discurso Materialidade.
3. INTERDISCURSO, MEMÓRIA E RELAÇÕES DE SENTIDO
Sendo assim, chegamos no ponto em que a sintaxe e seus modelos15 não dão conta de sanar os efeitos de sentido que o enunciado produz. A linearidade aparente dasentença, então, se mostra como um efeito: ao dizer “sai hétero” se diz muito mais. Existem condições determinadas que permitem esse encadeamento (necessariamente esse verbo e esse substantivo), bem como seus efeitos de sentido.
Quanto aos efeitos de sentido que o meme faz emergir, me chamou atenção uma determinada regularidade nos comentários. Em um primeiro momento, poderíamos dividir os autores-comentadores16 em dois grupos distintos: sendo o primeiro de favoráveis ao meme e o segundo de desfavoráveis ao meme. Contudo, esse posicionamento toma o meme como uma unidade de significação: o meme significa especificadamente x e alguns são contra e outros a favor de x. O que acontece é que o significante é tomado com sentidos diferentes pelos dois “grupos”. Poderíamos tomar então que se trata de um grupo significar “hétero” como x e outro significar como y. Se tem, portanto, formações discursivas (adiante, FD) distintas, nas quais em cada uma “hétero” é um significante possível de significar de forma diferente. Ou seja, em cada FD as relações de sentido serão determinadas diferentemente.
Para entender melhor como essas relações de sentido se dão, parto da análise das imagens abaixo, nas quais a formulação “Sai hétero” se encontra:1718
15. Importante ressaltar que o modelo utilizado aqui é o proposto pela gramática gerativa, mas que há
outros, que também possibilitariam uma análise sintática do enunciado.
16. “A mediação, o meio de inserção do comentário através da identificação obrigatória (ou do anonimato)
do suposto autor-comentador difere dos mecanismos de verificação de autoria em textos impressos (é o caso das cartas ao leitor publicadas nos jornais normalmente nos dias seguintes à publicação de determinado artigo): a materialidade é outra, sua regulamentação e seu funcionamento são singulares. E isso implica no modo como são recebidos na sociedade, no modo como os sentidos são processados e na maneira como a autoria é concebida. É uma demanda que direciona à investigação do que é próprio do comentário especificamente produzido no ambiente eletrônico.” Souza, 2017.
17. Disponível em: https://www.facebook.com/unicornioLGBT/photos/a.1157765247568975.107374182 8.1157761840902649/1604474466231382/?type=3&theater acesso em 26 outubro de 2017
18. Disponível em: https://www.facebook.com/torresallexoficial/photos/a.1892768037640907.10737418 29.1807038316213880/1936837979900579/?type=3&theater acesso em 26 de outubro de 2017
Figura 1 17 Figura 2 18
Quais os sentidos do significante “hétero” nessas imagens? Essa pergunta só pode ser respondida a partir da relação desta textualização com outras. Isso porque é preciso que levemos em conta o primado da metáfora sobre o sentido (Pêcheux, 1995), ou seja, de que não há uma invariante originária do qual se derivam os sentidos (Pêcheux, 2011), o que há é sempre metáfora: o sentido vale pelas suas relações (Idem).
Sendo assim, as primeiras relações que faremos serão a partir de dicionários online, sendo eles: Dicionário Informal19, Dicio - Dicionário Online de Português20 e Priberam Dicionário21.
Segundo os dicionários online pesquisados, podemos perceber que as definições são parecidas, quase idênticas: nos três o que encontramos é que o significante hétero é a forma reduzida de Heterossexual.
Contudo, nas Figuras 1 e 2, o que está em jogo é o significante hétero como forma reduzida de heterossexual?
Vejamos, em ambas podemos observar uma estrutura, uma forma, comum. Há a apresentação de uma situação, que poderíamos chamar de uma espécie de diálogo entre o dito do hétero e o outro, ou seja, os Gays (figura 1) ou/e LGBTs (figura 2).
Podemos, com isso, chegar ao seguinte quadro:
19. Disponível em:https://www.dicionarioinformal.com.br/h%C3%A9tero/ acesso em 27/07/2018 20. Disponível em: https://www.dicio.com.br/hetero/ acesso em 27/07/2018
Enunciados dos “héteros” no diálogo
Figura 1 Figura 2
Gays são promíscuos Alá viadinho
[gays] não são naturais [Alá] sapatão
[gays são] abominações [Alá] Boiola
Tem que bater mesmo [Alá] Traveco
Só sabem se vitimizar [Alá] Baitola
Mimimi
---Quadro 1: Enunciados dos “héteros” no diálogo
Ao separarmos esses enunciados, podemos observar que eles se encontram em campos de dizeres possíveis em discursividades reconhecidas como LGBTfóbicas, não simplesmente por uma referência própria (por não se tratarem de invariantes originárias(Pêcheux, 2011)), mas por determinações, ou seja: práticas22.
Na primeira coluna, reconhecemos enunciados que podemos caracterizar como cristalizados acerca da comunidade LGBT, mobilizados em uma categoria de “todo mundo sabe que”, por generalização:
[todo mundo sabe que]ou [todos sabem que todos os] → gays são promíscuos →[gays] não são naturais. →[gays são] abominações →[gays] só sabem se vitimizar Essas discursividades, estruturadas no campo do invisível da língua, ou seja, do não dito, possuem determinações histórico-ideológicas: “só podemos pensar em
práticas homofóbicas, tais como as concebemos atualmente, a partir [...] do discurso23 da sexualidade humana em sua versão “normal” (heterossexualidade) e seu correlato “anormal” (homossexualidade)” (Santos, 2013), ou seja, existem determinadas condições
que circundam a produção dessas discursividades, sejam elas religiosas, históricas ou médico-morais (Santos,2013). Assim, é por determinação histórica e ideológica que se
22. “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado” Althusser, 1980.
23. Daniel Santos apresenta - e é interessante que se ressalte que o trabalho dele se encontra no campo da
Psicologia, e não são as mesmas filiações teóricas que circundam suas reflexões - a concepção de “invenção de discurso” que é um tanto embaraçosa, uma vez que o discurso é, a partir da filiação teórica em que me amparo, a articulação entre Língua, Sujeito e História, pensar no discurso como invenção pode ser problemático. Dessa forma, trouxe ao trabalho as reflexões do autor, bem tangencialmente, acerca da articulação entre as condições de produção que tornam possível a discursividade de heterossexualidade como normal e homossexualidade como anormal.
torna possível colocar os gays [os LGBTs], de maneira generalizada24, em um campo de sentidos de promiscuidade, anormalidade, vitimização.
Da mesma forma, na segunda coluna, a discursividade também reconhecidacomo LGBTfóbica está presente nos enunciados, mas com um funcionamento diferente: apresenta o uso de palavras (denominações) ofensivas para com os membros da comunidade LGBT. Ao dizer viadinho, sapatão, boiola, traveco, baitola se traz junto uma memória de violência e discriminação, relativa sempre a prática, aos efeitos de sentido dessas palavras, que não são puramente referenciais (numa relação palavra- coisa), mas numa relação histórica por uma memória discursiva. Indursky, em “A memória na cena do discurso” traz reflexões que nos guiam acerca do funcionamento da memória no discurso:
[...] os sentidos não pré-existem à filiação das redes de significação. Eles precisam inscrever-se em uma FD [Formação Discursiva] para lá receberem seu sentido. [...] a memória que subjaz aos sentidos produzidos [...] se encontram inscritos no interdiscurso em função de sua repetição e regularização. (Indursky, 2011)
Assim, é porque existe uma relação de repetição de significantes com funcionamento injurioso e discriminatório que fazem com que essas palavras sejam significadas como LGBTfóbicas.
Sendo assim, quando chegamos num campo de significações que colocam o hétero como o sujeito que produz enunciados de uma discursividade reconhecida e significada como LGBTfóbica, se torna suspeito reduzir “hétero” à heterossexual. Ou seja, pode-se analisar a palavra “hétero” em uma discursividade na qual ela é a denominação de uma pessoa que é heterossexual - seja ela cis ou transgênero. Contudo, há também a possibilidade de que o significante hétero seja relacionado a outras questões que estão desarticuladas diretamente de sua sexualidade. Assim, ao afirmar que uma pessoa que comete atos/dizeres LGBTfóbicos, por exemplo, é um hétero, não necessariamente implica dizer que essa pessoa é heterossexual, pois a sexualidade não interfere diretamente em suas atitudes em âmbito social. O mesmo ocorre quando se caracteriza como hétero algum indivíduo que usa determinadas gírias ou determinadas vestimentas25. Deste modo, podemos notar que é através de determinadas características e comportamentos (práticas) de caráter opressor, degradante, preconceituoso, político, visual, entre outros, que se reconhece uma posição-sujeito-hétero específica da discursividade do meme, uma posição tal, não necessariamente heterossexual.
24. A questão da generalização não é um ponto em que me colocarei muito. Contudo é interessante que eu
demonstre que ao pensar na generalização, relacionei ao fato de que nas pesquisas que fiz, li vários comentário em que a frase “mas não é todo homem que é desse jeito”. Contudo isso não parece ser um princípio que também regula as discursividades acerca de estereotipação de gays, por exemplo.
25. Todas as acepções apontas foram retiradas de comentários e publicações, ou seja, do arquivo montado.
Contudo, é interessante que observemos na Figura 2 a denominação hétero, que vem articulada a “Homem”. Essa articulação de sentido, em que “hétero” rompe com a cadeia de sentidos de hétero como “forma reduzida de heterossexual” toma aqui uma terceira possibilidade: não se diz hétero a qualquer pessoa. Mesmo que os traços dessa posição-sujeito-hétero estejam relacionados a uma prática, um ritual, ainda existe uma ligação direta com a virilidade: o imaginário de homem viril, o “macho alfa”.
A partir de tudo isso, quando olhamos para os comentários, vemos funcionamentos interessantes, devido aos efeitos de sentido que o meme causa:
Figura 3: comentário sobre o meme.26
Essa forma [se fosse x seria y] aponta para um funcionamento discursivo que produz um efeito de equivalência: se coloca os significantes hétero e viado como parte de um mesmo bloco, de um mesmo campo de significações.
Sendo assim:
→Se dizer sai viado é homofobia, logo, dizer sai hétero é heterofobia
Assim, aquele que é interpelado e se reconhece enquanto hétero (enquanto sujeito)27, mesmo que pelo equívoco, ou seja, pela ilusão lexical que a evidência do que é ser um hétero causa, ao ser apontado enquanto hétero, divergente da comunidade LGBT, seguido de um imperativo, recusa de imediato o enunciado28. Ao ser reconhecido e nomeado como hétero, determinação que não é comum por estar no campo do saturado, isto é, do que é repetido29 como normal, há uma reação de revolta: não é provável, aceitável, esse enunciado. Dizê-lo é diretamente relacionado à ideia de fobia, através do efeito de equivalência.
Percebo, portanto, que a evidência do significante hétero como um pré- construído, no qual todos sabem muito bem o que é, permite que hétero seja tomado como equivalente a heterossexual. Contudo, como o significante viado entra nessa cadeia de 26. Disponível em: https://www.facebook.com/search/posts/?q=sai%20hetero acesso em 28 de outubro
de 2017
27. Pêcheux, 1975.
28. Fontes: idem construção do diagrama. 29. Indursky, 2011.
significação? De que lugar esse efeito que remete a ordem da sexualidade surge? O que possibilita que se possa chegar a essa implicação material se x então y?
Essas relações - entre homofobia e heterofobia e entre hétero e viado - não são equivalentes devido à memória discursiva de repetibilidade dos discursos, seja essa repetibilidade da ordem do dito ou do não dito (Indursky, 2011). As relações de sentido estabelecidas histórica e ideologicamente para hétero e viado (LGBTs) não são as mesmas. 4. CONCLUSÃO
O enunciado “Sai hétero” é mais opaco do que pensamos. Desde seu funcionamento sintático, podendo funcionar desde uma sentença imperativa até uma oração relativa. A linearidade sintática se apresenta e é um efeito. A construção vem já de outro lugar. É uma forma já presente no falar corriqueiro: “Sai daqui moleque!”, “Sai daqui cachorro!”, são dois exemplos que apresentam essa mesma regularidade formal. Contudo, a formulação “Sai [daqui] hétero” não é diferente simplesmente por se tratar de uma palavra diferente de moleque e cachorro. Além de seu espaço de memória ser diferente, devido a suas condições de produção – como uma resposta a enunciados reconhecidos, pelo interdiscurso e pela memória, como LGBTfóbicos – e circulação – nas redes sociais, no campo do digital –, é a dimensão do político que entra em jogo: é a disputa pelo sentido.
Desta forma, para aqueles que são interpelados enquanto membros da comunidade LGBT, o sentido se apresenta óbvio: se sabe que hétero é hétero. O meme se apresenta como duas palavras que se relacionam com imagens que produzem sentidos que passam, muitas vezes, despercebidos, ora como uma resposta engraçada a alguém que enuncia uma fala preconceituosa, ora como um dizer que reivindica mais do que um espaço dentro do meio digital, um espaço dentro do discurso, dentro do social. Para aqueles que são interpelados enquanto héteros, já não se trata da mesma evidência. Emerge daí sentidos que são atravessados por outras relações, não mais relacionadas a atitudes preconceituosas, mas a uma equivalência entre homofobia e heterofobia. Assim, olhar para essas duas palavras “Sai” e “Hétero” unidas em uma circulação e funcionamento muito singulares, é constatar de maneira palpável que “a linguagem serve para comunicar e não comunicar” (Orlandi, 2005).
A presente análise não sana todas as possibilidades de sentido que o significante hétero pode ter. Muito menos sana seus efeitos de sentido enquanto um enunciado articulado. Restam ainda muitas questões: e quem diz “sai (,) hétero”? Seria um nós político? Um efeito de totalidade da denominada comunidade LGBT? E quanto à dimensão da sexualidade do apontado hétero? Em que medida reside as controvérsias dentro da própria comunidade LGBT?
Essas perguntas ressoam e atravessam a analista que escreve. Sem pretensão de respostas nos resta dizer (e aqui trago as palavras de Paul Henry em uma palestra): o que é material é o efeito! O que nos resta é o efeito! Nos resta, enquanto analistas esse efeito de fim: é preciso que se coloque um ponto final.
REFERÊNCIAS
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<https://www.facebook.com/CatracaLivre/posts/1554696961233976> acesso em 28 de setembro de 2017 (análise principalmente dos comentários);
<https://www.facebook.com/yuri.botello.334/posts/536264986534891> acesso em 26 de setembro de 2017 <http://www.museudememes.com.br/sermons/sai-hetero/> acesso em 28 de novembro de 2017
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